Let It Be
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Não me pergunte com chegamos no assunto. Só sei que era de noite já. Nós havíamos voltado do passeio da tarde, e eu precisei ir para meu quarto estudar e preparar minhas aulas da semana. Quando desci, encontrei Mu na cozinha e batemos um papo.
De alguma forma chegamos a um assunto relacionado com preferências de aparência. Eu soltei algo do tipo ‘você provavelmente precisa se controlar para não me agarrar’, num tom de brincadeira. Eu na verdade queria ouvir a resposta dele a isso. Mu riu de leve e umedeceu os lábios antes de responder.
“Você nem faz muito o meu tipo.”
Meu queixo caiu.
“Por que não?” Perguntei ultrajado. Desde quando eu não era o tipo de alguém? Desde quando um moreno alto de olhos verdes não era o tipo de alguém?
Ok, eu sei, humildade zero no momento, mas a fala dele realmente me indignou. Talvez porque eu quisesse ouvir justamente o contrário. Mu apenas deu de ombros e foi pegar algo na geladeira. Ele se inclinou e meus olhos automaticamente se desviaram para a curva dos glúteos dele.
“Ah, eu gosto de ruivos.” Ele comentou distraído, e pareceu contente ao encontrar um pedaço de pizza velha que havíamos pedido na quinta.
“Isso não exclui gostar de loiros ou morenos.” Apontei. “Hei, é melhor você não comer isso!” Fui até ele e tentei tirar o pote com a pizza de suas mãos.
“Não, larga! Eu ‘tô fome!” Mu reclamou empurrando minha mão para longe.
“Você vai acabar passando mal!” Retruquei, e aí começamos uma briguinha ridícula pela posse da pizza.
O problema é que em algum momento Mu me deu as costas e eu o enlacei pela cintura tentando alcançar a mão dele que segurava o pote. Isso definitivamente não foi uma boa ideia. Um, porque eu consegui aspirar perfeitamente o aroma de lavanda dos cabelos dele. Dois, porque os glúteos firmes roçaram perigosamente perto de um ‘membro’ em especial do meu corpo.
Soltei um gemido estrangulado, que fez Mu parar de brigar de imediato. Senti uma tensão horrível no ar, algo como uma espera mútua para o que aconteceria em seguida. Minha vontade era de agarrar a cintura de Mu com mais força e mordê-lo no pescoço, para macular sua pele branca e tentadora. Só que então Mu soltou o pote, que eu por acaso havia alcançado sem nem mesmo perceber, e se afastou com um suspiro.
“Ok, você venceu. Eu vou ir dormir na inanição. Se eu não acordar pela manhã, o culpado será você!” Mu acusou, antes de sair apressadamente da cozinha.
“São recém dez da noite!” Exclamei, não querendo que ele se fosse tão cedo.
“Eu tenho que acordar amanhã as seis! Mereço oito horas de sono!” Ele exclamou de longe, já provavelmente subindo as escadas. Soltei o ar, exasperado. Eu precisava dar um jeito de ordenar meus pensamentos e decidir o que eu iria fazer em relação, primeiro, à Marin, e depois ao Mu. Eu quase havia me esquecido da Marin nesse domingo.
Eu só sabia que não dava para continuar do jeito que estava!
XxX
Era quarta-feira. Dois dias transcorreram sem acidentes. Isso se você considerar eu tendo pensamentos eróticos a cada movimento de Mu algo normal. Na segunda ele havia feito macarrão para o jantar, e comemos juntos enquanto assistíamos National Geographic e conversávamos ou sobre o documentário, ou sobre outros assuntos aleatórios. Era incrível como alternávamos de um assunto mais sério, para outro completamente idiota que enchia a sala de risadas e latidos empolgados do Átila.
Já na terça nós pedimos comida chinesa e Mu basicamente me ensinou a comer aquelas coisas da melhor forma possível. Claro que a sala virou uma bagunça e Átila ainda conseguiu roubar alguns petiscos para ele. Assistimos um filme e eu me segurei para não rir quando Mu ficou com lágrimas nos olhos ao final.
“Não tem graça, Aiolia! Como você é insensível...” Mu resmungou, de cara feia para mim.
Eu sorri e me aproximei, vendo-o se retrair um pouco quando toquei seu rosto e afastei uma lágrima teimosa.
“Você que é sensível demais, é só um filme... Você fica bem bonitinho assim, com cara de choro.” Murmurei, com um sorriso divertido. Mu virou o rosto corado, afastando-se de meu toque.
