Let The Flames Begin
16 Capítulo 16
Notas iniciais
O silêncio que dominava a casa o fez pensar que era o único ali. Não se deu o trabalho de chamar por alguém e ao passar pelo quarto da irmã, pôde escutar a voz familiar e vê-la pela porta entreaberta. Suspirou. “Mikasa.” A chamou, entrando no cômodo, e esperou que se despedisse de quem quer que seja que estava conversando pelo celular, o que não demorou a acontecer. “Como está?”
“Desculpe, Eren. Não devia ter gritado com você.”
“Nah, tudo bem. Você é sempre assim.”
Ela abriu a boca para retrucar, mas desistiu. “Me desculpe.”
Eren nada disse. Apenas ficou ali parado, observando a irmã encostada à janela.
“O pai saiu. Disse que vai trazer alguma coisa pra gente comer e perguntou onde você foi. Por que não avisou a ele que ia sair?”
“A porta do quarto estava fechada e não quis receber uma resposta estúpida, você sabe.” Ela moveu a cabeça. “Fui à casa de Rivaille.” Não esperava pelo silêncio que a irmã manteve, sequer uma reclamação... “Me conte o quê aconteceu.” Pediu, sentando-se ao pé da cama.
Os braços, antes cruzados abaixo do peito, penderam mortos ao lado do corpo e Mikasa caminhou até a cama para juntar-se ao irmão. “Eu não sei se quero falar sobre o que aconteceu no clube. Estava conversando com Annie agora e me distraí um pouco... Estou com tanta raiva de mim mesma, terei de ficar dias sem jogar por conta de uma garota idiota.”
“Não quer falar sobre?”
Um estalo de língua. “Aquela garota já estava me irritando desde o dia em que entrou no time. Ela é insuportavelmente inconveniente.” Desabafou. “Minha paciência com ela estava completamente limitada...”
“E o quê fez com que sua paciência chegasse ao fim?” Em sua cabeça, Eren criticava o temperamento da irmã.
Ela gesticulou como se através daquilo pudesse expressar toda sua frustração. “Estou tão brava comigo porque... Eu podia ter me segurando, eu- ugh! Aquela idiota invadiu minha posição e, além do corte na minha jogada, me empurrou, dizendo perdedoras ficam para trás.”
Mikasa, mesmo que não precisasse se esforçar muito, se dedicava inteiramente ao esporte que praticava e Eren compreendia aquele sentimento de frustração. Não em relação àquela pratica, claro. A sensação podia ser realmente desagradável... Se dedicar tanto a algo para que alguém simplesmente chegue e aja como imbecil, acabando com o seu esforço.
“Mas isso não é errado, contra as regras?”
“Sim! O treinador chamou a atenção daquela vadia, mas ela continuou a me provocar. Ah, Eren, eu não consegui ficar quieta apenas a aturando...” Lamentou.
“Por que ela implica com você?”
“Com certeza porque sou melhor do que ela.”
“Mikasa, por favor.”
“Uh, que droga!” Ela se jogou contra o colchão, escondendo o rosto.
Eren sentia a frustração da irmã quase palpável. “Você quebrou dois dedos dela. Não acha que foi demais?”
“Não foi exatamente porque eu quis.” Os olhos negros voltaram a Eren. “O pai está bravo comigo e eu vou ficar sem ter o quê fazer. E ainda terei de aguentar o mau humor dele já que estarei sempre em casa durante um mês inteiro.”
“Ah, não reclame assim. Chame Annie para cá. E ainda, podemos ir à casa de Armin.”
Mikasa bufou, mas concordou. Sabia que Eren apenas queria, de alguma forma, confortá-la. “Ao menos ela ficará sem jogar por muito mais tempo do que eu.” Consolou-se. “Não é como se ela fosse grande coisa no time, também.”
Eren balançou a cabeça e observou Mikasa sentar-se apropriadamente. “Desculpe por ter gritado com você. Sei que só queria me defender.”
“Ok.”
Algumas horas passaram e Eren havia decidido relaxar após tomar um banho. Não que estivesse cansado. Seu pai ainda não havia chegado e agradecia mentalmente por isso, pois só então não teria de ouvir a voz do médico, que talvez ainda estivesse bravo consigo.
Deitou a cabeça no travesseiro e puxou a gola da camisa até o nariz. O cheiro de sabão em pó era o que mais gostava. Fitou o teto e piscou algumas vezes. Fora o perfume que usava, Rivaille tinha cheiro de sabão em pó e amaciante devido as roupas limpas. Algo que tinha percebido no outro era a mania com a limpeza – se bem que não era algo realmente difícil de notar – e talvez fosse por isto...
Recordou a sensação que os lábios e língua do dançarino deixaram em sua boca e recebeu uma corrente bruta de ansiedade. Aquilo o incomodou profundamente. Remexeu-se na cama e perdeu a gola em seu nariz.
Uma movimentação do lado de fora de seu quarto o chamou atenção. Devia ser Mikasa. Ou seu pai havia chegado. Ou um assassino havia entrado em casa e talvez aquele fosse seu último minuto de vida. Escutou a voz de Grisha e fechou os olhos. O quê será que se passou pela cabeça de Rivaille quando este fechou a porta mais cedo? Quando não permitiu que o beijasse pela segunda vez... Será que estava com mau hálito? Sentiu uma pontinha de desespero e vergonha diante o medo de que fosse aquele o motivo. Contudo, acreditava que não, pois tinha certeza de que seu hálito estava perfeitamente bom. E, também, o dançarino o lambeu o lábio depois...
Encolheu-se na cama e após poucos segundos tateou debaixo do travesseiro à procura dos fones de ouvido, ignorando o chamado da irmã para jantar.
Queria ter uma curta conversa com o pai. Curta simplesmente pelo fato de que não sentia-se nem um pouco a fim de estender-se num assunto chato e, provavelmente, estressante com o mais velho.
–
No domingo de manhã, Eren acordou com o peso de Armin em sua cama. Fizeram muito do que lhes cabiam e o moreno decidiu contar ao amigo, sobre o beijo.
“Você deixou que ele te beijasse.” Armin disse num tom muito baixo, como se alguém estivesse por perto.
“Na verdade, fui eu quem o beijou.” Assistiu a mudança nos traços do rosto do amigo.
