Notas iniciais
Boa Leitura!

Antonieta abriu os olhos ao som do canhão que retumbava pela costa, a mão automaticamente alcançando a pistola sob o travesseiro; apenas para se dar conta de que não havia nenhum canhão, tampouco estava em seu território. Nada mais do que outro truque insensível de sua mente que não se abrandava perante seus erros, projetando as vozes de seus amigos e conhecidos implorando por socorro, o cheiro da pólvora e aquela sensação de impotência tão inerente aos pesadelos. Neles, suas pernas não a obedeciam. Ela não corria chamando pelos nomes de seus familiares, não atirava contra os uniformes vermelhos; sua única função dentro daquelas visões era assistir. A plateia privilegiada da ruína, desperta dentro da calmaria de sua cabine, na segurança de sua cama em alto mar, longe de tudo aquilo que, ainda assim, mantinha-se pulsante e vivo com cada batida dentro de seu peito.

Noites como esta lhe eram tão raras. Seu sono implacável tal qual sua personalidade, seu ego. Todavia, lembrar-se-ia das vezes nas quais a culpa, ou qualquer outro sentimento capaz de roubar a tranquilidade no espírito do homem, afligira-a com aqueles mesmos sintomas corrosivos. Seguiam-se à morte de seus pais. Embora falar a respeito de Cícero houvesse trazido Beatrice para mais perto de si novamente, por óbvio que também abalaria o cão já enxotado. Antonieta amava o mar e, a partir do momento em que votou-se nela como substituta de sua mãe ao lado de Alberto, não permeou-se em sua convicção quaisquer dúvidas da missão que nascera para desempenhar. Era ela a capitã do Stella De La Sera, herdeira de Allegra Barbieri, responsável por uma frota de oito navios com o suporte de seu irmão mais velho e seus homens, que por declaração volitiva a escolheram, fizeram dela a Lady da Ligúria.

Sua mãe tão sabiamente as batizara de suas três graças, sempre encantada pelos renascentistas de Florença, contudo, à luz dos últimos anos para o clã Barbieri, Antonieta se perguntava se Allegra não antevira mais do que ela fora capaz de enxergar naquela pintura. As Cárites em círculo, abraçadas, carregavam as maçãs da imortalidade em suas mãos. Duas delas olhavam na mesma direção, porém Raffaello decidiu que uma estaria voltada para o lado contrário. Enquanto duas das irmãs mantinham-se unidas ao mesmo destino, a outra desafiava seu caminho contra a correnteza. A juventude trazia em sua aljava o eterno paradoxo da ignorância – se boa ou ruim – para uma mente intrépida como a de Antonieta Barbieri. Levaria anos para que aquele leve virar de cabeça significasse alguma coisa...

Eis, então, que ali se encontrava. O baque resoluto de uma questão que estivera escancarada aos seus olhos desde que Sofia, Diana e ela corriam com Alberto pelas ruas de Porto Venere. A brisa esfriara, de repente, mas nenhuma luz deveria ser ascendida após o toque de recolher. Naquele momento, todavia, a Barbieri não se importava com as regras. Sua mente imergida em trevas, ansiava pelo brilho de uma vela... o mesmo que tentara conceder a Beatrice àquela tarde. Nada tinha a ver com esperança, porém; pois, esta não se tratava de fingir que os problemas não existem, mas sim de que não durariam para sempre. Antonieta lamentava por seus pesadelos. O quanto desgastavam-na e deixavam apenas o rastro de trevas em seus pensamentos, no entanto não durariam para sempre. A morte de Vincenzo, por outro lado, negar a sua ocorrência – acreditar numa chance – não era esperança, mas uma indulgência a qual julgava Beatrice ser merecedora. Afinal, ele possuía a sorte de um filho da puta... como Bottom em Sonhos de uma Noite de Verão que, por uma lua, recebe a dádiva de ser o preferido da rainha das fadas.

