Grisha esperava paciente que os filhos despedissem-se dos amigos para, então, entrarem no carro. Como todo bom pai, deu-se o trabalho de perguntar como havia sido a manhã de cada um, recebendo respostas como “a mesma droga de sempre” ou “normal”.

Escolheram um restaurante descente no shopping e sentaram-se à mesa, lendo o cardápio após o garçom entregá-los educadamente. Fizeram seus pedidos, finalmente, e Grisha reprimiu Eren por escolher massa ao invés de algo, talvez, mais saudável, mas não o impediu. Não tinha muito tempo para passar com os filhos e a última coisa que queria era uma discussão por motivo tolo.

Mikasa fazia parte de um clube de vôlei fora da escola e isto lhes rendeu o assunto enquanto comiam. O médico parecia orgulhoso do desempenho da filha no esporte e por ela estar feliz com aquilo.

“E como estão as coisas com a música?” perguntou, olhando para Eren, que dividia a sobremesa com Mikasa.

“Hã? Boas.”

“Só isso?”

“Não é como se eu fizesse parte de uma banda ou algo assim, pai.”

Grisha suspirou, um meio sorriso em seu rosto enrugado. Terminou sua bebida e esperou que os filhos dessem fim à sobremesa para poder chamar o garçom e pedir a conta. Passaram em algumas lojas para comprar roupas, jogos e porcarias e o médico sentiu como se ainda fosse pai de duas crianças, o que o deu uma sensação de alívio.

Já era noite quando chegaram em casa. Após banhos e louça suja na pia, os três instalaram-se na sala. Mikasa encostou as costas e cabeça no braço do pai e esticou as pernas sobre as de Eren. Uma tigela de pipoca descansava em cima de seu colo. Grisha havia proposto que assistissem a um filme que havia comprado há algumas semanas.

“Legal o pai ter passado o dia com a gente.” a garota disse, fitando o chão, após escutar o som da porta do quarto do pai ao fechar.

Eren murmurou e permitiu um meio sorriso. Sabia que a irmã sentia falta da agitação de família que costumavam ter. Sentia-se da mesma forma e Mikasa tinha igual consciência de seus sentimentos. Não precisavam falar nada. O garoto bagunçou os cabelos negros da irmã antes de ir para o próprio quarto.

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“Não.”

“Armin disse que quer muito que você esteja lá.”

Eren riu irônico para o celular encostado à orelha. “Acho que vou chorar, que comovente. Uma prova de amor, na verdade.”

Jean rolou os olhos. “É daqui a três semanas, Jaeger. Aceite logo.” dizia do outro lado da linha.

Eren juntou as sobrancelhas, começando a sentir-se irritado. “Essa coisa sequer é na minha escola. O que eu vou ganhar com isso?”

Jean grunhiu. “Qualquer um pode participar, Eren. Não é necessário ser aluno. E você não vai ganhar nada em especial.” respondeu sem muita paciência.

“Acho que não me convenci.” divertimento estava presente na voz do garoto.

“Droga, Jaeger, só aceite lo-

“Eren, é o Armin! Oi.” o loiro havia tomado o aparelho da mão de Jean e Eren foi capaz de ouvi-lo reclamar. Armin continuou: “Tenho certeza de que você não terá nada marcado até a data do festival e, para ser sincero, até mesmo depois!”

Eren cerrou os olhos. Armin sempre era grosso quando queria muito conseguir algo de si. Todavia, aceitou a realidade, sabendo que o amigo estava – provavelmente – certo. Suspirou irritado. “Tudo bem, pode colocar o meu nome.” cedeu, admitindo para si mesmo a derrota.

Armin comemorou e agradeceu animadamente. Eren podia sentir o sorriso na voz do amigo. “Quando nos encontrarmos, sábado, explicarei melhor, Eren. Desculpe por irritá-lo com isto agora, desde que o festival acontecerá apenas daqui a três semanas, mas temos que entregar com antecedência os nomes dos participantes não alunos.”

O garoto de olhos turquesa coçou o pescoço e parou de frente à porta de sua casa. Ouviu Jean reclamar algo sobre querer o aparelho de volta e despediu-se de Armin, fechando a porta atrás de si.

Seu pai estava trabalhando e Mikasa havia ido ao treino direto da escola. Jogou a mochila no pé da escada antes de ir até a cozinha a fim de algo para beliscar.

