Notas iniciais
porque antoniossa é tudo para ela e soberto também, julles, esse é seu. te amo ♥

Elizabeth foi a primeira a se aproximar de Antonieta, após as formalidades. A capitã mirava, perdida, a imagem de alguns de seus tripulantes subindo barris de bebida para o deque; não seria uma despedida sem o entornar de alguns canecos. Seu semblante, no entanto, não demonstrou sinais de que pretendesse unir-se a eles no que tornar-se-ia a celebração pela possível última noite de suas vidas. Conseguira os navios. Com isso, foi capaz de restaurar parte de sua força de vontade, imprescindível no que se desenrolaria a seguir. Recuperou também suas esperanças. Lutariam aquela batalha contra Lord Beckett, se assim fosse necessário, mas seus olhos atentavam-se ao futuro onde sua cidade os aguardava. Beberiam por seus mortos, sua cidade e, quiçá, pela última vez.

— Eu sinto muito por sua perda, capitã. – disse o cigno, parada ao seu lado.

Antonieta despertou, finalmente. Em silêncio, correu os olhos pelas vestes de seu novo rei. A inglesa terminara em roupas de um mundo demasiado diverso àquele que deixou anos antes. E como lhe assentavam bem. De fato, Elizabeth demonstrara tamanha capacidade de adaptação que a italiana não se surpreenderia caso um dia a encontrasse dentre os antigos cerimonialistas de Sri Shumbhajee e, à meia luz da caverna, possível tornava-se à capitã enxergar o quão bela era.

— Então. – ouviram a voz de Olívia Tiziana erguer-se em direção a elas. – Rei da Corte da Irmandade? Ao que parece fizemos um trabalho mais do que excepcional. – brincou, e Elizabeth sorriu em resposta, acompanhada pela mestra de armas.

— Elizabeth, posso falar com você? – Mia interrompeu, indicando sua cabine com um aceno rápido de cabeça. Olívia se afastou, permitindo que o rei a seguisse sem embaraços.

Repetiu seus passos, lembrando-se da primeira vez que recebera um convite para aquela cabine. Permanecia no ar; a imponência e estigma de que cada objeto compreendiam a personalidade da ladra vaidosa cujo caráter dissecara desde então, sem mais a intimidá-la. Antonieta esperou-a já sentada, observando-a com um sorriso significativo, à medida que cruzava seus aposentos em direção à mesa; nova confiança em seus passos, conhecendo o chão sobre o qual pisava. Uma de frente para a outra, como iguais; e já velhas amigas.

— Quais seus planos para o ataque? – perguntou a italiana, sem rodeios.

— O Pérola deverá liderar. – respondeu de pronto. – É o único navio que pode desbancar o Holandês. – acrescentou. Antonieta aquiesceu, aprovando. – Sei o que a preocupa, porém. – disse, séria, mas ainda Elizabeth.

— Sabe? – inquiriu, divertindo-se.

— Não vou pedir que sacrifique seu navio. – prometeu-lhe com ar solene. – Esta não é a batalha que se propôs a lutar quando a encontramos em Tortuga, e depois de tudo o que fez, não pretendo exigir nada de você.

— E, no entanto, se não obtivermos sucesso na batalha de amanhã, dificilmente o teremos na que pretendo enfrentar. – comentou, calma, dando de ombros. – Agradeço a gentileza, mas espero que saiba; eu não a segui durante todo este tempo, para não estar ao seu lado quando o momento chegar. Terá a mim e quantos dos meus homens aprouver ao plano, embora...

— Embora você prefira não expor sua família a mais sofrimento. – Elizabeth completou, fazendo Mia sorrir com algo próximo da meiguice. – Eu não gostaria disso, tampouco. – ponderou retesando-se contra o encosto da cadeira.

— Está demonstrando preferência, vostra maestà[1]. – observou Antonieta, inclinando-se para frente. – Não é aconselhável a um rei.

— Ainda bem; que somos piratas. – retrucou com um sorriso malicioso e a capitã viu-se rindo verdadeiramente pela primeira vez naquela noite.

— Sim. – concordou num sussurro gentil. – Nós somos.

Elizabeth se ergueu, esticando o braço para que Antonieta apertasse sua mão. A Barbieri remexia sua cabeça sutilmente, encantada pela mulher à sua frente, incapaz de conter o sorriso por quem se tornou. Num rompante, ergueu-se, apertando sua mão com vitalidade, pondo-se a acompanhá-la até a porta, de onde via-se o início das festividades. Diana as aguardava a poucos passos da porta, trazendo um embrulho nas mãos.

