Let It Be

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Mais um capítulo novinho para vocês! Dessa vez no ponto de visão do Mu! Espero que gostem dessa troca! :D
Música do capítulo: She Loves You - Beatles. :)

Acordei com uma terrível dor de cabeça. Latejava tanto que eu mal consegui abrir os olhos, mas precisei fazê-lo ao sentir um peso circundado minha cintura. Consegui entreabrir os olhos e ver que se tratava de um braço.

Levei um susto tão grande que rolei para fora da cama e caí no chão feito fruta podre. Imediatamente algo molhado começou a lamber meu rosto. Era Átila.

“Átila, para com isso!” Sussurrei, antes que eu começasse a ter um dos meus ataques de asma. Eu me sentei e espiei o lugar onde eu estivera dormindo, e arregalei os olhos ao ver Aiolia jogado sobre o colchão, parecendo que não iria acordar pelo próximo decênio.

Mas o que diabos eu fiz noite passada para acabar na cama do Aiolia? Eu não me lembrava de muita coisa. Em algum momento minhas memórias terminavam. Eu só me lembrava de ter dançado com aquele monumento ruivo, e depois... e depois era tudo um grande e confuso mistério.

Oh, Deus, eu devo ter chegado bêbado da festa, depois dele, e errado de quarto! Sim, era óbvio que era isso! Me levantei e praticamente corri do quarto. Imagina se Aiolia houvesse acordado primeiro? Ele iria achar que, sei lá, eu sou um gay tarado e abusado, e provavelmente iria mandar eu procurar outro lugar para morar!

Ok, talvez eu esteja exagerando, afinal, ele é uma ótima pessoa e não pareceu nada ofendido quando eu contei sobre a minha homossexualidade, mas vai saber? Eu não o conheço o suficiente para por a minha mão no fogo. No mínimo, ficaria um clima bem estranho entre a gente, e eu não queria isso.

Eu estava me sentindo um trapo. Um gosto de bebida amarga na boca, uma baita dor de cabeça e cheiro de cigarro nas roupas. Eu precisava de um banho. Eu não queria acordar Aiolia fazendo barulho no banheiro dele, mas eu não tinha escolha. Se tem uma coisa que eu não suporto, é me sentir sujo. Está incluso na minha mania de limpeza.

Eu ainda tenho arrepios quando lembro de como o quarto de hóspedes estava sujo e poeirento quando eu cheguei. Ainda bem que Aiolia chamou uma faxineira. Eu mal consegui dormir sabendo que havia um cômodo tão sujo na casa, na primeira noite, quando fiquei no sofá da sala. Tá, mentira, eu capotei e dormi feito um morto, mas só porque eu estava muito cansado da viagem.

Enfim, fui para meu quarto e peguei umas roupas limpas e uma toalha. Depois me esgueirei de novo para o quarto de Aiolia.

“Átila, mantenha-se quieto!” Sussurrei quando o cachorro, deitado com a cabeça entre as patas, me olhou e começou a balançar o rabo, como se prestes a saltar e me esmagar contra o chão como ele adorava fazer. Aiolia resmungou alguma coisa e mudou de posição na cama.

Corri para o banheiro e respirei fundo, aliviado, depois de fechar a porta e chaveá-la. Tomei um banho rápido, mas restaurador. Isso se você considerar um banho de meia hora rápido. Quero dizer, para os meus padrões, isso é um recorde. Eu não sei como Aiolia ainda não havia reclamado do tempo que eu gasto embaixo da água.

Talvez ele compreendesse que com esses cabelos enormes, eu preciso de mais tempo do que um cara normal no banho. Eu acho que Aiolia leva uns quinze minutos, se muito. E ele está sempre cheiroso. Se tem uma coisa que eu já reparei nele, foi no cheiro que ele desprende e parece impregnar toda a casa. Um cheiro masculino, amadeirado e inebriante.

Certo, a quem eu estou tentando enganar? Eu já reparei em bem mais do que isso. Eu posso ter uma queda por ruivos, mas Aiolia era tudo e mais um pouco mesmo com seus cabelos cobres que, por sinal, eram bastante charmosos. Ligeiramente ondulados e desgrenhados. E, assim, eu tenho olhos verdes, mas os olhos de Aiolia dão de dez a zero nos meus. Acho que é por causa do modo como ele encara as pessoas. Um jeito sério e intenso, do tipo que não deixa escapar nada.

