Let The Flames Begin
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Havia ficado com dúvida em apenas um momento: não sabia se entrava na rua à esquerda ou à direita, mas, felizmente, fez a escolha certa e seguiu pela direita, logo avistando o condomínio onde Rivaille morava. Fez o mesmo que Hanji havia feito quando esteve ali pela primeira vez, ao lado dela. A permissão para entrar no prédio não demorou a vir, assim como o ar gélido de dentro do elevador não demorou a tocar as maçãs de seu rosto. 14º andar e porta à esquerda. Sentia-se um pouco apreensivo, pois não tinha total certeza de ser a porta certa.
Inclinou a cabeça de forma que sua orelha tocasse seu ombro. Um pequeno zumbido em seu ouvido por conta da viajem de elevador. Sussurrou um “até que enfim” quando as portas se abriram e pôde, finalmente, sair. Tocou a campainha ao lado da porta que achava ser a certa e esperou. O som da fechadura sendo destrancada se fez e ele aproveitou para limpar os pés no pequeno tapete ali. A porta foi aberta, dando-o espaço para entrar. “Licença.” Pediu e adentrou o lugar.
Rivaille falava ao celular e apontou para seus pés como se quisesse confirmar se os tinha limpado. Enrolou os dedos na palma da mão, erguendo apenas o polegar, afirmando que não havia esquecido. Rivaille fechou a porta, trancando-a e gesticulou para que Eren sentasse em um dos sofás, o que logo fez. Assistiu o dançarino sumir ao passar para o pequeno corredor ao lado da sala e direcionou sua atenção à mochila, que descansava em seu colo agora. Retirou o CD e releu as faixas na contracapa.
“Eren, desculpe.” A voz de Rivaille alcançou seus ouvidos. “Ligação importante.”
“Sem problemas. Aqui, o seu CD.” Estendeu-o para o outro. “Obrigado.”
“Copiou as músicas?” perguntou, pegando o objeto das mãos do garoto.
“Uh-huh. E tomei cuidado, não precisa se preocupar.”
“Quer beber algo?” Puxou uma gaveta na estante. Uma fileira de CDs estavam bem organizados dentro e logo Showbiz os fez companhia.
“Água, por favor.”
Rivaille pediu que esperasse um minuto, pois traria o copo d’água. Ele usava uma calça moletom branca e uma camisa preta de mangas longas. O tecido da calça contornava muito bem as nádegas do dançarino, salientando-as devido o movimento do quadril enquanto caminhava. Os turquesa não podiam simplesmente descartar a visão, mas viu-se obrigado a olhar para qualquer outro lugar quando o homem abandonou seu campo de visão.
Concentrou-se na paisagem ao lado de fora das janelas, mas não demorou para que o mais velho estivesse de volta. Aceitou o copo d’água que lhe foi oferecido e Rivaille aconchegou-se no sofá ao lado, cruzando as pernas e esticando um dos braços sobre o encosto. “Você parece bem melhor hoje.” Ele comentou.
Eren deu fim à água, enchendo os pulmões de ar em seguida. “Ah, sim. Consegui dormir bem. Acordei com um pouco de dor de cabeça, mas já passou. Você tinha razão, eu estava podre e precisava dormir.”
Rivaille apoiou a cabeça no punho, inclinando-a levemente. “O quê você bebeu?” Quis saber.
“Na festa? Duas ou três latinhas de cerveja.”
“E ficou com dor de cabeça por conta disso?” Zombou.
“Não. Pelo menos eu acho que não. Eu não sei, não gosto de cerveja.”
“Quer mais água?”
“Não, obrigado.” Então o silêncio os fez companhia.
Eren inflou uma das bochechas e varreu rapidamente o lugar com os olhos, voltando-os a Rivaille, que parecia ocupado demais analisando as próprias unhas.
“Eh,” Eren começou, ganhando a atenção do outro “aquilo que você falou na cafeteria... Era verdade?” No instante em que sua boca fechou, desejou não tê-la aberto. “Q-quero dizer... Você é ator, não é? Não sei se posso dizer quando está apenas tirando uma com a minha cara.”
