Notas iniciais
Um capítulo enorme para compensar o atraso... Não postei na semana passada por conta de problemas pessoais (acredito que perceberam as dificuldades para manter os capítulos sem atrasos, hahaha). Eu pretendia postar nesta madrugada, mas acabei dormindo em frente ao computador, huahuha... Espero que gostem deste capítulo, pois, apesar da demora, gostei de escrevê-lo. As músicas!: 1. La Noyée - Yann Tiersen 2. Green Eyes - Coldplay 3. Aura - Lady Gaga 4. Intro - The XX 5. Night Time - The XX Boa leitura, gente, e não deixem de me avisar sobre eventuais erros.

Sem entender o porquê de ter acordado antes do meio dia, Eren levantou-se. Os olhos doíam um pouco. Sequer se deu ao trabalho de tentar olhar para Rivaille, pois, no momento, apenas conseguia massagear as pálpebras.

Rumou ao banheiro para cumprir suas necessidades e, enquanto lavava o rosto, se deu conta de que não se lembrava do momento em que caiu no sono. Devia ter deixado outro falando sozinho...

Voltou para o quarto para dar uma olhada no mais velho. Não queria acordá-lo, o deixaria dormir por quanto tempo precisasse. Fungou e coçou a cabeça, bagunçando os cabelos. Foi até a cozinha e preparou dois pães com tomate e alface (Rivaille fazia questão que comessem coisas leves como salada). Preparou, também, mais suco, pois o que tinha antes havia acabado. Após tudo pronto, seguiu para a sala. Ligou a TV, sentando-se no sofá. Ficou a assistir um programa não muito interessante que falava sobre construções de pontes.

Comeu e deixou o prato que havia usado para que não houvesse sujeira de migalhas descansado ao seu lado no sofá enquanto o copo, agora vazio, estava no chão, não muito próximo de seu pé para que não acabasse chutando-o sem querer.

Quase uma hora depois, o dançarino apareceu na sala, massageando as têmporas. Devia ter acordado com os olhos doloridos, também.

“Hei, bom dia!” Eren o cumprimentou, sorrindo.

Rivaille resmungou mal-humorado e respondeu com um baixo “bom dia”. O adolescente riu e assistiu ao dançarino lhe dar as costas para seguir até o banheiro. Minutos depois, ele estava de volta e ainda massageava as têmporas.

“He-“ Eren tentou dizer, mas calou-se ao assistir ao outro sentar-se pesadamente sobre o sofá com as pernas, também, em cima do estofado, para então mover-se e deixar que o dorso caísse em seu colo, encolhendo as pernas e cobrindo, com as mãos, o rosto escondido no pé de sua barriga. “Está tudo bem?” Perguntou, observando-o mexer a cabeça em sinal de sim.

Fez-se silêncio por alguns segundos e então um resmungado veio de Rivaille e ele livrou o rosto das mãos. “Minha cabeça dói.” Disse.

“Dormimos muito pouco.”

Outro resmungado. Rivaille respirava o cheiro de Eren e recebia o calor do garoto. Ficou a observar os quase imperceptíveis caminhos cravados na pele alheia à sua frente. Perdeu-se no que via por algum tempo antes de piscar e soltar o ar pelas narinas, sentindo-o colidir contra a pele do mais novo. Passou a receber um carinho leve entre os cabelos e recordou-se da música que havia escutado antes de dormir. Sequer lembrava-se com exatidão o ritmo e a letra, mas sabia que o sentimento que tomou conta de seu peito agora era o mesmo que havia sentido mais cedo ao escutá-la.

Puxou o ar calmamente e o soltou. Moveu a cabeça, apoiando o queixo sobre a perna do garoto. “Por que há um prato em cima do sofá?”

Ah, eu estava comendo pão. O peguei para não deixar os farelos caírem no chão.” Eren explicou.

Rivaille nada disse. Continuou a encarar o prato por alguns segundos até que escondeu os olhos na perna do garoto e, novamente, resmungou.

“Como está sua dor?”

“Uma droga...”

“Não quer comer algo? Ou talvez dormir mais um pouco.”

O dançarino pareceu pensar por um momento ou dois. “Não quero perder o dia apesar de ainda me sentir um pouco cansado. Aceito comer.”

“Fique aqui, tentarei preparar algo forte para você.”

Não, eu quero algumas torradas... E chá, por favor.”

“Ok.” O garoto concordou, levantando-se com cuidado enquanto pegava o prato e copo para deixá-los na pia.

Enquanto a água do chá não fervia, Eren aproveitou para lavar a louça que haviam deixado pela manhã. Deixou-a no escorredor de pratos e desligou o fogo, retirando os sachês de dentro da água para então adoçar o líquido. Rivaille gostava da bebida com pouquíssimo açúcar. Serviu-o numa xícara e colocou três torradas num pequeno prato.

“Tome cuidado, está quente.” Disse ao entregar a xícara ao namorado, que pareceu muito satisfeito com o calor da porcelana em mãos e o cheiro que lhe invadiu as narinas. Assoprou o líquido antes de bebericar. “Está ótimo.” Lambeu os lábios.

“As torradas.” Deixou o pequeno prato sobre o colo do mais velho.

“Obrigado.”

Eren continuou a assistir ao programa que não lhe despertava real interesse enquanto Rivaille comia e lhe fazia companhia.

Ao terminar com o suco e as torradas, o dançarino levantou-se e foi até a cozinha a fim de esquecer a louça na pia. Foi ao banheiro e em menos de cinco minutos estava de volta.

“Não quer voltar para a cama?” Eren perguntou, mas não houve resposta. No lugar disto, recebeu o peso do outro em seu colo e o observou cruzar as pernas enquanto mãos pousavam em seu rosto.

Rivaille brincou com a franja do garoto antes de beijar-lhe os olhos, nariz, bochechas e, finalmente, os lábios.

“Q-que...” Eren tentava perguntar, mas os movimentos do mais velho o impediam.

O dançarino laçou os braços em torno do pescoço alheio e o abraçou. Escondeu o rosto próximo à orelha do garoto, acariciando os cabelos da nuca.

Haviam voltado há dois dias e desde então lamentavam a partida da praia. Rivaille estava na casa de Hanji e, no momento, não fazia ideia de onde Eren poderia estar. Talvez na casa de Armin... Ou fazendo nada em cima da cama. Ou estudando para as provas.

O dançarino estava deitado no sofá da morena e ela disse: “Não seja tão mimado, Rivaille.” Não houve resposta. “Ah, deixe-me perguntar se, por acaso, pretende ir ao bar do Nile nesta sexta-feira.”

“O que acontecerá por lá?” A voz do dançarino veio abafada, pois este escondia o rosto no braço do sofá.

“Alguns de nossos amigos irão. Terá música ao vivo.”

“O que tocarão?”

“Nile disse que uma tal de Frida tocará acordeon por lá.”

“Hm,” Rivaille pareceu pensar por um segundo. “Parece agradável.”

“Será! Nile me pediu para tocar, também, e acho que o farei. Chame Eren para ir conosco. Ele deve estar cansado de estudar para as provas.”

Nah, Eren apenas começou a revisar matéria para isso ontem.”

“Não seja assim com o garoto.”

Rivaille rolou os cinzelados. “Eu o chamaria, de qualquer forma...”

Hanji hesitou por um instante e sorriu. “Hmm...” Murmurou brincalhona, soando à malícia, o que não era exatamente o que queria, mas o fez mesmo assim para evitar qualquer clima pesado que pudesse tomar o ar ali.

Rivaille respirou audivelmente e ergueu o torso. Assistiu à melhor amiga deixando a sala para ir à cozinha e voltou a descansar o tronco no estofado. “Odeio férias.” Disse alto.

“Eu sei.” A voz da morena veio do outro cômodo. “Há boas exposições neste mês.” Hanji informou. “Por que não aproveita para ir?”

Rivaille nada disse. Aquela era uma ótima ideia.

A morena voltou à sala com uma maçã em uma mão e uma xícara de chá em outra. Entregou o segundo item ao dançarino e sentou-se no outro sofá. “Como estão as coisas?” Perguntou.

“Que coisas?”

“Entre você e Eren.”

Rivaille ficou em silêncio por alguns segundos. “Estão bem.”

“Sabe que a resposta não é tão supérflua assim.”

“Tsc,” Sentou-se, tomando cuidado para não derramar o chá. Ficou a encarar o pé de um móvel da sala antes de dizer: “Tivemos ótimos dias na praia. Eu... Realmente gostei de Eren ter estado lá.”

Hanji sorriu, voltando a mastigar o pedaço de maçã. Apoiou a cabeça sobre a mão. “Como você está se sentindo?” Mordeu o fruto.

“Eu não sei, Hanji. Estou em conflito e me sinto ridículo com este tipo de frase saindo de minha boca.” Apoiou os cotovelos nos joelhos e cobriu os olhos com as palmas das mãos. “Quero poder correspondê-lo logo, e ao mesmo tempo, você sabe... Odeio este tipo de ambiguidade.”

“Eren é um bom garoto, Rivaille. Ele realmente gosta de você. Devia ver o modo como ele o olha, chega a ser ingênuo.”

“Eu sei!” Lembrou, uma nova vez, das palavras de Grisha. “Eu sei, não precisa me dizer isso.”

“Você se irrita muito fácil, francamente.”

Encarou a morena e suspirou cansado. “Desculpe...”

Hanji balançou a cabeça. “Tente pegar mais leve consigo mesmo.” Deu um pouco de ênfase às duas últimas palavras.

“Estou me dando outra-“

Outra chance?” O interrompeu. “Não é isso o que quero dizer. Não sei o quão difícil isso é para você, não posso afirmar saber algo assim, seria muito presunção de minha parte. Mas, Rivaille, você sabe... Eu estou muito feliz que esteja tentando. Estou muito feliz que Eren goste tanto de você, mas não acho bom, sequer saudável, que se condene tanto em sua mente. Não seria mais fácil simplesmente admitir que você não aceita o fato de Eren tê-lo aceitado?”

Rivaille, que fitava o chão, manteve-se quieto. Não aceitava o fato de que o garoto o aceitava... Ouvindo aquilo, parecia que havia achado o que, há muito, procurava sem sequer saber o que era. Não aceitava Eren tê-lo aceitado... Por que? Era tão ridículo assim? Encolheu os ombros.

“Rivaille...”

O dançarino fitou a morena. “O que?”

“Tome seu chá.”

Mais tarde, ao chegar em casa, decidiu ligar para Eren. As palavras de Hanji ainda o cutucavam.

“Está estudando?” Perguntou.

Não, estou indo para o banho.” O garoto respondeu do outro lado da linha.

“Quais serão suas próximas provas?”

História e filosofia na quinta.” Esperou que o namorado dissesse algo, mas nada veio. Então perguntou: “Por que?

“Se não for estudar à noite, gostaria de sair?”

Estudar à noite? Ah, de maneira alguma! Depois de provas, o que mais quero é descansar. Para onde vamos?

“Àquele bar que foi comigo uma vez, não muito longe da cafeteria.”

Ah, sim. É um ótimo lugar. À que horas?

“Às 19h00.”

Certo!

