Let The Flames Begin
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Na terça-feira, Eren havia encontrado com Rivaille novamente. E, novamente, ficaram a conversar. Passaram cerca de uma hora e meia juntos até que Hanji apareceu para buscar o dançarino, pois este iria à casa da morena. Então despediram-se e, de novo, houve relutância dentro de Eren, assim como o repetitivo pedido em sua cabeça.
Era estranho para o garoto o modo como estava se relacionando com Rivaille agora. Pareciam meros conhecidos, Eren não gostava da sensação, mas lhe agradava passar tempo com o mais velho apesar de não poder tocá-lo.
Quando o silêncio vinha, era mais estranho ainda: não havia voz, toque, olhar... O espaço entre o garoto e o dançarino parecia ser oco e triste. Eren perguntava-se se Rivaille realmente sentia nada por si enquanto pescava-o pelo canto do olho e suas unhas marcavam as palmas das mãos. Ora ou outra, sentia ânsia para perguntar ao outro como é que estava sendo, como é que ele conseguia passar por aquilo, aparentemente, de maneira tão tranquila. Talvez suas impressões estivessem erradas, talvez não. Eren queria que aquilo tudo passasse e, com isto, entrava num dilema de não querer que seu sentimento se esvaísse, porque, de alguma forma, ainda visualizava os bons acontecimentos – egoísta, talvez – e queria que restasse algo para quando estes viessem a acontecer de novo.
Na quinta-feira, após sair do trabalho, Eren foi a um salão: iria cortar o cabelo. Na verdade, ainda estava bastante indeciso sobre se realmente o faria ou não. Havia se apegado ao cabelo mais longo. Contudo, no final, acabou por decidir cortá-lo e logo estava com o corte antigo, à altura das cútis.
Passou a mão pela nuca, fazendo algum drama consigo mesmo ao ver os muitos fios de cabelo no chão. Bem, estava feito.
Ao chegar em casa, a primeira coisa que ouviu foi um assovio vindo de Mikasa, seguido pela voz da garoto, que dizia: “Que gatinho.”
“Acho que me arrependi.” Eren lamentou.
“Ah, logo cresce de novo e você fica feliz.”
Às vezes não entendia o porquê dos descasos de Mikasa.
“Ao menos é um alívio para minha nuca e meus olhos.”
No banho, Eren teve estranhamento com a leveza do cabelo e a falta de fios longos em que seus dedos haviam se habituado a percorrer.
Eren sentia-se muito cansado naquele dia. Não sabia o porquê, pois seu trabalho não tinha sido cansativo. Todavia, após lavar-se, como de costume, deitou. Precisava estudar, mas estava com tanta preguiça... Rolou na cama até encontrar uma posição que o deixasse realmente confortável. No entanto, precisava estudar. Sentou e puxou um dos livros da escola de cima da prateleira para o colo, voltou a deitar e, apoiando o livro sobre o peito, abriu na página que queria e ficou a ler.
Mas não conseguiu se concentrar na leitura, afinal. Sua mente divagava sobre coisas, muitas coisas, e, às vezes, sobre nada, pois estava cansado naquele dia.
Sua cabeça doía na manhã do outro dia. Tomou um remédio e arrumou-se para ir à escola. No meio do caminho, a dor estava mínima. Após a escola, iria passar em casa, pois tinha um tempo, e então seguiria para o trabalho. De lá, iria à casa de Armin e passaria na cafeteria para comprar algo, nutrindo a maldita e pesada esperança de rever Rivaille.
Ouviu muitos comentários decepcionados de garotos e garotas por ter cortado o cabelo. No mais, o dia no trabalho foi agradável e, até mesmo, relaxante. Talvez fosse porque Eren parecia brincar enquanto trabalhava, afinal, lidava com algo que amava. Perguntou-se se o pai sentia-se da mesma forma: relaxado por fazer o que ama. Perguntou-se novamente, pensando, agora, em Hanji e Rivaille, e em Petra também. Sentiu saudade de Petra.
Estava sem peso sobre os ombros, pois havia deixado a mochila em casa, assim como o violão, uma vez que podia usar um dos muitos que tinham ali. Usava calça, tênis, uma camisa branca de mangas longas sem nenhum detalhe especial e uma camisa xadrez vermelha e preta de flanela por cima.
Antes de sair, foi parado por uma das alunas – uma baixinha de cabelos negros e curtos, muito simpática e que adorava fazer piada com tudo que podia. Ela o chamou, “Eren!”
“Oi, Nina.”
“Olhe o que está escrito na porta do banheiro feminino.” Ela mostrou a foto no celular. O novo professor de violão é lindo, e Eren, olhe para mim com esses olhos lindos do mesmo jeito que olha para o violão!
Nina ria enquanto as sobrancelhas de Eren juntavam-se mais a cada palavra lida.
“Quem...”
“Eu não faço ideia.” A garota disse ainda rindo. “Estou te mostrando porque queria ver sua cara.”
“Ah, Nina... Que vergonha.” Riu nervoso. “Vou ficar olhando para as garotas e me perguntando o que será que estão pensando sobre mim, ah... Que terrível.”
“Eu acho que terá, então, de fazer isso não apenas com garotas, Eren.”
“Que quer dizer?”
“Ahh, Eren! Gostoso como você é, acha mesmo que só menina fala sobre você?”
Eren sentiu as orelhas esquentarem imediatamente. Como Nina conseguia ser tão espontânea com o que dizia? “Nina!” A repreendeu, ouvindo-a rir.
“Ó,” a garota dava leves cotoveladas na barriga de Eren “mal chegou e já está conquistando todo mundo.” Brincou.
“É claro que não, Nina...”
“Ahh... Você namora?” A morena perguntou, pousando as mãos sobre a cintura.
Por um momento, Eren pensou que diria sim. “Não...”
“Hm, que não desanimado. Não me diga que é uma daquelas pessoas que lamentam a vida e a morte por não ter um namorado, colocando isso como princípio do mundo.” Nina exagerava sua indignação.
“Não, claro que não.”
“Sei.” Brincou.
“Estou falando sério. De maneira alguma acho que namoro é o princípio de qualquer coisa... Acho este pensamento totalmente imaturo e ilógico.” E realmente achava. No entanto, admitia, claramente, a falta que tinha de seu namorado – ou melhor: ex-namorado.
“Este é o Eren!”
“Preciso ir, Nina. Combinei de encontrar com um amigo.”
“Amigo, sei!”
Eren riu. “Como você é boba. Estou falando de meu melhor amigo.”
“Hmm...” Continuou a brincar, oferecendo um largo sorriso a Eren. “Até amanhã, conquistador.”
O adolescente riu novamente. “Até amanhã, Nina.”
Ao sair, levou o antebraço aos olhos a fim de protegê-los da forte luz do Sol naquele início de fim de tarde. Tirou a camisa xadrez e a amarrou à cintura. Iria à casa de Armin para pegar alguns livros com o avô dele, seu pai havia pedido.
Quando chegou, ficaram a conversar, mas não por muito tempo, pois Armin sairia com Marco e Christa. E Eren... Estava com pressa. Inclusive, esqueceu de pegar os livros e apenas se deu conta disto no meio do caminho, não considerando voltar para pegá-los. Diria ao pai que Armin e o avô não estavam em casa e que os pegaria depois.
Sentia-se agitado e só queria chegar em casa e se jogar no sofá e, talvez, brigar com a irmã por qualquer razão sem noção. Arregaçou as mangas da camisa que vestia e atravessou o farou, olhando de um lado para o outro. Entrou na cafeteria e não havia fila, o que o deixou feliz. Pediu o de sempre e deu de cara com Rivaille quando estava prestes a deixar o prédio. O menor empurrava a porta de vidro e, com os olhos fixos em Eren e a mão ainda na alça da porta, disse: “Para onde está indo, moleque?”
Eren girou nos calcanhares, desajeitado, afastando a boca do canudo de sua bebida. “À lugar algum, senhor.” Brincou.
Rivaille entortou os lábios. “Não me chame de senhor, pirralho.”
Eren riu. Os apelidos não o incomodavam mais. O mais velho seguiu para o balcão e o garoto foi logo ao lado dele. Esperou-o fazer o pedido e, também, recebê-lo. Caminharam até o sofá e Eren fez um gesto cavalheiro, brincando. Rivaille sorriu, ocultando o riso. Sentia falta das bobas brincadeiras do garoto.
Acomodaram-se e o dançarino foi o primeiro a falar: “Certo, agora direi: por que infernos cortou o cabelo? Você é idiota?”
Eren pensou em dizer algo, mas não pôde evitar rir.
