Lembranças de Porto Venere
27 Capítulo 27
Notas iniciais
Como se ansioso pela atenção de todos, o pequeno Jack guinchou. Do soalho e pelo balaústre ao encontro dos cabos de amura à estibordo, seus movimentos leves e precisos foram acompanhados por Diana, que ainda se servia da noite ao cesto da gávea. Pensou em Alexandra De Lucca. Pobre Alex e o incessante enjoo proveniente de sua função; o conforto que lhe era uma vista como aquela, porém. Expelir as tripas, como Nico e Liv brincavam, não representaria impedimento para que a verdade fosse única: os almirantes eram os olhos de sua tripulação. Tanto quanto os cozinheiros, os ouvidos. De seu posto, o furacão Murphy detinha sob as frestas azuis os capítulos atuais nas histórias de todos os seus companheiros. E se mais poder lhe fosse concedido, sussurraria – como a consciência – aos ouvidos de cada um.
Embora longe de ser a função à qual sua personalidade se guardava. Pela primeira vez, sem a indução de Mia, pensou em Sofia. Sua irmã jamais careceu de subir grandes alturas no intuito de entender quem com ela divide o chão. No entanto, mesmo a inquestionável graça, Sofia Acidália, alcançou a resposta para a variável presente em Jack Sparrow. Livre soava como palavra de ordem no discurso dela ao iniciar seus estudos, túrbida ante o cerzir de seu sorriso. Antonieta e Hector flertavam sob as estrelas e, por vezes, sobre as estrelas. Alberto seguia Sofia entre as mesas, reagindo aos seus protestos com notas de seu alaúde. Diana os assistia da mesa de cartas, e entre um ou outro jogador, se sentou Jack Sparrow. Bêbado e escorregadio, acreditando ser popular a mulher que – tão carismática – parecia a favorita dentre todos os italianos.
A melhor em sua arte, logo lhe demonstrou o motivo da predileção de seus conterrâneos por sua mesa, limpando a maior parte do ouro em seus bolsos e um dos anéis em sua mão – roubado de volta, antes da partida do Pérola. Traços do capitão desavisado para a traição iminente de seu primeiro imediato ainda se incandesciam através dos pequenos gestos; competir no tamanho de suas lunetas, por exemplo. Apesar da certeza irlandesa de que a morte inutilizou tal versão do passado. Foi divertido induzi-lo para o ouro de Cortez, atiçar sua cobiça por um nome superior ao de seu pai, enxergando todas as cicatrizes afloradas pelo rum. Descobri-lo tão incorrigível quanto ela. Curiosa agora pelo que os anos e a morte teriam mudado nele, como se acertariam em meio às mudanças nela.
Pés de volta ao deck, mãos ao mastro, Barbossa e Jack acabavam sua disputa pelo leme – o urro do primeiro ao ter as bolas atingidas por uma das rodas do timão ecoando noite adentro. A morena considerou por um instante, encarava a andorinha sem receio de ser descoberta. “Se o risco valera para Mia”, decidiu ao se aproximar do tombadilho, passando pelo lorde do Mar Cáspio, que tomou a direção da Lady da Ligúria – pronta para recebê-lo com um sorriso mal escondido nos lábios. O lorde do caribe não reconheceu sua presença, olhos no horizonte. Diana riu baixinho, dando a volta para se apoiar junto ao balaústre à popa, estudiosa às costas enrijecidas de Sparrow.
— Como você está, Jack? – indagou, cruzando os pés. Havia verdade na preocupação de sua voz. Ele, por seu turno, cegara-se para ela; acreditara nela uma vez. – Já falou comigo antes. Me ignorar agora não tem o mesmo efeito, Jackie. – ela continuou a interpor, erguendo sua postura.
— Antes eu não sabia que era você. – o capitão retrucou, finalmente. Sem emoção.
— E não é melhor assim? – impôs Diana, ressentida. – Uma alucinação seria a sua própria voz sussurrando aquilo que você já sabe ou espera ouvir. Eu não me prestaria a isso. – concluiu lhe dando as costas.
— Não mais, é claro. – Jack murmurou entre dentes, lançando a ela um olhar de soslaio; profundo em seu desdém. Diana não o vira, mas o sentiu. O tronco voltou-se imediatamente para o velho companheiro de apostas, à medida que suas mãos se chocaram contra a madeira, ao ponto de seus nódulos esbranquiçarem-se. Ela, no entanto, avessa aos métodos de Antonieta, viu-se prestes a embarcar numa batalha como a dela. Se fosse vencer, supunha que deveria valer-se de si mesma.
