Let The Flames Begin
25 Capítulo 25
Notas iniciais
Eu te amo. Para Rivaille isto significava algo. Uma coisa que parecia não ser mais capaz de alcançar. Queria estar errado. Assim como queria estar tão certo e viver isolado de qualquer sentimento que o levasse a ter responsabilidades indesejadas e pesos que não fossem seus.
Estava sentado no sofá observando os outros prédios e o céu através das grandes vidraças de sua sala. Os dedos entrelaçados sobre a barriga, as pernas cruzadas e pés descalços. O movimento da boca de Eren ao dizer aquelas palavras não cansava de perturbar sua mente – simplesmente porque aquilo era algo que não queria ouvir, pois, uma vez pronunciadas, sentiria culpa por não poder dizer o mesmo.
Para ser franco, não esperava que o garoto dissesse tal coisa tão cedo e, ainda mais, numa situação como a que estavam. Talvez estivesse pensando demais naquilo porque não conseguia compreender como era a inteira sensação de amar. Havia perdido a capacidade para tal – soava como uma pergunta em sua cabeça. Talvez, novamente, porque nunca tivera um relacionamento onde “tudo corria bem”. Até mesmo seu relacionamento com Eld havia sido, apesar de duradouro, conturbado.
Outro motivo que o fazia pensar e repensar naquele assunto era o seguinte: enxergava-se como uma pessoa quebrada. Alguém que demonstrava ou aparentava frieza, com histórias não muito boas ou motivadoras para contar. Com – como as pessoas costumam dizer – um “passado sujo”, pois oferecera-se, drogou-se para fugir de si mesmo e de todos. Viveu, durante um curto período, à base de remédios para poder se manter – antidepressivos. Logo, tão logo, não conseguia compreender o porquê de alguém oferecê-lo amor. Não havia motivo! Os homens com os quais havia se envolvido, sabia, a razão era puramente carnal. Poucos que se salvavam desta classificação, ele próprio não conseguia manter-se junto.
Sem fazer comparações. Rivaille fechou os olhos e suspirou calmo. Tornou a abri-los e o Sol ainda estava alto. Sabia que, na maioria das vezes, havia sido quem induzia as situações: gostava de se mostrar, de exibir-se tão atraente quanto qualquer mulher poderia estar para conquistar o quê desejava – sem o conceito machista, pois apenas gostava de se comparar a uma mulher e ficar bem por, ainda que homem, poder sentir que era mais atraente do que uma. O que mais, então, poderia esperar além de apenas desejo carnal dos outros para consigo? Era hilário.
Odiava ficar a pensar naquelas coisas e, com relação a algumas delas, como os passados relacionamentos fracassados, havia desenvolvido, há alguns anos, uma boa capacidade para esquecer. – Não que não parasse para pensar às vezes, como fazia no momento, mas o maior peso da lembrança não mais estaria consigo. Claro que isto era trabalhado com um mínimo de tempo.
Às vezes, Rivaille queria mudar aquilo. Queria esquecer boa parte de quem era e cometer idiotices como qualquer um ao se dedicar a um amor, permitindo-se forçar a retribuir até que acontecesse de verdade. O quê o impedia, porém, eram os tão falados cansaço e impaciência para esperar que a tentativa se tornasse, finalmente, realidade, e via-se não muito disposto a oferecer tempo demais para isto.
Desviou o olhar das janelas, sentindo-se exausto. Talvez Erwin tivesse razão. Talvez, daquela vez, mesmo que somente daquela vez, as coisas teriam dado certo. Não havia discussões significativas com Eren, não havia falta de tempo, carinho ou sexo. O garoto era um amor. Só não havia sentimento o suficiente que saísse de si para ele. E isto aparecia como um soco em sua cara.
Quem sabe tivesse medo de que as coisas dessem certo? Medo do desconhecido... Os motivos poderiam ser tantos... Bom senso, medo, fuga, honestidade... Mas, para Rivaille, os motivos eram os concretos: bom senso e honestidade para consigo mesmo e com a outra pessoa.
Dobrou as pernas sobre o estofado e deitou-se de lado, as mãos ainda na barriga – agora, porém, fechadas em punhos. Escutou o farfalhar dos próprios cabelos contra as almofadas e manteve os olhos bem abertos de volta às janelas.
O cabelo de Eren precisava de um corte... Mas estava tão bonito, grandinho como estava...
Havia se dado conta de algo há alguns dias: provavelmente, encontraria vez ou outra com o adolescente, uma vez que frequentavam o mesmo lugar e utilizavam de caminhos comuns para fins divergentes. Seria um verdadeiro saco ter de ser obrigado a vê-lo e aguentar o quase inexorável clima que cairia sobre tudo. Também não queria ter de ignorá-lo, e isto era incomum para si. Mas, afinal, gostava de Eren e, como tantas vezes havia dito, queria manter a companhia do garoto. No entanto, não achava justo que o fizesse.
Ah... A ambiguidade.
Havia tanto tempo que problemas como aquele não ocupavam sua mente. Ah... Fechou os olhos finalmente e suspirou.
Não havia conseguido trocar as férias com Ian, o quê significava que, dentro de algumas semanas, ficaria quase um mês sem trabalhar. Não queria ter todo aquele tempo ocioso. Hanji estaria trabalhando, então não teria a constante companhia da amiga. Visitaria a Academia vez ou outra, claro, sempre o fazia mesmo em férias, mas não era a mesma coisa. Os idiotas não o deixavam trabalhar...! Talvez viajar fosse uma boa ideia. Há temos não ia a algum bom lugar para relaxar.
É, viajar parecia uma ótima ideia.
–
Eren, Armin e Jean estavam acomodados à mesa costumeira da cafeteria. Jean lia algo para Armin enquanto Eren debruçava-se sobre a madeira da mesa, apenas escutando-os e tomando o bom suco que tanto gostava. A cabeça descansava sobre um dos braços cujos dedos batucavam a mesa sem um ritmo definido.
Estou morrendo, Eren pensava. O motivo era simplesmente porque sentia-se muito preguiçoso. Seu suco estava acabando e desejava comer algo, mas não sabia se levantaria para comprar. “Jean,” chamou-o, interrompendo a leitura.
“Fale.” Jean respondeu.
“Vá lá dentro comprar suco para mim.”
Uma sobrancelha de Jean arqueou levemente. “Por que não vai você?”
Eren resmungou e disse: “Estou morrendo de preguiça.” Escondeu o rosto sobre o braço.
“Ah, faça o favor, Jaeger.” Jean direcionou o olhar a Armin, que riu baixinho.
“Cara, que fome...”
“Pare de reclamar e vá comprar algo para comer.”
“Uhhh,” Eren parecia uma criança. Resistiu à fome e sede por algum tempo e, quando moveu a cabeça, decidido a levantar, voltou a ficar preguiçoso e logo estava na mesma posição de segundos atrás. Cruzou os braços, descansando a cabeça mais confortavelmente e fechou os olhos sonolentos. Jean já não lia mais. Agora, ele e Armin discutiam sobre o texto.
Dentro de uma hora, mais ou menos, a luz do Sol começaria a deixá-los.
Eren, então, escutou uma voz familiar que não ouvia há semanas e ergueu o olhar para conferir: Hanji entrava no prédio acompanhada por Moblit. Ela não o havia visto.
“A Hanji,” Eren pensou em voz alta.
“Quem?” Armin perguntou.
“A Hanji. Vou falar com ela. Não a vejo há um tempo...” Levantou e procurou pela carteira dentro da mochila. “Aproveitarei para comprar algo para comer.” Empurrou a cabeça de Jean, sem força, provocando-o, e saiu rapidamente, rindo de qualquer coisa que o amigo havia praguejado.
Recebeu o ar frio e o cheiro de café ao entrar. Hanji estava na fila, logo atrás de Moblit, e não tardou a vê-lo.