“Estou lhe fazendo uma pergunta.“ Beliscou o braço alheio sem força.
“Ah...” Passou a mão pela nuca. “Não sei.”
“Não sei? Eu o matarei, Eren.” Rivaille ameaçou, fazendo-o rir novamente.
“Foi uma decisão difícil, admito. Mas... Ah...” Não sabia realmente o que dizer. “Crescerá de novo...”
Rivaille bufou e evitou girar os olhos.
“Você... Havia realmente gostado tanto assim?”
O mais velho tornou a encarar o garoto, levando dois ou três segundos para enfim responder. “Estava lindo.”
“Hm...”
Rivaille tinha os olhos fixos no cabelo agora curto enquanto balançava a cabeça negativamente.
“Não me olhe assim.”
O dançarino suspirou baixinho e bebericou o cappuccino.
“Hanji me ligou para falar sobre a festa de seu amigo.” Eren mudou de assunto. “Perguntei o endereço, mas ela ficou conversando e acabou não me informando. Será que você pode me passar?”
“Vocês são dois tontos. Me encontre amanhã e iremos juntos.”
“Mesmo? Obrigado!” Sentiu um pouco de nervosismo. “Que horas acontecerá?”
“Hm,” Rivaille pensou. “Se bem me lembro, começará às 21 horas.”
“Se bem me lembro? Está mesmo ficando velho, hm?” Eren se atreveu a fazer piada, recebendo, de imediato, o olhar de morte de Rivaille e sentiu uma pontada de arrependimento. Ganhou um tapa no braço, mas foi apenas isto. Havia fechado os olhos para receber a dor e os abriu hesitante. “Sabe que estou brincando, sim?”
Rivaille cerrou os olhos. Claro que sabia que o garoto apenas queria o provocar. Agora era sua vez.
“Não pensou que eu estivesse falando sério, não é?”
Continuou a ignorá-lo.
“Rivaille,” Eren tocou-lhe o cotovelo.
“Certo, Eren,” o homem disse finalmente “não o ignorarei mais se-“
“Está falando comigo, não está mais me ignorando. Não tem por que colocar condições.” Havia um sorriso largo e sacana em seu rosto enquanto a expressão do mais velho desmanchava-se em algo que fazia aquela pontada de arrependimento voltar ao peito de Eren. “Estou brincando, estou brincando!” Apressou-se em dizer.
Rivaille, então, deu de ombros. “Moleque.”
Eren sentiu o impulso de beijá-lo, como fazia quando o provocava e ganhava aquele tipo de reação, ou algo semelhante. Mas parou antes da metade do caminho. Engoliu em seco.
“Você sabia que quando você se mexe, seu perfume parece que se desprende de seu corpo cada vez mais?”
Rivaille ficou em silêncio por um momento ou dois. “Isto se dá porque, diferente de pirralhos como você, eu sou limpo.”
“Está insinuando que não sou limpo, moço?”
“Se você está se reconhecendo como um pirralho, sim.”
“Vo-“ Eren interrompeu-se e riu. “Está de bom humor.” Observou. “Comprarei um perfume igual ao seu para não dizer isto de mim.” Dramatizou.
O assunto morreu, trazendo silêncio. O mais velho sorvia de sua bebida. Eren espreguiçou-se, ouvindo seus ossos estalarem. Rivaille, agora, mexia em algo no celular.
“Que é isso?” O garoto perguntou.
“Ah... São fotos de uma peça que Petra está dirigindo.” Mostrou a Eren. “Não está lindo?”
“Muito bonito... Você não está fazendo parte? Petra também tem esta função?”
“Não, não estou. Surgiu a oportunidade e, bem, ela sempre quis fazer isso. Não estou dentro da escala porque os ensaios etc começaram há pouquíssimo tempo e os idiotas estão me obrigando a tirar férias. Não seria inteligente se eu participasse agora.” Suspirou. “É uma pena.”
“Acho que você é a única pessoa que conheço que reclama por tirar férias.”
“Ahh... Odeio tempo ocioso, Eren. Enfim... Estamos muito felizes por Petra.”
Eren sorriu doce.
“Olhe,” O mais velho continuou a mostrar as fotos para Eren.
“Ela parece estar muito feliz, também. Ah! Olhe, que bonita, sorrindo para a câmera.” Uma pausa enquanto visualizava outra foto. “Estou com saudade de Petra...”
Foi a vez de Rivaille sorrir doce, então mudou o assunto. “Quando terminará suas aulas?” Perguntou, guardando o aparelho na bolsa.
“Em um mês e meio.”
“Não sabe como é bom terminar o colégio...”
“Imagino. Mal posso esperar!”
“Ainda estou inconformado que tenha cortado o cabelo.” Rivaille voltou a lamentar.
“Acho que você está sofrendo mais do que eu por causa disso.” Riu breve. “Hanji não virá?”
“Ela está ocupada com os preparativos da festa de Moblit. Aposto que ele já sabe dessa comemoração... Hanji não consegue ficar quieta.”
“Gosto muito de Hanji.” Eren declarou.
“Ela gosta muito de você.” Rivaille disse, oferecendo a Eren um bonito sorriso. Estavam tão perto um do outro, os rostos separados por poucos centímetros.
Encaravam-se. Rivaille recuou insignificativamente e Eren disse: “Fui de saia à escola.”
O dançarino juntou as sobrancelhas e só então o garoto pareceu se dar conta do que havia falado. “A-ah!” Começou a rir. “É que... Como estamos nos aproximando do fim no colégio, o pessoal combina de ir com umas roupas diferentes, até mesmo fantasias, para curtir... Em um dos dias, acabei usando uma saia. Até que é bem confortável. Olhe.” Retirou o celular do bolso e procurou por foto. “Tiraram algumas fotos para mim.” Mostrou a Rivaille uma foto sua usando uma longa saia preta, numa pose cômica e ridícula.
“Teria ficado melhor se mostrasse as pernas.” O dançarino brincou e o adolescente, novamente, riu.
“Nem todo cara tem pernas bonitas como as suas.” Sentiu-se um pouco sem jeito por dizer isto. Um dos motivos era que parecia estar atravessando uma fronteira que não lhe era mais permitida.
“Oh, obrigado?” Rivaille sorriu de canto.
“Você continua sendo convencido, não é?” Guardou o aparelho no bolso.
“Grosso! Não sou convencido.”
Eren ergueu uma sobrancelha, divertido.
“Não me olhe assim, moleque desrespeitoso.” Dramatizou.
“Assim você parece uma senhora falando.”
“Eren!”
“Desculpe.” Disse, mas não parava de rir.
“Está mais engraçadinho do que o normal.”
“É porque eu sou muito engraçado.”
Foi a vez de Rivaille erguer uma das sobrancelhas.
“Estou brincando.” Eren declarou.
“É claro que está.”
O garoto abriu a boca, fingindo-se de estarrecido pela fala do outro, mas tudo o que recebeu foi um olhar de desentendimento, então desfez a expressão forçada e evitou rir mais. Sentia a garganta um pouco seca e não esperou para continuar a tomar de seu suco.
“Planeja ir a algum lugar em suas férias?” Perguntou após beber.
“Sim.”
“Para onde?”
“Estou pensando em passar alguns dias no litoral... Sinto falta do mar.”
“Eu nunca vi o mar.” Rivaille o lançou o olhar e Eren apressou-se em dizer: “Digo, já o vi, mas quando estava dentro do avião. Nunca fiquei admirando o horizonte ao longo do mar...”
Rivaille ficou a encarar o garoto por alguns segundos e nada disse. Desviou o olhar. “Ah... Meu cappuccino esfriou demais.” Comentou ao molhar os lábios com o líquido a fim de bebê-lo. “Vou pegar outro.” Levantou. “Quer algo?”
“Não, obrigado.”
“Venho logo.”
Eren fez que sim com a cabeça e observou o mais velho ir até o balcão. Depois que Rivaille fez o pedido, ficou a esperar. O adolescente recebeu seu olhar num dado momento e fez um sinal com o polegar, piscando, brincalhão, para o mais velho, que sorriu e balançou a cabeça levemente. Logo sua atenção foi roubada pelo funcionário que o entregava o cappuccino quente.
Voltou para o lado de Eren e acomodou-se, sorvendo do líquido na xícara. “Não tem vindo aqui com seus amigos.” Comentou após descansar o pires sobre a mesa.
“Eles estão ficando em casa para estudar para as provas finais, mas ainda sim a gente vem para cá.”
“E você não devia estar fazendo o mesmo?”
“O mesmo o que?”
“Estudando para as provas finais.”
