Lembranças de Porto Venere
35 Capítulo 35
Notas iniciais
Os navios estavam sendo armados e por toda a extensão da cidade sentia-se o odor pungente da pólvora. A baía alvoroçara-se diante das ordens do rei pirata; homens descarregando os bens preciosos de seus porões, à medida que invadiam a casa de provisões a fim de munirem-se. Alberto Barbieri parou metros adiante da ala que acabara de deixar, respirando profundamente, permitindo que o aperto de sua mão contra a espada folgasse, permitindo-se o pequeno momento de vitória para os seus. Sofia, que nunca desejou que abandonassem a ilha, seria o sorriso mais radiante dentre os outros. Beckett sendo apenas uma peça em um jogo maior ou não, eles retomariam o controle de sua cidade e, que Deus os protegesse, não a perderiam uma segunda vez.
Com que então, sua irmã parou ao seu lado. O semblante imbuído de perturbação, confundindo-o, até a razão atingi-lo. Chama-la-tinham de puttana e ele, talvez, devesse ter atirado em Villanueva, como Cícero faria, ao invés de resumir-se a ameaçá-lo com o empunhar da pistola. No entanto, as relações ali detinham um tom muito mais intrincado, do que se estivessem discutindo fora da proteção da Baía Naufrágio. Desconhecia as inúmeras ocorrências com que tal insulto a assomava, porém; e amarguravam-no que mais homens que o tivessem feito não estivessem mortos por sua mão. Esse era, afinal, o dever do irmão mais velho, ainda que Mia fosse perfeitamente capaz de lutar suas batalhas.
— Eu não deveria ter perdido a cabeça. – ela murmurou num suspiro pesado, correndo a mão pela nuca. Alberto sorriu, solidário.
— Ele não deveria ter usado aquilo contra você. – corrigiu-a, passando a mão por seu ombro. Antonieta assentiu, não muito convencida. – Além disso, pavio curto é algo pelo que você pode culpar papà. – acrescentou em tom de brincadeira.
— Grazie, eu vou. – respondeu com alguma violência, tornando a caminhar, Berto ao seu lado. Villanueva, ou qualquer outro lorde, jamais ousaria zombar àquela maneira de Dona Ching e faziam-no com Antonieta somente pela sua idade mais tenra, embora longe de ser a menina que, por vezes, conseguia que sua mãe a levasse em suas viagens. Quiçá, a eleição de Elizabeth viera como uma promessa para o futuro.
A Stella De La Sera desobedecia à tradição de Allegra Barbieri. Apenas uma vela após o anoitecer ou seremos um alvo fácil. Sofia iniciara os preparativos para a despedida de Matteo e Ilaria, e por toda a extensão do deque, velas corriam em pequenos lampiões, iluminando-os completamente. Lembrando-a, mais uma vez naquela viagem, do momento no qual ousou rebelar-se contra o toque de recolher da matriarca e, tinha razão, as velas o fariam ser uma estrela; e por um momento, esqueceu-se da guerra, do insulto de Villanueva e Chevalle. As duas redes preparadas ao centro, contudo, logo lhe saltaram os olhos e seu rosto contorceu-se mais, apagando o que conquistara, conforme via-se diante de outra tradição. Homens no comando que acreditavam estar no direito de diminuí-la; Os fios de cabelo dentro de uma gaveta em sua cabine; A escuridão em seu navio após o entardecer; Alianças seladas antes de seu tempo. Tantas escolhas que deixou de fazer, ao aceitar ser o resultado de outra vida.
A tripulação a observava, e a Alberto, esperando pelas notícias advindas do encontro.
— Cínzia. – chamou, seca, indicando o andar inferior com um gesto bruto de cabeça. Algumas sobrancelhas se arquearam, mas Alberto acalmo-os num sutil aceno de mão, enquanto a cirurgiã seguia os passos de sua capitã, incerta.
