Letters to the darkness
2 Capítulo dois
Notas iniciais
– Onde está aquela porta? – falei procurando, a única que tinha uma cor normal e não amadeirada pelo verniz, uma totalmente branca, a que me dava acesso a um paraíso só meu. Esbarrei na mesinha, que estava no corredor e a ultima porta surgia aos poucos.
Entrei e me deitei na cama roxa de casal, confortável e macia. Os travesseiros com cheiro de grama, eles sabiam que eu adorava. Cheirei profundamente o perfume do lugar. Olhei para as instantes, para o guarda-roupa ao meu lado, e a enorme janela de vidro, a única daquele jeito em toda a casa. Era linda, refletia algumas gostas de água, deveria ter trago agasalhos.
Sentei-me na cama tirando meu all star, e prendendo meus cabelos, fechei a porta com um cutucão usando toda a minha elasticidade “pernal”. Sorri e finalmente dormir, como era bom estar em casa.
– Karina minha querida! Seus pais já estão indo. – praguejei mentalmente, ao escutar o ronco do motor, eles pegariam outro avião e por fim me deixariam por aqui. Para passar meus dois meses de recesso escolar, se bem que seria somente duas semanas, mas a escola teve um problema com os canos e terá de fazer uma reforma. Que possivelmente durará tempo o suficiente para que meus pais vivam suas vidinhas normais e cercadas de pessoas arrogantes, tanto quanto eles.
– Já estou indo, digam para não se apressarem tanto! – falei e escutei a buzina de meu pai, levantei cambaleando de um lado para o outro e acabei tropeçando no meu calçado e quase caindo no chão, por pouco só bati o dedo mínimo na quina da cama.
– Ka, você está bem? – minha avó perguntou preocupada.
– Já estou descendo. – disse saindo do quarto e olhando para o corredor coma visão ainda turva, olhei por uma das janelas e já o carro entrando na estrada. Voltei ao quarto e peguei o celular, que agora tocava estridente.
– Filha nós já saímos, não te acordamos antes porque você realmente estava cansada, o nosso avião vai sair daqui à uma hora e você sabe como estas coisas funcionam não é mesmo? – ela disse coma voz sonora.
– Tudo bem, beijos e boa viagem. – antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, ela desligou o telefone. Um grito subiu pela minha garganta e eu conseguia sentir minha face avermelhada pela raiva.
– Eles já foram. – falei comigo mesma, meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu as segurei e isso sempre acontecia (então posso afirmar que sou uma iludida por carteirinha). Funguei baixinho, e limpei méis olhos, desliguei o celular e o deixei em cima da cama, no meio da fofura de meu cobertor azul.
Passei pelo corredor, me recusando a olhar elas janelas e ver a estrada de terra vazia, e notar o quanto eu estava sempre um passo atrás que eles. Já eram nove horas da manhã, sentei-me à mesa, após cumprimentar meus avós, como um beijo a testa de cada um.
– Construí aquele balanço, Karina, aposto que vai adorá-lo, mas fazia tanto tempo que não vinha que algumas trepadeiras se enroscaram nas cordas, se quiser posso tirá-las.
– Não precisa vovô, tenho certeza que vai estar ótimo, como tudo que o senhor faz. – falei e bebi quase todo o suco de laranja de meu copo, peguei alguns biscoitos e me levantei.
– Vá conhecer os fundos, acho que está do jeitinho Karina. As gramas foram bem cuidadas e plantamos algumas árvores quase prontas para gerarem frutos. –vovó disse com os olhos brilhantes.
– Sim, irei fazê-lo assim que tirar esta roupa. – falei rindo de mim mesma, subi as escadas meio afobada, tropeçando na mesinha do corredor outra vez, e entrando em meu quarto.
Já vestida em uma jardineira velha, que estava no guarda-roupa, pego minha única blusa de frio e a vestindo (tenho que me esquentar, jeans não esquenta as pernas, e isso aqui nem chega aos joelhos). Peguei uma caneta e o livro inacabado e os coloquei no enorme bolso de frente da jardineira.
Desci as escadas em pulos, de dois em dois, e passei pela sala, tomando cuidado para não esbarrar em nada, encontrando um caderninho sobre a mesa, e o peguei.
– Karina, tente não ir muito para o fundo, tudo bem? Não fomos para aquele lado ainda. – disse meu avô com o rosto coberto por mines gotículas de suor.
– Claro vovô. – falei e dei a ele um sorriso torto, não sei por que, mas cruzei os dedos sobre o caderninho em minha mão. Comecei a andar tão devagar que o meu chinelo de dedo começou a afundar aos poucos na grama macia e luminosa, o sol dava a elas um brilho inexplicável que me fez perder o fôlego.
