Lembranças de Porto Venere
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Ela não havia nascido para aquela vida. Do momento em que a conhecera, quando ambos não passavam de duas crianças correndo para dentro do porto, desbravando novos caminhos por entre as casas nas colinas de Porto Venere, Alberto sabia que sua esposa não se encaixava dentro daquele mundo. Órfã de um pai do qual mal mantinha recordações e de uma mãe assassinada durante um saque à Siracusa, sua terra natal, naturalmente manteria sentimentos conflitantes acerca das maneiras aceitas pela família que a acolheu e que lhe provera uma posição, evitando que terminasse em uma das várias casas de Madame na costa da Sicília. Sofia, obstante seu passado, fez sua escolha em alicerce à duas constantes que a seguravam ancorada na Ligúria. Antonieta e ele. Sua mãe oferecera às jovens de sua tripulação as mesmas opções que abriu aos seus filhos, em especial à sua filha.
Le Tre Grazie. Brincavam, trabalhavam e treinavam juntas. A personalidade de sua esposa não permitia que se mantivesse menos preparada do que os outros, no entanto, sempre esteve bem claro para Alberto, em cada cicatriz e gota de suor, o quanto tal empenho partia meramente de sua gratidão para com Allegra. Nada além de mera formalidade; jamais se permitindo ser um fardo. Todas as outras protegidas da capitã do Stella De La Sera com naturalidade abraçaram seus novos destinos como tripulantes. Como mulheres do mar. Ingrato e bravio mar. Tal brandura, por outro lado, para Sofia, reverter-se-ia na naturalidade com a qual aceitou seu pedido de casamento, no momento em que o fez. Sua análise partindo das histórias que ouviu de seu pai, Cícero Barbieri. Aparentemente, Allegra hesitara por demasiado ao tomar o sobrenome da casa da Ligúria, em desfavor de seu título como bastarda de um Orsini qualquer.
Antonieta também. Embora houvesse dividido sua cama com variados espécimes ao longo de sua juventude, nunca dera sinais de que pretendia aquietar as paixões de seu coração em favor de algo que dividiam o senhor e a senhora Barbieri, tanto os velhos quanto os novos. Isso, porém, não significava que a fé na profundidade da afeição que guardaram um pelo outro na infância e que se revelara em um amor tímido na adolescência, para enfim culminar em uma proposta ao auge dos anos de ambos, estivesse comprometida. Reconhecia, apenas, como agira para que a senhorita Acidália estivesse tão certa em tomá-lo como cônjuge. Irrecusável o fato de que seu desejo de viver em certo nível de normalidade – o nível que se consideraria natural a uma fêmea – levara-a a não pensar duas vezes. Sua irmã levaria, talvez, um ano para tomar tal decisão. Diana sequer cogitaria, recusando imediatamente qualquer prospecto que trouxesse consigo a imagem, mesmo que imaterial e positiva, de uma corrente.
Sua esposa, por outro lado, agarrou-se a de seu casamento com a mesma devoção de Mia para com seu navio. Assentava bem em Sofia a tradição. Forte e letal à maneira pirata, bem como à civil – de um modo que usualmente não se via ou se permitia a mulheres com seu senso de decoro, que eternamente exerceria seu efeito encantador sobre ele. O temperamento dela, todavia, nunca foi instável... como agora. Sentada à sua frente, ao lado de seu filho, os olhos dela prendiam-se nas pessoas que entraram com Barbossa, voltando-se furiosos para Diana a cada cinco segundos. Com o jantar servido, a tripulação do Stella comia pacificamente, apoiando seus braços sobre a mesa como se ainda estivessem no mar e os pratos pudessem escorregar de suas mãos a qualquer instante. Téo ergueu os olhos de sua tigela para Alberto, sorrindo sem jeito e fazendo um sinal para sua mãe.
— Qual o problema? – indagou para sua esposa, cautelosamente. Sofia mirou-o rapidamente, respirando fundo, tentando sorrir... tentando mentir.
— Nada. – disse simplesmente. – Nada com você... – acrescentou. “Mas não deveria ser?” Naquela mesa, ele não compunha time nenhum. Estava apagado de bêbado quando o ataque aconteceu e, portanto, não se considerava no poder de achar qualquer coisa das ações de sua irmã mais nova. No mais, manter-se-ia ao seu lado. Antonieta conseguia ser extremamente infantil em suas brincadeiras quando desejava, impulsiva em suas inimizades e apaixonada em seu rancor. Contudo, momentos de grande provação sempre tiraram o melhor de sua personalidade, o que mantinha seu crédito enquanto líder de um grupo grande como aquele. Outrossim, eles gostavam dela na mesma proporção em que a temiam. Seus homens no Sogno D’Oro, ele concluía consigo mesmo, simplesmente respeitavam-no em virtude do último sentimento.