Por um favor, a Barbieri sempre dirigir-se-ia a ambos os irmãos Bianchi. Quando, por sua vez, suas intenções devessem ser mantidas longe da consciência do resto da tripulação, o que era, em verdade, raro, chamava-a apenas ela. Tais situações possuíam o pendão de esconder as máculas de Antonieta – fosse físico ou emocional. Ocorrências que perpetravam em Cínzia o eterno sentimento de insegurança perante a estabilidade de sua amiga, pois isso ela era. Tratava-os todos como a extensão de sua família e indubitável que, de fato, assim se sentisse. No entanto, igualmente inquestionáveis as partes de sua vida e personalidade que preferia manter sob a guarda exclusiva de Alberto, Sofia e Diana. As três únicas pessoas capazes de afirmarem que a conheciam por completo e, não obstante, havia o que apenas Cínzia conhecia. Que existissem demônios graves demais para Antonieta esconder de seus três favoritos, mas ceder a ela, seria sua eterna marca de importância e medo; do que enfrentaria a seguir.
Assim, Antonieta parou. Hesitante, entre as mesas onde Matteo e Ilaria repousavam, parecendo considerar seu próximo passo ou assim lhe aparentou. Ao virar-se para encará-la, em seus olhos havia uma sombra; aprofundada quando retirou o punhal do coldre em seu cinto e o entregou a ela.
— Prendi i loro cuori per me[1].— disse, taciturna.
Cínzia fraquejou; o ar saindo pela sua boca como as palavras de choque que não externaria. Oposta à sua imagem, Antonieta fincou-se sobre o chão, resoluta, fria; diferente. Há muitos anos, livrara tanto ela quanto seu irmão de uma existência como escravos. A gratidão, sob nenhuma luz, mascarou que aceitar a proposta de Mia, ainda que à um preço menor, de igual forma significaria entregar sua vida a uma mulher branca e que ainda existiriam ordens; um status quo. Todavia, no transcorrer do tempo, mesmo em momentos mais sombrios, a falta de falsa cortesia presente nela e nos outros membros já condecorados em sua tripulação, sua capacidade de enxergar o mundo como verdadeiramente era, tornaram as ordens menos uma obrigação e mais um trabalho que realizava no interesse de ambas.
Circunstâncias que fizeram-na compreender encontrar-se ali uma pessoa – num mundo habitado por tantos dispostos a nomeá-la, pela cor, fruto de raça inferior – disposta a correr por ela os mesmos riscos que sua posição implicava correr pela outra. Tal mulher e aquela à sua frente não eram as mesmas.
— Não. – respondeu de pronto.
— Não estou pedindo como sua amiga. – Antonieta disse, com os braços atrás do corpo. – Esta é uma ordem de sua capitã. – seu tom era uma advertência e a comprovação necessária de que não a via como Cínzia naquele momento.
— E eu, como sua cirurgiã, me recuso. – rebateu, frisando cada palavra com o arquear resoluto de suas sobrancelhas.
O punhal restou erguido no ar entre elas, Cínzia com o braço esticado para que o pegasse de volta. Antonieta encarou-o, crispando os lábios em desgosto diante da irredutibilidade da mulher, que esperou. Ciente de que a qualquer segundo, talvez a perfurasse pela insubordinação. Uma única esperança, de que quem falasse fosse o luto e logo ela recobraria seu melhor julgamento, mantinham sua respiração calma.
Por fim, Mia assentiu.
— Ótimo. – murmurou, aproximando-se do corpo de seu cozinheiro. – Diga-me onde perfurar e eu mesma faço. – falou ainda imperiosa. Sua cirurgiã, por sua vez, resumiu-se em redobrar o aperto com que segurava-o.
— Tampouco irei permitir que viole estes corpos, Capitã Barbieri. – disse com algum desdém ao chamá-la pelo devido título. Os olhos de Antonieta encararam-na com ódio verdadeiro que, porém, não lhe pareceu devoto totalmente a ela. – Antonieta, isso é macabro. – sussurrou como se a tensão já houvesse se dissipado.
— Dê-me o punhal, Cínzia. – insistiu, ignorando os sentimentos dela, empurrando a mesa a fim de aproximar-se.
