Lembranças de Porto Venere
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Ao repousar do sol, o balanço do navio começava a embalá-los em seu conhecido ritmo. O horizonte muito mais ameaçador, porém igualmente atraente, iluminado pelas tão amadas estrelas de sua irmã – o brilho que os guiavam de volta para casa. Sofia nunca fez sentido dos milhares de mapas que Antonieta mantinha em sua cabine e, ainda que se esforçasse por horas, acabou por desistir. Aquele seria um pormenor reservado à capitã apenas, pois nem mesmo seu esposo seria capaz de apontar cada uma das constelações de cabeça, guardando-as no coração como poemas nunca transcritos. Este fora o passatempo de mãe e filha, afinal. Allegra quem trazia um velho diário roubado de um famoso italiano entre seus mais preciosos bens pilhados e o enfiava sob o nariz da caçula à vista de qualquer possibilidade. Mia bebera dele até tornar-se obsoleto, passando seu legado adiante ao modo que conseguiu.
Havia terminado seu jantar com pressa, encontrando abrigo em meio à brisa que tentava afugentar seus maus pensamentos. Olhos passeantes pelo céu, em busca de palavras que acostumara-se a ouvir proferidas no tom ameno, sussurrante da velha capitã Barbieri, vasculhando as minúcias no trabalho realizado por Angello e Marco, por ela e as outras meninas nas velas. Surpreendendo-se com o quanto sentia-se identicamente à vontade dentro dos domínios de Mia. Isso, pois, o Stella De La Sera não consistia em propriedade, mas em posse. Reles legado que a loira mantinha de sua verdadeira dona, a viva alma, ainda presente, atada à sua existência e Antonieta, na falta de premência em mudá-lo acabou assegurando, por sua vez, casa a todos os seus homens. Seu amor e lealdade pertenciam a uma memória que, paradoxalmente, tampouco a colocavam à sua sombra.
Sofia culpava a personalidade de Antonieta. Inquebrável, dizia sua mãe, mas, se ao menos soubesse quantas vezes a oportunidade de recolher os cacos e recolocá-los em posição lhe passou despercebida, tendo este sido o maior aspecto que tornara a senhorita Acidália, de fato, inquestionável. A expansividade, o orgulho unido ao ego, sua burra atitude impulsiva que, claro, ganhara-lhe muitos amigos, os mesmos que rir-se-iam dela tanto quanto riam com ela. No entanto, sabia ser seu julgamento mal colocado, vez que presos à menina, aquela que ainda não cogitava herdar o legado de sua mãe com Alberto. A morte, o fincar de espadas na areia, o chapéu, as manipulações e apunhaladas nas costas de homens com os quais um dia dividira mesa e cama, criaram a mulher. O passado abria-se identicamente para uma e outra, sem que soubessem. O espaço que dividam era o mesmo, embora os caminhos não o fossem.
A senhora Barbieri indagava-se por quanto tempo ainda fingiriam que sim... e se Antonieta realmente ainda lia aqueles mesmos livros que mantinha em sua estante desde o início dos tempos. Por que via tamanha necessidade em possuir todas as edições de um atlas confeccionado por um italiano? Em tantos mapas de estrelas, aqueles que não lhe faziam sentido, sobre a mesa? O bendito cravo ornado em ouro puro que insistia em manter na cabine, tendo aprendido a tocá-lo por este único desejo inabalável. Os potes de maquiagem com ilustrações japonesas e persas. A explanação de toda sua vaidade – as linhas que a atavam ao cerne de sua feminilidade e que, de certa forma, provavam que Allegra havia realmente partido.
Uma batida à porta despertou-a. Encontrou o sorriso calmo de Alberto pedindo sua permissão para entrar.
— Como uma pessoa pode se cercar de tanto sem se sentir sufocada? – indagou fazendo um gesto amplo com os braços, ao passo que ele se aproximava.