“Ah, sim. Eu estou. Admito que talvez nem tanto como eu deveria, mas estou. Ainda há um tempo. As matérias que tenho mais dificuldade são química e geografia, mas tenho um amigo que me ajuda muito com a primeira.”
“Sabia que sou muito bom em química e em geografia?”
“Mesmo?”
“Não lembra que lhe contei como era bom na escola, moleque?” Bateu de leve seu joelho no joelho alheio.
Eren juntou as sobrancelhas, tentando recordar do que o outro falava.
“Não me diga que esqueceu...”
“Ahh, não! Lembrei! Juro que lembrei!” Disse ao ver a expressão do mais velho. Havia realmente lembrado: o dia em que Rivaille lhe contou sobre sua adolescência, o dia em que o tocou pela primeira vez... “Juro que lembrei...” Repetiu.
“Bem,” Rivaille ignorou “admito me dar muito melhor com a geografia, mas ainda lembro alguma coisa sobre química – teoria, claro.”
“Então não é mais tão bom assim.”
“Ah, mas você está ótimo para me sacanear hoje, hm?!”
Eren riu alto e abraçou o dançarino, envolvendo-lhe os ombros e braços, num ato instintivo. O carinho era mais amigável do que movido por qualquer sentimento mais profundo que tinha pelo outro. No entanto, ainda sim trouxe grande estranheza, o que o fez soltá-lo. Estava absorvendo as ações de Jean... Soava quase como uma pergunta. “Desculpe.” Coçou o pescoço.
“Tudo bem.”
Os corpos separaram-se e logo o clima de estranheza ia se esvaindo. As bebidas tiveram seus fins e alguns minutos se foram enquanto os dois conversavam e brincavam, ora rindo, ora lamentando com algum drama inventado. Ninguém ao redor diria que eram ex-namorados. Talvez também não dissessem que fossem namorados, mas o ar amigável e gostoso entre eles era divertido de ver.
Em certo momento, Rivaille havia até mesmo refletido, ainda que rapidamente, sobre como estavam se dando bem durante os dias em que se encontraram naquela semana. Uma certa música – muito gostosa de ouvir, nada deprimente – tocou em sua cabeça, mas forçou-a a ir embora, não queria associações.
“Sabe que eu passei a ouvir algumas das bandas que você gosta? São muito boas.”
“Ah, é?”
“Até mesmo peguei algumas músicas no violão.”
“Falando nisso, faz...” Rivaille arrependeu-se um pouco por abrir a boca para falar o que estava prestes a sair, mas já havia começado. Sendo assim, continuou: “Queria ouvi-lo tocar.”
“Sério? Se eu soubesse... Teria trazido o violão. Não o levei para o trabalho hoje já que posso usar os violões que ficam lá.” Explicou.
“Agh... Acho que você terá de me recompensar por essa falha me comprando um daqueles bolinhos deliciosos.”
Eren abriu um largo sorriso. Queria apertar as bochechas de Rivaille. “Droga! Serei obrigado a comprar isso para você...” Brincou.
“E é melhor que compre já.”
“Estou indo, estou indo!” Eren correu até o balcão e não demorou para voltar com o pedido de Rivaille. “Aqui está.” Entregou o bolinho num pratinho onde estavam descansados, também, um garfo e faca.
“Oh, nem mesmo terei de sujar minhas mãos.” Riram. “Obrigado, Eren.”
“Gente delicada não gosta de sujar as mãos, huh? – Não há de que.”
“Não sou delicado. Posso muito bem lhe tirar um dente com um chute.”
Eren riu. “Eu não duvido.” Assistiu a Rivaille morder um pedaço da massa de chocolate e logo a voz do dançarino veio.
“Que delícia...” Cobria a boca com as pontas dos dedos para falar. “Aceita?” Ofereceu o doce a Eren.
“Obrigado.” O garoto recusou.
Enquanto o mais velho comia, Eren descansou as costas no encosto do sofá, ficando preguiçoso ali. Rivaille parecia sempre sentar da mesma maneira, observou: pernas cruzadas, a postura não ereta, pulsos juntos ou braços apoiados em algum encosto.
“Que foi?” O dono dos cinzelados perguntou, mirando Eren.
“Huh? Nada.” Eren estava praticamente deitado no sofá, apenas as pernas mantinham-se para fora.
Rivaille terminou de comer em silêncio e fitou o garoto por um instante antes de desviar o olhar e voltou a encará-lo, fazendo-o ter, por um momento, a forte sensação de que o beijaria. No entanto, Rivaille apenas colocou-se na mesma posição de Eren, ficando folgado sobre o sofá.
“Se alguém vier reclamar, direi que a culpa é sua.”
Eren riu. “Ok.”
Rivaille remexeu-se. “Esta posição não deve ser das melhores para a coluna.”
“Quem sabe?” Eren sentiu-se bem e, ao mesmo tempo, nervoso. Queria que, ao olharem para cima, avistassem estrelas invés de um teto.
“Acho que comprarei alguns daqueles bolinhos para levar para casa.”
“Parece que você realmente gostou deles.”
“Sim.”
“Você não tem cara de quem gosta de doces.”
“Não gosto em excesso.”
“Tem de provar meu doce de coco.”
“Hm, tenho?”
“É uma delícia! Minha irmã e meu pai adoram.”
“Então você sabe fazer algo.”
“Não seja cruel.”
Rivaille sorriu levemente de canto.
Eren olhou para o mais velho e este fitava o teto do lugar. Estavam tendo um momento parecido com os outros dias em que havia se encontrado ainda naquela semana. Nos dias anteriores, também haviam ficado tempos conversando e rindo. Parecia que aquilo estava se tornando parte da rotina – bem queria Eren, que perguntava-se se continuariam naquela boa relação e se, no final, poderiam ficar... De novo... Juntos...
Sem intenção, Eren virou o rosto no momento em que os olhos de Rivaille caíram sobre si. Suspirou baixinho e fechou os olhos por um instante. Quis saber se o outro o beijaria agora. Grande idiota. Mas... O que será que Rivaille estava pensando? O que será que ele achava de tudo aquilo? Sobre os últimos dias... Em que passaram tanto tempo juntos. Na quarta-feira havia até mesmo o acompanhado até a portaria de onde morava. Suspirou novamente.
“Está cansado?” O dançarino perguntou.
“Não. Não exatamente.”
“Parece um pouco cansado.”
Eren nada disse.
Rivaille sentou-se, apertando os olhos com as palmas das mãos e bagunçou a franja logo em seguida, para então arrumá-la. “Vou embora.” Anunciou.
“Agora?”
“Sim.”
Eren sentou-se e observou Rivaille mexer na bolsa para então colocar-se de pé. Seguiu o dono dos cinzelados e levantou-se, percebendo que sua camisa estava frouxa na cinta. Soltou-a e logo a amarrou de novo, mais firmemente.
“Também está indo?”
“Uh-huh.” E saíram do prédio.
O céu não estava claro, nem escuro. Eren bocejou e perguntou: “Quer companhia de novo?”
Rivaille entortou o lábio, parecendo pensar. “Aceito.”
“Então vamos lá.” Eren dobrou o braço num gesto cavalheiro e Rivaille o segurou, divertindo-se. Então puseram-se a caminhar até a estação.
Eren admitia estar adorando toda aquela aproximação. Mas também confessava que a achava cruel.
Seguiram conversando e separaram-se apenas quando chegaram em frente à estação de metrô. Logo estavam no vagão e não demorou para que saíssem ao chegar na estação que queriam.
“Ah! Esqueci de comprar os bolinhos!” Rivaille disse. Já estavam próximos ao apartamento dele, a ideia de voltar ao lugar para comprá-los lhe era inconcebível agora.
“Ahh, droga!” Eren pronunciou.
“Droga...” Rivaille repetiu, parando em frente à portaria. O céu, agora, havia se tornado escuro.
“Poxa, compre na segunda-feira.” O adolescente sugeriu.
“Será o jeito...” Parecia chateado. “Isto é culpa sua, seu moleque!” Socou de leve o peito de Eren, fazendo-o rir e segurar seu pulso.
“Por que minha culpa?”
“Por ter me oferecido aquela coisa.”
Eren riu de novo. Ainda segurava o pulso de Rivaille. Encaravam-se.
O adolescente ofereceu, com o polegar, um carinho ao pulso alheio. O clima entre os dois havia mudado. Rivaille parecia hesitar sobre algo, Eren parecia nervoso, seu coração, novamente, acelerado.
“Preciso subir, Eren.” A voz do mais velho cortou o silêncio.