Houve um breve silêncio e a voz de Eren voltou:

Está tudo bem?” Sentiu-se mal pela pergunta, pois lembrava-se da última vez que a havia pronunciado naquele mesmo tom de voz.

“Está. Só estou um pouco irritado por não ter o que fazer.”

É só isso?

“O que mais seria?”

Eren manteve-se quieto por alguns segundos. “Não sei. Desculpe a pergunta. Assista a um filme. Queria poder ir te ver. Desculpe por isto também.

“Por que se desculpa tanto?” Fez uma careta emburrada. “Você precisa estudar. Vamos nos ver na sexta.”

Mas eu queria te ver.” Eren arrastou a frase, mimado e brincalhão, fazendo algum drama. Riu. “Estou brincando. Não quero te irritar.”

Pelo tom de voz do garoto, Rivaille sabia que ele estava sorrindo. Irritá-lo? Na verdade, também queria vê-lo... E aquilo, de alguma forma, alguma forma que o dançarino procurava saber o que era, era estranho. E tudo isso apenas o remetia às palavras da amiga mais cedo. “Encontrarei o que fazer. Tenho tempo para ler e há pelo menos três livros que ainda não terminei... Vou aproveitar este tempo ocioso para isto.”

É uma ótima atividade!

“Vá tomar banho. Boa noite, Eren.”

Boa noite, Rivaille.

A chamada foi desligada e o dançarino suspirou baixo, lentamente. Melhor que fosse tomar um banho também... Então daria continuidade a algum livro.

No dia seguinte, por ter nada demais para fazer, Rivaille aproveitou para ir ao cabeleireiro e ao mercado. Em casa, continuou a ler o livro. Manteria sua mente ocupada.

Na quinta-feira, o dia veio um pouco frio. Estava agradável. O dançarino decidiu limpar o apartamento e levou horas o fazendo, pois tinha a preocupação de cuidar de cada canto e objeto. Lavou-se após terminar e comeu antes de finalizar um dos livros para logo começar um segundo.

Suspirou. O que farei quando não tiver mais livros para ler?, perguntou-se. Leu por algumas horas e então deixou o livro de lado. Ligou o notebook e procurou pelas exposições de que Hanji havia lhe falado a fim de consultar tema, preço, data e endereço. De fato, havia muita coisa aberta naquele mês, o que era, realmente, ótimo. Não simplesmente porque teria algo para fazer, mas sim porque achava importante que exposições sempre acontecessem, principalmente quando eram de graça, assim muitas e muitas pessoas poderiam ir, não somente as que naturalmente têm condições de pagar qualquer uma para visitar. E o melhor de tudo é que quatro das exposições que havia encontrado eram de graça!

Após anotar alguns endereços e comprar alguns ingressos pela internet, manteve-se um tempo no computador. Ficou a ler algumas notícias sobre coisas que estavam acontecendo pelo mundo, etc. Após as notícias, resolveu pesquisar algo sobre teatros, dedicando minutos à esta leitura.

Espreguiçou-se demoradamente depois de fechar o notebook e deixá-lo sobre o estofado. Cruzou os braços na altura do peito e ficou a olhar para o cenário através da janela. Sentiu falta da visão que tinha na praia. O som do celular tocando tirou-o dos pensamentos. Erwin estava ligando.

Era sexta-feira, finalmente!

Eren havia acabado de sair do colégio e ainda usava o uniforme. “Mikasa, física e química serão as próximas, certo?” Perguntou ao outro.

“Sim.” A garota respondeu. “Chamará Bertholdt para estudar?”

Nah, ele já me ajudou o suficiente. É melhor que ele tenha o próprio tempo para isto. Apesar de ser tímido – o que é inesperado para um cara do tamanho dele –, é muito bom em explicar, você sabia?”

Mikasa nada disse.

“Mikasa!” A voz de Sasha fez-se presente. A morena vinha, como de costume, acompanhada por Connie. “Mikasa, todo mundo está esperando por você, venha!” Segurou a mão da garota de cabelos negros.

“Aonde irão?”

“Vamos ao shopping ver um filme e, depois, comer algo!” Sasha respondeu.

“Na verdade, vamos comer antes do filme, também.” Connie corrigiu.

Eren juntou as sobrancelhas por um momento. “Vocês não têm de estudar? E por que não me chamaram?”

“Ah, Eren, qual é? Acabamos de sair de duas quatro infernais.” Connie tinha uma expressão ridícula enquanto falava. “Não o chamamos porque você simplesmente nunca aceita ir.”

“Você sempre tem uma desculpa.” Foi a vez de Sasha completar a frase do amigo.

O que são vocês? Gêmeos estereotipados?, Eren pensou em perguntar. “Uh-“ Hesitou. Querendo ou não, os amigos tinham razão.

“Por acaso,” Mikasa começou. “Se eles o tivessem convidado, você iria conosco, Eren?”

Uhh–“ O garoto pensou por um segundo. “Desculpe, gente, não... Marquei de ver Jean e Armin hoje.”

“Está vendo!” Sasha exclamou e uma expressão emburrada se desenhou no rosto bonito da garota.

“Ahh, me desculpem! Eu prometo que iremos assim que nossas provas terminarem... Pode ser?”

“Não confiamos em você, Eren.” Connie disse.

“O que?” Eren surpreendeu-se com a resposta.

“Estou brincando!” O garoto careca riu. “Bem, não prometa nada para que não quebre a promessa, sim? Mas o lembraremos.”

“Ah... Certo.”

“Eren, o pai sabe que irei ao cinema com eles. Não precisa avisá-lo.”

“O pai está em casa hoje?” As grossas sobrancelhas juntaram-se.

“Não.” Assistiu ao irmão abrir a boca para dizer algo mais, mas não o deixou que fizesse. “Estou indo. Não vá tarde para casa.”

Os turquesas rolaram. “Bom filme, pessoal.” E despediu-se dos três.

Eren seguiu direto para casa e, lá, tomou um banho, almoçou e, antes de pegar o violão, conferiu se havia alguma mensagem ou ligação no celular, mas estava limpo.

Saiu de casa e foi para o metrô. Minutos depois, estava na casa de Jean, onde encontrou, também, o melhor amigo e um primo do moreno. Eren contou a eles como havia sido os dias na praia e como havia adorado o mar e como a visão era absolutamente incrível ao pôr e ao nascer do Sol!

Depois, acomodaram-se todos na sala. Iriam jogar videogame. Futebol não era um dos jogos preferidos de Armin, mas seria um bom momento com os amigos. Enquanto jogavam, aproveitaram para comer do bolo que o pai de Jean havia preparado. A sala estava muito barulhenta devido aos gritos por conta de faltas, gols e perdas destes.

Duas horas e meia depois, Armin tinha de ir embora e Eren o acompanharia, pois era caminho para encontrar Rivaille e os outros. Enquanto estavam no vagão do trem, o loiro ficou a observar o melhor amigo, que mandava alguma mensagem para Rivaille, avisando-o de que estava a caminho. Era claro que Eren gostava do dançarino e Armin queria que seu amigo ficasse feliz com suas escolhas e companhias. Não sabia se o mais velho era capaz de retribui-lo ou não. E questionava-se quanto ao conhecimento de Eren sobre isto. Queria que Rivaille tivesse sentimentos para com seu melhor amigo... Queria que ele tivesse a sensação boa de ter algo do tipo retribuído – ainda que ele próprio (Armin) nunca tivesse sentido algo assim.

“Que? Há algo em meu rosto?” Eren tocou a própria face.

“Não.”

“Está me encarando... Há algo de errado?”

“Não, Eren, está tudo bem. Apenas me distraí.”

Desceram do trem e saíram da estação, indo em direção à cafeteria e, consequentemente, à casa de Armin.

“Tem certeza de que não quer vir comigo?”

“Não, Eren, já disse que não quero atrapalhar vocês. Obrigado pelo convite.”

Eren rolou os olhos. “Pare com isso, já disse que o que está dizendo é pura bobagem!”

Ainda sim. Ficarei um pouco com meu avô. Ele deve estar cansado... Está aplicando prova na faculdade.”

O moreno ficou em silêncio, apenas encarava o melhor amigo. Suspirou. “Está certo.” Desistiu. “Não o forçarei.”

Um sorriso pequeno nasceu nos lábios de Armin. “Obrigado.” Uma risadinha.

“Do que está rindo?”

“Nada, nada...”

“Estra- ah...?” Mãos haviam coberto a visão de Eren. “Que-“ Tocou os dedos desconhecidos. “Quem é? Armin, quem é?” Sentia-se um tolo. “Rivaille?”

Então uma risada alta se fez presente e sua visão foi livre. Era Hanji.

“Não tenho dedos calosos como o dessa idiota.” A voz de Rivaille veio soando falsamente ofendida.

“Hei, não tenho dedos calosos.” A morena se recuperou da risada.

“Rivaille,” Eren pronunciou.

Oi, Eren.” O dançarino deu dois passos à frente, quebrando a distância entre si e o adolescente. Tocou o rosto alheio com a ponta dos dedos e o beijou num contato rápido. Lançou o olhar para o loiro que ainda estava ali. “Olá, Armin.” Cumprimentou-o simpático.

“Olá.”

Houve um momento de estranheza entre o dançarino e o garoto, dono dos enormes azuis, pois este o encarava com uma expressão não muito amigável. Eren não notou, estava ocupado cumprimentando os demais – Mike, Nanaba, Moblit, Erwin e a esposa deste, que Eren descobriu ser uma mulher muito bonita: era cerca de 5 centímetros mais alta, a pele em três tons mais escuros do que a sua, olhos castanhos claros, algumas sardas espalhadas pelo rosto, seguindo até o busto, e cabelos castanhos, ondulados e volumosos na altura dos seios. Ela também tinha um belo e claro sorriso.

“Petra e Gunter não virão?”

“Eles têm outros compromissos.” Erwin explicou.

Eren entendeu e pousou o olhar em Rivaille por um segundo apenas, passando a fitar o melhor amigo. “Estou indo, Armin.” Avisou.

“Certo.”

“Ele não virá conosco?” Hanji perguntou.

“Eu o chamei, mas parece que já tem o que fazer...”

“Ora, venha conosco! Vai ser divertido!”

Armin riu. “Idiota.” Viu Hanji abrir a boca e foi mais rápido: “Obrigado, mas preciso ficar com meu avô. Espero que tenham uma boa noite.”

Eren caminhou até o loiro para despedir-se. Segurou-lhe a face entre as mãos e beijou-lhe o topo da cabeça.

O garoto já havia ido àquele bar antes e ainda o achava muito agradável. Tinha uma iluminação escura devido à decoração, que era, basicamente, toda de madeira marrom, bonitos lustres decoravam o lugar junto com os desenhos tão bem cuidados dos móveis.

O lugar estava cheio e um pouco barulhento.

Pediram a um dos garçons que juntasse duas mesas e, após o homem fazê-lo, acomodaram-se perto do pequeno tablado onde a mulher se apresentaria. Pediram cerveja e alguns petiscos.