Rivaille exalou uma risadinha e uma expressão quase piedosa tomou seu rosto. “Não se preocupe. Não estava atuando ou... Tirando uma com a sua cara.”
“Hm,” murmurou, fitando seus joelhos no jeans vermelho escuro.
“Quer sair para comer alguma coisa?” Rivaille perguntou, mudando de assunto.
“Você não tem um compromisso?”
Os cinzelados fitaram o relógio. “Ainda tenho cerca de duas horas para começar a me preocupar com isto.”
“Por mim tudo bem, então. Mas vamos a algum lugar barato, não estou com muito dinheiro.”
“Não vou comer num lugarzinho qualquer.” O dançarino falou, colocando-se de pé.
Eren rolou os olhos. “Não estou falando para irmos a um boteco ou algo assim.”
“Também não iremos a um restaurante fast food.”
“Então eu não faço ideia de onde podemos ir.” Eren disse, encolhendo os ombros.
Rivaille apoiou uma mão na cintura e suspirou. “Há um restaurante perto daqui.” O garoto abriu a boca, mas não o deixou falar. “Não é caro. E é bom.”
“Certo.”
“Vou colocar uma roupa descente. Não demoro.” Avisou e rumou ao corredor de antes, entrando na segunda porta.
Preciso dez minutos e Rivaille estava de volta à sala. Um jeans preto, camisa larga, de cor branca com estampas negras e uma bota preta. Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas de Eren ao visualizar o pequeno salto fino da bota, mas preferiu não comentar qualquer coisa referente. Ele parecia não ter problemas em andar sobre o pequeno salto. Parecia um pouco mais alto, também. Um pouco.
“Deixe sua bolsa aí.” Rivaille sugeriu e Eren concordou, pegando o dinheiro antes guardado e o escondeu no bolso da calça. “Por que não usa uma carteira?”
“Não gosto de volume.”
Rivaille arqueou uma sobrancelha, lançando um olhar quase malicioso ao garoto, que não precisou de tempo para pescar seu pensamento. “Difícil para um adolescente.”
Eren estalou a língua. “Idiota. Vamos logo.”
“O garoto pensa que é alguém para poder me chamar de idiota.” Um tom divertido em sua voz. Logo estavam no corredor, mas antes de permitir que o adolescente chamasse o elevador, girou no salto, lançando-lhe os cinzelados. “Criança.” Provocou, sua voz portando um tom baixo.
Os turquesa rolavam novamente. “Vamos logo.” Repetiu.
Sequer precisaram para que o elevador chegasse. “Qual o problema do seu ouvido?” Rivaille perguntou diante da visível irritação do garoto.
“Escuto um zumbido quando estou em elevadores.” Uma risadinha vinda do mais velho. “Não tem graça. É insuportável, uh.
“Não, não tem.” Concordou.
Logo estavam no térreo e logo ganharam a rua. Não precisaram andar sequer dois quarteirões inteiros para chegarem ao lugar. Não havia muitos clientes, o maior som que podia ser escutado era o de talheres e uma baixa música ao fundo. Rivaille escolheu a mesa em que sentariam e um garçom se aproximou. O dançarino decidiu por uma lasanha branca com salada e Eren resolveu que iria acompanhá-lo na escolha, uma vez que não tinha certeza do que queria comer e a lasanha parecia apetitosa na imagem do menu. Em alguns minutos, os pratos estavam servidos.
“Bom?” Rivaille perguntou quando Eren engoliu o pedaço de lasanha.
Balançou a cabeça. “Muito. Você costuma comer aqui?” Levou um novo pedaço à boca.
“Nem sempre. Mais quando Hanji está em casa e não estamos a fim de preparar ou pedir algo para comer.”
Terminaram com a comida e os pratos foram levados pelo garçom. Algumas pessoas haviam chegado ao restaurante e o som de vozes tornou-se mais constante.