O garoto fez um gesto com a cabeça, compreendia. Queria tanto beijar Rivaille. Ah, queria tocar-lhe a face... Quebrar não somente a distância física entre os dois... Não queria ir embora.
“Até amanhã.” Eren disse, soltando o pulso do mais velho.
“Até amanhã, Eren. Ah! Me encontre às 20h20 em frente à estação, pode ser?”
“Claro!” Sorriu e pôs-se a caminhar. Quando estava há alguma distância da portaria, olhou para trás e avistou Rivaille ainda lá. Ele conversava com alguém que Eren não conhecia, uma mulher.
Voltou a atenção ao caminho em que seguia e a cada passo dado, queria nunca ter virado as costas ao outro. Continuava a se sentir um imbecil, nada poderia fazer quanto a isso. Queria descobrir uma maneira de arrancar – ou, ao menos, amenizar – aquilo que lhe parecia um túmulo no peito de Rivaille – por mais dramática que a associação pudesse parecer.
Queria ter coragem de confessar a ele o quanto desejava aquilo, o quanto gostaria de cuidá-lo, protegê-lo... Era isto. Queria olhar fundo naqueles cinzelados tão bonitos e silenciosos e dizer que pensava ter apenas se apaixonado, quando, na verdade, havia criado e alimentado um desejo imenso de proteção. Talvez a ideia fosse idealizadora demais, conotativa demais... Mas Eren acreditava que sentimentos eram abstratos e preferia assim.
Ansiava tanto pelo abandono daquele amor ao mesmo passo em que ansiava por Rivaille de volta em seus braços. Não numa brincadeira enquanto o acompanha até em casa, mas como amante, como eram antes. Amaldiçoava o dia em que o dançarino resolvera sentar-se à mesa consigo e puxar algum assunto. Ele poderia tê-lo simplesmente ignorado, ter deixado o acontecimento com o suco passar e... Passar.
Ah, por que Rivaille não compreendia?! Por que não o deixava tentar?! Eren apenas queria... Tentar. Sentia que tudo escorria por entre os dedos. Se não fizesse algo, em pouco tempo, nada mais teria.
Parecia que alguma estranha coragem o havia invadido agora. Sentia que se não fizesse algo já, não mais o faria. Não queria que Rivaille habituasse-se a sua companhia como simples amigo, pois não era assim que se sentia em relação a ele. Tudo aquilo podia ser a maior demonstração de egoísmo do mundo, mas, para dizer a verdade, Eren não estava dando a mínima. Precisava tentar! Precisava se arriscar às coisas, havia decidido! Se apenas esperasse, nada aconteceria: não receberia sim, não receberia não. E por mais doloroso que o não pudesse ser, tinha de experimentá-lo! Era 50x50, não?
Um grande medo veio fazer companhia à sua coragem dentro de seu peito. Voltaria. E se Rivaille não estivesse mais lá, toda aquela coragem se esvairia e, talvez, não mais voltasse. Eren queria arriscar. Quem sabe estava apenas vivendo um momento de adrenalina, de loucura... Não sabia e sequer queria se dar ao trabalho de descobrir, o que queria mesmo era fazer. Então mudou a direção do caminho em que andava, já estava consideravelmente afastado do prédio onde Rivaille vivia e torcia para que este ainda estivesse parado na calçada, tamanho era seu palpite de que ele não estaria.
Então teria de correr, e assim o fez. Já era noite, mas as ruas estavam movimentadas, pois, apesar do céu escuro, não era nem um pouco tarde. Por que não caminhei mais devagar até aqui?, Eren questionava-se.
O aperto das mangas de sua camisa voltou a afrouxar em sua cintura, corria o mais rápido que conseguia. A atenção das pessoas paravam em si. Talvez elas estivessem se perguntando o porquê de ele estar correndo tanto. Não deu importância.
Sentia o laço da camisa muito fraco e logo o tecido se desprendeu de sua cintura, fazendo-o questionar-se se pararia para pegá-lo ou o deixaria para trás. Escolheu a segunda opção e ouviu alguém gritando que havia deixado cair a veste. Ignorou.
Ao chegar à esquina que o levaria ao prédio do dançarino, tentou acelerar um pouco mais sua corrida, ainda torcendo muito para que ele estivesse lá. Ao avistar o conjunto de prédios, seu coração não pôde bater mais rápido: Rivaille despedia-se da mulher com quem conversava. Eren atravessou a rua, passando para a calçada onde o mais velho estava – ele abria o portão da portaria e toda a cena parecia acontecer em câmera lenta para o adolescente. Era tão dramático e clichê.
Os cinzelados finalmente caíram arregalados sobre si.
“Ere-“
Eren havia finalmente parado. As mãos descansavam sobre o joelho enquanto tentava, fervorosamente, recuperar o fôlego. Havia feito um sinal para que Rivaille ficasse quieto.
Ele estava ali. Nem podia acreditar. Ele estava ali.
“Eren, o que houve?” Rivaille perguntava preocupado.
O garoto ajeitou sua postura, ainda com alguma dificuldade para respirar.
“Por que es-“
Novamente, Eren fez final para que o mais velho se calasse e antes que ele tivesse tempo para protestar, o puxou pela cintura e o beijou.
Rivaille não teve reação. Eren o havia pego totalmente de surpresa. Mantinha os olhos abertos, uma das mãos estava sobre o ombro do garoto. Apertou-o, fazendo o mesmo com os olhos, e separaram-se. “Eren, o qu-“
“Por favor, fique quieto.”
“O que?” Perguntou um pouco irritado e teve os lábios tomados novamente. Desta vez, deu um leve soco no ombro do adolescente, mas ele não o soltou. “Eren!” Os lábios foram, finalmente, livres.
“Por favor, fique quieto e me escute.” Eren ainda o tinha perto pela cintura.
“Eren, eu-“
“Shhhh!” O garoto roubou-lhe outro beijo. Ah, Eren havia sentido tanta, tanta falta daquele gesto... Se não tivesse o que falar para Rivaille, apenas o beijaria. “Você já conheceu alguém que fosse ridiculamente incrível em cada coisinha...? E talvez ela não fosse incrível para todos, mas, para você, ela era simplesmente incrível...” Fez uma pausa, procurando por ar. “Eu penso em você... Quando estou sozinho, quando estou entre amigos, na escola, no trabalho. Penso em você quando vou dormir, quando acordo... E penso em como seria legal ter suas coisas junto das minhas. A sua escova de dentes-“ Riu, sentindo-se ridículo. “Eu sei que estou exagerando, talvez soando ridículo, mas não posso prender meus pensamentos. Então eu fico pensando em como seria mesmo legal ter minhas roupas entre as suas, e suas pernas entre as minhas, meus dedos entre os seus, sua xícara ao lado da minha...”
“Eren...”
Os turquesas de Eren começavam a marejar e ele desviou o olhar por um segundo. “Eu quero cuidar de você.” Declarou. “Quero te dar carinho, fazê-lo se sentir seguro ao meu lado, protegê-lo... Eu quero... Me juntar a você em sua luta para tentar vencer as coisas que te assombram.”
Rivaille não era feito de gelo – e de qualquer forma, gelos derretem. Sentiu as lágrimas subir-lhe aos olhos. Não chorou. Eren parecia tocar fundo nos medos que se escondiam em seu peito. Como ele ousava? Ninguém nunca o havia dito aquilo... Daquela forma, ainda, alfinetando-o tão profundamente, parecia estar sendo exposto de alguma forma, como se toda sua privacidade estivesse sendo invadida. Era um sentimento estranho.
“Eu pensei,” Eren continuou “que havia apenas me apaixonado por você. Na verdade eu enxerguei que criei – e alimentei – um desejo de proteção. E tudo isso cai sobre você, Rivaille.” Levou uma das mãos ao rosto pálido e surpreendeu-se quando Rivaille a tocou, acariciando-a, percebendo só agora que seus dedos tremiam. “Eu...” Queria dizer algo mais. Mas o que? Procurou por todas as palavras do mundo, nenhuma saiu por sua boca. Recebia os cinzelados que pareciam tão sofridos e não esperou mais para beijar o dono dos olhos.
Não houve relutância por parte de Rivaille desta vez. Ao corte do beijo, Eren abraçou o menor fortemente, e este escondeu o rosto em seu peito, apertando-lhe a camisa entre os dedos.
Naquele momento, Rivaille acreditava em Eren. Havia agarrado-se desesperadamente em cada palavra do garoto. Sabia que todas eram verdadeiras, e sabia, também, que não havia garantias concretas de que seriam realizadas com êxito. Todavia, sentia, nas palavras de Eren os sentimentos dele. Perguntava-se se era alguém por quem valesse, realmente, a pena lutar. Eren parecia achar que sim. Apertou os dedos que amassavam o tecido da roupa do adolescente e, por um segundo, não soube o que fazer. Queria chorar para, talvez, sentir-se mais leve. Não choraria, porém.
