Let The Flames Begin
17 Capítulo 17
Notas iniciais
“Terceira casa, Jean.” Eren corrigiu e levou a garrafa de água à boca.
“Ah,” O moreno corrigiu o acorde e bateu com a palheta nas cordas, conseguindo o som correto. “Beleza. Você começa.”
Eren já havia fechado a garrafa e a deixado de lado. Logo o som harmonioso das cordas soava no ar o começo de No Buses. O garoto tocava enquanto o amigo aguardava sua deixa para acompanhá-lo e alguns segundos após a voz do dono dos turquesas tomar o ar, sua vez de tocar o instrumento chegou.
Estavam sentados no quintal da casa de Jean. Armin desenhava qualquer coisa num pequeno caderno em seu colo e a música teve seu fim antes de chegar à última parte.
“Pegou bem, Kirschtein.” Eren disse, voltando a abrir sua garrafa de água.
“Obrigado,” Jean curvou-se parar pegar a palheta que havia caído de seus dedos.
Aqueles momentos de paz entre os dois eram raros. Sem as implicâncias amigáveis...
“Armin, o quê tanto desenha aí?” Jean perguntou.
“Uh, nada, na verdade. Estou apenas rabiscando enquanto vocês fazem a música de vocês.”
O moreno arrastou-se de seu lugar para poder ficar mais próximo do loiro, conseguindo ver que este estava realmente fazendo apenas alguns rabiscos. Armin desenhava muito bem, dizia que era por conta de jogar muito videogame.
Eren deslocou-se para mais perto do melhor amigo, também, e assim como Kirschtein, ficou a assisti-lo.
“Será que os dois podem parar com isso?” A voz de Armin veio.
“Não seja chato, Armin.” Eren disse, encostando seu ombro ao do loiro.
“Queremos ver suas obras.” Jean brincou e recebeu os azuis um tanto entediados e uma sobrancelha loira erguida. “Não faça essa cara.” Forjou uma careta.
“Só estamos impressionados em como você é capaz de fazer qualquer coisa, Armin.” Eren decidiu juntar-se a brincadeira do outro.
“Ok, agora vocês já podem parar.”
“Jaeger, ainda se lembra de Baby I’m Yours?”
Eren riu. “Sim, por que?”
“Acho que tem alguém aqui que merece ouvir.”
Um grande sorriso nasceu no rosto de Eren e ele posicionou o violão no colo.
“Não toquem.” Armin pediu, sendo completamente ignorado pelos dois, que concentraram os olhares em si, começando a música. “Ugh, eu odeio vocês.” Os amigos riram enquanto cantavam, fazendo ridículas expressões.
Depois de atormentarem o loiro, este deixou o caderno de lado assim como os outros dois deixaram os violões.
“É uma pena Marco ter de lidar com as coisas do pai e não poder estar sempre com a gente.” Eren comentou.
Armin concordava, mas, também, argumentava ser da responsabilidade do outro. Jean, por sua vez, dizia sentir falta do amigo em muitos momentos, mas o recebia em casa sempre que possível, assim como ia visitá-lo.
“Ele ainda tem aula de violoncelo?” Eren perguntou.
“Parou há algum tempo.” Jean o respondeu. “Ele disse que precisou dar um tempo com as aulas, pois estava um pouco ocupado.”
“Ajudando o pai?”
“Acho que sim...”
Eren resmungou, desaprovando aquela ideia. “Acho que o pai dele tentará impor as próprias vontades pro futuro de Marco.”
“Eu tenho certeza.” Jean disse e Eren resmungou novamente.
“Isso é ridículo. O Marco já sabe o que quer fazer? Ou se quer fazer algo...”
“Ele pensa em fazer arte.”
“Arte?” Eren repetiu. “Nunca imaginei...”
“Pois é, ele deve estar cansado da coisa de negócios por conta do pai.”
“Deve ser um saco, mesmo.”
O silêncio fez-se presente. Os três adolescentes olhando para qualquer ponto. “Armin, já confirmou o que vai querer fazer?” A voz de Eren voltou ao ar e os turquesas foram lançados aos azuis.
“Ah, a mesma coisa, Eren... História.”
