Notas iniciais
Não sabem o quão difícil é para mim, escrever cenas com comidas, pois sou vegetariana e nasce um grande ponto de interrogação em minha mente sempre que vou escrever. Penso "o que eles comem?". É terrível... Escutem Price of Freedom (Final Fantasy VII) e Europa (Fresno). A música que Rivaille e Eren escutam no final chama-se Spending my Time (Roxette). Espero que gostem do capítulo e tenham uma boa leitura. ♥ Não esqueçam de me avisar sobre erros!

Era sábado e Eren havia marcado de ir à casa de Jean. O amigo o tinha convidado para tocar na garagem de casa, pois o pai passaria o dia fora e, sendo assim, o carro não estaria ocupando o lugar, permitindo que pudessem usar amplificadores.

O primo de Jean estaria presente de novo, assim como Armin e Marco. Há pouco tempo, Eren havia notado que passava algum tempo ao lado dos amigos de Rivaille, mas este sequer se lembrava dos nomes dos seus. Não que ele devesse lembrar, mas Eren queria que também tivessem algum tempo junto com seus amigos. Com isto em mente, convidou o dançarino para ir à casa de Jean – com o consentimento deste.

Estava consideravelmente calor naquele dia. Eren usava uma bermuda jeans clara, regata cinza com detalhes em branco, tênis e um boné. Estava ajudando Jean com os fios das caixas e das guitarras. Não fariam nada sério, apenas queriam passar o tempo com algo divertido e diferente.

“À que horas Armin e Marco virão?” Quis saber.

“Se não me engano, às 15h30.” Jean informou. O relógio marcava 11h43. “E Rivaille?”

“Depois do almoço, por volta das 13h.”

Continuaram a arrumar as coisas e Jean aproveitou para pedir ao amigo e ao primo que o ajudassem a reorganizar algumas caixas e objetos da garagem. Após ouvir que era um aproveitador folgado, teve ajuda.

Alguns minutos depois, foram chamados para o almoço e, assim que terminaram de comer, voltaram para a garagem. Com a exceção de Jean, que foi o único cuja mãe deixou que ficasse para ajudar na louça.

Eren sentou-se sobre uma das caixas. Estava realmente quente naquele dia. Procurou por algo que pudesse usar para se abanar e precisou se inclinar desconfortavelmente para recolher o pequeno folheto de instruções do amplificador do chão. Não esperou mais para usá-lo a fim de aliviar o calor que sentia.

“Hoje está difícil, huh?” A voz de Thierry, primo de Jean, fez-se presente.

Thierry era muito bonito: alto, a pele em dois tons mais clara do que a de Jean, cabelos pretos e curtos, olhos igualmente pretos. Não era do tipo musculoso, mas tinha um corpo bem trabalhado, muito bonito. E Eren encarou bem e achou engraçado o modo como estava reparando no corpo e na beleza do outro homem.

“Está.” Foi o que disse. Observou Thierry se espreguiçar para então sentar-se num banco de madeira. O garoto de cabelos pretos era um ano mais velho e já havia terminado o colégio. Estava passando uns dias na casa de Jean.

Eren deixou o folheto de lado e retirou a palheta do bolso da bermuda a fim de afinar a guitarra. Antes, porém, passou a alça de apoio pela cabeça, arrumando-a sobre um dos ombros. Enquanto afinava o instrumento, aproveitou para, também, ajustar o volume do amplificador. Não queria nada muito alto.

Eren tinha de ficar parando, ora ou outra, com o que fazia para se abanar. “Não entendo esse tempo.” Murmurou.

“É uma pena que não tenham uma bateria.” Thierry disse.

“Seríamos uma banda de garagem. Não sabia que toca bateria.”

“Não.” Thierry riu da brincadeira.

“Voltei.” Jean anunciou ao aparecer na garagem. “Sobre o que estão conversando?” Perguntou enquanto pegava a outra guitarra e arrumava a alça sobre o ombro.

Eren abriu a boca para responder, mas o toque de seu celular o impediu. Era Rivaille quem o ligava. “Rivaille,” disse ao atender.

Número 843, não é?” O dançarino perguntou do outro lado da linha.

“Sim. Onde você está? Eu disse que se quiser, eu lhe busco...”

Estou chegando, Eren, não se preocupe. Só liguei para confirmar. Não é longe da estação, como você disse.

“Não está de carro?”

Não.

“Por- Me diga onde está para eu ir até você.” Enquanto falava, via Jean imitá-lo, fazendo caretas ridículas para Thierry. Chutou a panturrilha do amigo, sem força, e ouviu os dois rirem.

Houve um suspiro. “Eren, pare de ser tão irritante. Não sou criança, não irei me perder.

“Mas- Riv-“

“Tchauzinho, Eren!” Rivaille mandou vários beijos ao garoto, impedindo, assim, que ele retrucasse, e desligou.

Argh...” Eren ficou a encarar a tela do celular.

“Briga com o namorado?” A voz de Jean veio.

“Não.” Suspirou.

“Podemos tocar, por favor?” Jean perguntou, recebendo, de novo, o olhar de Eren.

“Já afinou?”

“Sim.”

“Então podemos.”

“O que vão tocar?” Thierry quis saber.

“Que vamos tocar?” Eren mirou o olhar a Jean, que entortou o lábio.

“Que tal Price of Freedom?”

“Estamos com duas gruitarras.”

E...?”

Eren rolou os olhos e pôs-se de pé para então retirar os cabos do instrumento e do amplificador. Desfez-se da alça da guitarra e, também, desta, deixando-a encostada à parede. Pegou o violão de Jean e plugou os cabos no instrumento e na pequena caixa antes de ocupar-se em afiná-lo. “Você é um saco e eu te odeio do fundo de meu ser. Vou começar.”

“É você quem está com o violão.”

Novamente, os turquesas rolaram.

“Por que trocou a guitarra pelo violão?” Thierry perguntou.

“O som fica mais bonito.” Eren respondeu. “Não temos um violino, mas ficará bom se Jean não cagar as notas.”

“Apenas toque logo.” Jean disse.

Eren pegou a palheta de cima da caixa que antes estava sentado e começou a tocar, sendo acompanhado, segundos depois, por Jean. Pouco mais de um minuto após terem começado, Thierry perguntou:

“De onde é a música?”

“De um jogo.” Eren respondeu simplesmente, sem parar de tocar.

Terminaram a música e, sem discussões longas, passaram para outra.

“Nunca pensaram em formar uma banda?” O primo de Jean perguntou. Era o único a não tocar e não queria parecer ter sido deixado de lado.

Nah, não...”

“É só para passar o tempo.” Eren disse. “Um tempo muito, muito bo- Rivaille!” Interrompeu-se ao avistar o dançarino por cima do ombro de Thierry, de pé na calçada. Parecia ter acabado de encontrar a casa. Parou de tocar, desfazendo-se, outra vez, da alça e do instrumento. “Só um minuto, Jean.”

“Vá lá.” Jean meneou a cabeça e aproveitou para beber um pouco de água.

