Let Me Love You
2 Cap. 1 - Strange Boy
Notas iniciais
O som era alto, mas não era irritante. As músicas eram luxuriosas e o cheiro de sexo, drogas, bebida e perfume pairavam no ar, dando o perfeito clima ao local, alguns homens se moviam de forma sensual sobre mesas e palcos improvisados, haviam outros vestidos de forma provocativa como garçons e serviam as mesas, os clientes riam, bebiam e fumavam.
Himuro dançava em uma das mesas, atraindo o olhar de muitos homens, era um dos prostitutos mais caros da casa, junto a Andrej e mais três homens. O show principal estava sendo apresentado no palco e os homens mais próximos riam e se divertiam, ao que parecia era a despedida de solteiro de um dos homens. O moreno apenas deixou-se dançar, movendo seu corpo daquela forma sensual a qual aprendera com Andrej, mostrando e realçando mais suas curvas, sorrindo maliciosamente e mordendo os lábios, mas sempre que alguém tentava tocá-lo, saía de perto mais um passo daquela dança erótica.
Olhou para os homens a sua frente e o viu. Tentou ao máximo não olhá-lo muito, ele estava atrasado ou Himuro que o esperara demais?
Havia um cliente estranho. Há mais ou menos dois meses um garoto começara a aparecer na casa, ele possuía cabelos lilás, assim como os olhos, era alto, devia ter mais de dois metros, forte e muito bonito, mas parecia ser um recém saído do colegial, estava sempre comendo algum doce ou salgadinho, o que era realmente estranho, nunca bebia nada alcoólico. Ele era o cliente número um de Himuro. Aliás, desde que chegara, Himuro não fazia sexo.
Esqueceu os pensamentos sobre o homem e voltou a dançar com o mesmo empenho de antes, sendo observado por aqueles olhos frios, mas brilhantes, sentia arrepios a cada vez que o encarava e o via morder um pedaço daquele doce, vendo-o analisar seu corpo com tanto desejo, morder os lábios em certos momentos e sorrir de canto muitas vezes. Himuro já perdera a conta de quantas vezes se perguntara: "Se ele me olha assim, por que nunca quer nada comigo?".
Não demorou muito e o cliente chamou um dos garçons, Himuro viu seus lábios se moverem enquanto ainda observava o rebolado lento do moreno, "quero a noite toda com ele, o mesmo quarto, por favor e me levem aquele sorvete de creme que eu gosto. Obrigado", a mesma frase de todas as noites desde que chegara. Ele pagava a noite toda com Himuro e ficavam acordados sem trocar sequer uma palavra, às vezes Himuro até tentava, mas ele era tão silencioso que acabava dormindo e acordava no dia seguinte na cama sozinho.
– Himuro, o mesmo quarto. — falou Patrick, um de seus colegas, com um sorrisinho amigo. Ele muitas vezes dissera invejar Himuro, achava aquele cliente realmente lindo e atraente. Himuro jamais comentara o que realmente acontecia dentro dos quartos e não seria diferente com aquele cliente... se é que podia chamá-lo assim.
– Ahn, ok. — Saiu do palco, escutando algumas lamentações e apenas riu para os homens, seguindo o cliente que o chamara, que estava recebendo olhares frios, era sempre assim. E ninguém tinha coragem de chamar Himuro antes dele por medo de apanharem, aquele homem era um tanto assustador irritado, haviam visto quando Himuro se atrasara um pouco.
Suspirou, nem ao menos sabia o nome daquele cara e já haviam dois meses que ele pagava caro apenas para ficar sozinho num quarto em silêncio consigo. Era estranho demais. Seguiu-o perdido em seus pensamentos, entraram no elevador e Himuro arriscou olhar para o homem, estava comendo salgadinho com aquela mesma expressão de tédio que possuía quando estavam indo para o quarto. Ia falar algo, qualquer coisa, mas sabia que seria ignorado, então desistiu.
O homem abriu a porta e Himuro entrou, indo sentar na cama enquanto o maior caminhava para o sofá e ligava a televisão, o moreno caminhou para o banheiro a fim de tirar a maquiagem, depois de um tempo começaram a fingir que o outro não existia e Himuro apenas tirava a maquiagem, vestia algo mais leve dos armários do quarto, como um roupão, ou uma calça branca leve e uma camisa larga e se deitava, algumas vezes comia algo que o outro lhe oferecia, e ficavam assistindo televisão.