Não é por nada que as garotas ficam suspirando na aula dele o tempo todo. E, claro, eu nem comentei sobre o físico forte e atlético dele. Eu tenho que me esforçar para ficar indiferente quando ele resolve fazer algum passeio sem camisa pela casa. Isso deveria ser proibido. Se eu pudesse, baixaria uma regra: homens héteros não devem desfilar sem camisa na minha frente a não ser que queiram ser agarrados. Sério.

Quando saí do banheiro, dei de cara com Aiolia. Acabei engolindo em seco e senti meu rosto esquentar. Maldita mania de corar por tudo. Eu coro quando estou com raiva, com frio, com calor, com vergonha, com culpa. No momento eu me sentia culpado. Será que ele sabia que eu havia me esgueirado para a cama dele no meio da noite?

Desviei o olhar, mordendo o lábio inferior.

“Bom dia.” Aiolia cumprimentou, e também parecia constrangido. Sabe, senti um ar meio estranho vindo dele também.

Ah, meu Deus, ele sabe que eu dormi na cama dele! Merda, merda, merda!

“Oi...” Murmurei. “Desculpa se te acordei, mas eu estava precisando muito de um banho.”

“Sem problemas. Já são quase onze horas.” Aiolia deu um passo para mais perto e eu retesei, erguendo o olhar com minhas pálpebras ligeiramente arregaladas. Isso o fez parar. Ok, eu estava definitivamente surtando. Por um momento achei que ele iria me bater por ter abusado dele enquanto ele dormia.

Eu sei, eu não abusei, mas como eu poderia comprovar isso? Só se Átila falasse e, sério, eu prefiro que ele continue só latindo. Enfim, Aiolia obviamente não ia me bater. Respirei fundo, tentando pensar com clareza. Foi quando Aiolia fez uma pergunta que me deixou pálido.

“Você se lembra de tudo que rolou na noite passada?”

Essa era a comprovação que eu precisava de que havia feito arte.

“Erm... não me lembro de muita coisa. Sério,” soltei uma risada nervosa. “se eu fiz alguma bobagem, você me perdoa?”

Aiolia piscou os olhos, parecendo surpreso com o meu pedido. Ou talvez estivesse achando que era muita cara de pau eu pedir perdão depois de fazer... de fazer sei lá o que eu havia feito. Encarei-o com a minha expressão mais inocente e arrependida do mundo.

“Não tem o que perdoar.” Aiolia balançou a cabeça. “Eu vou ir tomar um banho também. Depois a gente pode sair para almoçar, o que você acha?”

“Oh, okay.” Assenti bobamente, e permaneci plantando no meio do quarto por um tempo depois de ele ter entrado no banheiro. Átila veio farejar algo nos meus pés, e depois começou a se rebolar todo na minha frente querendo carinho.

Só depois de alguns minutos a ficha caiu. Aiolia havia acabado de me convidar para sair? Senti um arrepio percorrer minha espinha, mas depois disse a mim mesmo que isso não era nada. Há poucos dias eu o havia encontrado aos beijos com a Marin, e ele quase teve um ataque de ciúmes quando pensou que eu havia dado em cima dela.

Suspirei aliviado ao chegar à conclusão de que ele havia me convidado apenas como amigo. Eu fico tão nervoso em encontros de verdade! Gaguejo e fico torcendo as mãos sem saber o que falar ou fazer. Motivo pelo qual eu costumo evitá-los. Não que eu receba muitos convites, ou já tenho ido a muitos, mas nas poucas vezes em que eu aceitei sair com algum cara, eu fui um completo fracasso.

Desci para sala para esperar Aiolia, e Átila me seguiu, talvez pensando que também fosse sair para passear conosco. Desde que eu não precisasse segurar a guia dele, por mim tudo bem. Átila parecia ter o dobro de força que eu e havia me arrastado por vários quarteirões da última vez que tentei levá-lo para dar uma volta.

Me distraí e, como sempre acontecia quando eu entrava no mundo da lua, comecei a cantarolar.

She says she loves you

And you know that can't be bad

She loves you

And you know you should be glad

“Eu já comentei que você canta muito bem?” A voz de Aiolia fez com que eu engolisse meu canto e olhasse em direção das escadas. Eu havia deitado no sofá e fechado os olhos enquanto acariciava distraidamente o topo da cabeça de Átila. Sorri para Aiolia e pulei do sofá.

“Não comentou. Quer dizer, comentou agora,” Cocei a bochecha, sem jeito com o elogio. “mas, sério, eu estou morto de fome. Eu sei que você adoraria que eu continuasse cantando só para você, mas eu preciso de comida para ontem.”