— Expus a cozinha e talvez o navio inteiro à contaminação permitindo que ficassem tanto tempo expostos aqui. – Cínzia rebateu, desenfreada, indo mais uma vez contra seu instinto mais natural de aquiescer a ela. – Fiz isso, pois achei que merecia vê-los uma última vez. Não faça com que eu me arrependa. – advertiu, séria. No que dizia respeito aos mortos e aos doentes dentro daquela nau, a sua palavra ainda deveria ser a mais importante; e Antonieta lembrar-se-ia disso.
Sobre as mãos cruzadas de Matteo, a Barbieri fechou as suas num toque apertado, vulnerável. À meia-luz, via-se apenas o contraste de sua boca pintada e a pele queimada pelo sol e seu corpo contraindo-se mais e mais sobre o falecido cozinheiro. De fato, o luto era o catalizador de toda a amargura que descontava em sua cirurgiã. Suficiente para levá-la aquele pedido, sabendo – ou deveria saber – que Cínzia jamais concordaria. Havia uma prática, dentre tantas ao norte da África – de onde fora levada para ser vendida a Companhia ao sul – que tornava o pedido de Mia menos asqueroso aos seus olhos. Separar o coração de grandes faraós de seus corpos antes de enterrá-los. No entanto, frente a sua vida de prática, mais do que a sabedoria dos antigos, afastá-la-iam de condescender à ideia.
— Conseguimos os navios de que precisávamos. – revelou cabisbaixa, ao que Cínzia ergueu levemente as sobrancelhas.
— Uma vitória que vem com um gosto amargo. – ponderou, referindo-se às duas mortes. Antonieta não respondeu.
— Nós veremos Porto Venere outra vez, mas Ilaria e Matteo... – sua voz era apenas um sussurro quebradiço e ela não conseguiu terminar. Cínzia fez menção de aproximar-se, parando ao bater da mão de Mia sobre a mesa. – Non sto scaricando i loro corpi in mare come se fossero sterco[2]. – seu tom era uma promessa e sua cirurgiã não evitou um sorriso ao ouvi-la falar em italiano, à medida que seu rosto se acalorava.
— Se ficarem aqui durante toda a viagem de volta, nós também não veremos Porto Venere, Antonieta. – insistiu em adverti-la, embora Mia ainda falasse sem atentar-se ao fato de que estava certa.
— Non li lascerò in quest'isola, dove nessun aiuto ci è mai stato dato liberamente[3]. – continuou, cuspindo as palavras em justiça ao estigma que seu próprio povo carregava. Entendeu, então, a cirurgiã; eles conseguiram o que vieram buscar, mas talvez o preço pago por Antonieta houvesse sido o mais alto que já a vira pagar: ser lembrada por uma mesa de homens de que era uma mulher. O orgulho da italiana; algo que em alguns níveis compreendia.
Isso, Mia sabia que ela compreenderia. Contudo, não esperava que entendesse que Matteo e Ilaria pertenciam às terras de Tino, ao lado dos túmulos de seus pais, onde um dia tanto ela quanto Alberto teriam o seu descanso final da mesma forma.
— I loro cuori non appartengono qui[4].
Cínzia hesitou, repousando a faca aos pés de Matteo. No que parecia outra vida, ela possuíra outro nome. Deixando-o para trás pelos anos em que foi maltratada; apegando-se ao nome que os italianos designaram a ela, após seu extensivo trabalho guiando-os para maneiras mais felizes de se cuidarem – embora não entendesse como isso, em especial, a assemelhasse com a divindade. Ártemis, a nascida em Cinto, na ilha Delos. A segunda, além de Diana, que o carregava em sua forma romana. Foi a escolha que fizera, embora, em tese, despida de uma escolha real; e encontrou nova casa dentre aquelas mulheres e aqueles homens. E, ainda que acreditasse ser aquele um pensamento e pedido macabros, era capaz de entender o sentimento de que o repouso eterno merecesse ser feito em terra onde vive a felicidade que deixou para trás.