“Seu pai está sempre trabalhando. O quê ele faz?” O dançarino quis saber, após Eren relatar que o pai teria de trabalhar no dia seguinte, um feriado.
“Ele é médico. Acho que é bem ocupado.”
“Uh, médico.” Uma pausa. “Você é um filhinho de papai, médico.” Zombou.
“Não, não sou.” Eren suspirou. “Não é como se eu fosse dependente dele.” Deu ênfase à palavra, pronunciando-a quase com desprezo.
“Você trabalha?”
“Não, eu-“
“Então é dependente dele.” Divertiu-se com a expressão emburrada que o garoto ganhou. “Seu pai parece ser uma boa pessoa.”
“Acho que sim...” Coçou o nariz, desviando o olhar. “Ele não passa muito tempo conosco, mas não tenho sobre o quê reclamar, realmente. Ele é um bom pai.”
Fez-se silêncio entre os dois por alguns instantes até a voz de Rivaille voltar ao ar. “Sabe, Eren,” ele começou “pensei que aquela garota fosse a sua namorada. Qual é o nome dela mesmo? Mikasa? Vocês não têm traços parecidos.”
Uma breve expressão de horror tomou conta do rosto de Eren. “Ew, não. Mikasa é adotada.” Explicou. “Acho que ela odeia você.”
“Oh,” brincou com um dos anéis no dedo. “Posso saber se há um porque?”
“Suponho que tenha começado pela ameaça de morte que me fez?” Sarcasmo em sua voz. Ergueu uma sobrancelha.
Rivaille cruzou os braços na altura do peito. “Crianças deveriam ser educadas apropriadamente e andar olhando para frente.”
Eren bufou. “Só... Ignore ela, ok?” O dançarino deu de ombros. “Gostaria que me contasse algo sobre você, também.”
“Acredito que já sabe o suficiente.” Disse. Seu tom não foi grosseiro como a frase pareceu.
Franziu os lábios. “Eu falei sobre mim.”
“Não, você falou sobre a sua família e eu sequer havia perguntado algo.” O corrigiu. “Se esperou tirar algo de mim como recompensa por não conseguir ficar quieto, pensou errado, criança.” Novamente, seu tom não havia sido grosseiro, mas os traços no rosto do adolescente o fez abandonar um suspiro. “Desculpe.”
–
Rivaille ergueu os braços acima da cabeça, esticando-se e Eren esperou que os cedessem para então dizer que precisava usar o banheiro. Não demorou para satisfazer sua necessidade e logo estava de volta à sala. Abriu a boca para falar algo, mas a fechou assim que constatou não haver ninguém no cômodo. Seguiu até a cozinha, imaginando que o dançarino estivesse lá, uma vez que pensou ter escutado o som da torneira. Lá estava ele, secando as mãos num pano de prato. Imagem já registrada em sua mente. Contudo, o homem não pareceu notar sua presença. “Rivaille.” Chamou, recebendo, então, os cinzelados.
Rivaille disse nada. Continuava a esfregar o pano de louça nas mãos já secas, os olhos fixos em Eren. Franziu o lábio, meneando levemente a cabeça para o lado, como se analisasse o garoto à frente. Percebeu o desconforto dele e disse: “Vamos sair.”
“Huh?” Os traços de Eren mostravam-se confusos agora. Eles haviam acabado de voltar.
Esticou o pano de prato sobre a alça do fogão e aproximou-se do garoto. “Eren, tem que voltar para casa à que horas?” Perguntou.
Eren franziu o cenho antes de responder. “Tanto faz...”
“Estão acredito que não há problema. Que bom que está bem vestido hoje.”
A confusão na face do garoto se intensificou. Rivaille voltou a falar. “Tenho uma festa... Comemoração – chame como quiser – para ir. Todo o pessoal da academia estará lá. Você vai comigo.”
“Será que eu posso exercer o meu direito de escolha?” Não tinha certeza se queria ir à outra festa. Afinal, já havia participado de uma na noite anterior.
