Lembranças de Porto Venere
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Os diários de Antonieta marcavam o fim da primeira quinzena ao mar, sem que muito de sua situação se alterasse com ela. Seguindo o conselho de Olívia, tentou, em meio àquelas três semanas, conciliar seu espírito com reflexões envolvendo as escolhas que precisara fazer. Tudo o que conseguiu, contudo, foi a revalidação desastrosa de suas suspeitas, soando-lhe mais sedutora a ideia de jogar-se para fora do navio do que encarar Sofia num embate cínico de palavras. A outra estaria esperando um pedido de desculpas ou ao menos uma explicação lógica para suas ações; por ter escolhido um risco orgulhoso ao invés de agir sensatamente, como ela. Tal discussão transcorreria com grave brutalidade e Antonieta sabia não estar preparada para a franqueza dela. Quando foi que se afastaram daquela maneira? Indagava-se, conhecedora da resposta, contudo.
O agasalho da culpa não a envolvia mais, e isso afastaria definitivamente sua ânsia pelo perdão de sua família. Deveras, suas noites ainda se revolviam em pesadelos hostis, por vezes ouvidos pela tripulação, que tecia comentários acerca de sua saúde às suas costas e contra os quais lutava utilizando os únicos meios que possuía. Mantendo-se no controle de sua estrela e de inabalável bom humor, sentindo a censura fria de sua irmã. Fácil seria ajoelhar-se, tomando-lhe as mãos para declamar um pedido de desculpas contrito, apaixonado até, todavia, prometera há muitos anos que nunca mentiria para elas. Suas irmãs – de sangue e armas. Não existia sentido algum em dizer qualquer coisa pelo simples protocolo ou capricho e, portanto, protelava o momento no qual, do alto do tombadilho, explicaria seu ponto de vista a todos. A razão para não sentir mais nenhum remorso, ao mesmo tempo em que lutaria para evitar a menção daquilo que afastara seu olhar do porto naquela noite.
A unanimidade do entendimento por parte de seus homens constituía variável da qual, não obstante os anos de serviço e amizade, nunca poderia fazer juízo certo e perfeito. Conquistaram dela a oportunidade de rebelarem-se contra suas opiniões, retendo direito de oferecer alternativas a elas, o que, paradoxalmente, fez com que as vezes nas quais se opunham tornassem-se restritas às situações extremas. Ouviam-na e respeitavam-na ainda que em torpores de ungida loucura, quando ocorriam. Os milagres operados quando se achavam em desvantagem e que, por pura sorte ou talvez habilidade, salvaram-nos incontáveis vezes. O silêncio, contudo, persistia. Não lhe maculava a vaidade saber que falavam dela às suas costas, pois no fundo eles não duvidavam de que ela os ouvia, que nenhum segredo se mantinha muito longe de seu alcance. Aquela tensão, agravada por sua insistência em não se resolver com Sofia de uma vez, constituiria o primeiro segredo a se propagar sob os seus anos de serviço.
Conquanto, sua soberania permanecia intacta e aos poucos estendia-se para os marujos do Pérola Negra. Observações chulas envolvendo o sotaque inglês dos piratas italianos por parte de Pintel e Ragetti deram lugar para camaradagem louvável; com a própria Diana tomando-os como seus mais novos amigos. Gibbs e Matteo trocavam experiências durante todas as refeições e, entre elas, ainda seria possível avistar o primeiro imediato de Jack Sparrow faltando às suas tarefas para ter com o cozinheiro – Antonieta não se importava. Marty e Cotton vagavam de uma posição à outra pela gávea, ao passo que o jovem mestre Turner recebia olhares despudorados das mulheres a bordo enquanto trabalhava com os cabos de amura, sem que isso parecesse representar grande ameaça para a pequena Swann. Mia estudou-a constantemente ao transcorrer dos dias, numa espécie de extensão de si mesma. Falava pouco, passando grande parte de seu tempo nos porões ou junto à ponte na proa, mais abatida do que a própria capitã...
