Let Me Take Care Of You
2 Capítulo 01– Problemas sociais.
Notas iniciais

– Problemas sociais -
– Lucy, onde você está? – ele perguntava com uma voz muito sobrecarregada por causa da bebida. – Vamos, apareça!
Eu estava encolhida debaixo da mesa da cozinha rezando para que ele não me achasse.
– Venha querida. Eu não vou te machucar. – continuou circulando pela casa à minha procura.
– Eu já estou perdendo a paciência! – sua voz se tornou mais grave e ele parou de frente para a mesa em que eu me encontrava.
Nesse momento começo a suar frio e meu corpo treme como nunca antes. No que você se transformou papai?
– Ora, ora. Achei você. – ele fala com um sorriso sádico nos lábios enquanto traga um cigarro e sopra a fumaça em meu rosto me provocando uma tosse. O pânico toma conta de mim e fico estática. – Agora como irei castigá-la por seu mau comportamento? – continua sorrindo e lentamente aproxima o cigarro de minha pele.
– NÃO! – acordo toda suada e ofegante. – Foi só um sonho Lucy. Só um sonho. – tento convencer a mim mesma.
Continuo deitada por mais um tempo, apenas respirando pesadamente, até que escuto o som do bendito despertador. Não é ótimo quando você acorda poucos minutos antes do seu despertador tocar? Meu dia simplesmente começou com o pé direito.
Ainda com a preguiça dominando meu corpo levanto lentamente e vou em direção ao banheiro.
– Bom dia mamãe. – falo ao me deparar com uma foto sua que eu escondo dentro da gaveta de meu armário. Ai de mim se meu pai a achar, mas todos os dias sinto a necessidade de falar com ela. Como se fosse meu porto seguro. Em algum lugar dentro de mim eu sinto que um dia ela vai voltar.
Espanto esse pensamento, continuo andando e quando chego em frente ao espelho vejo que é possível notar as marcas vermelhas nas minhas costas e braços. Só de pensar na noite anterior alguns arrepios passam por meu corpo.
– Ótimo. Terei que usar blusa de manga longa em pleno verão. Ponto extra para a Lucy esquisitona! – falo usando o apelido que muitas vezes já me foi atribuído no colégio.
Quando tiro meu babydoll vejo aquelas marcas. Aquelas que me assombram em meus pesadelos e mostram que tudo que eu sonhei noite passada são nada menos que lembranças. Três cicatrizes em forma de círculos não simétricos que se localizam perto da minha cintura do lado esquerdo. Eis o motivo de eu detestar biquínis e roupas que não cubram toda a barriga. E pensar que eu era só uma criança...
Após tomar meu banho visto um blusão branco de manga longa por baixo do meu uniforme, que se consistia em uma blusa de manga curta branca com detalhes em vermelho e uma saia cinza um palmo acima do joelho, coloco meu all star e desço apressada, me deparando com meu pai tomando café e lendo o jornal. O que você fez com o velho asqueroso de ontem à noite? É o que eu me perguntaria se não o conhecesse tão bem.
– Bom dia Pai. – falo ao pegar uma maçã.
– Bom dia Lucy. – ele responde sem me olhar nos olhos. – Vai usar uma blusa de manga longa com esse calor tremendo? – pergunta confuso.
– Sim. Por incrível que pareça estou sentindo frio. Acho que vou gripar. – falo sem graça enquanto me viro para ir para o meu primeiro dia de aula.
– Não, espera. – ele chama minha atenção. – É por minha culpa não é? – fala com uma voz triste.
– Não é nada disso. Apenas estou com frio. – dou um sorriso amarelo. Ele se aproxima e afasta um pouco minha blusa na parte das costas, podendo ter uma boa vista do seu “trabalho” da noite anterior.
– Me desculpe. – ele me abraça e, mesmo com a dor que eu estava sentindo por ter os ferimentos pressionados, o abraço de volta.
– Tudo bem Pai.
– Não filha, não está tudo bem. Que espécie de pai eu sou? Juro que nunca mais vou beber! – sinto meu ombro ficando um pouco úmido e percebo que ele está chorando. Isso me parte o coração.
Nos separamos e finalmente vou para a escola, que não fica muito distante de minha casa. Vocês devem estar se perguntando que pai bipolar é esse que eu tenho, não é mesmo? A verdade é que ele é alcoólatra há muitos anos, acho que desde que minha mãe saiu de casa, e sempre que ele tem uma recaída eu acabo sofrendo as consequências. É como se houvesse dois Judes. Um trabalhador e honesto, que se preocupa com o meu futuro e outro que apenas gasta o dinheiro com bebidas e não aguenta ver meu rosto por dizer que sou a cópia da mulher que ele mais despreza nesse mundo, minha mãe. Mas é por esse primeiro Jude que eu luto todos os dias e é por causa dele que ainda não joguei tudo para o alto. Meu pai tem salvação, eu sei!
