Notas iniciais
Boa leitura!

Os primeiros raios de sol desceram límpidos pela grota, iluminando a planície não mais enegrecida pela noite que os cercava. O alarme soou com o som de um sino, tal qual a música, cuja melodia sussurrou aos ouvidos dos marinheiros, à medida que, despertos de um sono sem sonhos, encaminhavam-se para seus respectivos navios. Antonieta vestiu seus coldres, escolhendo quais armas carregar para a batalha, percorrendo mais uma vez o tecido do chapéu que Diana lhe oferecera com a ponta dos dedos. Apenas os três, o demônio Murphy, Alberto e Sofia, decidiram acompanhá-la para a batalha; e Mia deu ordens para que o restante guardasse o navio, no fundo agradecida por ficarem para trás. Ao subir a bordo do Pérola, não trajava o chapéu, mas o coque apertado que um dia escondera sob ele e suas saias. Elizabeth cumprimentou-os com um aceno solene de cabeça.

Como prometido, o rei não exigiu nada de seu clã, mas agradeceu silenciosamente por sua presença. Havia tensão dentro da nau, mas também esperança. Antonieta observou as tripulações dos outros navios moverem-se no mesmo passo, enérgicos, com grandes expectativas para aquele dia e rezou para que fossem correspondidas. No tombadilho, Jack estava ao timão, pronto para guiá-los novamente; desta vez, para fora dali. Elizabeth deu o sinal e o sino tocou seu segundo verso, a canção sepulcral. O Pérola foi seguido pela Imperatriz, navio da Capitã Swann, e então pelos outros. As águas que encontraram eram nebulosas, o que em outra ocasião significaria apenas que o tempo esfriara na noite anterior. Ali, era quase um presságio.

Naus posicionaram-se como um tabuleiro de xadrez e os Barbieri permaneceram juntos no deque principal. A manhã estava fria e silenciosa; a névoa concedendo-lhe também ameaça. Nada a fazer, a não ser esperar. Morte ou milagre. O prêmio de consolação: um ou outro, não se recolheram como covardes. À primeira vista, a tática de Elizabeth fazia sentido. Ao seu lado, Diana respirou fundo o ar gelado, expirando com certa hesitação.

— Está tudo bem? – Mia perguntou, preparada para caçoar de que a avisou das consequências da noite anterior. O furacão Murphy a conhecia o bastante para saber disso, resumindo-se a acenar positivamente com a cabeça, sem se queixar. Sofia fitou-as de soslaio, em silêncio.

Finalmente, outro navio surgiu no horizonte. O Endeavour, a carruagem de Lord Beckett, liderando o ataque.

— O inimigo chegou! – anunciou Marty de sua posição ao cesto da gávea. – Acabem com ele! – urrou, agitando os ânimos da tripulação que o acompanhou em êxtase e gritos de glória. Mia reparou em Barbossa a poucos metros, virando calmamente a cabeça na direção dos homens com uma expressão mansa de desdém, e se apreendeu.

Logo, seus motivos se mostraram válidos. A névoa começara a se dissipar; abrindo espaço para mais navios. Mais navios do que seriam capazes de combater. E o Holandês emergiu das profundezas ao lado do Endeavour, matando todos os gritos de glória presos em suas gargantas. Foi o papagaio do senhor Cotton, contudo, o primeiro desertor; voando em direção à ilha, enquanto cantava “abandonar o navio”. Todas as cabeças, inclusive as do grupo italiano, voltaram-se ao tombadilho onde Jack estava parado com homens armados a ameaçá-lo com o olhar.

— Parola? – sugeriu em meio a um sorrisinho amarelo. Elizabeth assentiu, acenando para Barbossa.

Gibbs se adiantou para os botes com outros dois marujos, soltando as cordas que os prendiam, ao passo que a senhorita Swann e o Lorde do Mar Cáspio arrastavam Jack com eles, discutindo como lidariam com Beckett ao mar.

— Deem o sinal. – Barbossa ordenou a Marty, que subiu de volta ao cesto da gávea com uma bandeira branca em mãos.