Deitou-se sem muito cuidado no estofado macio e não se incomodou em ligar a TV. Deixou um pacote de balas sobre o peito e manteve-se fitando o teto enquanto levava a guloseima à boca. Estalou a língua ao lembrar que havia concordado em gastar um dia inteiro ajudando Armin com o evento de sua escola. Liberou o ar dos pulmões, optando por pensar no lado bom da coisa. Seus dias resumiam-se, basicamente, em: escola, dormir, comer, visitar o melhor amigo e... Videogame às vezes? Certo, ajudar o outro poderia ser algo interessante, no fim das contas.

“Eren.”

Abriu os olhos lentamente, sentido as pálpebras pesarem. Um gosto amargo descendo-lhe a garganta. Percebeu que estava babando e levou o dorso da mão ao queixo, limpando a saliva.

“Ew, que nojo, Eren.” Mikasa fez uma careta.

Ainda desnorteado, Eren sentou, fazendo com que o pacote de balas deslizasse de seu peito ao chão. Lembrou que os comia antes do cochilo desprogramado e resmungou ao constatar que haviam balas pelo sofá e, agora, pelo chão.

“Limpe isso antes que fique grudando.”

O garoto bagunçou os fios castanhos e colocou-se de pé. Logo o sofá e chão estavam livres dos doces. Passou a língua sobre os dentes e desejou escová-los o mais rápido possível.

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“Quer assistir Castle?” Mikasa perguntou, aconchegando-se no sofá.

Eren concordou sem muita atenção e aninhou-se ao lado dela, estendendo o mesmo pacote de doces que comia mais cedo, oferecendo.

Mikasa pescou as balas e, antes de levá-las à boca, disse: “Você come muita porcaria, Eren, e mexe essa bunda para fazer nada.” Eren levantou uma sobrancelha. “Ah,” a garota fitou o teto, parecendo pensativa. “eu não sei, uh?” riu do duplo sentido da frase e o garoto ironizou uma risada, empurrando-a. “Mas sério, Eren, você tem que praticar algum exercício. Ficar em casa o dia todo, só comendo e dormindo não é muito saudável, alguém já te disse isto?

“Eu faço exercícios.” fingiu sentir-se ofendido e foi a vez da garota erguer uma sobrancelha.

“Usar a bicicleta para ir a algum lugar longe uma ou duas vezes no mês não conta, Eren.”

O garoto fez bico e fitou a televisão. “Só porque você gosta de se exercitar, não significa que todo mundo tem que gostar, sabe?” um novo punhado de balas ia de encontro à sua boca.

Mikasa bufou. “Eu me preocupo com você, idiota.”

“Eu sei.” capturou os olhos castanhos e levantou ambas sobrancelhas, um sorriso divertido. Mikasa rolou os olhos e passou sua atenção ao seriado.

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“O que vamos fazer?”

“Colar cartazes, distribuir folhetos, sorrir enquanto nos ignoram... Coisas desse tipo.” Armin sorria gentilmente enquanto falava.

“Por que eu tenho que participar disso?” choramingou.

“É um festival aberto, Eren. Queremos que você esteja lá.”

Eren apoiou o queixo no punho. “E aí eu tenho que ajudar?”

“Bem,” Armiu riu e fitou o teto antes de prosseguir. “queremos aproveitar sua presença.” e logo seus olhos fecharam-se com força e suas mãos agarraram a almofada que lhe havia sido arremessada.

“Eu odeio vocês.”

O som da campainha fez o loiro retirar-se do chão, onde estava sentado, deixando que a almofada ocupasse seu lugar. “Claro que sim.” e atendeu a porta, recebendo Jean. Os cumprimentos entre o recém-chegado e o garoto de olhos turquesa foram recheados por ofensas amigáveis.

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“Eu sou o melhor, Jaeger, admita.”

“Sonhe.”

“Veja só quem é mau perdedor.” Jean provocou, cutucando o braço de Eren com o cotovelo.

“Cara, eu não sei, jogos de futebol são mais estúpidos do que jogos de celular?” fez uma careta e jogou o controle do videogame sobre o sofá.

“Bela desculpa, mau perdedor.” cantarolou.

Eren abriu a boca para retrucar, mas Jean foi mais rápido. “Armin.” chamou, estendendo-lhe o controle há pouco abandonado.

“Passo.”

“Ah, vamos lá, Armin. Vai me dizer que-“ Jean foi interrompido pelo próprio celular que vibrava dentro do bolso de sua calça. Pegou o aparelho e leu a mensagem recebida. “Esquece. O Marco chegou.”

“Onde você disse para ele nos esperar?” Armin perguntou.

“Cafeteria.”

O loiro colocou-se de pé. “Não vamos deixá-lo esperando.”

Eren franziu a testa. “Eu fico.” disse, percebendo os traços interrogativos que tomavam conta dos rostos dos amigos. “Lembra o que aconteceu na terça-feira? Eu não vou lá.”