— Para quem nunca se cerca com os artefatos certos, nada é o bastante. – ponderou, piscando sugestivamente. Sofia sorriu, sentando-se na cadeira da capitã.
— Sempre foi muito lisonjeiro, capitão. – comentou, mas num relance sua atenção foi captura por uma gaveta entreaberta. Berto acompanhou seu olhar já sabendo o que ela faria. Tal qual sua irmã, Sofia detinha o pendão para atrair-se à segredos e não resistir ao ímpeto de desvendá-los, custasse o que custasse. Retirou dali uma pequena trança de cabelos alourados, porém menos acobreados do que os de Mia após anos de exposição excessiva ao sol. Aqueles, embora visivelmente desgastados pela mesma intempérie, resguardavam um brilho de ouro. – Acredito que seja de sua mãe, mas...
Alberto terminou de abrir a gaveta. Metodicamente separadas, jaziam várias pequenas tranças; dentre elas, uma claramente pertencera à cabeça de Antonieta em algum momento de sua vida.
— Um velho no cais costumava fazê-las, embebidas numa maldita mistura que cheirava a leite azedo, mas, segundo ele, era proteção. – explicou levando a mão até o conteúdo, alcançando a mecha do cabelo de Sofia. – Acredito que este seja seu.
— Antonieta não é supersticiosa. – observou ela erguendo os olhos até a trança na mão de seu marido, que concordou num aceno solene de cabeça. Sabendo ter invadido um espaço diferente do universo da irmã, rubor subiu às faces da senhora Barbieri à medida que retornava ambas as tranças para seus lugares dentro da gaveta, fechando-a em seguida, entendendo. Deveras, Mia não era supersticiosa, mas Allegra... e aquela mecha de cabelo mais do que certamente lhe fora tirada antes que seu corpo fosse velado, uma última demonstração de respeito de sua filha, protegendo sua alma para a passagem seguinte. – Isso é tão triste... – murmurou com a voz embargada. – A dificuldade de encontrar uma maneira de se desprender...
— Você conseguiria? – indagou Berto, taciturno, repousando carinhosamente as mãos nos ombros dela. Sofia afagou uma delas antes de pôr-se de pé outra vez.
— Eu precisei. – disse simplesmente, com a voz cansada. Alberto engoliu em seco, esquecendo-se por um segundo da mulher com quem se casara. – Essa tristeza... essa... essa força que a aprisiona aos detalhes do passado. É disso que se trata, não é? – perguntou dando a volta na mesa.
— Isso? – retrucou o Capitão Barbieri, sem entender.
— Berto, você a conhece tão bem quanto eu. – sua voz estava firme e indiferente a qualquer possibilidade que aquela conversa poderia lhe conferir de zombar da Capitã Barbieri. – Pouco importa o chamado. É por ele. Porque precisa provar qualquer coisa a si mesma ou porque...
— Porque ela sabe que não há nada para provar. – ele interpôs veemente, fazendo o caminho até ela. – Antonieta não é supersticiosa, tampouco cultiva o hábito de mentir para si mesma. – ponderou com displicência e para sua esposa, tais palavras não poderiam ter soado mais absurdas.
— Então, o que? Por que ela escolheria passar por tudo outra vez? Por que o caminho mais absurdamente tortuoso é sempre o mais atrativo para ela? – Sofia estava, é claro, certa em termos, pensou Alberto. Sua irmã muito vividamente destacava dois aspectos de sua vida: aquilo que somente dizia respeito a si mesma e o que afetaria toda a integridade de sua tripulação. Lutava com unhas e dentes por ambas, orgulhosa como era, não poderia ser diferente. De fato, todavia, pequenos detalhes envolvendo-a unicamente, aliavam-se ao sentimento de inquietude de Sofia. Ele, contudo, não se intrometia, até o ponto em que a corda se aproximava de seu pescoço; e, no fundo, no que dizia respeito a Hector Barbossa, Alberto estava mais confiante do que sua esposa. Ela via a corda, ao que ele via apenas o que sempre se desenrolava das paixões de sua irmã.