O lorde então aproximou-se de Pintel e Ragetti. Antonieta não precisou prestar atenção para saber o que viria a seguir. À essa altura, Diana a encarava em alerta, confundindo-a. Em seguida, Hector encontrou seus olhos através da movimentação no deque, acenando para que ele se juntasse a ele.

— Não é provável que Beckett aquiesça com um acordo. – a Barbieri disse mansamente, braços cruzados ao seu lado, para que apenas seu amante a ouvisse. – Mas, suponho que você tenha um plano. – acrescentou, mirando-o significativamente.

Aye, e eu espero que seu orgulho pelo nosso rei não a tenha feito mudar de ideia sobre ele. – ele retrucou, imitando seu tom; conseguindo que ela sorrisse de lado. — Não, não mudou. – seus olhos, então, vagaram até a ilha onde o encontro deveria acontecer. – Diga um olá ao nosso mestre Turner por mim, quando o vir. – concluiu, indicando o bote já ocupado por Elizabeth e Jack, que o aguardavam ansiosos.

Barbossa afastou-se dela sem mais comentários, ocupando o lugar ao lado de Jack no bote, como se ainda temesse por sua fuga frente a tempestade iminente. Antonieta acompanhou a partida até não ser mais capaz de identificar seus rostos, voltando, assim, mais uma vez o seu raciocínio para o frenesi a bordo. Pintel e Ragetti a aguardavam próximos a escotilha, e a pirata reprimiu o sorriso vaidoso ao imaginar que Hector fora generoso o bastante para dividir tal momento com ela.

— Capitão Barbossa deixou suas ordens claras? – indagou ela.

— Sim, senhora. – assentiu Ragetti.

— Então, o que estão esperando? Vá em frente! – disse, apressando-os para os porões. – E suponho que possa contar com você e seus homens para conter os não simpatizantes? – acrescentou para Tai Huang, ao alcançá-lo; sabendo que Barbossa o convencera na noite anterior. O pirata apenas assentiu.

— Mesmo que um não simpatizante seja sua irmã? – Diana provocou-a, se aproximando por trás. Antonieta virou, encontrando Sofia ao seu lado, e mirou-as com as sobrancelhas arqueadas.

— O que foi? – inquiriu a capitã.

— Algo que precisa saber. – disse o demônio Murphy prontamente. – Entreouvi uma conversa de Calipso na noite passada e ela não negou quando a questionei; Ela está usando a irmandade para se libertar, Antonieta. Ela não tem nenhuma intenção de cumprir sua barganha com Barbossa para além de sua vida, como ele imaginou. – revelou com a voz entrecortada, tentando não ser ouvida.

— Há navios demais. – Sofia acrescentou, mirando-as preocupada. – E não será mais apenas uma guerra contra a marinha, mas contra a fúria de uma deusa.

— Então, lutaremos. – cortou-a, mais dura do que gostaria de ser.

— Então, por que deixá-lo viver, pelo quê, mais uma algumas horas? Só para morrerem juntos no campo de batalha? – Diana desdenhou, fria.

— Não tenho intenções de morrer hoje. – Antonieta insistiu.

— Bem, isso é reconfortante. – continuou a desdenhar o furacão Murphy, afastando-se delas. Mia bufou, encontrando os olhos de Sofia, que a observava, atenta.

— De um jeito ou de outro, isso precisa acabar hoje; ou não haverá uma verdadeira chance para que jamais percamos Porto Venere novamente. – explicou-se, e a inquestionável das Barbieri ouviu o desespero para que a entendesse em sua voz.

— Já lutamos ao seu lado sem concordar com você antes, não lutamos? Eu só espero que esteja certa. – respondeu dando de ombros e Mia assentiu, dando-se por vencida. Afinal, mesmo que abandonassem a batalha agora, não haveria uma rota de fuga segura com a frota da marinha real cercando-os. – Você nunca deixou de amá-lo, não é? A voz de Sofia sentenciou-a, mais do que de fato lhe propôs uma pergunta; deixando-a ciente, ao se afastar antes que sua irmã pudesse se defender ou assentir. Antonieta, por sua vez, não escolheria nenhum. Batalhas melhores em seu horizonte.