Rivaille segurava o rosto do garoto com uma das mãos enquanto a outra remexia nos cabelos castanhos. O dançarino dizia algo para ele enquanto tocava-o. Moblit conversava com Erwin e Nanaba. Hanji conversava com Elena (a esposa de Erwin), que tinha reações exageradas sobre algumas coisas assim como a morena de óculos. Mike apenas observava a movimentação.

As cervejas e diversos copos chegaram e a atenção de todos caiu sobre a mesa. Serviram-se da bebida e voltaram a conversar. Desta vez, todos juntos.

Era pateticamente estranho ser o mais novo – o único com menos de 25 anos – sentado à mesa. Sorveu da bebida amarga e voltou a descansar o copo sobre a madeira lustrada.

Cerca de 20 minutos se foram desde a chegada das cervejas e petiscos e uma movimentação diferente tomou conta do lugar. Houve a redução no volume das conversas. Nile, o dono do lugar, apareceu no tablado para dizer uma dúzia de palavras e anunciar a garota chamada Frida – está que tomou conta do pseudo-palco junto com um homem de cabelos curtos e pretos, que carregava um violão, quando Nile os deu lugar.

“Eh? Frida? Eu a conheço!” Eren disse ao vê-la.

“Conhece?” Foi Erwin quem perguntou.

“Sim. Ela é a irmã mais velha de uma conhecida.” Informou. “Não fazia ideia de que ela tocava...” Eren a havia visto uma vez apenas, quando foi ao shopping junto com Jean, Armin e Christa e a irmã desta os acompanhou por algum tempo antes de deixá-los porque precisava terminar algo da faculdade.

“Ela é muito bonita.” A voz de Hanji veio.

Rivaille ergueu uma das sobrancelhas e o canto de seu lábio entortou-se num sorriso sacana. Hanji percebeu sua mudança de ar e deixou que os olhos castanhos fixassem em si.

“Que?”

A sobrancelha fina tomou mais espaço na testa pequena.

“Ora, não seja tolo.”

Moblit, Elena e Erwin riram. Escutaram a garota no tablado dizer algumas poucas palavras e logo um agradável som tomava todo o lugar, adaptando-se perfeitamente bem à decoração. Todos ficaram a encarar a mulher e homem no pequeno palco por muito tempo antes de voltarem a conversar e beber, ficando a escutar a música aconchegante.

Eren olhou ao redor para ter certeza se Christa estava ou não no lugar, mas não a encontrou.

“Que está procurando? Quer ir ao banheiro?” Rivaille perguntou.

“Não. Pensei que talvez a irmã dela estivesse por aqui.”

Rivaille deslizou as costas do dedo indicador sob o queixo de Eren e o trouxe para um beijo rápido. “Não está com fome?” Perguntou ao partir o contato.

Eren fez que não com a cabeça.

Houve, então, uma agitação na mesa e todos olharam para a imagem de Neil, que vinha cumprimentá-los.

Eren foi apresentado mais formalmente ao homem, uma vez que, quando o garoto esteve pela primeira vez no local, não o havia visto.

“Tocará algo para nós, Hanji?” Neil perguntou.

“Minha gaita está aqui.” A morena respondeu.

“Ah, não sabia que Hanji tocaria aqui hoje!” A voz de Elena veio.

“Bem, não planejamos nada oficialmente.” Hanji explicou.

“Ah, vá até lá, Hanji!” Nanaba incentivou, sendo seguida por Elena e Erwin.

“Eu adoraria vê-la tocar.” Eren disse.

Os traços no rosto da morena se contorceram e um sorriso nasceu. “Bem, eu não trouxe isto para nada, não é.” Uma pequena comemoração tomou conta da mesa. Hanji suspirou e pôs-se de pé. “Tem o microfone?” Perguntou a Neil.

“Não o apropriado para gaitas, mas temos o tripé.”

“É perfeito.” Então ela seguiu o homem mais velho, que não demorou a aparecer, novamente, sobre o tablado para anunciar a participação especial de uma velha amiga. Hanji cumprimentou Frida e sentou-se no banco de madeira que um dos garçons havia lhe arrumado.

“Que vai tocar?” Frida perguntou a ela.

“Bem... Não havia pensado nisso ainda, na verdade.” Riu. “Hm... Qual seria sua próxima música?”

La Noyée, de Yann Tiersen.”

“Ah! Sério? A do filme?”

“Isso! Você a conhece?”

“Felizmente, sim. Sei que ela pode ser feita toda em seu instrumento, mas, se não se importa, gostaria de dividi-la comigo?”

Frida riu. “Parece uma boa ideia.”

Combinaram as partes e notas que cada uma tocaria – não houve demora no acordo – e Hanji avisou a Neil que poderiam começar. Então música voltou ao ar e era incrivelmente bonita. Fazia Eren se recordar de alguns livros que já havia lido – livros de fantasia medieval – e a sensação era extremamente agradável. Queria ficar a escutar aquela música para sempre.

Buscou pelo olhar de Rivaille, mas este estava concentrado na melhor amiga sobre o tablado. Um pequeno sorriso tomava conta do rosto pálido. Eren adorava a amizade que havia entre os dois. Sorriu e beijou a têmpora do namorado, tomando-lhe, sem intenção, a atenção.

“Essa música me traz uma sensação boa.” Confessou.

“Você a conhece?”

“É a primeira vez que a escuto. Pedirei o nome a Hanji.”

“Chama-se La Noyée. Eu e Gunter fizemos um ensaio em cima dela uma vez, numa brincadeira de fim de ano.”

“Você e Gunter fazem muitas coisas juntos, huh?”

“Ele é meu par para a maioria dos trabalhos.” Os cinzelados, que haviam voltado para Hanji, pousaram no garoto novamente. Então as sobrancelhas curvaram-se e um sorriso zombeteiro se fez. “Não fique com ciúmes.”

Ciúmes?” Eren tentou disfarçar. “Ele é seu amigo.”

Rivaille deu uma risadinha.

Eren abriu a boca para retrucar, mas foi impedido por uma salva de aplausos que veio quando a música terminou. Escutou Hanji agradecer e, dois ou três minutos depois, uma nova música veio sendo tocada pela morena de óculos, por Frida e pelo homem de cabelos curtos. Foi só então que a morena de cabelos longos o avistou. As sobrancelhas da garota ergueram-se por um instante ao vê-lo e ela sorriu simpática, num cumprimento silencioso.

Quando Hanji voltou à mesa, todos a cumprimentaram, deixando-a um pouco sem graça, mas muito feliz.

“É um pouco difícil encontrar alguém que toque um instrumento como este. Você toca muito bem, Hanji!” Eren disse.

“Obrigada, Eren!”

“Tudo bem.” Rivaille falou após ouvir de Eren que este teria de voltar cedo para casa no outro dia. “Eu o deixo em casa. Irei a uma exposição amanhã.” Foi até a geladeira, abrindo o freezer para retirar um pacote de camarões congelados. Sentia-se bem por Eren estar ali. Impediu a mente de se acomodar sob as palavras que Hanji havia pronunciado há alguns dias. Já havia ficado horas e horas e horas com aquilo na cabeça. Não queria continuar justamente naquele momento... “Eren, você sabe preparar molho branco?” Sem caçoar, duvidava que o garoto soubesse.

“Hm, não, mas podemos dar uma olhada em algum site. Onde está o notebook?”

“Quarto de hospede.”

“Ok.” Eren levantou-se para buscar o computador e em um minuto estava de volta. “Vamos lá,” descansou o notebook sobre a mesa e procurou pela receita. “Quer que eu diga enquanto você pega o quê precisa?”

“Por favor.”

“Ok... Hm... Não parece complicado. Precisa de uma cebola.” Esperou pelo consentimento de Rivaille e então continuou: “Creme de leite; queijo ralado; lei...te...” juntou as sobrancelhas. Sempre estranhava pratos quentes que levavam leite em suas composições. “Manteiga...” Continuou, estranhando ainda mais a mistura de leite e manteiga em algo que não era doce. Sempre tinha a mesma impressão quando via o pai preparando purê de batata.

Após informar todos os ingredientes necessários, leu o modo de preparo para o namorado e ofereceu-se para ajudar. Foi até a pia para lavar as mãos e cuidou de cortar a cebola enquanto Rivaille adiantava as outras coisas. Ambos consultavam, ora ou outra, o computador para terem certeza do que estavam fazendo.

“Não está mal.” Rivaille disse em um momento após experimentar o molho.

“Deixe-me provar.” Eren pediu e observou o outro passar o molho branco para uma colher usada e assoprá-lo antes de levá-lo em direção a sua boca, protegendo, com a mão em forma de concha, a parte de baixo para que, caso derramasse, sujasse o chão. “Está muito saboroso.” Disse.

Minutos depois, estava tudo pronto. Misturaram o molho junto com os camarões cozidos ao macarrão e serviram nos pratos.

“O cheiro está ótimo.” Eren comentou.

Sentaram-se à mesa e, ao levarem a comida à boca, mastigaram devagar a fim de sentir bem o gosto. O adolescente cobriu os lábios com a mão e disse: “Está uma delícia!”

O dançarino, por sua vez, levou a ponta dos dedos à boca antes de concordar: “Ficou ótimo.”

Sorriram um para o outro e continuaram a comer.

“Sobre o quê é a exposição que irá amanhã?”

“Obras que satirizavam os acontecimentos entre os anos 20 e 60.”

“Parece muito interessante.”

“E é. E também é gratuito. Você poderia ir...”

“Bem que eu gostaria... Mas prometi sair com meu pai e minha irmã...”

“Tudo bem. Podemos combinar de ir a outra exposição se quiser. Ou mesmo nesta, caso se interesse mesmo.”

“Claro, seria muito bom.”

Terminaram de comer e Eren ficou com o trabalho de lavar a louça enquanto Rivaille secava e guardava. O mais velho preparou chá e ambos ficaram sentados à mesa da cozinha, um ao lado do outro desta vez enquanto olhavam pela vidraça.

Eren mexeu o pescoço de um lado para o outro e apertou um dos ombros. “Estou cansado.”

“Seu rosto não está dos melhores, realmente.”

O garoto suspirou baixinho e fechou os olhos, permitindo-se descansar a testa na cabeça alheia. “Que preguiça...” Sussurrou e recebeu a mão pálida em seus cabelos para o carinho costumeiro.

“Vamos escovar os dentes e ir para a cama.”

Eren resmungou. “Se eu deitar, vou dormir na hora.”

“E não é isso o que precisa?”

“Mas eu não quero dormir agora. Não o vi durante toda a semana... Vamos ficar mais um pouco aqui.”

Rivaille pensou em retrucar, mas desistiu. Depositou a xícara com chá sobre a mesa e segurou o rosto do garoto, obrigando-o a fitá-lo antes de ter os lábios tomados num beijo lento e demorado.

Separaram-se e Eren cheirou os cabelos do dançarino. “Me lembrei de algo...” Esperou pela voz de Rivaille, mas esta não veio. Continuou: “Havia me falado que me contaria sobre o segundo caso que teve com uma mulher.”

As sobrancelhas finas juntaram-se e Rivaille pareceu, após alguns segundos, se recordar. “Não acredito que ainda se lembra disso.” Escutou a risada do garoto.