“Vai seguir os passos do avô.” Jean disse.
“Não é por isso. Eu gosto de história. Simplesmente. Não sei se quero dar aula após me formar, mas... Sei que é este o curso que quero fazer.” Ele ergueu a cabeça antes deitada sobre os braços cruzados nos joelhos.
“Ahh, você vai conseguir, pequeno.” Jean passou um braço sobre os ombros encolhidos de Armin e o balançou sem exageros.
“Jean,” Eren chamou “já sabe o que quer?”
O moreno pareceu pensar por um instante. “Ainda não, na verdade. Só sei que não quero algo sério demais... Conviver com pessoas e coisas sérias é um porre.”
“Por que está neste assunto, Eren? Você não costuma falar disso...” Armin questionou.
“Tenho pensado no que quero fazer.”
“E encontrou algo que queira?”
“Não. Meu pai sempre fala de música... Eu adoro música, vocês sabem. Porém não escolheria uma carreira relacionada. Acho que depois da escola, darei um tempo trabalhando em algo até decidir o que quero. Caso eu decida antes do ano acabar: beleza.”
E o assunto morreu ali. Jean voltou a dar atenção a seu violão e Eren apenas aconchegou-se melhor ao lado do melhor amigo para falar sobre como o machucado que havia ganhado na perna ao bater na quina de uma estante estava ficando feio.
–
Aquela era a terceira vez que Eren encontrava com Rivaille naquela semana. Desta, porém, o dançarino estava acompanhado de Hanji e o garoto não conseguia parar de encarar a mulher, pensando em quão boa ela havia sido para o outro. Recordou de quando foi pela primeira vez à casa de Rivaille e percebeu que a morena não havia lhe contado com exatas palavras como ele havia ido viver ali.
“Eren!” Hanji o puxou dos pensamentos. “Você irá à festa de aniversário de Rivaille em minha casa, sim?” Aquilo não soava como uma pergunta.
“Aniversário?” Direcionou o olhar ao dançarino.
“Não deixe que ela a force.” Rivaille intrometeu-se. “Eu não concordei em nada disso e,” ergueu o olhar para o garoto “a casa de Hanji continua sendo um lugar imundo.”
Hanji parecia não ligar para o comentário. Estava muito ocupada com seu cappuccino.
“Costumo entrar no quarto de minha irmã, estou acostumado. Quando será o seu aniversário?”
Rivaille abriu a boca para respondê-lo, mas Hanji foi mais rápida. “No natal!”
Eren sentiu vontade de rir por alguma razão, optando por conter-se. “Ainda tem muito tempo.”
“Passa voaaando, Eren!” Hanji brincou, gesticulando e Eren deixou uma curta e baixa risada escapar.
Os turquesas estavam de volta em Rivaille. Este fitava entediado, a morena, mas então o olhar frio caiu sobre si e aquela ansiedade o atingiu. Fraca, mas ainda deixava-o inquieto. Desviou o olhar.
Após os dois adultos anunciaram que tinham de ir, Eren teve seu braço preso pela mão do dançarino enquanto Hanji jogava guardanapos e copos no lixo. “Será que pode ir à minha casa hoje?” Rivaille perguntou. “Tenho algo que quero dar a você.”
Eren ficou curioso, mas não perguntou o que seria. “Uh, eu não sei... Prometi a Jean que hoje o levaria à loja onde compro cordas pro violão.”
“Uh, certo. Vá amanhã, então.”
“Ok. Desculpe por não poder ir hoje.”
Rivaille rolou os olhos e a voz de Hanji denunciou sua volta. Despediram-se e Eren voltou à mesa onde os amigos o esperavam.
Ignorou as piadas de Jean que pareciam nunca acabar e, parando para pensar, Eren percebeu que, com o dançarino, havia momentos em que ficariam em silêncio e então ele o fitaria até ser encarado de volta ou escutar a voz que demonstraria seriedade. Aquilo já havia acontecido três ou quatro vezes – contando com minutos atrás – ao decorrer daquela semana e agora uma leve careta tomava o rosto jovem. Os dedos estavam inquietos.