†††

Os olhos se voltaram, incertos, ao grupo que partira e agora se reaproximava em seu bote. Diana, sentada sobre as escadas que os separavam do tombadilho, lançou um último apelo para Antonieta, embora Sofia a houvesse convencido. A capitã pareceu considerar por um instante, calculando as possíveis perdas. No entanto, os números seriam enormes independentemente de sua partida ou não. Estando ali, por outro lado, ela poderia fazer algo sobre suas chances; e então, respondendo à pergunta de sua segunda imediata, pegou uma moeda de seu bolso para lançá-la ao ar. Cinquenta e cinquenta. Diana aquiesceu, à contragosto, e seus olhos repousaram sobre Barbossa, o primeiro a vir a bordo; esperando que ele valesse a pena.

Ele fez sinal para Pintel e seus homens, que o esperavam. Em seguida, rostos chocados acompanharam o jovem mestre Turner retornar ao navio acompanhado de Elizabeth, mas nenhum sinal de Jack Sparrow. Ambas, italiana e irlandesa, eram capazes de imaginar o que se passara. Diana confirmando consigo mesma algumas semelhanças entre o cigno e sua capitã. A rusga que presenciaram entre o casal por meses pareceu ter se rompido, e Antonieta alegrou-se por isso.

— Vamos usar o Pérola para liderar o ataque. – o rei dividia sua estratégia com o recém recuperado soldado.

— Será mesmo? – Barbossa, no entanto, interpôs-se a eles, atento ao desenrolar de seu plano. Tia Dalma vinha guiada por seus homens, enrolada em pesadas cordas de amura.

— Barbossa, não pode liberá-la. – interveio Will, aproximando-se do Lorde do Mar Cáspio. Homens de Tai Huang, porém, seguindo as ordens de Antonieta, pararam-no no ato.

— Não posso? – desdenhou ele.

— Temos que dar uma chance ao Jack! – Elizabeth tomou a frente, lutando contra o homem que lhe apontava uma arma. Ao longe, Antonieta observava-os apreensiva.

— Minhas desculpas, majestade. – o Lorde do Mar Cáspio prontificou-se, sem qualquer remorso. – Mas o mundo como o conhecemos certamente acaba hoje e eu não deixarei que aqueles como Lorde Cutler Beckett continuem a dar as cartas. E não colocarei minhas esperanças em Jack Sparrow, tampouco. Por muito tempo meu destino não esteve em minhas mãos. Já chega. – concluiu, correndo a mão pelo pescoço de Elizabeth, que o encarava com repulsa, ao passo que sua peça de oito lhe era tomada.

Ragetti apresentou o velho prato de estanho onde as peças de todos os capitães se reuniram. No encontro do colar de Elizabeth com seus irmãos, o vento cessou e a neblina se dissipou por completo.

— Há algum encantamento? – Mestre Gibbs indagou, apreensivo.

— Sim. – anuiu Hector. – Os itens colocados juntos; feito. Itens devem ser queimados. – prosseguiu ele alcançando a garrafa de rum das mãos de Mestre Gibbs, quebrando-a sobre os objetos para que o líquido os embebesse. Pintel então lhe entregou o bastão usado para acender os canhões. – E alguém deve dizer as palavras “Calipso, eu libero você da sua forma humana”.

— Só isso? – desdenhou Pintel.

— Dizem que deve ser falado como se para um amante. – Barbossa sorriu, e um pequeno murmúrio percorreu o restante dos homens. – Calipso! Eu libero você da sua forma humana! – ele falara com afetação, lembrando não a todos, mas somente Antonieta, de alguns bardos sem talento que manchavam as palavras de Shakespeare e Pirandello em seus palcos improvisados. Ao aproximar o bastão das peças, no entanto, nada aconteceu.

— E então...? – novamente Pintel interpôs.

— Ele não falou direito. – rebateu Ragetti e todos o encararam. Barbossa com ironia. Antonieta suspirando uma segunda vez a fim de esconder seu riso e repreender os olhares de Sofia e Diana em sua direção. – Tem que ser falado direito. – insistiu o pirata com o tapa olho, aproximando-se gentilmente da feiticeira. – Calipso, eu libero você da sua forma humana. – sussurrou com sincero afeto pelo mar.