“Idiota.” Pronunciou baixo e abafado.
“Huh?” Eren fungou, secando as poucas lágrimas que haviam rolado por seu rosto.
“Idiota, idiota!” Xingava-o enquanto batia, muito levemente, a própria testa no peito alheio.
Eren riu sem saber o que estava acontecendo.
“Idiota...” Teve o rosto erguido pelo outro.
“Por que está me xingando?”
Não respondeu. Passou as costas dos dedos sob as narinas e fitou os turquesas, não conseguindo evitar uma risadinha.
“O que?”
O dançarino levou uma das mãos à face do garoto, sorrindo doce e sincero para ele. “Vamos entrar.” Disse por fim.
“O-o-“
“Vem.” Segurou a mão de Eren, voltando a surpreendê-lo. Abriu o portão e ofereceu um sorriso fraco ao homem que o deu boa noite da guarita, perguntando-se se ele havia assistido a tudo.
Seguiram até os elevadores.
Enquanto esperavam, Eren sentiu-se um pouco sem graça pelos cinzelados fixos em si. Desviou o olhar, fazendo uma careta engraçada, e recebeu o sorriso do outro junto com uma carícia no rosto. O abraçou e foi retribuído com firmeza. O elevador chegou e ambos esperaram algumas pessoas saírem para então entrar.
“Agora notei...” Rivaille começou. “Onde está sua camisa xadrez?”
“Ah! Eu... A deixei cair enquanto vinha para cá.”
“Ah, Eren...” Rivaille entortou o lábio, rindo baixinho.
“Poxa, espero que alguém a tenha pego para me devolver. Gosto tanto dela.”
“Você acha mesmo?”
“Bem, eu espero.”
O elevador apitou a chegada ao 14º andar e os dois saíram. Rivaille procurou pelas chaves dentro da bolsa e logo abria a porta, adentrando o apartamento, ligando as luzes e sendo seguido pelo garoto.
Ah, Eren havia sentido tanta falta do cheiro daquele lugar. Havia sentido falta até mesmo da limpeza.
“Sente-se, eu já volto.”
“E-“ Eren observou Rivaille ir até o quarto.
Não acreditava que havia falado e feito o que disse e fez... Seus dedos ainda tremiam. Não sabia se o que estava acontecendo era real ou um sonho. Tinha um formigamento no estômago.
Rivaille não demorou a voltar. Trazia um lençol consigo. Eren juntou as sobrancelhas.
“Prontinho.” O dançarino instalou-se ao lado do garoto no sofá, cobrindo-o junto de si. Abraçou-lhe pelo abdômen, sentindo-se realmente bem, era muito aconchegante.
Quanto a Eren, este sentia-se um tanto confuso. “Eh...” Riu nervoso. “O que... Eu acho que não entendi.”
“Huh?”
“Isso...”
Rivaille riu. “Você é extremamente lerdo.”
Eren abriu a boca para falar algo, mas o outro foi mais rápido.
“Me diz tudo aquilo e ainda não entendeu?” Não houve resposta. “Tire os sapatos.”
Eren fez como foi pedido e descansou os pés sobre o estofado.
“Isso...” Voltou a abraçar o garoto, descansando a cabeça sobre o peito alheio. “Hmm...” Respirou calmo. “Seu coração está rápido.” Comentou, observando Eren ficar sem graça, sem saber para onde olhar.
“Bem...” Mordeu o próprio lábio. “O que você queria?”
Rivaille fez um gesto com a cabeça e a ergueu, aproximando-se do rosto do outro. Olhou-o nos olhos e pôde ver seu próprio reflexo ali, desenhado naquela coloração tão linda dos orbes de Eren. Acariciou-lhe a face e o beijaria sem pressa alguma se o garoto não tivesse, afobado, tocado seus lábios num contato necessitado. “Pirralho...” Eren nada disse, apenas continuou a beijá-lo.
O adolescente o obrigava a deitar de costas no sofá, sem quebrar o contato. Quando estava por cima do corpo menor, separou os rostos e ficou a encará-lo. Sua mão descansava na face pálida, sendo acariciada por dedos também pálidos.
“Não está brincando, está?” Sua voz veio baixa e rouca.
Rivaille apenas fez que não com a cabeça.
Os olhos de Eren voltaram a encher de lágrimas. “Está falando sério?”
Rivaille sorriu. “Estou, moleque chorão.” Afastou, com o polegar, as lágrimas que caíam.
Eren o ajudou, mas elas continuavam a rolar. “Desculpe... Estou chorando em cima de você.” Riu nervoso.
“Como disse: você é um chorão.”
O garoto riu novamente. “Me desculpe...”
“Pare de se desculpar.”
“Acho que estou com medo.”
Foi a vez de Eren o surpreender. “Medo de quê?”
O garoto balançou a cabeça. “Eu não sei. É só algo que está no meu peito...”
Rivaille ainda afastava as lágrimas.
Eren o encara nos olhos, acariciando-lhe a pele macia do rosto. “Eu me preocupo com você, seu grande imbecil.” Desabafou.
O dançarino sorriu. “Eu sei.”
O choro de Eren havia se tornado constantemente audível. O garoto afundou o rosto molhado na curva do pescoço alheio e foi abraçado novamente. “Nós vamos,” começou com certa dificuldade por conta do choro. “Nós vamos ir contra isto juntos.”
O peito de Rivaille pesou e seus olhos tornaram, também, a encher de lágrimas. Talvez Eren não tivesse ideia do peso de suas palavras sobre o dançarino. Apertou o corpo maior em seu abraço.
“Eu estou com você.” O garoto continuou a dizer. Ergueu a cabeça, voltando a encarar Rivaille, e seus olhos arregalaram mínimos ao ver as lágrimas contidas pelos olhos do outro.
“Obrigado.” O mais velho disse. “Obrigado, Eren...” Acariciou o rosto jovem e o trouxe para perto. Segurou-lhe a mão e recebeu o beijo cheio de necessidade e paixão.
Passaram a noite assim: deitados no sofá, compartilhando beijos, olhares, carinhos. Não houve promiscuidade. Compartilharam, também, de uma xícara de chocolate quente preparado por Eren, que, enquanto o fazia, deixou cair um pouco de leite no chão e esperou por uma boa bronca, mas, no lugar disto, recebeu uma risada.
Eren queria ter ficado sem tomar banho, mas Rivaille não admitiu tal ideia e o obrigou a se lavar. Até mesmo sugeriu que tomassem banho juntos, mas Eren recusou. Sabia que se o fizessem, não aguentaria ficar sem tocar o corpo alheio. Rivaille compreendeu e seguiu para o banheiro antes do garoto.
No dia seguinte, para a surpresa de ambos, Eren foi o primeiro a acordar. Sua cabeça doía um pouco por conta do braço do sofá, haviam dormido ali. Estava tão feliz por ter Rivaille descansando sobre seu peito... No entanto, não teve muito tempo para observá-lo dormir, pois ele logo acordou.
Tiveram o café da manhã e por volta das 13h, Rivaille levou Eren para casa. Beijaram-se no carro e despediram-se. Reencontrariam-se dentro de quatro ou cinco horas. Haviam remarcado o horário e o local onde iriam se encontrar.
Eren entrou em casa e subiu, indo em direção ao quarto da irmã. A porta estava aberta, mas ainda sim, bateu. “Oi.”
“Eren! Finalmente chegou. Onde esteve? O pai disse que passaria a noite fora de casa.”
Entrou no quarto da garota. “Quero te contar algo.”
“O que?”
Sentou ao lado dela na cama. Mikasa estava deitada, lendo algum livro e ouvindo música num volume baixo.
“Estou feliz.” Confessou.
Mikasa juntou as sobrancelhas levemente. “Ora, que bom.”
Eren sorriu. “Você será a primeira pessoa a saber disto.” Respirou. “Estive com Rivaille e nós nos acertamos.”
Mikasa precisou de um segundo. “Espere... Se acertaram como? Tipo um soco na cara?”
Eren riu. “Claro que não, Mikasa! Você entendeu!”
“Eren...”
Ficaram em silêncio por um momento.
“Você está feliz?”
“Estou. Nos propusemos a uma espécie de desafio – eu acho.”
“Está feliz?” A garota perguntou novamente.
“Sim.”