Horas mais tarde, fez como havia falado e levou Jean até a loja de um velho conhecido. O lugar ficava perto de onde morava, então após comprar as cordas com o outro, o fez companhia até a estação e rumou direto para casa. Seu pai estava trabalhando e Mikasa parecia estar no banho.
Ao sentar no sofá, se deu conta de que não fazia ideia da hora que poderia visitar o outro. Odiava aparecer sem avisar, sem um horário marcado... Procurou o celular na mochila e digitou: “Rivaille, à que horas posso estar aí? Acho que se esqueceu de me falar...”
Ficou a encarar a tela do celular mesmo depois da mensagem ter sido enviada e então jogou a cabeça para trás no encosto. Suspirou. Pôde ouvir alguns passos brutos da irmã no andar de cima da casa, mas o aparelho vibrando em sua perna o tomou a atenção.
“Venha à hora que achar melhor para você.” Rivaille havia respondido.
Contudo, Eren não sentiu-se satisfeito com aquelas palavras. Não queria acabar sendo inconveniente... Escreveu uma nova mensagem, pedindo para que Rivaille escolhesse um horário que não fosse atrapalhar com algo. Enviou e, novamente, ficou a encarar a tela do aparelho. A data de início da conversa podia ser vista logo acima de sua primeira mensagem, fazendo-o se dar conta de que aquela era a primeira vez que trocava mensagens com o outro. Óbvio.
Estava tão concentrado na data que assustou-se um pouco quando o aparelho tornou a vibrar.
“Você é um saco.
Estarei em casa o dia todo, venha à hora que for mais conveniente para você. Leve um tempo para defecar ou qualquer coisa...”
Que tipo de humor rondava o outro? No segundo seguindo ao terminar de ler, outra mensagem chegou, e esta dizia: “Não pergunte de novo!”
Não pôde evitar uma risadinha. “Estarei aí às 15h.”
“Eren.” A voz de Mikasa fez-se presente. “Faz tempo que chegou?”
“Menos de dez minutos.”
“Está com fome?”
“Um pouco.”
“Vou fazer pipoca, quer?”
“Isso não é comida.”
“Garanto que tira fome. Vai querer? É amanteigada...” Uma expressão um tanto boba nasceu no rosto da garota ao pronuncia a última palavra.
“Quero.”
“Certo, mas lave as mãos antes, por favor.”
“Claro, Mikasa.”
Não demorou muito para que estivesse sentado ao lado da irmã no sofá. Uma tigela grande de pipoca no colo da garota enquanto assistiam Castle. Contudo, Eren não sentiu-se satisfeito apenas com a pipoca e foi à cozinha à procura de algo mais para comer.
Após o fim de sua fome (que não havia pensado que seria tanta), cansou da maratona da série que passava. Tomou um banho e deitou. O relógio marcava 23h41 quando ouviu o carro do lado de fora da casa. Seu pai havia chegado.
Puxou o celular e verificou se não havia recebido mais alguma mensagem. Nada. Perguntou-se se àquela hora Rivaille já teria deitado, se já estaria dormindo... Sequer sabia a hora que o outro costumava ir para cama. Estava pensando bastante nas ações do mais velho a partir das próprias ações.
–
15h32 foi a hora que chegou ao apartamento de Rivaille.
“Atrasado.” O dançarino disse ao recebê-lo.
“Desculpe. Não sabia onde estava minha blusa.” Explicou.
“Não guarda as roupas no lugar certo?”
“Bem, sim, mas às vezes essas coisas acontecem...”
“Huh. Quer beber algo?”
“Não, obrigado.”
“Venha,” Rivaille tocou em seu braço. “Ainda tenho de pegar o quê quero lhe dar. Aproveitei o tempo que não estava aqui para organizar algumas coisas.”
Eren o seguiu até o outro cômodo e foi a primeira vez que entrou no quarto de Rivaille.
“Sente-se.” O dançarino ofereceu. “Tenho certeza de que está em uma dessas caixas.” Disse após abrir as portas do guarda-roupa. Suspirou e abaixou-se para retirar uma caixa redonda de cor lilás. Levou-a até a cama, onde o garoto estava sentado com as pernas abertas e costas curvadas.