Aquele quarto era o de Himuro, quase que exclusivamente feito para ele. Sempre atendera seus clientes ali, pois Madame Edwin falava que era o melhor quarto quando o homem era Himuro, após a chegada daquele homem de cabelos lilás, Himuro dormia todas as noites ali, então começara a trazer algumas coisas suas, apenas a Madame sabia da situação, mas não tinha nada contra desde que o homem pagasse para estar com Himuro.
Logo o sorvete do cliente chegou e Himuro foi pegar, era sempre Patrick que trazia, apenas para poder ver o maior, que sempre estava deitado no sofá assistindo televisão, o único comentário que Himuro fizera sobre isso era que ele gostava do programa, então assistia antes de qualquer coisa. Mas a verdade era que o cara devia virar a noite assistindo televisão ou acordava muito antes do moreno.
Himuro sorriu para Patrick e fechou a porta, indo até o maior e lhe entregando o sorvete em silêncio, recebendo um leve sorriso como resposta e um jogar de cabeça, que indicava que poderia pegar algo dentro da sacola cheia de doces e salgados. Himuro espiou a sacola e pegou um salgadinho, correndo para a cama e cobrindo-se para assistir televisão também, mas notou o outro o encarando enquanto comia o salgadinho.
– Gosto desse salgadinho. — comentou o cliente e Himuro quase engasgou, ele estava falando! Tinha uma voz grossa e potente, lembrava um pouco Kagami, não a voz, mas como era o tipo de entonação a qual qualquer um responderia.
– É o meu favorito. — Himuro balançou a cabeça, comendo mais uma batatinha. — Não que eu seja um fã de doces e salgados como você, mas esse é realmente bom.
– Sim, muito bom. — concordou enchendo a colher de sorvete e colocando na boca. Normalmente aquele sorvete era usado em bebidas, mas a Madame providenciava tudo naquela casa, até porque as pessoas sempre tinham de comer antes de ir até lá, então decidiu que também haveria comida ali, então havia lanches e petiscos para os clientes, o que trouxera ainda mais lucro à casa. — Amo o sorvete daqui.
– Sim, é ótimo. — o moreno concordou sem tirar os olhos do homem. O que será que acontecera para estar falando tanto? — P-posso te perguntar... uma coisa?
– Perguntar até pode, esperar uma resposta é diferente. — falou lentamente, trocando o canal.
– Ahn... por que sempre me trás aqui e não faz nada?
– Porque não quero. — o maior deu de ombros.
– Mas... se não quer, por que me olha daquela forma quando me vê dançar e paga tão caro para ficar aqui assistindo televisão e tomando esse sorvete? É assim todas as noites. — O maior suspirou e sentou, deixando o sorvete de lado e encarando o moreno diretamente nos olhos, que sentiu o corpo estremecer.
– Sabe, hoje eu venci o jogo que, provavelmente, me dará uma vaga na faculdade, estou realmente feliz. — Himuro o encarou confuso. — Tenho só 18 anos, se é por isso que fez essa cara... meu RG era falso nesses últimos dois meses, fiz 18 ontem, essa é uma das vantagens de ser tão alto, ninguém desconfiaria.
– Ah, ahn... parabéns atrasado. — sorriu o moreno, não falaria mais nada, já que ele estava finalmente falando algo.
– Obrigado... — o maior levantou e sentou na cama, ao lado do moreno. — Eu gosto de ficar aqui com você. — o coração de Himuro acelerou e não entendeu o porquê, na verdade, tudo aquilo era confuso e estranho demais. — Quando eu cheguei aqui pela primeira vez até paguei para fazer sexo com um dos garotos, aquele Andrej... não que eu precisasse, sabe, mas estava cansado de todos que conhecia e achei que seria divertido fazer novas experiências, mas quando estava indo embora, te vi dançando.
Himuro o viu rir baixo e pegar um salgadinho do saco que segurava, voltou a encará-lo, que ainda sorria divertido.
– E...?
– Bem... eu te achei realmente bonito, eu queria ter você. — O maior suspirou. — então eu vinha te ver todas as noites e bebia, ia para casa e ficava pensando em você, mas... mas eu não... não queria te usar como todos aqueles caras te usavam e comecei a ficar com raiva deles te escolhendo a dedo e te levando pra cama. Então comecei a te chamar antes deles, na primeira noite foi difícil não fazer nada... mas eu...
O maior ficou em silêncio novamente e passou as mãos pela face, levantando e caminhando para o sofá novamente, pegou seu sorvete e voltou a assistir a televisão, deixando o moreno completamente confuso, mas ainda sem fazer absolutamente nada.