— O que é isso? – a capitã indagou, após ficarem a sós. O demônio Murphy limitou-se a adentrar a cabine, repousando o pacote sobre a mesa.

— Imaginei que fosse gostar de presidir a batalha de armadura completa. – respondeu simplesmente.

Mia arqueou as sobrancelhas, aproximando-se da mesa sem fechar a porta atrás de si. Diana a observava com vivo interesse, conforme suas mãos desfaziam o laço que atara o embrulho. Com o conteúdo em mãos, encarou a irlandesa num misto de surpresa e malícia, respondido por uma reverência cortês. De seu embrulho, saíra um chapéu. O modelo era inglês; o Gainsborough, feito em tafetá bordô com plumas malva estendendo-se por seu topo, atadas por outra fita de tafetá preto. Antonieta admirou-o, correndo as mãos pelo tecido rico como se à pele de um amante.

— Eu estava passeando pelo porto, quando avistei os homens de Chevalle descarregando o navio. – explicou-se, enquanto ela ainda inspecionava seu prêmio. – Acho que ele ficaria feliz em prestar-lhe um... agradinho extra. – brincou, fazendo-a gargalhar.

Comme c'est gentil[2]! – exclamou com falsa inocência, caminhando até o espelho que mantinha próximo de um de seus quadros. A peça era magnífica e Diana sorriu de lado, observando o peito de sua capitã inflar diante de seu reflexo. O furor, todavia, não durou por muito tempo. – Obrigada, Diana. – disse, baixando-o. A morena hesitou.

— Não gostou? – perguntou, confusa, ao que a outra apenas negou com a cabeça.

— Não é isso... – murmurou, tornando a se admirar no espelho.

Diana fez menção de interrogá-la, reprimindo-se ao ser surpreendida pela figura de Barbossa parado junto ao vão da porta. Seus olhos, até então fixos em Antonieta, voltaram-se para o furacão Murphy com inconfundível solidariedade, o que a levou a ponderar por um instante à conclusão de que, por certo, ele a entenderia melhor. Sem muito ruído, passou pelo Lorde do Mar Cáspio, lhe lançando um último olhar de aviso e ele assentiu, fechando a porta.

Antonieta não se virou, ainda hipnotizada pelo quer que visse em seu reflexo. Aos lábios de Hector, um pequeno sorriso brincava; vendo-a adentrar a sala onde os lordes se reuniam, num farfalhar elegante de saias, permitindo-se aquele momento para esquecer todas as consequências de sua partida, a fim de divertir-se às custas de sua tentativa malsucedida de cumprir sua palavra com Calipso. Vislumbrara todos os seus sorrisos contidos e, contrariando seu melhor julgamento, não se incomodou por eles; demasiado era seu fascínio ao vê-la recuperada – mesmo que não durasse – e tomando a palavra para descreditar Eduardo e Louis.

— Eu senti falta de vê-la em suas saias. – disse brandamente, parado ao centro da cabine, entrando em seu campo de visão no espelho. – Devo entender que se reergueu, então?

Antonieta sorriu para a imagem dele no espelho, baixando os olhos.

— Quase. – murmurou com um suspiro, erguendo os olhos para sua imagem. – Falta ainda um pedaço... – queixou-se, pondo o chapéu de lado sobre a mesa.

Barbossa riu pelo nariz, caminhando até ela a fim de fechar o espaço que os separava, com um beijo leve na curva de seu pescoço. Mia sorriu, fechando os olhos, à medida que ele a virou para si, erguendo seu queixo para que o encarasse.

— Eu vi desafio. – disse simplesmente, sério, mas brando. Antonieta arqueou as sobrancelhas. – Quando aportamos em Porto Venere, você estava em meio aos outros navios junto ao ancoradouro; nos encarando, enquanto íamos em direção à cidade. – então, Mia sorriu, reconhecendo a que ele se referia. – Não fazia ideia de quem eram seus pais. Tudo o que eu vi, foi uma menina; com um rosto como o seu, tão jovem; encarando os arredores como a dona do lugar, enquanto alguns dos moradores sussurravam confusos ou um pouco amedrontados. Mas não você. – ele corria os olhos por ela, capaz ainda de lembrar como a cena transcorreu, admirado, mantendo o queixo dela entre seus dedos. – Você nos olhou com os mesmos olhos ferozes que ameaçaram Eduardo agora a pouco; viu que eu tinha os meus sobre você e não desviou de mim; apenas me deu o seu pequeno sorrisinho que sempre quis dizer, eu me recuso a sentir medo. – sorriu, ao passo que o mesmo sorriso se despendia a ele agora. – Tudo isso e nenhum chapéu.