“Hei,” Eren virou a aba do boné para trás, para poder beijar o outro, oferecendo-lhe um selinho rápido. “Não teve problemas em encontrar a casa? Devia ter me deixado te buscar... Pensei que viria de carro.”

Rivaille ficou em silêncio por dois ou três segundos antes de finalmente falar. “Não tive problemas, não se preocupe.”

“Você está de regata... Que incomum.” Observou.

O dançarino usava uma regata de dois dedos de alça, cor preta e sem detalhes, calça preta de tecido leve e fundo baixo, as barras erguidas à altura das panturrilhas e um coturno de cano baixo, igualmente preto, os contornos das solas, porém, eram de cor marrom. “E- Ew, Eren, você está grudento.” Havia tocado os braços do garoto e o assistiu a fazer o mesmo.

“Ah... Está tão calor...”

“Por isso estou com esta roupa.” Uma das mãos de Rivaille foi até seu rosto e ele afastou, com alguma dificuldade por conta do boné, uma mecha de cabelo, arrumando-a atrás de sua orelha.

“Mas é inteira de cor preta!” Não houve resposta por parte do outro. Eren relaxou os ombros. “Estou feliz que veio. Obrigado por vir.” Pousou as mãos na cintura do mais velho. “Sairemos quando Armin e Marco chegarem.” Segurou uma das mãos de Rivaille e o puxou para perto de Jean e Thierry. “Você já conhece Jean.” Aguardou que se cumprimentassem. “Este é Thierry, primo de Jean.”

“Olá.” O moreno esticou a mão.

Tierrí.” Rivaille pronunciou ao retribuir o contato, o timbre da voz mudando apenas um pouco.

“Bela pronúncia.” Thierry sorriu.

“Parece que temos uma família francesa aqui.”

“Nossos bisavós.” O dono dos olhos negros disse. “Você fala francês?”

“Apenas um pouco.”

“Ah, é? Tem descendência?”

“Nasci naquele lugar sujo.” Rivaille respondeu.

Piadas com a França.” Thierry riu. “Desculpe, qual é o seu nome?”

“Rivaille.”

“Infelizmente, sei nada de francês – sequer fui alguma vez até lá –, mas acredito que tenha uma bela pronuncia, também.”

“Acho que você perdeu o namorado, Jaeger.” Jean brincou.

Rivaille achou graça da expressão confusa de Eren. “Não, não perdeu. Seu primo tem belos olhos pretos, mas este pirralho aqui tem olhos que mudam de cor...” Tocou a parte inferior do queixo de Eren com a ponta do indicador, deixando-o sem graça por conta de sua resposta. Não era o que o garoto estava esperando.

A risada de Thierry tomou o ar muito brevemente. “Desculpe, Eren, não foi minha intenção tomar a atenção de seu namorado.”

“Está bem. Agora fique quieto , senhor Tierrí.” Jean deu ênfase à última sílaba do nome do primo do que era de fato necessária. “E volte logo a tocar, pirralho.” Jogou em Eren a flanela que haviam usado há menos de duas horas para limpar algumas coisas.

“Cale a boca.” O garoto agarrou o pedaço de pano e o jogou sobre uma prateleira.

Rivaille sentou-se próximo a Thierry, ocupando outro banco. Estavam perto da saída da garagem, mas tinham o cuidado de permanecerem ao lado de dentro por conta da gloriosa sombra.

Eren voltou a pegar a guitarra e a arrumou confortável em frente ao corpo, a alça em seu ombro. “Que quer tocar?” Perguntou a Jean.

“Que tal Europa?”

O dono dos turquesas sorriu. “Até que enfim uma decisão sábia em sua vida, cara de cavalo.”

“Cale a boca!” Foi a vez de Jean dizer. “Comece logo...”

Eren riu e tornou a aba do boné par afrente, não esperando mais para começar a tocar. Não demorou, também, para que Jean o acompanhasse.

Os outros dois homens presentes apenas assistiam e Rivaille sentia-se um tanto seduzido por Eren naquele momento, o que achava engraçado por alguma razão. O movimento do braço exposto do garoto, forçando os músculos tímidos a terem mais destaque no braço... Ah, era aquilo. Rivaille tinha uma estranha adoração por braços. Braços, dedos, peitoral e maxilar. E os membros do garoto eram perfeitos para sua adoração: expostos pela regata, músculos causados pela prática da música e, ali, os movimentos rápidos realizados no instrumento.

Rivaille cruzou as pernas e apoiou o queixo sobre uma das mãos, inclinando-se um pouco para frente. Mastigou a parte inferior do lábio, pensando em como queria chupar Eren. Ficou a balançar um dos pés. Em um momento enquanto ainda tocava, o garoto lançou os turquesas para si, oferecendo-o, também, um bonito sorriso. Retribuiu com um meio sorriso que permitia a aparição de seus dentes.

Tocaram mais três músicas até a mãe de Jean chamá-lo para ajudar em algo. Thierry o acompanhou. Eren sentou-se, então, ao lado do namorado após desfazer-se do instrumento. A aba do boné de novo para trás, as mãos dentro dos bolsos da bermuda. Compartilharam de um selinho e encararam-se.

“Fizeram uma banda de dois integrantes apenas?”

Eren riu. “Não. Fizemos isso só para passar o tempo.”

“E estão conseguindo?”

“Estamos.” Beijou, finalmente, o mais velho, tocando-lhe a língua com a sua.

“Precisará lavar o cabelo depois de tirar este boné.” Rivaille disse ao partirem o contato. “Está calor...”

“É...” Eren livrou os cabelos, bagunçando-os com a mão. Tentou arrumá-los logo depois e voltou a cobri-los com o boné.

A aba havia ficado posicionada para frente e Rivaille foi quem se ocupou em virá-la para o outro lado, segurando o queixo do garoto entre o polegar e o indicador, trazendo-o para um novo beijo. Este, mais demorado.

Uma das mãos de Eren pousou na coxa do dançarino e a acariciou antes de apertá-la muito levemente em meio ao contato entre as bocas. Separaram-se então e Rivaille levou as mãos aos braços do garoto, acariciando-os também.

“Como foi sua semana?” Eren perguntou após alguns segundos observando o outro, que tinha a atenção em seus membros até então.

“Fui às exposições, visitei a academia na quarta-feira... Limpei o apartamento de novo... Comecei outro livro... Tentei assistir a um filme.”

“Você parece entediado.”

“E estou. As exposições e a limpeza de meu apartamento foram minhas atividades mais animadoras.”

“Não foi bom ir à academia?”

“Não quando os idiotas não me deixam trabalhar.”

Eren riu, balançando a cabeça devagar. “Você é, de fato, a única pessoa que conheço que briga tanto para trabalhar.” Entortou o lábio.

“Como foi sua semana?”

Apenas estudei.”

Rivaille suspirou baixinho e encostou a cabeça na curva do pescoço alheio, fechando os olhos. Sentiu um dos braços do garoto rodear-lhe as costas.

“Senti sua falta durante a semana.” Eren confessou.