Armin riu. “Haha, Eren.”
“Haha o quê?” Desconfiou.
“Só estou te enchendo.”
Eren, de alguma forma, sabia que aquele “haha” não tinha o significado da frase que acabara de ouvir.
Na noite daquele mesmo dia, cerca de duas horas após a despedida de Armin, Eren desistiu de falar com o pai, uma vez que este agia como se nada tivesse acontecido. Não gostava daquela atitude, mas não queria se irritar ainda mais.
Durante a semana que se seguiu, não encontrou com o dançarino sequer um dia. Sentiu-se incomodado, mas aliviado ao mesmo tempo, uma vez que havia entrado em semanas de provas e queria tirar boas notas. Teria tempo de estudar com o amigo, já que estavam recebendo basicamente a mesma coisa como conteúdo de matéria invés de ficar soltando palavras no ar com o outro. E também, estava com certo medo de encará-lo.
Ao completar uma semana e quatro dias, Eren começou a se preocupar. O pensamento de que o mais velho o estava evitando o atingia a todo instante. Será que havia feito algo de errado? Talvez não devesse tê-lo beijado... A única coisa que o prendia ao pensamento de que há dias não via Rivaille era a irritante pergunta que se repetia em sua cabeça: fiz algo de errado?
Ao menos estava se sentindo realmente confiante diante dos testes que tinha de fazer. Especialmente química.
Na quarta-feira de sua segunda e última semana de testes, deparou-se com o dançarino saindo da cafeteria, mas não o chamou, pois ele parecia estar com pressa. Na noite daquele mesmo dia, porém, quando fazia seu caminho até a estação, avistou Rivaille novamente, na mesma calçada de mais cedo. Pela primeira vez, queria ao menos cumprimentá-lo. Entretanto, o tormento de que pudesse ser sua culpa, a ausência do mais velho por dias, não o deixava em paz.
Puxou o celular do bolso de seu largo moletom e foi direto às mensagens na intenção de digitar uma. Enviou e esperou. Não demorou para que pudesse assistir a Rivaille olhando de um lado para outro, as finas sobrancelhas juntas. Ainda estava do outro lado da rua enquanto o observava.
Gostei da cor de seu cachecol, era o quê dizia na mensagem que o enviou. Finalmente o olhar do dançarino o alcançou e este levou uma mão à cintura enquanto sua expressão se tornava um tanto desafiadora.
Pela segunda vez, Eren sentiu uma lufada de ansiedade o atingir. Desviou o olhar antes de atravessar a rua, tendo o cuidado de verificar se não vinha nenhum carro, uma vez que o sinal não estava verde para pedestres.
“Será que eu devo agradecer?”
“Uh, você é convencido demais para isso.”
Rivaille o olhou de baixo, erguendo uma sobrancelha. “É, acho que não tenho a obrigação.”
“Você sumiu.” Eren comentou num tom completamente diferente.
“Estava com muito trabalho. Fiquei sem tempo.” Começou a andar para dentro do prédio, sendo acompanhado pelo garoto. “Estamos com uma peça nova. Peça, teatro. Fazia algum tempo que eu não tinha um personagem assim para estudar... Não acho realmente complicado, mas ainda sim.” Explicou.
Então a ausência não era por sua causa... Bem, claro que não. Por que o outro se incomodaria consigo?
“Vai pedir algo?” Rivaille perguntou.
“Ah! Sim...” Lançou o olhar ao painel de preços.
Após fazerem seus pedidos e recebê-los, rumaram até o único sofá do estabelecimento, pois a poltrona em que o dançarino costumava sentar estava ocupada. “Não posso ficar muito.” Eren disse. “Tenho prova amanhã.”
“Está estudando para os testes. Consegui vir aqui três vezes durante a semana passada e não o vi em nenhum dos dias. Foi por isso?” Rivaille também havia notado sua ausência.
“Sim. Armin e eu viemos, mas compramos o quê queríamos e fomos embora. Estamos estudando bastante.”
“Crianças responsáveis.” Recebeu o olhar de poucos amigos de Eren. “Como está seu pescoço?”
“Huh? Ah...” Levou a mão até a região clara. “As marcas saíram faz um tempo.”
“Que pena.” Rivaille apoiou o queixo no punho. “Estavam tão bonitas em sua pele.”
Eren desviou o olhar. “Eu também achei.”
“Gosta de hematomas?”
“Uh, não sei dizer... Aquelas feias de brigas ou machucados feios, por exemplo, não... Mas acho algumas bonitas. É bizarro achar este tipo de coisa bonita?”
Rivaille ganhou aquela careta que Eren achava tão bela em seu rosto. “De maneira alguma.”
Poucos minutos depois, xícara e copo foram deixados vazios em cima da pequena mesa e ambos faziam seus caminhos para fora do lugar. Uma brisa fria e gostosa causando-lhes a sensação de terem as maçãs do rosto cortadas.
“Aceito uma carona até a estação.” Eren aproveitou.
“Huh.” Aquela expressão cínica tão bonita no rosto pálido. “Vamos lá.”
O calor gostoso de dentro do carro os recebeu ao entrarem e aconchegaram-se nos bancos confortáveis. “Até hoje não consigo saber se odiava ou amava a semana de exames na escola.” Rivaille comentou.
“Não sei dizer se entendi.”
“Eu não gostava porque, ugh, era um saco. Mas ao mesmo tempo, acho que gostava, pois podia me glorificar pelas notas exemplares que tirava.”
“Convencido...” Cantarolou num sussurro divertido.
“Apesar de que aqueles imbecis da escola sempre diziam que eu transava com os professores para obter boas notas, então...” Crispou os lábios. “Acho que eu odiava mais do que gostava.”
“Por que diziam isso?”
“Inveja... E porque eu era uma puta.”
Eren queria saber como ele fazia para dizer tais coisas com tamanho descaso. “Uma... Puta?”
“Tive muitos parceiros sexuais. Principalmente na adolescência.” Fez sinais de aspas com os dedos ao pronunciar a palavra “parceiros”. “Mas nunca transei com um professor. Meus professores eram velhos e ew.” Uma curta pausa. “Às vezes me aproveitava de algum bonitinho para conseguir um dinheiro fácil.” Fez uma nova pausa, levando a mão à testa. “Usar o verbo ter no passado, em relação àquilo, não é algo que me agrade muito...”
