Leo teve um sonho agitado. Talvez o fato de estar muito preocupado mexeu com seu psicológico e trouxe lembranças do passado. Leo sonhou de novo com o dia da morte de seus pais, o sonho foi exatamente igual àquele da noite em que Mike alertara Leo para tomar cuidado e não sair do orfanato. Ele ainda estava lá, chorando no berço do laboratório enquanto seus pais terminavam de aprisionar sua magia na varinha que estava no seu bolso traseiro agora.

Aquele sonho o incomodava, mas ainda assim gostou de sonhá-lo novamente, era a única lembrança que tinha dos pais, não tinha nenhuma foto deles, tudo o que tinha era aquele sonho. Leo ficava triste por isso, não sabia como os pais eram, só lembrava da morte deles, das últimas palavras do pai e dos gritos da mãe. Leo só queria lembrar-se mais ou até mesmo que o sonho se repetisse mais, apesar de ser triste ele se sentia seguro quando pensava nos pais e do que eles fizeram para salvá-lo.

Mas dessa vez o sonho só aconteceu uma vez. Leo pensou que ele se repetiria como na outra noite, mas foi acordado, não por Emily como ele esperava, mas por uma forte e ensurdecedora explosão da porta principal. Uma névoa densa entrava pelo buraco da porta então Leo não percebeu de imediato o que aconteceu. Mike e Emily desceram as escadas rapidamente e ficaram a observar o lugar que antes tinha uma porta.

Leo estava morrendo de medo. Leo deu um grito que foi compartilhado por seus amigos quando os Dixens entraram. Ficou sem ação por alguns segundos, não tinham pensado num plano caso isso acontecesse.

O primeiro Dixen que entrou parecia ser o líder do grupo. Leo tinha a impressão de que já vira ele antes. Mike e Emily também conheciam por que olharam preocupados para Leo como se tivessem medo do que ele poderia fazer.

Depois de um tempo Leo conseguiu se lembrar quem era, aqueles cabelos negros e os olhos impiedosos não deixavam dúvida. Era ele, aquele que matou seus pais e morreu na mesma ocasião, o pai de Scott, Christian. Estava com as mesmas roupas do sonho, um sobretudo preto, camisa branca, calças combinando com o sobretudo e sapatos italianos de bico fino.

Leo já tinha imaginado que isso pudesse acontecer e jurou a si mesmo que encontraria um jeito de destruir Christian como ele fez com os pais de Leo, mesmo ele sendo um Dixen desprezível. Mas não fez nada, estava apavorado e não conseguia agir. Ele encarou o bem no centro da pupila sem vida dos olhos de Christian, mas não por muito tempo, por algum motivo aqueles olhos negros e profundos de Christian colocavam medo em Leo, talvez o fizesse lembrar-se de como Christian matou seus pais impiedosamente.

Christian o atacou tão rápido que Leo não teve tempo de reagir, a sorte é que Emily foi mais ágil e conjurou um escudo na frente de Leo que o protegeu do ataque.

Emily golpeou Christian, mas não adiantou muita coisa, o Dixen bloqueou o feitiço dela e continuou avançando pra cima deles. Leo finalmente tomou coragem, se levantou e fez o mesmo que Emily, acabou acertando um outro Dixen que tentava enfeitiçar Mike.

Se Leo não fizesse isso, com certeza Mike tinha sido acertado, ele ainda estava meio sonolento e seus feitiços não acertavam ninguém, exceto o vaso de planta da mansão que estava no canto da sala.

Leo tentava prender os Dixens, em especial Christian, mas não conseguiu nada além das fitas de múmias

Leo continuava a avançar sobre Christian como se sua honra fosse ferida se ele não fizesse isso. O que era medo se transformou em vingança e o motivou para destruir Christian.

Emily pareceu notar o ódio em Leo e gritou:

–LEO, NÃO ADIANTA MAIS, ELE JÁ ESTÁ MORTO, NÃO PODE FAZER NADA CONTRA ELE!

Leo não deu atenção ao alerta de Emily e lançava feitiços como um louco que eram defendidos sem muita dificuldade por Christian. Sua atenção em Christian fez Leo se esquecer de que havia mais Dixens ali e não percebeu quando um feitiço veio em sua direção que arremessou Leo na parede.

Leo se levantou rapidamente e partiu de novo pra cima de Christian. Tentou de tudo, mas nada parecia funcionar contra os Dixens.

Leo tropeçou na maçaneta da porta que tinha explodido e atirou na cabeça de Christian numa atitude desesperada de machucá-lo, mas ela atravessou e foi parar na cabeça errada, a de Mike que gritou como se estivesse sendo torturado.