Retirou a tampa da caixa e fez uma leve careta ao ver a quantidade de coisas ali dentro. “Talvez tenhamos a sorte de achar aqui.” E começou a retirar algumas das coisas.
Eren não sabia se o ajudava ou apenas observava. Escolheu a segunda opção.
“Ah, está aqui. Que bom.” O dançarino anunciou, retirando uma pequena ziplock de cor preta. Ele abriu o pequeno plástico e trouxe uma palheta vermelha de dentro. “Aqui está.” Entregou o objeto para Eren. “Essa palheta foi usada por Matthew Bellamy em um show que fui.”
Os olhos do garoto arregalaram-se pela surpresa e seus lindos turquesas brilharam por um momento de excitação diante do pensamento que estava segurando uma palheta anteriormente usada pelo vocalista do Muse. “Você vai me dar isto?”
“Sim.”
“Mas deve ter sido difícil para você conseguir.”
“Mais ou menos. Já faz tempo. E já não é tão importante quanto era na época.”
“Rivaille,” Eren interrompeu-se.
“É algo muito pequeno, você não precisa ficar sem ter o quê dizer.”
“Não, não é isso. Eu- Eu acho bonito quando me dão palhetas.” Riu e assistiu o outro erguer uma sobrancelha. “Ainda mais uma assim...”
“Se ganha tantas, estou pensando em pegar essa de volta.”
“O que?” Eren juntou as sobrancelhas.
“Estou brincando.” Devolveu os objetos de volta à caixa e a fechou.
Eren sentiu vontade de abraçá-lo pelo presente. Era algo muito simples, realmente, mas gostava de ganhar palhetas, mesmo que acontecesse com certa raridade. Achava um ato bonito, alguém lembrar de si ao ver tão pequena coisa e, também, tinha relação com a música e seu violão, que gostava tanto de tocar.
Observou o dançarino esconder a caixa e varreu os olhos pelo guarda-roupa. Escutou o som de uma gaveta sendo aberta e suas sobrancelhas juntaram-se novamente ao ver algo incomum enquanto Rivaille guardava o que parecia ser um par de meias.
“Aquilo é uma gargantilha?” Perguntou hesitante.
“Nem perto. É uma cinta-liga.” Pegou a cinta na mão, esticando-a.
“É sua?”
“De quem achou que era, garoto?” Pôs-se de pé.
“Você usa isso?”
“Não... Gosto de pendurar no lugar das cortinas. Dá um bom efeito ao por do Sol. É claro que uso, Eren, por favor!”
Eren sentiu-se um pouco estúpido. Guardou a palheta e fechou a ziplock. Ouviu o outro dizer: “Esta é uma das que ganhei do figurino da academia. Uma coisa ou outras eles dão aos atores ou dançarinos de lá.”
“Quantas mais você tem?”
“Umas seis. A primeira que comprei foi aos 19 anos, porque as achava bonita e Hanji insistiu. Ainda bem que a escutei. Quando vesti uma cinta pela primeira vez, foi como se nada existisse além de mim e de meu reflexo no espelho esbanjando uma curva levemente amassada pelo elástico coberto por tecido.” Relatou com estranha admiração. “Tenho sutiãs, eu-“ Virou-se no intuito de procurar a peça de roupa, sendo impedido pela voz de Eren.
“Você tem roupas de mulher... Gosta de se vestir como uma?”
“Na verdade, não. Acho essas peças realmente bonitas... E cuido para que fiquem bem em meu corpo. Roupas como... Vestidos, saias, não... Não gosto da sensação de minhas pernas encostando uma na outra em alguns momentos.”
“Já usou um?”
“Quando se faz teatro, usa-se de tudo, Eren.” Sua voz pareceu cansada. Guardou a cinta-liga finalmente.
A mente de Eren tentava formar uma imagem do outro vestido numa peça daquela, mas, por alguma razão, não teve sucesso.
“Preciso tirar a roupa da máquina de lavar!” Rivaille lembrou. “Eren espere um minuto na sala, sim?”