— VELAS AO SUL! – exclamou Alessandra De Luca do cesto da gávea, sua voz interrompendo Antonieta de se aproximar de Elizabeth. Mãos pararam com o trabalho e todos os olhos voltaram-se para a direção apontada por Al. Antonieta correu à bombordo, enxergando-a sem muito esforço.
— O que quer fazer? – Berto inquiriu surgindo ao seu lado, com veemência. Os olhos de sua irmã estreitaram-se para a nau que se aproximava com a bandeira das Índias Orientais. Em seguida, ergueram-se para o mastro principal, ainda sem cores.
— Gio, suba a bandeira. – ordenou para seu intendente, que aquiesceu solenemente trocando olhares significativos com outros dois homens. Alberto encarou-a sem entender, mas a compreensão atingiu-o logo, ao vislumbre da sombra que se arrastava pelo deque. O símbolo das Índias Orientais agora também jazia sobre eles. A tripulação observou a capitã com visível choque, à exceção daqueles que a haviam ajudado naquele embuste. – Nunca diga que não dou ouvidos às suas ideias. – murmurou ao passar por Diana, subindo para o tombadilho com sua luneta em mãos. O furacão Murphy soltou uma risada abafada, trocando olhares com Berto e Sofia. – Eles não soaram nenhum alarme. – a capitã continuou a ponderar em voz alta.
— E isso é suficiente para nos colocar fora de perigo? – ouviu-se a voz da senhora Barbieri do deque, sua zombaria sobressaltando seu nervosismo, mas Mia não lhe deu ouvidos. Sua mente seguia a precisão de um relógio.
— Quanto tempo até nos alcançarem? – indagou para Tristan.
— Meia hora, mas com ambos desfrutando deste vento, diria que talvez menos. – seu navegador respondeu com a mesma certeza que encontrou na voz dela, voltando-se para o mapa que deixava sempre à postos sobre a mesa do tombadilho. Antonieta vasculhou-o com ele, assentindo, resoluta, quando chegaram a uma resposta silenciosa.
— Luigi, mantenha nossa vantagem com o vento e estabeleça a rota de fuga com o senhor Parisi. – disse descendo as escadas. Seus homens já à postos, esperando por ordens mais diretas. – Todas as mulheres lá para baixo...
— O que? Nós não vamos abatê-los? – Beatrice interpôs, confusa. – Mas a vantagem é nossa...
— Em tão pouco tempo, eu não vou colocar a integridade do navio em risco; não desta posição, sem saber o que nos aguarda no porto mais próximo; não quando existe uma alternativa. – retrucou também interrompendo-a, sua voz correndo, irritada pelo tempo que perdiam tendo aquela conversa. Passando os olhos por seus homens, viu em seus rostos relances de um sentimento com o qual teria simpatizado, não fosse o dever de afastar-se de reflexos impulsivos em tais circunstâncias. – Certamente não para que satisfaçam seu desejo por sangue. – murmurou, causando o início de uma comoção entre eles. – ME ESCUTEM! Essa não vai ser a nossa única oportunidade para...
— Non stiamo facendo altro che correre![1]— bradou Carlo Bianchi ao lado de sua irmã, Cínzia. Seus olhos ardiam na direção de Antonieta, que retribuiu com o mesmo veneno.
— E dovrà correre molto, se non mi ascolta. – advertiu, aprumando-se com um italiano febril. A sombra de uma ameaça real sondando-os. – Tutte le donne al piano di sotto. – tornou a ordenar entre dentes.
— Por que só as mulheres? – inquiriu Sofia, ainda sem entender, seus pensamentos em Téo.
— Você não imagina que a Companhia das Índias Orientais empregaria mulheres em suas tripulações, imagina? – respondeu Antonieta, entediada, seus olhos presos em Bianchi. – Todas. AGORA!
