Lembranças de Porto Venere
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Com algum esforço, a um navio poderia ser concedida a chance de recomeçar do zero. Ajeitando-se suas cicatrizes, reservando-as apenas à lembrança daqueles que vivem para contar a história; aos que o destino não dispunha a mesma generosidade. Em dois dias, quem o visse, negaria ter o imponente Stella De La Sera passado por um ataque. A madeira estava polida e sua popa, a principal vítima do massacre, remendada por trabalho tão exímio que arrancou suspiros dos criados de bordo, infantes, que transitavam pelo porto naquela manhã. “Todos os navios são ela” Cícero certa vez lhe explicou, pois os homens deveriam tratá-la como a mulher mais importante de suas vidas. “Uma das mais importantes” Antonieta recordava-se de corrigir, próxima de completar treze anos. A alegria com a qual alisava a madeira do mastro principal, contudo, denunciava o contrário. Deveras, não havia nada mais importante.
— Liscio come un culo appena nato [1]. – elogiou a capitã para seus marceneiros, os irmãos Marco e Angello Ferretti, que riram de sua observação.
— Conseguimos fazer as alterações também lá embaixo, para acomodar os novos canhões. – acrescentou Angello, semicerrando os olhos à vista da luz que se aprumava sobre eles. – É claro que se tivéssemos mais tempo... poderíamos ter acrescentado mais dois à proa. – ponderou, indagativo para seu irmão. Marco deu de ombros.
— Reforçar a força à bombordo e estibordo já é suficiente, Angello. – retrucou a capitã, virando-se para analisar a perspectiva da proa junto a eles. – Honestamente, não me agrada a ideia de transformá-lo em uma arma de guerra, afinal...
— Mesmo que seja para onde estamos nos encaminhando. – interpôs Alberto, subindo à bordo, com os braços apoiados às costas. Antonieta sorriu de lado.
— Você me interrompeu antes que pudesse dizer: afinal, o Sogno D’Oro sozinho já consegue fazer estrago suficiente sem a ajuda do Stella. – explicou-se dividindo olhares conhecedores com os outros dois, que assentiram.
— Un tale complimento! [2]— exclamou, abrindo os braços em rendição. – Há um pessoal enfurecido ali embaixo querendo saber quando la mamma vai permitir que terminemos de carregar seu bebê. – disse jocoso, fazendo Mia revirar os olhos divertida.
— De puta para la mamma? – indagou esperta, os dias que passara trancada ao quarto do Faithful Bride não cegaram-na para as atividades de sua tripulação. Alberto riu. – Podem subir. – permitiu, com pouco caso, tornando a falar com os Ferretti. – Quanto esse trabalho esplêndido me custou?
— A quantia de um excelente trabalho. – respondeu Marco.
— Uma grande quantia. – corrigiu a capitã Barbieri, embora não se importasse e ele com ciência riu um pouco, dando de ombros.
— Podemos estar mais perto do prejuízo do que do lucro, mas, não há nau mais preparada para flutuar do que esta. – constatou Marco, solenemente. Antonieta assentiu, retirando duas bolsas de dinheiro do bolso de sua saia. Seu mestre marceneiro analisou o peso, arqueando as sobrancelhas. – Isso não seria suborno pelos últimos acontecimentos, seria?
— Absurdo, Marco! É apenas uma bonificação. – rebateu piscando. Certamente, em vista de um excelente trabalho e contra a possibilidade de moedas extras no bolso, ela não ouviria nenhuma palavra negativa vinda dos dois. Satisfeita, aproximou-se do parapeito à estibordo, com seus homens carregando os barris abarrotados de suprimentos para dentro na supervisão de Diana e Giulia Marino, sua contramestra. Ao longe, a remanescência do Pérola Negra também se aproximava da embarcação. Em dois dias, a capitã Barbieri estudara nomes e algumas peculiaridades, tal qual a circunstância especial de Mestre Cotton e o pássaro que fazia o papel de sua língua. Pintel e Ragetti permaneciam demasiado vivos em sua memória; Gibbs era uma lenda em si mesmo, o anão, Marty, não muito diferente de vários marinheiros com os quais já dividira um caneco. A feiticeira andava a alguns passos de Barbossa. Mia estava decidida a evitá-la a qualquer custo, vez que conhecia os contos acerca da primeira corte. Por fim, os verdadeiros mistérios ao seu julgamento. Elizabeth Swann e Will Turner.
Embora insistissem em uma distância apropriada, a capitã se recordava do início da relação entre seu irmão e sua esposa. Uma moça como aquela e um rapaz como aquele dividindo o mesmo deque... Antonieta não era tola o suficiente para achar que não houvesse algo ali; principalmente quando a jovem lançava olhares furtivos constantes na direção do jovem Mestre Turner. De súbito, então, seus olhos pararam na figura do Stella De La Sera e abriram-se com fascínio, o que deixou a capitã orgulhosa e interessada na pequena senhorita Swann.
— Gosta? – sua voz ressoou pelo cais, chegando até a outra que se assustou, sem saber que era observada.
