Let Me Take Care Of You
3 Capítulo 02– Pena.
Notas iniciais

– Pena -
Enquanto rumo sem destino pelos corredores da escola só uma coisa me vem em mente. Pena. Foi o que eu consegui ver na maioria das faces ali presentes. Um dos sentimentos que eu mais repudio no mundo. Odeio que sintam pena de mim. Sempre odiei.
“Coitadinha, foi abandonada pela mãe.” ou “Pobrezinha, tem um pai alcoólatra”. Sinceramente, para mim a pena é o sentimento menos criativo que existe. Torna as pessoas que a sentem previsíveis.
Chego ao banheiro feminino, a meu ver o local mais seguro para mim no momento, entro em uma das cabines, tranco a porta e sento em cima do vaso sanitário fechado. Meus olhos fitam o chão e sinto uma vontade enorme de chorar, mas é como se algo me impedisse e eu dou graças a Deus por isso.
– Lucy? – escuto uma voz conhecida me chamando.
– Vá embora. – falo com uma voz fraca.
– Vamos lá, abre essa porta. – uma outra voz conhecida agora batia na porta da cabine onde me encontrava.
– Por favor. – a primeira voz insistiu.
Destranquei a porta e a dei um leve empurrão para que se abrisse. E lá estavam, Levy e Juvia, de pé na minha frente me olhando com feições preocupadas.
– Como você está? – perguntou Levy enquanto, por incrível que pareça, se agachava para ficar da minha altura.
– Com raiva. – falo sem a olhar nos olhos.
– Nós estamos aqui com você. – diz Juvia enquanto passa a mão pelo meu rosto, buscando me dar conforto.
– Com licença? – uma moça ruiva chega chamando nossa atenção. Já a olhei antes. Erza Scarlet é seu nome, porém todos a conhecem por Titânia devido ao seu temperamento.
– Sim? – pergunta Juvia.
– Não pude deixar de ver a cena na quadra. Lucy não é? – pergunta olhando para mim. Eu apenas confirmo com a cabeça. – Você está bem? – se aproxima ficando ao lado de minhas amigas.
– Sim, obrigada. – tentei ser convincente, em vão.
– Não se preocupe, ninguém falará nada sobre o que aconteceu hoje. – seu tom era confiante.
– Como pode ter certeza? – perguntou Levy, que agora estava ao lado de Juvia.
– Porque quem falar se verá comigo. – disse séria.
– Por que está fazendo isso? – perguntei confusa. – Quer dizer, você não precisava me defender e nem nada do tipo. Estudamos juntas há anos, mas nunca nos falamos. – ela se aproximou um pouco mais e se agachou ao meu lado como Levy tinha feito anteriormente.
– Porque eu sei como você está se sentindo. – ela tentou sorrir e minhas pupilas dilataram. Ela sabia? – Meu pai morreu quando eu tinha quatro anos e depois disso minha mãe resolveu se casar de novo. No início Riki era um homem muito bom comigo e eu o considerava um segundo pai. – ela sorriu, provavelmente ao lembrar-se de algo. – Mas então minha mãe adoeceu e ele era quem cuidava de mim. – ela apertou o braço esquerdo com força, e quando finalmente soltou pude notar que havia uma cicatriz ali, uma espécie de corte. – Bem, a partir daí você pode imaginar o resto. – sorriu fraco.
Não sei quando, mas as lágrimas começaram a escorrer por minha face e, sem nem saber se havia consentimento, abracei Erza com força sem me importar com a dor física que isso me causaria. Demorou um pouco, mas ela acabou me abraçando de volta.
– Eu sinto muito. – falei enquanto ainda a abraçava.
– Não sinta. Eu superei. – nos afastamos e ela fitou as marcas em meu corpo. – Foi seu pai não foi? – passou o dedo delicadamente por uma, fazendo com que minha respiração se tornasse pesada.
Olhei para as minhas amigas e vi que as duas tinham lágrimas nos olhos, mas nenhum sinal dizendo que eu não poderia confiar na ruiva. Eu mesma não via nenhum motivo para não confiar nela. Uma pessoa que abre o coração desse jeito para uma quase desconhecida só para mostrar que sabe o que ela está passando merece crédito não é mesmo?