“Você teve muitos namorados na adolescência?”
“Pouquíssimos. Sou péssimo em relacionamentos sérios.”
“Sério? Mas e o Eld?”
O tom de surpresa na voz de Eren o fez rir. “Eld foi uma gostosa experiência e até que deu certo.” Estalou a língua quando um carro entrou na frente do seu inapropriadamente. “Às vezes parecia que eu simplesmente queria afastar pessoas de mim, mas sempre as trazia, e as afastava, para trazê-las de novo e perdê-las muitas vezes até não sobrar sequer uma.”
Eren nunca tinha completa certeza se havia entendido o que o outro dizia. Ele parecia falar em códigos. “Não consigo imaginá-lo afastando as pessoas.”
“Muitas das minhas amizades acabavam se tornando relacionamentos complicados, conturbados... Eu-” Interrompeu-se por um segundo. “Acho que eu não sei lidar.” Houve um breve silêncio. “Nunca consegui retribuir de verdade os sentimentos que colocavam sobre mim. Não admito estar com alguém sem retribuir... Sinto como se estivesse enganando a pessoa e isto, definitivamente, não é algo que me agrade. Nunca agradou.” Um suspiro. “Este pensamento sempre me fez terminar com tudo e, ah, era isso.”
“Sempre achei que a decisão de dar um fim ao relacionamento era o certo a se fazer mesmo se o outro não gostasse. Eu estava sendo sincero. Comigo... Com ele. Tudo ficava sempre muito bem, mas após um tempo, eu sentia que não devia ter feito tal escolha porque o pensamento de que eu jamais encontraria outra pessoa que fosse capaz de gostar de mim de verdade me atormentava, o que era ridículo e patético. O bom, veja bem, é que o consolo de que aquela havia sido a escolha certa na hora, não me trazia reais arrependimentos. Se eu, alguma vez, me arrependesse, tomaria isto como uma conseqüência do que fiz, suprimindo tudo dentro de mim.”
Eren, como em outras ocasiões, não sabia o quê poderia dizer. Sentia um pingo de felicidade em seu âmago pelo outro estar se abrindo consigo, mas sentia-se egoísta por aquele pingo. Queria saber tudo sobre ele, mas duvidava que conseguiria. Percebeu que Rivaille não falaria algo mais e decidiu que era sua vez. “Sinto como se você estivesse fragmentando sua vida para mim.”
“Oh, desculpe.”
“Não, não quis dizer assim... Gosto quando confia em mim para falar.” Recebeu o olhar do outro, que logo o desviou, mas um sorriso torto rasgou o rosto. Será que precisava realmente de alguma confiança para dizer aquelas coisas? Para Eren, a resposta era clara: sim. Mas não sabia exatamente como as coisas funcionavam na cabeça do dançarino.
“Huh,” um meio sorriso forçado continuava nos lábios finos. “E você, Eren? Quantas namoradas já foram conquistadas por esses olhos lindos?”
“U-uh... Nunca namorei.”
“Então você é um virgem.”
“Não é preciso namorar para perder a virgindade!”
“Fale baixo, Eren.”
Recuou. “Sinto muito.”
“Então você não é virgem?”
“Sou... Por que tenho de responder a isso?” Choramingou.
“Você acha que sexo é necessário?”
“O quê quer dizer?”
“Na vida das pessoas. Acha que é realmente necessário que exista sexo?” Eren não o respondeu. “Sexo é maravilhoso. Entretanto, muitos conflitos não existiriam se não fizéssemos isso mais pelo prazer do que por qualquer outra coisa. Você consegue enxergar o que digo? Não estou dizendo que a humanidade deve dar um fim a isso, entenda...”
Eren manteve-se em silêncio por um curto tempo. “Eu nunca havia pensado nisso.” Revelou, sincero. “Você acha que sexo não é realmente necessário?”
“Não do modo como encaramos hoje. Mas, lembre-se: eu sou a puta.”
Eren juntou as sobrancelhas em confusão e abriu a boca, mas Rivaille foi mais rápido: “Chegamos.” Ele anunciou, parando o carro no meio fio.
Os turquesas foram lançados para fora da janela e Eren manteve-se dentro do veículo. “Minhas provas terminam nesta semana. Posso visitá-lo no sábado?”
“Eu trabalho neste sábado e domingo estarei ocupado com algumas coisas do teatro.”
“Ah, tudo bem.”
“Se quiser, depois do trabalho, me encontre na cafeteria. Sairei às 17 horas.”
Tarde... “Certo.”
“Não vai sair?” Perguntou após alguns segundos sem palavras com o garoto. Os turquesas tímidos fixos em si.
“Eu quero muito te beijar.” Eren declarou.
Então houve um silêncio e após um tempo, o adolescente remexeu-se. “Obrigado por me trazer. Até sábado.” Abriu a porta do carro e retirou-se, acenando. Rivaille disse algo que não entendeu direito, mas imaginou ter sido um “tchau”.
Não esperou que o veículo sumisse de seu campo de visão para entrar na estação.
Ao chegar em casa, foi direto para o chuveiro. A água quente escorrendo-lhe os ombros o fazia fechar os olhos e querer ficar ali para sempre. Sua mente, porém, não o permitia relaxar por completo. Vagava entre algumas coisas que havia começado a ponderar, entre algumas situações. Parecia que a hora do banho era realmente o momento mais propício para todos os tipos de reflexões.
As imagens em sua mente focaram em uma única coisa. Ou melhor: pessoa. Lembrava do que havia dito a Rivaille a menos de uma hora atrás e obrigava-se a desfazer a careta de frustração ou vergonha que tinha no rosto agora. Algo que o incomodava sobre si mesmo: sempre que sentia-se envergonhado, frustrado, encurralado ao lembrar-se de algo que havia feito, ganhava, automaticamente, uma leve careta. Não sentia-se melhor com isto.
Seus pensamentos continuaram sobre o dançarino e, ah, não pôde evitar a ereção que acabou se formando. Ao menos estava no banho. A voz e cheiro de Rivaille estavam tão vívidos. Gostaria de saber quando haviam se tornado daquele jeito. Suspirou, tocando-se finalmente.