O dançarino nada disse. Também havia sentido falta do garoto, estava evidente em suas ações durante os dias daquela semana. Abriu os olhos e diria a Eren que queria que este dormisse em sua casa naquela noite, mas antes pudesse falar qualquer coisa, Jean voltou à garagem, seguido por Thierry.

“Armin ligou.” O primeiro informou. “Disse para você ver as mensagens em seu celular.” Assistiu a Eren procurar pelo aparelho nos bolsos, mas estava dentro de sua mochila. “Disse que Marco estará esperando por nós no shopping.”

Eren abriu a boca para dizer algo, mas não o fez, pois foi surpreendido com um beijo no rosto antes de observar Rivaille colocar-se de pé.

“Jean, pode me mostrar onde fica o banheiro, por favor?” O dançarino pediu ao moreno.

“Claro.” Jean pôs-se a andar e Rivaille foi logo atrás.

Eren levantou-se e se espreguiçou, ficando a ver o movimento – que era pouco – ao lado de fora.

Quando Jean e Rivaille voltaram, o primeiro, junto com Eren, ocupou-se em tocar. Enquanto o faziam, porém, a conversa que havia nascido entre os quatro ali não morria, o que, para eles, era muito bom. Tocaram até pouco antes de Armin chegar.

Eren e Jean arrumaram os cabos de conexão e os levaram, junto com os dois amplificadores, para dentro da casa, voltando para pegar os instrumentos. Após terminarem de organizar o que precisavam, Eren pegou sua mochila e não demorou para que todos saíssem. Iriam a um shopping não muito longe da casa de Jean. Iriam andando justamente por conta da distância. Jean precisava ir a uma livraria e, depois disso, iriam ao Outback.

Cerca de 15 minutos depois, estavam no shopping. Rivaille remexeu dentro da própria bolsa a procura de um elástico para prender o cabelo. Achou o acessório e Eren ficou a observá-lo enquanto penteava os fios pretos com os dedos para logo amarrá-los, deixando ainda mais visível a parte raspada de seu cabelo.

Eren havia absolutamente adorado.

“Que? Não ficou bom? Está bagunçado?” Jogou a franja para trás com a ajuda dos dedos, mas os cabelos voltaram a cair em frente aos olhos.

Não, não. Ficou ótimo!” Fez uma pausa. “Assim você parece ainda mais novo do que realmente é.”

“Ah, é? Quantos anos pareço ter?”

“Hm,” Eren pensou por um segundo. “18... 20, no máximo!”

“Hm... Me pergunto se minha disposição é a mesma que a de alguém nesta idade.”

“Eu sinceramente acredito que não haja diferença, mas, se houver – o que eu duvido – digo que sua disposição esta acima.”

Rivaille riu casualmente. “Devia prestar atenção no que está falando, você é mais novo do que eu... O que? Uns 20 anos?”

Eren riu. Tinham apenas 8 anos de diferença.

Foram até a livraria e Jean levou algum tempo para achar o que queria, mas não demoraram a deixar o lugar quando ele o encontrou e o pagou. Rivaille havia comprado uma garrafa d’água numa pequena Starbucks que havia dentro da livraria e agora a oferecia a Eren.

Seguiram para o restaurante e encontraram Marco os esperando lá. Jean foi o primeiro a chegar até o moreno de sardas. O abraçou e encheu-lhe a face de beijos.

“Eles são namorados?” Rivaille perguntou a Eren.

“Não. Jean é assim com todo mundo.”

“Não acho que ele seja assim com você.”

“De fato, ele não age assim comigo. Acho que isso se deve às nossas intrigas de criança. Costumávamos brigar muito até o início de nossa adolescência. Houve uma época em que ele havia criado uma paixonite por Mikasa...”

“Não consigo imaginar isso.”

“Era engraçado e muito irritante.”

Cumprimentaram Marco e entraram no restaurante, sendo levados até uma mesa que acomodasse a todos. Tiveram a felicidade de sentarem num estofado. Os dois garçons deixaram os cardápios e saíram. Eren, que estava ao lado de Rivaille, observou-o pegar um dos cardápios e o ouviu perguntar:

“Que você vai pedir?”

“Não sei.” Foi o que respondeu.

O dançarino ficou a ler as opções junto com o garoto. “Não há nada que você me recomende? Nunca comi aqui.”

“Sério?” Encararam-se. “Bem, eu não sei... Sempre pedimos anéis de cebola, por conta de Jean-“

“O que?” O amigo, que havia escutado o próprio nome, ergueu o olhar para o dono dos turquesas.

“Huh? Nada, estou explicando a Rivaille uma coisa.”

Jean deu de ombros.

“Então,” Eren continuou “Sempre pedimos os anéis de cebola e batata frita.”

“Não parece muito saudável. Parece bem gorduroso.”

“Bem...”

“O que você pede para você?”

“Hm... Geralmente pedimos um prato para dois ou três de nós, dependendo do que escolhemos, porque a porção pode ser bem generosa... Gente,” ergueu o olhar para os amigos na mesa “o que vocês vão pedir?”

“Eu e Armin queremos um Alice Springs.” Jean respondeu.

Eren e Rivaille procuraram, com os olhos, pelo nome que o outro havia falado, pois mesmo o garoto não se recordava de todos os pratos apenas pelo nome. Leram a descrição e o adolescente voltou a erguer o olhar. “E vocês?” Perguntou a Marco e a Thierry.

Enquanto esperava pela resposta, os dois garçons voltaram, ambos trazendo pão e molho para a entrada. Jean e Armin aproveitaram e fizeram os pedidos.

“Marco e eu decidimos por um Ribs.” Thierry disse. “Vocês ainda não escolheram?”

“Ainda não. Rivaille nunca comeu aqui.”

“Não precisa me esperar para decidir o que quer comer.” O dançarino disse. “Pode escolher o seu.”

Nah, não sei o que pedirei.”

O garçom anotava, agora, o pedido de Marco e Thierry.

Rivaille passou a ler outra coluna do cardápio e descobriu que saladas faziam parte do menu do restaurante. “Acho que ficarei com este aqui.” Apontou para que Eren pudesse ler o nome. Era frango grelhado e salada.

“Mesmo? Eu ficarei... Com este. Nunca o comi, parece ser saboroso.” O prato que havia escolhido era composto por peito de frango grelhado e legumes cozidos a vapor, havia um molho especial, também. “Não é muito diferente do seu.” Riu.

“Posso anotar?” O garçom perguntou.

“Claro.” Eren respondeu, informando, logo em seguida, quais eram os pratos que queriam. Pediram, também, as bebidas e então o garçom se retirou.

“A comida daqui é gostosa, Rivaille.” Jean falou. “É meio cara... Mas é boa.”

“Você vai gostar.” Eren disse, beijando o rosto do mais velho. “Experimente o pão.” Ofereceu-o, servindo-se de uma fatia sem molho.

“Do que é este creme?”

“Alho. Eu não gosto, acho enjoativo.”

Rivaille retirou uma fatia do pão e o recheou com o creme de alho, experimentando-o logo depois. “Não é ruim.”