Mikasa deixou o livro de lado. Sequer se deu ao trabalho de marcar a página onde havia parado. Ajoelhou-se sobre o colchão e abraçou Eren, envolvendo-o pelo pescoço.
“Mik-“ Calou-se. Ficou a receber o carinho que a irmã oferecia a seus fios castanhos.
A morena beijou-lhe a testa e o livrou do abraço. “Vou confiar que sabe o que está fazendo.”
“Obrigado, Mikasa.” Foi sua vez de abraçá-la.
“Quanto abraço, quanto amor, onde está a cota do pai aqui?” Grisha apareceu na porta do quarto.
“Pai,” Eren pronunciou junto com Mikasa.
“Chegou agora, filho?”
Eren fez que sim com a cabeça. “Pai,” começou, sentindo seu coração acelerar. Estava prestes a tomar outra decisão. “Quero falar com você.”
“Diga.”
Eren buscou pelo olhar de Mikasa por um segundo e voltou a Grisha. “Então...”
“Pela sua expressão, acho que preciso me sentar.” O médico brincou, ocupando espaço na cama junto com os dois filhos, que riram.
Eren decidiu que falaria de uma vez. “Estou namorando.”
Houve um segundo de silêncio. “Era isso que queria me dizer? Fez aquela cara de horror para uma coisa como essa?” Riu alto.
Eren, outra vez, buscou pelo olhar de Mikasa.
“Poxa, filho, que bom! Eu acho. Isso é bom, não é?” Olhou de Eren para Mikasa e voltou para Eren. “Está com alguém de quem gosta?”
“Estou, estou.”
“Ah, ótimo, então.”
“Pai...”
“Diga.”
“Quero que você o conheça.” As mãos suaram.
“Ora, mas é claro!” Então houve um silêncio e os dois adolescentes observaram as sobrancelhas de Grisha juntarem-se. “Você quer que eu o conheça?”
“Estou namorando um homem.” Eren confessou por fim.
Grisha buscou, pela segunda vez, o olhar de Mikasa, voltando rapidamente para o garoto.
“Não fique bravo, e-“
“Bravo? Pelo quê?”
Eren e Mikasa se encararam.
“Não está bravo?” Eren perguntou.
“Você está mesmo namorando um homem?”
“Sim.”
Grisha suspirou baixinho e sorriu. Segurou a mão do filho com uma das suas e, com a outra, tocou-lhe a face. “Obrigado, Eren.”
“Huh? Obrigado?”
“Sabe, quando tive minha primeira namorada, não contei aos meus pais, pois tinha medo. Sua mãe foi a segunda mulher com quem me relacionei em minha vida, e demorei a juntar coragem para dizer a eles. Foi nada fácil. Eu confiava em meus pais, mas, de uma hora para outra, parecia que aquela confiança não bastava... Eu sequer consigo imaginar o quão difícil deve ser um filho contar para o pai que está se relacionando com alguém do mesmo sexo. Não quero generalizar, claro...”
“Não estou bravo. Oh, de maneira alguma! Estou muito feliz e orgulhoso. Vejo que confia em mim e admito que não tenho conhecimento de sua briga interna para chegar ao ponto de me contar, mas a admiro.”
“Pai...”
Mikasa, assistindo a tudo, sentia-se um pouco envergonhada.
“Se pensou que eu ficaria louco por estar com um homem... Nah, Eren, você não é meu, nem de Carla, nem de Mikasa, nem de ninguém... Se é de alguém, é do mundo. Eu e sua mãe os criamos para isto, para o mundo, huh? Se não podemos impedir muitas de suas ações, quem dirá seus sentimentos!” Riu. “Ora, não chore...” Secou as lágrimas do filho.
“Obrigado, pai.” Eren o abraçou. “Obrigado por me dizer tudo isso...”
“Ora, Eren...” Afastaram-se e Grisha segurou o rosto do adolescente entre as mãos marcadas pelo tempo. “Escute, hm? Você e sua irmã.” Direcionou o olhar para Mikasa, que ficou atenta ao que ele iria dizer. “Vocês são absolutamente livres para amar quem vocês quiserem. Qualquer um. Da mesma maneira que eu fui livre para amar sua mãe.” Fez uma pausa, passando uma das mãos para o rosto de Mikasa. “Amor é gesto, huh? E todo o resto é conversa de velho que não aceita nada fora dos próprios parâmetros, certo?” Riu, fazendo os filhos rirem também. “Vejam só como eu não sou velho.” Brincou.
“Você é um bobo, pai.” Mikasa disse.
“Então,” Eren começou, engolindo de vez as lágrimas “está tudo bem se eu trazê-lo aqui?”
“Não, Eren, não está.” Grisha disse, deixando o filho confuso. “Estou brincando, criança.” Bagunçou-lhe os cabelos. “Quando ele virá?”
“Eu não sei. Mas o mais breve. Me diga quando terá outra folga.”
“Certo.”
“Você vai gostar dele, pai.” A voz de Mikasa fez-se presente, surpreendendo Eren com a frase.
“Ah, é?” Olhou para Eren. “Quantos anos ele tem?”
“25.” O garoto respondeu.
“Hm,”
“Algum problema?”
Grisha fez uma careta, balançando a cabeça em sinal negativo.
“Ele é dançarino.” Mikasa voltou a falar. “E ator. Trabalha naquela academia de artes que fica perto da casa de Armin, sabe?”
“Oh, parece que Mikasa sabe tudo sobre esse moço.”
“Ela não fica quieta.” Eren a ofereceu um sorriso.
“Bem, deixe que o resto eu pergunto a ele quando vier.”
“Ok, mas há uma última coisa que você precisa saber.” Mikasa disse.
“Há?” Eren e Grisha perguntaram em uníssono.
Mikasa riu. “Sim. Ele é menor do que Armin.”
Grisha deu uma gargalhada. “Mentira?”
“É sério!”
“Nossa, filho, você está namorando uma criança?”
Foi a vez de Eren rir. “Engraçadinhos.”
“Darei a ele um banquinho de presente, para quando quiser te beijar.”
“Acho que escolheu a profissão errada, pai, devia ter sido comediante.” Eren ironizou em meio as gargalhadas de Grisha e Mikasa. Mal conseguia entender a felicidade que sentia diante as palavras do pai. Estava extremamente orgulhoso, também.
Grisha pôs-se de pé.
“Ah, pai, eu não vou ficar em casa.” Eren avisou.
“Não?”
“Vou encontrar com Rivaille daqui a algumas horas.”
“O nome dele é Rivaille?” Perguntou à Mikasa, que confirmou.
“É que já combinamos...” Eren explicou.
“Está vendo como é, Mikasa? De um minuto para o outro, nos troca pelo namorado.”
Parecia que algo dentro do peito de Eren estava prestes a transbordar ao ouvir a palavra que confirmava que tudo não havia passado de um bom sonho.
“Pois é.” Mikasa concordou.
“Desculpe,”
“Nah, estou brincando, Eren. Pode ir. Voltará hoje?”
“Provavelmente não, mas eu ligo se for passar a noite fora de casa.”
“Ok. Usem preservativos.”
“Pai!”
Grisha seguiu até a porta, onde se deu conta de algo. Voltou a fitar o filho. “Passou a noite na casa dele?”
“Sim...”
“Hoje em dia as coisas são tão rápidas. Escute o que eu disse! Sou médico, sabia?”
“Pai!” Eren repetiu, tocando a testa com as pontas dos dedos.
Os irmãos ouviram a risada do médico e encararam-se. Eren pensou em dizer algo à morena, mas, ao invés disso, a abraçou. Mikasa, por sua vez, pensou em questionar o porquê do abraço, mas percebeu que não era necessário e apenas retribuiu.
Partiram o contato e Eren beijou-lhe a face antes de rumar ao próprio quarto. Tinha um misto de felicidade, medo e ansiedade no peito. Tirou a camisa, pois iria tomar um banho. No entanto, antes disto, pegou o celular e discou o número de Armin. Escutou chamar, mas sua ligação não foi atendida. Talvez o loiro estivesse ocupado... Deixou o aparelho de lado e rumou ao banheiro.
Sentia-se muito mais relaxado ao sair. Vestiu-se, arrumou o cabelo e foi à cozinha, onde o pai preparava uma vitamina.
“Nunca fica quieto mesmo em dias de folga, não é, velho?” Eren foi até o armário a fim de pegar copos.
“Vai sair agora?” Grisha perguntou.
“Não.”
“Como é o nome dele? Rivo- Riv-“
“Rivaille.”
“Nome estranho... Enfim. Ele virá te buscar?”
Por alguma razão, Eren ficou sem graça. “Não. Marcamos de nos encontrar. Hoje terá uma festa surpresa para um conhecido.”