“Não seja um saco. Ligue para sua casa e avise à sua irmã, pai, não sei.” Nenhuma palavra veio de Eren e os cinzelados rolaram nas orbitas. “Eren, não seja um saco. Quantos anos tem? 40?”
Um estalo de língua. “Ugh, ok.”
Rivaille comprimiu os lábios e avisou que tomaria um banho.
–
Após esperar o que pensou ter levado mais ou menos uma hora, Rivaille estava finalmente pronto. O dançarino havia espirrado um de seus perfumes no pescoço do garoto sem pedir permissão. Não houve reclamação, porém, pois Eren achou o cheiro realmente agradável.
O adolescente avisou à irmã que não voltaria cedo para casa, pedindo a ela que informasse ao pai. Claro que Mikasa não se mostrou feliz com a ideia de Eren saindo com o homem mais velho, mas foi ignorada como sempre.
Quase duas horas mais tarde, Eren estava sentado próximo ao balcão do bar, um dos braços descansando sobre o mármore. O som alto tocava alguma música de batida forte, dançante, que não tinha conhecimento. Do lugar onde estava, podia observar Hanji, Gunter e Auruo, os únicos rostos conhecidos no meio de tantas pessoas. Levou o copo com refrigerante à boca e sorveu o líquido, sentindo-o formigar em sua garganta. Sentiu um leve aperto no ombro e virou o rosto para encontrar o pálido familiar.
“Você tem 17 anos e está parecendo que veio aqui apenas para acompanhar seu filho e ter certeza de que ele não irá usar alguma droga ou engravidar alguma vadiazinha.” Rivaille disse próximo à orelha de Eren para que ele pudesse escutar, sentando-se logo ao lado. Pediu uma bebida ao barman.
“Não sou muito... De ficar dançando.” Moveu a cabeça, acenando à pista agitada.
Rivaille havia explicado que a “comemoração” era devido ao aniversário de um importante professor da academia. Eren não o conhecia e ainda não havia tido a chance de vê-lo. O dançarino explicou, também, que o motivo de a festa ser grande era porque havia sido organizada pela esposa do tal professor, que não admitia coisas que não fossem um tanto... Exageradas.
“Eu acho que você é entediante.” Rivaille disse com descaso, os olhos fixos na pista de dança enquanto levava a taça de Martini à boca.
Eren lançou os turquesa ao outro e torceu o nariz. Durante as horas seguintes, acabou perdendo a conta de quantas vezes o dançarino havia caminhado até si, sorrindo idiota e falando alguma coisa não muito necessária. “Você devia ficar quieto um pouco, não acha?” disse em um determinado momento, observando-o pedir outra bebida.
“Por acaso sou eu o filho de quem veio tomar conta?” Rivaille ironizou, um toque zombeteiro em seu olhar.
Logo o dançarino o deixou sozinho novamente, logo estava ao seu lado novamente, apoiando-se pesado em um de seus ombros, desta vez. “Eu acho que você está bêbado.” Eren comentou ao que Rivaille ajeitava-se, descansando o queixo sobre as mãos apoiadas em seu ombro.
“Nahh, só... Alegre.” Abandonou um suspiro e substituiu as mãos e o queixo pela cabeça agora. “Não vou beber mais.” Disse, calmo. “Não o trouxe aqui para que ficasse apenas sentado, sabe?”
“Eu não sou de ficar dançando.”
“Você já disse isso.”
“Estou repetindo.”
Os cinzelados rolaram. “Ok, pai.” Brincou, erguendo a cabeça. Abriu a boca para falar algo, mas tudo o quê conseguiu pronunciar foi um som de surpresa ao identificar à que música pertencia a batida que havia começado a tocar. “Eren.” Segurou firme a mão do garoto, que juntou as sobrancelhas em confusão. “Não diga nada, apenas venha.” E o puxou.
“E-espe-“ tentou dizer, mas era tarde demais, já estavam na pista de dança. Fitou o dançarino, portando uma expressão de protesto no rosto e o pegou sibilando a música que era tocada.