“Não é ruim.” Jean concordou. “Eren não gosta porque dá uma sensação estranha sob os dentes.” Fez uma careta ao dizer a justificativa do amigo, provocando-o.

“Não gosto porque é enjoativo.”

“Me pergunto se beijará Rivaille depois de ele ter comido o pão com o molho de alho.”

Eren lançou o olhar ao namorado para ver que este continuava a comer do pão recheado.

“Me pergunto o mesmo.” O dançarino juntou-se a Jean.

“Isso tem nada a ver.” Foi o que Eren disse.

Jean e Marco riram.

Muitos minutos depois, os pratos chegaram. Uns antes de outros.

“Parece muito bom. O cheiro é ótimo.” Rivaille comentou antes de pegar os talheres para poder cortar um pedaço do peito de frango.

O dançarino gostou da comida e roubou um pedaço de brócolis do prato de Eren. Ninguém parecia se incomodar com aquilo. Na verdade, como o adolescente havia lhe contato, era comum que dividissem os pratos.

Enquanto comiam, Rivaille ouviu Jean contar da vez em que, quando crianças, Eren quebrou um braço ao tentar subir no telhado de casa.

“Para que infernos um pirralho subiria num telhado?” O dançarino perguntou, erguendo uma das sobrancelhas.

“Para se encrencar, com certeza.” Thierry brincou.

Durante aquele tempo em que comeram, Rivaille descobriu, através de Armin, que Eren não havia sido uma criança muito comportada, pois metia-se em muito briga e, pelo que o loiro lhe contou, sempre saía machucado. Claro que estava exagerando para poder fazer piada da cara de Eren em frente ao mais velho, dando oportunidade aos outros amigos para fazerem o mesmo.

“Eu juro que odeio todos vocês.” Eren disse. Há muito já havia desistido de retrucar os exageros dos amigos. “Não sei o que há de tão interessante em falar sobre mim.”

“Se você nos odiasse, Jaeger, ficaria sozinho neste mundo, pois ninguém mais lhe suportaria.”

Eren rolou os olhos.

“Ele está fazendo o que seu pai não fez, Eren: te constranger.” Rivaille disse, divertido. “Você é o saco de piadas da roda de amigos.”

“É cla-“

“Está vendo? Até seu namorado reconhece isso.” Jean provocou.

“Cale a boca, Jean.”

Rivaille havia notado que Jean era o mais falante entre todos ali.

Alguns dos garotos à mesa pediram sobremesa. Eren, Rivaille e Thierry recusaram.

O adolescente de olhos turquesas havia guardado o boné dentro da mochila antes mesmo de entrarem no restaurante e isso, agora, possibilitava ao dançarino que deslizasse os dedos pelo cabelo castanho do garoto. “Que fará amanhã?”

“Tenho nada planejado.”

“Passe a noite em minha casa.” Rivaille propôs.

Antes que Eren pudesse responder, o som da voz de Jean voltou ao ar com um zombeteiro “uuhhh”.

Eren estalou a língua. “Que?” Lançou o olhar para Jean.

“Não fique bravo, estou feliz por você. Pela primeira vez dormirá com alguém.” Brincou, provocando-o novamente, utilizando de uma piada infeliz.

O adolescente abriu a boca para retrucar, mas Rivaille foi mais rápido: “Se fosse a primeira vez, ele não estaria tão bom como está agora.” Todos na mesa entendiam muito claramente o tom sugestivo em sua voz.

Eren sentiu as orelhas esquentarem.

Hm, e agora, Jean?” Marco riu.

E agora? Bem, depois dessa, eu me calo e beijo seu rosto adorável!” Escutou, de novo, a risada de Marco e levou uma das mãos ao rosto com sardas, ocupando-se em depositar muitos beijos.

“Ah, muito obrigado!” A voz de Eren veio e este segurou o rosto de Rivaille entre as mãos, tomando-lhe os lábios muito rapidamente. “Finalmente ele ficará quieto. Não sabe o tamanho de meu sofrimento por passar anos escutando a voz desse idiota.”

Não é possível que vocês não sejam namorados.” Rivaille comentou.

“Ah, é possível e não somos! Mas olhe para o rosto cheio de sardas deste rapaz. Simplesmente não tem como resistir.”

“Pare com isso, Jean.” Marco disse, sem graça, mas continuou a receber mimos do outro.

“É como uma versão super melosa de você e de Hanji.” Eren tentou.

“Acho que sua explicação precisa de melhores análises, pirralho.”

Quando as sobremesas chegaram, Eren levantou-se para ir ao banheiro e Rivaille ficou a conversar com Armin e Thierry. Sentia o loiro um pouco hesitante por conta de sua presença e queria ter a certeza do porque. Todavia, contou a ele sobre o curso de Hanji e sobre como Eren havia contato que ele – o loiro – queria fazer a mesma coisa. Explicou-lhe, também, como que a amiga fora para uma área de atuação um pouco distinta de seu ofício e o escutou contar sobre seus planos.

Eren já havia voltado e o assunto com o loiro não demorou a morrer.

Haviam passado na casa de Eren para que este pegasse algumas roupas limpas e então foram para o apartamento do mais velho. Ao entrar, o adolescente encostou-se à parede e aguardou o outro trancar a porta para então puxá-lo pelos ombros, fazendo-o encostas parte das costas em seu torso. As mãos deslizaram para a cintura do menor e Eren não tinha como ver o sorriso torto no rosto pálido. Ergueu a aba do boné e beijou os ombros expostos do namorado, seguindo para a nuca.

Escutou Rivaille murmurar e ele girou o corpo, ficando a encará-lo agora. O dançarino ergueu mais da aba de seu boné e afastou a touca da blusa, que cuidava de esconder parte do acessório. Eren deslizou uma das mãos pelo pescoço do mais velho, parando no rosto dele, e o beijou profunda e demoradamente.

“Não é nada mal namorar um pirralho adolescente.” Rivaille disse ao fim do contato. “É muito sexy, na verdade.” Sorriu torto, recebendo um sorriso semelhante.

Eren nada disse. Deslizou a ponta do nariz pelo maxilar do mais velho e rumou ao pescoço, passando a distribuir beijos naquela região.

Rivaille empurrou, totalmente, a touca para longe da cabeça do garoto, fazendo o mesmo com o boné logo depois, deixando que caísse aos seus pés. Agarrou os cabelos castanhos e teve o corpo puxado pelo adolescente, que ainda tinha as mãos em sua cintura, agarrando-a firme. Inclinou a cabeça, expondo mais do próprio pescoço para Eren.

Novamente, teve o corpo pressionado contra o do garoto, o que o obrigava a ficar, mesmo que por poucos segundos apenas, nas pontas dos pés. Correu as unhas pela nuca do garoto, voltando a esconder os dedos nos cabelos dele e deixou que um gemido abafado lhe escapasse quando Eren, também, gemeu em seu ouvido por conta da pressão entre os corpos.