“Ah! Eren!”
Recebeu o abraço apertado da mulher.
“Quanto tempo!” Hanji disse antes de livrá-lo.
Eren cumprimentou Moblit e esperou que a morena fizesse o pedido para então comprar o que queria. “Vocês ficarão por aqui?” Perguntou.
“Sim! Venha, fique conosco! Está sozinho?”
“Estou com amigos, mas ficarei com vocês um pouco.”
“Ahh, ótimo, ótimo! Chame-os para sentar com a gente!”
“Acho que eles estão ocupados com alguma discussão saudável e chata.” Disse num tom brincalhão.
Hanji deu de ombros e os três rumaram para as poltronas e, ali, acomodaram-se.
“Não nos vemos há um bom tempo.” Hanji repetiu. “Precisa me contar tudo o quê tem feito.”
Eren abriu a boca para tentar dizer algo, mas a morena o interrompeu, falando em um tom diferente, menos animado. “Ah, Eren, querido, eu sinto tanto pelo acontecido.”
No primeiro momento, Eren não compreendeu o porquê de ela dizer aquilo, mas logo entendeu. “Ah...” Abaixou a cabeça por um segundo, sentindo-se encabulado.
“Será que posso lhe oferecer um abraço?”
“C-claro.” E recebeu o abraço que lhe rodeava os braços e ombros e fitou Moblit por cima do ombro de Hanji. Sentiu-se incomodado em pensar que alguém que mal conhecia poderia estar ciente do infeliz acontecimento em sua vida. Desviou o olhar do loiro e o abraço foi desfeito.
Como se abraços resolvessem seu problema.
“Como você está?” Hanji perguntou.
“Eu não sei.”
A morena não questionou.
“Mas e como você está?” Foi a vez de Eren perguntar. “Estive com saudade de você.” Disse, seu tom de voz, agora, animado e risonho em sua falsidade sonora, pois apenas queria quebrar o clima deprimente que havia caído sobre os três.
“Estou bem, querido.”
Eren sorriu e bebericou o suco. Ao descansar o copo sobre a mesa, perguntou, retomando seu tom mais sério: “Como ele está?” Odiou-se no momento em que a boca tornou a fechar.
“Rivaille? Ah, ele... Bem,” Hanji hesitou. Não queria deixar Eren chateado. Mas preferiu ser sincera e usar das palavras do dançarino: “Ele está normal.”
Normal? Eren juntou as sobrancelhas levemente. “Como assim?”
“Eu não sei se consigo lhe explicar, Eren... Talvez você entenda se parar para pensar sobre algo que ele já lhe disse? Sei que Rivaille deve ter lhe contado algumas coisas...”
Eren franziu o lábio. Estava sofrendo como um verdadeiro idiota apaixonado enquanto Rivaille estava normal? Ah, sentiu raiva no primeiro momento, mas passou tão rápido quanto veio.
“Não se preocupe, Eren.” Hanji disse e o adolescente viu Moblit se afastar, indo em direção ao banheiro. Queria dizer que o dançarino pensava no garoto. O conhecia suficientemente bem para saber que estava certa. E que estava certa, também, se dissesse que o outro evitava pensar no adolescente. Era o que Rivaille fazia: evitar coisas. Ou pelo menos tentar.
“Foi terrível, Hanji.” Eren sentiu-se livre para começar agora que estava na companhia somente da mulher. “É uma das piores sensações que já senti. Para ser sincero, por mais que pareça dramático demais, sequer sei dizer se já estive tão infeliz desde a morte de minha mãe, mas eu era tão criança, eu sequer...” Atropelava as palavras. “Me desculpe por jogar isto em você.”
Hanji ofereceu-lhe um sorriso doce e passou um braço por suas costas, acabando por acariciar seu braço. “Não há problema algum, Eren.”
“Obrigado.” E logo mudaram o rumo da conversa, pondo em dia qualquer assunto banal. Moblit havia voltado e os três permaneceram sentados ali por cerca de meia hora.
Hanji sentia, a todo momento, seu coração pesar ao olhar para Eren. Sentia-se mãe do garoto e aquele pensamento a fez sorrir, achando graça.
Quando saíram do prédio, o céu mesclava-se em laranja, azul e um pouco de roxo. Hanji e Moblit foram embora e Eren voltou para junto dos amigos. No entanto, logo partiram também. Acompanhou, junto com Jean, Armin até a portaria do prédio para então seguir até a estação ainda com o amigo. Logo despediram-se, logo, Eren estava em casa.
Os ombros doíam por conta do peso do violão. Esticou o pescoço de um lado para o outro e o ouviu estalar, assim como as costas.
Lavou-se e, após ouvir a irmã dizer repetidas vezes seu nome seguido por um “você prometeu”, e o pai: “Eren, ajuda sua irmã com o computador”, decidiu dar um jeito na placa ruim de rede de Mikasa – era assim que se referia àquilo.
“Você precisa aprender a mexer nisto.” Disse à irmã.
“Uh-huh.” Pronunciou com descaso.
Lançou o olhar na direção da garota. “Estou falando com você. Acha que vou arrumar seu computador para sempre?”
“Sim.”
Eren balançou a cabeça em sinal negativo e voltou a concentração ao que fazia para terminar logo e, alguns minutos depois, pôde voltar ao quarto. Como tanto queria, jogou-se na cama. Queria muito dormir. Queria ainda mais uma massagem nas costas. Apertou um ombro de cada vez com os nós dos dedos.
Eren estava, dia após dia, sentindo-se melhor. Havia parado com o choro constante e encontrava a mente mais tranquila apesar de saber ainda ter a infelicidade instalada em si. Estava conseguindo deixá-la de lado pouco a pouco... Pouco a pouco. Como quando dorme sem perceber, mas sente que falta algo, que pouco a pouco foi se vaporizando sem você sequer querer.
–
Era sábado – finalmente!
Eren havia se convencido de que seu cabelo estava grande quando percebeu que podia prendê-lo num rabo-de-cavalo curtinho. A franja, tinha de afastar dos olhos de minuto em minuto.
“Cortarei igual ao seu.” Dizia em tom brincalhão para Armin.
“Engraçadinho.”
“Sabe que estou gostando do tamanho que está? Mas é meio chato para manter arrumado...”
“Sei o que quer dizer.”
“Nah, o cortarei logo.”
Chegaram à cafeteria e resmungaram chateados ao ver que o lugar de costume estava ocupado. Entraram no prédio e fizeram os pedidos. Quando saíram, para a surpresa e alegria de ambos, o lugar encontrava-se vazio. Não demoraram a ocupá-lo novamente, fazendo o segurança, já tão familiar, rir.
Eren relaxou os ombros e mexeu seu cappuccino, bocejando logo em seguida. A franja deslizando pela face para logo ser afastada.
“O jogo de Mikasa será numa sexta-feira, hm?” Armin perguntou.
“Sim. Uma pena. Eu e o pai não vamos poder assistir.” Torceu o lábio. “Ela não ficou feliz com a ideia, mas compreendeu. Na verdade, nenhum de nós ficou feliz.”
“É uma pena, mesmo...” Armin concordou. “Mas acredito que irei para torcer por ela e o time. Acho que a deixará feliz.” Sorriu doce.
“Com certeza!”
Houve um breve silêncio até Armin dizer: “Ela esqueceu mesmo sobre aquela coisa de você gostar de homem?”
“No fundo eu acho que não... Não completamente. Mas ela está tentando de verdade e eu realmente admito isso.”
Armin fez um sinal com a cabeça e engoliu o pedaço de bolo que antes mastigava. Eren, por sua vez, sorveu do primeiro gole de cappuccino e uma careta tomou conta de seu rosto. “Está sem açúcar. Bleh...” Levantou-se. “Vou pegar açúcar.” Avisou e recebeu um novo movimento de cabeça de Armin. Rumou para dentro do prédio e sempre tinha o mesmo cheiro de café e um friozinho gostoso do ar condicionado.
