Let The Flames Begin
34 Capítulo 34
Notas iniciais
Eren voltava da casa de Jean. Era noite e ventava um pouco. Ele usava a jaqueta de couro que Rivaille o havia dado e o violão nas costas. Apesar de ser noite, não era tarde, e vários estabelecimentos ainda estavam abertos, bem como a movimentação de pessoas na rua, que continuava.
Eren parou em frente à uma livraria e decidiu entrar um pouco.
–
“Será amanhã, as apresentações.” O garoto lembrou. A cabeça descansando sobre o peito de Rivaille, que lhe oferecia um carinho nos cabelos. Adorava o contato com o tecido macio da seda do robe que o mais velho usava.
“Vocês não tinham de estar ensaiando hoje?”
“Ah, não. Terminamos tudo a tempo, então decidimos que hoje seria um dia de descanso.”
Rivaille manteve-se em silêncio por dois ou três segundos. “E você está descansando?” Perguntou como se não fosse muito claro.
O garoto encarou o mais velho. “Estou.” Sorriu doce e remexeu-se um pouco para capturar os lábios de Rivaille num selinho que logo transformou-se num beijo. Sentiu os dedos do outro em seu pescoço e as unhas em meio a seus cabelos.
O beijo foi desfeito com um som audível e Rivaille sorriu de canto ao encarar o garoto, assistindo aos traços dele mudarem sutilmente. Sentiu a mão alheia deslizar por uma de suas pernas nuas e agarrou um pouco do cabelo de Eren, puxando sem força alguma. “O que tocará amanhã?”
“As meninas quem escolheram as músicas. Não é do tipo que eu escuto.”
“As meninas?” Rivaille ergueu uma sobrancelha, mas havia um olhar divertido lá. “Não me disse que era o único homem na banda.”
“Não achei que fosse importante.” Disse, recebendo nenhuma resposta do outro. Sua mão ainda deslizava sobre a perna dele, assim como os dedos em seus cabelos continuavam a agarrá-lo sem força. “Não acredito que seria melhor se fosse uma banda apenas com garotos. Pelo menos para as meninas eu não vou olhar.” Provocou.
O sorriso torto de Rivaille ainda tomava conta dos lábios finos. “Oh? Mas eu tenho certeza de que elas farão isso por você. Lembro-me de ouvir que é o galã do lugar. Parece que ninguém resiste a esses olhos e sorriso, huh?”
Eren riu breve, sentindo corar muito levemente, e os dedos em seus cabelos afrouxaram-se. Rivaille havia conhecido Nina uma vez em que esta acompanhara o garoto à cafeteria, e a menina de cabelos pretos não pôde deixar de provocá-lo ao comentar sobre as garotas da escola de música, o que parecia ter virado um passatempo para ela.
“É uma pena para elas.” Eren disse por fim.
“Ah, é?”
“Porque estarei olhando apenas para você.”
“Falando coisas prontas assim, até mesmo elas deixarão de babar por você.”
Eren riu. Segurou o rosto do outro em uma de suas mãos e o trouxe para um novo beijo e, enquanto compartilhavam da carícia, teve o peso da perna de Rivaille sobre seu quadril.
“Eu não acreditaria nisso.” Eren falou e então escondeu o rosto no pescoço alvo, deslizando a ponta do nariz pela região, parando próximo ao lóbulo da orelha de Rivaille. Sentiu-o arrepiar-se e falou em um tom baixo: “Porque você continua babando por mim toda vez-“
“Eren!” O mais velho o cortou, fazendo-o rir alto.
–
“Você sabe que isso é extremamente nojento, não sabe?”
“Huh?” Os olhos de Eren caíram sobre Rivaille. “Está falando do queijo no chocolate quente?” Não precisou que o outro lhe respondesse para entender e encolheu os ombros por um momento. “Na verdade, antes de eu experimentar, também achava muito nojento. Mas é gostoso. Você deveria dar uma chance.”