“Eren,” Rivaille o chamou, seu pescoço ainda recebia atenção. “Eren, pare...” Não queria fazer aquilo daquele jeito, queria tomar um banho antes. É claro que desejava o garoto de maneira urgente, mas obrigava-se a resistir a isto, pois havia sido um dia quente e, de fato, seria melhor que tomassem um banho antes.

Os turquesas caíram, finalmente, sobre os cinzelados. “O que?” Eren perguntou com a voz mais baixa do que realmente pretendia deixar sair.

“Precisamos de um banho antes. Não argumente,” Apressou-se em dizer. “Confie em mim, se sentirá muito melhor depois de um banho...”

Eren resmungou. “Estou excitado... Eu quero-“

“Então é melhor que se apresse para não ter de acabar se masturbando no chuveiro.”

O garoto puxou o ar entredentes e apertou os dedos ao redor da cintura alheia. “Ok.” Foi o que disse antes de beijar o outro, que capturou seu lábio inferior entre os dentes e o puxou com um pouco de força.

Enquanto Eren tomava banho, Rivaille ocupou-se em preparar chá. Havia ido para o chuveiro antes do garoto e este logo estava de volta. Ele foi até a cozinha. O dançarino sorvia da bebida que havia preparado.

“Hei,” Eren pronunciou, aproximando-se do outro. As mãos fazendo caminho até o corpo do mais velho. Inclinou a cabeça para beijá-lo e foi retribuído com um beijo quente e doce por conta do chá. Sugou o lábio alheio e passou as carícias para a orelha do dançarino, que o afastou com a mão.

“Meu chá.” A xícara quente ainda estava em mãos. Rivaille tinha um sorriso torto, divertido, no rosto.

“Ahh, sério?” Eren inclinou-se a fim de beijá-lo novamente. Ouviu uma risadinha e o baixo som da porcelana da xícara contra o mármore da pia. Teve o pescoço rodeado por braços e seu beijo foi, então, retribuído.

Rivaille, uma nova vez, afastou o garoto com a mão, divertindo-se com a expressão levemente emburrada dele. Empurrou-o, então, até a sala, onde o fez sentar sobre o sofá. Posicionou-se entre as pernas abertas de Eren e este pousou as mãos em sua cintura.

Os dedos do dançarino fizeram caminho até a parte de trás das orelhas do garoto, emaranhando-se nos cabelos dele enquanto um joelho era apoiado sobre o estofado, permitindo a Rivaille que montasse no colo de Eren – este, que aproveitou para puxá-lo mais para si, fazendo com que os abdomens colidissem, uma de suas mãos rumou direto à nádega do dançarino. As cortinas cuidavam de cobrir as vidraças desta vez.

Sem pensar em como o tecido esticaria, Eren puxou para baixo a gola da camisa branca que o namorado estava usando e afundou o rosto no peitoral alheio, sorvendo-lhe a pele.

Eren estava rápido e objetivo, Rivaille aprovava suas ações.

Estavam na cama. Haviam feito o necessitado sexo na sala e, após isto, repetiram no quarto. Rivaille não poderia estar mais satisfeito com o adolescente naquele dia. Sentou-se, as pernas para o lado de fora da cama. Estava nu. “Seu amigo, Armin, acho que ele não gosta de mim.” Disse, apoiando o rosto sobre o punho.

Eh? Por que pensa isso?”

“O modo como ele me olha. Com certeza não é um olhar amigável.”

“Eu nunca reparei...”

“Nem sempre foi assim. Não há muito tempo que notei a mudança.” Rivaille podia estar sendo presunçoso, mas tinha certeza de que o loiro não ia muito com sua cara e, validando este pensamento, acreditava que o motivo era o fato de ter feito o moreno de olhos turquesas sofrer. Tentou evitar um suspiro, mas este veio de qualquer forma. Espreguiçou-se demoradamente e pôs-se de pé.

“Aonde vai?” Eren perguntou.

“Ao banheiro.”

O garoto assistiu ao mais velho deixar o quarto e ficou a pensar sobre o que ele havia lhe contado. De fato, nunca havia reparado na expressão de Armin para Rivaille. E... Eles não haviam conversado durante um tempo quando ainda estavam no restaurante? Não parecia haver alguma intriga. O que poderia ser? Armin se incomodava em Rivaille ocupar muito do tempo de Eren? Realmente, por conta do trabalho, estudo e, claro, o relacionamento, havia passado a dedicar menos tempo ao melhor amigo... Fazia de tudo para sempre vê-lo e estar junto com ele, mas ainda sim.

Caso isso não fosse apenas uma impressão e mesmo se essa não fosse a razão, faria de tudo para mudar. Não queria de maneira alguma intrigas entre o namorado e o melhor amigo.

Logo Rivaille estava de volta e este não foi até o lado que mais gostava de dormir na cama, mas ajoelhou-se próximo de onde o garoto estava deitado para então montar-lhe a cintura.

“Que está fazendo?”

Não houve resposta. O dançarino se inclinou e capturou os lábios do adolescente, beijando-o por um longo tempo. As mãos de Eren haviam parado em suas coxas e tratavam de apertá-las e acariciá-las. Então Rivaille descansou o torso sobre o tronco do garoto e ofereceu-lhe carícias na orelha.

No outro dia, enquanto vestia sua blusa de mangas longas, Eren notou que uma parte da costura de uma das mangas havia torado.

“Deixe-me ver.” Rivaille pediu.

“Esta blusa sequer é velha suficiente para isto...” Eren disse, decepcionado.

“Não é nada de mais. Tire-a para que eu possa costurar para você.”

As grossas sobrancelhas juntaram-se levemente. “Você costura?”

“Nada muito profissional. Um remendo ou outro. Fui obrigado a aprender, às vezes, ter o que continuar a vestir.” Explicou, referindo-se aos acontecimentos de seu passado.

Eren nada disse. Fez como o namorado havia pedido e desfez-se da blusa, entregando-a para Rivaille, que a pegou antes de rumar até uma das gavetas da estante da sala e retirar de lá um pequeno rolo de linha preta e uma agulha. Eren observou-o sentar no sofá. Fez o mesmo, acomodando-se ao lado do mais velho.

Os cinzelados miraram o rosto do garoto e Rivaille pediu: “Eren, pegue meu óculos no quarto, por favor.”

“Ok.” Pronunciou antes de se levantar para ir até o outro cômodo, logo trazendo o objeto para o mais velho.

“Obrigado.”

Eren tornou a sentar e observou o namorado a verificar se não havia manchas nas lentes do óculos antes de colocá-los. Então assistiu-o a erguer a pequena agulha e se concentrar por um momento para conseguir acertar o local por onde a linha deveria passar. O fez na primeira tentativa e não demorou a começar a pequena e simples costura na manga da blusa do adolescente, expondo a parte interior do tecido.

Os turquesas estavam fixos e atentos, como se fosse algo muito detalhado, quando, na verdade, apenas adorava a delicadeza com a qual o outro o fazia. Alguns minutos depois, Rivaille cortava o excesso de linha e esticava o tecido para ter certeza de que o havia costurado de maneira resistente antes de entregar a blusa ao garoto, que pareceu muito feliz.