Havia uma cópia traduzida para o italiano daquela comédia inglesa em sua estante. Na opinião da Barbieri, Shakespeare fora o único bebedor de chá que realmente prestara. Uma pena que jamais conheceu Orazio Vecchi, músico comediante por cujas madrigais a jovem tivera predileção durante a adolescência. E, deveras, para Mia, a maioria dos estrangeiros, embora não fosse algo planejado, por quem conseguia sentir algum esborro de simpatia usualmente dividiam de seu prazer com a arte. À luz da vela, folheou o exemplar já muito usado, procurando pela transformação do tecelão em asno. Tal mágica tratada como sátira pelo senhor Shakespeare sempre foi capaz de erguer um sorriso infantil nos lábios da mulher, fascinada pelo modo como grandes descobertas provinham, usualmente, das pequenas coisas. As estrelas constituindo o exemplo ao qual atava-se a maior parte da história de sua família... tudo começara porque o horizonte e o céu noturno eram convidativos demais para serem ignorados.

Apagando a vela, Antonieta apanhou seu casaco sobre a cadeira e subiu para o tombadilho, encontrando-se com Luigi. O timoneiro reconheceu a presença dela com um breve aceno de cabeça, tornando a fixar seus olhos no horizonte sem perder muito tempo. Não havia lua no céu, apenas suas filhas; metáfora que Mia julgou pertinente ao momento.

— Está frio. – comentou a capitã, seguindo o olhar de Luigi mar adentro. Ele assentiu sem se dar conta. – Vá lá pra baixo, caro. Eu fico com ela esta noite. – apontou educadamente.

— A senhora deveria dormir. – rebateu o timoneiro, fitando-a de esguelha.

— Não vou conseguir dormir esta noite. – disse simplesmente, dando de ombros. – Ao menos me deixe cuidar dela, Luigi. – insistiu. Ele detestava ser roubado de suas funções, mas pouco restaria a ser feito com sua capitã mirando-o com sua obstinação habitual. Assentindo, por fim ele a deixou. Sua mão repousando carinhosamente sobre a dela em sinal de respeito e compreensão. O sorriso em resposta que ela lhe ofereceu foi morno, mas sincero.

Sozinha, se permitiu abraçar o tipo de brilho que não descendia de uma vela, mas do perfume cálido do mar à noite, junto à brisa fria, mas bem-vinda, acordando-a de seus medos e demônios para a sensação latente de autoconfiança; colocada à prova diversas vezes naqueles últimos dias. Noções de poder sempre tão frágeis e de tão pouco significado ante a beleza de toda a grandiosidade de não se ver nada, mas saber exatamente para onde vai.

— Guarda la luna, guarda le stelle… Guarda tutte le cose belle.[1]— a voz melodiosa de sua mãe murmurou ao seu ouvido; um sorriso sonhador abrindo-se em seus lábios à memória de estar sentada em seu colo, as palavras ritmadas seu eterno ninar... mas ainda incapazes de conseguir desanuviar sua mente.

Recaíram, então, seus olhos sobre figura que a noite viera camuflando. Hector estava parado a alguns passos da escotilha para os porões, observando-a no tombadilho com aquela expressão taciturna que nunca queria dizer nada para Antonieta. De fato, contrariando os indivíduos aos quais acostumara-se, a leitura de suas emoções apresentou derradeira dificuldade desde o dia primo no qual se conheceram. Contudo, à época, tentar desvendá-lo fora um divertimento... uma vida aconteceu desde então; e contra ela, restava muito pouco a se brincar. Grande infortúnio levara-a a mencionar Margaret antes do tempo e não desejava nada além de retratar-se por isso, mas conhecia Barbossa... era muito mais fácil flertar com ele e tratá-lo como um de seus joguetes, do que abrir suas próprias feridas a fim de remediar as dele...

— Não consegue dormir? – perguntou civilizadamente, observando-o caminhar até ela, subindo as escadas para o tombadilho com passos pesados. Também Hector conhecia Antonieta. Possuía uma necessidade quase incessante de falar, o que não a tornava companhia ruim, mas perigosa.

— Nem você. – constatou terminando o trajeto, mantendo alguns passos de distância dela. Mia notou, machucando-a de certa forma e tornando seu feito na noite anterior muito mais vergonhoso na sua opinião.

— Sempre achei que eles se tornariam mais leves com a idade. – comentou recusando-se a olhar para ele. – Os fardos. – a explicação vinha de forma obsoleta, mas ainda assim ela achou de bom tom esclarecer ao que se remetia. As sobrancelhas dele se arquearam em caridosa curiosidade.

— Está pensando nas pessoas que matou? – indagou reafirmando-se sobre seus pés, um pouco desconfortável, cruzando os braços cautelosamente.

— Na morte de uma forma geral. – respondeu calidamente, ousando finalmente encará-lo. Com sua resposta, um claro sorriso de escárnio ousou subir num dos cantos de sua boca e ela ansiou para que o fizesse; uma brecha...