Eren seguiu até o armário de grãos, onde os frascos com açúcar, chocolate, baunilha e canela em pó ficavam e pegou o que queria, procurando por uma colher descartável logo em seguida.
Após misturar o líquido com o açúcar, experimentou e aprovou o gosto. Jogou a pequena colher de plástico no lixo. Enquanto ia em direção à saída, olhou ao redor como quem não quer nada e seus pés logo pararam quando os turquesas, tão repentinamente, afogaram-se em oceanos de céu nublado em cinza que insistia em esconder o azul. – Rivaille descansava na poltrona atrás da pilastra – a mesma poltrona de onde o observava ao lado de fora do lugar – as pernas cruzadas e papeis e caneta em mãos.
Quando foi que ele havia entrado? Ah, Eren ficou nervoso. Ambos frequentavam o mesmo lugar, é claro que iriam ter tais encontros. Baixou o olhar por dois ou três segundos e voltou a fitar o dançarino, que o fitava de volta.
De início, Eren sentiu-se muito desconfortável, mas então, mudando o rumo de seus passos, caminhou em direção ao ex-namorado e acomodou-se na poltrona ao lado deste.
“Você está usando óculos?” Foi o que conseguiu dizer – afinal, além de tudo, nunca havia visto Rivaille usar óculos de grau. O peito pesava numa dormência estranha e os dedos ameaçavam tremer.
“Passei a precisar desta droga. Estou usando há...” Parou um segundo para pensar. “Não tenho certeza... Duas semanas talvez. Para leitura.” O dançarino explicou, deixando claro em seu tom de voz o quanto não gostava daquela nova necessidade.
“Ficou muito... Bonito.” Eren disse hesitante.
“Obrigado.” Encararam-se por silenciosos dois segundos. “Deixou o cabelo crescer... Não corta desde-“
“É.” Eren o interrompeu e afastou a franja dos olhos, arrumando o cabelo atrás da orelha. Sequer lembrava que uma vez Rivaille o havia pedido para que deixasse o cabelo crescer. “É um pouco irritante, fica caindo sobre meus olhos...”
“Está muito bonito.” Rivaille havia adorado o tamanho em que o cabelo do garoto se encontrava. Havia dado a Eren um ar mais sexy, fazendo-o ter vontade de puxar os fios castanhos...
“Obrigado.” Eren respondeu por fim, a voz baixa enquanto o coração voltava ao ritmo normal. “Desculpe, não perguntei como está...”
“Estou bem.” Rivaille respondeu, passando a caneta para a mesma mão em que segurava os papeis. Então pegou a xícara de café e bebericou, lembrando a Eren de seu cappuccino e este logo ocupou-se em sorver o líquido. “E você?”
Será que ele não sentia nenhum pingo de nervosismo? Eren estava quase suando frio e Rivaille parecia tão calmo... Como se não tivesse nada para se importar. “Estou bem.” Disse desanimado, o quê não era sua intenção.
O dançarino ergueu uma das sobrancelhas muito levemente, mas esta logo voltou ao traço normal e a xícara foi, novamente, abandonada sobre a pequena mesa. “Como está a escola?” Perguntou.
“Está...” Mas como é que ele conseguia?! Por que simplesmente não havia continuado a caminhar para fora do prédio? Ah, Eren... “Desculpe,” começou, pondo-se de pé. “Armin está lá fora me esperando. Não posso ficar.”
Encaravam-se.
“Eren-“
“Foi... Muito bom te ver... Você está... Muito bonito... De verdade.” Sentia nervosismo a ponto de chorar, mas não o faria. “Tchau, Rivaille.”
Finalmente viu-se fora do prédio e um longo e pesado suspiro o abandonou carregando todo o nervosismo e ansiedade. Contudo, aquela raiva de dias e dias atrás voltou a seu peito e Eren sentia que iria explodir. Era como se todo o caminho que tinha percorrido para minimizar a dor, de nada tivesse valido... Amaldiçoava Rivaille, querendo-o em seus braços. Um paradoxo?
“Eren, você demorou.” Armin disse assim que o melhor amigo fez-se presente à mesa.
“Desculpe.” Sentou-se.
Os grandes azuis de Armin estavam fixos na imagem do moreno. “O que houve?” Perguntou.
“Huh?”
“Você não parece estar bem. Não estava assim quando entrou... Por acaso está passando mal? Sua barriga voltou a dor?”
“Ah... Foi. Foi. Havia voltado a doer, mas já está-“ Interrompeu-se à medida que uma das sobrancelhas de Armin se curvava. “Uhh...”
“O que aconteceu?”
Eren evitou um suspiro. “Adivinha quem está lá dentro.”
“Quem?” Armin não se deu ao trabalho.
“Rivaille.” Esperou que o amigo dissesse algo, mas nada veio. “Nós nos falamos e, argh, ele parece estar tão bem com tudo isso, Armin.” Uma pausa. “Tsc.”
Armin levou uma das mãos à mão do amigo, acariciando-a. “Isto é tão... Urgh!” Debruçou-se sobre a mesa, escondendo o rosto entre os braços agora cruzados. “Estressante...” Completou. “Que ódio...” Murmurava em frustração e Armin oferecia-lhe um carinho nos cabelos agora.
“Quer ir para minha casa? Ligo para Jean e peço para ele e Marco nos encontrar lá.”
Eren demorou a responder e, quando o fez, foi apenas um sinal negativo com a cabeça.
“Tem certeza?” Um sinal de sim.
Ergueu a cabeça, mirando qualquer ponto da rua. A franja bagunçada e amassada, um semblante infeliz. “Ahhh, que merda!” Reclamava. Avistou o copo de cappuccino sobre a mesa, havia ainda mais da metade do líquido. Com a face emburrada, pegou-o e virou como se fosse o mais saboroso álcool que existia.
Armin riu. Desde criança, sempre que algo perturbava Eren, se houvesse comida ou bebida por perto, este tendia a consumi-los daquele jeito agressivo. Era uma característica do moreno.
Cerca de 15 minutos se passaram e Jean e Marco chegaram. Eren e Armin decidiram por não tocar no assunto sobre o dançarino.
Em certo momento, o adolescente de olhos turquesa precisou ir ao banheiro e, hesitante, tornou a entrar no prédio, mas Rivaille não estava mais lá. Quando que ele havia saído? Eren não fazia ideia... Torceu o lábio e seguiu em direção ao pequeno corredor que o levaria ao banheiro.
Aliviou-se e lavou as mãos. Soltou o cabelo, que não estava tão grande assim, mas era possível prender. Penteou os fios com os dedos rapidamente, estavam amassados por conta da liga. Tornou a prendê-lo no curto rabo-de-cavalo e afastou a franja dos olhos. Estava começando a ter leves olheiras... No entanto, finalmente, sua atuação no colégio estava muito próxima do fim e Eren não podia esperar para poder dormir algumas horas a mais sem se preocupar com trabalhos, seminários, provas, notas e todo o resto que envolvia a escola.
Voltou, por fim, aos amigos: Marco falava algo sobre o trabalho com o pai.
“Quanto mais fico em meio ao trabalho de meu pai, mais quero sair de lá. Aquilo não é para mim. Não é algo complexo ou difícil de fazer, mas ainda sim...”
“Marco,” Jean começou “quando foi a última vez que lhe disse para deixar este trabalho?”
“Hoje de manhã.”
“Exato. E quantas vezes já lhe disse isso?”
“Muitas? Mas... Não é assim, Jean. Você sabe melhor do que ninguém que o que eu mais quero é sair de lá. Mas você sabe, também, como é meu pai...”