— Eu faço. – disse, acenando para que abrisse espaço. Ainda era, afinal, seu. Mia segurou-a pela mão, apertando em agradecimento. – Vá. Eu os levarei até sua cabine, quando acabar. – acrescentou dispensando-a com um olhar taciturno e lembrando-se de quem detinha o controle da situação ali, a capitã obedeceu-a de pronto.
A tripulação voltou a se reunir com sua subida ao deque, ansiosos. Antonieta procurou por Alberto, encontrando-o ao lado de Sofia próximos ao castelo da proa e acenou para que se aproximassem dela. Mirava cada um dos rostos à sua frente, ressentida pela maneira que acabara de tratar Cínzia, pensando em meios de se redimir, relembrando-se do que cada um ali já fizera por ela ao longo de seus anos como capitã do Stella De La Sera. Voltava ao dia em que duelou com Sofia, alertando-a para o que Beckett de fato pretendia com os perdões da coroa e em contrapartida recebeu os votos de cada tripulante que asseguradamente a seguiriam em batalha. Ainda sentia medo. Contudo, ele não substituía a vontade de ser a mulher que todos ali precisavam que fosse.
— Conseguimos os navios para retomar o forte em Porto Venere. – anunciou, ao que irrompeu-se o grito comemorativo geral. Ela lhes cedeu um sorriso cálido. – Ainda não temos certeza sobre a chance de usarmos também o Sogno D’Oro, mas, se for o caso, a chance será redobrada. – disse simplesmente e alguns assentiram com esperança. – Amanhã, nos reuniremos às portas da morte para enviar uma mensagem a Companhia das Índias Ocidentais. Falarei com o rei, mas imagino que Elizabeth não exigirá que usemos o Stella, se alguns braços aqui se oferecerem para integrar a tripulação dos outros navios.
— Rei? – Olívia inquiriu, arqueando as sobrancelhas, surpresa.
— Rei. – assentiu com um sorrisinho orgulhoso. A mestre de armas retribuiu-o com um pequeno murmúrio pomposo, seguido de risadas dos velhos simpatizantes da senhorita Swann.
— Velaremos os corpos de Matteo e Ilaria. – continuou, silenciando-os. – O que desejarem fazer na, assim intitulada, última noite de suas vidas, não me dirá respeito... a menos que algum homem seja ferido, entendido? – os homens e mulheres assentiram solenemente. – Alberto. – chamou, dispensando os outros para suas tarefas. O Barbieri seguiu-a até sua cabine, fechando a porta ao passar.
Antonieta caminhou até sua mesa, batendo com os pés no chão, parada no lugar, como se pretendesse se livrar da energia que a assolava desde sua chegada a baía. Virou-se, então, para Alberto, retirando algo de dentro dos bolsos. O anel que recuperara na ilha, antes do ataque de Sao Feng. Berto assoviou admirado ao vê-lo, indo até ela com passos displicentes, correndo os dedos pela joia, antes de bater gentilmente com sua pedra contra o nariz de sua irmã.
— Tinha me esquecido. – disse colocando-o no dedo correspondente a sua mão direita. – Na correria, só consegui recuperar este... – comentou apontando para a aliança em seu anelar. Mia balançou a cabeça, rindo pelo nariz.
— Ela é uma mulher de sorte. – observou num tom que beirava o jocoso e seu irmão lhe piscou com um sorriso malicioso. – Já imaginou como seriam nossas vidas, se não tivéssemos seguido o caminho deles? – perguntou, mansa, subitamente, após um momento de silêncio.
Alberto analisou-a por um momento, rindo pelo nariz conforme se sentava sobre a mesa, incerto no que responder. Ele havia tomado aquela decisão muito antes dela e jamais se gabaria por saber que um dia ela o faria aquela pergunta.
— Nós vivemos numa comuna perto do mar, fratella. – respondeu simplesmente, ao que ela o mirou pedindo que se explicasse. – De uma forma ou de outra, nossas vidas dependeriam do mar. Talvez Soff e nem você se vestissem com veludo e seda, mas, estou bastante certo de que haveria um barco. – concluiu dando de ombros.
