Notas iniciais
Boa leitura

“E foi neste momento em que eu soube quem eu era, enquanto estivesse ali com ele, eu estaria completa, e a atração que nos unia, parecia estar cada vez mais forte. Onde nosso amor, se transformava aos poucos em uma barreira inquebrável.”

O despertador me tirou de meus devaneios, e minha nota no diário foi interrompida, com batidas incessantes na porta de meu quarto.

– Karina! – gritou minha tia, do outro lado da divisória chamada de porta de madeira, já podia imaginar seu rosto enfurecido e os lábios encolhidos em um bico. Com a preguiça de sempre me levantei e olhei meu reflexo.

Meu Deus, como eu estava acabada! Precisava me arrumar se eu quisesse chegar à casa de meus pais a tempo, antes da nossa viagem. Meus pais não entendiam muito bem que uma garota precisava de privacidade, e foi por isso que dormi na casa de tia Joana, ela pelo menos me deixava quieta. Em meus momentos mais privativos, silenciosos e calmos, eu escrevia sobre como eu imaginava a minha vida com Vitor Noruega.

Um garoto de olhos esverdeados, cabelos louros escuros, e considerado popular, tinha sua fama entre as garotas do oitavo ano e do nono, e nós, infelizmente éramos da mesma sala, o que se resumia ao primeiro grau. Não que eu não gostasse, mas somos apenas conhecidos, nenhuma troca de gentilezas, nem pedidos como: Pegue a caneta, por favor? Ou Me empreste um lápis? Simplesmente nada. E mesmo assim eu era louca com ele, como um ele conseguia fazer isso comigo?!

Deixava-me hipnotizada por sua beleza, elegância, educação, e sinceridade (espero que ele seja mesmo isso tudo). Em uma das nossas trocas de olhares diárias, percebi quando ele mordeu o lábio, com os olhos fixos em mim, isso se não estavam na Larissa, outra miss popularidade, apesar de sermos amigas, eu não era conhecida como ela. Com sua palidez excessiva e seu sorriso de covinhas.

Com o cabelo arrumado, ou bom o bastante para que minha mãe não reclame, escancarei a porta do quarto correndo em direção a cozinha, a última porta do corredor, e pegando uma rosquinha no pote de “rosquinhas”, acho que é meio obvio isso. Beijei a testa de meu primo mais novo, e beijei a bochecha de minha tia, peguei a mochila pendurada atrás da porta e guardei ali, meu diário.

– Beijos! E mais beijos. – falei abrindo a porta, enquanto meus pais já tiravam o carro da garagem.

– Nos vemos semana que vem, Ka! – gritou meu primo, rindo de alguma coisa, deveria ser de minha roupa amarrotada, não me importava o que me restava eram apenas alguns segundos, enquanto corria igual a uma louca, para entrar no carro.

– Já íamos sem você. – minha mãe reclamou.

– Não se atreveriam, vocês me amam. – pisquei para ela e meu pai riu.

– Pobre iludida. – meu pai revirou os olhos com um sorriso no rosto.

– Que cabelo é este? E porque está com a boca suja de geléia? – minha mãe, começou a me limpar com uma flanela, enquanto meu pai já entrava na auto-estrada de Monitória.

– Mãe! – reclamei, mas ela continuou passando e repassando a flanela já suja de morango (geléia) e me deixando com a face adocicada.

– Agora seja uma boa menina e trate de terminar de ler aquele livro! – ela sorriu e deu dois tapinhas no topo de minha cabeça. Abri a mochila azul, e de lá retirei um livro fino, não se era todos os dias que se conseguia o primeiro livro da coleção: Diários de um vampiro! Enfim, a viagem foi longa, até o aeroporto, onde tive que esperar quase uma hora somente para comer alguns nuggets. Isso porque eu estava quase morrendo de fome, até mudando de cor, e as pessoas ao redor estavam ficando com medo de minha aparência selvagem.

Pegamos o avião, que logo estaria no interior do país, com suas vacas, bois, cavalos, cabras e outros animais (espero que eu lembre todos eles algum dia), a casa do campo, e meus avós maternos.

Minha vida era movida a livros, não tinha felicidade em casa e pouco me importava em procurá-la em outro lugar, estava bem comigo mesma. Minha mãe queria me levar ao psicólogo, mas eu já havia recusado tantas outras vezes, que não me importava em recusar mais uma. Achava que meu olhar estava cada vez mais depressivo, e que eu necessitava de uma dose de alegria semanal (ou como ela falava com papai, desabafo).