“Então...” Eren disse lenta e arrastadamente, um sorriso aproveitador em seu rosto agora, as mãos deslizavam pelo abdômen alheio. “Prometeu que me contaria.”

Prometi? “Não me lembro de ter prometido algo.”

Eren riu novamente. “Me conte!” Pediu.

“Eren.”

“Disse que me contaria...”

Rivaille suspirou. “Não sirvo para lidar com crianças...” Sussurrou propositalmente.

“Rivaille!”

“Está certo, está certo...”

Um sorriso tomou conta do rosto jovem. Havia vencido.

“Na faculdade havia uma garota com quem eu e Hanji costumávamos sair muito. Ela era muito bonita, tinha um cabelo lindíssimo: muito ondulado, loiro com mechas escuras, longo até a cintura. Não tínhamos interesse além de uma simples amizade, até porque ela tinha clara consciência de minha preferência. Por que está fazendo essa expressão ridícula?” Ergueu uma das sobrancelhas.

“É que parece uma história de filme universitário em que os alunos só bebem e cometem besteiras.” Segurou a risada.

Os cinzelados rolaram pesarosos e Rivaille levou dois ou três segundos para continuar: “Não detalharei muito, sei onde quer que eu chegue.”

“Ahh, mas seria legal saber-“

“Não.” Suspirou. “Preste atenção.” Desviou o olhar, pensando por um momento. “Que ridículo, isto parece mesmo com um filme universitário de adolescente...” Escutou a risada do namorado. Um segundo suspiro veio. “Muito bem. Numa noite, decidimos beber sozinhos. Hanji estava ocupada e não gostávamos de beber com outros que não fosse ela. Então compramos as bebidas e fomos para o quarto da loira. Ficamos bebendo e ouvindo música.” Fez uma pausa, parecendo nostálgico. “Gostávamos muito dela...” Disse, cortando a linha da história. “Não ficamos bêbados, apenas um pouco alegres. Para ser sincero com você, não lembro exatamente como aconteceu – acho que nos desafiamos, algo assim –, mas de um momento para o outro, começamos a nos beijar e rir.”

“Para apressar essa história,” ouviu Eren resmungar e o ignorou “de um momento para o outro, eu estava apoiado em meus joelhos e cotovelos e ela havia prendido o cabelo enquanto se ajoelhava atrás de mim.”

As sobrancelhas do adolescente juntaram-se em uma interrogação. “Como as- Foi ela-“

Sim, ela foi quem se ocupou do serviço. E, ah, não tenho como mentir, ela sabia como usar a língua e os dedos. Aquela bissexual histérica.”

“Ela te chupou?”

“Não.” Encararam-se por dois segundos. “Não exatamente.”

Eren adotou uma expressão confusa por um segundo ou dois. “E você-“

“Eu não a toquei.” Houve um silêncio. “Esta é a história que queria saber, pirralho.”

“Acho que o que eu tenho para dizer é que isso foi um tanto inesperado. Hanji sabe sobre isso?”

“Sim.” Rivaille respondeu simplesmente.

“Ah...”

“Você parece decepcionado.”

“Não! Não estou.” Riu nervoso. “É só que... Como eu disse, foi um tanto inesperado.” Coçou o maxilar.

Rivaille ficou a fitá-lo por alguns segundos antes de espalmar as mãos sobre os joelhos e fazer menção de se levantar. “Vamos para a cama.” Começou a caminhar, sendo seguido pelo adolescente.

“Acho que vou ficar pensando sobre isso por algum tempo.”

Rivaille balançou, levemente, a cabeça.

Deitaram-se e Eren escondeu o rosto na curva do pescoço de Rivaille, aspirando o cheiro da pele alheia. Remexeu-se e manteve o rosto onde estava. Sentia os olhos pesados e isto, àquela hora, era incomum. Sentiu dedos agitarem-se em meio a seus cabelos e alertou baixinho: “Vou dormir.”

Foi a vez de Rivaille se remexer sobre o colhão. Os dedos abandonaram a cabeleira do outro.

Não, não pare com o cafuné.”

Então o dançarino voltou a acariciar as mechas castanhas do adolescente, que tinha a cabeça descansada em seu braço. O silêncio reinou no cômodo e os cinzelados ficaram fixos nas gotas de chuva que molhavam o vidro da janela durante cerca de cinco minutos até que sentiu o braço doer e formigar. “Eren,” chamou pelo garoto, passando a encará-lo para então descobrir que já dormia. “Eren?” Chamou novamente para ter certeza de que o adolescente não o ouvia.

Afastou a própria franja do rosto. “Eren...” Pronunciou em um tom de voz baixo, tentando deslizar o braço debaixo, muito lentamente, da cabeça alheia. “Eren, acorde por um segundo. Meu-” Escutou o garoto resmungar e enxergou o turquesa pelas brechas que se fizeram entre as pálpebras.

Eren resmungou sonolento, novamente, e ergueu a cabeça para que o namorado retirasse o braço. Na verdade, não tinha consciência de que era aquilo que Rivaille queria.

“Volte a dormir.” Acariciou o rosto quente do adolescente e este descansou a cabeça no travesseiro, fechando os olhos completamente. Ficou a observá-lo e não pôde evitar o leve susto que tomou ao ter o ombro tocado pela mão de Eren, que tateou seu pescoço, seguindo para seu rosto. Os olhos de Eren estavam fechados. Teve o rosto acariciado por um breve momento.

“Então Gunter é seu par, huh?” A voz do garoto veio pesada e rouca, mas brincalhona junto com um sorriso.

“Vá dormir!” Rivaille riu, livrando-se da mão do garoto e descansando o corpo apropriadamente sobre o colchão. Respirou fundo e olhou para o adolescente à sua frente: os olhos fechados e a expressão tranquila. Então sua concentração fora brutalmente arrancada dali quando um trovão pareceu partir o céu, quebrando num som alto e ecoante, fazendo-o tremer devido ao susto.

Levou uma das mãos à testa enquanto recuperava-se e ouviu a risada alta de Eren tomar o ar. “Do que está rindo, idiota? Por que ainda não está dormindo?”

“Venha cá, gatinho assustado.” Eren ergueu o edredom, chamando o mais velho.

“Pare com isso!”

Um leve chute atingiu a coxa do garoto, que ainda ria. “Venha cá.” Eren repetiu.

Rivaille o encarou em silêncio por um segundo e então pareceu se lembrar de algo, o que o fez se levantar da cama apressado.

“Aonde vai?” Eren perguntou.

“As toalhas na vidraça.” Foi o que o dançarino disse, deixando, porém, o garoto ainda mais confuso.

Rivaille atravessou a sala e a cozinha, seguindo para a lavanderia e logo voltou ao cômodo anterior com quatro toalhas grossas nos braços.

“Que está fazendo?” Eren apareceu.

“Tenho de cobrir a brecha das vidraças com as toalhas quando chove...” Explicou enquanto dobrava o pano grosso no colo para logo arrumá-lo no chão ao pé das vidraças.

Eren fez uma leve careta. “Por que?”

“Quando chove forte, como agora, o vento faz a água bater no vidro e escorrer para dentro. Não é muito problemático, mas é um tanto incômodo.”

“Quer ajuda?”

Escutaram um novo trovão.

“Não,” pôs-se de pé. “Já terminei.” Afastou os cabelos com as duas mãos, jogando-os para trás e aproveitou o movimento dos braços para espreguiçar-se. Levou as mãos à cintura e ficou a olhar através das vidraças úmidas. “Este se tornou um dos motivos que me fazem não gostar de chuva.”

“E quais são os outros motivos?”

Os cinzelados caíram, finalmente, sobre o adolescente. A boca aberta para respondê-lo. Contudo, não houve resposta. “Eren, por que está sem camisa?”

As sobrancelhas grossas juntaram-se. “Eu já estava assim.”

“Você está quente, não saia da cama assim. Está frio e, a não ser que queira esquentar as coisas por aqui ou ficar doente, quero que volte para o quarto.” Disse calmamente, sempre com seu toque sugestivo. Caminhou em direção ao garoto.

Eren riu. Levou as mãos à cintura do outro. Deslizou a ponta do nariz na maçã do rosto do namorado antes de beijá-lo. “É uma pena que estou com tanto sono...” Disse ao partir o contato dos lábios. Um sorriso bobo no rosto.

Rivaille evitou um suspiro de decepção e deslizou uma das mãos pelo torso do adolescente, parando ao ter um dos mamilos do garoto entre dois dedos a fim de apertá-lo fortemente. Recebeu um alto grunhido de dor ao fazê-lo.

“Isso dói!” Eren reclamou, desvencilhando-se da mão do mais velho.

“Meu cérebro dói quando diz que está com muito sono para fazer sexo.”

“Seria algo estranho se o seu cérebro doesse.“

“Vamos voltar para o quarto.” Rivaille pôs-se a andar, sendo seguido, novamente, pelo adolescente.

Deitaram-se outra vez. Novos trovões ecoavam lá fora. O dançarino ouviu algumas piadas sobre ter se assustado por conta do trovão de momentos atrás e tudo o quê fez foi rolar os olhos em suas órbitas, tentando ignorar o garoto.

No dia seguinte, ao ser deixado em frente de casa, Eren recebeu mais beijos do que era de costume antes de se despedirem.

Foi ao centro da cidade com o pai e a irmã, visitariam um “mercadão” que abria durante apenas duas semanas ao ano. O médico adorava aquele tipo de atividade, Eren odiava o cheiro de carne seca do lugar, apesar de ser um local limpo, Mikasa não se importava muito desde que pudesse comer o pão de baguete com maionese, alface e salame que vendia naquele mercado.

Andaram e andaram e viram muitas coisas e os irmãos trocaram olhares de desentendimentos sobre muitas destas coisas enquanto o pai demonstrava grande satisfação em estar ali junto com os dois.

“Não sabia que estava fazendo propaganda aqui, Mikasa.” Eren a provocou, apontando para uma imagem de uma mulher com músculos, usada para a propaganda de alguma vitamina. Recebeu uma leve cotovelada nas costelas.

Logo foi a fez da morena fazer alguma piada, dizendo: “Está sentindo este cheiro de podre, pai?” Mikasa inventou enquanto passavam por um corredor onde havia apenas carnes secas. “Saiba que Eren me disse que não toma banho desde ontem.”

“Engraçadinha.” Eren pronunciou.

Grisha riu casualmente. “Me pergunto como é que Rivaille suporta dormir com Eren.”

“Pai!”

Mikasa ria.

“Muito engraçado, senhora músculos e John Lennon.”

Após muito andarem, finalmente era hora de pararem para comer algo e a morena não recusou o pão de baguete com salame. Compraram os lanches e sentaram-se em uma das mesas da área de alimentação. Grisha descansou as sacolas cheias em duas cadeiras vazias.

“Coma um pouquinho, Eren.” Mikasa disse após rasgar um pequeno pedaço do pão e enfiar na boca do irmão assim que a atenção deste caiu sobre si, pegando-o desprevenido.

“Mikasa!” Eren limpou a boca.

“Não brinque com a comida, Mikasa.”

“Idiota.” O garoto disse em um tom baixo, mas fazendo questão de que a irmã o ouvisse.

