Let It Be
7 Capítulo 7
“Ele está definitivamente bêbado.” Ouvi Saga dizer com escárnio. Mas eu não estava assim tão bêbado! Tudo bem que eu havia acabado de cumprimentar um completo estranho no meio da rua e comentado que suas orelhas lembravam as de um elefante, mas isso não queria dizer que eu não estava com minhas faculdades mentais em pleno funcionamento. Certo?
Tropecei numa pedra frouxa na calçada, e teria dado de cara no chão caso Saga não houvesse me segurado. Ele era um bom amigo, sempre pronto para ajudar. Já lhes contei a surpresa que ele preparou para mim hoje? É meu aniversário, algo que não contei ao Aiolia por puro esquecimento. Na verdade, eu lembrei só porque Saga lembrou.
Eu nem sei como ele sabia, mas Saga é o tipo de cara que parece saber de tudo, de um modo até um pouco assustador. A surpresa foi um almoço com os colegas de curso, com salgadinhos e refrigerante. Era uma boa ideia para a turma confraternizar e estreitar os laços de amizade que começavam. Não durou muito, claro, já que tínhamos aula depois, mas foi bem legal.
Aí agora de noite saí com Shiryu e Saga, e mais uns três colegas da faculdade que foram embora um pouco mais cedo. Shiryu e Saga são amigos de infância, fazem de tudo juntos, e eu caí de pára-quedas entre a amizade dos dois. Gosto muito deles, foi uma sorte conhecê-los logo no início das aulas.
Só que infelizmente eu não consegui aproveitar muito os momentos que passamos em um barzinho com música, bastante usado pelo pessoal da Link, já que Aiolia havia me agarrado antes de eu sair de casa. Eu não consegui parar de pensar naquilo! Eu pensava que ele gostava da Marin! Cheguei a pensar que ele estava querendo tirar uma com a minha cara, mas depois pensei que ninguém beijaria com tanto fervor se fosse apenas isso...
“Estou cansado.” Reclamei, tentando pisar com mais equilíbrio no chão. Estava difícil. Tudo parecia girar.
“Você dançou e bebeu quase o tempo todo.” Shiryu falou. “E já são duas da manhã e temos aula amanhã.” Ele estava com o braço ao redor da Ciça, uma colega nossa com quem ele tem um rolinho meio sério. O barzinho tinha música e também dava para dançar, mas apenas eu me senti suficientemente empolgado com isso.
Saga revirou os olhos para as palavras óbvias de Shiryu.
“Deve ser bom ser tão inteligente assim, Shiryu. Por um momento me esqueci que durante a semana temos aula.” Saga tinha mania de ser irônico 24 horas por dia.
Já eu queria entender por que eu era o único bêbado ali. Saga parecia beber e nunca ficar nem mesmo ligeiramente tonto! E Shiryu não gostava de bebidas alcoólicas. O pai dele havia morrido em um acidente de carro por causa delas, então ele se negava, desde então, a colocar um pingo de álcool na boca.
Eu bebi porque... Eu estava confuso com tudo que estava acontecendo. Eu havia beijado Aiolia, que gosta da Marin, que é uma garota muito legal. Eu me sentia péssimo só de pensar, então me afoguei na tequila. E na vodka. E na cerveja. Enfim, você entendeu.
Eu sentia um aperto no peito, doloroso e estranho ao imaginar Aiolia e Marin juntos. Eu só conhecia Aiolia há uma semana e meia! Isso não estava certo. Era melhor que eu saísse da casa dele. Seria estranho continuar morando ali depois que ele se acertasse com a Marin.
“A gente vai por esse lado. Vejo vocês segunda!” Shiryu avisou, despedindo-se com um aceno antes de dobrar a esquina, deixando-me sozinho com Saga.
“Não quero ir para casa.” Murmurei me soltando de Saga apenas para voltar a tropeçar. Ele me segurou pela cintura, o que causou um solavanco no meu estômago. O que não era bom, considerando que eu poderia colocar tudo que havia bebido para fora a qualquer momento.