Seguiu-se a dispersão feminina para os porões em meio à murmúrios ilegíveis, descontentes. Antonieta sustentou o olhar de Carlo por mais alguns segundos, enquanto recordava-se de que ele fazia parte da pequena lista que Ilaria lhe dera semanas antes. Segundo a capataz, o cirurgião estivera apenas dividido; até então. Sentia sua popularidade afundando, caso seu esquema fracassasse. Com um aceno final de cabeça, assoviou caracteristicamente para Sofia e Diana, que se achavam em meios de descer, parando ao reconhecerem o som. Em seguida, tocou o braço de Alberto; e os quatro adentraram a cabine da capitã. Elizabeth abandonou sua posição anterior, na ponte, parando à entrada da escotilha para uma troca de olhares com Barbossa. O lorde pirata assistira ao desenrolar da luta da Barbieri com visível interesse, pensando consigo mesmo em como não teria se importado em explicar suas decisões, caso aquele fosse seu navio; ao mesmo tempo, seu interesse pelo que se passava na mente dela avivou-se à medida que a bandeira da companhia subiu pela mezena.
Outrossim, Elizabeth nada dizia, mas Hector não encontrou nenhuma dificuldade em absorver a extensão de sua curiosidade na permanência dela ali. Logo, sem convite, fez sinal para que ela o acompanhasse para dentro dos domínios da capitã, onde o pequeno amontoado de Barbieres discutiam com Antonieta, sendo abertamente ignorados.
— Consegue lidar com eles? – indagou fervorosamente para Alberto, erguendo-se em sua cadeira, calando-o antes que concluísse sua fala. Ele apenas assentiu, como se fosse bastante óbvio.
— Da próxima vez que resolver seguir um dos meus planos, queira por favor me pedir para enumerar as eventuais falhas que eles apresentam. – ralhava Diana do lado direito de Antonieta, enquanto esta retirava uma pequena pasta de couro de uma de suas gavetas. – Você as guardou?
— Disseram que você as queimou, quando chegamos à Tortuga. – acrescentou Sofia, abismada. Mia bufou, revirando os olhos.
— Sinceramente, é cada estupidez que vocês assumem a meu respeito pelas minhas costas. – lamuriou-se abrindo-a, revelando as cartas ainda em perfeito estado. A promessa de Beckett. – Eu subestimei Lord Beckett uma vez. Não cometo o mesmo erro duas vezes. – disse, ao que Sofia e Diana trocaram olhares desacreditados de desdém, a última se contendo para não tecer um comentário malicioso a respeito. – Assine aqui, Berto.
— Beckett não assinou. – observou seu irmão, notando a presença de Barbossa e Elizabeth. – Não têm valor algum.
— Diana pode falsificá-la. – solucionou ela, seguindo o olhar do irmão até os dois visitantes. – Hector, se você fosse um homem vaidoso, que pensasse mais de si mesmo do que seus feitos levam a crer acerca de seu real valor, como assinaria? – provocou com um sorriso malicioso. Barbossa aproximou-se da mesa, analisando a ideia dela, mas foi parado pela voz de Elizabeth.
— Eu conheço a assinatura dele. – disse ela, chamando a atenção de todos. Antonieta abriu-lhe um sorriso encorajador, acenando para que se aproximasse. – O forcei a assinar cartas semelhantes a estas antes de deixar Port Royal. – continuou passando por Alberto, alcançando a pena das mãos de Diana, escrevendo em uma folha qualquer jogada com outros papéis sobre a mesa. – Não está perfeito, mas... – concluiu terminando de escrever.
— Eu assumo daqui, bonequinha. – disse Diana colocando-se a elaborar mais sobre o rascunho de Elizabeth.
— Planejou isso desde que deixamos Tortuga? – perguntou Sofia, em sua voz escondia-se um quê de admiração. Antonieta deu de ombros, sorrindo para ela ao passo que retirava um selo de outra gaveta.
— O selo dessas suas cartas, se parece com este? – questionou para Elizabeth. Barbossa arqueou as sobrancelhas, admirado, para a capitã, que riu. – Não é minha primeira vez cometendo um crime de falsificação. – explicou simplesmente. A Swann estava em dúvida, contudo. Mia se resumiu a selar o documento, usando uma das pontas de seu compasso para desgastá-lo um pouco. – Vai ter que servir. Agora, Berto, você assume daqui. Senhoras, Hector, lá para baixo. – disse acenando para que a seguissem, fitando seu irmão num desejo de boa sorte silencioso.