I am so fab
Check out, I'm blonde, I'm skinny, I'm rich
And I'm a little bit of a bitch
Não conhecia a música e sentiu-se um pouco mais confuso por conta da letra, por conta de estar sendo sibilada pelo outro. O ritmo havia mudado e as mãos de Rivaille atreviam-se a deslizar pelo seu torso. Hanji se aproximou e Eren percebeu que ela também cantava. Era o único que não conhecia a música? A morena segurou em seus ombros pelas costas, massageando-os. Tentou protestar, mas foi ignorado. O que infernos os dois estavam fazendo?
Hanji o abandonou, assim como Rivaille. O dançarino levou uma mão ao peito e outra à cintura numa pose que o fez parecer estar ofendido, ou convencido demais com algo. A segunda opção se encaixava melhor em seu perfil. O observou cantar: I'm a rich, bitch, I'm the upper class
A mão que antes estava na cintura, rumou para os fios negros, e ele sibilou: I smoke Marlboro Reds and drink champgne
Aquele realmente não era o tipo de música que havia pensado que o dançarino gostasse, uma vez que o mesmo escutava Muse. Tal pensamento o abandonou quando seus braços foram jogados para o alto, feito de Rivaille, que o fitava agora, cantando o quê parecia ser o refrão. Houve um momento em que precisou segurar os ombros do menor, pois ele havia tropeçado no próprio pé. Podia não estar bêbado, mas com certeza estava tonto.
Contudo, ele continuou a dançar e os turquesa continuaram a observá-lo. Os pulinhos que dava sem tirar os pés do chão, a expressão em seu rosto enquanto cantava... Eren queria poder ouvir a voz dele, mas, infelizmente, a música alta o impedia. Mas era bom assisti-lo, descobriu.
Minutos depois, viu-se arriscando a se divertir junto com os outros que conhecia.
–
“Meus pés estão me matando.” Rivaille reclamava, apoiando-se no balcão do bar. “Tonto.” Referia-se a si mesmo por conta do efeito da bebida.
“Chame um táxi ou pegue uma carona com alguém e vá para casa, Rivaille.” Hanji falava. “Não vai dirigir deste jeito. Eu vou pegar uma carona com a Petra. Não chamo vocês porque, bem, ela dirige uma moto.”
O dançarino resmungou, sentando-se finalmente. Os dedos passando por entre os fios de seu cabelo. “Não quero deixar o meu carro aqui.” Dobrou os braços sobre o balcão e escondeu o rosto neles.
Hanji franziu os lábios e lançou um olhar para Eren. “Eu,” ele começou, hesitante. “Eu sei dirigir. Se quiser-“
“Não.” Rivaille o interrompeu.
“Ora, Rivaille, por que não? Se o garoto sabe dirigir, isto é ótimo. Não precisará deixar o carro aqui.” Hanji disse.
“Eren não tem idade para ter carteira de motorista e deve dirigir tão bem quanto o funcionamento do raciocínio que tem.” Eren piscou duas vezes, erguendo as sobrancelhas ao que cada palavra alcançava seus ouvidos. “Não vou confiar minha vida a um moleque.”
“Rivaille, não seja tão cruel com o garoto.”
No fim, o mais velho acabou entregando a chave do veículo a Eren e ambos deixaram o lugar. “Espero que saiba o quê está fazendo, garoto.” Rivaille disse ao entrarem no carro.
Eren apenas rolou os olhos. Logo estavam na rua. “Eu preciso que me fale em quais ruas devo entrar para chegar até sua casa.” Pediu, escutando o outro bocejar e a voz, vez ou outra, o dizia à qual caminho seguir.
“Então você sabe dirigir.” Rivaille comentou. Os braços cruzados e uma expressão cansada no rosto. Lançou os cinzelados ao garoto, que murmurou.
O silêncio preencheu o ar. Eren não tirava os olhos da estrada, mesmo quando teve de parar num sinal vermelho. Contudo, podia sentir o olhar do outro sobre si. “Tão sexy que eu poderia te chupar agora mesmo.” Escutou-o dizer e virou o rosto para poder encará-lo no momento em que a frase morreu. Suas sobrancelhas juntas em completo desentendimento. Rivaille mordia o lábio inferior.