— Esse ressentimento não me pertence. – declarou veemente. – No que concerne a mim, você sequer chegou a sofrer pela maldição. Barbossa conseguiu te tirar de cena antes que o ouro fosse encontrado. – rebateu com uma das mãos à cintura. Jack se viu forçado a um sorriso amarelo, deixando o timão novamente aos cuidados de Cotton.
— Então eu não fui amaldiçoado como você queria, mas amaldiçoado mesmo assim. – ponderou cruzando seu espaço pessoal a fim de irritá-la. Diana o repudiou com um empurrão no peito.
— Por que sou culpada de alguma coisa que Barbossa fez? – a pergunta era sincera. Assumia sua responsabilidade sobre o interesse de Jack na lenda, na notoriedade que o tesouro lhe traria. Todavia, ele claramente esperava enquadrá-la no motim; na ilha e em seu retorno à Tortuga como um falido.
— Eu não estava tão bêbado a ponto de justificar sua decisão de não me avisar sobre a faca pairando minhas costas.
— Mesmo que você estivesse sóbrio, teria acreditado em mim?
Barbossa menosprezara-o, sim. No entanto, todo o seu pendor ranzinza e sarcástico, os anos vividos na mesma tripulação, a maneira como se conheceram; Hector simplesmente lhe era as duas coisas e nenhum comentário malicioso ou sábio, dela, de qualquer um, teria feito o jovem Jack acreditar em qualquer outra verdade além daquela na qual ambos eram grandes amigos. Ela não acreditaria se algo de tal magnitude lhe fosse confidenciado sobre Antonieta ou outros membros do clã Barbieri. E, mesmo assim, imaginá-lo após saberem do motim, destituído de si mesmo, remetia-a a partes de seu próprio passado. Vazio e dúvida. Conquanto, ele encontrara Gibbs. Ela, os Barbieri.
Jack a encarou.
— Eu sinto muito, Jack.
— Eu também. – o capitão assentiu, embora não fosse claro pelo quê.
— Ele sempre foi seu. – ela comentou, assistindo-o de volta ao leme. – O Pérola Negra. Se encaixa melhor com você do que se encaixaria com Barbossa. Ao menos você pode dizer que foi ao inferno e voltou com ela. – observou abrindo um sorriso singelo.
— Graças à maldição, o maldito provavelmente dirá a mesma coisa. – disse retribuindo o sorriso dela. – E como você está, Di? – ela ouviu-o indagar. Uma faceta, apenas o relance do velho Jack; o máximo que teria, talvez, pelo tempo que o baú ainda exercesse sua influência sobre ele, e, no entanto, sabia que tal espectro jamais o abandonaria.
— Apenas um pouco menos cética do que você. – concluiu. E o sorriso triste, porém sincero, que recebeu em resposta lhe confirmou a suspeita e fez emergir uma nova. Se Jack Sparrow poderia se dar ao luxo do ceticismo provinciano, então talvez o tempo de sua raça naquele mundo estivesse chegando ao fim. – Você está sóbrio Jack, estou orgulhosa. – brincou a fim de quebrar o silêncio.
— Talvez eu tenha tentado me corrigir. – disse elevando um sorriso conhecedor aos lábios dela.
— Ou talvez, não haja rum no inferno. – Diana observou sabiamente.
— Uma enorme decepção. – assentiu Jack.
Ao longe, Antonieta observava-os enquanto escolhiam permanecer lado a lado. Relembrando-a de uma noite deveras semelhante.
— Esta parece ser a viagem em que velhas pendências se corrigirão. – a Lady da Ligúria murmurou, repousando a cabeça sobre o ombro de Barbossa. O lorde pirata vislumbrou o tombadilho.
— E serão todas resolvidas da mesma maneira? – retrucou desacreditado, aprofundando o toque de sua mão sobre a cintura dela.
— Se Sparrow não aprendeu sua lição no passado... – disse Mia num tom advertido, mas sorrindo consigo mesma. Hector riu pelo nariz, consciente do significado em suas palavras, correndo os olhos pela figura tão à vontade em tomá-lo como apoio, também ciente do assunto que haviam deixado inacabado em sua cabine. Antonieta provocara-o para a natureza de suas rusgas com Sparrow, desde que subiram a bordo. “É como assistir Alberto e Sofia num dia ruim”, ela dissera e, sorte dele, não ser predisposta a rompantes ciumentos, apenas assassinos, brincou, numa clara apologia ao ocorrido com o irmão Lucena.