“O que você quer fazer?” Saga perguntou, passando meu braço por seus ombros.
“Eu quero tomar banho de mar!” Pedi, extasiado com a ideia. Já tinha ouvido falar que era ótimo tomar banho de mar à noite.
“Está frio demais para isso.” Saga replicou. “Esse tipo de coisa a gente faz no verão.”
Soltei um muxoxo.
“Eu quero fazer alguma coisa. Aqui é cheio de coisas para fazer, no Tibet não existem nenhuma casa noturna, e meu mestre não me deixava beber, só estudar, e treinar, e eu queria fazer alguma coisa lá também. Por isso saí de lá. O Shun não gostou, ele também queria fazer alguma coisa, só não sabia o quê. Só que ele ficou por lá, eu acho. Eu deveria ligar para ele. Ele deve estar com saudades, e aí eu posso falar com o mestre também. Cadê meu celular? Você viu meu celular? Eu queria ligar pro Shun. Nós éramos amigos, sabe. Que nem você é meu amigo. Você é meu amigo, né, Saga?” Tagarelei, sentindo a língua solta.
Saga revirou os olhos.
“Nós somos amigos.” Ele afirmou, e eu sorri largamente. “E é melhor você não ligar para o seu amigo agora.”
“Por que, Saga?”
“Porque ninguém suporta um bêbado pelo celular.”
Fiz uma careta emburrada. Eu não estava tão bêbado! Só um pouquinho. Apenas um pouco tonto.
“Hei, essa não é a minha casa!” Falei, quando Saga parou em frente a uma pequena casa de frente para o mar, na descida dos rochedos, e começou a abrir o portão.
“É a minha casa.” Saga disse. “Você falou que não queria ir para a sua casa, então vamos para a minha.”
“Oh...” Exclamei embargado. “Mas eu não quero te incomodar.”
“Sua casa fica muito longe. Não tem problema você passar a noite aqui.” Ele me puxou com ele. Eu assenti lentamente, pensando se o sofá de Saga era bom para capotar e dormir até a próxima reencarnação. A casa dele era bastante confortável, organizada e ‘sóbria’. Não havia nada fora do lugar, e os móveis eram da mais alta qualidade. Eu sabia que ele era rico e morava sozinho.
“Você quer tomar um banho?” Ele perguntou perto do meu ouvido, atrás de mim.
Senti um arrepio descer pela minha espinha. Eu estava suado e cheirando a cigarro do barzinho. Saga também, na verdade.
“Eu não sei...” Sussurrei incerto. De repente, me senti constrangido ao me imaginar nu sob o mesmo teto que o dele, o que não fazia muito sentido, já que eu teria quatro paredes ao redor de mim e ele era meu amigo.
Senti o braço dele enlaçar minha cintura e o tórax largo se colar às minhas costas.
“Você quer que eu decida por você?” Os lábios dele passearam pelo meu pescoço e eu acabei gemendo, sentindo minha pele zilhões de vezes mais sensível por causa do álcool.
“Não, Saga, para...” Senti minha cabeça girar, enquanto eu registrava que, ok, esse não era o tipo de contato muito normal entre duas pessoas que eram apenas amigas.
Em situações normais eu teria dado uma cotovelada nas costelas dele e me soltado, mas eu já falei que eu estava completamente grogue e sem forças? Talvez eu estivesse tão bêbado quanto parecia. Mau sinal, cavalheiros, mau sinal.
“Por quê? Você não gosta da ideia?” Ele sussurrou contra minha orelha, e sua mão deslizou para baixo da minha camiseta.
“Que ideia?” Perguntei tentando segurar o braço dele, mas, merda, o desgraçado era forte.
“Dessa ideia.” Ele falou, e aí me virou, e afundou a boca na minha. Arregalei os olhos, por um instante perguntando-me qual era dessa gente de ficar me puxando e beijando sem meu consentimento. Saga tinha uma pegada forte e um beijo intenso, exigente.