Andando mais um pouco consigo ver o enorme letreiro escrito em letras grandes e vermelhas o nome Fairy Tail, o colégio onde eu estudo. Como todo o primeiro dia de aula, estava tudo muito agitado e rostos novos podiam ser vistos. Não que eu conhecesse todo mundo, longe disso, mas realmente havia ali rostos que eu nunca tinha visto na vida, como o de um garoto que possuía cabelos excentricamente rosas. Não, eu não estava mentindo. Ou ele é um louco que gosta pintar o cabelo com papel crepom ou simplesmente tem a genética mais estranha que eu já vi na vida. Mas quem sou eu para julgá-lo?
Um pouco mais a frente vi duas de minhas amigas. Levy McGarden, uma baixinha – que ela não saiba que a chamei assim – de cabelos azuis, e Juvia Loxar, que possui um cabelo numa tonalidade semelhante ao de Levy, mas é mais alta e tem a pele mais pálida. Aceno para as duas e vou ao seu encontro.
– Ohayo meninas! – falo animada. Aqui é o lugar onde eu esqueço meus problemas familiares e fico apenas com os sociais, que infelizmente não são poucos.
– Ohayo! – elas falam em uníssono e me abraçam as duas de uma só vez. Tive que me controlar para não gemer de dor.
– Com uma camisa dessas em pleno verão Lu-chan? – perguntou Levy, desconfiada.
– Isso é muito estranho. – disse Juvia.
– É que eu acordei com muito frio hoje.
– Sei... – disse a baixinha. – Vamos ao banheiro rapidinho?
– Claro. – eu e Juvia assentimos.
Mal eu sabia que estava caindo em uma de suas armadilhas. Ao chegarmos lá a McGarden checa todo o local para constatar que estamos sozinhas e em seguida fecha a porta. Estou ferrada.
– Tira a blusa. – ela fala séria.
– O que? – me faço de desentendida.
– Vamos, tira logo a porcaria da blusa! – ela parece alterada.
– O que foi Levy-chan? – pergunta Juvia.
Levy, em um ato brusco, puxa minha blusa de manga longa, trazendo consigo também a da farda fazendo com que eu ficasse apenas de sutiã. Ela pode não parecer, mas é bem forte.
– Isso. – fala fria ao notar as marcas pelo meu corpo.
– Lucy! – Juvia fala horrorizada.
– Ele bebeu outra vez não foi? – Levy pergunta séria. Sim, elas duas sabem de tudo o que acontece na minha vida. Eu, sem graça, apenas afirmo com a cabeça sem as conseguir olhar nos olhos.
– Juvia sente muito. – Loxar fala em terceira pessoa, sua típica forma de demonstrar que está nervosa ou assustada, e me abraça delicadamente para não me machucar.
– Ele não vai parar nunca?! – Levy se exalta com os olhos cheios de água. – Olha só o que ele fez com você! – sua lágrimas não se continham mais e já escorriam por sua face. Noto que Juvia já chora também.
– Ele teve uma recaída. Não vai voltar a acontecer. – falo enquanto me visto. Não queria que elas me olhassem naquele estado.
– Quantas vezes você já disse isso Lucy? Umas dez? Ou mais?
– Levy... – ela me interrompe.
– Ele é um monstro! Te pediu desculpas hoje não foi? Como se nada tivesse acontecido? – fico estática apenas a olhando enquanto Juvia chora sem parar.
– Ele prometeu que não ia mais beber. – falo cabisbaixa.
– Ah, ele prometeu? Como daquela vez em que ele prometeu que não ia mais beber e na semana seguinte fraturou uma costela sua? Ou da outra vez em que ele também tinha te prometido e um tempo depois você apareceu com um olho roxo na escola? Ah, eu fui assaltada! – falou a última parte tentando, sem sucesso, imitar minha voz.
– Ele é doente, tudo bem? E é meu pai! O que você quer que eu faça? Que o abandone e o deixe a própria sorte? – fiz uma pausa. – Você sabe que quando ele está sóbrio se importa comigo. – falei a última parte com um fio de voz e senti as lágrimas molharem meu rosto. Levy veio até mim e me abraçou.
– É que eu não suporto te ver assim. – ela disse baixinho enquanto ainda chorava, fazendo com que meu choro aumentasse.
– Não chore Lucy. Você pode ficar uns dias na minha casa se quiser. – disse Juvia enquanto passava a mão em meus cabelos tentando me acalmar.
– Não precisa. – falei enquanto cessava meu abraço com Levy e enxugava minhas lágrimas. – Eu prometo que se ele voltar a ficar agressivo eu aviso vocês, ok? – tentei dar um sorriso.
– Tudo bem. – a azulada mais alta me deu um sorriso gentil.
– Agora vamos dar um jeito nessas nossas caras. Estamos patéticas! – falou Levy, tirando sorrisos de nós três.
