Let It Be

4 Capítulo 4


Uma semana passou voando e quando percebi já era sábado novamente. Mu estava empolgado: iria para sua primeira festa da faculdade. Era uma festa que reunia todos os novatos de engenharia da Link. Eu estava convidado para ir, já que era aluno também da faculdade, fazendo mestrado, e era amigo do organizador da festa. Adivinhe quem? Milo, é claro, o devasso louco por festas.

Entrei no meu quarto bem na hora que Mu saía do banho. Eu só ia entrar rapidinho para pegar meu celular, não esperava fazer isso bem no momento em que ele aparecia na minha frente só com a toalha enrolada na cintura.

Deixem-me contar-lhes uma coisa. Essa primeira semana de convivência não me fez nada bem. Somando-se ao fato que eram mais sete dias em abstinência, ainda havia o problema que eu começara a reparar mais e mais em Mu. Nos cabelos de tom exótico, cheiro suave e brilho sedoso. Ou nos olhos verdes que ficavam variando de tonalidade de acordo com a claridade. Ou na pele pálida de aspecto macio. Ou mesmo nos lábios que pareciam preocupantemente apetitosos, pequenos e ligeiramente carnudos.

Merda, merda, merda! Tudo culpa da Marin por me deixar nesse estado lastimável!

Ah, e outra! Aquele Saga parecia cada vez mais próximo de Mu. Inclusive já tivera a cara de pau para aparecer aqui em casa para convidá-lo para um passeio na quinta-feira! Ele me encarou com um sorrisinho superior ao me ver. Como se eu fosse me importar. Pirralho idiota.

Eu não deveria ir nessa festa, mas não achava seguro Mu ir sozinho com Saga o cercando feito um urubu. Mas... voltando a cena bastante perturbadora. Eu arregalei os olhos enquanto percorria o corpo esguio e bem-desenhado de Mu de um modo que, admito, não foi dos mais discretos. Os cabelos molhados e compridos caíam metade pelas costas e metade pela frente dos ombros.

Ele paralisou também, incerto do que fazer. E nesse exato momento Átila entrou correndo no quarto, indo na direção de Mu. O idiota do meu cachorro mordeu a barra da toalha de Mu e começou a puxá-la, rosnando de brincadeira e balançando o rabo.

Mu soltou uma exclamação de susto e segurou a toalha com força, se contorcendo para impedir o cachorro de deixá-lo completamente nu na minha frente. Meu coração quase saltou pela boca. Mu estava inclinado, sendo quase arrastado por Átila e ele... ele estava quase ficando nu...

“Olia! Não fique aí parado! Me ajuda!” Ele gritou.

Eu despertei do meu transe e corri para ajudar. Consegui fazer com que Átila soltasse a toalha, mas com isso parei bem perto de Mu. Assim que ele estava livre do louco do meu cachorro, ergueu o olhar para mim e eu prendi a respiração. Estávamos bem perto.

Senti a respiração quente dele contra meu rosto falhar, e acabei dando mais um passo para perto, sentindo aquele formigamento lá embaixo. Os lábios pequenos estavam tentadoramente entreabertos, e a expressão dele era de surpresa. Eu acho que quase pude escutar o coração dele batendo rápido. Ou talvez fosse o meu.

Eu toquei o abdômen esbelto e o empurrei suavemente até que suas costas encostassem-se à parede. Não me pergunte por que eu fiz isso! Eu nem sei mais o que estava fazendo! Eu só conseguia pensar que há séculos eu não tinha uma boa noite de prazer, e que ele era bonito demais para um cara.

Um cara...

Pulei para trás ao perceber que estava prestes a grudar um homem! Mesmo que esse homem tivesse um corpo lindo, uma pele macia, quase sem nenhum pelo...

“Átila, seu idiota, não faça mais isso!” Xinguei o cachorro, na verdade querendo xingar a mim mesmo. Átila, que sentara nos observando depois que o afastei de Mu, inclinou a cabeça para o lado, com uma expressão inocente enquanto balançava o rabo.

“Eu vou para o meu quarto... me arrumar.” Mu falou baixinho, antes de praticamente correr quarto afora, desviando de Átila a uma distância segura.