Jean parecia mais confuso, enquanto Armin meneou a cabeça para o lado e suspirou. “Eren.”

O garoto forçou uma risada. “Não quero ter que encarar os balconistas.”

“Nós só vamos buscar o Marco, Eren. Não precisamos entrar lá. E hoje é sábado, você sabe que não são os mesmos caras no balcão.”

“Alguém pode me explicar o porquê disso tudo?” Jean pronunciou-se.

“Eren esbarrou em um moço na cafeteria. O cara ficou irritado e todo mundo ficou olhando, blá.”

Jean riu alto. “Que mané.” e recebeu um olhar irritado do amigo.

O garoto acabou por aceitar, bufando decepcionado consigo mesmo.

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Marco cumprimentou Armin e Eren e ganhou um abraço de Jean, que desculpou-se por fazê-lo esperar, alegando ser culpa de Eren. Este rolou os olhos.

“Então,” Armin começou. “já que estamos aqui, que tal comprarmos alguma coisa?” um enorme sorriso no rosto.

“O que? Você disse que não iríamos entrar!” Eren protestou.

“Eren, não serão os mesmos balconistas, você sabe. Vamos logo.” segurou uma das mãos do amigo no intuito de guiá-lo prédio adentro.

“É claro, porque não foi você quem passou pelo constrangimento.”

“Na verdade, eu também passei pelo constrangimento. Não é como se fossem nos interrogar sobre o que aconteceu, Eren.”

Eren rosnou e caminhou hesitante até a entrada da cafeteria, seguido pela risada de Marco. Uma vez dentro do lugar consideravelmente cheio, olhou em volta, constatando que ninguém olhava para si. Os balconistas realmente não eram os mesmos do dia em que havia esbarrado no desconhecido. Respirou aliviado. Armin e Jean pediram frappés e o garoto optou, junto com Marco, por apenas esperá-los.

O avô de Armin retirava alguns livros de dentro de uma bolsa quando os adolescentes retornaram. Todos o cumprimentaram educadamente e voltaram ao jogo de futebol.

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Eren e Marco estavam sentados de frente para Jean, que encontrava-se de pé. A cabeça de Marco encostada em sua barriga enquanto oferecia-lhe um carinho atrás da orelha.

“Fico feliz que tenha aceitado participar do festival conosco, Eren.” Marco sorria.

“Aliás, sobre o que se trata esse festival?”

“Patrono.” Jean respondeu, simplesmente. “O Armin não te disse?”

Eren franziu os lábios e balançou a cabeça em sinal negativo. “Sabe, terei que faltar à escola para ir ajudar vocês.”

“Que pena, Jaeger.”

Apoiando o queixo na mão, Eren bufou. “Vocês são péssimos amigos.”

A próxima estação foi anunciada e Marco levantou, cedendo o lugar à uma garotinha que segurava a mão de quem o garoto deduziu ser o pai. “Até mais, Eren.” acenou e agarrou a jaqueta de Jean antes de deixarem o vagão.

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Na quarta-feira da semana seguinte, Eren, Mikasa e Armin foram à cafeteria e depararam-se com o rapaz que o garoto de cabelos castanhos havia esbarrado dias atrás. Quis sair do lugar imediatamente, mas Armin o impediu e os balconistas riram, fazendo piada, mas não deu importância. Sentaram-se, como de costume, em uma das mesas do lado de fora do prédio. Se ele vier te aborrecer, faço questão de lidar com a situação, Mikasa disse, tentando confortar o irmão, mas este apenas sorriu forçado e informou que não seria necessário. Quando as portas de vidro se abriram e o homem surgiu em seu campo de visão, Eren afundou o rosto nos braços sobre a mesa, sentindo-se um completo idiota.

Havia visitado a cafeteria mais uma vez naquela mesma semana, mas não avistou o rapaz, sentindo-se aliviado. Na semana seguinte, porém, voltou duas vezes ao estabelecimento, encontrando-o, sempre na mesma poltrona. Perguntou a Armin o porquê de irem tanto àquele lugar; é agradável e as coisas não são tão caras, foi o que recebeu como resposta. Também viu-se obrigado a lidar com as provocações de Jean quando este fixou os olhos sobre o homem pequeno. Eren descobriu que era possível observá-lo do lugar onde sentavam, uma vez que 2/3 das paredes da entrada do local eram de vidro. A única coisa que o atrapalhava era um armário com grãos de café, permitindo que tivesse apenas metade da visão do corpo do outro.

O embaraço de algumas semanas atrás havia sumido.

Notas finais
Me desculpem por qualquer erro.