“Marco,” a voz de Armin veio “existe algo que você quer e é você quem o fará. Seu pai está velho – com todo o respeito – e ele já viveu a vida dele, e, aliás, ainda a vive. Você está apenas começando a sua, quem sabe. Ele não tem, ninguém tem, o direito de tirar de você suas escolhas de vida, você é e será o único que as viverá, ninguém mais poderá fazê-lo por você.” Nasceu ali um silêncio um tanto constrangedor e os três adolescentes sentados à mesa tinham os olhos fixos de admiração em Armin, que sentiu um pouco de nervosismo por tanta atenção, mas logo encorajou-se e continuou:
“Escute Jean. Deve ser difícil. Mas, por favor, encare – se é isto mesmo o quê quer – ou que não quer.” Jogou com as palavras, sorrindo muito levemente. “Faça isto por você.”
O silêncio se manteve por dois ou três segundos e Marco suspirou e sorriu gentil antes de agradecer ao loiro. “Suas palavras são realmente encorajadoras. Muito obrigado, Armin. Prometo que não as desperdiçarei.”
Jean passou os braços pelos ombros de Marco e Armin e os puxou, desajeitado, para mais perto, obrigando o dono dos azuis a se apoiar em seu peito. “Vocês dois,” interrompeu-se para depositar beijos nas cabeças dos dois amigos. Armin protestava enquanto Marco ria. “são os amores de minha vida. Você, não, Jaeger.” Gesticulou, brincando com Eren, e voltou a beijar os cabelos dos outros garotos.
Por um momento, Armin sentiu o constrangimento de estar envolto no abraço de Jean ao lembrar-se, tão repentinamente, do acontecido de muitas semanas atrás. Respirou calmamente e forçou-se a pensar em alguma outra coisa. Percebeu o olhar de Eren sobre si e nele estava escrito que o melhor amigo sabia o que estava pensando.
“Eu quem devo dizer: escute o Armin, Marco!” Jean disse. “Ele sabe das coisas, tem boas notas.” Riu junto com o moreno de sardas e livrou o loiro de seu braço.
Eren assistia a tudo com os braços apoiados sobre a mesa. Lançou um novo olhar para Armin – desta vez, cheio da admiração que tinha pelo amigo.
Jean pôs-se de pé. “Meu amor,” dirigia-se a Armin “vou te pagar um bebida. Ou qualquer coisa.” Todos riram e Jean os acompanhou, percebendo o duplo sentindo não intencional de sua frase. “O que quer?”
“Já que está oferecendo assim... Aceito um chocolate branco com canela.”
“Certo.” Jean pronunciou e logo abaixou-se à altura de Marco para beijar-lhe a face enfeitada com sardas, emitindo um som alto. “E você?”
“Quero nada, Jean, obrigado.”
“Certeza?”
Marco fez que sim com a cabeça.
“Meu deus, Jean, você é muito gay.” A voz de Eren fez-se presente.
“Falou você, não é mesmo? Mas, olhe só, para mostrar o quão cavalheiro eu sou,” à esta altura, os turquesas de Eren rolavam “pagarei algo para você também. A não ser que para este algo você tenha de abrir o zíper.” Fez piada e todos riram.
“Quero nada, idiota. Obrigado. Suma logo daqui.”
Jean deu de ombros. “Um chocolate branco com baunilha.”
“Canela.” Armin o corrigiu sem ser grosso.
O maior riu, corrigindo-se, também: “Com canela para meu loirinho. Ok.” E seguiu para dentro da cafeteria.
Marco descansou a cabeça sobre os punhos e encarou Eren, que logo disse: “Marco, será que eu posso te perguntar algo?” Buscou, muito rapidamente, o olhar de Armin, à procura de segurança e cumplicidade.
“Mas é claro, Eren.”
“Não precisa responder se não quiser, ok? É algo que penso em te perguntar há muito tempo, mas não achei que devesse me intrometer.”
“Falando assim, estou ficando preocupado. O que é?”
Novamente, Eren buscou pelos azuis de Armin antes de abrir a boca para falar.
“Você tem algum sentimento a mais por Jean?”
Houve um breve silêncio.
“É isto?” Marco pronunciou.
“Desculpe se eu o ofendi!” Eren apressou-se em dizer.
O moreno de sardas riu. “Imagine, Eren, não é isto! Jean é meu melhor amigo, vocês sabem, não há nada mais do que isto entre a gente. Eu o amo muito, mas não tenho outras intenções com ele.” Explicou.
Armin cruzou os braços sobre a mesa e escondeu o rosto no vão que ali formou, sentindo-se um ser não tão terrível agora. Pensava, também, que o moreno pudesse ser apaixonado por Jean e sentia-se culpado pelo beijo e pela outra coisa.
“Desculpe por fazer tal pergunta.” Eren disse.
“Que isso, Eren! Não é como se eu me incomodasse com algo deste tipo. Você não é o primeiro a me fazer esta pergunta.”
“Para dizer a verdade, eu até posso imaginar que não sou o primeiro, Marco.” Riu sem graça.
Entre o vão dos braços, Armin fitou Marco e depois, Eren.
“Tem certeza de que não sente algo a mais pelo cara-de-cavalo?” Sussurrou brincalhão.
“Estou falando sério, Eren!” Marco riu simpático.
“Ahh, ignore-o, Marco, se não ele irá falar para sempre.” Armin intrometeu-se.
“Armin!” Eren o repreendeu, fingindo-se de ofendido, e foi prontamente ignorado. Estava pronto para jogar a blusa de frio de Jean no melhor amigo quando o dono da veste chegou.
“Que está fazendo com minha blusa, Jaeger?”
“Ah, é sua blusa? Pensei que fosse lixo. O cheiro é nada agradável.”
“Por isso a pegou, a fim de levá-la para sua coleção de lixo?”
“Uh- A- Idiota.”
Jean riu da trapalhada do outro. “Aqui, seu chocolate branco, pequeno.” Passou o copo com tampa para Armin.
“Obrigado, Jean.” A mão formigou em contato com a superfície quente do recipiente.
–
Eren empurrou os sapatos dos pés e jogou-se na cama do melhor amigo, abraçando o travesseiro fofo. Apertou as pálpebras para logo abrir os olhos e assistiu ao outro prender o cabelo de qualquer jeito e trocar de camisa. Ficou quieto, apenas observava Armin andar de um lado para o outro dentro do quarto, arrumando uma coisa ou outra. O relógio marcava 23h33. Mal dava para ouvir o som dos poucos carros na rua. Naquele momento, Eren sentiu que o clima que pairava sobre eles era de uma serenidade tamanha que o fazia seu peito formigar. Sentia-se um pouco sonolento, também.
“Você está bem?” Perguntou ao loiro.
“Estou. Por que a pergunta?”
Eren franziu os lábios e balançou, muito levemente, a cabeça em sinal de não.
Armin parou com qualquer coisa que fazia e, com passos lentos, aproximou-se do moreno, sentando ao seu lado na cama. Uma das mãos pousando sobre a cintura alheia. “Estou bem, Eren.” Repetiu. “E você? Como se sente?” Seu tom carregava a mesma calmaria que o lugar onde estavam.
“Uh-huh,” foi a resposta de Eren.
“Uh-huh?” Armin imitou.
“Estou bem.”
Houve um silêncio que logo Armin quebrou, esticando os braços, espreguiçando-se sobre Eren. “Ahh... Que preguiça.”
“Nossa...”
“O que?” Sua cabeça agora descansava sobre a curva da cintura do amigo.
“Acho que nunca havia te ouvido dizer isto.”
O silêncio voltou e, desta vez, permaneceu junto com os garotos durante bons minutos. Eren foi quem o quebrou agora: “Acho que fui grosseiro.”
“Huh?”
“Com Rivaille.” Sabia que do ângulo em que o loiro estava, este não tinha uma boa visão de sua face, mas ainda sim desviou o olhar. “Estávamos conversando e eu levantei, dizendo que tinha de ir, sem dar explicação alguma.”
