Let Me Take Care Of You
7 Capítulo 06– Encontros.
Notas iniciais

– Encontros -
Dor. Lágrimas. Sofrimento. Ódio.
Tudo isso visível no rosto de uma só pessoa. Jude.
Seus olhos esbanjavam uma raiva que eu não tinha visto nem durante suas mais fortes crises de bebedeira. Nem quando ela nos deixou.
Ele foi se aproximando e sua áurea negra e densa era cada vez mais palpável. Eu só queria poder respirar um ar puro longe de tudo aquilo. Seus passos se tornavam cada vez mais precisos e a distância entre nós encurtava a cada movimento.
Eu não conseguia me mexer. Sentia-me totalmente vulnerável.
Seus olhos em um tom castanho mais escuro que o normal me fitaram e, assim que seus lábios estavam próximos a pronunciar uma palavra, me senti caindo de um abismo sem fim.
Desperto ofegante e totalmente suada. Olho ao redor e vejo que estou sozinha no meu quarto escuro. Nada de Jude, nada de raiva e nada daquele clima tenso – mesmo que parte dele fique meio impregnado nesta casa. Foi apenas um sonho.
Suspiro aliviada.
O relógio marcava exatamente 3:10 da manhã. Nunca gostei muito desse horário – talvez por causa das superstições que o rodeiam –, então eu não poderia ter escolhido uma hora pior para despertar.
Volto minha atenção para o meu sono que graças a Deus não demora muito a me abraçar.
[...]
Acho que os desastres e tropeços são atraídos por mim, como se eles ocorressem com mais frequência na minha presença do que na de qualquer outro. Meu corpo todo machucado é a prova concreta disso, mas é bom ter arranhões normais só para variar.
Nunca pensei que Natsu cuidaria de mim daquele jeito. Parecia até que ele sabia o que estava fazendo, como se tivesse muita prática.
Agora que parei pra pensar percebi que eu não sei nada sobre ele e ele também não sabe nada sobre mim – a não ser a respeito das marcas no meu corpo, mesmo não sabendo de onde elas surgiram.
E aquele quase beijo? Até agora eu não entendo como tudo chegou àquele ponto. Isso mostra que quando as coisas têm que acontecer elas simplesmente acontecem, mas dessa vez não era o momento certo ainda.
– Lu-chan! Você ouviu o que eu falei? – perguntou uma Levy emburrada.
Estávamos em uma lanchonete próxima a minha casa aproveitando nosso final de domingo, por sinal o último dia estipulado por mim mesma para esperar que Jude chegue em casa com suas próprias pernas. Juvia e Erza infelizmente não puderam vir, então estamos apenas eu e essa azulada estressada mirim.
– O que disse? – perguntei confusa. Ela bufou.
– Já é a segunda vez que eu tenho que chamar a tua atenção. Aconteceu alguma coisa que você não me contou além da sua queda de bicicleta? – arqueou uma de suas sobrancelhas.
Confesso que omiti a existência de Natsu durante o meu pequeno acidente. Acho que era informação desnecessária e se Levy soubesse minha vida se transformaria em um inferno.
– Lógico que não! – falei na defensiva. – Apenas estava pensando no meu pai. – o que não deixa de ser verdade.
– Aham, sei. Esqueceu que eu te conheço desde o berçário? – exagero dela, confesso. – Sei diferenciar seu pensamento preocupado do sonhador, ok? Agora pode me contar o que está acontecendo. – largou seu hambúrguer em cima da mesa e me encarou de forma inquisitória.
– Tem como esconder alguma coisa de você?
– Não. Agora conta!
– A pessoa que eu atropelei... – encarei minhas mãos. – Foi o – fui interrompida.
– NATSU! – ela deu um grito animado chamando a atenção de algumas pessoas ao redor.
– Você tá louca?! E se alguém aqui o conhecer? – meu tom de voz foi baixo e a preocupação estava estampada em meu rosto. Só espero que nenhum amigo dele esteja por aqui.
– Relaxa Lu-chan. – sorriu. – As pessoas têm mais o que fazer do que ficar prestando atenção na vida alheia. – falou encarando de forma ameaçadora uma senhora que parecia interessada demais em nossa conversa, esta desviou o olhar no mesmo instante. Ponto para a baixinha.
– Você não tem jeito mesmo. – sorri também.
– Afinal, foi ou não foi o Natsu? – sinceramente não entendo toda essa empolgação da McGarden com um rapaz com quem ela nunca falou na vida. E eu não estou com ciúmes, ok?
– Foi. – tomei um longo gole do meu suco.
– Eu sabia! Sabia que tinha algo a mais nessa história! – sorriu abertamente. – E ai?