Um pouco tarde para responder à sua pergunta, mas afinal escolheu respondê-la, fazendo com o que aquele mesmo sorriso se alargasse, conforme suas mãos corriam para seu pescoço com graciosidade velada.

— Um belo discurso. – elogiou, com menção de roçar seus lábios contra os dele. – Entretanto, a primeira coisa que mudou quando teve a chance foi o seu chapéu. – constatou, com um tapinha amigável sobre seus ombros, afastando-se. Barbossa repousou a mão sobre o tecido da aba do presente de Diana. – É bonito, mas não é a mesma coisa...

— Tampouco você é a mesma mulher. – Hector rebateu. – Embora eu ainda seja capaz de vê-la saltando de seu navio para tentar socorrer o anterior. – troçou dando de ombros. Mia riu à contragosto.

— Eu sei que não é sobre o chapéu. – disse contrafeita. – É sobre mim; e talvez eu ainda não esteja pronta para usá-lo. – respondeu dando de ombros, ao que Barbossa apenas revirou os olhos. Mia sorriu. – Não espero que entenda. – acrescentou, tornando a se aproximar dele, enlaçando-o pelo pescoço. – Mas aprecio o elogio ao meu sorriso. – murmurou, numa clara provocação, esboçando-o para ele; sem medo algum.

— Como senti falta desse sorriso. – ele murmurou de volta, mordendo seu lábio inferior com gentileza, antes de tomá-la lentamente por completo. Antonieta continuava a sorrir sob os lábios que se moviam com calma premeditada, no intuito único de provocá-la ao cume da ansiedade. Ciente, por sua vez, do jogo, deixou-se envolver, apreciando o gosto do salgo do mar e as mãos firmes em sua cintura; emitindo um gemido baixo, intencional, ao sentir o toque de sua língua. Separou-os, então, feliz pelo efeito atingido aos olhos dele; obscurecidos por ela. – Como pretende passar sua última noite nesta terra, Antonieta?

Ela riu baixinho, adquirindo um falso ar pueril.

— Com uma promessa a você, Capitão Barbossa; do que o aguarda, se sobreviver a batalha. – brincou na melhor imitação de uma jovem inocente que conseguiu, desvencilhando-se dele para ter com sua família do lado de fora. Atrás dela, Barbossa sorriu. De fato, não detinha qualquer intenção de perecer uma segunda vez.

Diana batia o quarto caneco sobre um dos barris, a contrapartida de Nicola, que lhe concedia sua primeira derrota naquele jogo; capaz de beber mais rápido do que o demônio Murphy. O grupo que os contornava vibrou, maravilhados com a ocorrência, ao passo que a irlandesa cedia seu lugar ao próximo desafiante, Angello Ferretti. Ao lado deles, um pequeno grupo tocava, em vias de instigar o ânimo à competição. Antonieta admirou-os num misto de perplexidade e alegria, cujo catalisador era aquela visível nas expressões de seus companheiros. Olívia, então, bateu palmas frente a derrota de Nicola, encaminhando-se para o centro, saudando os companheiros que torciam para que desbancasse o Ferretti.

— Espero que não esteja pensando em lutar amanhã. – comentou a capitã, aproximando-se de sua segunda imediata, analítica frente ao nível de torpor que já apresentava. O sorriso da mulher Murphy se abriu até irromper em uma gargalhada ruidosa.

— É claro que estou! – exclamou, batendo com ambas as mãos nos joelhos. – Jamais deixaria a glória só pra você; nem a derrota. Como nos velhos tempos, Nieta. – ponderou piscando para ela. Antonieta teve que sorrir, mas preocupou-se ainda.

— Diana, você vai estar com uma ressaca horrível amanhã, se continuar assim. – advertiu.

— E o meu mau humor será de grande valia. – retrucou com falso ar sábio. – Vou usá-lo como catalisador para abater quantos ingleses eu puder.