“Você não tem de dar explicações a ele.”
“Ah, eu sei... Mas... Não gosto da sensação em pensar que pude ter sido grosseiro... Com qualquer um.” Remexeu-se.
Armin levou um momento para então dizer: “Às vezes você é muito doce, Eren.”
Eren ergueu a cabeça na tentativa de fazer contato visual com o amigo. “Que quer dizer?”
“O que ouviu.”
O moreno evitou bufar. Franziu os lábios por um segundo. “Acha que devo ligar para ele?” Esperou ganhar um chute que não veio.
“Você acha que deve?”
“Odeio quando faz isso.”
“Isso o que?”
“Quando pergunto algo e você reponde dessa maneira.”
“Eren.”
O moreno suspirou e aspirou o cheiro do travesseiro alheio.
“Eren, ligue se achar que assim não se sentirá mal por ter sido, supostamente, grosso. Só não faça isso, por favor,” uma súplica sofrida no por favor de Armin “se for uma desculpa para ligar para ele.”
“Não o farei por isto...” Eren disse num tom baixo. Aquela realmente não era a razão. Para ser sincero, sequer sabia se Rivaille mantinha o mesmo número. “Obrigado, Armin.”
“Pelo quê?”
Não houve resposta, mas o loiro não se incomodou. Ergueu a cabeça e acariciou as costas do melhor amigo. “Vou tomar banho.” Avisou.
Eren acenou com a cabeça e, após Armin pegar roupas limpas e toalha, estava sozinho no quarto. Os olhos fixos nos joelhos dobrados sobre a cama. Manteve-se pensativo, mas pensando em nada, por alguns momentos, quando decidiu puxar o celular do bolso e procurar pelo contato de Rivaille. Antes que lhe faltasse coragem, discou.
Surpreendeu-se com a rapidez com a qual foi atendido. Havia cogitado a demora ou a falta da resposta da chamada.
“Eren.” A voz de Rivaille pronunciou do outro lado.
“Oi.” Sua voz fraquejou. Pigarreou o mais baixo que pôde. Rivaille mantinha o mesmo número e, ainda, mantinha seu contato. “Você estava dormindo? Desculpe te ligar a esta hora.” Eren sabia que seria incomum se, àquela hora, o mais velho já estivesse em meio ao sono.
“Não. Está tudo bem?”
“Ah... Está. Rivaille, acho que acabei sendo grosso com você mais cedo quando nos encontramos. Me desculpe.”
Houve um silêncio ensurdecedor para o adolescente. Abriu a boca, mas nada veio além da voz de Rivaille, que dizia: “Não me recordo de grosseria.”
“Eu sei que fui grosso com você.” Insistiu.
“Estou falando que não foi. Meu deus, Eren, você é um moleque. Me escute–“
Eren riu e logo a risada de Rivaille, ainda que breve, juntou-se a sua. Por um momento, sentiu que fosse chorar por um misto de sentimentos. Por outro lado, junto com estes sentimentos, havia uma enorme felicidade por ouvir a risada do outro. Sorriu sozinho.
“Me escute,” Rivaille continuou de onde havia sido interrompido “não se preocupe com estas coisas. Afinal, Eren, não houve grosseria alguma. Sabe que não estou dizendo isto para lhe confortar... Diria se tivesse sido grosso.”
“Okay...”
“Era isto que o estava incomodando?”
“Sim.” Uma risadinha nervosa.
“Quer dizer algo mais?”
Eren não sabia se aquela pergunta havia sido ao acaso ou intencional. Ou sua mente continuava uma bagunça e sequer havia notado. “Eu não sei.” Respondeu, escutando um leve som de mastigar.
“Você é um moleque.” Rivaille repetiu, a voz um pouco diferente.
“O que está comendo?”
“Uvas.”
“Ah, eu adoro uvas. Adoro uva verde.”
“É a que estou comendo. Sem semente. Docinha. Delícia.” Rivaille provocou, divertido.
“Uhh... Eu seria grosso com você agora se eu quisesse.”
“Uh-huh. Vá em frente, moleque.” Disse em ironia.
“E- Hm...” Eren desistiu de qualquer coisa que pretendia dizer.
Ambos calaram-se, o único som entre adolescente e dançarino era o leve rompimento da pele da uva causado pelo mastigar de Rivaille. Permaneceram assim por cerca de um minuto.
“Sabe o que é engraçado sobre o milho?” Rivaille perguntou, fazendo Eren juntar as sobrancelhas em completo desentendimento.
“O que?”
“É um alimento tão pequeno e ainda sim o organismo pode não digeri-lo completamente.”
As sobrancelhas permaneceram juntas até que entendeu. “O qu- Eww!”
Rivaille ria, divertindo-se.
“Como é que você consegue dizer isto enquanto come?” Enfatizou o você.
“É apenas o ciclo da vida, Eren.”
“Eu acho que tem alguma coisa errada com esse seu ciclo da vida.”
O som da risada de Rivaille veio feio e abafado devido à fruta dentro da boca e a mão em frente desta e Eren pôde imaginar os olhos do menor tornando-se brechas por conta da risada...
“Ninguém te disse para respeitar os mais velhos?”
“Eu sou mais alto.”
Rivaille resmungou.
Eren achava graça na falta de coerência do assunto. Seus olhos colidiram com os de Armin, uma vez que este estava de volta.
O loiro desviou o olhar e buscou a escova de cabelo para desembaraçar os fios dourados.
“Rivaille,” Eren chamou.
“Sim?”
Ah... Eren apaixonava-se novamente toda vez que ouvia aquele timbre. “Vou desligar.”
“Grosso.”
“Eh- Na-“
“Estou brincando!”
Eren suspirou e continuou. “Boa noite.”
“Boa noite, Eren.” Havia uma tristeza que o adolescente não conseguia captar.
Desligou a chamada e voltou a encarar Armin, que o fitava.
“E então?”
“Ele disse que eu não fui grosso.”
Armin relaxou os ombros, descansando a escova de cabelo sobre o criado mudo. Pensou em dizer uma coisa ou outra a Eren, mas, ao contrário de fazê-lo, rumou ao guarda-roupa e retirou uma toalha limpa, jogando-a para o amigo logo em seguida. “Vá tomar banho.”
“Que vamos comer?” Eren quis saber.
“Acho que sobrou pizza.”
“Ah, Armin, eu adoro pizza fria!”
“Vá se lavar enquanto eu deixo as coisas na mesa.”
E assim Eren fez.
Após o banho, comeram os pedaços que haviam sobrado da pizza e assistiram a um filme que passava na TV.
Deitaram-se às 03h30 da manhã. Armin foi o primeiro a dormir. Eren adorava a luz fraca da iluminação dos outros prédios que penetrava a cortina da janela, deixando o quarto à meia luz. Adorava, também, o som calmo da respiração de alguém que dormia. Sentia que havia vida ao lado e não estava sozinho. Também o trazia alguma calma.
Fitou o teto meio iluminado e os pensamentos vieram: Rivaille estava mesmo encarando tudo tão normalmente como se nada tivesse acontecido? Claro que não havia sido exatamente isto o quê Hanji o contara, mas nada podia fazer diante de sua mente agora atordoada. Mal acreditava que havia conseguido ter uma boa comunicação com o outro ao telefone. Será que ele – Rivaille – não se achava cruel por agir tão naturalmente consigo?
Fechou os olhos, cansado. Sentiu incomodo no peito, uma mistura de pequena felicidade e desespero. Não sabia explicar.
–
“Por que não me chamou?” Perguntou ao alcançar a sala de estar, onde Armin estava sentado com as pernas cruzadas em cima do sofá com um copo de leite e torradas numa pequena bandeja ao lado. Coçou os olhos, sentindo-se irritado com a sensação de peso sobre as pálpebras.