“Idiota.” Ele resmungou, tocando em mim um bun*, que rolou pelo chão e foi prontamente capturado por Átila.
Mu, sempre quando estava comigo, cuidava para colocar entre nós uma distância segura e respeitosa. E toda a vez em que eu tentava a menor das aproximações, ele se afastava como se houvesse levado um choque. E de qualquer forma, eu ainda não havia conseguido falar com a Marin.
Coisa que eu consegui justamente hoje. Ela estava saindo de uma aula quando eu a puxei pelo braço e arrastei até alguma sala vazia da faculdade. Ela reclamou do susto, mas eu não lhe dei ouvidos.
“Precisamos conversar.” Falei sério assim que estávamos só nós dois entre quatro paredes.
Ela ergueu as sobrancelhas, desconfiada, mas então suspirou e um ar derrotado e arrependido surgiu em seu rosto.
“Aiolia, desculpa pela minha atitude na festa. Eu sei que estou sendo exigente e injusta demais com você.” Marin falou com sinceridade, o que me deixou confuso e perplexo pela repentina mudança de atitude dela. “Você me perdoa?”
Mas o que há com as mulheres de hoje? Será que todas sofrem de transtorno de bipolaridade ou é só a Marin? Parece que elas fazem por querer para acabar com a sanidade de um homem. Eu gaguejei feito um imbecil perante o pedido inesperado dela, e depois suspirei cansadamente.
“Mas você ainda quer que eu complete os 90 dias?” Perguntei, tétrico.
“Ah, Aiolia...” Ela se aproximou daquela maneira sensual que só as garotas têm, e envolveu meus ombros com os braços alvos, seu corpo quente colando-se aos meus enquanto seus lábios cheios se aproximavam de minha boca. Meu corpo inteiro reagiu à aproximação, e tive certeza que ela sabia disso. Usava essa influência maléfica que tinha sobre meus hormônios para me controlar. “Se você já esperou tanto tempo... o que custa esperar um pouquinho mais? Juro que vou ter toda sua no dia 90.”
Isso me fez bufar, e eu a segurei pela cintura com firmeza, puxando-a contra mim e tomando seus lábios com uma fúria contida. Estava com raiva daquela aposta ainda, e principalmente de mim por tê-la aceitado e me colocado na situação em que estava. Eu conhecia Marin há tempo demais. Nós éramos amigos antes de mais nada, e eu não queria sacaneá-la. Mas eu não vou mentir dizendo que não queria transar com ela. Eu já queria isso há muito tempo. O problema é que eu já não tinha mais certeza se queria um relacionamento firme com ela depois disso. E saber disso, mais continuar a beijá-la, prensando-a contra a mesa do professor e insinuando minha nascente ereção entre suas pernas, só fazia com que eu me sentisse um verdadeiro canalha.
Ela arfou contra minha boca e se esforçou para me empurrar.
“Esteja empolgado assim daqui a dois sábados.” Ela falou, dando-me um selinho provocante.
Eu respirei fundo e grunhi exasperado. Eu não sabia mais o que queria. Me sentia tão confuso que experimentava ímpetos de bater a cabeça contra a parede até que eu não tivesse mais nenhum neurônio funcional para me incomodar. Cheguei à conclusão de que só conseguiria pensar com clareza depois de satisfazer meus desejos mais carnais... E não é como se eu me orgulhasse disso.
“Marin,” Chamei, antes que ela saísse da sala. Ela me olhou por cima do ombro, já na porta. “Por que essa mudança repentina de atitude?”
“Ah... conversei com o Mu.” Eu arregalei os olhos. “Encontrei com ele por acaso ontem aqui na faculdade e acabamos indo tomar um café no Bar do Thomas. Nós também conversamos sobre relacionamentos, e ele abriu meus olhos. Disse que eu deveria me arriscar mais e... ah, você entendeu. O que interessa é que eu... que em menos de duas semanas, vamos ficar juntos.” Ela sorriu e corou um pouco, enquanto eu não sabia o que pensar.
Parte de mim se sentiu um crápula ao ver o sorriso sincero em seu rosto, o carinho inegável que ela sentia por mim, e eu por ela. Outra parte estava indignada demais com Mu por ele ter se metido nesse assunto!
O que eu iria fazer agora?
Bem, uma coisa eu sabia que precisava fazer. Ir tirar satisfações com o Mu. E já! Eu não iria esperar até de noite. Estava muito puto da cara para esperar seis horas até poder falar com ele. Era uma sorte que era horário de almoço, e então eu poderia ‘caçá-lo’ no refeitório da universidade.