“Não, obrigado.” Rivaille rolou os olhos enquanto mexia no celular de Eren apenas para passar o tempo e não ter que ver o chocolate quente escorrer pelo queijo derretido na colher que o garoto usava. Só o pensamento da coisa lhe dava calafrios. “Você não tinha Madness em seu celular?”
“Sim, mas a excluí depois que você fez aquela dança no pole para mim.” Eren o respondeu, recebendo o olhar cheio de dúvidas do outro. “O que? Eu não conseguia mais escutá-la sem ter que me masturbar depois. E eu gosto muito dessa música.”
Rivaille riu alto, uma risada que Eren sentia-se imensamente feliz em estar habituado a escutar e que, mesmo assim, em todas as vezes que ela chegava em seus ouvidos, surpreendia-o com seu som.
“Você é um virgem, Eren.”
“Não, não sou, não. Vinte minutos atrás você não estaria dizendo isso.”
“Agora não é vinte minutos atrás.”
“É,” Eren começou, lançando o olhar à televisão ligada e levando a colher à boca “você não conseguiria dizer, de qualquer forma. Estaria gemendo meu nome invés disso.”
“Eu estaria gemendo seu nome agora se não estivesse comendo essa coisa nojenta.”
Eren deixou a xícara que continha o chocolate quente e o queijo sobre a pequena mesa de centro, tomando cuidado para que a colher não caísse de dentro da xícara, e levantou-se, batendo as mãos nos quadris. “Vou escovar os dentes rapidinho e então a gente providencia esses gemidos.”
Minutos depois, Eren beijava a nuca de Rivaille e este acariciava seus dedos. As costas nuas do dançarino descansavam contra o peito também nu do garoto, bem como as pernas que se encruzilhavam umas nas outras, trocando o calor das peles.
Eren ergueu o pescoço e o inclinou apenas ao ponto de ser capaz de ver os olhos tranquilos de Rivaille fitando seus dedos, sua expressão era tão serena e relaxada e Eren queria tanto dizer a ele o quanto o amava. Tentou mudar de pensamento o mais rápido possível para não chatear-se demais com aquilo e então perguntou-se sobre o que Rivaille estaria pensando naquele momento.
“Estou pensando em te convidar para ir ao Le Matin na próxima sexta.”
Eren perguntava-se, agora, se o outro havia lido seus pensamentos. “O que é isso?”
“Um restaurante francês.”
“O que significa le matin?”
“A manhã.”
Eren beijou o rosto de Rivaille e disse: “Não sei se estou preparado para comer minha primeira lesma ou sapo.”
“Não vamos comer isso, Eren, é nojento.”
“Tem certeza de que você é francês?” Eren brincou, erguendo uma sobrancelha.
“Tanta certeza quanto você, que descende de alemães e adora linguiças, se é que me entende.”
“Esse... Esse trocadilho foi péssimo.” Recebeu o olhar de Rivaille.
“Nem todo francês gosta de escargot ou pratos que tenham partes de anfíbios.”
“Você não come essas coisas?”
“Não. Pare de utilizar estereótipos.”
Eren apertou os braços ao redor de Rivaille.
“Não me respondeu se aceita ou não meu convite.”
“Huh?”
“E então?”
“Claro que aceito. Por acaso o cardápio desse restaurante é em francês?”
“Sim.”
“Ah, então terá de me ajudar a escolher o que comer.”
“Isso não é um problema.” Rivaille sorriu de canto e pressionou a parte íntima de Eren junto com a sua.
O garoto sorriu e ocupou-se em espalhar beijos pelo pescoço e rosto do dançarino.
–
Rivaille odiava Eren por fazê-lo desejá-lo exatamente naquele momento, em que apenas podia assisti-lo de longe. Por que diabos ele havia decidido que seria a melhor ideia do mundo usar uma regata para participar da maldita apresentação? Rivaille simplesmente não aguentava a visão dos braços de Eren, cujos músculos tímidos ficavam mais evidentes a cada novo movimento que o garoto fazia no instrumento que tocava.