Ficaram a comer e a atenção de Mikasa foi para o celular quando este vibrou, notificando uma mensagem. A garota a leu e então disse: “Ah, pai, me esqueci de avisar: Annie irá dormir lá em casa hoje. Tudo bem?”

“Tudo bem.”

“Desculpe por ter esquecido.”

“Justo hoje? Você não precisa estudar? Ugh, e-“

“Ah, Eren, cale a boca um pouco.” Levou os dedos à boca do irmão, que tratou de se livrar deles.

“Vocês brincam comigo, mas, na verdade, eu sou quem não entende como é que Annie – ou qualquer um além de você – consegue dormir em seu quarto com aquela bagunça para todos os lados e cheiro de meia suja.”

“Meu quarto não tem cheiro de meia suja. E você já dormiu lá milhões de vezes.”

“Você nunca entrou em seu quarto, filha?” Grisha ironizou.

“O que? Eu admito a bagunça, mas não há cheiros fortes em meu quarto.”

Houve um brevíssimo silêncio e Eren disse: “Que nojo, Mikasa.”

A garota fez uma careta e rolou os olhos, voltando a comer do sanduíche.

“Você precisa limpar seu quarto.” A voz de Grisha veio.

“Eu sei, eu sei.”

Andaram por mais dois corredores que ainda não haviam visitado, depois de se satisfazem com os lanches, e então voltaram para casa.

Eren e Mikasa encarregaram-se de guardar as compras e, após fazê-lo, a garota seguiu para o banho e o garoto pegou o celular de cima do sofá. O relógio eletrônico marcava 18h41. Procurou pelo nome do namorado na agenda e subiu para o quarto, logo ouvindo o som de chamada na linha.

Eren,” A voz do outro lado disse assim que o adolescente entrou no quarto.

“Oi! Tudo bem? Está ocupado?”

Não estou ocupado e estou bem. Pode falar.

Eren havia se distraído ao olhar pela janela, acabando por não prestar atenção no que o outro havia falado, fazendo-o pensar que talvez estivesse esperando que perguntasse como é que estava também.

Como você está?” A pergunta soou um pouco estranha para o dono da voz ao outro lado da linha, mas ele conseguiu, sem saber, recuperar a atenção do garoto.

“Ah, estou bem. Um pouco cansado de tanto andar... Meu pai anda muito. Estou um pouco fedido,” conseguia imaginar a expressão do dançarino e não pôde evitar um sorriso que camuflasse seu riso “mas estou bem. Você está ocupado?”

Eu disse que não.

“Ah, desculpe, não ouvi na primeira vez.” Uma pausa enquanto sentava-se na cadeira do computador, fixando os calcanhares no chão para poder balançar a cadeira de um lado para o outro. “Como foi a exposição?”

Muito interessante e bonita. Como foi o passeio com seu pai e sua irmã?” Perguntou apesar de o garoto já ter comentado um minuto atrás.

“Não foi um passeio. Mas foi divertido. Gosto quando saímos todos juntos... Aquele lugar é enorme! Nunca me acostumo com o tamanho daquele espaço... E, principalmente, o cheiro...” Grunhiu.

Respire um pouco.

“Ah, desculpe...” Não houve resposta. “Que vai fazer amanhã?”

Ficarei em casa. Continuarei a ler.” Uma pausa. “Você vai estudar?

“Não. Eu queria ir a sua casa.”

Venha.

Eren sorriu. “Ok.” Houve um breve silêncio. “Que está fazendo?” Perguntou como se não fosse óbvio.

Estou falando com você.” Foi a resposta de Rivaille.

“Mas é só isso que está fazendo agora?” Ouviu um baixo suspiro.

Estou me masturbando e tentando não gemer enquanto falo ao celular com você. Seria grosseria.”

“Eu queria que o que está dizendo fosse verdade. E que não se preocupasse em não gemer.” Sorriu de canto.

Parece que está aprendendo alguma coisa, huh?” O sorriso torto do mais velho podia ser sentido em suas palavras. “Lentamente... Mas está indo a algum lugar.

“Que bo-“

“Eren,” Mikasa o interrompeu, aparecendo na porta do quarto.

E aí, Eren?” Annie juntou-se à morena.

Eren?

“Desculpe, Rivaille, só um minuto.” Pediu. “Oi, Annie.” Cumprimentou a loira.

“Passamos para que ela te desse um oi.” Mikasa explicou. “Vamos deixá-lo falar com o namoradinho em paz.” Um sorriso sacana brincou em seu rosto e Eren quis matá-la no instante em que viu os lábios de Annie contorcerem-se, também, num sorriso.

“Hm, melhor falar baixinho, Eren. Imagine se seu pai escuta a conversa suja de vocês...”

“Bem que eu queria que este fosse o tópico aqui, mas não é.” O garoto respondeu, impressionando a loira.

“Oh, está aprendendo, huh?”

“Annie, pare de falar essas coisas estranhas com Eren.”

“Devia ouvir o que ela fala de você.” Eren provocou a irmã. “Annie me conta de todas as suas noites juntas, Mikasa.” Não podia negar que dizer coisas como as que estavam saindo de sua boca era, naquele momento, um tanto estranho por conta do conflito passado com a morena...

“Annie, o que você e Eren ficam inventando?”

“O que? Eu e Eren sequer conversamos.”

Mikasa serrou os olhos.

“Não suporto Annie Leonhart.” Eren juntou-se à loira.

A morena resmungou. “Vocês são dois idiotas. Eu odeio vocês.”

Eren e Annie riram e a loira acenou para o garoto antes de seguir a morena para o quarto desta.

“Rivaille?” O adolescente chamou assim que teve sua porta livre.

Estou aqui.

“Desculpe por fazê-lo esperar.”

Então você queria que estivéssemos tendo uma conversa suja.” Havia seriedade e uma pontada de sarcasmo na voz do dançarino.

Eren riu sem graça.

Havia passado cerca de dez minutos ao celular com o dançarino depois da saída de Annie e Mikasa. Foi para o banho e lavou os cabelos. Antes que pudesse sair do chuveiro, porém, aliviou a ereção que havia ganhado ao imaginar Rivaille, de fato, se masturbando enquanto falava consigo ao celular. E em seus pensamentos, o dançarino, de maneira alguma, tentava esconder os gemidos. Afinal de contas, o próprio Rivaille não apreciava escondê-los.

Foi para cama à 01h31. Havia ficado no quarto da irmã junto com esta e Annie. Os três conversavam e riam, tomando cuidado para que não exagerassem no volume de suas vozes, pois Grisha, há tempos, estava na cama.

Deixou o violão, que estava dentro da capa, encostado às costas do sofá e seguiu o namorado até a pequena lavanderia para que ele pudesse pendurar a roupa de cama que havia deixado lavar na máquina.

“Por que lava roupa aos domingos?” Eren perguntou enquanto o ajudava a esticar o lençol úmido.

“Não é como se eu fosse aquele que fará o trabalho.”

“Eu adoro este cheiro.” Eren esmagava o tecido da roupa de cama contra o próprio rosto, absorvendo o cheiro de sabão em pó. Recebeu um leve tapa nas mãos que agarravam o lençol e o soltou.

Logo voltaram à sala e acomodaram-se no sofá. Rivaille sentou sobre uma das pernas, que estava dobrada no estofado. Levou as mãos à cabeleira do adolescente e a jogou para trás, fazendo-o fechar os olhos. Então a arrumou. Continuou a mexer.

“Você gosta de meu cabelo.” Eren constatou, os olhos ainda fechados.

“Não é nada mau.”

O garoto desvencilhou-se, sem ser rude, das mãos do mais velho e arrumou o cabelo.

“Deveria deixá-lo crescer novamente.”

“Talvez... Gostei muito do cabelo maior, apesar do trabalho para cuidar e do calor...” Passou a mão pela nuca.

Ah, sim.” Rivaille pronunciou para si mesmo, como se se lembrasse de algo. “Se lembra das fotos que me ajudou a arrumar uma vez?”

“Sim.”

Pôs-se de pé. “A garota sobre a qual te contei na sexta-feira... Há algumas fotos em que ela aparece.”

“Mesmo?”

O dançarino fez um sinal para Eren e este o acompanhou até o quarto de hóspedes. Havia um pequeno armário velho e Rivaille puxou uma das gavetas, retirando uma pilha de fotos.

“Aqui.” O dançarino disse, entregando a Eren três das fotografias.

O garoto as pegou e encontrou a mulher loira imediatamente. De fato, ela era muito bonita e tinha um cabelo lindíssimo. Os olhos eram castanhos escuros e ela tinha um piercing na cartilagem do nariz. Em uma das fotos, estava Hanji – o cabelo curto –, Rivaille, a loira, uma garota de cabelo roxo e um garoto de cabelos curtos. Na outra, a mulher loira parecia ter saído sem querer: Hanji estava ao lado de uma garota baixinha de cabelos tingidos de ruivo e de vestido florido, ambas sorrindo. A loira aparecia não muito ao fundo da foto, os braços cruzados na altura do peito enquanto conversava com alguém.

Na terceira fotografia, Hanji, Rivaille, a loira e a garota ruiva estava sentados sobre um muro. Algumas garrafas de cerveja faziam parte da foto. Os quatro olhavam em direção à câmera.

“Como ela se chama?”

“Farlan.”

“Que houve com ela? Vocês ainda se falam?”

“Não. Não nos vemos desde o penúltimo ano da faculdade. Ela havia se mudado para outro país a fim de estagiar. Então, após um tempo, perdemos todo o contato com ela. Hanji e eu achamos que ela pode ter morrido.”

Eren nada disse. Ficou a encarar a imagem da mulher nas fotografias. “O que ela fazia? Você lembra?”

Rivaille fez uma leve careta, tentando se recordar do curso da amiga de faculdade. “Era algo relacionado a políticas públicas...”

“Que legal.” Entregou as fotos ao dançarino. “Ela era muito bonita, realmente. Espero que esteja bem.”

“Hm,” Rivaille deu uma olhadela nas fotografias antes de colocá-las direto na gaveta. “Quer beber algo?” Perguntou ao passar pelo garoto. O assunto sobre a loira morrendo ali.

“Água gelada, por favor.”

Seguiram até a cozinha e o dançarino serviu o garoto, que logo bebeu a água e o agradeceu. Assistiu ao mais velho enquanto este guardava a garrafa dentro da geladeira e vinha até si para pegar o copo agora vazio e depositá-lo na pia. Eren agarrou um dos dedos do outro, trazendo-o para perto de si. Então o segurou pelo pulso e o puxou à medida que abria as pernas para dá-lo espaço. Segurou o rosto pálido com a outra mão e o beijou.

As bocas moviam-se sem pressa enquanto as línguas se tocavam num gesto harmonioso e bom. Beijaram-se por muito tempo e, ao partirem o contato, Rivaille lambeu os lábios de Eren, fazendo-o sorrir. Foi a vez do dançarino levar uma das mãos ao rosto do garoto para então beijarem-se novamente e, desta vez, ao fim do contato, o lábio do adolescente foi preso entre os dentes do mais velho e puxado sem força.

“Queria tocar algo para você.” A voz de Eren veio.