— Ela lê romances demais. – disse, como se tais palavras fossem suficientes para externar todo o seu raciocínio. Sofia riu, perplexa. Como poderia haver irmãos tão diferentes e tão semelhantes? Mia não estaria tão desencanada, mas tampouco deixaria de brincar com a situação.
— Isso é sério, Berto! – insistiu, mexendo todo o corpo ao falar, fazendo menção de socar a ponta da mesa.
— E é o único motivo? Essa rusga entre vocês. – disse começando a ir pelo caminho que, não obstante sua ciência de que a machucaria, precisavam cruzar.
— Você sabe que não! É claro que isso não me ajudou a acreditar que ela está plenamente sã neste momento, mas não, não é só isso. – respondeu na defensiva, evitando olhar para ele.
— Honestamente, eu não consigo entender porque eu também não deveria ser culpado por aquela noite. – revelou, por fim, e sua esposa finalmente o encarou, fechando o espaço entre eles para tomar uma de suas mãos entre as dela. Ela nunca havia pertencido àquele mundo, não de todo, e se certeza possuía de que a verdade machucaria Antonieta, afundaria mais ainda o navio de seu marido.
— Eu não consigo lutar contra os dois ao mesmo tempo. – disse simplesmente, correndo o dedão por uma cicatriz no canto esquerdo de seu lábio inferior. – E eu... estou começando a me perguntar onde está o orgulho e a glória desta vida. – acrescentou com a voz trêmula, ansiando para que fosse suficiente à curiosidade dele. Amava Berto, seu caro sposo, e mais do que a si mesma amava Téo, seu ragazzino, no entanto, a nenhum deles poderia ser concedida a responsabilidade por sua permanência no mar. Aquela parte de sua lealdade sempre pertenceria a Antonieta e, por isso, sentia-se no direito de rogar-lhe toda a culpa – injusta ou não.
Alberto a abraçou, beijando o topo de sua cabeça e Sofia se deixou apertar contra ele, fechando os olhos apenas para senti-lo ali. Não se tratava de um legado para o capitão do Sogno D’Oro, vez que sua reverência à figura passada de Cícero Barbieri resumia-se apenas a manter intacto o alaúde que recebera dele em um de seus aniversários e que utilizava nas noites de música no navio, bem como na eterna conquista de sua principessa. Ser um pirata, na visão pragmática de seu pai, era apenas mais um ofício tal como o de um marceneiro ou um agente funerário, cada qual à sua regra. Foi Allegra quem arremeteu paixão àquilo tudo, ao adentrar sua vida e restaurar um dos navios para si. Antonieta puxara isso dela, ao passo que Alberto herdou simplesmente a facilidade de seu pai em cercar-se de pessoas que faziam dele um apaixonado.
O orgulho e a glória, portanto, revertiam-se em um único ser. Naqueles dois dias, Mia lhe confidenciara o quanto sentia pela possibilidade de seu navio ter se perdido. Alberto só conseguia pensar na realidade em que sua família não estava. Sofia em seus braços, como fizera questão de ser. De fato, não havia se permitido deleitar-se naquela verdade até vê-la em posição tão vulnerável, lutando contra seus princípios. Com cuidado, beijou sua testa mais uma vez, afastando-a só o suficiente para seguir o caminho de seu rosto até a curvatura de seu pescoço, como se esboçasse um desenho. Ela, por sua vez, os afastou, estática, as mãos mal tocando seu peito. Parecia dizer: aqui? Vez que Antonieta provavelmente pretendia dormir em sua cabine aquela noite. Berto simplesmente sorriu, puxando-a para mais perto, beijando-a de uma maneira que não a faria questionar absolutamente nada. Uma carta branca foi oferecida a ele naquela manhã e, se antes não estivesse disposto a usá-la, agora já era tarde demais...