“Vamos indo então, apressadinho.” Aiolia riu. Eu já comentei que ele tem um sorriso lindo? Acho que já, mas deixa para lá. Eu tenho uma regra: nunca reparar demais em héteros. Não vale a pena. “Antes que você resolva comer os móveis, como Átila.” Aiolia olhou feio em direção o sofá e eu segui seu olhar.

Átila aparentemente descobrira que o sofá tinha um sabor gostoso e mordia o estofado com cobiça.

“Átila, para com isso!” Aiolia foi até ele e tentou afastá-lo, mas isso só fez com que o cachorro soltasse um rosnado, balançasse o rabo ainda mais animadamente e olhasse para o dono em desafio, tudo isso sem parar de morder o pobre e inocente sofá.

Os dois começaram uma briga pela salvação ou destruição do estofado, e eu revirei os olhos para a cena. Aiolia não conseguia obediência do próprio cachorro!

“Átila, se você parar, vai poder sair para passear com a gente!” Exclamei, e imediatamente o cachorro largou o estofado. Aiolia se virou para mim e me encarou incrédulo.

“Você só está aqui há uma semana e já sabe lidar com o meu cachorro melhor do que eu!” Ele acusou.

Soltei uma risada da expressão dele.

“Vem, Átila, deixa esse pateta para trás.” Fiz sinal para o cachorro e segui para a porta de saída. Aiolia bufou quando Átila passou rebolando feliz por ele, quase o derrubando, e não restou nada a ele além de nos seguir também.

Coloquei a guia no Átila e começamos a caminhar lado a lado.

“É perto daqui?” Perguntei.

“É, dá para ir a pé, mas não sei não, acho que não vão deixar o Átila entrar no restaurante.” Ele avisou.

“Ora, a gente pode ir a um lugar menos pomposo que aceite o nosso cachorro.” Falei acariciando Átila atrás das orelhas e fazendo-o latir em concordância.

Nosso cachorro?” Aiolia perguntou com um toque divertido na voz. Corei ao perceber o que havia dito, mas então dei de ombros.

“Você entendeu o que eu quis dizer. Aliás, nós dois andando assim juntos, com Átila, até parecemos um adorável casal aproveitando uma tarde de domingo, não acha?” Eu estava só querendo implicar. Tinha mania de fazer isso com todos os meus amigos.

Mas eu não esperava que Aiolia concordasse.

“Claro,” Ele assentiu, e passou o braço pela minha cintura antes de aproximar os lábios do meu ouvido. “então vamos fazer direito o nosso papel, não é?”

Meu corpo inteiro se arrepiou. Eu soltei uma risada e dei uma cotovelada embaixo das costelas dele.

“Não precisa representar tão bem assim.” Avisei. “Eu não quero ter problemas com a Marin depois.”

A expressão de Aiolia tornou-se séria assim que o nome Marin saiu da minha boca. Ele ficou em silêncio por alguns minutos antes de soltar a bomba.

“Não sei como eu e a Marin estamos. Nós brigamos ontem na festa. Ela diz que eu só quero saber de sexo.” Ele falou com os lábios torcidos de deboche. Ergui as sobrancelhas.

“Ela não gosta de sexo?” Perguntei tentando acabar com o clima ruim.

“Aparentemente não, já que estou há dez semanas sem sexo por causa dela!” Aiolia exclamou indignado. Eu parei de caminhar e o encarei perplexo enquanto o braço que circundava meus ombros caía ao lado do corpo dele.

“Isso é sério? Você está na seca por uma garota há tanto tempo assim?” Perguntei admirado. Caras assim eram difíceis de achar. “Você deve gostar mesmo dela.”

“O quê? Não! Quero dizer, eu não sei... Às vezes ela complica demais.” Ele falou deixando os ombros caírem.

“Ora, e quando garotas não complicam?” Brinquei, dando alguns tapinhas consoladores no braço dele antes de voltar a caminhar. Átila estava ficando impaciente por não usar suas patas largas.

“Suponho que a coisa deva ser mais fácil entre dois homens.” Aiolia sugeriu curiosamente. Eu ri de leve, balançando a cabeça em negativa.

“Não, é complicado da mesma forma, e ainda tem todo o preconceito social para ajudar.” Ironizei. “Mas eu não posso falar com certeza. Nunca namorei.”

“Não?” Aiolia pareceu descrente. “Jurava que você era do tipo namorador.”