“Fique à vontade.” Um sorriso torto e divertido no rosto de Rivaille.

Eren riu brevemente. Adorava aquela parte tão sugestiva do outro. “Gosta de Coldplay?”

“Não.”

“Bem... É uma música deles. Não é uma banda que eu gosto, também. Minha irmã adora. Ela estava ouvindo esta música e eu quis pegá-la... É bonita. Posso tocar?”

“É claro.”

Eren fez menção de se levantar, mas o dançarino não o deixou que o fizesse antes de depositar um selinho em seus lábios.

Seguiram até a sala e sentaram-se uma nova vez. Eren puxou o violão de trás do sofá e se desfez da capa. Retirou a palheta do bolso da calça e mexeu em um pino ou outro. Mirou os olhos em Rivaille e tocou a parte debaixo do queixo deste com a palheta.

Eren posicionou os dedos nas casas necessárias e tocou as cordas, começando a cantar.

A música se chamava Green Eyes e Rivaille a conhecia, se lembrava da letra – não exatamente como a cantar, mas lembrava maior parte de seu significado. O que era, de alguma forma, engraçado, pois a música tinha um ponto de vista mais forte de si para Eren do que do garoto para si. Contudo, este pensamento não agradou ao dançarino, pois, afinal, não tinha como saber se era, realmente, daquele jeito. Parecia muito presunçoso. Tinha a sensação de estar, com aquele raciocínio, colocando seus sentimentos à frente dos sentimentos do garoto mesmo que não sentisse em 100% o espaço ocupado pela letra da música dentro de si. Talvez estivesse certo de qualquer forma, mas, ainda sim, não o agradava o modo como aquele pensamento soava.

E novamente, Eren o fazia se questionar se merecia aquilo, que alguém lhe tocasse bonitas canções como o garoto fazia, e o olhar como fazia... E as palavras de Hanji voltaram. Só queria poder ter o momento em paz. Descansou a cabeça no encosto do sofá e ficou a assistir ao namorado, tentando limpar a mente daqueles pensamentos.

Com Eren cantando, não havia como Rivaille não se lembrar de como, também, cantar aquela música. Um segundo antes do último refrão, segurou o braço do violão do garoto, obrigando-o a interromper a música. Recebeu um olhar confuso e pôs-se a cantar a última parte, sentando-se mais perto do outro, que não demorou a abrir um bonito sorriso no rosto.

A música acabou e houve dois ou três segundos de silêncio. “Seus olhos são mais verdes do que os meus.” Rivaille brincou com as palavras, oferecendo ao garoto um sorriso doce.

Eren riu breve e descansou o violão no chão, encostando-o ao sofá. Abraçou o mais velho, aspirando o cheiro de shampoo nos cabelos escuros e então se afastou mínimo. “Você conhece a música.”

“Não sou fã da banda, mas, sim, a conheço. Convivi com pessoas que gostavam.”

Eren voltou a abraçá-lo e, desta vez, o fez deitar sobre si enquanto descansava as próprias costas no estofado. Por conta dos movimentos, seu violão ameaçou cair, mas logo o arrumou, deitando-o no chão. Mantiveram-se daquele jeito. Rivaille era capaz de ouvir o coração do garoto pulsar ao passo que acompanhava, com o tato, o movimento do peito deste ao respirar, uma vez que tinha a cabeça sobre aquela região do corpo do garoto.

Eren ficou a acariciar as costas do mais velho. Naquele momento, o quê desejava era poder passar dias, meses, quem sabe, anos daquele jeito. Sentia-se em paz e desejava profundamente que Rivaille estivesse sentindo o mesmo. Queria, verdadeiramente, fazê-lo se sentir tranquilo de preocupações na mente, fazê-lo estar bem. Tocou o topo da cabeça alheia com o queixo e, após algum tempo, o ouviu falar:

“Quer ir a algum lugar? Não estou muito a fim de ficar em casa.”

“Para onde quer ir?”

Rivaille levou um tempo para responder. “Eu não sei.”

“Ah!” Eren lembrou-se de algo e impulsionou o corpo para frente, obrigando, como consequência, o dançarino erguer o tronco.

“O que?”

“Ahh...” A expressão do adolescente contorceu-se em lamentação. “O chantilly deve ter derretido...” Retirou as pernas de cima do sofá quando o namorado o deu espaço para fazê-lo e pegou a capa do violão do chão, abrindo o bolso lateral, que era mais largo. Retirou um pequeno recipiente de plástico. “Eu lhe comprei um doce de amora... Tem chantilly... Mas esqueci completamente, ugh,” bateu o peito da palma da mão na testa. “Deve estar derretido. Tome,” entregou o doce ao outro. “É muito gostoso... É de um lugar que abriu há poucos meses. Eu e Armin passamos a comprar algumas coisas lá.”

Rivaille queria rir pela confusão de Eren, mas o real motivo por trás de sua vontade era a doçura atrapalhada do garoto. Retirou a tampa do recipiente e deparou-se com o chantilly, de fato, derretido. Escutou o garoto resmungar. “Não se preocupe com isso.” Passou o indicador sobre o doce, mas a consistência do chantilly não o permitia pegar muito do creme.

“Não quer deixá-lo na geladeira?”

“Não ficará bom se gelar para depois perder temperatura de novo.” Levou o dedo sujo de creme à boca e experimentou. “Hm, o gosto é ótimo. Não parece que é apenas manteiga.”

“É muito bom, não é? Desculpe por tê-lo esquecido...”

Rivaille balançou a cabeça como quem dizia que aquilo não tinha importância e deslizou o dedo sobre o chantilly novamente, lavando-o, desta vez, à boca de Eren, que aceitou. “Vou pegar uma colher, quero experimentar a massa...” Fez menção de se levantar, mas foi impedido pelo garoto.

“Deixe que eu pego.”

Tentou retrucar, mas o dono dos turquesas trouxe a colher de sobremesa. “Obrigado.” Disse ao pegar o pequeno talher. Afundou-o na massa do doce e enxergou a amora batida no fundo do pequeno recipiente. Experimentou-os. “Que gostoso!” Declarou, como de costume, cobrindo os lábios com as pontas dos dedos para falar. “Não é muito doce.” Ofereceu ao garoto, levando a colher cheia à boca dele.

Novamente, Eren aceitou. “Que bom que gostou.” Disse após engolir. “Fico aliviado pelo sabor não ter estragado.” Rivaille o ofereceu mais, mas, desta vez, recusou. “O comprei para você. Coma.”

Certeza? Isto aqui é uma delícia.”

Eren sorriu. “Sim. Fico feliz que tenha gostado... Posso trazer sempre que quiser.”

“Quantos quilos quer que eu engorde?” Rivaille ironizou, divertido.

“Huh? Não, você é magrinho, mas está ótimo. Eu-“

“Estou brincando.” Apressou-se em dizer antes que o garoto alongasse sua explicação. O telefone tocou e Rivaille levantou-se, ainda comendo, para atendê-lo. Foi até a porta da cozinha e pegou o aparelho, prendendo-o entre o ombro e o maxilar. “Alô?”

Eren, por sua vez, tratou de recolher o violão do chão. O apoiou sobre o colo e ficou a dedilhar qualquer coisa só para passar o tempo. Um ou dois minutos depois, ouviu seu nome ser chamado e olhou na direção do mais velho.

“Quer ir à casa de Hanji?”

Agora?”

“Sim.”

“Bem, você estava querendo ir a algum lugar e não decidiu. Acho que seria uma boa.”

“Ok.” O dançarino pronunciou, voltando a atenção ao telefone. Logo despediu-se da amiga. Deixou a colher na pia e jogou no lixo o pote de doce agora vazio. “Obrigado, mais uma vez, pelo doce.” Disse ao voltar à sala. “Estava ótimo.” Abraçou o pescoço do garoto por trás e o beijou a bochecha, livrando-o logo em seguida. “Volto já.” Avisou antes que Eren pudesse falar qualquer coisa e rumou para o quarto.

Chegaram à casa da morena. Gunter, Petra, Auruo e Moblit estavam lá. Eren recebeu abraços carinhosos de Petra e Hanji e ofereceu, também, abraços aos outros presentes.

Ninguém viu o pequeno sorriso que surgiu nos lábios de Rivaille. Adorava ficar em meios àquelas pessoas. Por mais barulhentas e irritantes que pudessem ser. Riu internamente por conta do próprio pensamento.

“O que estão fazendo?” Eren perguntou.

“Estávamos assistindo a alguns vídeos que gravamos na academia.” Hanji respondeu.

“Não acredito que ainda guardam essas coisas.” Rivaille voltou da cozinha com um copo d’água em mãos. Sentou-se ao lado de Eren. “Ainda tem o vídeo de Rico caindo com Petra e Auruo. Aquele em que ele mordeu a língua e ficou reclamando durantes trinta anos.” Exagerou, malvado.

Petra levou os dedos às pálpebras. “Nem me lembre daquele dia... Ou do vídeo. Hanji ainda o tem.”

“Esqueça sobre esse acontecimento, por favor.” Auruo disse. “Lembrem-se de que Rico torceu o tornozelo naquele dia.”

“Posso assistir a algum desses vídeos com vocês?” Eren perguntou, havia ficado curioso. “Não me refiro ao do acidente.” Explicou.

“Claro, querido, pausamos o que estávamos vendo para recebermos vocês.” Hanji disse, retirando o notebook de cima do sofá e entregando-o a Gunter, que, também, estava sentado ao lado de Eren. “Volte para o começo, Gunter.” A morena pediu e o outro o fez.

“Quando gravamos este vídeo,” Gunter começou “havíamos feito uma pequena competição entre nós.”

“Nossa...” Rivaille pareceu se recordar, afastando o copo dos lábios. “Quando foi isso? Ano passado?”

“Sim.” O moreno respondeu e apertou o play.

O palco mostrado no vídeo não era o mesmo que Eren estava acostumado a ver. Era menor em largura e altura, às laterais e ao fundo caíam cortinas pretas. “Onde é?” Quis saber.

“Este palco fica na ala dos alunos, Eren, por isso não o conhece.” Petra esclareceu.

“A competição era sobre quem dançaria melhor?” Fez uma nova pergunta.

“Isso. Mas o par tinha de escolher uma música popular. Não necessariamente conhecida, porém... Nada de clássicos.” Gunter respondeu.

Foi só então que a primeira música começou a tocar. Eren não a conhecia, mas achou a voz da cantora familiar quando esta começou a cantar. O primeiro casal era Auruo e Petra. Ambos usavam collant. Havia o instrumento de corda na música e este predominava em pelo menos todo o primeiro minuto. Houve um solo e então uma forte batida, seguida pela voz da cantora, em que os dois dançarinos erguiam-se da posição que estavam e rodavam para as silhuetas se encontrarem no centro do palco. Não tocavam-se. O som era rápido e de alta batida. Numa parte ou outra, o ritmo tornava-se menos acelerado, assim como os passos dos dois, que adotavam, também, algum drama.

Era uma peça em passos de dança.

Petra se movia lindamente, os cabelos ruivos soltos e o corpo pequeno, ágil. Auruo era um ótimo dançarino, também, preciso e elegante. Tinham ótima sincronia.