Passei as mãos pelos cabelos e respirei fundo, tentando me acalmar. Não era o fim do mundo. Aquilo não significara nada. Só significava que a falta de sexo estava acabando com meu bom senso e meu discernimento, só isso. Eu não gostava de homens. E eu não queria beijar o hóspede. Nem jogá-lo na cama e subir em cima dele. Nem segurar os longos cabelos lilases com força e morder aqueles lábios gostosos.

Ah, Cristo! Eu preciso de uma bebida bem forte. Só mais duas semanas, Aiolia! E aí você vai poder ficar com a Marin! A Marin, ruiva gostosa que você é a fim há séculos! Que tem seios e curvas perfeitas! Foco, Aiolia, foco!

Eu me arrumei de forma bastante casual. Não era muito bom nisso de ficar me produzindo demais. Isso era coisa de mulher. Apenas tomei um banho, passei um perfume e coloquei uma roupa menos surrada. Quando saí do quarto e desci, já pronto, encontrei Mu tentando convencer Átila a sentar e dar a pata.

Eu teria rido da situação, pois Átila não entendia e fazia tudo errado. Mas eu reparei de verdade é na roupa que Mu usava. Uma blusa de tecido leve, branca, com uma gola em V que deixava seu peito aparecendo, de modo que era possível entrever seus mamilos. A calça não era tão apertada, mas marcava bem a cintura e o formato dos glúteos, firmes e empinados. Os cabelos ainda úmidos caíam feito uma cascata por suas costas, presos na metade do torso por uma de suas fitinhas, na mesma cor dos fios de lavanda.

Segurei meu peito e senti falta de ar. Talvez eu também estivesse ficando asmático. Mu percebeu minha presença e se virou, erguendo uma sobrancelha.

“Você está bem?” Ele perguntou preocupado. Eu assenti com dificuldade e quis xingar meu colega do andar de baixo por estar querendo despertar naquele momento impróprio. E por causa de um homem! Isso já está virando rotina...

“Estou ótimo!” Exclamei com talvez ênfase demais. “Você está pronto?”

“Estou. Mas Saga disse que passaria aqui e-“

“O quê?” Exclamei possesso. Por que o cara precisava vir até aqui? Era óbvio que, como eu também ia à festa, poderia levar Mu no meu carro. Que cara idiota!

Mu franziu a testa.

“Ele disse que me pegaria para a gente ir juntos, porque-“

“Você vai comigo.” Eu falei em um tom de ponto final e fui até ele, segurando seu braço e o puxando comigo. Ele cambaleou alguns passos, atarantado com a minha atitude.

“Mas-“

“Avisa ele que não precisa mais de carona.” Falei.

Mu pareceu dar-se por vencido frente à minha determinação. Ele entrou no carro e ainda me olhou de esguelha, provavelmente pensando que eu havia ficado louco. Fiquei quieto, mas internamente satisfeito, quando Mu ligou para Saga e explicou que eu o levaria à festa.

Ficamos em silêncio, e Mu começou a tamborilar os dedos e cantarolar outra música dos Beatles.

But of all these friends and lovers,
There is no one compares with you,
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new.

Será que ele não poderia ter escolhido outra música? Parecia até que ele estava cantando isso diretamente para mim! Não, não, eu estava sendo egocêntrico. Era apenas uma música aleatória que havia surgido na mente dele.

“Sabe, você vai acabar me viciando em Beatles.” Falei, já que ele vivia cantarolando e deixando o rádio tocar com as músicas da banda. Ele sorriu animado, satisfeito com minha confissão.

“Eu tenho esse efeito sobre as pessoas.” Ele comentou convencido.

“Você tem outros efeitos também...” Murmurei.

“O que disse?”

“Nada!” Exclamei rápido, só então percebendo que havia falado aquilo em voz alta.

A festa era numa boate famosa da cidade, que havia sido alugada para essa festa em especial. Mu tinha entrada livre, por ser calouro. Já eu havia comprado o ingresso antes com Milo. A bebida era liberada até a uma da manhã. Eu estava sentindo que teríamos vários adolescentes bêbados até o final da noite.