“Fomos dormir tarde. Pensei em deixá-lo descansar um pouco mais.”
“Bom dia.” Eren disse sonolento, sentando-se ao lado do amigo, empurrando-o um pouco, pois queria o espaço entre o corpo do loiro e o braço do sofá. Serviu-se de uma das torradas.
“Bom dia. Seu cabelo está uma bagunça.”
“Ahh...” Parecia desanimado com a notícia.
“Sua cara está horrível.”
“Armin, se você me odeia, apenas diga que me odeia, não há necessidade de ficar fazendo rodeios.”
“Eu não te odeio, Eren.” Sabia que o amigo estava brincando. “Vou pegar mais leite. Quer?”
“Por favor.”
O dia passou e Eren voltou para casa.
Mikasa e o pai arrumavam alguns quadros na sala. Achava engraçado o fato de que o pai nunca ficava parado mesmo em seus dias de folga.
Deixou a mochila ao lado do sofá e os ajudou com os três últimos quadros que ficariam na parede. Esfregou as mãos nas roupas e empurrou o cabelo para trás da orelha.
“Seu cabelo está enorme.” O pai exagerou.
“Está mais bonito do que o seu, pai.” Mikasa brincou. “Precisa das uma pintadinha.” Fez piada por conta dos fios brancos do cabelo de Grisha.
“Mas o que é isso no seu cabelo?” O médico estendeu a mão, tocando nos fios negros de Mikasa, e fingiu tirar algo de lá. “Um piolho!”
“Espere,” Eren disse, entrando na brincadeira do pai. “Acho que estou vendo outra coisa em seu cabelo, Mikasa...” Recebeu o olhar desconfiado da irmã e fez o mesmo que o pai, fingindo tirar algo. “Um carrapato! Eww!”
Grisha e Eren riam da expressão emburrada da morena.
“Vou passar este carrapato para você, idiota!” A garota chutou, sem força, a panturrilha do irmão, não conseguindo evitar uma leve risada. “Imbecis.” Resmungou ainda risonha. Pôs-se a caminhar em direção à cozinha.
“Cuidado com essa barata no cabelo, filha!” Grisha disse em alto tom, recebendo uma careta.
Eren ria alto. “Barata, pai? Você deu uma viajada agora, hm?”
“Já viu o estado do quarto de sua irmã? Eu nem duvido que haja baratas...”
“Eu estou ouvindo!” Veio o grito de Mikasa da cozinha e mais risadas saíram da sala.
Eren ajudou o pai a levar algumas caixas de papelão para a garagem – Grisha se desfaria das caixas no dia seguinte -, comeu, lavou-se e sentou sobre o parapeito da janela do quarto, dedilhando as cordas do violão.
Já era noite. Ficou a assistir aos poucos carros e pessoas que passavam na rua. Ora ou outra, um gato e/ou um cachorro.
Eren queria ver Rivaille.
Talvez odiasse admitir aquilo para si mesmo agora, mas o desejava intensamente. Se pudesse ter apenas mais um momento com o outro, preferiria continuar como estava, pois um momento apenas jamais seria suficiente.
Queria tê-lo em seus braços, o perfume de shampoo em suas narinas, o calor penetrando sua pele...
Suspirou. Achou que queria vê-lo mais do que nunca, nem que fosse apenas para dizer um oi... Repetidas vezes. Queria vê-lo todos os dias para pronunciar um simples oi. Mas queria vê-lo. E se seu simples oi o fizesse, alguma vez, sorrir, ah, Eren teria ganhado o dia!
Sentia-se um garoto vivendo a mais pura essência de sua passageira adolescência – e já vivia o fim deste período.
Sorriu. Estava criando um teatro de bons acontecimentos em sua cabeça.
Não conseguia compreender como podia sentir aquele formigamento gostoso – ainda que um pouco incômodo – no peito diante da bruta realidade sentimental que vivera. Não compreendia o quão estranho podia ser amar alguém... Por tudo o quê já havia ouvido em sua vida sobre amar, concluiu que era algo com que as pessoas se agradavam, mas, de alguma forma, não com as consequências.
Naquele instante, Eren impediu que qualquer sensação ou pensamento ruim invadisse sua mente.
Horas depois, ao deitar, chorou antes de dormir. A mistura de felicidade com desespero e angústia permanecia. Eren não compreendia muitas coisas e perguntou-se se morreria sem compreendê-las. Ou se alguém as compreendia.
–
No domingo Eren havia descoberto que adorava que mexessem em seus cabelos, alisando-os até as pontas, e isto o fez questionar-se se queria realmente cortá-lo.
No trabalho, já havia acontecido de receber uma ou outra cantada – que nunca conseguia saber se era brincadeira ou não – e na segunda-feira ouviu mais cantadas e assovios do que em todos os dias de sua vida. O motivo: havia jogado a franja para trás e a amarrado junto com um punhado de cabelo, deixando parte preso pelo elástico e parte – que cobria sua nuca – solto, assim como o cabelo crescido que cuidava de esconder os tragus de suas orelhas agora. O penteado o dera um charme a mais, foi o que um dos alunos disse.
Eren ficou bastante sem graça por toda aquela atenção constrangedora que recebera.
Ao sair, encontrou Armin e pegou alguns livros que o havia emprestado. No entanto, não iriam poder aproveitar algum tempo juntos. Armin estava ocupado ajudando o avô com coisas da faculdade.
Despediram-se então e, aproveitando que passaria pelo local, Eren resolveu que compraria alguns bolinhos de chocolate para comer em casa junto com a irmã e o pai. Mikasa adorava os bolinhos de chocolate da cafeteria.
Estava na calçada do lugar, próximo à entrada, e guardava o celular na bolsa cuja alça atravessava-lhe o torso, quando ouviu uma voz dizer: “E é por isto que crianças são atropeladas.” A voz em questão insinuava-se diretamente a Eren, fazendo-o erguer a cabeça, uma vez que sua atenção não estivera no caminho que fazia. Seus olhos encontraram Rivaille e Hanji, que também estavam prestes a entrar no lugar. Rivaille era o dono da voz que havia lhe chamado atenção.
“Eren!” Hanji segurou-lhe os ombros, não permitindo que tivesse tempo para reagir. “Oh, não está mesmo cortando o cabelo!” Analisou-o de baixo à cima. “Como está bonito. Se eu fosse poucos anos mais nova...” Brincou, fazendo as orelhas de Eren ganharem cor.
Rivaille rolou os olhos.
“Não sabe quantas coisas tive de ouvir hoje... Deste tipo...” O garoto comentou sem graça.
“Hmm, está conquistando corações, huh?”
“Que isso...” Sentia as orelhas quentes. Fitou Rivaille, finalmente, por cima do ombro de Hanji. “Oi,” cumprimentou em voz baixa. Oi...
“Olá, Eren.”
Cinzas e turquesas permaneceram juntos por segundos que pareceram eternidades.
“Está indo para casa? Voltando do trabalho?” Hanji perguntou.
“Na verda-“
“Está trabalhando?” Rivaille interrompeu.
“Estou.” Abaixou-se um pouco, o necessário para poder coçar a perna sem dobrá-la, olhando Rivaille de baixo agora. Assistiu aos traços deste mudarem, tornando-se levemente mais dóceis.
“Que legal, Eren.”
O adolescente voltou à postura anterior.
“Com o quê está trabalhando? É com algo que gosta?”
“Sim, violão.” Disse simplesmente.
“Ah! Que ótimo!” Rivaille havia se aproximado e agora suas mãos descansavam no rosto jovem. “Que ótimo, mesmo... Trabalhar é um pé no saco, precisamos trabalhar com o que amamos...”
O coração de Eren acelerou. “O-obrigado...” Me beije, a frase passou por sua cabeça. Havia sido quase igual a como havia imaginado...