– Sim – ela pareceu ficar com raiva. –, mas ele é doente. Quando bebe é como se virasse outra pessoa. Entende? – ela assentiu.
– Já pensou em sair de casa? – ela perguntou.
– E deixá-lo sozinho? – neguei com a cabeça. – Quando sóbrio meu pai é um ótimo homem. – sorri afastando o choro.
– Nossa. Isso é muito admirável, Lucy. – ela sorri para mim.
– Lu-chan? – Levy chama minha atenção. – Nós não podemos passar o resto do dia no banheiro. – ela sorriu sem graça.
– Você tem razão. – enxuguei o restante de lágrimas que ainda havia em meu rosto. – Eu nunca tive medo dessa gente e não é hoje que vou começar a ter. – levantei do lugar onde estava e vesti minha blusa de manga longa. Quem não teve a oportunidade de ver meu estado não terá mais afinal o show acabou.
Quando saímos do banheiro vi que o tempo tinha corrido e já era hora de ir embora. Muitos alunos circulavam pelos corredores em direção à saída.
– Eu tenho que ir até a sala do diretor. Lucy, você vai ficar bem? – perguntou Erza enquanto olhava em minha direção.
– Sim. Obrigada novamente. – sorri.
– Tudo bem. Se alguém mexer com você é só falar comigo. Até mais. – ela piscou um olho e se retirou apressadamente.
Juvia e Levy eram voluntárias na biblioteca depois da aula e tiveram que sair também. Eu estava andando pelos corredores que continuavam repletos de gente, ansiando por finalmente poder ver o Sol e sair daquele lugar quando ouvi a voz de quem eu mais desprezava nesse momento.
– Ora, ora, ora. Se não é a Lucy Esquisitona...
– Depois Sherry, por favor. – falei sem a olhar nos olhos e seguindo o meu caminho.
– Espera! Você tem certeza que não quer mostrar pra a gente as suas novas tatuagens? Não as vi direito lá na quadra e algo me diz que elas foram feitas com um cinto. – falou zombeteira enquanto um grupinho atrás de si ria.
A rosada tinha uma expressão de superioridade em seu rosto e sorria maliciosamente para mim, como se estivesse se divertindo às minhas custas, o que realmente estava acontecendo.
– Eu não sei do que você está falando. – falei enquanto ela parava na minha frente.
– Das belas marcas que você tem em seu corpo. Do que mais seria? – fiquei sem reação. – O que será que você fez para merecê-las? – ela parecia pensativa e isso me fez entrar em uma espécie de transe.
O que eu fiz para merecê-las? Absolutamente nada. Eu mereço ter um pai bipolar que não sabe controlar a raiva e que bebe para esquecer os problemas? Provavelmente não. É como dizem, a vida não é justa.
– Não é da sua conta. – falei fria ao despertar de meu devaneio, que ao contrário do que eu imaginava, deve ter durado míseros segundos.
– Você com essa carinha de santa... Deve ter feito algo muito grave para ser tratada desse jeito. – sinceramente não sei por que eu continuava ali parada ouvindo asneiras e, pior ainda, por que essa rosada antipática se interessa.
– Com licença. – falei seca enquanto me afastava.
– Eu ainda vou descobrir o que você fez! – ouvi sua voz enjoada enquanto me distanciava.
– Então no dia que você descobrir, me conta. – falei mais para mim mesma do que para qualquer outra pessoa.
Minha rotina é basicamente a mesma quase todos os dias. De casa para escola, da escola para o trabalho e do trabalho para casa, a não ser aos finais de semana. Não que eu me importe muito com isso já que não gosto muito de sair. Prefiro ficar em casa lendo um bom livro ou simplesmente conversando com minhas amigas.
E por falar em livro, eu trabalho em uma livraria que fica aqui perto, no shopping da cidade, que é o único, por sinal. A loja não é muito grande, mas é bem abastecida e muito aconchegante. Além de ter sua própria lanchonete, o que a deixa com um clima bem casual. Nela trabalham apenas eu na parte da venda dos livros, Mira – uma albina muito simpática – na lanchonete, e Loki – um ruivo galanteador – que é o gerente.