— Um tanto macabro, não acha? – Hector disse, aproximando-se mais dela. Antonieta sorriu.

— Bem, é claro que seria um assunto corriqueiro pra você. – ponderou dando de ombros. – Indo e voltando com tamanha facilidade. – brincou, suas mãos gesticulando para frente e para trás com ênfase. – Alguns de nós só tem uma chance.

— Eu teria aceitado a minha de bom grado. – retrucou aproximando-se mais um passo. Antonieta soltou um muxoxo de descrédito.

— Depois de anos aquém das boas coisas da vida? Sem aproveitar um pedacinho mais? Nem parece você, Hector. – ralhou revirando os olhos, fingindo incredulidade, ao que ele lhe concedeu um sorriso genuíno.

— E a sugestão da estimada capitã, seria...?

— Ora, se não uma bacia de maçãs, uma porção fresca de caviar acompanhado do melhor vinho branco português, sem dúvida. – falou com graciosidade, os olhos dele abrindo-se um pouco em surpresa pelos detalhes de que ela se lembrava. De fato, uma memória nem um pouco seletiva, no entanto também ele recobrava alguns conforme a encarava... Antonieta cuspiu o caviar quando experimentou, mas certamente gostara do vinho branco que o acompanhava. Seu fraco eram os chocolates espanhóis. – Mas isso levando seus gostos em consideração, mas a verdadeira sugestão da capitã envolveria outra comodidade... – acrescentou ela piscando inocentemente, fazendo-o rir.

— Não me admira, mas ouso requerer mais clareza? – disse. Foi a vez de Antonieta rir.

— Oh, eu não ousaria torturá-lo dessa maneira, mio amico. – brincou com um aceno displicente de sua mão esquerda, prolongando o sorriso dele, satisfeito por estarem em terreno mais cômodo aos dois do que à noite anterior. – Dez anos... – ela pareceu considerar aquilo por um momento – Imagino que seja tempo o bastante para enferrujar alguém. – a troça imperava sobre seu tom, notadamente, ao passo que sustentava seu olhar com malícia amigável – inerente a parte de seu espírito que jamais envelheceria. Sobreveio sobre ela, contudo, o espectro das palavras escolhidas por ele ao refutar sua insistência... “Ela está morta, Antonieta”... e assim elas mataram seu sorriso, à medida que ecoavam pela brisa, sufocando-a até. Seus lábios formaram um “o” pequeno e em Barbossa aflorou a lembrança quanto a naturalidade em tudo aquilo; com que rapidez a Barbieri transfigurava troça em seriedade, deixando-o curioso para descobrir o que viria a seguir. Ela não sabia. Deveria existir um modo de falar a respeito sem que doesse tanto, sem que ambos voltassem a momentos da história que preferiam manter apagados... talvez dois seres humanos menos estupidamente complicados conhecessem a resposta. – Eu sinto muito, Hector.

Seu tom era mais brando do que seus sentimentos. Contestando seus instintos, tentava voltar alguns passos para dentro da linha que os separava e a qual não possuía direito nenhum de cruzar. Ao menos não ainda. Estranhos como tornaram-se às mudanças irreprimíveis a que a vida os submeteu, permaneceria um mistério para Antonieta como a reação dele lhe fora tão familiar. Não ocorreu a ele, contudo, tão logo ela se retratou de seu comentário lascivo, ao que ela fazia menção. Todavia, detalhes acerca dela, dos quais passagem nenhuma do tempo conseguiria livrá-lo, manejariam seus passos para a resposta óbvia. Fugindo de uma discussão infrutífera, Barbossa simplesmente descruzou os braços alguns milímetros, pego de surpresa, dispondo sua atenção para o horizonte que os abraçava. Ela poderia continuar e defender o direito dele ao silêncio, insistindo na sua sinceridade, uma vez que eterna aprendiz e conhecedora de seu ceticismo. Todavia, Antonieta decidiu que o silêncio, naquele estágio no qual se encontravam, era direito de ambos.