Ele começou a me arrastar em direção do que eu supunha ser o quarto, e eu não consegui resistir. Eu não queria, realmente, me deixar seduzir, mas não consegui impedir. A boca dele devorava a minha e a única coisa que eu conseguia fazer era deixar que ele continuasse.
Quando dei por mim, ele estava me empurrando para dentro do banheiro e me prensando contra a pia. Gemi baixinho, segurando-me com força a ele para não despencar no chão feito jaca podre. Saga desceu as mãos pelas minhas costas e apertou meus glúteos em cheio, os dez dígitos afundando em minha pele e quase me erguendo do chão. Eu mal conseguia respirar com ele me beijando assim, enquanto se encaixava entre as minhas pernas.
Na verdade, o ritmo daquilo tudo estava fazendo minha cabeça girar como se eu estivesse numa montanha-russa cheia de loopings, e isso não era nada, nada bom, porque a qualquer momento eu poderia...
“Oh, droga.” Eu o empurrei com força e cambaleei até a privada que, felizmente, estava aberta. Caí de joelhos e coloquei tudo para fora, quase vomitando meus rins junto. Uma cena nada agradável, e tampouco cheirosa.
Em seguida senti as mãos de Saga segurando meus cabelos compridos para afastá-los do meu rosto, enquanto eu terminava o ‘serviço’. Saga suspirou pesadamente.
“Me lembre de não deixar você beber tanto de novo.” Ele resmungou, me ajudando a ficar de pé. Eu tenho certeza que minha cara devia estar terrível e nada atraente. Menos mal, isso impediria que ele me atacasse de novo.
“Blurgh.” Eu gemi qualquer coisa incompreensível que quase soou como um arroto.
“De novo?” Ele perguntou, puxando a descarga.
“Não, estou bem.” Me apoiei a ele e tentei não dormir naquele mesmo momento. “Mas eu preciso muito de uma cama...”
“Certo, vem cá.” Ele me levou a pia e me fez bochechar com um flúor forte que ele usava, o que ajudou a tirar o gosto ruim da minha boca. Depois de fazer isso umas três vezes, ele se inclinou, passando um braço pelas minhas costas e outro pelas minhas pernas e me pegou no colo no maior estilo ‘princesa da Disney’.
“Saga-“ Eu tentei protestar, mas minha mente estava tão confusa que no momento que abri a boca, esqueci o que ia dizer. Assim que eu lembrei, ele já me deitava na cama e me cobria com os lençóis. Ele sentou na cama em seguida e permaneceu em silêncio por alguns minutos, tanto que, quando voltou a falar, eu já estava quase dormindo e levei um susto ao perceber que ele ainda estava parado ali.
“Desculpe te agarrar desse jeito com você estando bêbado. Prometo que na próxima você vai estar sóbrio e mais apto a corresponder.”
Eu não consegui não rir. Ele era possivelmente o cara mais prepotente que eu conhecia.
“Não vai ter outra vez, Saga, porque eu não estou a fim de você.” Só mesmo eu estando muito bêbado para ser tão direto assim. Aliás, sempre que eu bebia demais eu ficava assim, pelo que me falavam. Fiquei aliviado ao escutar a risada rouca de Saga, enquanto ele apoiava as mãos na cama e inclinava o corpo para trás.
“Sim, porque você está a fim daquele professorzinho ruim de Cálculo.” Ele disse com aquele jeito de dono do saber dele. Eu senti meu rosto arder e soltei um muxoxo.
“Nós nos beijamos hoje. Ele... ele meio que me agarrou.”
Saga simplesmente me olhou e esperou que eu contasse tudo. E foi o que eu fiz, grato por ele se manter em um silêncio atento e paciente frente ao meu relato bêbado e confuso. Ao final, ele se deitou ao meu lado e me abraçou quase fraternalmente, acariciando meus cabelos.