“Por que você achou isso?” Eu ri alto. E, antes de mais nada, por que ele chegou a pensar sobre a minha vida amorosa?

“Pela maneira como você se insinuou para o Camus ontem, dançando todo atirado, é apenas natural que eu pensasse isso.” Aiolia falou com um sorrisinho no canto dos lábios.

“Mentiroso!” Exclamei em um ultraje fingido e dei um soco no braço dele, fazendo-o rir. “Não fique inventando coisas só porque eu estava bêbado e não lembro de nada!”

“Não lembra mesmo? De nada?” Ele perguntou em um tom dúbio. Eu mordi o lábio inferior.

“Não... nunca tinha bebido tanto antes. Nem sei como cheguei em casa!” Ri, meio desconcertado. “Então pare de inventar!”

“E quem está inventando? Na próxima vez eu vou gravar, você vai ver só...” Aiolia ameaçou.

Nós seguimos o resto do caminho conversando sobre uma bobagem ou outra, e aos poucos eu ia conhecendo mais sobre ele. Aiolia era muito inteligente – ao menos quando o assunto era matemática e raciocínio lógico. Ele adorava praia e festas, e sempre havia morado na Grécia. Realmente adorava lecionar e era isso que queria fazer da vida.

Ele também adorava todos os tipos de animais, e havia adotado Átila assim que saiu da casa dos pais, há três anos. Ele arriscava tocar um violão e basicamente qualquer tipo de instrumento ele conseguia ‘enrolar’ e fingir que tocava, mas sua voz era um fracasso, segundo ele.

Aiolia contou um pouco por cima sobre seu caso com Marin. Pelo que entendi, ele já havia tido vários casos amorosos, e por isso ela ficava bastante ressabiada. Mas ele não entrou em muitos outros detalhes. Eu não via problema nenhum em ele ter vários casos já que estava solteiro. Isso não queria dizer que ele não seria fiel em um compromisso sério.

Mas não seria eu a condenar Marin por não confiar em Aiolia. Eu sabia muito pouco sobre a relação dos dois para sair tirando conclusões precipitadas.

“Hei, por que não comemos aqui?” Perguntei empolgado ao ver um pequeno e simpático restaurante que tinha vista para o mar, e cujas mesinhas redondas ficavam dispostas do lado de fora. Assim não teríamos problemas em entrar com o Átila.

“Pode ser.” Aiolia assentiu.

A gente se sentou e Aiolia pegou o cardápio, enquanto eu amarrava a guia do Átila na mesa. A vista para praia era ótima, e havia uma descida íngreme por uma escada de pedras até a areia bem branquinha à beira-mar bem ao lado do pequeno restaurante.

“O que você vai querer?” Aiolia perguntou.

“Huuum, algum prato típico grego.” Sugeri. Estava morando na Grécia há uma semana e ainda não havia experimentado nada específico do país!

“Certo.” Aiolia escolheu por mim. Pediu dois bourekis e um tamarasalata. Eu não fazia ideia do que aquilo poderia ser. “Então, você não me contou muito de como é lá pelo Tibet.”

“Ah, não tem muito que contar. Era bem monótono. A minha sorte é que alguns outros garotos também moravam perto do templo, aí a gente sempre inventava o que fazer. Eu tinha um melhor amigo, o Shion. Mas faz tempo que eu não o vejo.” Contei.

“Sente saudades?” Aiolia perguntou em um tom meio contrariado. Ergui as sobrancelhas, mas então dei de ombros.

“Às vezes. Já faz alguns anos que saí do Tibet. Eu pretendo voltar para lá algum dia, rever o meu mestre.”

“Você tinha um mestre?” Aiolia torceu o nariz, e eu ri.

“É, desde bem pequeno. Ele me ensinou-“ Eu estava para contar sobre meus treinamentos em artes marciais quando a comida chegou e meu estômago soltou um ronco constrangedor. “Uau, isso parece bom!”

“É tipo um empanado. E esses rosinhas são tâmaras com carpas defumadas.”

Lambi os lábios, esfomeado, e ergui os olhos ao escutar Aiolia engasgar-se com um tossido.

“Você está bem?”

“Estou ótimo.” Ele afirmou rapidamente, não me parecendo tão bem assim. Mas eu estava com muita fome para me preocupar com algo além da comida na minha frente.

Átila soltou um latido e fez cara de cachorro sem dono ao perceber que já poderia ganhar algum lanchinho.