“Muito obrigado!” Disse. “Você é incrível.” Vestiu a peça de roupa.

Rivaille guardou a linha e agulha de volta na gaveta. Cruzou as pernas e apoiou o rosto sobre a mão ao voltar ao estofado. Fitava o adolescente.

“Ficou ótimo.” Eren comentou. “Obrigado.” Repetiu.

“Não há de que.” Recebeu um sorriso do adolescente.

“Você fica tão bonito de óculos.”

“Fico feliz que pense assim, pois é um saco ter de usá-lo...”

Eren riu breve e levou as mãos ao rosto pálido, beijando-lhe os lábios sem demora.

“Vou tomar banho para podermos sair.” Anunciou, pondo-se, de novo, de pé. Seguiu até o banheiro e deixou o adolescente a esperar.

Alguns minutos depois, Eren escutou o som da porta do banheiro sendo aberta, seguido por passos pelo corredor. Foi até o quarto. Rivaille pegava algumas roupas de dentro do guarda-roupas: calça preta e uma camisa cinza escuro. Deixou as peças sobre a cama e abriu uma das gavetas para pegar uma boxer.

O adolescente manteve os olhos fixos no mais velho enquanto ele ocupava-se em se vestir. Adorava o corpo de Rivaille. Assistiu-o, também, a secar os cabelos para então penteá-los e arrumá-los. Os turquesas seguiram os movimentos do outro caminhando de volta ao guarda-roupas e percebeu que ele estava prestes a dizer algo. Eren foi mais rápido: “Não preciso de uma foto.”

Rivaille sorriu de canto e exalou uma risadinha. Tirou, de dentro do armário, uma jaqueta de couro preto.

“Ainda está calor. Não tanto como ontem, ainda bem.” Eren comentou.

“O espaço de exposição é um pouco frio por conta do ar condicionado. Já estive lá algumas vezes.”

“Mesmo?” Eren resmungou algo. “A única blusa que tenho aqui é a moletom...”

Rivaille lançou o olhar ao garoto. “Use esta aqui.” Disse, jogando a peça que segurava ao adolescente.

Que?”

“É um pouco grande. Deve servir bem em você. Experimente.”

Eren pôs-se de pé. “Mas você não ia usar?”

“Experimente.”

O garoto resolveu fazer o que o mais velho lhe pedira e vestiu a jaqueta. O tamanho era simplesmente perfeito.

Eren havia ficado inesperadamente atraente naquela peça. Não que ele já não fosse, pelo contrário. Mas a jaqueta pareceu realçar aquilo. “Ficou ótimo.” Rivaille disse após um momento de pura admiração interna pela imagem do outro.

Eren seguiu até o espelho. Havia ficado muito bom, mesmo, e, também, confortável. Colocou as mãos nos bolsos, virando-se um pouco para tentar visualizar as costas. Sentiu algo em um dos bolsos, porém. Era um papel dobrado. “Tem um papel aqui.” Informou ainda que o dançarino já o tivesse visto.

“Não me lembro de ter deixado algo .” Aproximou-se do garoto.

Eren tratou de desdobrar o papel e, nele, viu que havia um desenho. Juntou as sobrancelhas. Era um desenho bastante amador, parecia ter sido feito por uma criança. “Um desenho. Foi você quem o fez?”

“Sim.”

O garoto surpreendeu-se mais do que havia pensado que faria. “Você não desenha muito bem.”

“Acredito que estava sem nada para fazer no momento, grosso.”

“O que é? Um urso?”

“É a silhueta de uma pessoa. Uh, pare já de olhar para isso.” Rivaille pegou o papel com o desenho das mãos do garoto, que ria.

“Devia ver os desenhos de Armin, são incríveis.”

“Não precisa jogar em minha cara que não tenho habilidade para desenhar.”

Eren riu novamente. Breve, desta vez. “Não é o que quero dizer.” Tirou a jaqueta e voltou a sentar sobre o colchão.

“Use a jaqueta.”

“E o que você irá usar?”

“Decidirei.” Rivaille jogou o desenho no lixo e rumou de volta ao guarda-roupas.

“Então...” Eren começou após um minuto. “Tierrí.” Tentou imitar o modo como o dançarino havia pronunciado o nome do primo de Jean. “Você nunca falou em francês comigo.”

“Falo francês com ninguém.”

“Você falou com Thierry.” Choramingou.

“Apenas o chamei pelo nome.”

“Em francês!” Eren sussurrou.

“Nomes não mudam, Eren, só o pronunciei no modo como é falado na língua de origem.”

Então...”

Rivaille rolou os cinzelados e retirou um cardigã longo com barras em corte V.

“Thierry pareceu muito atirado para seu lado.”

“Você acha? Tenho certeza de que ele não tem interesses em homens. O que é uma pena, pois é um garoto lindo.”

O que?”

O dançarino virou-se para o adolescente, parecendo se divertir um pouco com a situação. “Estou brincando.” Assistiu a Eren cerrar os olhos. “Estou brincando.” Repetiu. “O garoto é, sim, muito bonito.” Esticou a veste em mãos. “Mas é só isso.”

“Como pode ter certeza de que ele não tem interesse por homens?”

“Hm? Ele não parece ter.”

“Eu também não pareço ter.”

“Será?”

Eren abriu a boca para retrucar, mas desistiu. A expressão um pouco emburrada.

“Estou sendo presunçoso. Não acredite em mim.”

O garoto suspirou após um segundo ou dois. Mirou os turquesas ao dançarino, que não o encarava. “Fale em francês comigo.”

“Não.”

“Por que?”

“Não sei falar em francês.”

“É claro que sabe.”

“Quem te disse isso?”

“Você!”

Rivaille se lembrava da ocasião em que contou aquilo ao garoto, estava apenas brincando com ele. “Também lhe contei que não sou fluente.”

“Eu sei. Mas ainda sim...”

O dançarino aproximou-se do adolescente, posicionando-se entre as pernas dele. Levou uma mão ao rosto jovem e disse, com certa serenidade: “Fale em alemão comigo.”

“Eu não sei.”

“Então ficará sem francês hoje.” Tocou os lábios do garoto com as pontas dos dedos, vendo a expressão alheia se contorcer em descrença. Afastou-se, ouvindo-o reclamar. “Minhas botas estão na sala.” Disse antes de seguir até o outro cômodo.

Acomodou-se no sofá para poder vestir as botas e Eren apareceu. O garoto adorava aquelas botas, pois tinham salto e o dançarino ficava ótimo com elas. Não gostava, porém, do inevitável fato de que elas o deixavam mais alto.

A exposição que estavam visitando tratava sobre artes e estruturas abstratas e sinfonia. Era uma exposição paga, mas haviam conseguido comprar o ingresso de Eren dois dias antes.

De fato, o ar condicionado do lugar era simpático com o frio. Eren estava adorando. Não havia ido a uma exposição antes. Uma pessoa ou outra andava com um pequeno caderno em mãos. Achou aquilo interessante e quis saber o que estavam anotando.