“Hm,”
Eren sentia um pouco de estranheza para com a forma natural que o pai agia e falava sobre aquilo. Não estava reclamando, havia sido apenas inesperado.
“Estou pensando em ir à casa de Armin amanhã.”
“Falando em Armin, pegou os livros?”
Uh! “Eu esqueci, pai, me desculpe.” Acabou dizendo a verdade.
“Poxa, Eren...”
“Desculpe, mesmo, juro que não esquecerei quando eu estiver lá!”
“Tudo bem.”
“Me empreste o carro. Vou à casa dele e pego os livros.”
“Claro que não.”
“O que? Por que?”
“Quando foi que tirou sua carteira de motorista sem me informar?”
“Uh, mas você sabe que eu sei dirigir. Foi você quem me ensinou!”
“No entanto, Eren, infelizmente, você não tem carta.”
“Ah, pai...”
“Sem ah pai.”
Eren balançou a cabeça levemente.
“Me dê um copo.” Grisha pediu e o garoto o fez.
“Cheguei!” Mikasa disse ao aparecer na cozinha. “Hmm, vitamina! Adoro vitamina...”
“Com esse abdômen estranho que tem, tem de gostar mesmo.”
“Está com inveja porque o seu é flácido.”
Eren fez uma careta.
–
“Oi,” cumprimentou Rivaille quando a imagem deste surgiu no lugar da porta do apartamento.
“Oi,”
Eren deu um passo para dentro. Uma mão em seu rosto o fez parar, porém, e um beijo veio. Ao corte do contato, Rivaille fechou a porta.
“Tenho apenas de pegar meu casaco.” Informou. “Volto em um instante.” Foi em direção ao quarto, às pressas, e logo estava de volta com o casaco dobrado sobre o braço.
Eren o olhou de baixo à cima. Havia algo de diferente...?
“O que?” A voz de Rivaille cortou o ar.
“Huh? Nada, nada.”
As sobrancelhas finas juntaram-se. “Puberdade...” Caçoou baixinho enquanto desligava as luzes.
Eren ignorou e ambos deixaram o apartamento, sem esperar demais para entrar no elevador. Encostaram-se ao espelho e Rivaille afastou o cabelo do rosto do garoto, posicionando de maneira correta a costura dos ombros da camisa alheia logo em seguida.
O adolescente abriu a boca para falar algo e duas pessoas entraram no elevador, cumprimentando-os.
“Você contou à Hanji?” Eren quis saber.
“Não. Ainda não.” Terminou de engomar o garoto e pousou, outra vez, a mão no rosto jovem.
Eren o abraçou num gesto rápido, ignorando a presenta das outras pessoas. Estava realmente feliz em sentir o outro em seus braços, ter o cheiro presente em suas narinas... Sentia-se determinado.
Chegaram ao estacionamento – as duas pessoas haviam descido no térreo. – Caminharam até o veículo e logo entraram.
“Eu adoro quando você dirige.” Eren comentou.
“Por que?”
“Não sei... É... Sexy.”
Rivaille riu. “Você é tão lerdo.” Ofereceu a Eren um olhar penoso enquanto abandonavam o estacionamento para ganharem a rua.
“Não fale assim.” Fez bico e manteve-se em silêncio por cinco segundos até puxar o ar entredentes. “Sério... É muito sexy.”
Rivaille deixou que uma risadinha o abandonasse uma nova vez. “Hm,” Mantinha os olhos na rua. “É mesmo?” Perguntou num tom cínico, levando uma das mãos à coxa de Eren, acariciando-a próximo à pélvis.
Novamente, o ar foi arrastado entredentes. “Não faça isso.” Pararam no farol. Observou o dançarino cruzar os braços e fazer um bico sacana. “Não faça essa cara.”
Um sorriso brincou nos lábios do mais velho. “Me beije,” pediu, deixando Eren um pouco atordoado no primeiro momento, mas logo este moveu-se no banco do carona e segurou sua face, tocando-lhe os lábios gentilmente, num beijo carinhoso.
O garoto fez menção de se afastar, mas o dançarino avançou minimamente, não permitindo que o fizesse, e continuou a tocar os lábios alheios, sugando-os de leve. Ambos sentiam um formigamento no estômago. O som de uma buzina os fez quebrar o contato.
“Já vou, já vou.” Rivaille disse como se quem tivesse buzinado pudesse ouvi-lo. Sugou o próprio lábio inferior, ainda com a sensação do beijo de Eren. Tinha de admitir que adorava o beijo do garoto.
“Ele mora longe?” Eren perguntou, referindo-se ao lugar onde Moblit morava.
“Um pouco afastado. Já estamos atrasados de qualquer forma.” A comemoração estava marcada para começar às 21h e o relógio marcava exatamente 21h59. Àquela altura, Moblit já tinha conhecimento de sua festa não mais surpresa.
Cerca de 20 minutos se foram e finalmente chegaram à rua do loiro aniversariante. Rivaille procurou um lugar para deixar o carro junto ao meio fio e após o fazer, saíram do veículo. O mais velho caminhou até o adolescente segurando-lhe a mão e escondendo-a junto com a sua dentro do bolso de seu casaco. Puseram-se a caminhar até a entrada da casa. Havia uma quantidade considerável de carros estacionados ao meio fio.
“Rivaille,” Eren começou “contei ao meu pai sobre você.”
Rivaille o direcionou o olhar. “E então?”
“Ele... Reagiu super bem. Mesmo. Disse estar orgulhoso de mim por eu ter contado a ele... Ficou ansioso para te conhecer.”
Os traços de Rivaille pareciam serenos à meia luz da rua. Já podiam ouvir o som alto vindo da casa de Moblit.
“Quando poderei ir?”
Eren levou um segundo ou dois para responder. “Direi quando meu pai estiver de folga.”
“Certo.” Pararam em frente à porta. Eren não sabia, mas aquela seria a primeira vez que Rivaille seria apresentado a um familiar de alguém com quem se relacionava. – Tocou a campainha algumas vezes e esperou ser atendido. Não mais tinha o calor da mão do garoto na sua.
“Você está bem com isto?” Eren perguntou. “Digo, está de acordo?”
“Eren, é claro que estou. Acredite em mim. Sinto até mesmo um frio na barriga.” Riu. “Não me diga que o médico é um porre.”
Foi a vez de Eren rir. “O médico é um velho de piadas ruins.”
Rivaille abriu a boca para falar, mas a porta foi aberta e uma Hanji de cabelos não muito arrumados apareceu.
“Rivaille!” Pulou no pescoço do amigo, que teve alguma dificuldade para manter o equilíbrio. “Ah! Eren!” Jogou-se no garoto, abraçando-lhe o pescoço.
“Olá... Hanji.” Eren tentava dizer.
“Que bom que chegaram!” Soltou-o. “Estão atrasados!” Os repreendeu.
“Sabemos disso, quatro-olhos.”
“Hmm, o que estavam fazendo, huh?” Perguntou com malícia e divertimento.
Não houve resposta, mas Hanji percebeu Eren ficar um pouco constrangido. “Estou brincando!” Apressou-se em dizer. “Me descul... pe.” Quebrou a frase ao ver as mãos dadas. Juntou as sobrancelhas. “Mas o-“
“Pois é, quatro-olhos, o garoto aqui tem energia de sobra para insistir.”
“Hei...” Eren sabia que Rivaille não falava sério.
“Vocês estão juntos de novo...” Hanji pronunciou com certo encantamento na voz. “Não acredito.”
“É bom que acredite.” Rivaille disse.
“Rivaille! Por que não me contou? Ah! Esqueça! Estou tão feliz por vocês!” A morena jogou-se, novamente, em cima do melhor amigo, segurou-lhe a face entre as mãos o deu um demorado e repentino beijo – mais para um selinho –, deixando Eren um tanto surpreso.
Os olhos castanhos de Hanji miraram o garoto e um largo sorriso estava desenhado no rosto da morena. Segurou a face do adolescente entre as mãos agora, fazendo o mesmo que havia feito com Rivaille: dando-lhe um demorado selinho.
Eren sentia-se um tanto confuso e não sabia o que devia fazer. Ficou estático, os olhos arregalados.
“Seus grandes idiotas! Entrem logo!” E deu-lhes as costas.
“E-e-“ Eren tentava dizer. “Ela... Está... Bebada?”
“Provavelmente não. Deve estar apenas alegre.”
“Por que ela...?”
“Esqueça isso, Eren. Hanji é louca.”
“E-Eu...” Eren sentia as orelhas queimarem. “Ela me beijou...”