Eren moveu a cabeça em sinal positivo e fez como o outro havia pedido. Não teve de esperar muito até que ele estivesse de volta. Rivaille sentou ao seu lado e puxou o notebook que estava fechado sobre a pequena mesa de centro. “Estou com um problema no áudio deste computador... Por acaso você sabe mexer nisso?”
“Está sem som?”
“Está.”
“Uh, já verificou o medidor na barra de trabalho?”
“Sim...” Levou o indicador à boca, mordendo a unha.
“E no painel de controle?”
“Também...” Mastigou o lábio.
“Será que eu posso?” E recebeu o notebook em seu colo. Sentiu o outro se remexer no estofado, ficando um pouco mais próximo de si. Abriu as páginas que procurava para verificar algo. “Você formatou?”
“Sim, mas faz um tempo. Utilizo muito pouco deste computador então não havia notado o problema com o som...”
“Uh-huh,” Eren concentrou-se por um momento e então disse: “Acho que está precisando do software. Você já instalou os programas... Estranho quando isso ocorre. Já aconteceu com o computador de Armin, com o software da internet, porém.” Coçou o pescoço.
“Você sabe o quê tem de fazer?”
“Posso baixar. Sua internet e conexão estão ok, hm?” Rivaille fez que sim com a cabeça. “Então é só baixar.” Abriu a página da internet e buscou pelo download que queria.
“Obrigado, Eren.” Suspirou aliviado. “Eu realmente não utilizo muito, mas preciso de música para o trabalho e para mim...”
“Você gosta bastante de música, hm?” Perguntou sem tirar os olhos da tela do computador.
“Mais do que imagina.”
“Já tem música aqui?”
“Ah, sim, salvei antes de formatar.”
Eren rumou para a pasta de música e se deparou com uma quantidade enorme e variada de gêneros, cantores e bandas. “Você tem muita música aqui.” Comentou. “The Jesus And Mary Chain!” Exclamou e continuou vasculhando. “Depeche Mode, EG, Franz Ferdinand, Lady Gaga… The Smiths...” Eren dizia o nome das bandas que conhecia.
“Você parece ter um bom gosto para música.”
Entortou o lábio. “Na verdade, não ouço Franz Ferdinand. Nem Lady Gaga ou Depeche Mode. O quê é EG? Também não ouço The Killers e não conheço essa tal de The Kills... Nem... Caramba, você escuta Phoenix?”
“É relaxante.” Remexeu-se uma nova vez.
“Você não tem muita cara de quem escuta...”
“As músicas deles parecem todas iguais.”
Eren riu e fitou Rivaille. “Parecem, não é?” Voltou os turquesas à tela. “Ah, The Smiths não é uma de minhas bandas preferidas.”
“Meu gosto por eles é culpa de Hanji. Contudo, não ouço com frequência.”
“Há muita coisa do gênero pop aqui, também. Você tem um gosto bem variado para música.”
Houve um curto silêncio. “Gosta de Sonic Youth?”
“Ouço pouco.”
“Kim Gordon é maravilhosa.” Rivaille comentou divertido.
“Pop e bandas mais atuais. Legal.”
“Eu adoro música... Não gosto de me limitar a gêneros.” Recebeu o sorriso doce do garoto.
“Legal, o download terminou. Vou instalar e então fazemos um teste.”
“Quem mexe nesse tipo de coisa para mim é Hanji ou Mike, mas, como disse, não sabia que estava com problema.”
“Por que teve de formatar? Lembro de Hanji ter instalado alguma coisa?”
“Não precisei daquilo por muito tempo. Formatei porque já estava na hora.”
“Hm,” Eren deu-se permissão para colocar Lisztomania para tocar e sorriu ao não ser reprimido pelo mais velho. Enquanto fazia uma coisa ou outra no computador, sentiu um peso em seu ombro esquerdo e os cabelos negros roçaram em seu pescoço. “Estou pensando em cobrar pelo aluguel de meu ombro.” Brincou
“Huh, vá em frente, garoto.”
Um sorriso permaneceu nos lábios de Eren e ele escondeu uma mão dentro do bolso da blusa. Fez tudo o que tinha de ser feito no computador do outro para que o software funcionasse corretamente e após o segundo teste, obteve êxito e um agradecimento aliviado vindo de Rivaille.