Rivaille descobriu adorar a companhia do garoto ali. Tinha a sensação de que o estava ensinando algo. Eren perguntava e comentava sobre as coisas que via e parecia muito contente em vê-las. A sinceridade em seu olhar era admirável.

Ficaram cerca de duas horas no lugar. A parte que o adolescente mais gostou fora as sinfonias. Claro que as notas e as obras se completavam de maneira magnífica.

Depois de saírem do lugar, desfizeram-se das blusas que os protegiam do frio e as jogaram sobre o banco de trás do carro. Iriam a um restaurante japonês. Eren não era grande fã da culinária em questão, mas gostava muito de misosshiro e alga empanada. Rivaille, por sua vez, adorava comida japonesa, mas nunca havia experimentado misosshiro, seria a primeira vez por insistência do adolescente.

Anoitecia e ambos decidiram ir ao estacionamento abandonado que há muito não visitavam. O céu já estava mais escuro quando chegaram. Sentaram na grama e ficaram a observar a paisagem da cidade. O lugar parecia estar vazio, apenas com os dois ali.

Rivaille aproximou o corpo do adolescente e abraçou-o pela cintura, descansando a cabeça no ombro dele enquanto aspirava seu cheiro. Recebeu o olhar e o sorriso do garoto por um momento e ele o acariciou a face. Então Rivaille escondeu a lateral do rosto no peito de Eren, ganhando um pouco mais de seu calor. Uma sensação não familiar apossou-se de seu peito por dois ou três segundos e ele questionou-se sobre mil coisas. Suspirou baixinho, ficando a observar a paisagem sem se afastar do garoto.

Queria ter certeza da sensação que havia ganhado há instantes. Queria, sim, mas tinha medo e sentia-se tão patético por conta disso. Tentava não ser tão duro consigo mesmo em relação a este medo, tentava compreender-se como se fosse alguém à parte, outra pessoa, duas pessoas...

Ficaram durante um longo tempo no estacionamento e viram mais ninguém por lá. O dançarino deixaria o garoto em casa e, ao levá-lo, desceu do carro para dar um oi a Grisha e à Mikasa. Aquilo era estranho. Rivaille nunca havia tido o compromisso de cumprimentar – ou qualquer outra coisa – membros da família de alguém com quem tinha se relacionado. Claro que não foram todos seus relacionamentos passados que havia ficado sem conhecer um parente sequer da pessoa com quem estava. Era comum, porém, que fosse um irmão ou irmã, com quem não chegaria a trocar muitas palavras.

Então aquilo era estranho para si. Estranho e, de alguma forma, de algum jeito muito sútil, prazeroso.

Entraram na casa e ouviram vozes na cozinha. Foram até lá e escutaram Grisha contar a Mikasa: “...Então, ele explicou ao menino como faziam para saber a idade de um fóssil e quantos anos são necessários para considerar algo como fóssil e, antes que o garotinho pudesse entender mal, ele disse,” o médico forçou uma voz ridícula para dizer: “então meu avô é um fóssil? Não!”

Mikasa começou a rir e a atenção dos dois na cozinha foram capturadas pelo dançarino, que também começou a rir. Eren riu junto com os dois, mas muito brevemente.

“Hei,” Grisha pronunciou ao vê-los.

A voz de Mikasa havia deixado o ar aos poucos e a garota tinha uma das mãos sobre a barriga. Quanto ao dançarino, este continuava a rir.

“Não acredito que está rindo de algo assim.” Eren disse.

Rivaille tentou dizer algo, mas não conseguiu. Era a primeira vez que Eren o via rir daquele jeito.

“Que... Que piada horrível, Grisha.” Rivaille conseguiu dizer, uma das mãos, também, sobre a barriga.

“Foi uma conversa que escutei hoje durante o almoço.”

Rivaille tentou deixar a coluna ereta, mas a barriga doeu. Respirou fundo e tentou novamente, conseguindo desta vez.

Aproveite que é médico, pai, e ajude ele.” Mikasa brincou.

“Está melhor?” Eren perguntou.

“Minha barriga dói um pouco, mas é nada de mais.” Ainda sorria.

“Onde passaram o dia?” O médico perguntou.

“Fomos a uma exposição e, depois, a um restaurante.” Preferiu ocultar a parte do estacionamento e contou ao pai sobre a exposição.

Depois de jogar alguma conversa fora. Acompanhou Rivaille até o carro. “Você volta a trabalhar amanhã, não é?”

“Sim.” Havia alívio em sua voz.

Eren sorriu e o observou enquanto entrava no carro. “Será minha última semana de provas.” Comentou.

Rivaille entregou-lhe a mochila e a jaqueta de couro, fazendo-o juntar as sobrancelhas.

“A jaqueta.” O garoto pronunciou.

“Fique com ela.”

“O que?”

“Ficou muito boa em você.”

“Tem certeza?”

“Sim.”

“Bem...” Arrumou a alça da mochila sobre o ombro e ficou a admirar a peça de roupa. “Eu realmente gostei muito dela. Mas me sinto mal em aceitá-la.”

“Não se sinta. Quero que fique.”

O garoto hesitou por um segundo. “Obrigado...” Inclinou-se para depositar um beijo rápido sobre os lábios do outro.

“Não há de que.” Rivaille tocou o rosto do garoto e ficou a encará-lo, olhando-o nos olhos. Era capaz de ler as palavras nos turquesas de Eren enquanto ele sorria doce para si. Não se sentiu muito bem com a situação. Daquela vez, porém, diferente de todas as vezes anteriores, havia algo de diferente em seu incômodo. Tocou a ponta do nariz do garoto com a própria testa e respirou lentamente.

Recebeu, então, um beijo naquela região e voltou a encarar o garoto, que agora, também, tocava seu rosto.

“Quer que eu o encontre amanhã?” Eren perguntou.

“Seria ótimo. Mas não tem de estudar?”

“Ah...!” Pareceu se dar conta de seu compromisso. “Droga... Me desculpe.”

Rivaille sorriu muito sutilmente.

Era sábado e as provas de Eren haviam acabado no dia anterior! Receberia os resultados na semana seguinte e estava muito otimista.

Havia acabado de chegar à academia de artes. Visitaria Rivaille e os outros. Cumprimentou o senhor da portaria, que havia sido informado sobre sua chegada previamente, e seguiu até os corredores que levavam para diversas salas. Eren nunca acreditava em como aquele lugar era grande. E ainda havia áreas que não tinha visitado!

Não encontrou os dançarinos conhecidos, porém. Pelo visto, haviam saído para almoçar. Encontrou, no entanto, Rico, que confirmou seu pensamento. Era compreensível, uma vez que não sabiam a hora de sua chegada.

“Mike, Hanji e Rivaille ainda estão aqui.” A dona dos cabelos claros informou.

“Estão?”

“Mike e Hanji estão no auditório. Rivaille está na sala de dança.”

“Pode me levar até ele. Rivaille.”