Tia Dalma convulsionou à frente e então o fogo se alastrou sobre as oito peças, desfigurando-as para que ostentassem sua verdadeira idade e consumissem até o pó. O segundo de choque amansou as cordas que a mantinham atada, seu corpo trêmulo, conforme se alimentava da fumaça emanada pela queima.

— Tia Dalma! – Will chamou, sem resposta. – Calipso. – tentou uma segunda vez, sendo respondido por um estancar abrupto de sua atenção. – Quando a primeira corte aprisionou você... quem contou a eles como fazer? Quem foi que traiu você? – o jovem Turner falava com urgência e aqueles que não tentavam conter as cordas da bruxa de se romperem, o observavam com grande curiosidade.

— Diga o nome. – ordenou a deusa, trêmula por outro sentimento.

— Davy Jones. – ele a atende, com algum prazer em revelar o segredo do velho cão do mar. A expressão de Calipso fechou-se em sôfrego lamento, ao passo que sua forma começava a mudar e a luta de seus cárceres se tornava em vão. Ela os ultrapassou em altura e poder, rasgando as cordas e estilhaçando as tábuas sobre as quais repousava. Antonieta sempre a observara com medo, mas diante dela em sua verdadeira forma, mesmo o mais profundo medo que ainda sentisse confundir-se-ia com admiração.

— Calipso! – Hector chamou, pondo-se à frente de todos. – Eu venho diante de você como um servo humilde e contrito. – apresentou-se em meio a uma reverência polida, copiada por seus companheiros. – Eu cumpri com a minha palavra; e agora peço o seu favor. Poupe a mim, meu navio e minha tripulação, mas libere sua fúria sobre aqueles que ousaram se achar seus mestres... ou meus.

Muitos olhos permaneceram estancados ao chão. A curiosidade da Capitã Barbieri, porém, chamou os seus para que olhasse, encontrando nos sorrisos plácidos de Calipso um motivo. Vendo-a em sua verdadeira forma e consciente da maneira como mais de uma geração a tratou: prisioneira, pária, bruxa, arma. É claro que ela não os ajudaria. Eles também ousaram achar que poderiam ser seus mestres.

Malfaiteur en tombeau, crochir l'esplanade, dans l'fond d'l'eau! – a deusa urrou, aterrorizando-os, seu corpo sendo consumido por espasmos de fúria, para por fim definhar em uma torrente de pequenos crustáceos, caranguejos, aterrando todo o deque, até o último escorrer de encontro ao mar.

Silêncio, à medida que os homens se refaziam em suas posições e a brisa recomeçava a balançar as velas. Estava acabado.

— E agora? – Pintel voltou-se para Barbossa, ambos parados junto a balaustrada do navio.

— Nada. – Hector condenou-os. – Nossa última esperança falhou.

O sussurro da brisa corta o ar, levando o chapéu de um dos marujos consigo; até o alto do mastro principal. Elizabeth, e tantos outros, o acompanha, observando as nuvens que se formavam acima deles.

— Ainda não acabou... – ela sussurra e Will a escuta.

— Ainda há uma batalha para lutar. – ele concorda.

— Há uma armada nos esperando lá fora e contra o Holandês não há uma chance de vencermos. – Gibbs, ao seu lado, sentencia. Elizabeth ainda observa a brisa cortando as velas.

— Só um tolo tentaria. – ela aquiesce taciturna. Barbossa, por fim, se aproxima dela e os olhos do remanescente da tripulação os acompanhou atentos.

— Vingança não vai trazer seu pai de volta, senhorita Swann. – a fala, embora honesta, atravessa o rei como um tapa e a poucos metros, Antonieta e Alberto se entreolham com simpatia. – E não é algo pelo que eu pretenda morrer. – acrescenta o Lorde do Mar Cáspio, duramente.