Vi Camus e Milo na entrada, em frente a uma entrada Vip, perto da fila para a entrada comum. Levei Mu até lá.

“E aí, velho.” Cumprimentei Milo, e depois Camus.

Me surpreendi ao ver Mu praticamente pular em cima de Milo, de forma bastante afetuosa.

“Milo! Que saudades!” Mu exclamou abraçando Milo com força.

“Mu! Seu desnaturado, só agora aparece para abraçar seu amigo!” Milo reclamou.

“Nem vem, sempre que eu ligava perguntando se você estava livre, você dizia que não podia sair!” Mu reclamou manhoso.

Eu já estava usando todo meu autocontrole para não puxá-lo dos braços de Milo.

‘Milo é hétero!’ Lembrei a mim mesmo. Aí lembrei que eu também me considerava hétero até pôr os olhos em Mu e... espera! Quem disse que eu não me considero mais hétero? Droga de pensamentos estranhos!

Mu se separou e aí colocou os olhos em Camus.

“Meu Deus!” Ele ofegou baixinho e corou inteiro. Que diabos de reação era essa?

“Oi, Mu. Eu sou o Camus, amigo do Milo e do Aiolia.” Camus estendeu a mão para Mu, que ficou todo tímido ao aceitá-la. “Prazer em conhecê-lo.”

“Prazer...” Mu murmurou todo, todo... adorável! Argh!

“Vamos entrar?” Perguntei irritado, tirando Mu de perto de Camus, que, a propósito, também é hétero. Era bom eu avisar Mu disso antes que ele resolvesse tentar a sorte.

“Estou esperando minha garota. E Camus quer ficar do lado de fora o maior tempo possível.” Milo revirou os olhos. “Sabe como é, uma vez nerd certinho, para sempre nerd certinho.”

Camus, bastante sóbrio em uma roupa social, com seus cabelos ruivos compridos presos em um rabo de cavalo baixo e óculos arredondados no rosto de traços sério e centrados, apenas revirou os olhos.

“Nós encontramos vocês depois.” Camus falou.

Entrei com Mu, que parecia no mundo da lua.

“Não precisa babar.” Reclamei azedo.

Mu piscou, corando.

“Eu tenho uma queda por ruivos. Esse seu amigo é hétero?” Ele perguntou descarado. Mordi a parte interna da boca e senti vontade de chutar alguma coisa.

“Ele é.” Garanti.

“Bi, talvez?” Mu tentou esperançoso.

“Hétero! Completamente hétero!” Exclamei, e me senti satisfeito ao ver Mu suspirar derrotado.

Mas minha satisfação murchou quando Saga nos encontrou, um tempo depois, no momento em que estávamos no bar e eu pagava uma bebida para Mu. Ele estava acompanhado do tal Shiryu.

“Oi, Mu.” Saga cumprimentou, antes de olhar para mim de cima abaixo. “Pensei que professores de cálculo ficavam em casa lendo livros de álgebra nos sábados à noite.” Ele debochou.

“Parece que pensou errado.” Repliquei com desdém. Ele me ignorou e voltou a olhar para Mu.

“Quer dançar?” Saga perguntou.

“Claro!” Mu respondeu animado, soltando a bebida sobre o balcão. Eu pensei em impedir, mas o que eu diria? Não tinha direito nenhum de impedi-lo de fazer o que bem entendia. Apertei os punhos, com raiva.

Shiryu ocupou o lugar de Mu e me mirou curioso.

“Olá, professor, cuidado. Daqui a pouco você acaba matando um aluno só com o olhar.” Ele avisou.

Olhei-o sobressaltado.

“O quê?” Perguntei em choque.

Ele riu em seguida pedindo uma bebida.

“Desculpe, às vezes tenho o defeito de ser observador demais, mas já percebi que você odeia quando o Saga está perto do Mu.” Ele comentou casualmente. Ele pegou sua bebida e saiu, deixando-me sozinho e com o coração disparado. Eu estava sendo tão evidente assim?