— Então não se imagina fazendo qualquer outra coisa? – Antonieta inquiriu, cruzando os braços.
— Talvez um pescador ou um comerciante mais honesto, para o bem de minha família. – disse com gentileza, observando sua irmã balbuciar “minha família” baixinho. – E você, fratella? O que imagina? – devolveu a pergunta, levantando-se para ficar mais confortável na cadeira à frente da mesa dela, fitando-a com um sorriso sabichão. Mia sorriu de volta.
— Sofia provavelmente cuidaria dos livros em terra. – falou dando de ombros, cruzando as mãos sobre a mesa. – Diana facilmente gerenciaria um bordel e garantiria que as meninas fossem bem tratadas. – brincou se recostando em sua cadeira. Berto analisou-a mais atentamente.
— E você? – repetiu, mansamente. Antonieta encarou as mãos em seu colo, ouvindo as ondas do lado de fora, longe...
— Eu teria um bar. – respondeu com a voz grave. – Cobraria o preço dos homens por uma bebida e uma boa história. – acrescentou rindo levemente. Berto acompanhou-a.
— Não vejo você ficando pra trás ouvindo histórias, se poderia estar por aí contando as suas. – ponderou retesando-se na cadeira. Mia riu levemente outra vez, dando de ombros, inclinando o corpo para frente.
— Devo estar sendo repetitiva, mas não sei mais o que eu faria ou não. – disse calmamente, em tom de confidência. Berto apenas ouviu. – Durante os primeiros anos após a morte de mamãe eu estava tão certa de quem eu era. A filha que sucedera sua mãe. A mulher que demarcou seu espaço em meio a selvageria. Cádiz foi prova disso. Os outros, na verdade, viam uma mulher tão ambiciosa... ela nunca hesitaria em propagar suas leis. – falava como se depreciando a si mesma, cansada.
— Você foi e fez tudo isso. – Alberto interpôs em defesa dela. Antonieta encarou-o, assentindo.
— Eu sei que sim. – disse prontamente. – Mas sempre com algum homem atrás de mim tentando dobrar meu jogo para seu benefício. Eduardo, Louis, Lorenzo, Barbossa... tantos malditos homens... homens demais aqui. – murmurou entre dentes.
Alberto permaneceu em silêncio, enquanto ela recostava a cabeça para trás, fechando os olhos. Nunca antes aparentando tanto sua idade.
— Então porquê ajudá-lo? Barbossa. – perguntou de repente. Um sorriso se ergueu nos lábios dela novamente.
— Isso não é do seu feitio, Berto. – interpôs.
— Eu sempre permiti que tivesse espaço, mas não quer dizer que meus olhos não fossem vigilantes. – brincou, fazendo-a gargalhar com gosto.
— Você é um bom irmão. – elogiou-o, abrindo os olhos, fitando-o com carinho. – Barbossa foi um ponto de virada; e você sabe o quão apega eu consigo ser com o passado. – explicou, sendo capaz de brincar sobre si mesma.
— Sei, mas ele não a machucou? – rebateu, inclinando-se para a frente com a mão no joelho. – Sofia e Diana discutiram sobre isso, antes de deixarmos Tortuga.
Mia riu pelo nariz, mexendo a cabeça em negativa.
— Ele me deu essa cicatriz. – disse, mansa, apontando o lugar em seu braço onde o resquício de seu segundo reencontro com Hector deixara uma marca. – Ele roubou o diário de nossa mãe; e, sim, ele me deixou. Entretanto, apesar de tudo isso, durante o tempo em que fez tudo isso, ele foi mais honesto comigo do que qualquer um. – falou com simplicidade, dando de ombros. – Eu confio nele; não com a minha vida, é claro, ainda se trata de um pirata que irá avaliar sempre aquilo que lhe trouxer o melhor proveito, mas, o bastante para levá-lo numa viagem de seis meses até Singapura. – brincou, por fim.