As arvores estavam ali, e em uma delas um suspeito balanço (que poderia ter sido engolido por trepadeiras, mas...), meus olhos brilhara, as trepadeira ou o que quer eram, enroscavam-se nas cordas e havia pequenas florzinhas que se atreviam a brotar ali.
– Ah meu Deus! – falei tirando o livro e a caneta do bolso da jardineira, e os colocando na sombra de uma macieira, enquanto corria em direção ao balanço.
Sentei-me, segurando firme nas cordas (trepadeiras e o que mais tinha de recheio, por que não conseguia ver), e tomei impulso com os pés, e...
– Ei! – escutei alguém cair atrás de mim.
– Ah! – dei um gritinho ao cair do balanço, e comer um pouco de grama (sim eu comi, meus dentes doeram, entrou um pouco no meio deles, ah!).
– Me desculpe, eu passei por aqui, e não tinha visto que alguém estava no balanço. Deveria prestar mais atenção. – a voz me era um tanto familiar.
– Eu que devo pedir desculpas. – falei me levantando e cuspindo alguns pedacinhos verdes que estavam em minha língua, e passei a mão no rosto.
– Tenho que ir, antes que me vejam. – quando abri os olhos e olhei para trás, não havia mais ninguém, era como se ele tivesse se tornando fumaça. Uma rajada de vento veio em direção ao campo, balançando fortemente as folhas das arvores ao meu redor, e o balanço começava a ir à mesma direção do vento.
Fiquei arrepiada, e o vento pareceu ficar mais gelado, e então cessou. Meus olhos estavam arregalados, eu tinha certeza de que havia alguém aqui, foi por isso que eu caí e por isso que estava aqui em pé, longe do balanço.
– O que aconteceu aqui? – sussurrei baixinho, e mordi o lábio (pronto, agora além de iludida sou também uma doida, paranóica, ou sei lá o nome disso). Revirei os olhos, pensando em somente ter imaginado coisas, e fui em direção a macieira, sentei-me escorando em seu tronco, e abrindo o livro na página marcada com uma pequena dobra.
Suspirei retomando a leitura, ainda com uma pulga atrás da orelha, sem saber no que acreditar em minha imaginação, ou na possível aparição de não sei o que. Karina! Se controle, é apenas sua imaginação, porque diabos!? Sua mente é criativa lembra? Não é a primeira vez que acontece.
– Tudo bem, tudo bem. – falei comigo mesma e me acalmei. A leitura foi rápida e cheia de adrenalina, entre os personagens principais, e o livro acabou. Já era quase meio dia, e minha avó já me chamava para o almoço.
– Sabe, dizem que este lugar, é habitado por criaturas místicas. Lobisomens e vampiros rondam a região, e eles adoram jovens na flor da idade. – brincou meu avô.
– O que? – engoli seco e depois ri de nervosismo.
– Pare Tonoki. – disse minha avó com a face contrariada com a piada, enquanto comia mais um pedaço de frango.
– Mas o que eu há em algumas piadas, meu amor? – meu avô tentou olhá-la com suplica, mas ela sorria sem graça para mim.
– Vocês não mudaram, nem você vovô. Posso dizer que acredito no que você diz, e como afasto estes seres? – ergui as mãos e as agitei no ar, meu avô sorriu gostando do que eu fazia, e assentiu levemente.
– Não tem como afastá-las, quando você é escolhida, simplesmente acontece. – ele disse e deu de ombros, me assustei um pouco, mas demonstrei indiferença.
– Que estranho, nem alho? Bala de prata? Nada? – franzi o cenho dando mais uma garfada no arroz temperado.
– Ah! – ele exclamou – parecendo se lembrar de algo. – Raramente coisas como estas funcionam, se eu te disser que conheço uma jovem da sua idade, que é bruxa, você nem acredita, ela conhece vários... Hm... – ele pareceu se esquecer, eu escutava atentamente curiosa, vovó estava com o olhar perdido, o prato vazio, com pequenos grãos de arroz e os ossos do frango.
– Querido. – ela depositou uma de suas mãos sobre a mesa.
– Ah, vovó... Deixe-o continuar, meus pais nunca tem momentos como estes comigo. – resmunguei, e bebi um pouco de suco.
– Tonoki! – repreendeu minha avó, um pouco alterada, olhei para o prato e remexi o restante da comida com o garfo. Bebi mais um pouco de suco, e me dei por satisfeita. Minha avó se levantou em silêncio e deitou-se no enorme sofá, que parecia mais uma cama.
– Depois continuamos. Ela irá dormir em breve. – meu avô sorriu travesso, e piscou. Eu assenti sorrindo um pouco, apesar de já ter perdido meu interesse, talvez fosse bom escutar um pouco mais sobre este assunto.
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