— Não faça nada estúpido. – murmurou Sofia para ele, recebendo um sorriso encorajador em resposta.
O silêncio recebeu-os no arsenal, onde suas companheiras jaziam desgostosas, cegas para a trama que se desenrolaria acima de suas cabeças. As circunstâncias não favoreciam para que Antonieta se explicasse, tendo assumido o fardo sobre aquele plano sozinha, como há muitos anos não fazia e os olhos de Cínzia acusavam-na de uma traição tão grave que, por um milésimo de segundo, a Barbieri hesitou... apenas para recobrar o controle que sua posição tornava imprescindível que mantivesse.
— Todos os canhões à estibordo armados com tiros duplos. – seu tom mais pedia do que ordenava agora e a resposta, ainda que à contragosto, veio mais prontamente desta vez.
— Não acha que seu plano vá funcionar? – falou Elizabeth, surpresa, antes que Diana ou Sofia refutassem.
— Acho que estar preparada para possíveis desenlaces inesperados nunca é demais. – rebateu com um sorrisinho convencido. – Liv, traga as palanquetas. Quero quatro deles armados com elas. – acrescentou para sua mestra de armas, trocando olhares com suas irmãs que encaminhavam-se para ajudar no carregamento.
— Posso indagar sobre a minha posição aqui? – súbito ouviu a voz de Barbossa indagar ao seu lado, pegando-a de surpresa. No entanto, Mia ousou sorrir.
— O chapéu. – disse simplesmente, apontando. – Alberto não precisa de competição. – brincou, respondendo à pergunta silenciosa de Federica sobre quais dos canhões deveriam receber as palanquetas com um aceno de mão. Um sorriso zombeteiro ergueu-se nos lábios de Barbossa, tomando consciência de um detalhe.
— Exercemos capitania de formas diferentes, você disse. – constatou divertindo-se com a própria consciência que recaía sobre a expressão dela. – E aqui está você, fazendo exatamente...
— Eu não fiz isso para obter algum tipo de vantagem pessoal. – interpôs ela na defensiva. – Agora deixe de buscar uma justificativa para os seus erros nos meus. – advertiu afastando-se dele.
— Porque era isso o que eu estava fazendo. – desdenhou, parando-a.
— O que quer que seja, o melhor momento não é quando corremos risco de terminar com essa viagem antes que ela comece de verdade. – zombou de volta, virando-se para encará-lo em aviso. Barbossa assentiu polidamente.
A embarcação os alcançou trinta minutos depois. Ouvia-se a comoção no deque enquanto os homens preparavam-se para a abordagem de corsários da companhia. Seu corpo arrepiando-se com nojo frente a perspectiva de ter a mesma horda de homens que incendiara sua cidade ali, bem embaixo do seu nariz, sem que pudesse fazer qualquer coisa a respeito.
— Vão para o alojamento dos canhoneiros, agora. – sussurrou, seus olhos prendendo-se na figura de Federica a alguns metros de si. Olívia obedeceu-a prontamente, e aquilo forçou as outras a segui-la. Antonieta abençoou-a mentalmente, virando-se para perceber Hector parado ao seu lado. – Eu disse...
— Eu ouvi. – sussurrou ele de volta, tão impaciente quanto ela. As sobrancelhas dela se ergueram, surpresa, mas ao mesmo tempo reconfortada pela permanência dele. Se algum daqueles homens decidisse descer até eles, a oportunidade de poder abatê-los com a ajuda de um espadachim como Hector Barbossa a animava consideravelmente. Passos ressoaram pela madeira que separava os andares, anunciando a chegada de um pequeno grupo ao deque. Os olhos da capitã fecharam-se vagarosamente, ao passo que ela murmurava uma pequena prece a seu irmão. Barbossa poderia jurar que entendera-a falar “não foda com tudo” em italiano e sorriu de lado, igualmente ansioso. O coração de Mia batia acelerado conforme o silêncio se alastrava; deveriam ser capazes de ouvir a troca de palavras entre eles, certo? Não se encontravam tão abaixo do deque assim.