Desgraçado.
Ainda que pudesse ver a fina camada de suor sobre a pele do garoto, queria fazê-lo pagar pela visão. E queria fazê-lo ainda mais por conta dos olhares que Eren o lançava. Desgraçado! Sabia que estava alcançando seu objetivo em provocar Rivaille. Se não bastasse simplesmente a imagem do garoto tocando, que já era sexy o suficiente para fazer o dançarino pensar mil coisas que poderia fazer com Eren quando estivessem a sós num quarto...
Foram três músicas e algumas poucas palavras antes de poder finalmente tocar no garoto. Seus braços grudavam um pouco, mas não se incomodou. Apenas queria tocá-los.
“Que está fazendo?” Eren perguntou, mas não houve resposta. “Que achou da apresentação?”
“Você é uma delícia, a garota canta muito bem, as outras tocam muito bem também, você é muito gostoso, muito barulho, mas vocês estavam incríveis.”
Eren ria. “O que você está dizendo?” Segurou os cotovelos de Rivaille, impedindo-o que continuasse a acariciar seus braços, e o tomou os lábios num beijo rápido. “Onde está Armin e os outros?”
“O loiro foi comprar algo para beber junto com sua irmã, Jean foi para outra direção com o de sardas. Tem certeza de que há nada entre eles?”
“Jean e Marco? Certeza. São amigos. Jean trata quase todo mundo daquele jeito.”
“Ele não trata você assim.”
“Por isso o quase. E você já me disse isso.”
“Ele não vai tocar?”
“Ele quem?”
“Jean.”
“Ah, sim. Mas não é agora.”
“Você é mesmo o galã desse lugar, huh?”
“Que quer dizer?”
“Não imagina a quantidade de comentários que ouvi sobre você enquanto estava tocando.”
Eren cobriu o rosto com uma das mãos. “Eu não sei qual é o problema das pessoas aqui, não paro de receber cantadas...”
Rivaille sorriu de canto e acariciou os braços de Eren mais uma vez.
“Rivaille.”
O mais velho encarou o garoto e recebeu o novo beijo que lhe foi oferecido. Este, porém, mais duradouro.
“Rivaille,” Eren voltou a dizer ao fim do contato entre as bocas e segurou uma das mãos do dançarino. “Há algo que quero te dar.”
Rivaille ergueu uma sobrancelha e um sorriso torto e malicioso brincou em seus lábios.
Eren sorriu, balançando a cabeça lentamente como resposta à brincadeira do mais velho. “Venha cá.” Disse antes de puxá-lo pela mão.
Passaram pelos lugares mais tumultuados de gente antes de chegarem a um corredor vazio que levava a algumas salas, uma delas era onde ficavam os armários dos funcionários e onde Eren queria levar Rivaille.
O garoto retirou uma chave do bolso e abriu a pequena porta para então retirar sua mochila de lá.
“Você me comprou algo?”
“É... sim.”
“Eren, sabe qu-“
“É, eu sei, eu sei, mas... olhe, espero que goste.” Ele retirou um pequeno embrulho prateado e o entregou a Rivaille. “É algo muito simples. Eu realmente espero que goste da forma como eu gostei.”
Rivaille segurou a pequena coisa nas mãos e entortou os lábios. Então começou a retirar o embrulho com cuidado.
“Sabe, é um embrulho... Você não precisa tirá-lo com tanto cuidado assim.”
Rivaille o ignorou e continuou com o que fazia até deparar-se com um livro fino e de capa dura, cuja estampa era algumas ondas sem muito foco num filtro cinza. Próximo a um dos vértices da capa havia escrito em letras pequenas e brancas “céu-mar”.
Rivaille comprimiu os lábios e abriu o livro, folheando-o sem pressa. As folhas eram um pouco grossas e gostosas de passar as postas dos dedos e o livro tratava de uma – uma belíssima, observou Rivaille consigo mesmo – coleção de fotografias do mar em filtros que iam de azul à cinza, sendo o último predominante.