Durante os minutos que vieram, Eren disponibilizou-se a observar o dançarino enquanto este pendurava a roupa de cama nos pequenos varais. Trocavam palavras ou simplesmente adotavam o silêncio temporário. Fizeram um lanche (Eren aceitou apenas o suco) e, mais uma vez, o garoto ficou apenas a assistir enquanto o outro fazia alguma tarefa. Desta vez ele lavava a pouca louça suja.
Fitava as costas escondidas pelo tecido branco da camisa um pouco grande no corpo magro. Ora ou outra mirava os turquesas à paisagem do lado de fora das portas de vidro. Rivaille resmungou algo e pediu para que Eren o passasse o pano de prato.
Mais uma vez, o garoto o observava em silêncio. O peso da cabeça do mais velho permanecia em seu ombro. Assim como tantas outras coisas... Beijos, carinhos... Gostava das duas ações. Beijá-lo e receber aquele carinho gostoso na nuca, ah, não pediria algo mais agradável. O cheiro de Rivaille estava tão vívido em sua mente que, quando sozinho, conseguia, ao fechar os olhos, senti-lo ao seu lado. Tão magro e pequeno... “Rivaille,” O chamou num tom baixo, quase inconscientemente.
“Sim?”
Mas Eren nada disse e então recebeu os cinzelados tão calmos. “Sim, Eren?” O dançarino chamou sua atenção para que continuasse.
“Rivaille,” fez uma curta pausa, sentindo algo pesar em seu peito e as palmas de suas mãos suaram. “eu acho que me apaixonei por você.”
O silêncio reinou entre os dois e após segundos constrangedores para o garoto, ele gaguejou: “D-descul... pe.” Seus punhos cerram-se nos joelhos.
“Eren.” Rivaille largou o pano de prato sobre o mármore da pia.
“Desculpe!” Fez uma careta.
“Eren,” aproximou-se do garoto.
Eren recuou minimamente com a proximidade do outro e teve sua cabeça envolta pelos braços alheio. Levou um minuto para sentir-se à vontade suficiente para fechar os olhos e os apertou. Uma súbita vontade de chorar o atingindo. Sentiu seu rosto quente e sentiu-se nervoso, também. Contudo, não chorou. Ganhava aquela vontade quando deparava-se com tamanho nervosismo. “Desculpe.” Sua voz estava abafada pelo abraço do outro.
Mantiveram-se naquela posição por cerca de um minuto ou dois antes de Rivaille segurar seu rosto entre as mãos e olhá-lo nos olhos.
“Me desculpe.” Repetiu.
“Você gosta de se desculpar, huh?” Sem aviso, o dançarino teve sua cintura abraçada.
Eren tornou a fechar os olhos e o cheiro de roupa limpa invadiu suas narinas. Tinha medo de cumprir ações ao lado do outro. Dois ou três minutos se foram e os dedos de Rivaille moveram-se em seu cabelo, o carinho tão gostoso que havia recordado há pouco.
“Não vai dizer que eu falei sem pensar?”
“É claro que não! Não seria tão estúpido...”
Ficaram quietos. Eren sentia o suave movimento que a barriga de Rivaille fazia ao respirar. Ele respirava engraçado... “Ainda tem chá?” Perguntou após algum tempo. “Fiquei com vontade de tomar.” Fitou os cinzelados e afrouxou os braços ao redor da cintura.
A expressão de Rivaille quebrou-se em decepção, mas vendo que Eren não falaria algo, apenas disse: “Vou servir para você.” E sorriu falso, queria confortá-lo.
Seu corpo foi afastado do dançarino e logo a xícara de chá estava em suas mãos. Ele o fez companhia, sentando-se à mesa e uma conversa se estabilizou: Eren havia voltado a falar sobre o gosto musical de Rivaille e escutou-o relatar sobre alguns shows que havia conseguido ir. O contou, também, sobre os poucos que havia ido e o assunto conseguiu consumir um bom tempo.
Contudo, o adolescente não esperou mais do que duas horas para despedir-se do mais velho.
