Let It Burn
24 Óbvio?
Notas iniciais
Boa leitura.
POV Ayme.
Já se passaram uns dez ou quinze minutos desde que eu despertara e meus olhos já estavam um pouco mais acostumada com a penumbra do local. Analisando o ambiente, pude comprovar o que havia pensado antes — a teoria do pequeno espaço — mas fui surpreendida ao perceber que uma das “paredes”, na verdade, era um espesso vidro fumê, espesso o suficiente para que toda imagem, vinda do outro lado, chegava aos meus olhos borrada demais para que eu pudesse distinguir o que havia lá. Tudo que ele me permitia ver era uma fraca luz, apoiada em um provável criado mudo, bem em frente ao lugar onde eu estava.
Forcei levemente os músculos do abdômen para levantar, mas parei ao ouvir passos vindos de fora. O pânico de estar em um lugar desconhecido multiplicou-se infinitamente ao saber que não estava sozinha. Meus olhos arregalaram-se e meus músculos passaram a se retrair aos poucos, causando tremores ao decorrer de meu corpo.
Apesar da penumbra e do medo, meus olhos lutaram contra a minha própria noção de perigo e se arriscaram á correr até o vidro. A figura do outro lado estava distorcida, mas aquilo que eu via era o suficiente para que eu tivesse certeza de quem era. O grande homem vestia um provável palito que eu conhecia muito bem. James Owen estava ali.
Então um sussurro passou por entre o vidro. A voz era baixa e distorcida devido á grande dificuldade de atravessar por entre o vidro grosso, mas, claramente, era mais grave que a de James.
Haveria mais de uma pessoa ali? Alguém, em sã consciência, estaria o ajudando?
Todo o medo que sentia transformou-se em dúvida e raiva e não me limitei á ficar deitada no fétido chão onde estava. Contraí todos os músculos dos membros inferiores e levantei, cambaleando. Ignorando a latente dor que emanava do alto de minha cabeça, andei até o vidro e bati contra ele com as mãos, gritando.
— Parece que, finalmente, nossa princesa acordou. – Disse ele enquanto entrava no cômodo por uma porta lateral, escondida na penumbra, trancando-a em seguida. O tom de sua voz era cético e um tanto quanto sarcástico. Um sorriso nascia em seus lábios com o mesmo espírito.
— Você, seu verme desgraçado! O que tem na cabeça, seu doente? – Indaguei.
— Ayme, querida, já me destes apelidos mais carinhosos! Que tal... Jimmy? É mais conveniente! Adoro quando me chamam assim. – Ele riu – Além do mais, vamos passar tempo juntos o suficiente para que tenhamos tal intimidade.
— Eu não vou passar tempo nenhum com você! Eu quero ir embora! Seu filho da mãe, abra logo aquela porta e me deixe ir!
Ele caminhou até mim em passos largos e segurou fortemente em meus braços. Encarou meus olhos e, logo depois, sua mão se chocou contra a minha face, deixando nela a marca de seus dedos e uma vermelhidão ardente. Levei a mão até meu rosto e algumas lágrimas brotaram de meus olhos, tanto de medo quanto de dor, vergonha, raiva.
— ME RESPEITA! Á cada coisa feia que fizer, receberá um castigo mais intenso que o antecessor. Assim gradativamente. Por isso, é bom começar á cuidar no que diz e como age. -Ele abaixou um pouco e passou sua língua pelo meu rosto, limpando com a língua a lágrima que escorria sobre a minha bochecha. Pareceu se deliciar com o gosto salgado dela. – Seu sofrimento é tão delicioso, tão intenso... Admita, Ayme, fui eu quem sempre tive controle sobre você!
A mão dele que ainda estava em meu braço apertou ainda mais e uma careta de dor formou-se em meu rosto. Eu sabia que ele estava se divertindo com aquilo, mas a dor era forte demais para que eu tentasse me reprimir.
— Verme! – Gritei contra sua face, que me encarava.