Engoli em seco e olhei para a pista de dança. Saga descaradamente segurava Mu por trás e mantinha a boca próxima do pescoço dele. E Mu movia o quadril de uma maneira provocante, no ritmo da música, meio alheio aos olhares que os dois estavam atraindo. Travei o maxilar quando Saga deslizou a mão para dentro da blusa de Mu e subiu um pouco, revelando parte da pele pálida do abdômen dele.

Foi quando Marin apareceu na minha frente, dando-me um baita susto.

“Nossa, estou tão feia assim?” Ela perguntou colocando as mãos na cintura.

“Marin...” Eu senti que seria salvo. Levantei do banquinho do bar e a segurei pela cintura. Beijei-a antes que ela pudesse protestar. Foda-se que eu estava sentindo ciúmes de Mu há menos de um minuto atrás. Eu iria enlouquecer se continuasse com isso. A abstinência estava me fazendo mais mal do que eu poderia suportar.

“Vamos acabar com isso. Já fiquei sem sexo por dez semanas por sua causa. Isso não é suficiente?” Perguntei, beijando-a no pescoço. Apertei-a com força ao ver, por cima do ombro dela, Saga virar Mu e tentar beijá-lo.

Mas Mu virou o rosto, de modo que o beijo foi na bochecha. Saga não ficou muito feliz, mas Mu não pareceu reparar, ou se importar. Apenas continuou dançando numa boa.

“Mas que droga, Aiolia! Será que você só pensa nisso? É isso que você quer de mim, não é? Me levar para a cama! Depois vai me chutar e ir atrás de outras conquistas!” Marin exclamou furiosa, empurrando-me.

Deixei meu queixo cair com o ataque sem sentido dela. Marin me olhou magoada e se virou, afastando-se a passos pesados. Pensei em segui-la, mas me faltou vontade. Eu estava cansado dos surtos da Marin. Há séculos eu tentava algo mais sério com ela, e era justamente ela que dava para trás, sempre com essas desculpas e inseguranças bestas.

Me virei para o bar e pedi mais uma bebida, e dali a pouco Mu apareceu do meu lado, com o rosto corado e um sorriso nos lábios.

“Você deveria dançar um pouco também!” Ele exclamou, e pediu outra bebida.

“Agora não.” Murmurei.

Mu murchou um pouco com a minha negativa, mas bebeu todo o copo de bebida quase de uma única vez. Ele já estava bem alegrinho, depois de dois copos inteiros de vodka com energético. Lembrei que ele não havia comido nada antes de sair de casa.

“Aí estão vocês!” Milo apareceu, aproximando-se com Shina à tiracolo. Camus vinha logo atrás, e Mu ficou todo empolgado ao vê-lo.

“Camus! Vem, você vai dançar, não vai? Vamos lá!” Ele puxou Camus com ele, e o ruivo se viu arrastado, com uma expressão incrédula no rosto.

“Não acredito nisso!” Ouvi Saga rosnar com os olhos cravados em Mu. Aparentemente, não era só eu que não estava gostando nada de ver Mu se rebolar todo para cima de Camus, que inclusive pareceu gostar e começou a dançar junto, ainda que meio travado.

Mu tinha um sorriso cativante enquanto dançava. Era mesmo difícil resistir.

“Opa, as coisas estão esquentando!” Milo comentou animado. “Vamos lá também, minha linda?” Ele perguntou para Shina, inclinando-se com a mão estendida.

O lugar estava começando a lotar.

Shina riu e aceitou, e Milo ainda comprou umas bebidas antes de ir para pista com a namorada. Ele ofereceu outro copo para Mu, o que não achei que era uma boa ideia. Ele já estava alegrinho demais. Poderia acabar passando mal.

“Você não vai lá arrancar seu protegido dos braços daquele ruivo?” Saga me perguntou olhando feio para a cena. “Ele já tinha comentado que era doido por ruivos...”

“Ugh. Vocês conversaram sobre que tipos de caras vocês curtem?” Perguntei com uma careta.

“Eu não tenho vergonha de sentir atração por homens.” Saga me cortou feito a lâmina afiada de um faca. “Diferentemente de você, ao que parece.”