℘℘℘
Há muitos anos, Antonieta recordava-se de erguer a voz contra sua mãe ao ser ordenada ao toque de recolher. As lamparinas no navio raramente permaneciam acesas por tempo suficiente para que a jovem Barbieri se desse conta do quanto aquela iluminação fazia jus ao nome com o qual fora batizado. Via-se, agora, naquele deque escurecido, sem discutir com o fantasma de sua mãe, com nada mais do que a luz da lua iluminando seus passos. Ao tombadilho, Diana e Nicola sussurravam entre si. Sua segunda imediata não comia com os outros tripulantes, evitando ao máximo conceder-lhes a oportunidade de assisti-la enquanto o fazia; uma de várias peculiaridades contrastantes com a profissão que escolhera. Seu fogueiro havia terminado seu jantar mais cedo para juntar-se a ela em sua solidão. Nico apreciava o humor negro e a inconfundível risada da senhorita Murphy, que, segundo confidência à capitã, denotavam uma alma cheia de falhas convertidas em fogo para lutar causas perdidas.
— O que foi? – indagou aproximando-se deles. Diana apenas sorriu, pegando-a pela mão e sendo-lhe guia até um determinado ponto no tombadilho.
— Ouça. – pediu sussurrando e Antonieta aquiesceu, confusa. Fortuitamente, contudo, um som inconfundível subiu aos seus ouvidos.
— Sinceramente, não estou surpresa. – pensou alto, dando de ombros, abrindo o sorriso da outra. – Eu praticamente dei a ideia a ele! – acrescentou, caminhando de volta para o timão, Nico observando-as igualmente entretido.
— Deu a ideia a ele?! – exclamou Diana, cruzando os braços ao que a outra deu de ombros.
— Só espero que tenham a decência de não usar a manta com o meu monograma. – aquele reles detalhe era suficiente para irritá-la com o prospecto de seu irmão e sua irmã emaranhados em sua cama. Nicola gargalhou.
— Quem dera eu possuir uma irmã tão generosa. – elogiou com uma reverência polida.
— Uma vez a cada mil anos me é concedida uma veia de compaixão. – brincou Antonieta, risonha. – Os outros já se recolheram, Diana. Ilaria e Matteo estão te esperando. Nico..., — começou ao avistar Luigi indo até eles, — Luigi e eu assumimos daqui. Boa noite. – disse dispensando-o. Seu timoneiro tomou o fardo de suas mãos, liberando-a para analisar seus domínios. Parado próximo à proa, estava Barbossa, com uma das mãos apoiada ao parapeito à bombordo, os olhos presos no horizonte. Não muito diferente da maneira com a qual acostumara-se a encontrá-lo na sua comuna; a mente nunca em paz... idêntica a ela...
— Nunca imaginou que voltaria a pisar nela, não é? – cada passo que dava em sua direção era um passo até a pessoa que fora ao conhecê-lo. Tomando consciência de que ela ainda se escondia em algum pedaço de seu caráter. Hector virou apenas a cabeça para encará-la, permitindo-se um esgar bem humorado.
— De fato, não. – assentiu, ao que ela rebateu com um aceno polido de cabeça, apoiando-se no parapeito, sentindo-o avaliá-la.
— Costumam dizer, contudo, que a culpa sempre nos traz de volta a locais onde consentimos que nosso mal fosse mais forte do que a nossa consciência. – ponderou a capitã, virando o corpo para seu ouvinte. Barbossa pareceu refletir por um segundo, enquanto os olhos ansiosos de Antonieta o fitavam taciturnos. O reconhecimento chegou, por fim, e ele sentiu seu pescoço tensionar sob o arquear inteligente de sobrancelhas dela.
— Foi aqui. – disse simplesmente, fazendo-a sorrir.