— Desde sempre, não é? Desde que você me viu saindo daquele quarto de hotel com você nos braços, quando o seu amado lhe estuprou e quase lhe esfaqueou. Desde que eu estive dentro de você e tive-a por inteira. Você sempre foi minha!
Naquele momento, foi como se uma enxurrada de lembranças tivesse atingido minha mente. Apesar de absurdo, talvez tivesse realmente um fundo de verdade em suas palavras. Eu sempre o venerei como a pessoa mais inteligente e amável que eu já havia conhecido e, ao contrário de quase todos que passaram em minha vida, eu realmente tinha ficado mal em saber que a noite não se repetiria. As palavras dele no tal bilhete que encontrei naquela manhã, no hotel, arderam em minha mente e meus olhos queimaram, mas eu as impedi de cair.
A verdade era que minha “vingança” não fora focada em Matt, e sim em Jimmy. Talvez seja um pouco confuso aos olhos estranhos. Matt sempre esteve ao meu lado e, quando ele me traiu de tal forma, debulhou-me. Mas quem havia cuidado de mim quando isso aconteceu fora Jimmy. Ele soube a exata hora de se aproximar de mim. A garota de coração partido, frágil e magoada, que não tinha ninguém em quem confiar... Ele foi meu ombro, meu sustento quando nada mais me prendia á esse mundo. Ele era o filho da puta com o qual eu tinha uma dívida sentimental particular. Era o filho da puta que me tinha nas mãos.
E era horrível admitir isso.
A raiva de meu próprio ser era clara aos olhos de quem me olhasse. Minha cabeça pendeu para baixo involuntariamente. Ele riu.
— Eu sempre soube! – O sorriso em seus lábios enojava-me.
— Vai se foder!
Outro tapa assolou-me o rosto novamente. Mais forte, mais intenso. Carregado com ainda mais raiva que da primeira vez.
— Vai se arrepender de tê-lo dito!
Segurou-me pelos braços novamente e empurrou-me, fazendo-me cair com as costas de encontro ao chão. Minha boca emitiu um muxoxo de dor ao entrar em contato com o concreto, sentindo meus braços esfregarem sobre o áspero chão, queimando. James olhou para mim e seus olhos estavam intensos, as mãos fechadas em punhos pela raiva. Marchou para o canto da sala, abrindo a porta e se dissipando na escuridão. O trinco da porta estralou, fechando-se novamente.
E, mais uma vez, a única coisa que me fez companhia na gélida sala foi o silêncio.
Agora que ele se ausentou, meus olhos cederam. As lágrimas escorriam pela minha face enquanto eu abraçava meus joelhos, colocando a cabeça entre eles. O vestido rosa que vestira para ir até o restaurante com o meu namorado, agora estava manchado de um vermelho intenso, sangue que eu deduzi ter vindo de um ferimento superior. Meu cabelo desgrenhado, meu sapato jogado no canto do cômodo com um salto quebrado. Mas nada superava a raiva que eu sentia de mim, a raiva de não ter tido pulso suficiente para enfrentá-lo.
Por que eu tinha feito aquilo? Por que tais olhos azuis mexiam tanto comigo e me deixavam incapacitada de fazer qualquer mal á ele? Eu amava á Brian, não era verdade? Então, por que eu estava pensando daquela forma?
POV Brian.
Uma porcentagem de mim sentia tanto medo de perdê-la, outra apenas dizia á mim que fosse até lá, que ela estava lá. Acelerando meu carro por entre os sofisticados carros franceses, meu pensamento dissipava-se no rosto maravilhoso de Ayme, nas orbes claras como as cristalinas águas caribenhas. O prédio onde ficava nosso apartamento não era tão longe de onde eu estava, mas cada segundo parecia se prolongar ao máximo.
Sabe aquela coisa de “tudo que puder dar errado, vai dar errado”? Então. Era como se a Lei de Murphy finalmente tivesse feito sentido e entrado em vigor na realidade. Semáforos fechados, veículos quebrados...