— Parece mais bem cuidada do que as últimas que avistei. – respondeu Elizabeth, hesitante. Barbossa lhe dera apenas um nome e se recusou a respondê-la quando indagado a respeito das circunstâncias nas quais a conhecera, no entanto, o tom de voz que usara para se dirigir a Tia Dalma ao perguntar sua localização não se perdeu na memória da senhorita Swann. Também ela se interessava na figura que fez a voz do orgulhoso Capitão Barbossa fraquejar daquela maneira. A capitã riu baixinho, seguindo-a com os olhos à medida que embarcava.
— O estado da tripulação e do navio refletem no cuidado do capitão, senhorita Swann. – explicou ao tê-la à bordo. Elizabeth assentiu, sem saber o que responder àquilo. – Eu diria três ou quatro meses no mar. – os olhos de Antonieta vagaram rápido por ela antes de dizer, ao que os da outra brilharam em surpresa. – Ainda está muito limpa. – murmurou com o sotaque pesado de sua língua materna. Elizabeth sorriu sem jeito, fitando os próprios pés antes de refutar.
— Não me parece que tolera muita sujeira tampouco. – ela pisava em ovos, a outra observou. Elizabeth Swann afeiçoara-se a manter palavras à espreita na ponta da língua, Mia entendeu, seus olhos verdes brilhando contra a luz do sol.
— O estado da capitã é de grande importância para a capitã. – murmurou outra vez tranquilizando-a, fazendo uma volta na garota antes de deixá-la para o andar debaixo.
Normalmente ela não encontraria a cozinha em tamanha paz, pelo hábito de seus homens apreciarem os momentos de socialização tão naturais enquanto sentados àquelas mesas. Matteo, acompanhado de sua filha, Ilaria, fazia a contagem da carga que havia primeiro sido entregue a eles; os mantimentos. A cena tão habitual de alguma forma enternecia o coração da capitã. O cozinheiro mantinha-se naquela posição desde o tempo de seus pais, tendo sido um dos primeiros a alistar-se aos homens Barbieri. Ilaria e Mia educaram-se praticamente à mesma época, com a diferença de que a segunda pôde contar com a presença de sua mãe por mais tempo do que a primeira. Manuela Vitale falecera devido à uma forte febre que, naquele ano, levou vários rostos conhecidos.
— Matteo... – chamou brandamente, chamando a atenção de ambos. Mantinha o velho como um segundo pai e ele, de fato, sentia a mesma responsabilidade por ela. – O que me dizem?
— Com o cuidado certo, conseguiremos sobreviver a três meses, talvez e meio, com a quantidade que conseguimos... aliás, como conseguimos? – Ilaria a encarava com divertida suspeita, visto que conhecia mais dos métodos da capitã para barganhar mantimentos com os outros comerciantes. Seu pai, por outro lado, fingia ignorá-los, como se acostumara a fazer após os ainda lembrados três meses que passaram em uma calmaria, há quatro anos. Desde que a comida chegasse, não fazia diferença. Antonieta também preferia manter para si os relatos de sua parceria com Alberto e Barbossa a fim de arrancar aquelas caixas das mãos de homens mais honestos do que eles.
— Em outras palavras, mal saímos e já vamos começar a usar a palavra r. – Racionar. Mesmo nas melhores épocas, ela conseguia dividir as afeições da tripulação. – Não é a melhor escolha, se eu quiser aumentar minha popularidade... – comentou dando de ombros, incerta. Matteo sorriu.
— Pode colocar a culpa em mim. – sugeriu imitando o gesto dela. Foi a vez de Antonieta rir, surpresa.
— Não está... não está fulo comigo? – perguntou num sussurro estarrecido. Pai e filha negaram com a cabeça. – Quem está?
— Beatrice. – respondeu Ilaria prontamente e seu pai acenou em sinal de veemente concordância. – Nicola está dividido, assim como Carlo, mas o tom certo pode trazê-los facilmente de volta às suas graças.
— As informações realmente correm nessa cozinha. – brincou Mia, ao que Ilaria socou seu ombro amistosamente.
— Nos perca e perca todos eles. – advertiu de bom humor. – Somos seus anjos da guarda.
— Deus não permita que Diana te escute. – continuou jocosa, lançando então um olhar sério para Matteo. – Faça como achar melhor. Confio em você. – ele concordou, dando a ela a deixa para voltar ao deque, cruzando com os últimos homens que desciam com o carregamento de pólvora e balas para o arsenal. A brisa mais uma vez afagou seu rosto e ela sentiu sua boca salgando-se, pés andando apressadamente e vozes altas vindas da gávea, o som das ondas misturando-se ao som das velas sendo soltas e amarradas. Estava mais uma vez em casa. Sofia, avistou, ao tombadilho com Luigi, Tristan e Barbossa pareciam discutir fervorosamente. Diana traçava o caminho entre a mezena e o mastro de proa, dando ordens, acenando para a capitã ao avistá-la “O desabalroar está sobre controle” seus olhos diziam. As mãos de Mia caíram em sua cintura “Por acaso virei uma figura de proa?” os seus diziam a sua irmã, que deu de ombros.