— Claro, se conseguir ficar de pé. – Mia desdenhou, cruzando os braços.

— Eu lhe prometo que consigo. Até parece que não sabe com quem está falando! – rebateu na defensiva, assoviando frente a derrota de Olívia e a comemoração de Angello, descendo com outro caneco pela garganta sem precisar de concorrência a provocá-lo.

Exasperada, a capitã revirou os olhos, encontrando seu irmão a observá-los de longe, apoiado junto ao mastro principal, onde uma mesa fora posta com as bruschettas que Matteo deixou para trás; não imaginava que outro de seus tripulantes conseguisse prepará-las. Aproximou-se, sentindo o perfume do manjericão acalmando-a para lembranças mais felizes, sem afundar-se mais em comiseração. Diana conseguiria lutar mesmo embebedada, mas ela não obteria o mesmo sucesso guiada pela raiva e tristeza. Levou a massa torrada à boca, o gosto inconfundível da receita de seu velho cozinheiro preenchendo certos espaços vazios em seu peito. Estava faminta.

— Você corroborou com isso? – indagou para Alberto, falando com a boca cheia.

— Nem corroborei, nem impedi. – respondeu dando de ombros, verificando a safra da garrafa de vinho que também estava posta sobre a mesa; um souvenir do roubo em Cádiz. – Mas eles merecem, não acha?

Antonieta atentou-se aos seus gritos e urras novamente, absorvendo-os em meio a iluminação de seu navio e a brisa morna da caverna. Assentindo, por fim, conforme alcançava outra bruschetta.

Dio, o que eu não faria por um banho quente agora. – comentou, mordendo outro pedaço da iguaria. Berto sorriu, puxando a rolha que selava o vinho com os dentes, soprando-a para o alto com displicência.

— Algo pelo que lutar, então. – brincou, em vezes de provocar os gostos de sua irmã, à medida que lhe servia uma taça. Antonieta censurou-o com o olhar. – Oh, andaimo, fratella! Uma taça nunca matou ninguém! – protestou ele, conseguindo que ela aceitasse a oferta. – Saluti! – brindou.

A Barbieri sorriu, vendo-se surpreendida pela força de sua gratidão por Alberto estar ali; vivo. Capaz de grande seriedade, minutos antes, quando seu apoio se provou primordial para o selar de seus acordos, mas capaz também de entregar-se à boêmia presente em pequenos momentos como aquele. De fato, não sabiam o que aguardá-los-ia o amanhã; a vida ou a morte. No entanto, ali se prontificava seu irmão. Alegre, cantando vivas aos beberrões com uma taça de vinho à mão, como se fosse qualquer outra noite no Cane di Bronzo. Com que então, Sofia surgiu com Téo do andar de baixo, parecendo lhe advertir algo antes que ele se afastasse para a roda com o resto dos tripulantes. A senhora Barbieri, por conseguinte, juntou-se aos outros dois, alcançando também uma bruschetta para si.

— Ainda temos munição para fazer algum estrago nos navios da companhia, amanhã. – disse, bastante técnica para Antonieta. – Mas para Porto Venere, acredito que precisaremos reabastecer.

— Muito bem. – a capitã assentiu. – Contudo, conversei com Elizabeth e ela não espera que unamos o Stella aos outros navios. – revelou, chamando a atenção do casal. – Tampouco que a tripulação compareça a batalha de amanhã; então, sintam-se livres para permanecer aqui...

— Você vai com ela? – Sofia interrompeu, séria e Mia assentiu, branda. – Então, nós também vamos e não vai haver nenhum argumento a esse respeito. – acrescentou, a menção de protesto da outra, que sorriu de lado.

— Mesmo que alguns deles escolham unir-se a nós, pedirei a Téo e outros quatro que guardem o navio. – falou, encontrando o sobrinho em meio a multidão conversando com Carlo, Tristan e Marco. Sofia sorriu também, compreendendo suas intenções.

— Obrigada, Mia. – agradeceu, fitando o filho ao longe com carinho, sorrindo para o marido em seguida. – Pensei que estariam bebendo com eles. – comentou, olhando de um para o outro.

— A ideia me passou pela cabeça, mas imaginei que a fratella se sentiria mais segura se eu estivesse sóbrio amanhã. – Alberto respondeu.