Foi então que Rivaille se deu conta da proximidade que estavam um do outro, da situação em que estavam. Livrou o rosto do garoto e deu dois passos para trás.
Por sorte, havia Hanji. “Não é mesmo ótimo que ele esteja trabalhando com algo que gosta?”
“Absolutamente.” Rivaille disse e, junto com Hanji, recebeu o sorriso de Eren.
“Então, Eren,” a morena continuou “está indo para casa?”
“Não. Na verdade, eu vim comprar algo para comer.”
“Ahh, que bom! Então vamos entrar!” Deu-se a liberdade de agarrar o antebraço do garoto e puxá-lo para dentro do lugar.
Rivaille os observava por trás, enquanto caminhava calmamente, sem pressa. A expressão de desespero e a risada atrapalhada de Eren o fizeram sorrir fraco.
Após os pedidos, Hanji convenceu o garoto a ficar um pouco e os três sentaram-se ao redor de uma mesa ao lado de dentro do prédio. Rivaille fitou Eren e este o ofereceu um sorriso rápido. Hanji sentava entre os dois amigos.
“Eren, querido, está terminando o colégio, não?” Hanji perguntou.
“Sim... Não aguento mais.” Riu.
“Ah, eu me lembro de meus tempos no colégio.” Ela cruzou as pernas. “Eu até que gostava de ir.” Sorriu amarelo.
“Mesmo?”
Hanji o acenou com a cabeça. “Tem sido muito assediado na escola, também?” A morena riu, perversa, enquanto Eren tinha vontade de esconder a cabeça num buraco.
“N-não... Não é bem assim.”
“E não é? Está todo bonitão.”
“Hanji, pare de encher o garoto. Não vê que ele está ficando vermelho como um pimentão?”
Eren levou uma das mãos ao rosto, como se fosse possível sentir a cor.
Hanji rio alto. “Ele está brincando, Eren, não se preocupe, você não está vermelho.”
Eren direcionou o olhar, totalmente sem graça a Rivaille, que o mostrou um sorriso sacana de quem escondia o riso.
“Vejo que a graça invadiu a vida de algumas pessoas.” Eren disse à Hanji no intuito de provocar Rivaille.
A morena ria e a expressão do dançarino amargava-se muito levemente.
“Engraçadinho.” Rivaille disse, pegando sua xícara de café de cima da pequena mesa.
“Olhe quem diz.”
Pareciam duas crianças e aquilo divertia Hanji. “Ah, vocês-“ A morena interrompeu-se pelo celular que tocava. Retirou o aparelho do bolso. “Petra.” Disse num tom baixo e atendeu.
Enquanto a morena falava ao telefone, Eren disse a Rivaille: “Não está usando o óculos.”
“É apenas para descanso. Ainda bem. Não mereço.” Reclamou e logo suspirou.
“É tão ruim assim?”
“Ficar com aquela coisa no meio do rosto, fazendo minha pele suar sob a armação? Ah!” Rolou os olhos.
Eren riu. “Entendi.” Rivaille era sempre tão dramático. “Você é sempre tão dramático.” Disse divertido. Rainha do drama. Lembrou com um pouco de saudosismo.
“Pirralho.”
Observaram Hanji enquanto esta se levantava e gesticulava, avisando-os que logo estaria de volta, e afastou-se para continuar o que falava ao celular.
Rivaille bebericou mais do café. “Como está sua irmã? Acho que a vi há duas semanas por aqui.”
“Está bem.” Disse com desdém.
“Ela sempre me olha de cara feia. O que tem contra mim?”
Eren podia imaginar quão terrível deveria ser a expressão de Mikasa para Rivaille depois de tudo. “Ela é assim.” Riu. “Apenas a ignore.”
Rivaille descansou a pequena xícara sobre o pires na mesa. Lambeu os lábios para sorver os resquícios do café, escondendo-os por consequência, e cruzou as pernas, apoiando o cotovelo sobre o joelho e o queixo sobre a mão. Ficou em silêncio a encarar Eren durante poucos segundos, deixando-o encabulado.
Me beije, passou pela cabeça do garoto novamente.
Suspirou. “Está tão bonito... Seu cabelo.” Afastou a mecha que acompanhava o contorno do rosto jovem, colocando-a atrás da orelha. Amaldiçoava Eren a cada segundo em sua mente, adorava cabelos grandes.
“O-obrigado...” Sentia o coração pulsar forte, tentava controlar as emoções. Ah, me beije...
“Está ficando com olheiras também.” Rivaille observou.
“É...”
“Conheço ótimas maquiagens para cobri-las.”
“Obrigado, mas eu não me incomodo com elas aqui.” Riu forçado.
Rivaille fez uma careta.
Ah...
“Gente,” Hanji voltou, tomando a atenção de ambos. “Desculpe, estou indo embora. Esqueci completamente que havia marcado com Petra de comprar os preparativos para a festa surpresa de Moblit.”
“Parece que você é responsável por todas as festas de seus amigos.” Eren comentou.
“Porque ela não consegue deixar as pessoas em paz.” Rivaille disse.
Hanji riu. “Não seja assim. E não reclame, sabe que o seu está chegando.”
Rivaille ignorou.
“Tem mesmo de ir?” Eren perguntou.
“Sim, querido, sinto muito. Mas, ah! Você está convidado para esta festa!”
Eren juntou as sobrancelhas levemente por um momento. “É muita gentileza sua, Hanji, mas eu mal falo com Moblit.”
“Ah, que isso! Vocês já se conhecem há algum tempo e a festa é surpresa! Será no próximo sábado.”
“E-“
“Aceite logo.” Rivaille disse, recebendo os turquesas. Sabia que Hanji encheria o garoto até que este cedesse.
Eren entendeu. “Tudo bem... Mas não dou certeza, ok?”
“Ahh, claro que irá!” Hanji o abraçou. “Rivaille, vai ficar?”
Rivaille fez um bico, pensativo, e fitou Eren, que retribuiu o olhar. “Sim.”
O adolescente surpreendeu-se um pouco com a resposta.
“Certo. Então,” beijou, rapidamente, a testa de Eren e a de Rivaille “os vejo depois. Tchauzinho!”
Observaram a mulher abandonar o lugar e tomar a rua. Por fim, encararam-se. Eren não fazia ideia do que dizer.
“Como está sendo as coisas em seu trabalho?” Rivaille perguntou.
“Ah... É bem tranquilo.”
“O que você faz?“
“Dou assistência ao professor.”
“Hmm... Então você é um pseudo-professor?”
Eren riu baixo. “Quase isto...”
“Imagino que muitas garotas deem em cima de você, mesmo.”
Eren levou um segundo para então dizer: “Por que acha isso?”
Rivaille deu de ombros.
O adolescente preferiu não insistir. “Enfim, no mais, é tudo bem tranquilo, realmente. Menos com um dos garotos que tem aula lá. Ah, ele é bem chato, tenho de admitir...”
“Paciência... Não sei se eu serviria para este tipo de trabalho.”
“Absolutamente não, por favor.”
Os turquesas e cinzas colidiram e logo as breves risadas tomaram o ar.
“Veja só como você fala comigo... Que insensível.” Rivaille dramatizou.
Novamente, o garoto riu. Abriu a caixa que continha os bolinhos que havia comprado. “Aceita um?” Ofereceu a Rivaille, que deu uma olhadela dentro da caixa. “São bem gostosos.”
“Ah, eu vou aceitar.”
Eren retirou um dos doces para o outro, que agradeceu, então pegou um para si, voltando a fechar a pequena caixa branca. Mordeu a massa fofa e saborosa e observou o mais velho fazer o mesmo.
“Hmm, são deliciosos.” A voz de Rivaille veio após engolir o pedaço.
Eren sorriu, os lábios juntos, e mordiscou novamente o bolo. Enquanto comia, tinha os olhos fixos no painel de preços na parede atrás dos balconistas. Apenas olhava-o, não lia.