Alberto ria de alguma coisa que seu filho acabara de dizer e a capitã escolheu aquele cenário para penetrar. O contraste entre o desleixo de seu irmão frente ao zelo de seu sobrinho gritava aos olhos dela, imitando o gesto de Ilaria contra o ombro de Téo ao aproximar-se dele. Berto a fitou desconfiado, lançando um olhar significativo para o tombadilho e em seguida para ela. Antonieta ergueu as mãos, mexendo lentamente a cabeça, o que queria dizer que valorizava demais sua vida para se meter em qualquer rusga de Sofia no momento. Berto assentiu, reprimindo uma risada. Os três analisaram o horizonte por um instante, fascinados e temerosos pela jornada que se seguia; a loira mais do que eles, perguntando-se a todo instante se fizera a escolha certa... sua cabeça repousou no ombro de seu sobrinho – o mais alto que conseguia alcançar –, que apertou sua mão contra o dela. Então, o grito de sua mãe irrompeu, chamando-o.
— Grazie pelo apoio nos últimos dias, Berto. – viu-se dizendo quando Téo já se achava a meio caminho.
— O mínimo... eu não seria capaz de lembrar do meu próprio nome naquela noite. – respondeu fazendo-a rir.
— Não acha que estou maluca? – inquiriu de repente, apoiando os braços no parapeito, mirando-o de lado. Berto negou com a cabeça, suspirando.
— É a única chance, mesmo que seja uma chance ruim. A chance de um louco. – ponderou batendo com a mão na madeira. Antonieta concordou, ajeitando um fio de cabelo atrás da orelha. – Além disso, você não poderia negar ajuda ao seu beau.[3]— acrescentou maliciosamente. Mia gargalhou, inesperado o nível de franqueza vindo de seu irmão, jogando o corpo para frente.
— Dio mio, o que já disseram nesses dois dias? – perguntou curiosa.
— Durante o jantar aquela noite, Diana tentou instaurar uma aposta...
— O meu anjo da guarda, realmente... – zombou a capitã, batendo com a mão na madeira. – Por isso Olívia me abordou no corredor... lucrando às minhas custas. – refletiu, taciturna. – Bem, imagino que seja o mínimo a oferecer, depois de tudo. Aparentemente, Beatrice me odeia e não posso culpá-la... – tampouco ela gostava muito de si mesma naquele momento. – Falou com Sofia? – perguntou, sentindo o clima pesar entre eles.
— Nem você.
— Pode me culpar por tentar postergar a hora do meu julgamento? – brincou, mas falando sério. – Quanto mais penso no assunto, mais acredito que tudo isso nada tem a ver com as malditas cartas que não assinei, mas comigo... – ponderou baixinho.
— E quer que eu descubra?
— Na verdade, não. – cedo ou tarde, especialmente com poucos lugares para se esconderem uma da outra, seriam forçadas a se enfrentarem. – Mas se ela precisa desabafar seus planos sobre as mil maneiras que gostaria de usar para me apunhalar pelas costas com alguém, imagino que deveria ser com você, marito. – disse simplesmente. Berto riu.
— Sua compreensão acerca dos liames do casamento é louvável, fratella.
— Se prometer ficar longe da minha cama, podem usar a minha cabine. – Antonieta sugeriu inocentemente, ao que ele se resumiu a arquear as sobrancelhas em sua direção. – Melhor agora do que quando estivermos em mar aberto, não acha?
— De fato, muito louvável. – rebateu afundando o chapéu dela em sua cabeça.
— Rota traçada, velas arriadas e carga segura, capitã. – anunciou Diana do tombadilho, chamando a atenção dos dois. Berto lhe fez uma reverência, abrindo caminho para que ela subisse até o grupo que escolhera evitar. Antonieta aprumou-se, ajeitando seu chapéu de volta.
— Ao cabrestante! – exclamou numa voz profunda, ao passo que seus pés tocavam os primeiros degraus. O grupo se posicionou ao centro do navio, ajeitando as vigas de madeira dentro dos orifícios. Mia encarou sua primeira imediata e Sofia lhe cedeu um aceno formal de cabeça, “Pelo bem-estar da tripulação”; o primeiro golpe de uma faca imaginária. Seus olhos, então, encontraram Barbossa encarando-a, aparentando uma paz que ela se indignaria caso a estivesse realmente sentindo. Súbito, a nau tornou-se pequena demais para a Barbieri. Dois, inquestionavelmente, problemas cercando-a de cada um dos lados. – Recolher âncora! – continuou a ordem.
Os homens começaram a se mover em uníssono, entoando uma antiga canção em italiano para ajudar a manter o ritmo da tarefa. Ainda havia tempo de voltar atrás. Suas promessas quebravam-se tão dificilmente... agir de forma egoísta, vez ou outra, era um mal necessário, sua mãe lhe dissera pouco antes de morrer, percebendo o tipo de pessoa que sua filha se tornaria. “Respirare profondo...”
O Stella De La Sera zarpara e Antonieta não olhou para trás.
[1] Suave como bumbum de recém-nascido
[2] Que elogio!
[3] Amado, amante.
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