“Desculpe?” Eren balançou levemente a cabeça.
Uma risada zombeteira. “Vire à esquerda e chegamos.”
E assim Eren o fez. A expressão confusa ainda ocupava seu rosto, porém. “Olhe, eu...”
“Você não sabe diferenciar quando uma pessoa está falando sério ou não, não é?”
Um suspiro pesado vindo de Eren e logo o portão se erguia para que pudessem adentrar o estacionamento.
Rivaille rumou direto ao banheiro assim que pisaram dentro do apartamento e Eren passou a chave na porta. Deslizou os dedos pelos fios castanhos e buscou pelo celular no bolso da calça. A tela anunciava 03h43 da madrugada. Abandonou outro suspiro, resolvendo sentar-se. Rivaille não demorou a sair do banheiro e logo estava parado de frente para si, um iPod em mão. Poucos segundos depois, e o aparelho descansava sobre o estofado.
“Eren, venha.” Estendeu a mão.
“Huh?”
Entortou os lábios e puxou a mão do garoto quando Glamorous Indie Rock & Roll começou a tocar. “Estou cansado e quero dormir, então não reclame.” Disse, como se aquilo explicasse alguma coisa para o adolescente.
Eren teve uma de suas mãos guiadas até a cintura de Rivaille, ganhando uma sensação familiar. “Isso de novo? Não deu muito certo na primeira vez.”
“Eu disse para não reclamar.” Laçou o pescoço de Eren com os braços. “Você ficou parado a noite toda.” Disse num tom baixo enquanto dava curtos passos, guiando o outro.
“A noite toda não.”
Rivaille fez uma careta. “Ter finalmente saído do balcão apenas na última hora de festa não conta, Eren.”
“Eu acho que conta.”
Um estalo de língua e o dançarino abaixou a cabeça, encostando o topo ao peito do garoto. “Estou muito cansado para argumentar. O efeito da bebida ainda está no processo de me deixar em paz e é a pior parte porque- uh,” ergueu a cabeça “sono.” Finalizou. Os olhos cansados fitando grandes turquesas.
Eren nunca havia ficado bêbado. Ou pelo menos chegado perto como o outro havia chegado. Sabia que um banho e uma longa noite de sono ajudavam. O quê restava era apenas o rastro da noite. “Nesse caso,” ele começou. “não acha que é uma boa ideia se for tomar u- opa!” Havia tropeçado no pé do dançarino quando este tentou mudar sua posição em seus braços.
Eren não conseguiu evitar uma queda. Contudo, estava em cima do estofado macio, o quê agradeceu num sussurro. Uma de suas mãos segurava o braço de Rivaille, que apoiava-se com a palma sobre o sofá, evitando, assim, que caísse sobre Eren.
“Desculpe.” Pediu ao mais velho. Seus olhos o encararam por dois segundos e então uma risada divertida o abandonou, calando-se apenas quando sentiu um peso sobre si. Os turquesa encontraram Rivaille agora sentado, desajeitado em suas pernas, o torso junto com o seu, o olhar cansado junto com o seu. O som abafado da música ainda preenchia o ar.
Rivaille suspirou e descansou o queixo no ombro do garoto. “Quem o ensinou a dirigir?” Ele perguntou.
Eren ficou a fitar o tufo negro próximo à sua bochecha por um momento antes de direcionar sua atenção ao teto e finalmente responder: “Meu pai, para facilitar quando eu fosse tirar a carteira, foi o quê ele disse.”
“Pensei que o médico fosse ocupado.”
“Aprendi durante as férias que ele teve no ano passado. Não foi difícil como achei que seria.”
“Que belo jeito de se passar as férias.” Uma pitada de ironia. Suas pálpebras pesavam. Inalou uma boa lufada de ar, soltando-a em seguida. Fechou os olhos.