“Obrigado por me ajudar com o computador, Eren.” Agradeceu uma nova vez ao chamar o elevador.
“Se acontecer algo e Hanji ou Mike não puder te ajudar, me chame.” Recebeu um sorriso simpático e o assistiu verificar em que andar o elevador ainda estava. 8º andar.
“Obrigado pela palheta.” Tirou a pequena ziplock do bolso da blusa para logo guardá-lo novamente. “Vou cuidar bem. Não vai sumir, prometo.”
“Não a jogue na máquina de lavar sem querer, garoto, ou o matarei. Foi o único objeto que nunca limpei em minha vida.”
Eren riu. 11º andar e o adolescente não esperava pelo abraço que envolveu seu pescoço. “Tome cuidado, Eren.” Rivaille disse próximo a sua orelha. Seu tom de voz parecia afetado, quase choroso.
“Não se preocupe. Cuidarei bem da palheta...”
“Não estou falando da palheta, idiota. Cuidado ao voltar para casa.”
“Ah,” riu um pouco sem graça e conferiu em que andar o elevador havia parado. Queria abraçá-lo de volta. Estava hesitante. Suspirou baixinho e o cheiro que tanto gostava, mesclado com o shampoo que o menor usava, voltou a invadir suas narinas. Afundou minimamente a cabeça no ombro do outro e o abraçou finalmente, utilizando apenas um braço, porém. Teve o pescoço apertado sem força ai fazê-lo.
Encheu os pulmões de um ar quente por conta da roupa do mais velho e escutou o som que indicava a chegada do elevador. O dançarino o soltou.
“Cuidado.” Repetiu.
“Pode deixar.”
“Até mais, Eren.”
Eren ofereceu-lhe um largo sorriso e acenou com a ziplock entre os dedos. Piscou fazendo uma careta antes de ter as portas fechadas. Havia conseguido ver o outro rir, pelo menos.
–
Tudo que Eren queria era dormir. Ouvir um bom som e dormir. Entretanto, o violão em seu colo dizia o contrário. O relógio marcava 20h43. Havia jantado ao lado do pai e da irmã e agora estava sentado na cadeira do computador, que tinha arrastado para próximo da janela.
Samuel, um amigo já formado da escola e que morava perto de sua casa, passou pela rua e o avistou na janela, chamando-o. Trocaram algumas palavras e Eren aceitou participar da maratona de futebol no videogame no dia seguinte. Não teria algo melhor para fazer, afinal, e tinha tempo que não jogava com Samuel. Achava engraçado como o rapaz era incapaz de jogar sem movimentar o corpo como se fosse realmente o personagem. Voltou a dar atenção a seu violão quando o outro se despediu, dizendo que o esperaria.
Sentia-se um pouco confuso, pois uma sensação de dormência parecia ter tomado conta de seu corpo e toda vez que se lembrava de mais cedo no apartamento de Rivaille, sentia como se um cateter entrasse em sua garganta, mas a dor que o objeto inexistente o causava era tão pífia...
Resmungou e decidiu deitar. Descansou a cabeça sobre o travesseiro e puxou a ziplock de cima da prateleira, mas desistiu de abri-la. Havia se declarado... Algo que sequer tinha parado para pensar antes de fazer. Não sabia se deveria ou não tê-lo feito, mas agora já havia passado e não haveria nada que o possibilitasse de voltar e desfazer.
O que mais o incomodava era o fato de que o dançarino não havia lhe dito as palavras de volta, mesmo que não fossem exatamente iguais as suas... Chegava a sentir certa raiva. Mais de si do que do outro. Talvez a causa do nervosismo o atingir com tanta força fosse por ter declarado tal coisa em voz alta. Não era apenas admitir para Rivaille, seus sentimentos, mas estava os admitindo para si mesmo ao colocá-los para fora da boca. Uh, sentia-se pesado...
Sorriu, porém. Estranhou o próprio sorriso assim que foi formado. Continuou com aquele desenho nos lábios. A ziplock permaneceu em sua mão enquanto os olhos se fecharam e a mente divagou entre Rivaille e o lixo que teria de colocar para fora no outro dia, enquanto suprimia as sensações que a memória o obrigava sentir.
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