“No que está pensando?” Rivaille perguntou, chamando-o atenção.
“Ah, nada.”
“Característica de adolescentes.”
“Sabe que o que diz está errado.”
“Claro que sei. Por isto é engraçado.”
“Não é engraçado.”
“Ah, cale a boca.” Empurrou o garoto, que riu. “Deixe-me achar que sou engraçado.”
“Você é engraçado quando fala sobre fezes e derivados.”
“Derivados?”
Eren deu de ombros. “Aceita mais um?” Ofereceu ao ver que Rivaille havia terminado com o bolo que comia.
“Não, obrigado. Quero dizer, querer, eu quero, mas é demais para mim.”
“Ah, qual é? Pegue mais um.”
“Não, de verdade, obrigado.”
“Está de regime?”
“Não faço algo tão estúpido.”
“Sequer precisa.”
Houve um silêncio. Por favor, me beije...
“Esta festa que Hanji está preparando para o amigo de vocês... Você irá?”
“Sim.”
Eren suspirou.
“Não precisa ir se não quiser.”
“Eu tenho escolha? Você mesmo quem disse para eu aceitar.”
“Nã-“ Rivaille sorriu, lindo, deixando uma risada sair.
“Meu suco acabou... Vou comprar mais.”
“Você só toma isso? Sabe o quanto de açúcar este suco contém?”
“Mas é gostoso!”
Rivaille nada disse.
Eren pôs-se de pé. “Quer alguma coisa?”
“Sim. Me compre outro café, por favor.” Remexeu dentro da bolsa, procurando pelo dinheiro.
“Deixe que eu pago.”
Rivaille o ignorou, retirando o valor necessário da bolsa.
“Me deixe pagar.” Insistiu.
“Pegue logo o dinheiro.”
“Ugh, você nunca me deixa pagar as coisas.” Dizer aquilo foi estranho... Para ambos. Mas com um efeito de estranheza maior em Eren. Pegou o dinheiro e dirigiu-se ao balcão. Fez os pedidos e ficou a esperar pelo café, pois, o suco, apenas precisa esticar a mão e pagá-lo. Enquanto esperava, pensou: “e se eu acordar?” Sentia um êxtase estranho, como se estivesse dormindo e sonhando um sonho que não era bom nem mau.
“Está sonhando acordado?” O balconista, que há muito já conhecia, o trouxe de volta à realidade, entregando-o o café.
Riu nervoso. “Parece que sim.”
O homem ao outro lado do balcão riu e Eren o deu as costas, voltando para o lado de Rivaille. Entregou-lhe o café e ouviu um “obrigado”.
Ficaram quietos por instantes. Eren tomando o suco; Rivaille, o café.
“Como passará o fim de ano?” Eren perguntou, por fim. Afinal, estavam se aproximando da data.
“Huh? Provavelmente como sempre: Hanji me arrastará para algum lugar e terminaremos a noite mortos em meu apartamento.”
O garoto riu, imaginando o quão engraçado aquilo seria. “Vocês são demais.”
Rivaille sorriu levemente, doce, relembrando, em silêncio, alguns momentos em que Hanji definitivamente não o deixara sozinho. “Mas,” começou “para dizer a verdade, eu não me importo com estas datas... São apenas mais um dia-“
“Eu não me importo com a comemoração em si.” Eren o interrompeu.
“Por que?” Rivaille perguntou para manter o assunto vivo.
“A virada,” Eren começou, fugindo da pergunta do mais velho. “Bem, no ano seguinte iremos lembrar mais um ano da morte de minha mãe, comemoraremos porque estamos envelhecendo,” lembrou que o aniversário de Rivaille viria logo “diremos que o ano será bom e diferente, mas, na verdade, a virada de ano é uma ilusão: o relógio apenas marcou meia noite de novo, o calendário volta ao começo, mas é apenas mais um dia que amanhecerá, é a continuação do dia anterior.” Fez uma pausa.
“O único motivo para eu achar a virada de ano bonita, é o fato de que a Terra deu sua volta em torno do Sol.” Respondeu à pergunta de Rivaille sem ter os olhos neste, os turquesas estavam fixos em uma das pilastras do salão.
Mas os cinzelados estavam grudados no garoto. E era isso que Rivaille tanto adorava em Eren: os pensamentos. Os pensamentos sociais e cósmicos. Eren não aparentava nem um pouco ser uma pessoa que escondia tais opiniões, pensar tão grande por ver que é tão pequeno... Não que o garoto parecesse ser algum tipo de ignorante, de maneira alguma. Rivaille tinha “sentimentos platônicos” para com aquela parte do adolescente.
Após cerca de dez segundos, Eren começava a ficar desconfortável por conta do olhar do outro sobre si. “Q-que?”
“Nada...” Rivaille respondeu, direcionando sua atenção à xícara de café. “Gosto muito do jeito que você vê o mundo, Eren.” Comentou sem olhá-lo nos olhos.
Eren manteve-se quieto por um ou dois segundos. “Ah, é?” Pronunciou sem dar atenção ao que saía de sua boca. Me beije... Recebeu o olhar rápido de Rivaille, que logo voltou à xícara. “Obrigado...?”
Então o silêncio retornou e nenhum dos dois ousou expulsá-lo. Rivaille observava as pouquíssimas pessoas que andavam para lá e para cá, entravam e saíam da cafeteria enquanto tomava seu café. Eren, com as mãos entre as pernas inquietas após guardar a caixa de bolinhos na bolsa, fazia o mesmo, sentindo-se desconfortável pela falta de contato e esperando, penosamente, o beijo que em sua mente havia criado.
Três ou quatro minutos se foram e então a voz de Rivaille finalmente veio: “Bem, preciso ir. Ainda tenho trabalho para fazer – concluir antes das férias.” Bufou baixinho, ajeitando de forma confortável a alça da bolsa no ombro.
“Entrará em férias?”
“Sim.”
“Você não parece estar muito animado.”
“Não estou.” Levantou-se.
“Já que você vai,” Eren pôs-se, também, de pé “também irei.” Desamarrotou as roupas e pegou a bolsa e copos vazios – estes iriam para o lixo. “Quer companhia?” Perguntou ao deixarem o lugar.
“Meu carro está estacionado na outra rua. Mas obrigado.”
“Ah, tudo bem.”
“Aceita carona?” Perguntou para ser educado.
“Ah, não, não. Tudo bem. Vou de metrô.”
“Tem certeza?”
“Sim, tenho. Mas muito obrigado, também.”
“É você quem sabe.”
Eren sorriu de leve.
“Bem, então... Até mais, Eren.” Ofereceu-lhe um abraço.
Infeliz coração pulsando tão rapidamente do nada. “Até mais.” Abaixou-se um pouco para receber o abraço do mais velho e ao passo que o cheiro deste penetrava suas narinas, sentia mais vontade de afundar o rosto no pescoço pálido e abraçá-lo com força por muito, muito e muito tempo. Mas o soltou, relutante apenas em pensamentos, pois não queria chateá-lo. Me beije agora...
“Obrigado pela companhia, pirralho.”
Riu breve. “Até mais.” Repetiu. Deu as costas ao dançarino e atravessou a rua enquanto o outro seguia em direção ao carro.
–
Mikasa estava sentada no sofá. Eren jogou a mochila no chão e sentou pesado ao lado da irmã, deixando que um suspiro alto lhe escapasse. “Você come pipoca demais.” Comentou.
“Estou vendo filme.” Ela disse como se já não fosse muito óbvio.
Eren olhou para o pote de pipoca no colo da morena e, em seguida, para o rosto dela. A fez erguer o braço e tomou o lugar do pote de pipoca no colo da irmã, descansando a cabeça confortavelmente ali.
O pote foi colocado sobre seu peito e não demorou a encher a mão e começar a comer.
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