E contra suas expectativas, Hector não reabriu o espaço entre eles, escolhendo permanecer ao seu lado, apesar do palpável desconforto que sentiam. Refletia o aspecto recém redescoberto acerca da personalidade dela; a rapidez com a qual um flerte se tornava um pedido de desculpas ou uma piada em lamento sereno. Os altos e baixos de paixão irrefreável, alegre, relembrando-o do motivo pelo qual hesitara em concordar com a sugestão da bruxa de que Antonieta Barbieri era a ajuda de que precisava. Não havia certeza ou chance de continuar a alimentar sua apatia enquanto estivesse com ela, pois a capitã Barbieri sentia aquela necessidade incessante de falar e, algo que possuíam em comum, sua oratória conseguia ser tão envolvente que se convertia em armadilha ao ouvinte desguardado. Parte inseparável de seu charme e que fazia Hector sentir, mesmo contra sua vontade... mesmo aquilo que enterrara nas profundezas de seu animus.

Alimentando-se do silêncio que de súbito abarcou-os, Antonieta voltou-se para encarar o céu com fervor ilibado, resquícios de um sorriso brincando em seus lábios trêmulos. O capitão acompanhou-a, bebendo por um segundo da tranquilidade e familiaridade que o quadro lhe trazia, também fascinado pelos tesouros do céu, lembrando-se do próprio contentamento de Margaret ao observá-las, correndo os dedos pelo diário de Galileu com precisão matemática. O diário que fora de Antonieta e por cujas páginas suas mãos corriam com cuidado, evitando que qualquer dano recaísse sobre a caligrafia elegante de sua dona original... ambas tão diferentes, mas que se encontravam sob as constelações que as aproximaram dele.

— Guarda le stelle: tra esse ce n'è uma a me più cara di ogni altra. Per quale ragione? Si alza per prima o brilla più vivida?[2]— aqueles eram versos de certo poema favorito de sua mãe, um dos quais a capitã crescera ouvindo, memorizando-o ao descobrir que ele dava o nome de seu navio.

— No! Il suo lume conforta cuori amici costretti a separarsi, e i loro occhi si incontrano in lei, lassù in alto nell'azzurrità.[3]— Hector completou, a paz dela ecoando em sua própria voz; seu italiano saindo melhor do que antevira. O rosto de Antonieta se virou rápido em surpresa para ele, que a observava de esguelha, em óbvio divertimento – quase uma satisfação pessoal por pegá-la desprevenida dentro de seu pequeno mundo particular. Mia abriu a boca, soltando o fôlego com uma risada estupefata que abriu espaço para outra mais confiante. Hector acompanhou-a dando de ombros.

Ouviu-se apenas o revolver das ondas, então. Sem que os sorrisos deixassem suas feições, ambos escolhendo permanecer na companhia um do outro ao invés da solidão de seus demônios naquela noite. O desconforto abria espaço para um recomeço, afinal.

[1] Olha para a lua, olha para as estrelas... olha para tudo o que for belo.

[2] Olha para as estrelas: existe uma entre elas, para mim mais cara do que qualquer outra. Por qual razão? Se levanta primeira ou brilha com mais fulgor?

[3] Não! Sua luz conforta os corações de seus amigos, forçados a se separar, e seus olhos encontram-se nela. Alta em meio ao azul.

Notas finais
EU AMO UM CAPÍTULO! EU AMO UM CAPÍTULO!! Pode ser um pouco precipitado escolher um favorito com tão pouco tempo, mas... OH MY GOD! Isso fui eu escrevendo fluff? EU ACHO QUE SIM! E MEU DEUS!! QUE BOM PARA A ALMA!! Me sinto plena! O que é o Direito, o quanto ele pode nos avassalar os ânimos quando se tem um CAPÍTULO DESSES PARA ONDE CORRER E SE ESCONDER NA CALADA DA NOITE?? AIAIAIAIAIAIAI!! Esse poema foi um achado na minha vida e este (http://www.poesieracconti.it/poesie/a/evgenij-baratynskij) é o link caso vocês queiram lê-lo todo - só jogar no tradutor porque ele é italiano kkk... poeta russo, mas viveu por uns anos em Nápole, faleceu lá, enfim... PORTO VENERE É CULTURA! Estou apaixonada por um casal que não Athena e Poseidon... nesse estágio, nem controlo mais o que sai dos meus dedos, simplesmente acontece. Contudo, a preferência do Hector por caviar é canônico porque sou uma pessoa que gosta de credibilidade, o vinho branco português foi um toque meu ;). E não sei o que dizer... estou orgulhosa!! kkkkkk Deixem nos comentários as suas considerações!! Um Beijooo! Até a próxima!