Qualquer um deles, porém, jazia perfeitamente guardado sob a expressão lânguida daquela figura em seus braços; estremecida ante a surpresa do beijo plantado à curva de seu pescoço. O ponto fraco do qual ele jamais se esqueceria.
— Continuo a chiedermi[1], — ronronou arqueando o pescoço a fim de aumentar o acesso dele -, perché Jack continua a chiamarmi italianinha[2]. – concluiu virando a cabeça à expressão perdida de Barbossa.
— Uma provocação clássica...
— Que pareceu surtir mais efeito em você do que em mim. – interpôs a capitã, desvencilhando-se dos braços dele. Barbossa a encarou longamente, taciturno. – Por favor, Héctor... eu fiz parte de alguma aposta entre você e o Jack? – sugeriu branda, o que pareceu diverti-lo.
— Nunca foi uma questão de antagonismo pra você, Mia, tampouco foi pra mim. – assegurou a ela, repousando as mãos sobre seus ombros em reverência. Antonieta sorriu.
— Você sempre sabe exatamente o que dizer, seu cachorro! E também sabe que eu não vou desistir até conseguir a verdade. – advertiu-o com uma piscadela amigável. O olhar do Lorde do Mar Cáspio se demorou nela; suas mãos correndo dos ombros até as dela, para fitá-las. Pequenas cicatrizes se formaram com o tempo, e, ainda assim, como a vaidade da Lady da Ligúria não cedia às limitações mundanas, mantiveram o toque intocado pela corrupção do tempo.
Mais uma vez ele a viu. Olhos grandes e expressivos, a boca destilada em malícia e a cascata amendoada imóvel, à falta da brisa. Tão próxima de uma imagem por demasiado antiga e que, talvez, estivesse prestes a fraquejar diante de seus olhos; ao passo que traria nova nuance aos dela.
— Eu não apaguei Porto Venere tão logo parti, — começou cauteloso e Antonieta se prendeu ao fato de que se afastara dela, — Após conhecê-la e me dar conta de que estava interessado nela; em Margaret; Jack se perguntou, convenientemente alto, mas e a italianinha?
Ele parou por um instante, medindo-a. Mia, porém, não transparecera nada.
— Clássica provocação de Jack. – constatou instigando-o a continuar.
— Ela perguntou a quem ele se referia. – completou com um suspiro ansioso. A Lady da Ligúria assentiu, entendendo. Ela imaginara que Hector jamais mencionaria seu nome. Tanto Margaret quanto Antonieta deveriam passar por completas estranhas uma a outra. No entanto, ambas obtiveram um relance; prévio ao seu fim.
— Por que não me contou antes? Enquanto falávamos sobre ela... quero dizer, eu sei, eu estava bêbada, mas mesmo assim...
— Imaginei que nenhum bem proviria disso. – respondeu com sinceridade tão pura, que Antonieta imaginou, por si mesma, que talvez ele apenas estivesse tentando poupá-la da mesma maneira que Elizabeth tentara poupar Will. – Mas então, Sofia me contou que, na verdade, você chegou a vislumbrá-la de relance em Tortuga com o diário... quando se deu conta de que tive o que mereci. – lembrou-a. Mia riu, uma risada abafada, com que então ela também havia lhe omitido algumas partes, não fosse a interferência de sua irmã.
— Teve mesmo. – murmurou, limpando a garganta. – E, então, Margaret lhe perguntou sobre quem eu era e você, é claro, não disse nada porque estava tentando conquistar a mocinha. – continuou com energia, desejosa de que se acabassem as omissões.
— Lembro-me de pensar que não me importaria em vê-la de novo.
— Você é realmente um cachorro, Hector Barbossa! – ralhou o estapeando no braço, mas seu sorriso não morreu. – Tenho certeza de que se arrependeu assim que o fez, meses atrás; o que respondeu à Margaret?
— Acusei Jack pela provocação, apenas porque havia furtado algo de uma jovem italiana que, sim, me era atraente, — Mia revirou os olhos, – e então eu lhe mostrei o diário; mas nunca mencionei seu nome ou que nós havíamos...
— Havíamos compartilhado encontros acalorados dentre as ruínas da velha catedral. – ela completou por ele, passando seu braço pelo dele em vias de ilustrar seu argumento. Barbossa riu.
— Aye. Contudo, Jack realmente a viu na noite em que aportamos em Porto Venere naquele ano e, de fato, considerou-a uma promissora visão. – alegou puxando-a pela cintura, porém impedido por um movimento mais rápido dela.