Saí caminhando pelo campus e por sorte o encontrei ainda do lado de fora, indo em direção ao prédio onde ficava o refeitório. Felizmente ele estava sozinho. E como sempre, cantarolando baixinho uma música dos Beatles.
Yesterday
Love was such an easy game to play
Now I need a place to hide away
Oh, I believe in yesterday
Aquela maldita voz que ficava ecoando na minha mente de hora em hora.
Me aproximei sorrateiramente dele e o segurei pelo braço. Mu levou um susto, mas não dei tempo para que ele fizesse qualquer coisa antes de puxá-lo comigo para trás de uma das muitas árvores que acompanhavam o caminho.
O empurrei contra o tronco e apoiei uma mão ao lado do rosto dele.
“Quem te deu o direito de ir falar com a Marin? Quem te deu o direito de falar por mim o que eu sinto por ela?” Perguntei rudemente, o que causou uma expressão confusa e espantada em Mu.
“Eu... me desculpe. Nós não conversamos exatamente sobre você, ou a situação de vocês, mas sobre relacionamentos num geral.” Mu falou, aturdido. “Eu não queria me intrometer, eu juro. Só quis ajudar a Marin, ela parecia tão confusa...”
Soltei um grunhido, fechando os olhos por um momento.
“Sabe, ela gosta muito de você, e ela é tão legal! Totalmente entendi por que você aceitou ficar noventa dias sem sexo por ela e...” Mu continuaria tagarelando, mas eu segurei seu braço com tanta força que ele soltou um gemido abafado de dor. Me aproximei um pouco dele, encarando-o diretamente nos olhos.
“Será que você não entende-“
“Mu!” Alguém me interrompeu, e eu larguei Mu rapidamente, afastando-me dele.
Claro que tinha que ser o insuportável do Saga.
Ignorando-me completamente, ele foi direto em direção ao Mu e passou o braço pelos ombros dele. Apertei a mandíbula quando ele aproximou os lábios do ouvido de Mu.
“Você precisa vir comigo.” Saga falou num tom baixo. “Tenho uma surpresa para você.”
“Oh, surpresa?” Mu imediatamente desviou a atenção de mim e sorriu radiante. “Que surpresa?”
“Você vai ver.” Saga piscou.
“Certo!” Mu me olhou. “Nos falamos depois, Olia! Aí você conta melhor o que a Marin falou!”
E se deixou ser puxado por Saga. Eu fiquei plantado ali, feito um mané. Saga me lançou um olharzinho superior e saiu com o braço ainda ao redor dos ombros de Mu. Suspirei frustrado e resolvi ir para casa mais cedo. Eu não tinha mais aulas para dar à tarde, só iria perder as aulas do mestrado, mas não me importei.
Cheguei em casa e caí no sofá, mas de imediato Átila veio me incomodar para que eu o levasse para passear. Soltei um palavrão e quase chutei meu cachorro, mas no fim me dei por vencido e pensei que uma caminhada pela cidade me ajudaria a pensar.
XxX
Átila resfolegava cansado quando voltamos. Também... nós havíamos saído pouco depois da uma da tarde, e agora já era final de tarde. E se você me perguntar por onde andamos, eu diria que por Atenas inteira. E o pior era que eu não havia chegado a nenhuma conclusão.
Assim que passamos pela porta, Átila se desvencilhou de mim e correu para a cozinha. Em questão de segundos eu ouvi um berro de susto. Corri para cozinha e adivinha? Átila estava em cima de Mu, enchendo-o de lambidas.
“Olia, me ajuda!” Mu se contorceu, rindo e tentando afastar Átila.
Com passos pesados eu fui até eles e puxei Átila com uma força exagerada pela coleira. Ele ganiu pelo quase enforcamento e me olhou magoado.
“Passa.” Mandei autoritário. Átila saiu da cozinha com as orelhas baixas e o rabo entre as pernas. Ele sabia que não era bom se meter comigo quando meu humor estava negro.
“Nossa, Olia, para que fazer isso com o coitad-“ Mu começou a falar se levantando, mas antes que ele conseguisse, eu o empurrei de volta contra o chão, sentando-me sobre a cintura dele e segurando os pulsos finos fortemente contra o chão.
Mu arregalou os olhos, perplexo.