— Tem razão. – ela aquiesce, derrotada, afastando-se dele para uma última olhada para toda a tripulação que os observa, parando na família Barbieri. – Então pelo que morrer? – pergunta, virando-se para encontrar os olhos de Barbossa já fixados nela. – Vocês me escutem. Escutem! – continuou, taciturna, fazendo caminho por entre seus homens até a balaustrada, subindo apoiada a um dos cabos. – A irmandade ainda aguarda o nosso sinal, o Pérola na liderança. E o que eles vão ver? Um bando de ratos num navio à deriva? Não. Vão ver homens livres. E liberdade! – cabeças antes abaixadas em resignação recomeçaram a se erguer e dentre a multidão que a ouvia, Antonieta não conseguia deixar de sorrir. A jovem aristocrata inglesa finalmente entendia as histórias. O que significava ser o monstro dentro do conto de fadas criado por outros; e os chamava para lutar contra isso. – O que o inimigo vai ver é o brilho de nossos canhões, eles vão ouvir o tinir de nossas espadas e vão saber do que nós somos capazes! Pelo suor de nossas testas, a forças de nossos braços e pela nossa coragem!

Ela convidara Barbossa para olhar, usando suas próprias palavras contra ele e àquela altura, talvez fosse o único que ainda não o fizesse.

— Cavalheiros. – chamou uma última vez, com o fôlego entrecortado. – Icem as bandeiras.

— Icem as bandeiras. – ecoou Will, decidido. Logo, tornou-se o cântico entoado pelos marinheiros que cruzavam o deque de volta às suas posições, prontos para segui-la.

— Ótimo, – murmurou Gibbs – temos vento favorável homens, é tudo o que queremos! – anunciou e as espadas se ergueram no céu.

— Icem as bandeiras! – Elizabeth prosseguiu com a ordem para a Imperatriz, ao lado do Pérola.

Diana se virava sobre o mesmo lugar, acompanhando a movimentação proveniente dos outros navios. Em um único tom, eles cantavam a canção, erguendo suas cores e suas espadas. Elizabeth cruzou com ela a caminho do tombadilho, e o furacão Murphy pegou-se sorrindo para a capitã, acompanhada dos outros três Barbieri. Antonieta acenou para seus irmãos, seguindo a jovem cigno.

— No fundo, talvez eu sempre soubesse que só isso seria necessário para colocá-los numa mesma causa. – brincou a capitã, pondo-se ao lado dela, observando o horizonte. – Uma mulher com pulso. – murmurou e Elizabeth sorriu de lado, olhos ainda à frente. Então, ao lado de ambas surgiram Will e Barbossa, ambos com um aceno para o rei, antes de mirarem o mesmo que elas. A armada e o Holandês.

Em sua mente, Antonieta ainda se atinha às palavras da deusa. “Através de toda água, encontre o caminho para ele que erroneamente me aprisionou”, ciente de que, embora Calipso tenha conseguido o que queria e se libertado de sua forma humana, ainda permaneceu humana o bastante para entender um sentimento como a vingança. Ela queria que vencessem. Contudo, quando a primeira gota caiu do céu sobre sua testa, Mia não pôde se manter mais tão certa. Nuvens cada vez mais sombrias acima de suas cabeça eram, nas circunstâncias de seu passado, mal presságio.

— Controlar cabrestante. Subir gávea. Manter a pólvora seca. – Gibbs zanzava pelo convés, dividindo responsabilidades com todos, atentos em suas posições. Sofia, com Alberto a seu lado, subiu por um dos cabos a fim de acompanhar as águas a frente, conforme o terceiro raio caíra.

— Senhor Gibbs! – chamou, ansiosa. – À bombordo! – alertou-o. Gibbs seguiu para onde seu dedo apontava e sua expressão tornou-se tão branca quanto a dela.

— Redemoinho! – avisou ele, então, para o tombadilho. Elizabeth ainda estava a frente, com Will em auxílio de Cotton ao timão. Por um momento, o rei estancou, incerto, suspirando ao sentir a mão de Antonieta sobre um de seus ombros. A capitã piscou, indicando Barbossa com um aceno ansioso, mas certo, de cabeça.

— Capitão Barbossa! – o cigno chamou, indo para junto dele. Will em seu encalço. – Assuma o timão.

Barbossa fitou-a como se considerasse suas palavras. Ao lado do jovem Turner, a Barbieri capturou sua atenção com um pigarro irritadiço, oferecendo a ele o mesmo aceno que concedera a Elizabeth.

