Lembranças de Porto Venere
28 Capítulo 28
Notas iniciais
As provisões haviam acabado e, acima deles, o sol traçava mais uma volta. Compelido pelo pedido de Diana na noite anterior, Jack assumira seu lugar sobre as Cartas de Navegação; nem mesmo Barbossa questionara-o. O quebra-cabeça de Yun Feng demonstrou-se digno da frustração dos outros tripulantes que tentaram manobrá-lo, contribuindo para o aumento da própria frustração do Lorde do Mar Caribenho. Soou-lhe menos como um enigma que somente a sua predileção por rotas impossíveis poderia decifrar – assim fez-lhe entender o furacão Murphy – e mais como outro castigo. Um que não merecera e, sem que precisasse dizer a ela, Diana sentiu-o a amaldiçoá-la pela terceira vez durante aquele fim de tarde.
Não possuía grandes motivos para sorrir, mas o fez, pois a maldição já percara sobre eles em meio a rachadura que se abria em seu lábio inferior. À falta da brisa e de água, o mormaço tornou-se insuportável. Jazida em seu colo, Antonieta respirava levemente, sentindo o latejar de sua cabeça quase matando-a. Fossem outras as circunstâncias, seria outra herança deixada por sua mãe; as enxaquecas. Todavia, era sua ânsia por uma gota, pela brisa; e a fome. Empática, a tripulação do Pérola unira-se ao deque, caída.
— Estou começando a sentir falta do frio. – Diana murmurou, observando a figura de Ragetti erguendo um pequeno barril sobre sua cabeça.
— Sem água. – constatou, quando nenhuma gota honrou a língua trêmula que aguardara ansiosa por alguma sobra. – Por que só o rum não acabou?
— O rum acabou também. – respondeu Gibbs; engolindo o restolho de seu cantil.
Antonieta sentou-se de uma vez, mãos apoiadas às têmporas, apertando-as desesperadamente.
— Tudo bem, aí, senhora? – indagou o primeiro de Sparrow, uma sobrancelha arqueada em visível preocupação. Diana aquietou-o com um aceno rápido de cabeça, ante a falta de resposta da capitã. A Lady da Ligúria então bufou, forçando-se a ficar de pé, correndo os olhos a partir da frustrante figura inerte de Barbossa até Elizabeth, sentada sozinha junto às escadas do tombadilho.
— Se não escaparmos desta calmaria até a noite, iremos navegar por águas malditas, entre os mundos, para sempre. – sentenciou a bruxa ao lado de Will, junto a balaustrada do navio.
— Sem água, para sempre vai chegar mais cedo. – condenou Gibbs, indo ao encontro deles. Seguido por Antonieta, que buscou a companhia silenciosa do jovem mestre Turner.
— Por que ele não faz nada? – exasperou-se o jovem, contudo, também diante da figura inerte do Lorde do Mar Cáspio ao tombadilho – limitado a admirar a infinidade do inferno, enquanto Sparrow debruçava-se sobre os mapas – imaginando que a mulher fosse capaz de oferecer contas sobre seu amante. Mia apenas retirou o pente que viera guardando em seu bolso, a fim de rearranjar as madeixas no velho coque à altura de seu pescoço. Will piscou, tendo se acostumado a vê-la em desordem, inquieto para o significado de tal gesto.
— Eles eram próximos? – indagou a capitã, puxando duas mechas para trás da orelha.
— O que? – ele então acompanhou seu olhar até Elizabeth e assentiu. Mia o imitou, com um suspiro.
— Ele já não sabia muito o que estava fazendo antes. – interpôs, sentindo a voz rasgar a garganta como serragem. – Não espere por mais agora. – Turner observou-a caminhar até Elizabeth, absorvendo a decepção que compartilhavam com Barbossa, enquanto trocava alguns olhares com Gibbs.
— Vira a beirada, de volta, vira outra vez, aurora se põe, brilho de verde...
— Não faz sentido, auroras não se põem. – rebateu Gibbs.
— E o brilho de verde acontece ao pôr do sol, não à aurora. – Will concordou.
— Vira a beirada... está me deixando de cabeça virada, isso sim. – resmungou o imediato.
Elizabeth desprendeu-se daquela conversa, uma tentativa de esvaziar sua mente, ao perceber a figura de Mia sentada ao seu lado. Ignorou-a. A tripulação já registrara suas condolências na noite anterior, mesmo que ela não houvesse deixado os porões para fazê-lo, até aquela manhã. Todos exaustos e, após a noite passada, ninguém mais do que o próprio cigno. Ela não desejava ouvir mais nenhuma palavra sobre seu pai.
— Seu cabelo está alto outra vez. – a bruxa murmurou, aproximando-se delas e, às suas costas, Diana. Antonieta encarou Tia Dalma por um instante, mas ignorou-a, assim como Gibbs. Deusa ou não, era responsabilidade de Barbossa mantê-la humorada. – Vocês pouco parecem; é mais da menina e menos da mulher. – acrescentou semicerrando os olhos para ela.
— Non sono dell'umore giusto per i tuoi indovinelli[1]. – Antonieta disse entre dentes. A bruxa sorriu, deixando-as. Diana acompanhando seus passos até o outro lado do navio. – Maledetta, strega[2]. – cochichou.
— Lei non è sorda, Mia[3]. – Diana repreendeu-a, ao que a Barbieri deu de ombros.
— Como você fez? – Elizabeth as interrompeu. A expressão de Antonieta se suavizou de pronto, ao passo que os olhos de Diana desceram ao chão.