Eren tateou o próprio pescoço, tentando encontrar algo que não soasse realmente idiota para falar, algo para fazer. “Acho que ainda estou com o cheiro do seu perfume.” Foi o quê conseguiu dizer.
“Claro que está.” Uma pausa. “Não é um perfume barato para que o cheiro saia com facilidade.”
Eren riu baixinho. A resposta do mais velho não poderia se encaixar melhor em sua personalidade. A mão, antes no pescoço, descansava nas costas alheia e suas sobrancelhas juntaram-se levemente. Devia tê-la apoiado ali sem real consciência do ato. “Não vai me dizer o quê escreveu naquele roteiro?”
“Hm,” virou a cabeça, deitando a face sobre o ombro do garoto. “Não é nada importante. É como se fosse um teste para mim. Quero ver se consigo escrever algo que me satisfaça então- hm, vou guardá-lo numa pasta e deixá-lo lá para sempre, eu acho.”
Eren havia pensado que receberia mais uma das respostas afiadas de Rivaille, surpreendendo-se um pouco com as palavras que teve. Ficaram em silêncio a partir daquele ponto e, sob sua palma, sentia o suave movimento causado pela respiração do homem. Ele respirava engraçado. Dois ou três minutos passaram até sentir um aperto nos ombros e escutar um baixo resmungar. “Por que não toma um banho e descansa?” perguntou, mas não houve resposta.
Esperou alguns segundos e o chamou. Novamente, não obteve resposta. Ele não teria dormido, não é? Afastou a cabeça de modo que pudesse ter a visão do rosto adormecido em seu ombro. Oh. Deslizou os dedos até a nuca tão clara e passou o polegar pelo cabelo bem cortado. “Hei,” sussurrou, o quê não era sua real intenção. Mas os olhos fechados e respiração tão calma o fez desistir de acordá-lo. Afastou a franja das sobrancelhas finas e passou a acariciar as costas.
Lembrou do iPod quando se deu conta de que ainda havia o som da música. Pegou o aparelho, sem tirar atenção da carícia que oferecia ao outro, e o desligou. Suspirou, voltando a fitar o teto. Sentia-se cansado. Estava numa casa que não era a sua, e o dono desta, dormindo, montado em seu colo. Não o culpou. Não totalmente. Também não era como se se incomodasse com aquilo. Rivaille também estava cansado, afinal. E ele estava quentinho, dando-o uma sensação gostosa de proteção.
Entretanto, não pôde ignorar a dor em suas pernas após longos minutos na mesma posição, suportando um peso em cima de si. Remexeu-se minimamente para não acordar o dançarino, mas não viu outra opção além de ter que fazer movimentos mais bruscos. Queria deitá-lo no sofá. “Rivaille,” chamou num tom baixo, passando os dedos pelo cabelo alheio.
“Hmm,” um resmungar preguiçoso como resposta.
“Ah, eu vou-” interrompeu-se, virando o corpo de forma que conseguisse mirar as costas do outro ao estofado, deitando-o logo depois. Escondeu os lábios, mordendo-os.
Os cinzelados mostravam-se apenas um pouco. “Eren,” Rivaille sussurrou.
Eren sabia que o outro ainda estava dormindo. Tinha boa experiência naquela situação por conta de Mikasa, que costumava dormir no sofá da sala, deixando a televisão ligada com os créditos de algum filme passando.
Livrou a nuca de Rivaille, sempre cuidadoso, e logo abandonou sua posição torta ao retirar-se de entre os joelhos dobrados do outro, vendo-os pender sobre o estofado. Levantou-se e observou o corpo menor mudar de posição. Bem, havia conseguido deitá-lo sem precisar tirá-lo do sono.
Espreguiçou-se antes de descansar as mãos na cintura. Foi até a cozinha, pois precisava de um copo d’água e após servir-se, voltou à sala, sentando-se no segundo sofá. Observava o dançarino, o único som presente agora era o de suas respirações. Permitiu-se deitar a cabeça sobre o braço do sofá e logo não podia mais observar o descanso do outro.
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