–
Suas provas haviam acabado e esticando as costas contra o encosto da cadeira, recusou o convite de Connie para ir ao cinema no dia seguinte.
“Até a sua irmã vai!” O careca argumentou.
“Não ando grudado com Mikasa, Connie, e ela só vai amanhã porque está fora do clube por um tempo.” Pôs-se de pé.
“Você é um mané cruel.”
“O que?”
Sasha entrou na sala. A garota sempre radiante. “Eren, irá conosco?”
“Não, sinto muito.”
“Ora, mas por que?” Ela perguntou, decepcionada.
“Tenho compromisso amanhã. Fica para uma próxima, pode ser?”
A morena abriu a boca para falar, mas Connie a interrompeu. “Nah, Eren sempre diz isso.”
“Eu não gosto muito de cinema... Vocês estão sempre indo. Não se cansam?” Os três adolescentes saíam da sala de aula.
Eren realmente não gostava de ir ao cinema. Não tinha muita paciência para filmes e sentia-se extremamente incomodado com o fato de não poder pausar a cena para ir ao banheiro.
No dia seguinte, acordou por voltar das 13 horas, levantou para satisfazer suas necessidades matinais e voltou para cama. Seu cabelo estava bastante bagunçado e uma parte de seu couro cabeludo doía. Bocejou e afundou o rosto no travesseiro antes de verificar a hora no celular. Talvez devesse mandar uma mensagem ao outro, avisando-o que estava indo à cafeteria.
Levantou-se pouco mais de uma hora antes do horário combinado e decidiu preparar algo para comer, rumando até a cozinha. Mikasa, como já sabia, havia saído com Connie e os outros.
Quando tudo que precisava para seu lanche estava sobre o balcão, seu pai apareceu.
“Vai a algum lugar?” Grisha perguntou, servindo-se de uma xícara de café enquanto Eren juntava os ingredientes de seu sanduíche simples.
“Vou.” Respondeu simplesmente. Ainda estava com um pouco de raiva do pai. Havia tentado conversar com o mais velho novamente, para dizer-lhe o quão grosso conseguia ser algumas vezes. Claro que reconhecia o quanto Mikasa havia extrapolado. Só queria ajudar os dois. Todavia, Grisha não quis conversar e foi estúpido consigo, dizendo que não tinha nada a ver com o assunto.
Odiava aquilo. Odiava o tipo de atitude que o pai adotava às vezes: fazer algo e depois fingir que está tudo muito bem, como havia feito após a briga com Mikasa e como estava fazendo agora. Pela segunda vez naquele mês o médico agia daquela forma.
“Aonde vai?”
“À casa de Armin.” Mentiu.
“Não acha que está passando muito tempo por lá?”
“Não.” E o deu as costas, retirando-se da cozinha. Comeria seu sanduíche no quarto.
Trocou algumas palavras com Armin pelo computador e pediu que o amigo mentisse que tinha ido ao banheiro ou qualquer coisa, caso Grisha ligasse em sua casa. O quê era muito improvável, mas preferiu prevenir-se assim mesmo.
Logo havia terminado de comer seu sanduíche e não demorou a se arrumar. “Estou saindo.” Avisou ao segurar a maçaneta da porta de entrada. Obteve apenas um “tome cuidado” de Grisha e deixou a casa.
Ao chegar na cafeteria, decidiu pedir o suco de costume, pois sua garganta estava seca. Não havia fila e enquanto fazia seu pedido, sentiu algo nas juntas de seus joelhos e os dobrou, abaixando-se apenas um pouco. Grunhiu e olhou para trás, encontrando Rivaille.
“Hei!” Resmungou pela brincadeira do outro, que o ignorou, pedindo um café na frente de seu suco. “Então você realmente tem algum senso de humor, hm?”
Rivaille forjou uma expressão ofendida. “Sou a pessoa mais engraçada que conhece, criança.”
Eren resmungou novamente e confirmou seu pedido. Pegaram sem demora e ocuparam as poltronas antes vazias. “Como foi no trabalho?” O garoto perguntou.
Rivaille o olhou, estranhando a pergunta, mas logo sua expressão relaxou. “D-desculpe.” Eren disse. “É só que... Eu não sabia o que dizer.”
“Você está bem?” Rivaille perguntou e foi a vez de Eren estranhar as palavras. “Seu rosto está um pouco cansado.”
“Ah,” os dedos tocaram a face. “Não é nada... Talvez seja porque tenho estudado muito.”
“Lembro de ter me falado de testes... Tem estudado até tarde?”
“Na verdade, não. Não estou muito bem com o meu pai, também.”
“Ainda é por conta daquela briga?”
“Mais ou menos. A briga foi por causa da minha irmã. Eu tenho medo de que, no meio de alguma discussão, ele jogue na cara que Mikasa é adotada.”
“Você acha que ele faria isso?”
“Não sei... Acho que não... Mas,” adotou uma breve careta “continuo sentindo um pouco de aflição quando ele acaba sendo estúpido demais. Desculpe se estou falando muito sobre isso.”
“Não! Não. Continue, por favor. Diga o quê precisar, não há problema algum.”
Eren relaxou os ombros. “Obrigado.” Suspirou, fechando os olhos por um segundo. “Eu sei que meu pai nos ama muito e foi ele quem decidiu adotar Mikasa. Ele é muito preocupado e cuidadoso, eu o agradeço demais por isso, ainda mais pela falta de nossa mãe. Às vezes ele faz algo sem pensar, não sei, nunca consegui entendê-lo completamente. Talvez ele esteja muito cansado. O trabalho dele parece ser uma droga por conta da carga horária...”
“É isso o quê está te incomodando tanto?”
“Sim.” Desviou o olhar para a rua pouco movimentada do lado de fora da cafeteria e hesitou antes de voltar a falar, mirando os turquesas para o dançarino. “E percebi que tenho passado um bom tempo pensando em algumas coisas, repensando outras. É um pouco exaustivo.”