Eu tinha mais ou menos umas, cinco amigas. Milena, Verônica, Carol, Larissa e minha mãe. Todas elas com seu jeitinho de ser, Milena, costumava aprontar muito, sempre ganhava um bilhete de advertência, e aparecia em casa com a maior cara lavada, era sempre ela quem começava a algazarra e sempre ela a ser a única culpada, mesmo que vários tenham a ajudado. Carol, era simpática e sociável, parecia adulta, apesar de estar somente no seu ultimo ano do fundamental, em breve faria quinze anos.

Larissa era popular, inteligente e odiava ler, diferente de Verônica que parecia uma nerd, com seus óculos grandes, mas tinha uma paciência que às vezes eu ficava sem paciência (será que deu para notar como somos diferentes?). Larissa possuía cabelos longos e negros, ondulados e bem cuidados, sempre ia com um esmalte diferente nas unhas perfeitas, e como usava aparelho, seus dentes eram sempre bem limpos (não entendo muito bem o porquê, mas eu adorava seu sorriso, me trazia um conforto meio cômico).

Verônica sabia como se comportar e qualquer ambiente, era civilizada e evitava brigas, mas quando entrava em meio a uma discussão, ela a vencia logo de primeira. Eu era próxima as duas, mas a minha mãe em especial, nunca me deixava (tem que me aturar todos os dias), sempre estava ali, na felicidade ou na tristeza, compartilhávamos uma semelhança física incrível.

Os cabelos lisos, os olhos puxados, o corpo esbelto (mas no meu caso, é esquelético, eu acho), um sorriso sincero, e o melhor abraço de todos. Que pensamentos mais infantis para uma garota como eu. E depois disso tudo, você se pergunta, Porque você é triste? Você logo irá saber.

– Vovó! Vovô! – corri até eles e os abracei fortemente, matando a saudade de quase um ano sem os visitar. Meu peito diminuiu, e a carência que eu sentia estava se acalmando. Meus olhos se encheram de lágrimas, e inspirei o cheiro de ambos, um cheiro de terra molhada, de folhas secas e rosas. Ah como eu adorava (sim, eu adorava aquele lugar, o ambiente e tudo, principalmente a lama, não é sempre que podemos nos sujar).

– Minha querida. – disse meu avô docemente, e eu corei feito uma criança enquanto ele afagava meus cabelos. Minha avó fez o mesmo, e meus pais vieram a nosso encontro.

– Mamãe, continua brincando com lama, não é? –disse minha mãe, pegando outra flanela (de onde ela tira tanto paninho?) e passando nas bochechas flácidas da senhora de olhos azuis.

– E você com sua mania de limpeza, isso é doença filha! – disse meu avô, com seus cabelos grisalhos se remexendo, enquanto tentava olhá-la através dos óculos, e detrás deles, dois olhinhos pequenos e puxados.

– Senhor Wiard, senhora. – disse meu pai cumprimentado a ambos de maneira formal (ele deve achar que todos são como seus clientes, um advogado iludido, depois falam de mim, hunf).

– Pare com isso, Rogério! – falou minha avó sem jeito, ela odiava aquilo tudo, mas eu fazia parte daquilo, não sei como não me odiava.

– E então mocinha, – meu avô deu a volta com um de seus braços em meu pescoço com a mão destra apertou meu braço de um lado e com a outra o esquerdo. – Como vão os namorados, e a escola? – fomos caminhando eu dei uma risadinha.

– Péssimos, um pior que o outro, vovô. – sorrimos juntos, enquanto entravamos na casa grande e arejada com a porta de madeira banhada em verniz, como quase todos os móveis da casa. Sentei-me relaxadamente na poltrona florida da vovó, e coloquei a mochila aos meus pés, enquanto fechava os olhos e bocejava.

– Devem estar cansados, pelo menos a mocinha aqui está. – disse minha avó, apontando com o queixo em minha direção, enquanto eu abria um de meus olhos e sorria despreocupada. Levantei-me e passei pela porta de onde eu poderia ver a sala e um corredor, da sala havia uma escada em direção ao segundo andar onde ficava meu quarto.

– Boa noite! – disse rindo, enquanto me arrastava com a mochila e subia os degraus em minha lentidão sonolenta, já eram seis da tarde, eu estava exausta.

– Durma bem! – disse meu avô, pronto, até agora nada, mas eu sabia que meus pais voltariam logo de manhã, vieram comigo, pois não era permitido que uma garota d eminha idade viajasse sozinha, mas não entendo porque ambos vieram.

Notas finais
Não se esqueçam dos comentarios! Beijocas