— Consegue lutar? – Mia perguntou, então, o rosto consumido pela súbita preocupação, conforme seus olhos corriam na direção do braço que não mais existia. O Barbieri engoliu a bebida em seco.

— Não estou morto. – respondeu simplesmente e Sofia ergueu ligeiramente as sobrancelhas. – E não quero saber das senhoras me tratando como se estivesse. – advertiu, mas seu tom já era menos seco, ao que ambas se entreolharam chegando a um acordo silencioso. Discutir não o impediria de ir em frente com a ideia, e, afinal, não estava totalmente errado.

— Ainda assim, eu me sentiria muito melhor se eles não estivessem brincando esse maldito jogo! – Mia protestou, batendo com a taça sobre a mesa e então virando-se para o castelo da proa, percebendo que Hector permanecera a bordo.

Luigi, porém, interrompeu-a, antes que cogitasse ir até ele, surgindo pelo deque com uma velha guitarra que, em detalhes, assemelhava-se ao alaúde deixado para trás por seu irmão na noite do ataque. Os olhos de Sofia iriam, mais uma vez, correr para seu marido. Alberto admirava o instrumento nas mãos do timoneiro de Antonieta como se finalmente entendendo o que perdera; e sua esposa agiu rapidamente, caminhando até Luigi a fim de tomá-lo dele. Mia encarou seu irmão, observando sua expressão adormecer, sombria, ao passo que se virava para a garrafa de vinho. Sofia encarou-o servir a taça, com a guitarra em mãos, traçando, em seguida, os dedos pelas cordas...

I just think you should know

(eu só acho que você deveria saber)

I've been broken I've been alone

(eu já estive quebrado, eu já estive só)

Alberto parou com a taça à altura dos olhos. Sofia havia dedilhado algumas notas, conseguindo a atenção mesmo daqueles que gritavam mais alto por mais um copo de cerveja ou rum. O navio silenciou; e ao fundo ouvia-se nada além da movimentação de outros conterrâneos na cidadela, vivendo seus próprios preparativos. O Capitão Barbieri se voltou para sua esposa, observando-a com um sorriso nostálgico, enquanto ela prosseguia, inspirada por ele.

“And I was thinking you should know

(e eu estive pensando que deveria saber)

I've given some heart away before

(eu já desperdicei amor antes)

But I've got this feeling

(mas estou com a sensação)

You're the one I'm waiting for

(você é quem eu estive esperando)

you've got me fallin, boy I'm all in

(e você me conquistou, rapaz estou toda aqui)”

Elizabeth havia voltado a bordo do Stella, a fim de descobrir se Antonieta já deteria informações sobre quem de sua tripulação gostaria de se juntar a eles – ou era apenas uma desculpa para deixar Gibbs e os outros cuidarem-se sozinhos, e descansar –, chegando a tempo de assistir os dedos da senhora Barbieri correrem delicados pelas cordas, surpresa de que também tocasse. Antonieta sorria diante dos passos de seu irmão em direção à sua esposa, enquanto ambos entoavam o refrão da melodia que serenara para ela ao pedir sua mão em casamento. Reconhecia que, há muito tempo, Sofia pediu por aulas, queria aprender a tocar – um pretexto para passar mais tempo com Alberto. No entanto, não a viu fazendo-o, de fato, até ali.

“If there's any love left

(se ainda resta algum amor)

In these old bones of mine

(nestes velhos ossos meus)

It's yours

(é seu)

It's yours

(é seu)

If there's any love left in these old bones of mine

(se ainda resta algum amor nestes velhos ossos meus)

It's yours

(é seu)

It's yours

(é seu)”

Sofia e Alberto trocavam suas vozes entre um verso e outro, com o resto da tripulação a admirá-los pelos rostos inebriados de um sentimento inabalado, desde que aquela cena se repetiu na noite em que selaram a união. E, de várias maneiras, significou tanto quanto a bebida que o fizessem mais uma vez, quando, no fundo, brindavam suas possíveis despedidas às faces que tomaram partido em cada decisão dentro daquela vida; de pilhagem, proveitos tomados em prejuízo de alguém; mas de sentimento, dentro daquela estrela. Vendo-os, Elizabeth não evitou pensar em Will e em como suas escolhas fariam um dueto muito menos feliz do que aquele.