“Não dê nada para ele.” Aiolia avisou. “Depois ele caga a casa inteira.”

“Será que você poderia entrar em detalhes depois de comermos?” Torci o nariz. Aí levei uma garfada do boureki à boca e suspirei satisfeito com o sabor. “Isso é ótimo.”

Aiolia se contorceu na cadeira, fazendo-me crer que havia de fato algo de bastante estranho com ele.

“Você não vai comer?” Eu não gostava de comer quando havia alguém me encarando tão detidamente.

“Uhum...” Aiolia pôs-se a comer rapidamente, como se estivesse nervoso ou algo assim. Ou talvez ele só estivesse com muita fome também.

Outra coisa sobre mim: eu gosto de comer em silêncio. É um costume que vem desde que eu era pequeno. No templo era proibido falar durante as refeições. Aiolia ficou em silêncio também, parecendo perdido em pensamentos.

Antes que terminássemos de comer, porém, Átila soltou um latido e disparou quando viu um gato correndo escada abaixo em direção à praia. Se lembra que eu havia prendido a guia dele na mesa? Pois é, acho que não preciso dizer que ele saiu arrastando a mesa junto, deixando eu e o Aiolia ali sentados, com cara de tacho.

Depois que o susto e a incredulidade passou, eu me levantei ao mesmo tempo que Aiolia.

“Merda de cachorro burro!” Aiolia berrou e saiu correndo atrás de Átila. O dono do restaurante saiu e eu arregalei os olhos, vermelho de vergonha pela cena.

“A gente paga pela mesa e pela comida depois!” Avisei antes de sair correndo atrás do Átila e o Aiolia. A mesa havia ficado pela metade do caminho das escadas. Átila já havia alcançado a areia, e o Aiolia estava quase chegando ao fim dos degraus.

Desci tão rápido que não sei como não tropecei e acabei rolando por todo caminho. Tá, na verdade eu tropecei, lá pelos últimos degraus, e adivinha? Caí bem em cima do Aiolia, levando-o comigo contra a areia.

“Outh.” Fiquei com pena ao ver o rosto dele afundado no chão. Posso apostar que ele comeu alguns bons grãos de areia.

“Desculpa!” Exclamei culpado e saí rapidamente de cima dele. Aiolia se ergueu um pouco e começou a cuspir e tossir.

“Tudo bem e... Ah, não, é melhor a gente correr antes que ele resolva atacar mais gente!” Aiolia avisou. Olhei na mesma direção que ele e vi que Átila estava rodando e latindo para uma senhora de idade que caminhava tranquilamente pela beira da praia. O gato havia sido esquecido.

“Vem!” Puxei Aiolia do chão e voltamos a correr. Em algum momento eu comecei a rir, enquanto sentia o vento bater contra meu rosto e jogar meus cabelos para trás.

Aiolia me olhou como se eu tivesse batido a cabeça, mas acabou soltando uma risada também.

“Átila!” Ele chamou quando estávamos perto. Átila nos viu e fez aquela cara que cachorro faz quando vai aprontar – não que ele já não houvesse aprontado. Ele deu um pulo e se colocou em posição de ataque, e aí disparou de novo para longe de nós.

“Desculpa!” Eu pedi para a senhora, que tinha a mão sobre o coração. Ela assentiu fracamente, e aí riu dos dois marmanjos correndo atrás do cachorro. “Você está bem?”

“Estou sim. Não se preocupe.” Ele avisou. “É melhor você voltar a correr ou vai ficar para trás.”

Olhei para a esquerda e vi que Aiolia estava correndo em círculos atrás de Átila a certa distância dali. Soltei outra risada. A cena era hilária de tão patética. Aiolia tentou se jogar em cima do cachorro, até conseguiu segurá-lo, mas Átila escorregou por entre seus braços e voltou a correr, de volta para a minha direção.

Eu corri para frente dele e tentei me fazer de barreira. Má ideia, já que Átila pulou em cima de mim e começou a me lamber sem parar.

“Não, não! Átila, para! Senta!” Tentei tirar ele de cima de mim, mas isso só foi possível quando Aiolia nos alcançou e o segurou pela guia novamente.

“Cachorro mau!” Ele xingou, e Átila ainda teve a cara de pau de soltar um choramingo inocente. Eu me sentei, rindo, e tirei minha bombinha do bolso. Me acalmei depois de usá-la, mas a risada ainda insistia em querer escapar da minha garganta.