De tal forma que, embora estivessem divididos no que concernia sua atitude na fatídica noite do ataque, no fundo continuariam a segui-la com a mesma lealdade de todos aqueles quase vinte anos. Fora um erro, se é que poderia ser chamado assim, em anos de acertos. Um deslize imprevisível, independente do que sua esposa insistisse em dizer a si mesma; deslize que não foi apenas de sua irmã. Reiterava consigo mesmo: ele estava lá quando aconteceu. Desacordado num ato irresponsável. Algo mais deveria se passar na mente de sua senhora, se decidia não culpá-lo ou repartir a raiva que nutria por Antonieta com ele.
— O que a fez achar que tinha o direito de levá-lo até ela? – interpôs Sofia, súbita, para que apenas a ponta da mesa escutasse. Diana baixou a colher lentamente. Alberto as acompanhava com a mesma atenção de um jogador veterano de xadrez.
— Por que se importa? – retrucou a morena, os olhos azuis ardendo em provocação.
— Por que me – ela se esforçava para não expor suas reações com a vivacidade que teria, caso estivessem sozinhas. A mão de Alberto foi de encontro a sua, acalmando-a o suficiente para que continuasse, – Na primeira vez em que cruzaram caminhos, ele não fez nada mais do que enchê-la com meias verdades e histórias absurdas, além de tornar o ego dela mais insuportável ainda...
— Detalhe que, de fato, não torna a possibilidade de uma aliança interessante. – comentou Diana, saturada pela reles ideia. – E depois foi embora e todos nós sabemos como terminou...
— Na primeira e na segunda vez, não fez nada mais do que machucá-la...
— Eu sei, ela ainda tem a cicatriz.
— E, ainda assim, você o levou lá pra cima. Não está certo. – insistiu veemente. Alberto e Téo agora fitavam Diana. Esta, sem nenhum indício de que se preocupava, voltou-se mais uma vez para a amiga, com um sorriso malicioso brincando em seu rosto.
— A definição de certo nunca importou para Antonieta. – murmurou elevando-se a ares de sábia, recebendo um suspiro irritado como resposta. – Quer dar algum crédito a ela? – disse, então, com impaciência. – Como você mesma disse, ele não fez nada mais do que machucá-la – não concordo totalmente, mas é um fato – e Antonieta não se esquece com facilidade. Nem seria insensata a ponto de tomar qualquer decisão sozinha...
— Eles podem estar se reconciliando, in questo momento[1]. – interpôs Olívia, ouvindo descaradamente a conversa. Diana riu.
— Ela adoraria conciliare il coltello al collo[2]... – brincou com uma de suas risadas características. – Isso está me saindo uma excelente aposta... que tal, Beatrice?
A mulher com cabelos louro amendoados ao lado de Olívia ergueu seus olhos do caldo para encarar a segunda imediata com visível desdém; suficiente para desarmar o mais confiante dos reis. O sorriso da outra, contudo, mantinha-se inabalável.
— Não existe aposta se você sabe como vai acabar, Di. Começa a jogar per il semplice piacere del gioco[3] e isso é bastante descuido da sua parte. – advertiu a loira.
— Como se atreve a fazer um estudo tão correto da minha natureza? – a morena falava manso, em um tom de flerte que não deixou de divertir tanto a Alighieri quanto a Tiziana. Rindo, percebeu que Sofia ainda a maculava com seu ódio. Por fim, resolveu dar seu veredito final. – Se eles se odeiam tanto quanto você a odeia nesse momento, não temos nada com o que nos preocuparmos.
Antonieta, então, estava de volta. Descendo as escadas com Barbossa em seu encalço. Diana segurou sua irreverente necessidade de comentar com as amigas que ele possuía, àquelas circunstâncias, a visão do melhor ângulo de sua irmã. Preferiu, ao invés, analisar as feições nas quais mal pusera os olhos desde que fizeram acampamento no Faithful Bride, vez que a capitã se recolhera àquele quarto desde a primeira noite. Clara tentativa de manter-se longe do julgamento da tripulação e, sobretudo, de Sofia. Nenhum centímetro mais magra, apenas notadamente cansada. Se houvesse dormido, afinal, a morena teria razões para se preocupar. Aproximou-se deles tal qual uma criança forçada a pedir desculpas por malcriação... a semelhança levando um sorrisinho a crescer nos lábios da irlandesa.
Alberto se levantou, num gesto que queria dizer que à chegada da capitã, esta deveria sentar-se à ponta. Mia, contudo, dispensou a formalidade com displicência. Atitude que nela, pareceu lhe envelhecer dez anos.