— Ah, então houve uma aposta, ainda que implícita e, bem, mais tarde do que cedo, talvez, mas acabou vitorioso, mio capitano[3]. – sorriu, e as sobrancelhas de Hector se ergueram ligeiramente ao pronunciar daquele nome. O nome que, certa vez, ela jurara nunca enunciar. A nova nuance que antevira apoderando-se de seus olhos não veio. Ela apenas sorria com as mãos repousadas em seu pescoço, trazendo-o para mais perto a fim de que encontrasse paz em seus lábios.
— Sei qualcosa[4], Antonieta. – sussurrou, abrindo os olhos para encontrá-la corada diante deles. A Lady da Ligúria divergiu sua atenção para o mar, então. E a cor abandonou suas feições.
Corpos flutuando sob a água. Translúcidos; o que até então fora negro, banhava-se com a luz prateada do movimento rítmico qual as ondas. O dia que não havia trazido brisa ou presságio de vida, vertia na noite nebulosa carregada pelos fantasmas daqueles que encontraram a última morada na escuridão das profundezas. Gélido, o ar cortou a espinha de Diana, ainda ao tombadilho com Jack. A mulher Murphy se aproximou do parapeito para vasculhar a tumba úmida e seus olhos pararam por um segundo de foco, interrompida pelo movimento da andorinha em direção ao deck; todos sendo puxados para junto de Will e Gibbs.
O primeiro imediato carregara um rifle, pronto para mirá-lo contra uma das aparições, mas o jovem Turner o deteve.
— Não. Eles não são uma ameaça pra nós. Certo? – indagou para Tia Dalma, buscando sua confirmação.
— Pra eles somos fantasmas. – anuiu a bruxa. Menos espessa, a névoa abriu caminho para mais centenas de barcos.
— Melhor deixá-los em paz. – opinou Barbossa. Antonieta tocou o parapeito, sentindo o frio cortar sua espinha à visão de duas meninas, ainda jovens, abraçadas em um dos barcos. Era repulsivo e errado que estivessem ali. Elizabeth, então, surgiu ao lado de Barbossa; Diana e Jack logo atrás.
— É meu pai! Nós voltamos! Papai, aqui! Olhe pra cá!
Mia fechou os olhos imediatamente, afastando-se do parapeito. “Ele ainda vive?” Perguntara-a uma vez e ainda que sufocada pela culpa, a jovem cigno assentira com esperança. A mesma com a qual erguia sua voz para o mar de sombras à sua frente; depois de tanto tempo sob seus cuidados, a capitã era capaz de ouvir seu sorriso, sendo jogada às duas cenas que gostaria de não ter algum dia presenciado. Nenhum pai deveria sobreviver à morte de um filho, tampouco um filho deveria sobreviver a morte de seus pais, assisti-lo transitar por ela. Antonieta voltou para o topo da ruela em Porto Venere, o Sogno D’Oro à vista e correu o caminho que a levaria até o corpo inerte de seu pai; sorrindo.
— Elizabeth, — a voz de Jack se fez ouvir e sentiram em sua voz a dor por aquela ser a vingança perfeita pelo que ela lhe fizera, uma vingança que não desejava. Enxergou-o, todavia, como a resposta por ela ter lhe acordado de seu delírio; ele agora a acordaria do seu. – não voltamos.
Morte. Todos causaram-na em algum momento. Antes com culpa, depois por conveniência. Nenhum desprendido o bastante para lidar com ela; respeitá-la ou entendê-la. Diana sentira a morte dentro de si e ao seu redor. E tentava esquecê-las. Ao menos dos detalhes de suas circunstâncias, tão vivos quanto a memória eterna daqueles que realizavam a passagem. O mínimo decair no sorriso de Elizabeth ao virar-se para Jack; o tremeluzir de seus olhos e pálpebras ao compreender a verdade, afloraram o que em vão um dia tentou ser esquecido. Quando se entreolharam, não foi capaz de sustentá-lo.
— Papai. – insistiu num clamor angustiado. De seu barco, Weatherby Swann finalmente ouviu-a, erguendo a lanterna que iluminou apenas metade de seu rosto.
— Elizabeth. – a preocupação em sua voz arranhou a jovem Swann. – Você está morta?
— Não... – negou veemente, seguindo-o através do parapeito.
— Acho que eu estou. – respondeu o governador, considerando a possibilidade
— Não. Não pode estar.