Depois de andar um pouco e adentrar o shopping chego ao meu destino. A livraria Cook & Book. O lugar que para mim é uma espécie de santuário onde eu fico rodeada por aquilo que eu mais amo, livros.
– Olá Lucy. – falou Mira, que estava atrás do balcão, ao me ver.
– Oi Mira.
– De camisa longa no verão? – ela fez uma careta.
– Eu estou com uma alergia estranha na pele e preferi cobrir. – dei uma desculpa melhor dessa vez, pelo menos eu acho.
– Eu posso dar uma olhada se você quiser. Conheço umas pomadinhas ótimas. – falou sorridente.
– Não precisa, já estou medicada. Obrigada. – sorri de volta. Lógico que aqui ninguém sabe sobre o que eu passo em casa. Juvia, Levy, e agora Erza, já são o bastante.
– Tudo bem. – ela falou enquanto enxugava um copo.
– Boa tarde Loki. – falei ao vê-lo no caixa.
– Boa tarde Lucy. – ele sorriu. – Algum problema? – perguntou fitando minha blusa longa. Como sempre ela me dando problemas...
– Nenhum, é apenas uma alergia que eu quero esconder. – sorri sem graça. – Eu poderia ficar com ela hoje? A coloco por debaixo do uniforme. – o olhei de uma forma pedinte.
– Tudo bem, mas só porque é para você. – piscou para mim e sorriu.
– Obrigada. – sorri enquanto corava.
Loki é desse jeito com todo mundo, mas infelizmente antes de saber disso cheguei a ter uma quedinha por ele. Tudo bem, estava mais para um salto de paraquedas, eu realmente gostada dele, mas vê-lo com uma garota diferente a cada dia fez com que essa minha paixonite fosse curada, mesmo que de forma dolorosa, graças a Deus.
Passando pelo balcão chego até o quartinho onde nós, empregados, guardamos nossas coisas e trocamos de roupa. Pego meu uniforme dentro de um dos armários e o coloco por cima de minha blusa branca. Para minha sorte o uniforme era apenas uma blusa polo preta com detalhes, inclusive o nome da livraria, na cor branca e uma calça jeans escura. Nada demais.
Após trocar de roupa como rapidamente um sanduíche simples de peito de peru que trouxe de casa, ou seja, o meu almoço, e vou para o local onde eu passo a maior parte do tempo quando estou por aqui, mas não há clientes na loja, atrás do balcão, e pego um dos livros que ficam na parte exposição da loja que eu havia separado, Orgulho e Preconceito. Não que eu não o tenha lido antes, na verdade já li e reli diversas vezes, mas simplesmente não consigo me cansar.
Existe coisa melhor do que trabalhar com aquilo que gosta? Certamente não.
– Lucy? Tem cliente na loja. – diz Loki, baixando um pouco seus óculos, me tirando de meus devaneios.
Olho ao redor e não vejo ninguém. Provavelmente ele ouviu o som do sininho que fica na porta. Eu também teria ouvido se não estivesse tão concentrada no livro. Dou um sorriso sem graça, coloco o livro debaixo do balcão e vou em direção ao suposto cliente. Só espero que ele compre alguma coisa. Estou precisando da comissão.
Fui caminhando passando pelas seções da loja. A parte de livros autoajuda, da área de Direito, comédia, romance... E nada de achar alguém. Talvez o Loki tenha se confundido, penso comigo mesma. Quando já estava desistindo passo pela seção de livros infantis e encontro um rapaz que eu acredito já ter visto em algum lugar.
Ele parecia envolvido em uma discussão interna enquanto segurava em suas mãos dois livros, Um Homem no Sótão e A Bruxa Salomé.
Aproximo-me lentamente e, com um sorriso no rosto como me foi ensinado, me coloco a seu dispor.
– Com licença, precisa de ajuda?
– Seria ótimo. – ele para de fitar os livros e me olha nos olhos com um belo sorriso no rosto, fazendo com que eu tenha que me lembrar de respirar.
– Está na dúvida? – aponto para os livros.
– Sim. – passa a mão por trás da nuca.
– São pra você? – pergunto meio incerta. Ele lê livros infantis?
– Não, não. – ele fala rindo. Provavelmente achando graça do meu possível pensamento. – São para a minha irmã.