“Não sinto atração por homem nenhum.” Falei com a voz arrastada pela bebida.

“Não?” Ele riu debochado. “Então pare de dificultar as coisas entre Mu e eu. Aposto que se não fosse por você, eu já teria conseguido ficar com ele.”

“Por que diz isso?” Perguntei curioso.

Saga me encarou com desprezo antes de deixar o bar. Olhei para Shiryu, que conversava mais distante com uma morena e parecia bem entusiasmado com a oportunidade. Ao menos ele era hétero. Um a menos para eu me preocupar.

Que droga! Não consigo parar de pensar nessas coisas estranhas. Eu tentava me convencer que apenas queria proteger Mu, que parecia tão novo e ingênuo, mas... ficava cada vez mais evidente – se é que não esteve sempre –, que era muito mais do que isso.

Mas eu ainda podia culpar a minha abstinência.

Resolvi ir pegar um ar no terraço do lugar. Sabia que não tinha perigo deixar Camus com Mu. Ele recém terminara com a namorada, e só viera até ali por insistência de Milo. Eu duvidava que ele fosse afogar as mágoas em um homem, por mais atraente que esse homem pudesse ser.

Estava fresquinho do lado de fora. Me apoiei no parapeito e tentei pensar com clareza. Talvez fosse melhor eu dizer ao Mu que não queria que ele morasse mais lá em casa. Isso facilitaria as coisas. Eu não mais o veria desfilando sem camisa, ou o pegaria só de toalha no meu quarto. Nosso único contato, mínimo, seria nas aulas de cálculo. Em poucos dias, eu nem lembraria mais que já estive atraído por outro homem.

Não sei quanto tempo passei ali considerando minhas opções, até que uma voz bem conhecida me chamou.

“Olia! O que você está fazendo aqui?” Era Mu, todo corado e alegre, afetado pela bebida. Estava sozinho.

“Vim pegar um ar, e você?”

“Eu também! Está tão quente lá dentro. Eu já estava ficando sufocado!” Ele contou enquanto se aproximava. Se apoiou ao parapeito também e respirou fundo. “Camus é tão legal! Mesmo sendo hétero não se importou de dançar comigo! Isso é raro de encontrar, sabia? Só mostra como ele tem certeza de si mesmo e não fica todo ofendido se algum gay se aproxima.”

“Ele não sabe que você é gay.”

“Claro que sabe! Que hétero ficaria chamando um bando de homens para dançar no lugar de chamar alguma garota?” Mu respondeu distraído.

“Verdade... O jeito que você dança também é bastante sugestivo.” Murmurei, mas dessa vez não foi baixo o suficiente para que Mu não escutasse.

“Sério?” Mu riu e se desencostou do parapeito. Virei de lado para encará-lo e quase caí dali de cima quando ele sorriu endiabrado e começou a dançar, usando a música que vinha lá de baixo como ritmo. “Assim?”

“Mu...” Chamei em aviso, sentindo meu corpo corresponder à visão. Ele desceu uma das mãos pelo torso, em direção àquele lugar proibido.

Eu o parei antes que ele descesse demais. Ele riu da minha consternação.

“Não precisa ficar assim!” Ele riu ainda mais. Era óbvio que estava bêbado. “Só estou brincando com você.”

“Não tem graça.” Resmunguei.

“Alguém está de mau-humor.” Mu cantarolou. Depois me olhou atentamente, como que se lembrando de alguma coisa. “Hei! Que fase ruim é essa que você está passando? Sabe, a que o Milo comentou?”

Só mesmo um bêbado seria tão intrometido e direto. Passei as mãos pelos meus cabelos e suspirei frustrado. A pergunta acabava de me lembrar que eu estava sem sexo há setenta e seis dias. Isso estava me fazendo um mal danado.

“Não importa. Amanhã você nem vai lembrar mesmo, se eu te responder.” Girei os olhos, enquanto Mu abria uma careta de ultraje.