“Eu estava falando à tarde que não gostei do que você fez.” Recomecei, do ponto em que havíamos parado. “Eu mal te conheço. Você mal me conhece. Não sabe o que eu sinto pela Marin. Não sabe de nada.”
Mu fechou o rosto.
“Desculpe. Não sabia que você iria reagir assim. O que houve, você e a Marin brigaram?” Ele perguntou.
“Não!” Praticamente gritei. “Esse não é o ponto.”
“Aiolia, será que você pode me soltar?” Mu perguntou ignorando meu rompante de raiva. Isso só me deixou mais fulo. Puxei os pulsos de Mu para cima da cabeça dele e me inclinei um pouco. “Sério, me larga! Você está exagerando! Eu já pedi desculpas!”
“Que surpresa era aquela que Saga tinha para você?” Mudei radicalmente de assunto. Era outra coisa que vinha me incomodando profundamente. Não conseguia tirar a cena da tarde da minha mente.
Mu me encarou como se eu fosse louco de pedra. Eu estava virando mesmo, e por culpa dele!
“Isso não te interessa! Me solta!” Mu tentou puxar os pulsos, mas eu os apertei ainda mais.
“Você deveria tomar cuidado com ele. Ele tem cara de pervertido. Pode tentar alguma coisa sem que você perceba, pode te forçar a alguma coisa e-“
“Deixa de ser ridículo, Aiolia! Eu não sou uma garota indefesa, que droga! É a segunda vez que você insinua isso!” Mu dessa vez praticamente rosnou, com uma careta de raiva. Senti fisgadas nas entranhas ao vê-lo assim. Mais tentador do que nunca...
“É mesmo?” Perguntei sarcástico. “Assim como está se defendendo agora? Mal consegue se soltar-“
Não tive tempo de concluir a frase antes de levar uma cabeçada nas fuças. Caí para trás, levando uma mão à minha boca, sentindo dor e sangue na saliva. Não demorou um décimo de segundo antes que eu estivesse imobilizado no chão.
“Tenho uma novidade para você. Assim como eu não te conheço, você também não me conhece. Não sabe nada sobre mim.” Mu falou pressionando meu braço contra as minhas costas enquanto meu rosto estava afundado contra o piso da cozinha. Gemi dolorido. “Agora vê se larga de ser infantil.”
Mu me soltou e levantou. Ele caminhou em direção à sala.
“Desculpa por isso, mas você pediu.” Mu disse. “Odeio quando falam que eu não sei me defender só porque eu pareço mais frágil do que a maioria dos caras. Isso é ridículo, sou tão capaz de cuidar de mim mesmo quanto qualquer um.” Ele falou parecendo mais calmo.
Eu me levantei e o segui, carrancudo.
“Eu vou sair com o Saga e o-“
Eu o puxei pelo braço e aí contra mim. O corpo esguio dele se chocou contra o meu tórax e eu segurei firmemente sua nuca.
“Defenda-se disso, então.” Falei, antes de beijá-lo.
Forcei caminho até que ele desse passagem à minha língua, o que demorou um pouco, já que eu o senti enrijecer em meu enlaço e tentar me empurrar. Segurei bem forte suas costas e nuca e me inclinei mais contra ele, buscando com vigor mais contato.
No momento em que experimentei a boca macia dele contra a minha, eu já perdi todo o controle. Estava há tanto tempo sem um contato assim, que o mínimo toque fez meu corpo incendiar e meus instintos mais primitivos despertarem. Se lembra daquele papo de homem das cavernas? Pois é, só faltava eu grunhir feito bicho.
Mu ainda não havia cedido completamente quando, de alguma forma, acabamos de novo no chão, sobre o tapete da sala. Meu corpo se pressionou contra o dele e eu mexi a minha perna de modo a afastar as dele, para que eu pudesse me encaixar entre elas. Quando o fiz, Mu gemeu e seus lábios finalmente se abriram por completo, deixando que eu penetrasse sua boca pequena com a língua ávida e ansiosa.
Gemi também ao experimentar o gosto da boca dele. Algo como canela, mas ainda mais delicioso e viciante do que isso. Movi meu corpo por puro instinto e me senti enrijecer ao me atritar entre as pernas dele. Mu ofegou e apertou meus ombros, parecendo indeciso entre me puxar mais ou me empurrar.
“Aiolia, não, espera, eu não-“ Ele tentou dizer, mas eu não estava a fim de ouvir. Voltei a pressionar com força meus lábios contra os dele e enfiei minhas mãos por baixo da camiseta larga que ele usava. A pele era tão macia e quente quanto parecia.