— Claro, eu assumo! – anuiu o velho pirata, tomando o posto de Cotton com um gesto abrupto, mas certeiro. – Icem as velas, seu bando de macacos de convés! A morte é um dia que vale a pena viver! – urrou contra o vento para a tripulação. Elizabeth sorriu admirada ao lado de Will, que apenas encarou Hector Barbossa. Antonieta, por sua vez, resolveu deixá-los para oferecer mais uma mão nos preparativos no convés.

— Ela está na nossa popa e se aproxima! – avisou o jovem Turner ao avistá-los à estibordo.

— Mais rápido! – exclamou Barbossa, para aqueles que soltavam as velas, mãos ao leme. – Peguem o vento e não se borrem! – alertou virando o navio com velocidade.

À popa o Holandês diminuía o espaço entre eles. Do deque, Gibbs e Alberto vislumbraram entre a chuva o movimento nos canhões de proa do inimigo e, sem aviso, o primeiro tiro veio batendo junto ao tombadilho e se estendendo até a proa. Os tripulantes caíam para se esquivar, empurrando os companheiros para longe do tiro durante o processo; porém, alguns dos vigias cederam ao abismo.

— Tire-nos daqui, ou eles vão nos afundar. – Will advertiu a Barbossa.

— Não! Mais para dentro, vamos cortar pelas águas rápidas! – rebateu o Capitão, virando mais uma vez o leme. Will e Elizabeth se entreolharam, decidindo descer. A Swann voltou-se primeiro para Gibbs próximo ao cabrestante.

— Preparem os canhões! – advertiu imperiosamente, movendo-se para buscar as armas junto ao jovem Turner.

— Controlem as armas! Preparem os canhões a estibordo! – Gibbs tornou a gritar, aumentando o tom de sua voz para que fosse ouvido apesar do vento e da chuva.

— Coragem, homens! De prontidão! – Will acompanhou-o entregando duas baionetas de suas mãos para outros dois tripulantes. Diana cortou caminho por ele, passando um fardo de munição para os canhoneiros. Atrás dela, Antonieta vinha com três conjuntos de palanquetas nos braços.

— Fechem as escotilhas! – exclamou Gibbs do centro. Alberto tocou o ombro de Sofia e ambos correram para junto do canhão onde se posicionavam as duas Barbieri. – Preparem as armas. Canhoneiros do meio, virem o mastro! – o primeiro imediato gritou para os porões, adentrando a escuridão a fim de direcionar os primeiros disparos dali. – Não disparem, esperem estar lado a lado. – advertiu a Pintel e Ragetti.

— Saiam daqui! – Diana tentou empurrar Alberto, enquanto olhava para Sofia. Antonieta estava ofegante, forçando sua vista na direção do Holandês. Eles se preparavam para atirar. Por que a demora para dar a ordem?

— Nós não vamos a lugar nenhum! – Alberto exclamou, olhando confiante para Diana, que, como que por instinto, encarou o coto em seu braço.

— Fogo! – Antonieta ouviu Barbossa gritar finalmente, suspirando com algum alívio ao acender a pólvora.

— Fogo! – Elizabeth seguiu-o.

— Fogo! – Gibbs anunciou da escadaria para os canhoneiros do andar inferior. – Todos, fogo! Rápido homens! – havia urgência em sua voz, mas à visão dos estilhaços que triplicavam pelos segundos era fácil entendê-lo. Os navios começaram a atirar sem trégua ou espaço entre um disparo e outro; tão logo, da proa à popa com o tombadilho, o convés do Pérola Negra fora tomado pelo caos dentre a fuligem e os corpos de seus tripulantes lutando por um ponto cego onde pudessem escapar da morte.

— É tarde demais para alterar o curso agora marujos! – Barbossa sentenciou mantendo sua função junto ao leme, irrompendo numa risada estrondosa que soou quase como o agouro do que os aguardaria do outro lado.

Notas finais
Com muita cara de pau e alegria que eu volto a me comunicar por essa caixinha. Espero que gostem deste! Prometo que o próximo vem logo... e assim vamos nos aproximando do fim; já agradeço todo o carinho de vocês por essa fanfic!!! Um beijo Ana