–Seu imbecil! – xingou ele – Você realmente achou que isso fosse funcionar?

–Não. Foi mal – desculpou-se Leo.

–Dá para as garotinhas pararem de brigar? – disse Emily – Estamos com problemas.

Nenhum dos dois respondeu. Leo gostava de Emily, mas tinha que admitir que ela era bem arrogante às vezes.

Mais Dixens entravam pelo buraco da porta sem parar. Por mais que Leo tentasse avançar de vez em quando tinha que recuar ao ataque dos Dixens. Lutou o máximo possível, mas chegaram a um ponto que não podiam recuar, esbarraram na parede dos fundos da sala. Estavam cercados.

–O que vamos fazer? – gritou Emily.

–VAMOS LUTAR!

–Se continuarmos lutando, vamos morrer! – disse Emily.

–Temos que fugir! – disse Mike – Eles são muitos, não podemos lutar.

–Mike tem razão Leo, não podemos lutar, nem matá-los, temos que escapar de algum jeito!

Leo não respondeu, sabia que Emily estava certa, mas não podia deixar Christian sem fazer nada. Ele estava agora na frente de Leo, encarando-o. Numa atitude desesperada Leo tentou provocá-lo, sabia que não levaria a lugar nenhum, mas resolveu tentar.

–VAI! ME MATA LOGO, COMO VOCÊ FEZ COM MEUS PAIS!

–Leo, o que está fazendo? – disse Emily – Ele não se lembra, esqueceu? Os Dixens não tem memória de sua antiga vida.

Leo não tinha esquecido, mas o Dixen era exatamente igual a Christian, não tinha como encará-lo e não se lembrar do que ele fez. O jeito com que o Dixen encarava Leo o deixava furioso e começou a dar socos nele, mas era como estar dando socos no ar, ele era como um fantasma.

Mas uma coisa chamou a atenção de Leo e fez ele parar de agir como um retardado. Os Dixens não atacavam mais, só atacaram quando Leo também estava atacando, agora que nem Leo, Mike ou Emily lançavam feitiços eles também pararam, não estavam tentando matar ninguém. Emily parecia ter percebido também e olhou para Leo com dúvida. Mike estava desesperado e não havia percebido ainda, na verdade, ele nunca percebia nada.

Leo decidiu fazer um teste e lançou um feitiço em direção à Christian, ele defendeu, revidou o ataque e depois não fez mais nada. Só o que os Dixens fizeram foi agarrá-los e levá-los para fora da mansão. Eles tentavam resistir, mas era inútil.

–Isso é injusto – disse Mike – Eles conseguem nos pegar e nós nem conseguimos tocar neles.

Pelo menos nisso Mike tinha razão. Eles eram espíritos e conseguia agarrar eles, o natural era que eles atravessassem o corpo deles, como aconteceu quando Leo tentou socá-los.

Leo nunca vira Emily com medo, mas agora ela estava desesperada. Ela sempre tinha um plano.

–O que vamos fazer? – perguntou ela

–Nada – respondeu Leo – Esperem chegarmos do lado de fora. Eu tenho um plano.

Leo realmente queria ter um, mas só disse aquilo para acalmar os amigos. Tinha que pensar num jeito de escaparem rápido. Foram carregados pelos Dixens por toda a sala da mansão que parecia interminável até o lado de fora, na rua e Emily perguntou:

–E aí? Qual é o seu plano?

Leo não respondeu, apenas se contorcia para se livrar dos Dixens. O Dixen que segurava Leo era Christian, ele não era muito robusto nem parecia ter uma força sobrenatural, fazia o maior esforço para segurar Leo. Por um milagre ele conseguiu se soltar, ficou zonzo por alguns segundos, mas retomou a consciência antes que Christian agarrasse ele de novo e atacou os Dixens que seguravam seus amigos. Eles voaram longe, Mike e Emily também ficaram zonzos por um instante, talvez tivessem feito muita força para se soltar.

–CORRAM! – gritou Leo.

–Para onde vamos? – perguntou Emily.

– Para o carro, temos que sair daqui.

Leo estava com medo de que os Dixens tivessem levado o carro embora, mas ele estava ali mesmo onde tinham deixado, do outro lado da rua. O problema é que havia muitos Dixens na frente dele e eles não conseguiam chegar até o carro.

Mike e Emily tentavam afastar todos eles dali com feitiços que rendiam pouco efeito, pois quando conseguia expulsar um Dixen para longe outro já estava encima deles.