“É claro que vou! Eu estou perfeitamente sóbrio! Olha, até consigo fazer o quatro...” Ele garantiu, com a voz emborrachada, e aí tentou apoiar um pé no joelho e fazer o quatro. Obviamente não demorou nem um segundo para ele se desequilibrar e quase ir ao chão.

Felizmente para ele, eu tenho bons reflexos e o segurei, impedindo o desastre.

Infelizmente para mim, nossos rostos ficaram bem perto, e ele ergueu aqueles olhos verdes lindos para mim como se o contato o estivesse afetando tanto quanto estava me afetando. Eu instintivamente o apoiei contra o parapeito da sacada e diminui ainda mais a distância entre nossos lábios.

“Me pergunto se você vai se lembrar disso amanhã...” Eu murmurei, deslizando minha mão para a nuca dele e segurando seus cabelos macios e úmidos de suor entre meus dedos.

Ele ofegou baixinho, confuso, assim que me inclinei e o beijei sem hesitar. Segurei seus cabelos com mais força e deslizei minha língua pelos lábios dele antes de buscar um contato mais íntimo. Mu segurou meus ombros e fechou os olhos, soltando um ‘hmmm’ de aprovação quando nossas línguas se encontraram e começaram uma dança primeiro lenta e sensual, depois mais ousada e ansiosa.

Ele tinha gosto de álcool, mas também algo de delicioso por trás, como se eu estivesse saboreando um doce proibido. E, bem, eu estava, já que eu estava agarrando um homem! Que poderia ter traços mais suaves do que a maioria dos caras, e menos pelos no corpo, e uma pele pálida e sem nenhuma marca ou defeito, mas ainda assim um homem!

Mas, diabos, era tão bom.

Pressionei mais meu corpo contra o dele e impus um ritmo mais ardente, segurando-o com força pelo quadril e pela nuca e movendo lentamente minha cintura de modo que eu pudesse buscar algum alívio, mesmo que mínimo, para a minha ereção nascente. Ah, sim, eu estava ficando perigosamente excitado.

Gemi contra a boca de Mu, louco para fazer mais do que aquilo; mas então uma exclamação de susto me refreou, e eu pulei para trás, acordando do meu transe maluco, em que me deixava levar pela minha necessidade carnal mais primitiva e agarrava o homem que estava morando na minha casa.

“Ele é seu aluno, seu pervertido!”

Era o Shiryu junto à garota com quem estivera conversando antes. Trinquei a mandíbula, enquanto me sentia terrivelmente culpado. É, ele estava certo. Eu estava agarrando um aluno. Se a faculdade descobrisse, eu provavelmente seria demitido. Além de, claro, o fato de ser um envolvimento entre dois homens vir de bônus para o chute no traseiro que eu receberia.

E ainda havia o fato de que Mu estava bêbado, e eu havia me aproveitado disso.

“Não conte a ninguém.” Pedi, sentindo-me estúpido.

Mu, depois de piscar aturdido algumas vezes, abriu um sorriso ao focar Shiryu em seu campo de visão.

“Shiryu! Eu estava com saudades!” Mu foi até ele e o abraçou, praticamente caindo nos braços dele, mal se aguentando em pé.

“Sorte sua que o Saga não viu isso, senão...“

“Seria bom mesmo se ele tivesse visto, assim não ficaria mais enchendo a paciência...” Resmunguei para mim mesmo. Felizmente nenhum deles pareceu me escutar.

“Ah, ele é tão bonitinho e querido. E olha esses cabelos! Adoro tocá-los!” A garota do Shiryu tocou gentilmente os cabelos de um Mu bastante bêbado e manhoso.

“Eu não quero mais dançar...” Mu murmurou, parecendo prestes a cair no sono apoiado em Shiryu.

“Eu vou levar ele para casa. Daqui a pouco ele vai começar a dormir no chão da festa.” Eu disse, me adiantando e puxando Mu para mim. Ele se aconchegou nos meus braços e fechou os olhos. “Vocês dois podem fazer o que tinham em mente quando subiram até aqui juntinhos.” Brinquei.

Depois achei que não havia sido uma boa ideia. Eu precisava que Shiryu mantivesse a boca fechada. Felizmente eles não pareceram se importar com a brincadeira.