O mais engraçado de tudo, era que, aparentemente, como dança para aquela música, o apropriado seria alguma coreografia difícil, cansativa e muito divertida. No entanto, os passos de Petra e Auruo estavam dentro do quadro clássico do balé. Claro, havia lacunas para que não se prendessem apenas àquele estilo de dança e assim o casal fazia, deixando tudo muitíssimo interessante para assistir.

Eren pensou que talvez o nome da música fosse algo como “burca” ou “aura”, pois eram as palavras que mais se repetiam na letra.

No que o adolescente descobriu serem as últimas palavras cantadas da música, os dois dançarinos no vídeo afastaram-se um do outro num giro finalizado com uma sutil reverência.

“O que achou?” Petra perguntou ao assistir a si mesma deixando o palco.

“É incrível! É como se fosse uma adaptação. Sequer consigo imaginar o cansaço de vocês ao terminarem aquela dança.”

Petra sorriu abertamente, o rosto apoiado em um dos punhos. “Obrigada. Foi, de fato, cansativo, mas extremamente divertido e gostoso!”

“Quem canta a música que escolheram? A voz não me é estranha.”

“Lady Gaga.” Moblit respondeu. “Gostou da opção de música? Eu os ajudei a escolher.”

Petra e Auruo riram e a ruiva empurrou, sem força alguma, o loiro. “Convencido.”

“Próximo.” Gunter anunciou, voltando a dar play no vídeo.

O casal era Gunter e Rivaille desta vez. Ambos usavam, também, o collant. Posicionavam-se, cada um, em uma extremidade do palco, igual a como Petra e Auruo haviam feito.

Um dedilhado tocava e os dois homens no palco apenas saíram de seus lugares na marca de 23 segundos da música. Rivaille havia erguido uma das pernas para logo girar em direção a Gunter, que fazia o mesmo. Aos 45, fizeram algo que obrigou Eren a arregalar os olhos: deram as mãos e executaram uma espécie de Giro-da-Morte rápido, comum em eventos como patinação no gelo. Não era, claro, exatamente a mesma coisa, uma vez que o passo original era efetuado em solo mais favorável e, também, levava um tempo a mais para ser finalizado. O passo de Gunter e Rivaille havia sido muitíssimo semelhante, mas era breve e não completava 360 graus planos.

Ao voltar à posição ereta, Rivaille agarrava-se ao corpo do outro. Separaram-se em passos largos e bonitos e a atuação em meio à dança mostrava o dono dos cinzelados cortejando o moreno. Era linda a maneira como o fazia. Os passos tornaram-se mais abertos e o palco passou a ser melhor aproveitado. Passos que valorizavam movimentos circulares tinham grande cena, tomando efetivamente todo aquele espaço. Os dois dançarinos pareciam competir para ver quem conseguia conquistar o outro primeiro, exibindo leves e belíssimos movimentos, vez ou outra, tocando um ao outro. Os pés moviam-se com muita harmonia, acompanhando com precisão o dedilhado e a batida.

Logo o som teve seu fim junto com a dança e os bailarinos deixaram o palco para que Ian e Rico subissem. Eld e um garoto de cabelos curtos e ondulados – Eren não o conhecia – foram os próximos.

No fim, o casal vencedor havia sido Auruo e Petra – e Moblit, como Hanji, Petra e Rivaille explicitaram.

“E qual foi o prêmio?” Eren quis saber.

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“Credibilidade.” Auruo respondeu.

O adolescente observou Petra rolar os grandes olhos cor de mel.

“Pagamos o almoço deles durante uma semana.” Rivaille disse.

Eren riu. “Com certeza foi um bom prêmio.”

“O próximo vídeo é de Petra cantando.” Gunter informou. “Quer assistir?”

“Quero!” Eren parecia empolgado, não sabia que Petra também cantava.

O novo vídeo começou. Nele, Petra e Gunter estavam sentados sobre um banco e o dono dos turquesas reconheceu o lugar como ainda sendo a academia de artes. O moreno tocava violão enquanto a ruiva o observava.

“Você toca?” Eren perguntou, mirando o olhar para o dono dos olhos negros.

“Sim.” Sorriu.

Logo a voz de Petra veio e era doce, mas muito diferente de quando a ruiva conversava. Era linda. Tão linda quanto a de Rivaille, o adolescente pensou. Além do violão e da voz, havia também os estalos com os dedos que a ruiva dava nos momentos apropriados, tornando o som mais agradável. Após o primeiro refrão, Eren perguntou: “Qual o nome da música?”

Night Time,” Petra respondeu. “É da mesma banda que toca a música que Gunter e Rivaille dançaram no outro vídeo.” Informou ao garoto, que continuou a assisti-la na tela no computador.

“Você canta muito bem, Petra!” Disse ao fim do vídeo.

“Muito obrigada!” Ofereceu um sorriso gentil ao garoto.

“Aliás, como andam as coisas com sua peça?”

Petra ficou muito feliz por Eren ter perguntado. “Tudo está caminhando muito bem, Eren! Obrigada por perguntar. Espero que vá assistir quando estrear. Estou tão nervosa.” Riu breve.

“Ora, claro que irei!”

Assistiram a mais dois ou três vídeos e então Moblit e Auruo tomaram conta do computador. Gunter acabou fazendo Eren buscar o violão no carro de Rivaille e, ao trazê-lo, ficaram a tocar. Hanji, Petra e Rivaille ocuparam-se em simplesmente conversar, os três deitados no sofá, um sobre o outro, respectivamente. Toda a cena da sala se tornava engraçada. Pareciam um bando de adolescentes de 15 anos.

“Petra,” Gunter chamou após muitos minutos terem se passado. “Cante um pouco conosco.”

“Que tal, Rivaille?” Petra abaixou o olhar para o dançarino, convidando-o.

“Vá primeiro.”

A ruiva sorriu e saiu do sofá, juntando-se a Eren e Gunter. Os cinzelados de Rivaille caíram sobre o adolescente e este sorriu para si.

“Quer chá?” Hanji perguntou, chamando-o a atenção.

“Aceito.” Puseram-se de pé e seguiram até a cozinha. Ao entrar, encostou-se ao armário e observou a morena procurar pelos saches. Logo ela colocava a água para ferver.

“Não entendo como pode ficar tão desanimado por conta de férias.” Comentou.

“Sabe que odeio...” Remexeu-se, impulsionando-se para frente, abandonando o encosto do armário para ir até a amiga e descansar a cabeça sobre os seios dela. Suspirou.

Hanji pensou em dizer algo, mas preferiu manter-se quieta e deixa que Rivaille tivesse aquele momento. Sorriu sem que ele o visse e deslizou os dedos pelos cabelos lisos do amigo. “Como está?” Perguntou.

“Está bom... Gosto quando mexe em meu cabelo.”

Não era sobre aquilo que a pergunta da morena se referia e Rivaille suspirou novamente, irritado consigo mesmo por sempre desviar, de alguma forma, as perguntas da amiga. As palavras de Hanji haviam se acomodado fundo em sua cabeça. “Eu te odeio.” Murmurou, fazendo a morena rir muito baixo.

“Não se torture tanto com o que eu disse, apenas pense sobre isso.”

“Como quer que isso aconteça?” Perguntou irritado. Hanji ainda acariciava seus cabelos.

Não demoraram a voltar à sala. A morena ficou no sofá e Rivaille acomodou-se ao lado de Eren, que fixou o olhar em si.

“Que está tomando? Chá?”

“Sim. Quer?”

O garoto fez que sim com a cabeça e bebericou, após assoprar, o líquido que o mais velho o oferecia. “Obrigado.”

Ficou a observá-lo alternar o comando do violão com Gunter e quando seu chá acabou, descansou a cabeça sobre o ombro do garoto, ficando a pensar. Sua atenção longe da música que tocavam. Cinco minutos depois, ergueu a cabeça e recebeu o olhar de Eren.

Está bem?” O garoto perguntou.

“Estou.” Tomou os lábios do outro num selinho e ficou a beijar-lhe o rosto.

“Riv-“

O dançarino lançou o olhar a Gunter e brincou: “Sei que este pirralho é irresistível, mas agora é minha vez, Gunter.”

O moreno riu e Eren aceitou o beijo rápido que lhe foi oferecido.

Havia deixado a casa de Hanji para ir à casa de Eren.

Aparentemente, Mikasa não estava em casa. O garoto havia chamado pelo nome da irmã, mas não houve resposta. Foram até a cozinha. “Está com fome?” Eren perguntou ao dançarino.

“Não.”

O garoto se serviu de um copo d’água, oferecendo ao outro.

“Preciso ir ao banheiro.” Rivaille disse.

“Ok.” Eren pronunciou, observando o mais velho deixar a cozinha. Resolveu esperá-lo na sala. Assim, poderiam ir direto para o quarto. Ocupou-se em dobrar o cobertor que estava sobre o estofado. Mikasa devia ter dormido ali. Deixou-o próximo ao braço do sofá.

Já era noite. 20h22. Rivaille voltou e ambos rumaram ao quarto do garoto.

“Seu pai está trabalhando, não?”

“Sim.”

“À que horas ele chega?”

“Hm, acredito que dentro de meia hora ele deve estar em casa. Por que?”

“Nada.” O dançarino acomodou-se na cama do garoto e este manteve-se de pé, desfazendo-se dos tênis e blusa de frio. “Agora você tem um belo cabelo bagunçado.” Comentou, observando o outro.

Eren sorriu. Sentou-se ao lado do namorado e abriu o notebook, ligando-o.

Rivaille suspirou e deixou-se cair folgado sobre o colo do adolescente, que surpreendeu-se um pouco. Na verdade, o garoto estava, desde cedo, um pouco surpreso com a carência – ou algo parecido – que o namorado estava demonstrando.

“O que fará amanhã?” Perguntou.

“Irei à outra exposição.”

“Sobre o que será?”

“Litogravuras.

Litogravuras?” Escondeu os dedos nos cabelos do outro, acariciando o couro cabeludo.

“Aproveite que ligou o computador e pesquise por Maurits Cornelis, ficará fácil de entender.”

“Conheço Maurits Cornelis! Ele costumava aparecer em meus livros de filosofia.” Uma pausa. “Parece ser incrível. Gostaria de poder ir.”

Rivaille respirou devagar. Os ossos dos joelhos do garoto, protegidos sob a calça, em frente a seus olhos. Hesitou por um segundo. “Gostaria que pudesse ir.”

Eren poderia ter esperado por um “é uma pena”, ou ainda um simples comentário, como “você iria gostar”. Não havia esperado, porém, a frase que veio. Sentia-se um pouco bobo, pois, afinal, era nada de mais. Sentiu, também, o peito aquecer num calor leve.

“Eren,” a voz do dançarino veio, quebrando o silêncio que ali havia se formado. Não queria aquilo – a falta de vozes. “Procure por Rob Gonsalves. Você irá gostar.”

“Ok.” Um pausa. “Rob Gonsalves, huh?” Quis confirmar antes de digitar o nome na busca.

Isso.”

O adolescente clicou no primeiro link. Havia informações sobre o artista e, logo abaixo, algumas de suas obras. Passou os olhos, rapidamente, pelo texto e seguiu para os quadros. ”Nossa, que demais!”