– E ai nada. Eu o atropelei, nós dois nos machucamos, ardeu pra caramba e fim. – dei de ombros.
Ela suspirou.
– Tudo bem, me conte quando quiser. – sério, essa baixinha só pode ter um sexto sentido.
Nada respondi, apenas voltei minha atenção para a comida. Se nem eu sei direito tudo o que aconteceu nesse dia como posso tentar reproduzir isso para outra pessoa?
Há quem diga que no mundo existem diversas realidades. Como a que você presencia e a que os outros notam. Talvez para mim os acontecimentos de ontem tenham sido significativos, mas para Natsu nem tanto. Talvez a sua possível irritação – que também pode ter sido algo da minha cabeça – seja apenas por não ter mais um nome em sua listinha de “já peguei”. E sim, talvez eu tenha a mania de menosprezar as coisas e a mim mesma, mas fazer o que? Não consigo evitar.
Fiquei conversando com Levy até umas dez e meia da noite, que foi quando resolvi ir para casa. Não sei por que, mas estou sentindo um frio na barriga estranho, tipo quando você tem seis anos, é obrigado a ir tomar vacina e sente aquela coisa estranha no estômago que te dá vontade de vomitar. Levy insistiu em me levar para casa e só então pegar um táxi para ir para a sua, mas não tinha sentido já que a dela é bem mais distante que a minha.
Então aqui estou eu perambulando pelas ruas de Magnólia à noite, porém sem nenhum medo. Estranho não é? Uma pessoa em sã consciência ao menos teme por sua segurança, mas não eu. E não associem isso a coragem, está mais para falta de juízo ou de noção. Fazer o que se eu tenho mais medo de uma alma penada com poderes sobrenaturais do que de um homem com uma arma?
Estava me equilibrando perto do rio que corta a cidade – mania infantil que tenho desde sempre – quando uma cena me chama a atenção. Uma senhora do outro lado da rua, que aparentava estar na casa dos sessenta anos e usava um longo, porém simples, vestido preto, com um lenço roxo na cabeça, carregava consigo três caixas, relativamente grandes, de papelão vazias, amontoadas uma por cima da outra, com uma aparente dificuldade.
Decidi seguir meu caminho ignorando esse detalhe, afinal nunca se sabe quem são as pessoas com quem esbarramos por ai, mas é como tentar ignorar o olhar de um gatinho pidão, simplesmente impossível! Sem falar que uma senhora idosa não pode ser ameaça para ninguém, não é mesmo?
Suspiro ao vivenciar meu conflito interno, mas vencida por meu senso de dignidade resolvo oferecer minha ajuda.
– Com licença? – falo ao meu aproximar.
Ela me olhou de forma interrogativa, como se não entendesse minha aproximação, mas nada respondeu.
– A senhora precisa de ajuda?
Continuou a me observar por uns instantes, que mais se pareceram horas. A boa vontade alheia é uma coisa assim tão rara esses dias? Fala sério, eu não sou um animalzinho em extinção dentro de uma jaula para ser observado assim com tamanho espanto.
– Preciso sim, obrigada. – sorriu abertamente para mim.
Espera, onde estava a senhora carrancuda de alguns segundos atrás?
Entregou-me duas das três caixas e me deixei ser guiada por ela.
– Me desculpe pelo meu jeito, é que não estou acostumada a receber ajuda de estranhos. Se fosse um homem eu provavelmente não aceitaria. Tenho a minha pureza para defender.
Calma, ela acabou de falar em pureza? Que não seja o que eu estou pensando.
– Tudo bem. – dei um sorriso sem graça. – Eu também não aceitaria uma ajuda masculina.
– Oh, para defender sua pureza também? – me olhou de forma inocente.
– Não só por isso. – sorri. – Digamos que eu não me sinto muito bem perto de pessoas do sexo oposto.
– Esses jovens de hoje em dia são muito estranhos. Enquanto uns se jogam no colo dos outros, alguns simplesmente fogem. – suspirou. – Se eu tivesse a sua juventude...
Nada respondi.
Dobramos algumas ruas até chegarmos a uma casa modéstia e pequena, porém muito bem arrumadinha. Suas paredes eram em uma tonalidade bege claro e possuía uma porta pequena e uma janelinha na parte da frente. Entrei para deixar as caixas e pude ver alguns objetos nada típicos como umas imagens de santos que desconheço colocadas próximas a uma lareira, um baralho – que me pareceu ser de tarô – espalhado em cima de uma mesa e um objeto oval que presumi ser uma espécie de bola de cristal.
Nunca fui muito de mexer com coisas místicas, mas não por não acreditar e sim por medo do que isso pode proporcionar. Mas pelo visto esta senhora devia saber muito bem com o que estava lidando.
– Viu algo que te interesse? – perguntou sorridente.