— E apenas isso, Nieta? – inquiriu sugestivamente. Ninguém a chamava assim, desde a morte de seu pai.
— Você mesmo disse. – retrucou alcançando sua mão a fim de apertá-la com carinho. – Eu jamais me limitaria a ouvir histórias, se pudesse tomar parte nelas eu mesma. – ponderou, sagaz e ele apertou sua mão de volta.
Cínzia bateu à porta e Antonieta concedeu a seu irmão a deixa para que as deixassem à sós. A cirurgiã trazia dois jarros de vidro com sal nos braços, depositando-os sobre a mesa.
— Está na hora. – murmurou, deixando a cabine com ela ao seu lado.
Carlo já havia mandado que trouxessem os corpos, agora dispostos ao centro da estrela sobre as redes de pesca, envoltos pelas mantas que os cobriram em vida. A tripulação os cercava, com os Barbieri em meio a eles. Às mãos de cada um, um lampião, exceto Tristan e Angello, parados ao lado dos corpos esperando o momento em que os entregariam para o mar. Mia preparou-se para falar, contendo-se ao perceber que Elizabeth vinha com Barbossa e Mestre Gibbs – que amigara-se a Matteo durante a viagem – para juntarem-se a eles. Recebeu-os com um aceno solene de cabeça, limpando a garganta em seguida.
— Questa notte onoriamo queste due anime che qui riposeranno. – começou com a voz grave, já passado seu momento para o choro. — Matteo e Ilaria Vitale. – enunciou orgulhosa, correndo os olhos por cada um deles. Poucas lágrimas se viam, fruto do tempo que detiveram para exprimi-las. No entanto, todos os rostos encaravam gravemente o chão. – Seguire gli ordini non è sempre facile. È la parte migliore della nostra natura, essere in grado di formulare domande. Abbi il coraggio di assicurarti che quelli sopra di noi facciano sempre la scelta migliore. – seus olhos repousaram em Cínzia, que já a observava; sorrindo uma para a outra, num silencioso pedido aceito de perdão. — Durante tutti i miei anni da capitano, ho potuto contare su queste due persone meravigliose per aiutarmi a vedere il modo migliore attraverso le tempeste. Erano, dopo tutto, i miei angeli.[5]— Antonieta sorriu, avistando os mesmos nos lábios daqueles que já haviam escutado aquelas palavras serem pronunciadas por eles a ela.
Contaram-se histórias e entoaram-se cânticos antigos à família Vitale que agora repousava. Ria-se das melhores partes de seus passados, às palavras e trejeitos dos tripulantes, ao mesmo tempo em que se permitiam condoer-se pela nítida perda. Ao final da homenagem de Alberto, com o histórico de seus feitos sob a bandeira dos Barbieri, Tristan e Angello, que deveriam erguer uma rede cada um, vir-se-iam ajudados pela corja que se dividia entre eles; todos ajudando a erguer Matteo e Ilaria uma última vez para os braços do mar.
— Colui che si alza con il mare, col mare si immerge[6]. – entoaram em uníssono.
[1] Retire os corações deles para mim.
[2] Eu não vou despejar os corpos deles no mar como se fossem merda
[3] Não vou abandoná-los nesta ilha onde nenhuma ajuda jamais me foi dada gratuitamente.
[4] O coração deles não pertencem a este lugar.
[5] Esta noite, honramos estas duas almas que aqui repousarão. Matteo e Ilaria Vitale. Seguir ordens nem sempre é uma tarefa fácil. A capacidade de formular perguntar é, afinal, a melhor parte de nossa natureza. Ousando, assim, assegurar que aqueles acima de nós sempre façam a melhor escolha. Durante todos os meus anos como capitã, pude contar com estas duas pessoas maravilhosas para que me ajudassem a enxergar o melhor caminho em meio à tempestade. Eles eram, afinal, meus anjos.
[6] Aquele que com o mar se levanta, com o mar se deitará (He who rises with the sea, with the sea shall dip).
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