A ideia de Leo foi diferente, ele tentava ligar o carro do outro lado da rua com a varinha. Depois de muitas tentativas, ele finalmente conseguiu, aquele carro velho dava trabalho até para ligar.

Naturalmente não havia ninguém na rua, já passavam das 4 horas da manhã, estavam todos dormindo, mas depois do barulho que o carro fez quando ligou várias luzes se acenderam nas casas dos vizinhos fofoqueiros.

O carro andou sozinho e atravessou os Dixens que estavam na frente. Leo posicionou o carro na sua frente e ordenou pra que seus amigos entrassem. Eles entraram e Leo ficou lutando inutilmente contra os Dixens.

–O que você está fazendo? – perguntou Emily – Entra logo nesse carro!

–Vão vocês – disse Leo – Vou ficar aqui cuidando pra que eles não te sigam.

–Pare de ser pateta! Entra logo – disse Emily puxando Leo pra dentro.

Leo caiu no assento do motorista e bateu a cabeça de leve no painel do carro. Leo ordenou pra que carro saísse dali, demorou um pouco pra que ele obedecesse mas no final o carro andou e eles deixaram a mansão de Grayton cheia de Dixens.

– Você é um idiota – xingou Emily – Não banque o herói, não pode fazer tudo sozinho.

– Você tem razão. Desculpe-me – disse Leo.

Emily só olhou pra ele com raiva. Ela não era burra, podia se virar muito bem sozinha, não precisava que ninguém se sacrificasse por ela.

–Pra onde estamos indo? – perguntou Emily.

– Para o orfanato – respondeu Leo.

–O QUE? – disse Emily confusa – Fazer o que lá?

– Tem uma ideia melhor?

–Na verdade, eu tenho. Podemos ir pra outro hotel.

–Lily deve estar confusa, precisamos ajudá-la.

–AH, mas era só o que faltava – reclamou Emily – Deixa aquela mulher pra lá, ela pode estar morta!

–Valeu pela sinceridade – disse Leo – Mas ela pode contar alguma coisa a nosso respeito para os inimigos.

– Genial – exclamou Emily com ironia – Então o seu plano é chegar lá, e falar toda a verdade. Você realmente acha uma boa ideia? Ela não vai acreditar e pode ser ainda pior se ela ficar sabendo de alguma coisa.

–Dá pra confiar em mim? Você nunca confia em ninguém. Deve estar com inveja por que eu sempre resolvo as coisas por aqui!

Leo se arrependeu na mesma hora do que disse, tudo o que não queria era que Emily ficasse nervosa com ele. Além do mais, ele sabia que não era uma boa ideia, mas também não sabia o que fazer nem para onde ir, precisava da ajuda de Lily. Leo nunca resolveu seus problemas sozinho, Lily sempre tinha ajuda e de repente ele se vê lutando sozinho contra monstros, precisava dos conselhos de Lily.

–Então é isso que você acha de mim? – retrucou Emily.

–Sim, é isso o que eu acho. Se não fosse por mim você estaria morta, então ao invés de ficar discutindo comigo deveria estar me agradecendo!

–Não é isso o que eu faço? Eu sempre te agradeço, até mais do que você merece! Mas não farei isso quando formos pegos no orfanato.

–Nós não seremos pegos lá! O orfanato é seguro!

–Não é não, eles vão nos encontrar fácil lá!

–Se isso acontecer nós fugimos, como sempre fazemos tudo bem? Agora só confie em mim!

–Tudo bem, depois que nós formos pegos não diga que não avisei.

Leo achou melhor não responder, se não a discussão nunca terminaria, Emily tinha que dar a palavra final pra se sentir com a razão.

Leo estava preocupado, não queria ter discutido com Emily, agora eles nunca iam ficar juntos. Leo ainda gostava de Emily, apesar de seu jeito arrogante e de nunca se importar com os sentimentos das pessoas, se ela entendesse o que Leo sentia tudo ficaria mais fácil. Ela era diferente de Mike, que não dissera nada até ali, ele sabia que Leo gostava de ficar sozinho às vezes com seus próprios pensamentos por mais que eles fossem preocupantes e assustadores.

A viagem foi silenciosa depois da discussão, ninguém disse nada a não ser Mike perguntando as horas quando viu o sol nascendo por trás dos arranha-céus imponentes do centro da cidade. Eram 06h30min da manhã, Leo não percebera como o tempo passou rápido, muitas coisas aconteceram depois que Mike lhe jogou o travesseiro e o edredom de cima da escada pra que ele não sentisse muito frio enquanto fazia a vigília.