– Oh, não. – falei automaticamente. – Acho tudo isso incrível, mas não gosto muito de mexer com essas coisas. – sorri sem graça.
– Então acredita no poder delas?
Apenas assenti com a cabeça.
– Bem, pelo menos não é uma cética. – sorriu novamente. – Pode colocar as caixas ali. – apontou para um dos cantos da pequena sala.
Coloquei os objetos com delicadeza no local que me foi orientado, tendo o cuidado de não tocar em nada.
– Muito obrigada menina, mas eu ainda não sei seu nome.
– Lucy. – estendi a mão em sua direção.
– Ryoko.
Apertamos nossas mãos e notei que a postura de Ryoko se tornou mais séria.
– Você tem uma vida sofrida não é? – seu olhar agora era triste.
Soltei sua mão instantaneamente.
– Não sei do que você está falando. – não costumo falar sobre os meus problemas para estranhos.
– Não precisa ficar assim menina Lucy. A pessoa predestinada a te ajudar já está na sua vida. – sorriu.
– Acho melhor eu ir. – falei e me virei em seguida, acenando com a mão.
– Espere! Deixe-me agradecer primeiro.
– Não precisa, fiz apenas aquilo que minha consciência mandou que eu fizesse.
– Não, você fez aquilo que o seu coração pediu que fizesse. Comece a confiar mais nele Lucy. Muitas vezes a nossa mente apenas coloca obstáculos desnecessários em nosso caminho. – sorriu docemente.
– Obrigada.
Parando para pensar, acho que esse foi um dos melhores conselhos que já recebi.
– Ah, e Lucy... – virei em sua direção e ela puxou minha mão esquerda.
De início não entendi muito bem, mas logo percebi que ela estava lendo a minha mão. Tentei me soltar de seu aperto, mas ele apenas se intensificou. Ela parecia mais interessada em minha vida do que eu mesma.
– Você vai encontrar muitos obstáculos durante a sua vida, mas viverá por muitos anos. – continuava encarando a palma de minha mão.
– Com licença. – tentei puxá-la novamente, porém sem sucesso.
– Não és uma pessoa vingativa e... – soltou minha mão bruscamente proferindo um ruído estranho com os lábios.
Seus olhos demonstravam espanto e uma certa decepção. Olhava dos meus olhos para a minha mão repetidas vezes.
– O que houve?! – depois de toda essa cena, o mínimo que ela poderia fazer era me contar o que estava acontecendo.
– Sua linha do amor... – falou de forma desanimada. – Não vejo nenhum amor de verdade na sua vida.
E lá estava de novo aquele olhar. Pena.
Puxei minha mão bruscamente, dessa vez obtendo sucesso.
– Eu preciso mesmo ir. Até outro dia. – acenei e sai dali de forma apressada sem nem esperar uma resposta.
Então quer dizer que eu não terei um amor de verdade na minha vida? Por que será que eu não me surpreendo com isso? Ou melhor, quem se importa? Essas idiotices nem são de verdade mesmo...
Mas o pior é que eu acredito nelas. De forma instantânea a imagem de Natsu me vem em mente. Então não seria ele o amor da minha vida? – não que eu tenha pensado que fosse, mas sonhar nunca é de mais – Ou melhor, não seria ninguém?
– Besteira! – falo ao chutar uma pedra que encontrei no caminho. – Quem liga? Nasci sozinha e morrerei assim.
Respirei fundo algumas vezes para me acalmar. Não vou deixar isso me atingir.
Continuei caminhando pelas ruas em total silêncio. Atrevo-me a dizer que até meus pensamentos estavam calados nesse momento, se é que isso é possível.
Fui me aproximando de minha casa a passos lentos até que já conseguia vê-la, mesmo que distante. Mais umas passadas e lá estava eu, em frente à minha casa e sozinha de novo.
– Lucy burra! Aprenda a cuidar da sua vida de agora em diante!
Nunca me amaldiçoei tanto por ter escolhido ajudar alguém, mesmo que este tenha sido o encontro mais revelador da minha vida.
Aproximo minha mão para colocar a chave na fechadura da porta e me espanto ao notar que ela já estava aberta. Delicadamente empurro a porta fazendo com que ela se abrisse por completo e eu me deparasse com a casa submersa na escuridão.
– Quem está aí? – perguntei apreensiva ao dar o primeiro passo e procurar meu spray de pimenta na bolsa.
Acendi a luz ainda com medo e meu coração quase sobe pela boca com o que presenciei.
– Pai?! – uma fagulha de felicidade brotou em meu peito, mas logo esta morreu.
Ele se aproximou de mim com um sorriso nos lábios, mas aquele andar e sorriso não eram dele.
Aquele não era o meu pai, era o Jude.
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