Da gávea, um dos marinheiros assistia a figura imponente de Alberto Barbieri ao lado de Luigi e Tristan, munindo-se de toda a calma e descontração que julgavam ser inerentes a um mentiroso em vista da oportunidade de exprimir sua arte, enquanto descia do tombadilho ao encontro de seus visitantes. Um grupo de dez homens, e seria capaz de virar-se para contar quantos mais aguardavam-nos a bordo do outro navio, não fosse a necessidade de manter o disfarce – um homem inocente não se preocuparia em olhar. O capitão, uma alma pálida e com o rosto ossudo de um cavalo, encarava-o acompanhado de seus homens armados. Alberto agiu como se não os visse, mas Luigi registrou o detalhe mantendo uma de suas mãos à postos sobre sua pistola.
— Boa tarde, cavalheiros. – cumprimentou Berto, amistosamente. Mia deixou um suspiro baixo de alívio escapar ao ouvir sua voz.
— Identificação, capitão. – pediu o outro homem, sem rodeios. Alberto prendeu a respiração por um segundo, indiferente às maneiras britânicas com os homens de sua companhia. Resolveu, por fim, mostrar-lhes as cartas de Beckett, retirando-as do bolso de seu casaco. O outro capitão analisou-as por um instante, meticuloso, seus olhos correndo delas para a figura nada oficial à sua frente. – Capitão Barbieri, provavelmente das comunas recém conquistadas...? – inquiriu com uma das sobrancelhas arqueadas e um sorrisinho cínico.
No andar de baixo, as mãos de Antonieta se fecharam em punhos e Barbossa ouviu-a ranger os dentes. Acima deles, seu irmão continha-se para não expressar reação semelhante e quiçá deveras mais agressiva à visão daquele sorriso, contudo, aquele era um bom sinal. Se o homem à sua frente não detinha detalhes do ocorrido na noite do ataque em Porto Venere, seria muito mais fácil dobrá-lo. Por fim, Berto apenas assentiu cortesmente com a cabeça em resposta, decidindo seus próximos passos.
— Um pouco além dos limites de sua rota. – observou o capitão, continuando a analisar as cartas, estudando os rostos da tripulação. – Nenhum homem da companhia...
— Se me permite, capitão...? – interveio Berto rapidamente.
— Ford. – respondeu batendo com a pequena pasta de couro nas mãos.
— Se me permite, Capitão Ford, nosso navio foi designado a uma missão em Singapura. – disse prontamente, chamando a atenção de seu ouvinte. Antonieta e Barbossa trocaram olhares confusos. – Lord Beckett mostrou-se bastante interessado na velha amizade de minha família com o grupo do Lord Sao Feng e ordenou a nossa ajuda para facilitar seu acesso ao porto. – a facilidade com a qual falava ergueu um sorriso enlevado nos lábios de Antonieta.
— O que ele está fazendo? – sussurrou Barbossa, reprimindo sua revolta.
— Contar uma mentira através de uma meia verdade. – respondeu abrindo mais seu sorriso para ele. – Não foi o que você tentou comigo? – Hector bufou, embora entendesse.
— E funcionou perfeitamente, não foi? – rebateu aproximando seu rosto do dela, numa tentativa de manter o tom mais baixo possível.
— Eu sou mais esperta e sabia mais a seu respeito do que este Ford sabe sobre os planos de Beckett e todos nós. – devolveu Antonieta cutucando uma das penas no chapéu dele, provocando-o. Os lábios de Barbossa se crisparam e ela reprimiu uma risada. – Confie nos Barbieri.
— Sendo assim, estamos viajando sem bandeira e o mais naturalmente possível, o ataque de Lord Beckett deverá cruzar as rotas habituais. São Feng jamais abaixaria suas defesas ou nos concederia passagem se fizéssemos o mesmo... o espírito desconfiado de um homem acostumado à traição. Quanto menos motivos dermos a ele, mais facilmente Lord Beckett atingirá seu objetivo. – continuou Alberto, convicto. Ford assentiu.