“No que tem pensa-“
Eren o interrompeu. “Eu acho ridículo falar que este tipo de coisa é exaustiva por mais que seja. Fica parecendo que sou um moleque mimado que não sabe o quê fazer. Não quero parecer estar reclamando demais... Sequer queria reclamar de algo. Eu acho que não tenho coisas para reclamar e isso não é nada, algo tão pequeno assim...” Apoiou os cotovelos nos joelhos e passou os dedos pelos fios castanhos.
“Hei, hei, devagar aí!” Rivaille disse, soando brincalhão, no intuito de confortar o garoto.
“Desculpe.” Voltou à posição anterior. “Acho que me atropelei com as palavras.” Eren não sabia, mas o dançarino havia esperado pela risada forçada que não veio ao fim da frase.
“Então,” passou o peso de uma perna para outra, cruzando-as “está com medo de seu pai jogar na cara algo que ele escolheu – sua irmã, no caso – e está se sentindo exausto porque tem passado muito tempo pensando?”
“Eu odeio psicólogos.”
“Por que está dizendo isso?”
“Você pareceu um agora.”
“Quem quis abrir a boca para falar foi você, moleque.” Fingiu uma birra e a risada do adolescente finalmente tomou o ar.
“Obrigado por me ouvir.”
“Mandarei a conta.”
Riu novamente. “Quero dizer, você não tem obrigação e me desculpe se eu falei demais, mas, mesmo, obrigado de qualquer forma. Não foi nada demais, o quê eu tinha de falar, mas ainda sim.”
“Você não sabe mesmo quando ficar quieto, não é?”
Eren sorriu tímido e aguardou alguns segundos para então dizer: “Você deve estar cansado.”
“Estou bem. Não fazemos muitas coisas aos sábados.”
“Deve ser uma droga trabalhar aos sábados.”
“Varia. Entre ficar em casa sem ter qualquer coisa para fazer, além de olhar pela janela e refletir entre coisas que o farão infeliz e depressivo ou sair para fazer algo que te deixa satisfeito, ocupa sua cabeça e ainda te dá algum lucro... Trabalhar aos sábados vale a pena.”
“Por que escolheu essa carreira?”
Rivaille meditou por um momento e remexeu as costas descansadas ao encosto da poltrona. “Aquele motivo que todos que escolheram este ramo dizem: para poder viver outras vidas. Mas eu diria algo mais: para eu poder esquecer o quê me incomodava e ser tudo aquilo que não sou. Nah, acho que é tudo a mesma coisa.”
“Que te incomodava?” Eren repetiu, ignorando a última sentença.
“O modo como minha vida corria. O teatro me serviu muito bem. Especialmente a dança.”
“Você está fragmentando de novo?” Riu.
“Cale a boca.” Riu e finalizou seu café.
Vendo-o parecer tão à vontade, Eren se deu conta de que talvez o outro tivesse esquecido suas palavras do outro dia. A coisa sobre o beijo... Sentiu-se um pouco idiota. “Por que não me conta mais?” Ofereceu.
“Hm,” Rivaille meditou. “Quero outro café. Quer alguma coisa?” Pôs-se de pé e recebeu um aceno negativo do garoto. “Só um minuto.” E rumou ao balcão.
Eren estranhou por um momento, mas preferiu não pensar sobre. Entrelaçou os dedos entre as pernas, mudando a posição das mãos logo em seguida, impaciente. Agora seu queixo estava apoiado no punho enquanto a outra mão pendia ainda entre as pernas.
A vista do lado de fora do prédio parecia ser a coisa mais interessante no momento. Pouquíssimos carros passavam pela rua e Eren conseguiu observar pelo menos três pessoas que passeavam com seus cachorros até sua atenção ser pescada pelo dançarino.
“Tem certeza de que não quer nada?” Ele perguntou.
“Sim.”
“Vamos pro carro? Está frio aqui.”
“Está bem... Pode ser.” Levantou-se e seguiu o mais velho até o veículo que estava estacionado na rua atrás da cafeteria por falta de vaga no meio fio.
“Banco de trás.” Rivaille disse e Eren levou um segundo ou dois para entender o quê queria dizer.
Acomodaram-se no banco traseiro. Ali estava realmente mais quente do que dentro da cafeteria devido ao ar condicionado.
“Tome cuidado para não derramar o suco.” O mais velho pediu.
Houve um pequeno momento de silêncio e então a voz do dançarino tomou o ar. “Minha relação com meus pais nunca foi das melhores. Não sei se qualquer conselho meu serviria para lhe ajudar com o seu.”
“N-não! Não precisa se incomodar com isto. Você já fez mais do que deveria só por me ouvir...”
“Quando eu era mais novo do que você, já quase não trocava palavras com meus pais. Sequer compareciam à minha escola quando eram chamados, mesmo que fosse algo importante. Ah, não estou tentando dizer que você deve dar mais valor ao seu pai. Não interprete como isto, pois é uma babaquice sem tamanho.” Fez uma pausa. “Nunca pedi ou exigi nada deles, pois sabia que estaria apenas perdendo o meu tempo com gente que não gostava. Dinheiro, roupas e até mesmo comida, eu não pedia, mas eles me davam porque encaravam como algum tipo de obrigação que pais têm que cumprir. A única coisa que eu realmente agradeço a eles foi por terem refletido tudo o quê eu não queria me tornar.”
“Fui um aluno com ótimas notas, mas isto era por puro capricho meu. Em relação ao comportamento, nunca fui dos melhores, admito. Arrumei algumas brigas, algumas intrigas. O dinheiro que meus pais me davam, bem, não tinham grande utilidade para mim já que eu não sentia a urgência de sair gastando, então o guardava. Dos 14 para os 15 anos, eu sentia minha cabeça muito cheia de coisas que me faziam mais infeliz do que qualquer outra coisa. Mas, de alguma forma, era uma infelicidade confortável. Eu nunca imaginei que aquele tormento ficaria maior após um ou dois anos.”
“Aos 14, minha vida estava rodeada por muitas pessoas. Todas elas sumiram de uma hora para outra, sem pista alguma... Todas as palavras que trocamos pareceu nunca terem tido significado algum e desapareceram, também. Infelicidade cresceu junto com a solidão que sempre tinha existido e ambas se tornaram minha melhor companhia.” Fez uma nova pausa, bebericando o café por aquela única e pequena abertura no copo. Odiava aquele copo.