– E quantos anos ela tem? – ele fica apenas me olhando sem responder nada e me fazendo corar. – E então? – pergunto sem graça.
– Então o que? – parece que ele não ouviu nada do que eu falei.
– Quantos anos a sua irmã tem?
– Seis. – sorri orgulhoso.
– E você escolheu esses dois? – faço uma careta enquanto encaro os livros.
– Por que? Você acha que ela não vai gostar? – ele parecia incrédulo. Sinceramente...
Olho ao redor e vejo que Loki está muito entretido no celular.
– Posso te falar a verdade? – falei baixinho.
– Claro. – confirmou com a cabeça.
– Meu gerente iria preferir que você levasse esses aqui por causa do preço – peguei os livros de sua mão. –, mas eu não acho que sua irmã vá gostar. – os coloquei de volta nas prateleiras em que estavam, peguei outro em uma mais em baixo e o entreguei.
– Contos de Grimm? – perguntou confuso.
– São várias historinhas como a da Branca de Neve. Tenho certeza de que ela vai amar. – sorri gentilmente. – Pelo menos bem mais dos que você tinha escolhido por si só. – agora sorri sem graça.
– Por que está fazendo isso? – perguntou com um sorriso no rosto.
– Porque eu trabalho aqui?
– Não... Se você me vendesse os outros dois sua comissão seria maior... – bingo! Nem eu mesma sabia por que estava fazendo isso.
– Digamos que eu fui com a sua cara. – sorri e ele fez o mesmo.
– Natsu. – estendeu a mão para mim.
– Lucy. – eu a apertei.
– Lucy? Sabia que conhecia você de algum lugar. – ele falou.
– Como disse?
– Você... É a garota da quadra. – meu sorriso morreu. Como eu pude ter sido tão idiota? Ele é o garoto que eu vi no colégio. Como posso ter esquecido justo do garoto com o cabelo rosa?
– Acho que você me confundiu com outra pessoa. – tentei sorrir.
– Não, era você. – ele me olhava daquele jeito que eu mais repudiava. Com pena...
– Pode me acompanhar até o balcão para finalizarmos sua compra? – perguntei profissional e educadamente e me virei indo para o balcão.
Ele me seguiu em silêncio. Acho que notou o clima que se instalou após constatar a verdade de que eu era a garota com marcas no corpo em plena quadra de esportes. A provável atração da escola por um bom tempo.
Depois de guiar Natsu até o caixa, onde Loki estava, agradeci sua compra e voltei para o meu lugar no balcão, com a feição séria e impenetrável. Será possível que até aqui esse incidente vai me assombrar?
Vi o rosado ir embora e suspirei aliviada. Ele podia até ser uma boa pessoa, mas alguns fatos me faziam querer ficar longe dele.
Primeiro, o olhar que ele me lançou demonstrando que tinha pena de mim.
Segundo, nunca lidei muito bem com homens bonitos, o que com certeza é seu caso.
E terceiro, a cor de seu cabelo. Só há uma pessoa que eu conheço que tem aquela tonalidade de cabelo, Sherry Blendy. Seria muito se eles fossem parentes?
Espanto esse pensamento ao ver mais um cliente entrar na loja. Visto meu sorriso de atendente simpática e educada e vou à luta. Por sorte dessa vez era apenas uma mulher de seus vinte e poucos anos procurando um bom livro de culinária. Chega de encontros explosivos por hoje.
O dia no trabalho passou se arrastando como nunca tinha acontecido antes, afinal aqui costumava ser meu refúgio. Despeço-me de Mira e Loki, que normalmente fecha a loja, e vou para casa.
A vantagem de morar em uma cidade pequena é que todos os lugares são próximos. E se não forem pelo menos as pessoas na rua são conhecidas, mesmo que você não saiba o nome delas já as viu em algum lugar, sem falar que o índice de criminalidade, pelo menos em Magnólia, é bem pequeno.
Ao chegar em casa vejo que meu pai ainda não está por aqui. Faço uma macarronada simples, ponho a mesa e, após jantar, vou para o meu quarto. Tomo meu precioso e ansiado banho, ponho meu pijama e desabo na cama.
– Agora é rezar para que um milagre aconteça e o dia de amanhã seja melhor do que o de hoje. – falo para mim mesma e depois acabo pegando no sono.
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