“Você gostou?” A voz do garoto tomou a atenção do dançarino.
“É lindo.” Ele o respondeu. “Mas por que decidiu me dar algo assim?”
“Eu estava andando pela livraria quando o encontrei sem querer. Resolvi dá-lo a você porque...” Os olhos de Eren abandonaram o livro nas mãos de Rivaille e descansaram no rosto dele. “Você foi a primeira pessoa a me levar para ver o mar. Quando eu olho em seus olhos, eu o enxergo exatamente como está retratado neste livro, cinza, profundo e cheio de tantas coisas... Não me refiro à parte biológica,” sorriu um pouco sem jeito “mas a toda sua vida, tudo o que viu até hoje. Quando eu olho para essas fotos ou me recordo do oceano que vimos juntos, sinto-me realmente calmo, porque foi assim que estive quando você me levou lá e é assim que me sinto quando olho para você. Sinto-me calmo e, ainda sim, sei que seus cinzas podem causar medo – pelo menos para mim.” Ele riu casual e continuou. “Assim como o mar.”
“Eu não entendo exatamente o porquê do nome do livro, me desculpe...” Sentiu-se um pouco sem graça em admitir. “Mas tenho minha própria interpretação: quando leio céu-mar, me vem à cabeça seu mar, e de novo penso em você, porque é o seu mar que eu vejo aqui, são os seus olhos, Rivaille. Eu adoro olhar para você.” Eren segurou o rosto do dançarino com uma das mãos e o beijou na lateral da testa antes de voltar a encará-lo. Mal podia acreditar que havia conseguido realmente dizer tudo o que tanto tinha ensaiado dentro da própria cabeça. Sentia-se eufórico e aliviado ao mesmo tempo.
“Eren,” A voz baixa do dançarino alcançou seus ouvidos. “Eu não... Droga, o que espera que eu diga?”
“Sinceramente, não precisa dizer coisa alguma.” Eren o respondeu doce.
“Eu nem acredito que você me disse essas coisas.”
O adolescente abriu a boca para falar, mas desistiu de fazê-lo ao ter os braços de Rivaille em volta de seu pescoço, abraçando-o fortemente.
“Obrigado, Eren.” A mão alva do dançarino descansou no rosto do garoto antes que seus olhos fizessem o mesmo, e ele o beijou. Havia tanto sentimento naquele beijo tão simples e o peito de Rivaille pesava daquela forma estranha que vinha se tornando familiar para si. Não demoraram, porém, a partir o contato e abraçarem-se novamente.
Então Rivaille ouviu a voz do garoto pronunciar aquelas três palavras e o peso sobre seu peito tornou-se mais intenso, bem como a frequência com a qual batia seu coração. Aquelas três simples palavras... tinha certeza de que o garoto sequer se dera conta de que as permitiu abandonar sua boca e Rivaille não podia imaginar o quanto Eren queria pronunciá-las, o quanto vinha se segurando para não dizê-las.
Apertou o abraço em torno do pescoço do mais novo.
Eren também não podia imaginar o quanto Rivaille as queria dizer. Mas ele não estava preparado, ainda não. Sua cabeça estava em uma imensa confusão, ainda havia sentimentos que queria entender.
Ainda não estava preparado para poder dizê-las a Eren.
“Estou feliz que tenha gostado.” O garoto falou ao ganharem um pouco de espaço entre os corpos.
“Eu adorei, Eren. Obrigado.” Rivaille acariciou o rosto do adolescente. Eren era realmente doce. “Podemos fazer nossa própria coleção de fotos do mar, ou de qualquer outra coisa, se quiser.”
“Rivaille, essa é uma ótima ideia! Minha irmã tem uma semi-profissional e eu posso pegá-la emprestado sem problemas.”
Rivaille o ofereceu um sorriso singelo. “Ótimo. Peça a ela, então.” Estava satisfeito com a animação do namorado. “Vamos voltar, seus amigos devem estar nos procurando.”