“A tristeza é algo perigoso, Eren.” Continuou. “Uma vez que você se agarrar demais a ela, é muito difícil conseguir afastá-la. Mesmo se socializando e tendo amigos verdadeiros, pode continuar abraçado com a tristeza. E ela te consome aos poucos. Talvez até você se sentir fraco demais para suportá-la, então ela te consome mais rapidamente.”
Eren hesitou antes de comentar: “Isso soa um pouco depressivo.”
“Eu acho que é exatamente o quê isto quer dizer. Mas pode ser deixada de lado. Um pouco difícil, mas... É como ignorar alguém que você não suporta. O que dificulta mesmo é a falta que tristeza deixa... Porque, bem, ela acaba se tornando uma companhia. Boa ou ruim, ainda se torna uma companheira.”
Eren havia terminado o suco de laranja e segurava o copo vazio entre as mãos. Observou os cinzelados procurar por algo no estofado do banco para logo pousarem sobre si.
“Enfim,” a voz de Rivaille veio “muito aconteceu. Situações boas que logo terminaram, divertidas, ruins, ruins. Hm, o negócio de drogas foi quando algumas coisas pioraram: uma espécie de dor mental nasceu de todas aquelas merdas infelizes e eu queria esquecer, como te disse. Pensei em me machucar para isso, mas meu corpo não merecia passar por algo do tipo e por outro capricho, eu não queria tê-lo de fazer passar por aquilo. Então, aquela foi a opção que encontrei para me dar um descanso vez ou outra. A coisa é que, vez ou outra tornou-se um pouco mais freqüente. Minha notas não eram mais tão boas e o dinheiro que eu tinha guardado só não zerou porque era muito, pois eu estava disposto a gastá-lo inteiro. Não só em maconha, claro, algumas outras coisas surgiram em meu interesse.”
“Eu precisava de dinheiro para repor pelo menos uma pequena parte do que eu havia usado. Afinal, eu tinha de enganar meus pais. Como já era muito fácil para mim, conseguir qualquer idiota para sexo, passei a ganhar algo a mais com isso. Não me prostituí. Apenas fazia uns serviçinhos idiotas, tipo: um boquete, ou até mesmo uma masturbação.” Riu irônico. “Cada pessoa idiota que vinha com isso...” Pronunciou a última frase como se estivesse falando consigo mesmo.
“Contudo, aquilo não durou muito. Meus pais foram chamados centenas de vezes à escola e quando decidiram finalmente ir, descobriram, de alguma forma que eu não entendo até hoje, tudo: minhas notas, opção sexual, as pessoas com as quais eu me envolvia, o quê eu estava fazendo com o dinheiro deles e como eu fazia para recuperá-lo. Eles me ameaçaram, disseram que eu não valia nada, que eu era o atraso na vida muito valiosa deles, que eu era inútil... Aquilo não me afetou, pois eram coisas que eu já sabia. Ainda me deixaram com o dinheiro e até me deram mais depois. Ainda tinham aquilo como algum tipo de obrigação. Apesar de eu odiar receber qualquer coisa dos dois, não recusei. Planejava sair de casa e não tinha um emprego, então aquilo me seria útil uma hora ou outra.”
“Eles tentaram me humilhar bastante, e eu até deixava que latissem o tanto que quisessem. Parei de ganhar dinheiro daquela maneira. Digo, huh, não completamente... Aproveitava um bonitinho ou outro, como já disse. Descobri que minha situação com as drogas não era realmente tão ruim quanto parecia – até porque, o quê eu usava mais era maconha e, dificilmente, farinha, pois aquela coisa horrível me dava uma dor de cabeça maldita. Os outros tipos, eu sempre hesitava e acabava recusando. Senti nojo quando analisei algumas coisas que havia feito. Não achei justo comigo mesmo. Acho que eu tinha uma visão muito escura sobre minha situação em relação ao meio que eu tinha para esquecer as coisas.“
“Eu parei. Parei para provar, principalmente para mim, que eu estava acima de tudo daquilo em que havia me colocado. Me foquei bastante nisso e foi bom – sem ficar ponderando sobre o quê é bom ou não. Recuperei minha boa média no colégio, o quê era um saco, mas acho que fazia parte.” Curvou a cabeça. “Ah, sim, eu continuei com a maconha, na verdade. Porém a usava,” pensou por um momento, franzindo o lábio “uma- no máximo duas vezes por mês. Eu havia voltado a fumar a droga quando saí da escola, mais por uma distração. O cigarro, que estava comigo desde os 14, continuou.”
“Me deixava com muita raiva o fato de que tudo aquilo que eu havia me tornado tinha acabado sido por culpa de meus pais. O modo como eles agiam, as pessoas que eles fingiam ser... Fingiam até para eles mesmos. – Esse tipo de coisa é algo que me incomoda violentamente até hoje. – E ainda sim, eles cuspiam em minha cara de que a culpa por tudo o quê eu era, pertencia única e exclusivamente a mim.” Esperou um ou dois segundos. “Sentia raiva de mim mesmo, também, por ter deixado que eles, pessoas pelas quais eu nutria apenas nojo, tivesse influenciado em minha vida daquela maneira, me fazendo sentir horrível por dentro a ponto de tomar certas decisões idiotas. E ainda, aceitava dinheiro deles...”
Coçou a cabeça, desviando o olhar. “Conheci Hanji logo após me formar e poucos meses depois ela me convidou para morar em sua casa de três cômodos não muito limpos. Aceitei, pois estava procurando um lugar para ficar, afinal. Meus pais não puderam sentir maior alívio quando me viram abandonar suas vidas.” Remexeu-se minimamente. “Menos de dois meses depois, consegui um emprego numa farmácia.”
“Hanji e eu compartilhamos alguns bons tragos de maconha e paramos juntos quando entrei na faculdade. Parei pelo motivo que já te contei, ela parou para me apoiar.” Riu sem vontade e balançou a cabeça lentamente. “Aquela quatro-olhos me ajudou em muita coisa, inclusive com aquele apartamento. Eu ainda tinha muito dinheiro guardado e consegui juntar mais com o trabalho. Usava-o apenas para roupas e despesas que dividia com ela, então sobrava bastante. Foi assim que conseguimos o meu apartamento, mas ela não aceitou morar comigo quando a chamei. Brigamos por causa daquilo e ela dizia que não gostava de apartamentos, apesar de apreciar a vista. Ela não gosta, mesmo... Hanji sempre foi muito barulhenta, escuta música alto demais...” Fez uma careta.