— Na verdade, foi... – sem se preocupar com qualquer reação que viesse a obter dele, tomou-o pelos braços, puxando-o alguns passos para o norte. – Aqui. – ele assentiu, sem objeção ao toque dela, tão instantaneamente findo. – E por vários dias, se me concentrasse o bastante, ainda seria capaz de sentir o gelo do aço de sua espada contra meu braço, uma mão correndo pelo meu pescoço e a outra tão encantadoramente me pressionando para fora do barco... emergindo a tempo de vislumbrar o triunfo estampando no seu rosto. – ela se achava perto de praguejar, Barbossa observou, visto que sua voz pesava mais e mais para o italiano que lhe desenrolava tanto a língua.
Outrossim, ele ressabia-se daquela noite. À época em que gastara parte do tesouro de Cortez na comuna de Porto Venere, a Capitã Barbieri não se encontrava em terra, para sua sorte e igual lamento, vez que sua ausência dava-se apenas em corpo; o espírito efervescido dentro das palavras de tantos moradores, contra os quais seus ouvidos não lutavam. Contudo, lá se manteve na noite em que ele invadira para reavê-lo, e discutiram sua maldição à vez em que a lua lhe revelou o moribundo por detrás da carcaça que chamava de corpo... e lutaram primorosamente, embora logo se clareasse a desvantagem auferida por ela e que fê-la baixar a guarda. Antonieta ainda sentia; ele não.
— Sim, isso mesmo. – ele ouviu a voz dela chamando-o de volta, sua expressão parecendo revelar o ponto aonde voara seu pensamento. – Não foi a derrota, Hector. – continuou aprumando-se, falando brandamente com o inglês arrastado. – Homens com o dobro do meu tamanho já haviam me feito sangrar antes, então eu não podia me importar menos... – deu de ombros, fechando os olhos. Ao reabri-los, ele vislumbrou neles um sentimento que não saberia nomear. – Foi a sua veemência e a baixeza quando se inclinou para me beijar, mas não o fez, preferindo sustentar o peso dos meus olhos ao passo que deixava claro pra mim como eu teria dificuldade em te machucar... e que você não teria o mesmo problema...
E, certamente, ele tentava sustentar seu olhar com a mesma veemência agora. O que ela sabia, afinal? Afirmou lembrar-se de tudo a respeito daquela noite, mas em fato, sua narrativa deixava claro que – assim como ele – resguardou apenas o que lhe dizia respeito ou que torná-la-iam a vítima. Deveras, ele explicou-lhe o pesadelo ao qual fora sentenciado durante todos aqueles anos, mas pessoas, como ela bem dissera, só conseguiam ser empáticas até certo ponto. Antonieta poderia compreender, mas não entendia. Foi, decerto, muito fácil para ele usá-la daquele modo, evocando sentimentos de um passado remoto, independente da opinião que fizesse dela; humilhando-a por puro despeito ou justamente por estar além dele aqueles que ela evocava nele. Morto. Aos mortos o que interessa o que sentem os vivos? Diante dele uma mulher que, de fato, admirara e que pulsava em ódio por ele... Barbossa apenas simulava seu ódio, baseado no que ainda era capaz de assimilar de suas inflexões acerca do sentimento, invejoso e desesperado por toda a humanidade nela. Machucou-a, talvez, naquele segundo em que ele se inclinou, mas nada fez, aperceber-se de que aquele não era ele... a partir do momento em que deixara Porto Venere pela primeira vez, não era o mesmo homem e tampouco tornaria a ser a mesma jovem, agora uma mulher.
— É mais surpresa do que lisonja, na verdade, saber que ainda o usa. – Antonieta tornou a dizer, seu tom inconsolavelmente brando colocando-o em uma posição altamente desconfortável, sem saber como deveria reagir a ela. Não lhe propunha um desafio, apenas parecia admitir que a respeito daquela frustração, nada poderia ser feito. – Por despeito, é claro, a história simplesmente aponta que este pequeno roubo, unido à derrota, me cederam razão suficiente para tanto rancor. – por seus lábios correu o fantasma de um sorriso jovial, que, sem que Hector notasse, ergueu um bastante semelhante em seu rosto.