— Senhoras, senhores, sinto muito por interromper seu jantar, mas, um negócio me foi proposto. Alguns devem se lembrar do Capitão Barbossa... – iniciou brandamente, afastando a cadeira de seu irmão para apoiar os braços sobre a mesa. Todos os olhos voltaram-se para ela e o homem que a acompanhava com atenção e reservas, o que Antonieta interpretou positivamente. – Sendo bem direta: ele vai lhes contar uma história e ao final dela, caberá aos senhores e às senhoras decidirem se ela vale ou não o nosso tempo. – sequer parecia que minutos antes estivera temerosa de um motim, observou o capitão. Sofia também os analisava, amaldiçoando Diana eternamente.
— Você já tomou uma decisão. – constatou num misto de escárnio e choque. A capitã permitiu-se fitá-la significativamente e a primeira cruzou os braços em desprazer. – Eu não entendo você.
— Se ouvi-lo, talvez consiga. – ponderou a outra, com igual sentimento. Seus olhos correram a mesa. Não havia sinal de objeção; ao menos não a priori. Tampouco avistou todos os rostos ali. – Onde está Federica? – sua voz assumiu assustadora autoridade e a mesa se aprumou em visível desconforto. Marco ousou falar primeiro.
— Estamos aqui há uma semana. Eles sabem que ela está conosco. – tentou tranquilizá-la. No entanto, nada tranquilizaria Antonieta de que uma criança de dez anos provavelmente zanzava em um porto pirata após o pôr do sol. O olhar que lançou para seu mestre marceneiro foi frio, beirando ao cruel e ele tornou a abrir a boca para defender-se, interrompido por Olívia.
— Ela ia a caminho dos estábulos. – disse rapidamente, ao passo que a capitã deixou-os, saindo em direção à porta. Sofia fez vezes de protestar sua indignação, sendo detida por um olhar firme de seu marido. Alberto, por sua vez, assumiu a frente deixada por sua caçula, oferecendo a cadeira para o velho capitão a fim de que começasse seu conto. Os tripulantes do Pérola Negra admiravam a cena bastante interessados, mas sem dar quaisquer sinais de que pretendiam auxiliá-lo, ouvindo-o iniciar o relato da mesma maneira que fizera com eles. Beckett. A corte. A falta de Sparrow e a necessidade de buscá-lo no baú dos mortos. Os mapas em Singapura...
— Não. – cortou Sofia, solenemente. Barbossa parou imediatamente, desgostoso, mas não surpreso.
— Sofia – Alberto tentou interpor, mas o lorde pirata sabia ser aquela uma batalha sua.
— A unidade da organização neste momento é indispensável, senhora Barbieri. Se quisermos ter qualquer chance contra a marinha...
— Unidade? – desdenhou ela com frieza. – Ficou bastante claro que não há nenhuma unidade quando chegamos ao ponto de Villanueva e ele já estava escondido como um covarde na Baía Naufrágio. Chevalle também, embora atestar o bem-estar das naus no Mediterrâneo seja sua função. E o que você propõe é apenas uma viagem para o inferno. – a voz dela cortava, levando a mesa inteira a exalar antecipação. Diana séria, buscava o olhar de Alberto em um pedido silencioso de socorro.
— O entoar da canção reuniu todos os lordes no único lugar realmente seguro, senhora Barbieri. – rebateu Barbossa, com mais calma do que sentia. – Não fale sobre assuntos que não entende. Seu marido sabe. – os rostos voltaram-se para Berto, que mantinha-se taciturno.
— Falar assim com ela não facilitará sua empreitada, Barbossa. – falou, firme, por fim e o capitão conteve seu sarcasmo, mantendo a fachada diplomática em sua postura. – Com o Holandês à comando de Beckett, como supõe que cheguemos até Singapura?
— Velejamos sem bandeira ou usamos a deles, – a voz arrastada de Diana ergueu-se como um presságio. – além disso, Tristan conhece as rotas longe dos portos. Se nos mantivermos...
— Até Singapura? Como espera que nos mantenhamos por todo esse tempo navegando longe dos portos? – tornou a indagar Sofia, com descrença. – É uma sentença de morte.
— Ficar também. – Alberto admitiu, parecendo exausto, recebendo vários acenos de cabeça em concordância. Sua esposa o analisou, perplexa. Ele odiava confrontá-la daquela forma, mas precisava fazê-la entender. – Todos os portos iminentemente serão atacados. É uma questão de tempo até que alcancem essa ilha.
— Melhor esperar para morrer em terra, então.
— Uma palavrinha. – cortou Diana, arrastando a irmã pela mão para fora do bar. – Normalmente eu não a forçaria a falar, mas parece que falhei no meu teste de paciência. Então, qual é o problema? – perguntou sem nenhum vestígio de zombaria, longe o bastante de todos para serem ouvidas ou vistas. Usualmente, seria Sofia contra Diana e não o contrário, o que só demonstrava ainda mais como tudo aquilo estava errado. Havia, sim, um problema e embora confiasse nela, a senhora Barbieri não iria discuti-lo com Diana.