Após mais alguns minutos no banheiro finalmente saímos e logo de cara ouvimos o sinal anunciando o início do primeiro horário. Por sorte nós três ficamos na mesma sala como em todos os outros anos. Seria uma tortura ficar longe delas.
O decorrer do dia passou voando. Como em todo o primeiro dia de aula que se preze não houve aula, apenas aquele blablablá de sempre com apresentações, conversas jogadas fora e até algumas dinâmicas constrangedoras. A pior dentre todas elas foi a do professor Macao, de matemática, a qual ele chamou de “quebra gelo”. Simplesmente tivemos que fazer uma roda e um por um irmos para o centro dela e dizermos nossos nomes seguidos de uma mímica ou gesto qualquer. Agora imaginem a minha cara ao ir para o centro, dizer meu nome em um som quase inaudível e simplesmente dar o sorriso mais escroto que já dei em toda a minha vida, sendo que todos tiveram que imitá-lo. É tão humilhante que pararei por aqui.
Me pergunto se essa ganha da dinâmica do Gato e Rato aplicada pelo professor Gildarts ano passado. Não, com certeza aquela foi pior.
Finalmente chegou o intervalo. Apenas mais dois horários e eu estaria livre. Pelo menos livre da escola, já que daqui irei para o meu trabalho de meio período. Sim, eu trabalho, mas isso pode ser explicado depois.
– Lu-chan? Está tudo bem? – pergunta Levy ao me ver distraída. Dou um suspiro.
– Ela deve estar lembrando da dinâmica. – diz Juvia, com um sorriso no rosto.
– Argh. Por que eu tenho que ser tão patética? – me jogo na mesa.
– Calma, não se desespere ainda. – diz a baixinha.
– Ainda? – pergunto.
– Sim. O último horário... – ela faz um suspense. – Será de educação física. – faz uma careta.
– Ótimo! Era tudo o que eu precisava.
– Lucy? – Juvia chama a minha atenção. – Não é querendo te trazer mais problemas, mas como você vai fazer para participar da aula? – olha para a minha blusa de manga comprida. O medo toma conta de mim.
– Eu não tinha pensado nisso.
– A Ultear não vai gostar que você se vista assim na aula dela. Ela adora aquele uniforme micro que nos obriga a usar. – diz Levy preocupada.
– Eu vou dar um jeito. – dou um sorriso amarelo.
O sinal toca anunciando o início do meu pesadelo. A temerosa aula de educação física da professora Ultear. Se eu disser que estou doente ela vai me liberar da aula não é mesmo? Pelo menos é o que eu espero.
Vou junto com as meninas até o vestiário para colocar um short e regata apropriados e pôr a blusa de manga longa por cima. Não que eu pretenda participar da aula, longe disso, mas se Ultear perceber que eu já cheguei tendo a certeza de que ela me liberaria será bem pior. Caminhamos juntas até a quadra e, para o meu azar, a aula seria mista com garotos e garotas, ao contrário dos outros anos.
Escolhi ficar na arquibancada encolhidinha para que ninguém me notasse enquanto todos os outros iam para perto da rede de vôlei, onde a professora se encontrava. Estava tudo ótimo, ninguém tinha notado a minha presença, como sempre, e eu já até me sentia um pouco aliviada por meu simples plano ter dado certo. Até que ela resolve abrir a boca. Sherry Blendy, se eu pudesse chamar alguém de arqui-inimiga com certeza seria ela.
– Professora, não sabia que podia ficar de fora. – ela fala zombeteira e aponta para mim, atraindo a atenção de todos, inclusive a de Ultear.
– Heartfilia, na quadra agora. – a morena fala seca.
– Mas... – tento falar, mas sou interrompida.
– E pode ficar de camisa longa? Nem sequer faz frio. – a rosada completa com um ar inocente. Juro que se pudesse pularia em seu pescoço. O desespero se apodera de mim.
– E tire essa camisa. – fala apontando para meu blusão branco.
– Ultear... – novamente sou interrompida.
– Agora Heartfilia.
– Por favor. – falo com os olhos cheios de lágrimas.
– Vou ter que lhe dar uma advertência? Ou prefere uma suspensão? – ela estava ficando ainda mais rígida.
– Mas...
– Agora! – olhei ao redor e vi que todos me fitavam com curiosidade. Juvia e Levy estavam quase chorando junto comigo. Elas sabiam como isso seria humilhante, mas pelo visto eu não tinha escolha. Olhando ainda mais pude notar a presença do garoto de cabelos rosa, como eu pude não ter notado sua presença antes?
Dando-me por vencida respiro pesadamente e, deixando que minhas lágrimas caíssem livremente, levanto minha camisa em um ato brusco mostrando a todos as marcas avermelhadas que continha em meu corpo.
– Satisfeita? – pergunto para Ultear, que agora me olha com espanto.
– Me desculpe. – a ouço falar baixinho antes de sair correndo daquele lugar.
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