Ela não conheceu o amor de sua mãe. Seu mundo era o calor de seu pai. A presença confortadora, independentemente do quanto esta ou aquela obrigação carecessem de seus olhos sagazes. Do homem que não medira esforços por sua felicidade, mesmo que ela tomasse a forma de um pirata acusado de traição. Mesmo que fosse ela atrás de barras enferrujadas. Abdicara dele; tempo o suficiente para que resolvesse os empecilhos à sua felicidade. Sacrificara-o, para ter certeza de que Will e Jack estivessem a salvo de Lorde Beckett. Seu mundo. Seu mundo a estava deixando para trás.
— Havia um baú, entende... que estranho. Na hora pareceu tão importante... – prosseguiu o governador forçando-se a lembrar de algo que ainda soou como tormentoso.
— Venha a bordo! – exclamou Elizabeth, recusando-se a deixá-lo para trás. – Alguém, lance a corda! – implorou àqueles que a observavam imóveis. Apenas Marty se mexeu. – Volte conosco! – insistiu com seu pai.
— E um coração. Eu soube que se você perfurar o coração, o seu deverá tomar o lugar. E você velejará os mares pela eternidade. O Holandês precisa de um capitão. Motivo tolo para se morrer. – concluiu, a voz alquebrando em meio à escuridão. “Um toque do destino”, Diana ouviu a bruxa sussurrar para Will, desvencilhando sua atenção por um segundo de Elizabeth.
— Volte conosco! – ela insistiu mais uma vez, correndo para tomar as cordas de Marty, arremessando-as em desespero contra o bote. – Segure a corda!
Weatherby Swann mirou-a, altiva, reconhecendo que nenhuma de suas convenções teriam servido para a mulher diante de seus olhos. Admirado que pudesse se considerar responsável por um ínfimo de tamanha força, embora ela fosse o espelho de sua mãe; de tantas formas que ele, em sua fraqueza, não conseguiu lhe contar.
— Estou tão orgulhoso de você.
— Pai, a corda! Pegue a corda! – suas mãos tremeram pela primeira vez. Swann não se mexeu. O Pérola começava a passar por ele e a corda escorregou para fora do bote. Ela se recusava a deixá-lo para trás, contudo; havia uma última chance, do tombadilho. Elizabeth saltou, correndo pelo deck até alcançar o parapeito.
— Ela não pode sair do navio! – bradou Tia Dalma.
Will foi o primeiro a se mexer. Apenas Jack e as irmãs Barbieri não se moveram.
— Por favor, volte conosco! Por favor! Não! Eu não vou deixá-lo!
— Transmitirei seu amor à sua mãe. – ele proferiu por fim, a lanterna de seu bote se apagando em meio à escuridão que seguiu-se a frente.
O Pérola jazia fora de alcance. Elizabeth ainda implorava, agarrada às cordas, prestes a pular. Will a abraçou, puxando-a para dentro de seus braços e o jovem cigno emitiu um último ganido angustiado, antes de se permitir o luto. O jovem Turner a segurou com carinhosa força, sentindo suas lágrimas correndo através do tecido da camisa. Palavras certas sobre o que o futuro lhes guardava ainda não haviam sido trocadas, porém, ali, Will era mais do que o jovem que arriscara sua vida pela dela, mais de uma vez. Conhecera os Swann desde menino; sabia em íntimo detalhe, a razão para o escorrer de cada lágrima de Elizabeth.
— Há um meio? – buscou Tia Dalma. Lentamente, a bruxa negou com a cabeça.
— Ele está em paz. – sentenciou, solene.
A tripulação permaneceu imóvel, observando Will acalentar Elizabeth. Junto ao deck, as irmãs Barbieri se encararam; havia um brilho avermelhado em meio ao verde dos olhos de Mia, Diana percebeu. Outrora a qualquer palavra que pudesse lhe oferecer, Antonieta tomou o caminho para os andares inferiores, acuada.
— Barbossa não consegue ler os mapas, Jackie. – a mulher Murphy murmurou, olhos presos na figura prostrada junto ao tombadilho, que já reparara no sumiço de sua amante. – Viemos resgatar você; agora precisamos que você nos resgate.
Ambos incorrigíveis se entreolharam. Embora as palavras fossem dele, não era ironia o que viu em Diana ao usá-las, mas resolução advinda do que supunha ser cansaço. E, de fato, ela já vira o suficiente.
[1] Fico me perguntando
[2] Por que Jack insiste em me chamar de italianinha
[3] Meu capitão.
[4] You’re something; não existe uma tradução que me faça feliz no português, vocês me perdoem.
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