Aiolia caiu sentado do meu lado e foi a vez dele receber umas lambidas carinhosas e cheias de baba de Átila. Ele estava ofegante por entre risadas entrecortadas.

“Acho que o dono do restaurante não vai nos querer como clientes de novo.” Comentei bem humorado.

“Ah, restaurantes é o que não falta por aqui.” Aiolia desconsiderou, sorrindo e acariciando Átila, que se sentou pondo a língua para fora.

“Ao menos deu para matar a fome.” Deitei de novo na areia. “Esse cheiro de mar é tão bom...”

Fechei os olhos, sentindo-me ligeiramente sonolento, com a barriga cheia, o sol gostoso na pele e o som das ondas bem perto. Não sei quantos minutos fiquei assim até que senti um carinho suave no meu rosto. Abri os olhos e pude ver Aiolia afastando a mão rapidamente.

“Sua pele é... tão macia.” Ele disse entre envergonhado e admirado.

Meu rosto esquentou e acho que ruborizei. Senti vontade de beijá-lo ao ver seu rosto iluminado pelo sol, os cabelos cor de bronze jogados para trás, ondulando com o vento.

Eu me sentei rápido e o beijei de leve na bochecha.

Ai meu Buda! O que eu havia acabado de fazer? Eu não era assim! Não era impulsivo e nunca agia sem ponderar bem minhas atitudes, então por que raios eu havia beijado um cara hétero, que estava totalmente apaixonado por uma garota a ponto de aceitar ficar noventa dias sem sexo por ela, assim sem mais nem menos? ‘Tá, eu sei que foi só um beijo na bochecha, mas ainda assim...

Meu rosto estava queimando. Átila soltou um latido e resfolegou ao nosso lado.

“Oh, droga,” Murmurei. “Isso foi... eu não queria... Desculpe...” Murmurei.

“Do que você está se desculpando?” Aiolia perguntou, com um tom tão normal, que eu o encarei completamente aturdido. Certo, então talvez eu esteja exagerando. Suspirei aliviado ao ver que ele não havia ficado desconfortável com a minha atitude.

Veja bem, eu nunca desrespeitaria um cara hétero. Uma vez que eu sei que o cara não tem interesse algum em outros homens, eu mantenho uma distância respeitosa e jamais lançaria sequer um flerte nele. Mas Aiolia... Deuses! Aiolia me deixava todo arrepiado apenas com o olhar! Era melhor eu cuidar para não me deixar levar por essa súbita atração que experimentei nessa última semana, ou acabaria estragando a amizade que estava surgindo entre nós.

Eu gosto tanto dos momentos que passamos juntos!

“Por nada.” Falei, balançando a cabeça e tirando alguns fios rebeldes de cabelo dos olhos. “Vamos indo? Ainda temos de pagar pela bagunça do Átila.”

Átila latiu, sacudindo o rabo sem parecer nada culpado.

“Claro, vamos... Ainda podemos tomar um sorvete no caminho de volta.” Aiolia falou, levantando e estendendo a mão para mim. A visão do sol batendo em seu corpo atlético me fez engolir em seco. Eu aceitei a ajuda e tentei não estremecer com o toque em sua mão quente e maior.

“Só se você pagar.” Gracejei, em parte porque não havia trazido muito dinheiro.

“Alguém já te disse que você é muito abusado?” Ele ponderou. Átila latiu. “Você também, Átila.”

Eu ri, sacudindo os ombros.

"Eu estava só brincando..." Falei timidamente. Aiolia revirou os olhos.

“É claro que eu pago.” Surpreendentemente, ele segurou meu pulso e me puxou, beijando-me na bochecha exatamente como eu havia feito com ele. Meu rosto voltou a arder enquanto ele abria um sorriso no canto dos lábios.

E mais tarde ele realmente pagou um sorvete para mim, que acabou derretendo e caindo quase todo no chão porque Átila achou-se no direito de jogar as patas em cima de mim e meter o focinho no meu sorvete. Aiolia ofereceu o dele de chocolate, empurrando-o contra meus lábios e me encarando atentamente enquanto eu arriscava capturar um pouco do sorvete com os lábios.

De novo eu estava todo arrepiado por seu olhar intenso.

Quando voltamos para casa, eu estava ciente de que essa convivência acabaria complicando as coisas para mim. Eu não queria me deixar cativar por alguém que nunca poderia ter.

Por que Aiolia tinha de ser tão legal e irresistível? Milo deveria ter me mandado para a casa de um amigo gordo, feio e chato! Ah, vida injusta...