“Eu vou te falar uma coisa, Mu, e não é só porque eu adoraria entrar nas suas calças. Eu não conheço o Aiolia, mas acho que há grandes chances de você sair magoado nessa história, afinal, ele não ficaria tanto tempo sem sexo se não curtisse muito essa tal de Marin. E ele pode estar mesmo confundindo as coisas, então meu conselho é que você se afaste um pouco dele até que o rolo dele com essa mina termine ou, sabe lá, se concretize.” Saga falou cuidadosamente, em um tom baixo, como se tentasse não me magoar.
Eu funguei e me aconcheguei mais a ele.
“Eu sei. Só que vai ser difícil me manter afastado dele...” Falei igualmente baixo, porém então tive uma ideia e praticamente gritei: “Tive uma ideia!”
“O quê?” Ele perguntou surpreso com minha explosão. Eu ergui o rosto com um sorriso empolgado.
“Podemos fingir que estamos juntos! Isso facilitaria tudo. Eu vou começar a procurar um apartamento para alugar, vai ser por pouco tempo, e daqui uma semana e meia ele vai se resolver com a Marin, e tudo ficará bem.” Sugeri apressado, torcendo para que estivesse fazendo algum sentido. Saga torceu os lábios, contrariado, e eu rapidamente coloquei minha melhor expressão de gato com fome no rosto.
Ele suspirou.
“Está bem, que seja. Não é como se fosse ser um grande sacrifício te manter afastado daquele idiota...” Saga sorriu malicioso, deslizando as mãos pelas minhas costas. Eu estremeci e me afastei, deitando de costas para ele.
“Ótimo. Eu sabia que você é um amigo confiável e parceria, Saga. Boa noite.”
Ele riu da minha evidente tentativa de fuga de seus toques e me deu boa noite também. Acabei adormecendo logo em seguida, mais tranquilo do que antes. O problema é que eu estava bêbado e não tinha pensado bem nas consequências do pedido, mas eu realmente achava que era melhor assim. Eu não queria acabar aos amassos com o Aiolia enquanto ele tivesse algum rolo com a Marin, que me parecera uma ótima garota, querida e decidida, apesar de um tanto insegura.
Quando acordei no dia seguinte na cama de Saga, eu mal me lembrava do que havíamos combinado. Na verdade, estava com tanta ressaca, que nem consegui pensar direito sobre o assunto. Tomei um banho e me vesti feito um zumbi, e Saga nos levou de carro até a faculdade. Só no momento em que paramos no estacionamento da Link, descemos do carro e Saga me puxou pela cintura, grudando nossos lábios em um beijo que faria diretores de cinema vibrarem, é que eu lembrei perfeitamente de toda a conversa que havíamos tido antes de cairmos no sono.
Saga me soltou e eu encarei ofegante e aturdido seu largo sorriso pretensioso. Aí olhei para o lado e vi Aiolia parado a dois carros de distância, olhando para nós dois com uma expressão nada, nada feliz. Parecia até mesmo um leão enfezado prestes a ter um ataque de fúria. Eu arregalei os olhos e me arrepiei inteiro.
“Oh, olá, professor! Não vimos você aí! Desculpe não devolver o Mu noite passada, mas é que nós estávamos nos divertindo tanto juntos.” Saga falou, simpático. Eu arregalei ainda mais os olhos e o encarei como se ele estivesse louco. Saga não se importou, passou o braço por meus ombros e me arrastou dali sem dar tempo para que eu, ou Aiolia, fizéssemos qualquer coisa.
Assim que me sentei na cadeira da primeira aula da manhã, eu balancei a cabeça tentando recobrar a calma.
“Hei, Mu, você ‘tá bem?” Shiryu perguntou, preocupado.
“Não sei.” Repliquei num sussurro, procurando minha bombinha ao sentir que um ataque de asma se aproximava. “Só estou aliviado que não temos aula de Cálculo hoje.”
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