Ao fim do canto, o navio aplaudiu, ao passo que Alberto puxava a esposa pela cintura, ao que ela o enlaçou pelo pescoço, jogando, aparentemente, todo o seu peso e pegando-o de surpresa, fazendo com que ambos caíssem sobre o deque, abraçados, gargalhando ruidosamente frente os olhares de espanto um do outro. Observando-os de longe, Antonieta ria, pois o som da risada de sua irmã, como soava agora, a enchia de felicidade incontrolada e, então, num movimento brusco de cabeça, percebeu que Barbossa aproximara-se do parapeito, próximo de onde ela estivera parada.

— Sente falta? – perguntou, ao seu lado, indicando Sofia e Alberto sentados no chão, rindo com Alessandra e Nicola. Barbossa sorriu genuinamente.

— Às vezes. – admitiu com um aceno solene de cabeça. – E você?

— Não dizem que; não é possível sentir falta de algo que nunca se teve? – respondeu dando de ombros, inabalada.

— Ainda há tempo, Antonieta. – ele respondeu, sorrindo com gentileza a ela e Mia riu, soltando o ar.

— Acho melhor não... da última vez, eu matei o meu prometido. – troçou, uma sombra de tristeza passando por seus olhos, que logo encontraram o mar. Hector permaneceu calado, taciturno, esperando. Conhecia-a o suficiente para saber que não terminara seu argumento. – Lembra-se da Bonny? – murmurou, branda.

— Anne Bonny. – ele reconheceu. Havia ouvido apenas histórias. O suficiente para lamentar nunca tê-la conhecido pessoalmente.

— E se lembra do Jack Rackham? – prosseguiu, e Barbossa apenas aquiesceu. – As últimas palavras dela para ele, antes de ser enforcado foram: se tivesse lutado como um homem, não precisaria ser enforcado como um cão. – comentou como se a memória a confortasse. – Nunca soube o que aconteceu com ela, depois que Jack morreu; talvez ela prefira assim. Bonny é a grande heroína da Diana e, eu também, sempre gostei muito dela. Mas, era mais fácil ser amiga do Jack. – confessou, e a Barbossa pareceu que se envergonhava de admiti-lo; que preferisse a camaradagem de um homem, com certeza pela primeira vez, à de uma mulher. – Ele a amava. Quando pediu sua mão, no entanto, ela recusou. E quando ele me contou porquê... acho que grande parte de mim foi esclarecida.

“Bonny disse, que em todas as tavernas nas quais ela havia entrado; antes que pudesse dizer o próprio nome, eles já sabiam quem ela era; e falavam o nome do Jack, antes de qualquer coisa. A ignoravam; ou então a obedeciam porque ela estava com ele. Como se fossem duas metades de uma mesma coisa. Por isso ela não poderia ser esposa dele; mas que eles seriam parceiros até que ambos fossem mortos.”

— Você teria partido comigo, se eu pedisse na época? – Barbossa perguntou, manso, quebrando o silêncio instaurado após as palavras dela. Antonieta encarou-o, quase doce.

— Possivelmente. – admitiu, pois a menina de dezenove anos não conseguiu evitar se inebriar pelas histórias trazidas por Hector daquela vez ou a visão do que uma vida no mar simbolizava para uma mente ambiciosa como a sua. – Mas eu teria me arrependido. – pois assim eles diriam o nome dele, quando ela adentrasse a sala e só a conheceriam e a respeitariam, por ele.

Hector sorriu uma segunda vez.

— Claramente. – disse, com um gesto de mão que abarcava todo o navio e tripulação. – Você se saiu esplendidamente.

Antonieta riu pelo nariz.

— Se com essa loucura provamos alguma coisa foi que, para melhor ou pior, nós trabalhamos muito bem, juntos, Capitão Barbossa. – assentiu, taciturna. – Eu não me importaria em fazer negócios com o Lorde do Mar Cáspio, mais uma vez.

— Uma parceria, Capitã Barbieri? E que negócios estaria disposta a fazer? – inquiriu unindo as mãos, apoiado a balaustrada.

— O que provier fortuna. – disse como se brindasse aos céus, então baixando a voz, imitando o gesto dele. – E quem sabe... talvez algum prazer.

[1] Vossa majestade

[2] Quanta gentileza!

Notas finais
Pois vejam que eu AMEI esse capítulo e espero que os senhores também gostem! Eis o fim da calmaria e no próximo teremos tempestade. Literalmente. Redemoinhos, mar bravio e canhões ribombando pelo oceano. Beijos, Ana