Ao término do evento, Eren e Rivaille foram para o apartamento deste e o garoto apressou-se em tomar um banho, mas teve a companhia do dançarino, que aproveitou o momento conveniente para outras coisas.
–
Enquanto Rivaille folheava, pelo que lhe parecia ser a quinta vez, o pequeno livro que Eren o presenteara, sentia-se sensibilizado pelos pensamentos do garoto. Os dedos pálidos deslizavam por uma fotografia ou outra e ele sentia-se esmagado por uma sensação surreal. Nunca antes alguém o havia falado coisas como Eren o fazia, nunca antes alguém o enxergara com tanta sensibilidade e carinho, nunca antes alguém havia durado tanto em sua vida amorosa e Rivaille encontrava-se sobre a tênue linha entre felicidade e traição – traição a sua desconfiança, às suas amarguras e todas as outras infelicidades com as quais havia se habituado tanto a viver. Grandes companheiras.
Um som vindo do corredor lhe tomou a atenção e o livro foi fechado e colocado sobre a mesa.
"Eren."
"Oi." O garoto ofereceu um pequeno sorriso enquanto tentava dar um jeito no cabelo bagunçado com a própria mão, havia acabado de acordar. "Meu pai me ligou. Pediu para eu ir para casa ajudá-lo com algumas coisas."
"Seu pai realmente não para, não é mesmo? Está roubando meu namorado agora."
Eren sorriu e contornou os ombros de Rivaille com o braço, a fim de puxá-lo para si, e depositou um beijo na testa alheia.
O mais velho tocou a pele nua das costas do garoto e sentiu a palma da mão formigar com a transferência de calor do corpo do outro.
"Coma alguma coisa antes de ir. Eu o levarei para casa."
E assim fizeram: enquanto Eren se arrumava, Rivaille preparou algo rápido para o garoto comer antes de deixarem o apartamento.
Não demoraram a chegar à casa do adolescente e Grisha já havia começado a remover algumas coisas dos fundos da casa.
"Pai, eu não entendo o porquê de você sempre querer mexer nessas coisas. Deixe-as aí."
"Eu vou jogar algumas dessas caixas fora, filho, e as que ficarem, levaremos para a garagem."
"De novo?"
Grisha riu breve e observou Eren a balançar a cabeça antes de voltar para dentro da casa para pegar o que precisava para ajudar o pai.
"Eu sinto muito por tirá-lo do descanso..." O médico confessou ao dançarino, que havia ficado.
"Eu não acho que ele se incomoda com isso, Grisha. Sinceramente, acredito que ele está mais preocupado com o seu descanso por sempre decidir fazer trabalhos físicos quando está de folga."
Grisha suspirou. "Ele te disse isso?"
"Não é realmente necessário que ele diga."
"Bem. Está tudo certo com o que conversamos?"
"Sim. Irei à casa de minha amiga agora e planejaremos uma coisa ou outra."
Grisha ofereceu a Rivaille um simpático sorriso.
"Eren disse que já vem, mas eu irei ajudá-los hoje." A voz de Mikasa invadiu o ar, chamando a atenção do dançarino e do médico.
"Você não tem treino hoje?" Grisha perguntou.
"Não, hoje não." Ela respondeu, já ocupando-se em empilhar três caixas para levar à garagem. "Vai ser mais rápido com minha ajuda."
"Tome cuidado para não cair."
"Bem, eu preciso ir." Rivaille falou. "Te-"
"Já vai? Fique um pouco mais." Eren havia voltado.
"Não posso, meu amor. Eu adoraria, mas agora Hanji está me esperando."
"Ah, sim, é verdade." Eren segurou a mão do namorado. "Eu o acompanho até o carro."
"Não, não é necessário. Fique com seu pai aqui para ajudá-lo. Vou aproveitar para falar com Mikasa."
"Tudo bem, eu o acompanho."