Rico demorou dois ou três segundos para responder. “Claro.” E pôs-se a andar.

Eren tinha nenhuma intimidade com a mulher que seguia, o que fazia todo aquele silêncio um tanto constrangedor. A atenção de Rico, o garoto não pôde deixar de notar, estava numa prancheta e ela olhava, vez ou outra, para o caminho que seguiam.

“Ele está aqui.” A mulher informou ao pararem em frente a uma porta de cor branca, assim como todas as outras portas que o garoto já havia visto no lugar.

“Muito obrigado.”

“Não há de que.” Rico disse antes de dar as costas ao garoto e refazer o caminho de volta.

Eren direcionou o olhar à porta e tocou a maçaneta, abrindo-a devagar, uma vez que não havia se preocupado em bater. À primeira brecha que se fez, foi capaz de ouvir um som um pouco alto que não conseguia escutar com a porta fechada. Entrou na sala e encontrou Rivaille. Havia um enorme espelho que cobria por inteiro uma das paredes, a sala era grande. A maior que já havia entrado ali.

Havia um notebook no chão e caixas de som. O dançarino parecia decidir os passos que queria fazer enquanto a música tocava. Eren não se recordava de já ter escutado aquela canção antes, mas, pelo arranjo do som, sabia que era antiga. Não a havia pegado do começo, também.

Nenhuma palavra saiu de sua boca. Encarou o próprio reflexo no espelho por um segundo e ficou a escutar a música enquanto o mais velho, ora ou outra, realizava um passo de dança para então voltar a aparente indecisão. Eren tinha a sensação de que havia entrado numa cena de filme.

Assistiu a Rivaille recuar alguns passos e, no que pareceu ser a entrada do refrão, ele realizou um salto com saída de frente sem a ajuda das mãos, onde, por um ou dois segundos, ficava de cabeça para baixo no ar.

Ao realizar o salto, foi a vez de Eren recuar um passo, surpreendendo-se com sua ação. Como ele conseguia? O garoto questionava-se. Quase sentia inveja de sua habilidade para aquilo.

Um segundo depois daquele movimento, Rivaille girou, mas o giro não foi efetuado com perfeição. Tentou outro, logo em seguida, e, neste, obteve êxito. Realizou mais um e, de acordo com a letra da música, abaixou-se numa posição dramática para erguer-se graciosamente ao fim do refrão.

Voltou a realizar giros e mais um salto veio antes de firmar-se no chão, este, porém, não havia sido igual ao anterior. Pela primeira vez desde que havia entrado naquela sala, Eren recebeu os cinzelados e o dono deste traçou um caminho até si. Ele o tocou e, sem esperar, o garoto sentiu um arrepio. Quando, na música, foi cantado oh help me please, teve os lábios tocados pelos dedos do dançarino num contato muito breve antes que ele deslizasse para suas costas, tocando-a com o próprio dorso.

Então houve a entrada do refrão mais uma vez e Rivaille surgiu de trás de si para realizar um novo giro sem criar muita distância entre os corpos, mas com o cuidado de não atingir o garoto. Em feeling so small, Eren assistiu-o a dramatizar os movimentos do corpo. A música era daquela forma, tinha um instrumental marcado com drama e algo como angústia ou sofrimento. Era a mesma coisa com a expressão e movimentos mais passivos de Rivaille.

Ele – o dançarino – usava uma camisa regata de cor preta cuja costura valorizava muito sua cintura. Eren observou-o a se aproximar uma nova vez e então teve um dos ombros tocado. O que parecia ser o nome da música se repetiu e o mais velho seguiu, novamente, para suas costas, tocando-a da mesma maneira que havia feito antes e, desta vez, deslizou, abaixando-se, passando a tocar a parte inferior de suas coxas com as próprias costas por um momento para então se reerguer e posicionar-se de frente para si, encarando-o durante um segundo apenas.

O som da guitarra tomou espaço na música e Rivaille fez o mesmo com a distância entre os corpos, usando de passos largos e lentos. Os braços foram curvados e giros vieram. Alguns eram seguidos por saltos, surpreendendo o garoto. A intensidade dos passos de acordo com a intensidade da música dava a tudo um clima clichê.

Antes que aquela parte mais alta da canção chegasse ao seu fim, Rivaille retomou a proximidade com o adolescente, voltando a tocar-lhe um dos ombros, mas apenas para ficar a rodar ao redor do corpo alheio até que o primeiro trecho do refrão terminasse. Só então parou, ficando de costas ao garoto, mas um pouco curvado. As mãos juntas em forma de concha à frente do peito, como se estivesse oferecendo algo.

A postura foi corrigida e o dançarino rodeou o corpo uma última vez. À repetição do título, Rivaille voltou à posição anterior: de costas a sua frente. Desta vez, porém, o garoto teve as mãos agarradas e descansadas, logo em seguida, sobre o torso alheio. Eren não sabia o que fazer. Não sabia o que fazer desde o primeiro momento em que Rivaille o havia tocado. Não fazia ideia se mantinha-se parado ou se tinha de fazer alguma coisa.

Então, em watching the sun go down – que era uma parte muito bonita da canção, pois, naquele refrão, a vocalista oferecia mais intensidade à voz –, com as mãos ainda sobre as suas, Eren assistiu ao mais velho repetir o movimento de instantes atrás, abaixando-se enquanto as costas deslizavam por seu tronco, os dedos de uma das mãos agarrando sem força alguma o tecido de sua camisa, os olhos fechados, fazendo Eren perguntar-se se estavam daquela forma quando ele – Rivaille – fez o mesmo por suas costas.

Logo reerguia-se e, pela primeira vez, o garoto teve o rosto tocado e recebeu os cinzelados diretamente em seus turquesas com um olhar que Eren não sabia se já tinha notado no rosto do mais velho. Por um segundo, jurou ter visto Rivaille sibilar a letra, mas antes que pudesse ter certeza de seus pensamentos, teve os lábios capturados e retribuiu ao beijo. A música ainda não havia acabado, mas ficaram a se beijar.

As mãos de Eren pousaram frouxas na cintura alheia e, dessa forma, o volume do som ia diminuindo. Contudo, cinco segundos antes que a música pudesse, de fato, acabar, Rivaille partiu o contato, rodeando seu pescoço com os braços, colocando-se nas pontas dos pés, o rosto escondido. O garoto ficou a encarar seu reflexo junto com o do dançarino.

Outra música começava e esta parecia ter um clima mais animado do que a anterior.

Não haviam se encontrado durante os dias daquela semana e Rivaille tinha pensado muito durante aqueles dias. Pensado em Eren. Pensado em si mesmo. Irritou-se e ficou, também, um pouco depressivo, mas as mudanças de humor eram passageiras.

Sentiu o garoto se mexer minimamente e o abraço foi, muito levemente, apertado.

Percebeu que estava sentindo mais falta de Eren do que o normal. Havia desejado o fim das provas do garoto para que pudesse monopolizá-lo um pouco.

Ah... Sentia-se, sobretudo, em conflito.

“Estava treinando meus saltos.” Mentiu.