Comecei a me mover mais, de modo que pudesse aliviar toda a tesão que eu estava sentindo. Cada partícula do meu corpo ansiava por mais contato, por mais do beijo, dos toques, do atrito. Deslizei as palmas da minha mão por toda a extensão do abdômen e tórax magro, enquanto continuava a instigar a língua gostosa dele a acompanhar a minha. As mãos dele também desceram pelas minhas costas e alcançaram meus glúteos, e ele me puxou contra seu corpo, fazendo com que minha ereção endurecesse de vez.
Gemi alto e mordi seu lábio com força, fazendo-o arquear o corpo e murmurar meu nome por baixo da respiração entrecortada. Mu inverteu as posições e parou sentado sobre minha ereção. Ele se moveu e se apoiou no meu tórax para alcançar minha boca. Voltei a segurar sua nuca e devorar seus lábios finos, enquanto tratava de segurar um de seus glúteos empinados e forçá-lo e se ondular sobre mim.
Revirei os olhos por baixo das pálpebras, sentindo meu coração acelerar ao pensar em aonde aquilo acabaria. Senti um desejo devastador de ir até o fim, de sentir como seria experimentar a fundo o calor de Mu.
“Diga que eu não sou seu tipo agora.” Murmurei rouco rente as lábios dele.
“Aiolia...” Mu gemeu.
Só que aí a porcaria da companhia tocou, e Mu pareceu ‘acordar’. Ele arregalou os olhos e no instante seguinte já estava em pé, respirando ruidosamente. Os cabelos dele estavam desgrenhados e suas bochechas estavam avermelhadas. Ele parecia completamente perdido.
“Por que você...?” Ele perguntou sem fôlego. “Você... você gosta da Marin.”
“Eu não sei mais o que eu sinto.” Eu me ergui e parei bem em frente a ele, que continuava a me encarar como se eu fosse de outro mundo. “Por isso eu não queria que você fosse encher os ouvidos da Marin!”
Ele abriu e fechou a boca algumas vezes.
“Eu não tinha como saber!” Sussurrou.
A companhia voltou a tocar.
“Mu, você tá aí?” Ouvi a voz de Shiryu. Malditos adolescentes.
Mu fez menção de ir abrir a porta, passando por mim apressado, mas eu o impedi um pouco antes de ele conseguir chegar ao hall de entrada. Prensei-o contra a parede.
“Não atende.” Murmurei, aproximando meu rosto do dele.
Vi seus lábios se entreabrirem e as pálpebras de Mu tremularem, querendo fechar à medida que nossas bocas ficavam mais próximas, mas no último segundo ele me empurrou, recobrando a razão. Coisa que eu já tinha perdido há muito tempo, e não sentia vontade nenhuma de recuperar.
“Não!” Ele falou, nervoso. “Você precisa se entender com a Marin antes! Eu não posso fazer isso... não depois de ter conversado com ela e a conhecido melhor, e você também não pode. É melhor você pensar sobre o que está fazendo. Pode ser só a sua abstinência fazendo com que você me... você me deseje.” O rosto dele, se possível, ficou ainda mais vermelho.
“Que bobagem! É claro que não é por isso!” Exclamei indignado.
“Você não tem como saber!” Ele sussurrou. “Não quero que você tome uma atitude inesperada e depois se arrependa.”
“Eu não vou-“
“Não me use como cobaia para a sua súbita atração homossexual!” Ele exclamou, e meu queixo caiu. O rosto dele se contorceu em uma careta chateada e então ele correu para abrir a porta.
“Poxa, Mu, é surdo? Por que demorou tanto?” Ouvi Shiryu perguntar, em uma irritação fingida.
“Cala a boca. Nem foi tanto.” Mu respondeu, batendo a porta.
Aí não ouvi mais nada. De alguma forma, eu sabia que Saga também estava esperando do lado de fora com Shiryu, e isso me encheu de ciúmes e raiva. Me senti chateado por Mu pensar que eu queria usá-lo apenas por curiosidade e por que estava sem sexo há muito tempo.
Só que aí eu me perguntei se não seria exatamente isso. Quero dizer, eu não quero soar como um canalha, nem nada, mas eu não havia conseguido definir o que era toda aquela súbita atração por Mu, e tampouco havia chegado a uma conclusão sobre meus sentimentos por Marin.
Mas, não poderia ser só curiosidade... Poderia?
Notas finais
*Bun: tipo um pãozinho quente recheado.
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