Depois de alguns minutos de imprudência e buscando qualquer tipo de ultrapassagem, cheguei ao prédio e logo vi meu pai parado impacientemente ao lado do pilar da garagem. Ao avistar meu carro, andou apressadamente e entrou no carro, sentando ao meu lado.
— Para que lado é?
— Oeste. Siga pela avenida e eu vou te passando as coordenadas.
“GPS pra quê, né” – Pensei, mas minha mente estava preocupada demais para fazer esse tipo de piadinhas. Liguei o carro e arranquei na direção oeste.
— Não dá pra ir um pouquinho mais rápido não, Junior? – Disse-me.
Levei alguns segundos até perceber a ironia em sua frase.
— Você frearia? – Rebati.
Papa apenas assentiu e não falou nada antes de chegarmos na metade da avenida. Avisou-me que deveria dobrar á esquerda e seguir em frente até chegar na tal igreja.
Perdido em devaneios, tive de ser alertado por meu pai que já havíamos passado do lugar que ele me indicara para parar. Estacionei na lateral e, dali, tínhamos uma vista periférica de boa parte da região, que era cercada por árvores e pouco movimentada. Entre as três casas construídas, pude reconhecer a que procurávamos, apesar das poucas características que eu conhecia sobre ela.
Apontei para a casa, que ficava no ponto mais extremo entre as três:
— Aquela?
Papa assentiu novamente e desceu do carro, assim como eu. Levantou levemente sua camisa e retirou do cós da calça dois revólveres, dando um á mim.
— Toma. Estão carregados o suficiente para enfrentar o que estiver lá dentro.
— Obrigada. – Tomei o revólver e acionei-o, deixando-o pronto para atirar.
Comecei a andar até o meu destino, mas a voz de Haner cortou o silêncio, me fazendo parar:
— Filho... Tem mais uma coisa que eu preciso te falar.
Girei meu corpo e encarei-o parado ainda ao lado do veículo.
— Eu sou um velho homem, não tenho mais a rapidez e a habilidade que tinha á 30 anos atrás. Você sabe como dominar uma situação como essa melhor que ninguém. Desde pequeno, você sempre teve minhas instruções e, apesar de serem passadas á você de forma infantil, elas já eram preparatórias. Estou indo ao seu lado como apoio e assistência, mas você deve ter a consciência de que, hoje, a responsabilidade está com você.
Eu queria conseguir formular uma boa resposta, mas sabia que não era isso que ele queria naquele momento. Apenas abaixei os olhos e esperei que ele viesse até meu lado. Dei duas batidas no ombro dele e continuei a caminhar.
Ao chegar na casa, nada mais que um grande silêncio ali habitava. Havia alguns móveis abandonados que estavam fortemente empoeirados, muitas teias de aranha pendiam dos objetos. Visivelmente, há muito tempo ninguém estivera ali.
Exceto por uma coisa. Um papel colocado sobre a mesa escura e rústica, um bilhete branco demais para estar ali á tanto tempo quanto os móveis.
Era como sentir todo o seu sangue simplesmente estagnando dentro de minhas veias, como se a minha pulsação parasse. O bilhete em minhas mãos quebrava todos os planos e expectativas que eu tinha e a caligrafia entregava a pessoa que lhe escreveu. James sabia que estávamos ali, sabia que eu estava atrás de Ayme. E ele não daria o braço á torcer.
Chutei a cadeira que estava ao lado da mesa e saí pisando duro pelo rangente chão de madeira.
“Tolo. Esperou mesmo que ela estivesse em um lugar tão óbvio?
Só você não percebeu que eu sempre soube de tudo sobre a sua vida. Eu conheço cada detalhe do teu pensamento, conheço a forma que você age.
Sugiro que desista, mas como um bom competidor que é, sei que não vai me ouvir.
Boa sorte. Você precisará.”
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