— Já estamos encurralados de qualquer forma! – apressou-se em responder, antes que a morena começasse a insistir em sua fala. – E se nossa única chance está em confiar na palavra de um homem como Barbossa...
— Os crimes dele não foram contra você. – mas Diana sabia que tais palavras ditas a alguém com o instinto materno de Sofia Barbieri seriam totalmente desperdiçadas. Aliás, também sabia que se tratava de uma mentira. Ia contra uma, ia contra as três. Contudo, Antonieta não as aceitaria naquela batalha. Uma que jurava ter vencido há dez anos.
— Deveríamos ter ficado em Porto Venere. – Sofia murmurou, abatida, passando a mão em seu rosto num gesto de frustração. Diana aproximou-se dela, repousando as mãos em seus ombros, chacoalhando-a gentilmente no que esperava ser um choque de realidade.
— A cidade caiu. – a sentença dita em voz alta, ressoando com o som dos tiros de marinheiros bêbados causando balbúrdia, fora suficiente para levar lágrimas aos olhos da primeira imediata, mas não aos da segunda, já tão acostumada à perda. Sofia deveria aprender. – Nós sobrevivemos, Soff... e se quisermos retomar nossa casa, precisaremos de aliados, o que não vamos conseguir se Antonieta permanecer mais tempo acuada nessa maldita ilha. – disse com mais candura do que Sofia achava-a capaz de possuir. Fitou-a em confusão, seus lábios formando o nome da capitã numa pergunta insonora. – Uma semana. Ela não voltou para o Stella. Ela não chegou perto da água. Ela precisa voltar pra água.
O cerco parecia se fechar mais quando Diana fazia sentido. Ainda não estava pronta para perdoar Mia ou fingir que entendia seu lado, mas o julgamento de sua irmã não era errôneo. Sofia assentiu. De volta para o Faithful Bride, Antonieta também retornara com Federica. Seu retorno fez com que as discussões da mesa cessassem de pronto, chamando-se, então, os votos e, para surpresa tanto de Sofia quanto da própria capitã, se poderia dizer que uma sentença de morte ganhara com quase maioria absoluta.
— Bastardo fortunato[4]. – murmurou Mia, elogiosa e ao mesmo tempo em descrédito para Barbossa, que não reprimiu um meio sorriso convencido, dando um passo à frente. – Pois bem, chame então os seus homens. – falou acenando para as vítimas do Pérola Negra, que se aproximaram hesitantes. – À mesa de um italiano sempre cabe mais um, é o que dizem... Marco, quanto tempo até que os reparos fiquem prontos?
— Preciso de dois dias. – respondeu de pronto. Antonieta assentiu.
— Tempo para barganhar com os fornecedores dessa maldita ilha... Ah, como seria mais fácil se estivéssemos em Nassau. – reclamou encarando seu irmão. Alberto repousou uma mão em seu ombro, tentando parecer encorajador, quando, na verdade, detinha tantas dúvidas naquela aventura quanto sua irmã... e sequer haviam conversado para saberem que sim.
— Não vai ser tão difícil quanto parece... – comentou Barbossa, com uma das mãos em sua pistola. Antonieta não pôde deixar de sorrir.
— Non come impressionante come pensi[5]. – desdenhou, batendo com a mão na mesa em seguida. – All'alba[6], ao trabalho. – anunciou trocando olhares com Diana; tentando analisar o semblante de Sofia de soslaio, mas ela já se dispersava com o resto de seus homens para suas acomodações.
Cruzando vistas com Barbossa uma última vez, também fez a subida para os aposentos de onde saíra há pouco, encontrando-se com Olívia em um dos corredores.
— Você confia nele? – ao que a capitã simplesmente deu de ombros. Tiziana assentiu, reconhecendo o sentimento. – Nessun segno di riconciliazione[7]? – disse com intenções de pura troça. Antonieta riu. Olívia ainda era muito jovem à época, mas lembrava-se de alguns trechos e certamente fizera Diana dividir todos os detalhes consigo ao atingir idade suficiente para entendê-los e julgá-los por si mesma.
— No, – respondeu a capitã seguindo em frente. – ma, lo feci soffrire[8]. – acrescentou com malícia sem olhar para trás.
[1] Neste momento.
[2] Reconciliar a faca ao pescoço.
[3] Pelo simples prazer do jogo.
[4] Bastardo sortudo.
[5] Não é tão ameaçador quanto pensa.
[6] Ao amanhecer.
[7] Nenhum sinal de reconciliação?
[8] Não, mas eu o fiz sofrer.
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