“Tchau, professor! Cuida bem do Muzinho!” A garota gritou, e só então percebi que também era uma das minhas alunas de Cálculo, acho que colega dos garotos.

“É, é.” Resmunguei. “Estudem para o teste de segunda-feira!” Ainda gritei, com meu lado de professor exigente.

“Hei, pra onde você tá me levando?” Mu perguntou assim que saímos da festa. “A gente mal chegou! Não quero ir embora...”

Já eram quase três da manhã, realmente não estávamos ali há tanto tempo assim, mas tempo suficiente para que Mu se enchesse de álcool.

“Você está quase caindo. Bebeu demais.” Eu alertei. Tá, eu estava parecendo um velho chato, mas não achava seguro deixar Mu naquela festa estando assim tão bêbado. Vai que alguém tentasse agarrar?

‘Tipo você, seu aproveitador!’ Minha mente acusou, mas eu enxotei o pensamento. Eu não era muito do tipo de ficar me arrependendo do que havia feito, ou do que já havia acontecido. O melhor era não pensar muito naquele beijo por hora.

Mas Mu fez o favor de relembrar.

Ele parou subitamente, enquanto eu chamava um táxi, e soltou uma risada abafada pelo nariz.

“Você me beijou!” Ele parecia perceber só agora, e eu não consegui não revirar os olhos. “Você me deseja,” ele cantarolou zombeteiro, sorrindo e passando os braços por meus ombros. “Você quer beijar a minha boca...”

“Você quer ficar quieto?” Perguntei irritado, sentindo um calor se espalhar pelo meu corpo e se concentrar nos países baixos. Certo, mau sinal, principalmente quando estou no meio da rua.

Mu riu da minha exasperação.

“Você não era hétero?” Ele perguntou então, erguendo as sobrancelhas em confusão.

“Eu sou. Eu acho... Ah, vamos parar com os rótulos!” Eu não queria pensar nisso. Eu obviamente não era tão hétero quanto imaginava, não é?

Claro, não era como se de um momento para o outro eu fosse começar a reparar em outros caras, ou sair comprando revistas pornôs masculinas, mas eu estava interessado em Mu. Era inegável, e era patético continuar fingindo o contrário.

“Hmm... sem rótulos, então. Você pode me beijar de novo, sem rótulos...” Ele sugeriu perto de meu ouvido, e eu estremeci, bem no momento em que um táxi parou à nossa frente. Empurrei Mu para dentro e entrei em seguida, antes que eu resolvesse agarrá-lo de novo no meio da rua.

Dei o endereço ao taxista, e aí me virei para Mu, tentado a fazer o que ele sugerira, mas ele havia aproveitado para se aninhar no banco e voltar a cochilar. Suspirei resignado e me acomodei também no banco, olhando para Mu pelo canto dos olhos.

Ele era lindo. Do tipo que chamava a atenção mesmo sem se esforçar. Não só pelos seus cabelos, mas por algo natural dele. O jeito de caminhar, a forma como olhava para os outros, ou sorria, ou como ficava aéreo em alguns momentos, desligado do mundo cantarolando músicas dos Beatles.

Seria possível que apenas em uma semana eu houvesse me afeiçoado e me deixado cativar tanto por ele?

Em uma única semana? Esse tipo de atração fulminante existia mesmo? Talvez eu devesse começar a acreditar mais em filmes de comédia romântica. Até então eu achava todos estúpidos e bregas. Não. Provavelmente eu continuarei a achar esses filmes idiotas.

Precisei carregar Mu no colo assim que o táxi parou. Entrei em casa e subi as escadas. Até pensei em levá-lo para o quarto dele, mas minhas pernas acabaram nos levando para o meu quarto, e eu o deitei na minha cama. Tirei os sapatos dele e depois os meus, e deitei também.

O abracei pela cintura e colei as costas deles contra meu torso.

Não demorei a cair também no sono.


Notas finais
Yey! Para quem estava querendo o beijo, aí está! Espero que tenham gostado! Obrigada pelas reviews e espero que essa atualização rápida tenha compensado a demora de dois meses de antes!
Beijos!