— Quantos homens a bordo? – inquiriu e uma pequena movimentação teve início na direção da escotilha que os separava. Antonieta prendeu a respiração por um segundo, sentindo a mão de Barbossa em seu ombro, puxando-a mais para trás.
— Setenta e quatro. – anuiu de pronto. – Mantivemos apenas a carga usual de tabaco que transportamos para Singapura ao longo dos anos, caso resolvam nos revistar antes que permitam nossa entrada na cidade.
— E a munição, é claro.
— É claro. – concordou Alberto, rindo um pouco. Ford pareceu considerar toda a cena ao seu redor por um momento. Enquanto isso, um rangido se fez ouvir na escada, a seis passos de alcançá-los na sua posição; tanto Antonieta quanto Hector mantinham as mãos em suas armas, prontos para aniquilar silenciosamente qualquer um que se aproximasse. – Não sei o quanto estou autorizado a revelar, porém...
— Não se preocupe, serei discreto. – cortou o capitão, aprumando-se e fazendo sinal para que seus homens chamassem aquele que tomara o caminho para os porões. – Tudo em ordem. Desejo-lhe boa sorte em sua pequena aventura, Capitão. – e saiu com os outros camisa vermelhas.
Antonieta caminhou até a escotilha mais próxima, assistindo enquanto o maldito grupo abandonava sua estrela, vitória e raiva ardendo em conjunto no pequeno sorriso inevitável que exprimia. Respirou fundo, agradecendo a Deus – em quem começara a acreditar nos últimos dias – por homens como Beckett vangloriarem-se pela forma com a qual conduziam seus negócios, resumindo-se a dividir informações vitais em seu pequeno grupo seleto de falsos donos do mundo. A ignorância constituindo entidade benfeitora naquele dia.
— Meus parabéns. – comentou Barbossa ao seu lado, fazendo-a sorrir. – Eles provavelmente vão se esquecer da pequena cena mais cedo, após esta vitória. – o sorriso nos lábios de Antonieta se tornou cínico.
— Não. – concordou à contragosto. – Contudo, me surpreenderia se esquecessem. Eu nunca permitiria que alguém falasse naquele tom com Alberto na minha frente, Cínzia não é muito diferente, mas não sinto que os perdi... estão cansados de retratação e agora eu posso afastá-los dela. – disse simplesmente, ouvindo o sinal de seu irmão para que retornassem ao deque e dirigindo-se para a porta do alojamento dos canhoneiros para avisar que era seguro subir agora.
— Pode? – repetiu Hector, cruzando os braços ao passo que ela retornava para o seu lado.
— O raio raramente cai duas vezes no mesmo lugar; a sorte é igualmente volátil, o que quer dizer que está na hora de Olívia voltar ao trabalho. – respondeu, bem humorada. – Aliás, quais os seus planos para a senhorita Swann? – inquiriu de repente, convidando-o a subir com ela.
— Eu deveria ter algum? – ele riu, intrigado pela pergunta.
— Ela “forçou” Lord Beckett? Saiu de Port Royal, o lugar menos caótico do Caribe, no nosso ponto de vista... afinal, quem é ela, Hector? – o sorriso de Barbossa se alargou, ao que ele apontou languidamente na direção da dita senhorita.
— Pergunte a ela. – Antonieta bufou, divertindo-se, porém, enquanto ele se afastava.
— Senhorita Swann! – chamou, afinal, e a mesma virou-se na direção de sua voz, ainda em choque, fazendo a capitã rir. – Uma palavrinha na minha cabine.
Elizabeth procurou por Barbossa em meio aos homens e encontrou-o já a admirá-la, suas feições indecifráveis. Ela mexeu os lábios, como se o consultasse a respeito de seus próximos passos. Se deveria ou não falar à sós com a capitã. Ele, por outro lado, resumiu-se a lhe dar as costas, admirando o horizonte à estibordo. A senhorita Swann assentiu, irritada com seu descaso, verificando as portas da cabine de Antonieta; abertas aguardando-a, antes de seguir até elas. Sem medo.
[1] Não estamos fazendo nada além de correr!
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