"Conversa particular, Eren Jaeger, nada de garotos."
Eren ergueu uma sobrancelha. "Você também é homem."
"Sem choro, Eren. Preciso conversar com sua irmã e é particular."
"Ma-"
"Pare de chorar." Mikasa havia retornado. "Estou curiosa para saber sobre o que é."
"Sobre o que é?" Eren perguntou.
Rivaille rolou os olhos, impaciente com a insistência do garoto, e o ignorou, despedindo-se de Grisha e escutando Eren resmungar.
"Nos vemos amanhã, Eren." Rivaille falou antes de tocar os lábios do adolescente num selinho.
Como acompanharia Mikasa até a garagem, decidiu ajudar, levando pelo menos uma caixa para lá.
"Estamos planejando uma festa surpresa para Eren." Ele começou.
"Sabe-"
"Eu sei que é algo para o qual ele não dá muita importância, essa coisa de festas de aniversário, mas eu queria fazer alguma coisa para ele."
Também não era o tipo de pessoas que dava muita importância às datas comemorativas de aniversário, mas era absolutamente irrefutável que gostava muito do fato do garoto existir.
"Não será algo grande. É só para ser lembrado."
"Sabe, Rivaille, você já faz muito por Eren."
Chegaram à garagem e descansaram as caixas num canto. Rivaille bateu as mãos uma na outra e encarou Mikasa.
"E ele faz muito por mim, não tem ideia, mas ainda sim quero dar a ele algo especial. Sei que Eren preza muito por seus amigos e familiares, então preciso da sua ajuda para reuni-los."
Mikasa fitava o dançarino em seus olhos. Havia criado uma admiração por ele, pelo modo como tratava seu irmão e o fazia feliz.
"Conversei com seu pai por telefone ontem, então ele está ciente de tudo e concordou."
"Vocês já estão se organizando? Falta mais de um mês para o aniversário de Eren ainda!"
"Sabemos. Mas eu não sou o tipo de pessoa que gosta de deixar tudo para cima da hora."
"Pensei tê-lo ouvido dizer que não seria algo grande."
"E não será. Mas isso não quer dizer que possa ser mal planejado."
Ficaram a se encarar por dois ou três segundos e então Mikasa disse: "Tudo bem, certo. Eu o ajudarei."
"Obrigado." Rivaille observou o corte que Mikasa tinha adotado há pouco tempo, havia ficado muito bom nela. "Eu preciso ir."
"Ok." A garota caminhou junto com o dançarino para fora da garagem. "Ah, vocês já têm alguma ideia de onde será essa festa surpresa, senhor prevenido?"
"Será aqui."
Mikasa apenas fez um sinal com a cabeça, demonstrando que havia entendido, e parou em frente ao carro do mais velho.
"Me informe sobre tudo." Rivaille pediu. "Seu pai tem o meu número, então me ligue ou me mande mensagem se precisar de qualquer coisa."
"Certo." Mikasa observou-o abrir a porta do carro e antes que ele pudesse entrar, ela falou: "Eren ficará muito feliz, Rivaille.” Ela recebeu um pequeno, quase imperceptível, sorriso.
–
"Ficou ótimo, Rivaille, obrigada por cortá-lo." Hanji passava os dedos pelos cabelos recém-cortados pelo melhor amigo. Ele sempre o fazia quando considerava-o seco e maltratado ou então quando a morena o pedia.
Rivaille suspirou e descansou a tesoura sobre a pia do banheiro, encostando-se ali. Cruzou os braços e encarou a amiga.
"Você está tenso. O que houve?"
De nada adiantava tentar esconder algo de Hanji. "Eu não estou preparado."
"Para que?"
"Eren disse de novo."
Hanji levou dois ou três segundos para descobrir a que Rivaille se referia. "Você não o respondeu."
"É claro que não." Ele passou as mãos pelo rosto, impaciente.
"Rivai-"
"Eu não estou preparado, não para isso. Não sinto que estou."