— O triunfo e todo o resto, por dez anos, não passou de despeito pelo que eu ainda era capaz de guardar sobre mim mesmo... se faz sentido pra você... – a explicação soava como um pedido incerto de perdão, embora Antonieta jamais fosse ingênua o bastante de acreditar que ele o faria.
— Faz sentido para mim que eu tenha sido um meio para seus fins. – anuiu, fazendo-o ansiar por sua raiva, um grito ou que o desafiasse a uma revanche, ou mesmo flertasse; qualquer coisa melhor do que aquilo. – Você roubou o diário para ela? – perguntou de repente, assustando-o até. Outro assunto delicado e que, por sua vez, não dizia respeito e ela. Roubara o diário, mas, até então, sem qualquer pretexto de entregá-lo a Margaret. Todavia, sim, acenou para ela simplesmente em resposta, aquele fora o fim do precioso livro do qual a Barbieri tanto se gabara. Ao contrário das ações antes discutidas, aquele furto em particular não o envergonhava, pois quando a conhecera, Antonieta já não parecia precisar mais dele, tendo-o memorizado. Tampouco o tom de sua pergunta refletia sinais de rancor. Aquele fora mais fácil de perdoar, aparentemente, e tratar-se-ia apenas da capitã sendo levada por sua curiosidade. – Onde ela está, aliás? Imagino que faça sentido, uma vez tendo retornado à vida que... que a tenha buscado?
A resposta imediata dele foi anuviar sua expressão, numa fúria quase imperceptível, logo convertida em cansaço e dor. Os dez anos que perdera em uma única noite, pois Margaret não estava mais ali, acelerando o esvair de sua humanidade como se todo o tesouro amaldiçoado houvesse se gastado com ele em um único distrato. Antonieta, embora percebesse a tensão em seus ombros e as reticências, manteve-se ali, aguardando, agindo como a filha de dois piratas de renome, Hector pensou, que acredita ser direito seu receber todos os detalhes de uma informação. Ele a maltratou com seu silêncio o máximo que pôde, odiando-a por cada segundo que fazia sua mente ater-se aos traços de Margaret Smyth. Virou-se, então, com brutalidade, para encarar seus olhos e surpreendeu-se com a pura curiosidade infantil, ungida de compaixão que encontrou neles.
— Perdão, não é da minha conta... com licença. – apressou-se, percebendo ter falado demais, dando-lhe as costas. Hector, pois, suspirou pesadamente, encolhendo-se ao parapeito à medida que se perguntava se não deveria ter permanecido morto.
— Ela está morta, Antonieta. – disse, fazendo-a parar a alguns metros dele. – Margaret está morta... – eles não se olharam e a capitã suportou seus passos por minutos cortantes, antes de deixá-lo.
As mulheres nunca haviam sido propriamente apresentadas, embora Antonieta a tenha vislumbrado uma vez por um milésimo de segundo e, ainda assim fora atingida com a força da perda de uma velha amiga. Afinal, o que deveria sentir por Margaret Smyth? Hector jamais a mencionaria, logo, não fora como se tivesse lhe tomado qualquer coisa. Não foi a escolha dela, mas a dele; uma que já não lhe importava tanto. Contudo, nenhuma palavra iria convencer um homem desconfiado e cético como Barbossa de que ela, de fato, sentia sua perda, de que sua dor não lhe era estranha... ardia tanto em sua pele quanto na dele.
— Dio mio, Mia, por acaso viu um fantasma? – Diana e Ilaria estavam à mesa, bebendo em seus canecos e a capitã sentou-se com elas, sem esperar ser servida, despejando rum garganta abaixo.
— Parece haver muitos deles em meu navio, ultimamente. – murmurou amargurada, odiando-se por ter atravessado aquela linha cedo demais.
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