Rivaille rolou os olhos. “Ah, por favor, não foi um beijo.”
“Mas...”
Os cinzelados rolavam uma nova vez. “Ignore-a.” Puxou o garoto para dentro da casa onde havia muito barulho e muita gente.
Deram de cara com alguns conhecidos, incluindo Gunter, Petra e Erwin, e Eren ficou muito feliz em revê-los. Encontraram Moblit e o parabenizaram. Erwin os ofereceu uma bebida e logo faziam parte da festa.
Rivaille puxou o garoto pelo colarinho a fim de alcançar seu ouvido, pois era impossível que ele o escutasse se não fosse desta maneira. “Não tem dezoito anos ainda, não pode beber!”
“Sé-“
“Estou brincando. Aproveite o quanto puder.”
Eren estava descobrindo o lado brincalhão de Rivaille.
O menor observou o adolescente sorver do álcool e fazer uma levíssima careta. Aquela era a primeira vez que Eren tomava uma bebida alcoólica que não fosse cerveja.
“Não gostou?” Havia o puxado para perto novamente.
“É gostoso.” O garoto respondeu no mesmo tom de voz.
Rivaille sorriu de canto.
“O que é?”
“Saquê com morango.” Virou o rosto para poder sorver de sua própria bebida. Estava ótima. “Hanji sabe como fazer uma festa para alguém.”
“O que?” Eren perguntou em tom alto.
Rivaille balançou a cabeça e assistiu ao garoto tomar mais um gole da bebida.
“Isso é muito bom.” Eren repetiu.
O dançarino o puxou pela terceira vez. “Quer saber como deixá-la melhor?”
“Há como?” Eren quis saber, inocente, com real curiosidade.
Rivaille deixou que o líquido avermelhado escorresse para dentro de sua boca e, com a mão na nuca de Eren, o trouxe para um beijo. A bebida invadiu a boca alheia, desmanchando-se em sua língua, fazendo-o arrepiar-se muito levemente. O dançarino aproveitou para mordiscar-lhe a boca e pressionar os próprios lábios contra os do garoto, lambendo-os no final.
“O que me diz?” Perguntou ao partir o contato.
“Acho que minha ereção pode te dizer algo.”
Rivaille riu, achando graça. Eren não havia, na verdade, obtido uma ereção, apenas fazia piada.
“Melhor do que eu esperei.” Respondeu finalmente.
“Quer mais?”
“Sim.”
E repetiram o ato, o beijo, desta vez, mais demorado.
Permaneceram cerca de 40 minutos em meio às pessoas que dançavam e bebiam até decidirem que queriam um lugar menos barulhento. Seguiram até a varanda, onde havia pouca gente e o barulho era parcialmente isolado pelas portas de vidro fechadas. Sentaram-se no largo banco. Rivaille ainda tinha uma bebida em mãos.
“Enjoei disto. Beba, se quiser.” Entregou o copo ao garoto.
“Seu aniversário também será assim?”
“De maneira alguma permitirei.”
“Como você é chato.” Recebeu uma careta breve.
Rivaille descansou os pés em cima do banco e deitou a cabeça sobre o peito de Eren, que passou um dos braços por suas costas, aconchegando-o em seu corpo. Mal acreditava que estava naquela situação, que havia deixado os pensamentos turvos de lado e permitido se dar àquele “luxo”. Havia tido um momento de coragem, também, uma estranha adrenalina que o havia guiado a aceitar encarar a si mesmo. Tinha medo, era difícil admitir. Parecia que, após muito tempo, havia errado o caminho de casa, não sabia onde iria chegar. Aquela impaciência ainda o cutucava, aquela voz em sua cabeça – a própria voz – dizendo para não dar-se ao trabalho de tentar, o incomodava... Tentaria, agora, porém, ignorar estes fatores e testar, com muita relutância, os próprios limites. De novo e de novo.
Queria ser um idiota.
Teria, no final, a prova concreta de que não era capaz ou se surpreenderia.
Suspirou, acariciando a mão de Eren em sua cintura. O encarou. “Ainda me pergunto o porquê de ter cortado o cabelo.”
Eren riu. “É horrível para os olhos.”
“Ahn, mas estava lindo, Eren!”
O silêncio caiu sobre os dois. Rivaille remexeu-se no banco em certo momento, sentando-se apropriadamente, ficando a encarar o nada.
“Que foi?” Eren perguntou, recebendo os cinzelados e, logo em seguida, mãos em seu rosto.
“Também está com esse sentimento de estranheza?”
“Sim.”
Ficaram apenas a encarar um ao outro até que Eren puxasse Rivaille para si, beijando-lhe a lateral da testa. “Não se preocupe.” Pronunciou.
Com aquela frase tão simples, o mundo de Rivaille parecia dar voltas: era como se Eren estivesse pegando todos os seus medos e suas inseguranças e os juntando no meio da palma da mão em forma de concha.
O garoto não havia tomado a bebida que Rivaille o dera, então este a pegou de volta, sabendo que estaria quente e ruim. A bebeu, fazendo uma careta, pois estava exatamente como havia pensado. Mirou os turquesas. “Quer sair daqui?”
“Quero.”
Levantaram-se.
“Mas, espere.” Eren chamou atenção. “Seus amigos não-“
“Não se preocupe. Eles sequer nos verão sair.”
Eren não questionou e pôs a seguir o mais velho, que o guiava segurando sua mão. Atravessavam a cozinha e a sala – onde estava o foco da festa – e finalmente chegaram à porta, não esperando mais para atravessá-la.
“Acho que estão todos bêbados.”
“Provavelmente.”
Sorriram.
“Eren, quer fazer algo louco?”
“Que quer dizer?”
“Me siga!”
“O qu-“ Eren não teve tempo para perguntas, Rivaille havia corrido, afastando-se, mas sem tirar os olhos de si. “O que você está fazendo?” Gritou para o namorado.
“Eu disse para me seguir!”
E assim Eren fez, correndo em direção ao homem que, sem saber a razão, parecia se sentir livre para correr e gritar. Não demorou a alcançá-lo.
“Você corre rápido.”
“U-uh-huh,” Continuou a acompanhar o dançarino. “Por que está correndo?”
Não houve resposta, mas Eren teve uma linda visão: um sorriso singelo no rosto pálido e cansado junto com uma franja jogada para trás por conta do vento.
“Venha cá.” Rivaille chamou, girando nos tornozelos, mas não soube medir com precisão sua velocidade, e acabou por escorregar e cair no gramado de uma das casas.
Não havia ninguém na rua àquela hora. Havia muitos jardins naquele bairro.
“O que está fazendo?” Eren perguntou pela terceira vez e, sem fôlego, sentou-se na grama, ao lado de Rivaille – este havia se dado a liberdade de deitar.
O mais velho também lutava para recuperar o ar. O céu estava lindo. Pousou o dorso da mão sobre o peito de Eren e este se inclinou a fim de beijá-lo num contato rápido, pois ambos ainda se recuperavam da corrida.
O garoto acabou por deitar ao lado do outro e ficaram a se encarar por um minuto, então Eren procurou pelos lábios finos uma nova vez e, ao quebrar o contato, perguntou: “Você está louco?” Tinha em mente os copos de bebida que Rivaille havia tomado – que deviam ter sido uns três. Não acreditava que aquilo era o suficiente para deixá-lo bêbado (e não era).
“Não,” Rivaille respondeu sereno e voltou a fitar o céu, esticando um dos braços sobre a grama. Ele próprio não conseguia entender, de imediato, as ações daqueles momentos. Mas sabia, e sentia, que elas o traziam uma ótima sensação. “Nós todos,” começou “somos todos loucos, Eren.” Puxou o ar com certa urgência.
O adolescente ficou a fitá-lo por um ou dois segundos antes de apoiar-se no cotovelo e inclinar-se novamente para tomar os lábios. Os dedos de Rivaille estavam frios na pele de seu rosto.
“Isto me faz recordar de minha adolescência ao lado de Hanji.” Declarou em tom baixo, sua respiração colidindo com os lábios do adolescente.
Eren manteve-se em silêncio.
“Eu também... Estou com medo.” Rivaille admitiu.
O garoto continuou quieto, não queria estragar tudo com algo idiota, e percebeu que o namorado preferia que mantivesse-se daquela maneira. Teve os lábios ocupados pela testa alheia, aproveitando-se para beijá-la com ternura. Seus turquesas colidiram com os azuis cinzelados de Rivaille e este sorriu fraco para si.
“Minha roupa deve estar suja.” A voz do dançarino veio.
“E está.”
“Ah... Droga...”
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