Houve um silêncio entre os dois. O único som presente era o de Eren apertando as bordas da tampa de seu copo de plástico. Ao perceber que Rivaille não falaria mais, resolveu desfazer o silêncio. “Meu amigo me disse que seu nome é francês. Os traços do seu rosto me fazem lembrar franceses, também.”
As sobrancelhas de Rivaille juntaram-se e ele não pôde evitar uma risada debochada. “O quê tem a me dizer no final de tudo é isso?”
“Desculpe, eu não tenho a coisa certa para falar.” Fez aspas com os dedos ao pronunciar “coisa certa”. O copo vazio descansando entre suas pernas. “Eu não vou te julgar, sequer tenho um motivo para fazê-lo. Isso vai soar egoísta, mas estou feliz por ter me contado tudo isso. E eu gosto ainda mais de Hanji agora.” Riu uma risada sincera e gostosa de ouvir.
“Eu nasci na França.” Rivaille começou. “Minha avó era francesa e morreu quando eu tinha um ano de idade, então meus pais mudaram para cá.”
“Você fala francês?”
“Uma coisa ou outra. Conversas longas e realmente construtivas são impossíveis para mim.”
“Não tem vontade de aprender?”
“Já tentou falar francês? Parece que você tem pão na boca e vai cuspir a qualquer momento.”
Eren riu não conseguindo imaginar como seria aquilo. “Nunca tentei francês, mas tentei alemão e acho que é pior. Meus avós paternos e maternos são alemães. Estou numa situação pior do que a sua, pois apenas sei uma palavra ou outra. Sequer uma frase legal sei formar.” Riu. Sentiu uma mão tocar os cabelos próximos à nuca e logo os dedos de Rivaille o ofereciam o carinho já conhecido.
Escutou-o suspirar baixinho e a mão abandonou seus cabelos. Observou-o inclinar-se para descansar o copo de café agora vazio sobre o painel do carro e, sem pedir, ele pegou o copo de suco de suas mãos e o colocou ao lado do primeiro. Eren remexeu-se em seu lugar e foi obrigado a encarar o rosto pálido por conta das mãos em seu rosto. O dançarino moveu-se e o beijou.
Eren surpreendeu-se de início, mas não demorou para que sua mão estivesse nas costelas de Rivaille e um ritmo gostoso fosse firmado. Sentiu seu corpo ser pressionado um pouco para então ser puxado para frente pela blusa de frio que usava. Escutou o som abafado das costas do outro de encontro à porta do carro e os lábios separaram-se minimamente.
Estava sobre Rivaille agora. A mão do menor deslizou até sua nuca e ele o puxou para um novo beijo, este mais profundo do que o anterior. Ficaram naquilo por um tempo e Eren teve seu lábio inferior mordiscado e sugado antes de cortarem o contato. Encaravam-se, os dedos de Rivaille laçados entre os fios castanhos.
Eren queria beijá-lo novamente e não hesitou em curvar-se para fazê-lo. Seu beijo foi aceito desta vez e sua mão logo descia pela lateral do torso do dançarino, que o mordeu o lábio uma nova vez. Tocou a cintura escondida por tecidos e parou na coxa, pressionando-a sem força. “Eu quero tocar você.” Sussurrou de olhos fechados e sentiu as pontas dos dedos do outro tocarem seu rosto. Moveu a mão de modo que seu polegar pudesse tocar próximo à virilha alheia.
A tarde já ameaçava sua partida e, mesmo que aquela rua não fosse movimentada, Eren podia ouvir uma pessoa ou outra que andava por ali. Sem contar os carros. Arriscava dizer ser apenas pouco mais de 18 horas.
“Estamos no meio da rua.” Rivaille disse.
“Podemos ir a sua casa.”
“Eren,” Recebeu os turquesas que finalmente se mostravam. “Não vou levá-lo para casa e transa-“
“Eu só quero tocar você!” Juntou mais seu corpo com o do outro. “Ninguém está falando de sexo.” Resmungou, deslizando a ponta do nariz desde o maxilar de Rivaille até a orelha do mesmo. Queria apenas sentir o cheiro dele, não notou o arrepio que o causou. Repetiu o ato e escutou um suspiro. Parou com o que fazia e encarou o dançarino quando este guiou sua mão até o meio de suas pernas. Mais precisamente: até seu membro.
Apesar de tudo, Eren sentiu as pontas de suas orelhas esquentarem. Rivaille pressionava, levemente, sua mão naquela região e vendo que o garoto não sabia como reagir, disse: “Então ficará apenas com as palavras?”
Eren esperou um momento e então respondeu. “Não.” Mas soou mais inseguro do que sempre quis. Evitou um estalo de sua língua e afundou o rosto na curva do pescoço do mais velho, distribuindo beijos quentes. A ponta de seu nariz voltou a percorrer a linha do maxilar do outro e atreveu-se a mordiscar o lóbulo da orelha. A mão de Rivaille havia abandonado a sua e, tímido, massageava o volume que nascia ali. Vez ou outra recebendo um suspiro como resposta para suas ações.
Remexeu-se e concentrou-se em desfazer o botão e zíper da calça do outro. Sentiu o calor contra sua mão quando tocou a ereção ainda oculta pelo tecido, mas não esperou para livrá-lo, tocando a pele quente. Ganhou uma sensação incomum e uma corrente de ansiedade. Moveu a mão timidamente e tornou a encarar Rivaille, que o ofereceu um sorriso torto.
Ah, Eren não poderia resistir àqueles lábios com aquele sorriso tão sugestivo. Tomou-lhe a boca com vontade e os dedos ainda em seu cabelo, puxaram os fios sem utilizar de muita força. Não fazia ideia se estava fazendo aquilo direito, mas o outro com certeza faria alguma piada caso estivesse ruim. Podia sentir o membro de Rivaille crescer em sua mão e aquilo fazia com que a ansiedade em seu peite, também, ganhasse maior volume.