Rivaille ergueu a cabeça.

“Esse Beyond the Reef é incrível!”

O dançarino sorriu de leve. “É lindo.”

Eren continuou a girar o scroll do mouse conectado ao notebook. Riu casualmente. “Aspiring Acrobats e Autumn Cycling parecem divertidos.” Continuou a visualizar e a adorar os quadros. “Oh... Esse aqui. Water Dancing. Acho que estou apaixonado por esse quadro.” Inclinou-se apenas um pouco para visualizar a imagem.

“É meu preferido. Esse e Ladies of the Lake.”

Não havia chegado a Ladies of the Lake ainda, mas Water Dancing o havia, realmente, feito lembrar Rivaille. “Com certeza esse,” passou o cursor sobre a imagem “me faz pensar em você.” Confessou docemente, os olhos fixos na tela do computador.

Rivaille nada disse. Era estranho... Era estranho que alguém o... Aceitasse. Talvez fosse, de fato, de fato!, como Hanji havia dito... Ah, que irritante briga em sua cabeça. Abaixou o olhar e ficou a fitar o lençol amassado na cama. Deparava-se com algo desconhecido, algo não familiar. Como exatamente se resolvia algo como aquilo? Hanji poderia estar certa. Hanji poderia, muito provavelmente, estar certa e isso não saía de sua cabeça...

“Ahh! Night Lights!” A voz do garoto tomou-lhe a atenção. “Ugh, lindíssimo! Rivaille…!” Ele agitava-se.

“Ah... Era esta imagem que estava em minha cabeça quando lhe disse para pesquisar o artista.” Rivaille fez uma pausa por um segundo. “Essa me faz ver você.” O dançarino não sabia se devia ou não ter confessado aquilo, mas, naquele momento, pareceu certo fazê-lo. A sensação que recebeu ao pronunciar aquela frase se misturou a já existente por conta das palavras da melhor amiga dentro de si.

Os turquesas mantinham-se na imagem. Novamente, Eren queria dizer a Rivaille que o amava. Sentiu a palma da mão suar um pouco. “Obrigado por pensar em mim com algo tão bonito como essa imagem.” Foi o que disse. Os olhos caíram, finalmente, sobre o dançarino e este se remexeu de maneira e ficar deitado de peito para cima, tocou seu rosto e sorriu muito levemente. Eren inclinou o pescoço, fazendo algum esforço, e tomou os lábios do outro num contato delicado e cheio de sentimentos.

Continuaram a ver as obras de Rob e, no fim, as preferidas de Eren foram Night Lights e The Space Between Words.

Beijaram-se de novo e de novo e o som da porta de entrada chegou aos ouvidos. Logo as vozes de Grisha e Mikasa percorreram o ar.

“Meu pai...”

“Eren?” A voz de Mikasa veio do outro andar.

“Estou em casa!” Respondeu no mesmo volume que a morena havia usado e a ouviu comentar algo com o pai antes de começar a subir a escada.

Rivaille consultou a hora: quase 21h.

“Eren,” Mikasa apareceu à porta. “Ah...! Rivaille. Oi.”

“Olá, Mikasa.” Era impossível não sentir a estranheza entre os dois, ainda que isto viesse diminuindo.

“O pai não estava trabalhando?” A voz de Eren veio, uma sobrancelha arqueada.

“Sim. Nos encontramos fora. Eu estava na casa de Annie.”

“Hm,” Os turquesas foram para a tela do computador e Eren clicou em algo.

“Que horas voltou?” A morena perguntou.

Foi a vez do adolescente consultar o relógio. “Há menos de uma hora.”

Rivaille retirou a cabeça do colo do adolescente, sentando-se. Observou Mikasa deixar o quarto. “Sua irmã me odeia.” Disse.

Nah, ela odeia até uma folha de árvore que cai em meu cabelo pelo simples fato de me tocar.” Exagerou. “Mas... Ela não te odeia.”

“Você não está sendo um pouco contraditório?”

Eren encarou o namorado e sorriu. Queria beijá-lo, mas não o fez, pois, agora, era o pai quem havia aparecido à porta.

“Fi- ah! Rivaille! Como está?” Grisha esticou a mão a fim de cumprimentá-lo.

“Bem,” Apertou a mão do médico. “E você?”

“Cansado.” Riu. “Mas bem. Eren, já comeu algo?”

“Ainda não.”

Grisha suspirou. “Vá comer, por favor.” Disse, saindo do quarto.

“Parece que o médico está bravo com uma certa criança.” Rivaille brincou segundos após Grisha tê-los deixado.

Eren juntou as sobrancelhas por um momento. “Nah,” Assistiu ao namorado avançar sobre si, um sorriso divertido nos lábios finos. Recebeu um selinho rápido.

“Você vai acabar apanhando por não se alimentar direito, pirralho.” Disse contra a boca do garoto, que riu. Beijaram-se e Rivaille deslizou uma das mãos até a nádega de Eren a fim de apertá-la. Teve alguma dificuldade em tocá-la devido à posição do adolescente.

“Hmm,” Eren murmurou em meio ao beijo.

“Eren, onde es- Ew!” Mikasa havia voltado à porta.

O beijo foi partido e agora turquesas e cinzelados encaravam a morena. “Mikasa...”

A garota rolou os olhos. “Não me olhe com essa cara de cachorrinho assustado. Onde está o carregador de meu celular?”

“Ah...” Desviou o olhar, as pontas das orelhas quentinhas agora. Abaixou a tela do notebook e puxou o carregador pela prateleira. “Aqui.” Esticou o braço para entregar o objeto à irmã. “Obrigado por me emprestar, já achei o meu.”

Mikasa o pegou e virou as costas. Antes que pudesse deixar o quarto do garoto pela segunda vez, porém, disse, erguendo uma sobrancelha: “Por favor, fechem a porta.” Havia uma pontada de divertimento em seu tom de voz, o que tranquilizou Eren.

Ainda era complicado para a garota aquele tipo de convivência. Mas, verdadeiramente, estava se tornando cada vez mais acostumada àquilo e isso a fazia se sentir bem, pelo menos.

“Devia ouvir sua irmã.” Rivaille disse. “Feche a porta... Quer que qualquer um te veja trocar de roupas, se masturba-“

Shhhhh!” Eren interrompeu o mais velho. “O quarto de meu pai fica neste corredor!”

Rivaille riu breve. “Até parece que o médico não sabe que se masturba, Eren.” Disse num tom mais baixo.

O garoto sentiu as pontas das orelhas aquecerem levemente. A mão alheia voltou ao seu rosto, virando-o na direção da face pálida. Os lábios se tocaram num novo selinho. Este, no entanto, mais demorado. Separaram-se por milímetros e os cinzelados, fixos em sua boca rosada por beijos, rumaram até seus olhos. Eren absolutamente adorava aqueles cinzas turvos, uma mistura de gelo e mar em dias nublados.

O dançarino voltou a tomar os lábios do garoto, beijando-o sem demora. Não queria que mais alguém entrasse no quarto e os atrapalhasse.

A semana passou rápida e Rivaille estava, agora, no início do quarto livro. Havia terminado os outros três que, há tempos, tinha deixado pela metade. Era sexta-feira à noite. Estava deitado em sua cama, o livro fechado ao lado do travesseiro junto com seu óculos. Dobrou as pernas e deixou as mãos entre elas. As palavras de Hanji, repetidamente, mal saíam de sua cabeça. Suspirou, ganhando uma estranha sensação de Déjà Vu.

Fechou os olhos por um momento e, ao abri-los, fitou o outro travesseiro vazio e perguntou-se por que era tão complicado lidar com algumas coisas. Perguntou-se, pela enésima vez, se Hanji estava correta no que havia falado.

Pela primeira vez em muito, muito tempo desejou que chovesse. O silêncio em seu apartamento o incomodava naquele momento. Buscou pelo celular debaixo dos travesseiros e pela cama, mas o encontrou sobre o criado mudo, sentindo-se preguiçoso demais para esticar-se e pegá-lo. “Uhh,”

Ah... Não fazia sexo há mais de uma semana. Malditas provas finais de colégio. Maldito adolescente ainda em colégio. Afundou o rosto no travesseiro por cinco segundos. Não via Eren desde domingo. Era um idiota – e não referia-se ao adolescente.

Puxou o ar para os pulmões e mastigou a parte interior do lábio. Desfez o laço folgado da calça. Estava excitado. Sentia falta de toque... Livrou o membro parcialmente ereto do peso das vestes e começou a estimulá-lo. Conseguiu, com a ajuda dos pés, deixar a calça na altura dos joelhos. Quanto a roupa íntima, precisou das mãos para fazê-lo.

Arfou, sentindo falta dos cabelos castanhos do adolescente para prendê-los entre os dedos. Deslizou a mão livre pelo próprio abdômen, erguendo, como consequência, a camisa que vestia. Queria o peso de Eren sobre si, entre suas pernas. Xingava-o mentalmente por ser um tolo e não estar ali naquele momento, como se o garoto tivesse alguma culpa... Reconhecia a incoerência de seu pensamento.

Queria o cheiro, a vibração da voz, a respiração, os dentes, o gosto do dono daqueles olhos ridículos...! Como era estranho querer alguém, desejar alguém tão especificamente para algo... Este pensamento acomodou-se fundo em sua mente, cada palavra.

Ugh,” as pernas, dobradas, separaram-se mais, até o limite que o cos da calça o permitia. A mão, antes sobre o tronco, rumou à parte inferior do membro agora rijo, acariciando-o com as pontas com dedos, raspando, vez ou outra, as unhas. “Ahh...”

Era a primeira vez que se masturbava com Eren em mente.

Deslizou a mão pelo membro, fazendo-o curvar-se e gemeu, logo voltando a estimulá-lo. Segurava-o forte com movimentos que não eram rápidos nem lentos. Puxou o ar pelas narinas. Levou um dos dedos à entrada, introduzindo-o devagar. “Ahn,” Logo o movia com o mesmo ritmo da mão em torno da ereção.

Ah, era ótimo. Os movimentos se tornaram rápidos. Os cinzelados caíram sobre o membro e o dançarino mordeu o lábio inferior. Gostava assistir e escutar àquilo. Era um amante sujo de sexo. O que, talvez, fosse uma agradável ironia. A cabeça voltou a descansar sobre o travesseiro e mais gemidos vieram. Alguns minutos depois, gozou, resmungando qualquer coisa antes de mover o corpo sobre o colchão, mudando de posição, sentindo os dedos pegajosos.

Resmungou novamente e ouviu o celular tocar. Moveu-se para pegá-lo desta vez. Era Eren.

Ah... Agora...

Franziu os lábios e atendeu. Sua voz soando mais rouca do que pretendia ao dizer: “Lembro que uma vez me disse que gosta de minha cintura e de meu quadril.”

Huh?” O garoto pareceu confuso. “Bem, eu gosto. Gosto de suas pernas, também, de seu maxilar, ombros... De seus ossos expostos num geral. Adoro a curva de sua bunda.”

Rivaille sorriu torto.

E você gosta de meu pênis.”

“Com toda certeza.”