– Eu não queria ser só mais um cara com quem se deitaria. Então decidi te deixar descansar um pouco dessa vida, como eu trabalho e ganho mesada, consegui ter o suficiente para pagar todas as noites do mês com você e comprar meus doces tranquilamente... — o garoto o encarou e sorriu fraco. — Eu amo você.
– Hein?! — Himuro arregalou os olhos ficando petrificado.
– Eu amo você. — repetiu o maior sem mudar a expressão.
– Que tipo de piada é essa? — Himuro deixou a cabeça cair para o lado e se mexeu na cama, apertando a barra da camisa, rindo um tanto nervoso.
– Eu não estou fazendo piada. — o maior suspirou e fechou os olhos. — Eu realmente amo você.
– O-olha... acho q-que... is-isso não é possí-vel, sabe... — Himuro se levantou e começou a caminhar pelo quarto, rindo nervoso. — Somos de mundos dif-ferentes e... e eu... nem sei seu nome, você nem... deve saber nada de mim. Você não me conhece. Não pode me amar, garoto. — Riu, mas parou em seguida quando viu a expressão triste do maior. — Olha, não quero te magoar, mas amar é uma palavra forte demais... você deve me achar bonito, só isso.
– Não, Muro-chin, eu sei o que eu sinto. — Muro-chin?, mais uma vez Himuro fez aquela expressão confusa, a qual o maior já começara a gostar, achava fofa — É minha forma de chamar as pessoas que respeito ou gosto. É de família. — o maior suspirou, desligando a televisão. — Não estou enganado sobre o que eu sinto, sei quem você é... eu só...
– Cara, eu sou um prostituto. Tem noção do que está falando e fazendo? — Himuro passou as mãos pelos fios negros e lisos, começava a ficar desesperado com aquela situação estranha. — Tenho 21 anos de idade e estou aqui, você tem 18 e acabou de passar em uma faculdade, esse lance entre nós é impossível.
– Eu não estou te pedindo para gostar de mim ou ter algo comigo. — O maior se levantou. — Por isso nunca fiz nada, não quero te usar, porque eu gosto de você de verdade, não quero que esteja comigo por causa de sua profissão, entende? E meu nome é Murasakibara, Murasakibara Atsushi.
– Ah, ok, Murasakibara, olha...
– Muro-chin, você quer fazer faculdade ainda, não quer? — Himuro arregalou os olhos e caiu sentado na cama.
– C-como sabe? — questionou atônito, o maior apenas sorriu e beijou sua bochecha.
– Sei mais sobre você do que imagina... — Murasakibara suspirou. — Tenho uma proposta.
– Ahn?
– Eu pago todas as noites para você aqui se fizer a prova da faculdade e começar a estudar novamente. E, se quiser, posso te ajudar com os estudos... posso conversar com a Madame Edwin, ela aceitaria deixar você morar aqui, de forma que poderia tranquilamente vender sua casa, ou alugá-la. Estudaria de dia e viria aqui a noite, se apresentaria como sempre, para pelo menos isso a Madame poder dizer que está fazendo e aqui posso te ajudar a estudar.
– Mu-Murasakibara, pare de brincadeiras! — Himuro se levantou, irritado. Que tipo de gracinha era aquela?
– Não estou brincando, Muro-chin. — o maior segurou sua mão e sorriu. — Por favor, me deixa te ajudar. — Himuro abaixou a cabeça. O que estava acontecendo ali? Claro que jamais daria certo. Ele só podia estar louco. Só podia ser isso.
– Isso é loucura. — murmurou.
– Não, não é. — Murasakibara se levantou e o abraçou forte, fazendo com que seu rosto ficasse escondido em seu peito, era a primeira vez que ficavam tão próximos por uma atitude do maior. — Pense no assunto, amanhã venho atrás da resposta, ok? — Himuro o encarou rápido, ainda preso naquele abraço quente.
– N-não... iss-
Mas foi calado com um leve selo, os lábios de Murasakibara encostaram os seus de forma leve e delicada, eram tão macios, mas foi tudo que pôde sentir, pois tão rápido quanto vieram, os lábios dele se foram.
– Apenas pense, Muro-chin... — sorriu fraco e alisou o cabelo do moreno. — Vou tomar um banho... e, pense em outra coisa que vou te dizer... — Himuro olhou em seus olhos, sentindo-o desfazer o abraço. — Não vou te magoar como aquele Kagami Taiga.
Himuro sentiu-se perder as forças nas pernas e sentou novamente na cama, surpreso demais para emitir qualquer som enquanto via o maior entrar no banheiro. O que faria? Como ele sabia? Quem era aquele garoto? Que brincadeira de mau gosto era aquela?
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