“Seria ótimo sentir a sua língua aqui.” Rivaille sussurrou contra sua boca.
Eren recuou e perguntou: “Será que eu posso? Eu quero-“
“É uma pena...” Acariciou o rosto jovem. “Não sei se estou no clima para sentir dentes no meu pênis.” Brincou com a falta de experiência do outro.
O garoto pensou em retrucar, mas optou pelo silêncio uma vez que reconheceu a razão naquilo que Rivaille dizia. Continuou com o quê fazia e logo ouvia a respiração pesada do dançarino.
“Ahh,” Rivaille gemeu baixinho e o ego de Eren apossou-se de toda a ansiedade em seu peito e quando um segundo gemido veio, sentiu-se completamente confiante do que fazia, decidindo por manter os movimentos a ritmo firme.
Ainda sim, Rivaille queria provocá-lo. Puxou os fios castanhos uma nova vez, ainda sem força, e lambeu-lhe o lábio. “Ahhn,” gemeu. Puxou o ar com um pouco de urgência e gemeu novamente, conseguindo o quê queria. A expressão no rosto de Eren enquanto este o observava, a mão intensificando os movimentos que não eram ruins de maneira alguma... Mordeu o próprio lábio e encostou o topo da cabeça no vidro negro do carro, fechando os olhos. A boca entreaberta permitia que baixos gemidos saíssem e, ora ou outra, escapava-lhe algum pouco mais alto. Odiava ter de se conter mesmo com uma simples masturbação, mas não poderia fazer algo... Estavam no meio da rua.
Eren queria tocar-lhe o pescoço. Não queria perder qualquer traço de mudança na expressão alheia, porém, e logo a imagem que mais ansiava ver no rosto de Rivaille surgiu quando este gozou em sua mão.
Ficaram a se encarar, Rivaille com sua respiração ainda audível e Eren apenas o observando. “Você já pode soltar.” O mais velho disse, um sorriso ameaçando desenhar seus lábios.
“A-ah,“ Eren livrou-o de sua mão e dobrou os dedos, sentindo a textura pegajosa.
“Há um pacote de lenços dentro da minha bolsa. Pegue para mim, por favor.”
O garoto inclinou-se para o banco da frente, trazendo a bolsa do outro. “Acho melhor você pegar. Não quero... Sujar.”
“Ah, verdade.” Rivaille pareceu se dar conta daquilo apenas quando o adolescente falou, fazendo logo o que ele havia dito.
“Por que você anda com isso?” Perguntou, referindo-se aos lenços. Recebeu a bolsa em sua mão limpa para abandoná-la no banco do motorista novamente.
“Por que eu não deveria? Não gosto de sentir minhas mãos e rosto sujos. E estes são umedecidos, o que é melhor ainda.”
Eren disse nada. Assistiu-o enquanto se limpava para então pegar os lenços. Tinha uma mão para limpar, afinal. Olhou pela janela fechada e sentiu-se inquieto ao perceber que, mesmo que pessoas de fora não pudessem vê-los, ele podia... E isso o fez sentir certo nervosismo. Percebeu, também, que àquela altura o céu mostrava-se um pouco mais escuro.
“O quê está olhando?” Rivaille chamou sua atenção.
“Uh, nada...”
“Então olhe para cá.” Sugeriu num tom baixo antes de puxá-lo para selar os lábios.
Beijaram-se e, ao distanciarem-se, Eren disse: “Aquilo que fez foi muito gostoso.” Rivaille ergueu uma sobrancelha em desentendimento e o garoto continuou: “Quando você... Chupou e mordeu minha boca.”
“Você gostou?” Assistiu os traços no rosto jovem se contorcerem. “Assim?” Prendeu o lábio do outro entre os dentes, puxando-o de leve e o lambeu ao soltar.
Eren suspirou. “Isso é muito bom.” E teve seu lábio capturado uma nova vez. Terminaram num beijo.
Gastaram cerca de dez minutos dentro do carro antes de Eren dizer estar com fome e ambos rumaram de volta à cafeteria. O vento do lado de fora ainda estava gélido e o garoto percebeu o zíper e botão refeitos da calça do mais velho. Talvez ele tivesse arrumado num momento em que não estava olhando.
Durante as duas horas que se seguiram, permaneceram dentro da cafeteria conversando sobre qualquer coisa. O dançarino contou que havia conhecido Erwin e Mike através de Hanji e que seu trabalho na academia havia sido, em parte, graças à Hanji, também.
Quando decidiram ir embora, Rivaille insistiu em deixá-lo em casa. “Está entregue.” Disse ao parar o veículo.
“Obrigado por me trazer.” Não gostou de como aquela frase se formou fora de sua boca. “Até mais?”
“Até mais, Eren.” Pronunciou em tom de divertimento.
Eren moveu-se no banco, tinha o intuito de beijar o outro, mas, novamente, seu beijo foi recusado. Rivaille segurou seu rosto quando já estava realmente próximo e o virou, beijando-lhe apenas próximo à boca. Eren ficou confuso e nada disse.
“Sabe, Eren,” Rivaille começou “eu também detesto psicólogos.”
Eren sorriu e despediu-se. Abandonou o carro e deu de cara com o pai arrumando qualquer coisa na janela ao lado de fora. Seria possível que o outro não havia aceitado seu beijo por conta do médico logo ali?
“Eren.” Grisha parou com o quê fazia. “De quem é o carro?”
“De um amigo.” Esperou um momento. “Um amigo meu e de Armin.”
“Eu conheço?”
“Não. Olhe, não precisa se preocupar, ok? Nós nos encontramos na cafeteria e eu pedi uma carona, ele mora perto.”
Grisha manteve-se em silêncio por alguns segundos e então informou: “Annie está em casa com Mikasa.” Eren grunhiu. “Não seja mal-educado com ela.”
“Eu não sou.”
“Certo.” O pai disse com desconfiança e voltou sua atenção à janela.
Eren atravessou a porta já aberta e entrou em casa. Mikasa e Annie estavam na cozinha e não quis se dar ao trabalho de cumprimentá-las. Rumou direto para o quarto e jogou-se na cama. Queria tomar um banho, mas seu corpo parecia não obedecê-lo para se levantar. Talvez a irmã tivesse razão... Estava sendo muito preguiçoso.
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