"E o que está sentindo?"
"Eu não sei."
"Então como pode dizer que não está preparado para isso." Não houve resposta, o dançarino apenas a encarava. "Você gosta dele."
"Muito."
"A gente sabe. Então qual é o problema?"
Rivaille suspirou pesada e audivelmente.
"Tudo bem. Então você o disse nada."
"Tenho certeza de que ele sequer percebeu que as pronunciara."
"Co-" Hanji apertou os olhos por um momento e balançou a cabeça. "Rivaille-"
"Eu-"
"Você sabe que está preparado."
"Não, eu não estou."
"Ora, você está apenas sendo teimoso. Você é ótimo nisso." A morena sorriu a fim de confortar o amigo. "Não pode ter tanta certeza em dizer que não está preparado quando sequer sabe o que está sentindo agora. Você gosta dele, você mesmo disse isso e, para ser honesta, Rivaille, não é mais necessário que você fale, já está evidente na maneira como você o olha."
"Você está sendo dramática."
"Não, eu não estou. Você sabe que é verdade. Não precisa que eu diga isso a você. É inteligente demais para perceber isso sozinho."
"Ugh, Hanji, acha que eu não notei?" Rivaille parecia irritado, mas isso não fez com que o sorriso no rosto de sua amiga fosse embora.
"Você não sabe lidar com essas coisas."
"Obrigado pela observação, senhorita óbvia."
Hanji riu. "Não que isso tenha acontecido milhões de vezes." Ela fez uma pausa, descansando o braço sobre os ombros do dançarino. "Você ama o garoto."
Rivaille sentiu-se estremecer e puxou o ar lentamente para os pulmões. Sentiu-se dormente por um segundo ou dois. Ouvir aquelas palavras era como senti-las palpáveis em seu rosto.
"Eu não estou preparado para dizer a ele, Hanji." Havia uma singela mistura de agonia e confusão em sua voz.
Hanji riu alto e recebeu o olhar de estranheza do outro. "Ora, por favor, Rivaille, você está preparado. Não trate isso como se fosse um segredo." Ela observou o amigo abrir a boca para protestar, mas não deixou que ele o fizesse. "Você sabe que está. Apenas precisa permitir-se a fazê-lo. Rivaille, você conhece Eren. O garoto o ama também, ele já deixou bem claro. Há quanto tempo eu e você nos conhecemos? Há uma vida! E eu nunca gostei tanto de alguém com quem você se envolveu como eu gosto desse menino. Ele o faz bem e você faz o mesmo para ele. Eren não é um dos canalhas que conhecemos anos atrás."
"Há muitas possibilidades na vida, quatro-olhos."
"Não me venha com essa. Pare de tentar se enganar para manter-se em sua zona de conforto!"
E era exatamente aquilo que Rivaille fazia agora: criava mentiras confortáveis e coerentes em sua cabeça para impedir-se de dar passos que sabia querer.
Sentia-se tolo. Odiava fazer aquilo consigo mesmo, mas era imensamente difícil admitir que algumas coisas dentro de sua cabeça haviam mudado.
"Eu preciso de um tempo." Rivaille disse por fim.
Hanji beijou-lhe o topo da cabeça e o escutou resmungar. "Sei de outra coisa da qual você precisa."
O dançarino rolou os olhos, esperando qualquer bobagem da amiga.
"Você precisa fazer as unhas, Rivaille, estão horríveis."
"Hanji..."
"Estou falando sério."
Ele fitou as próprias unhas e fez uma careta. "Péssimo." Estalou a língua e suspirou, resolvendo que daria um jeito em suas unhas quando estivesse em casa. Resolveu, também, mudar de assunto com a amiga. Havia algo que queria saber. "Quatro-olhos, como está com aquela moça de cabelos cacheados?"
"Seu nome é Elize e eu estava mesmo precisando lhe contar algumas coisas." O sorriso no rosto de Hanji deixava claro para Rivaille que tudo ia muito bem entre as duas.
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