— Eu não fiz. – respondeu brandamente a Barbieri, e o cigno suspirou frustrado. – O navio dela, Stella de La Sera, foi passado para mim assim que seu corpo esfriou. Eu decidi que o meu propósito seria manter o legado de Allegra Barbieri intacto; não sobrou muito tempo para pensar na menina que acabara de perder sua mãe; não quando uma ilha inteira perdera sua rainha. – Elizabeth observou enquanto uma sombra corroía os olhos da capitã e as rugas ao redor de seus olhos tornaram-se mais aparentes. Diana chutou o ar, ciente de que aquele nunca seria um assunto confortável. – E na vez de nosso pai, foi o mesmo com Alberto. Meu papel foi garantir que meu irmão não sentisse o fardo extremamente pesado em seus ombros. Ele se tornou o novo braço direito de minha mãe, enquanto eu ainda podia me dar ao luxo de... olhar as estrelas e vê-las apenas como ouro dos céus.
— Eu estraguei qualquer chance de proteger o legado de meu pai há muito tempo. – comentou Elizabeth com um riso amargo.
— Ele viu sua coragem antes da morte, cigno. – interpôs Diana. – Viu a mulher que você se tornou e estava orgulhoso de você; é mais do que Antonieta algum dia sonhou.
A Barbieri soltou uma risada fria.
— Continue seguindo seus instintos, Elizabeth, e saiba que isso o deixará orgulhoso. – sentenciou, a loira registrando o uso de seu nome de batismo, pela primeira vez, por ela. – Eu venho seguindo os meus há anos e, aparentemente, nunca me afastei de quem eu era naquela praia... mais da menina e menos da mulher, de fato.
— O que é aquilo? – Jack interrompeu-as, sua voz ecoando alta pelo navio, quase infantil, à medida de corria à bombordo. Gibbs foi o primeiro a segui-lo. – O que é aquilo? Eu não sei. O que você acha? – ele falava consigo mesmo, mas o primeiro imediato ousou questioná-lo, perguntando o que seu capitão enxergava. Antonieta permaneceu sentada, procurando o olhar de Diana por respostas, contudo, nem mesmo o furacão Murphy parecia entender os movimentos da andorinha. – Lá! – continuou, correndo para estibordo.
De repente, Antonieta sentiu. O navio movia-se delicadamente às direções dos pés de Jack e daqueles que o seguiam, ávidos por desvendarem o mistério de seus olhos. Finalmente, Barbossa desceu do tombadilho, os olhos presos em Sparrow. Irritada, considerando que seria apenas resultado da permanência dele no baú, Diana alcançou-os meio caminho à estibordo, tentada a decifrar sua façanha. Elizabeth não pôde ignorar a cena. Logo, Tia Dalma e todos os outros sobre o deque acompanhavam, enquanto Jack Sparrow gania de um lado para o outro – parecendo ser o único a enxergar o que quer que fosse.
— O que foi? – inquiriu Elizabeth, juntando-se ao grupo. Diana encarou Jack, que apenas ganiu mais alto, retornando para o outro lado. Antonieta colocou-se de pé, afoita, sentindo o navio tremer mais, e, reprimindo uma risada ante o ridículo pequeno espetáculo, procurou por Hector. Ele terminava de realojar o olho de vidro em Ragetti, colocando-se sobre o mapa.
— Ele está balançando o navio. – Pintel murmurou, lívido.
— Estamos balançando o navio. – Gibbs entendeu, saltando para acompanhar o passo de Jack. Antonieta riu mais uma vez, verificando o mapa sobre o ombro de Barbossa. O centro do desenho virado de cabeça para baixo, onde as luas formavam o nascer do sol e não mais o poente. “Cima é baixo” lia-se.
— É. Ele descobriu. – Hector disse, erguendo seus olhos até Mia, que assentiu, pondo-se a correr para o lado de Diana.
— Balançar o navio! – exclamou Pintel, em ode à sagacidade de Jack. Ao seu lado, Ragetti apareceu com uma corda nos ombros.
— Vamos nos amarrar ao mastro de cabeça para baixo, assim, quando o barco virar, vamos estar do lado certo. – explicou e seu companheiro sorriu como se, de fato, seu amigo fosse o verdadeiro gênio.
— Rapazes, eu não acho que seja assim... – Diana tentou intervir, mas já era tarde demais.
— No balanço do mar! – bradou Hector seguindo em direção aos porões. “Ele vai soltar a carga”, Mia compreendeu, apressando o passo. Sua cabeça, agora, parecia leve, embora ainda sentisse as pontadas no alto. Por sorte, com nada em seu estômago, a cena durante o cerco de Porto Venere não se repetiria.
Eles continuaram a correr, bombordo e estibordo. Diana sentindo seu coração acelerado conforme o navio cedia, mais e mais. A hora em que eles mergulhariam no vazio novamente – ela saturada de se molhar – sufocando-a, aos poucos. Antonieta se jogou contra a balaustrada, segurando-a com toda a força – a sensação de estar caindo para dentro do abismo ainda muito forte; e dessa vez, mar adentro, cada cão seria responsável por sua coleira. O navio virou com ela, Diana e Elizabeth lado a lado, ouvindo o som dos gritos de um dos marujos que não conseguira firmar junto ao resto do grupo, bem como o som esmagador do canhão que o subjugou.
— Agora cima é baixo. – escutaram Jack. O Pérola Negra terminou de afundar, ao passo que Diana contorcia os nós dos dedos, fechando os olhos para imagens hostis da viagem que realizara até aportar em Porto Venere. O barril que flutuara à encosta, a tempestade. Mia lembrou-se da história; não fosse o medo de se afogar, teria alcançado uma das mãos de sua irmã, a fim de também lembrá-la de que, ao menos, ali não estava sozinha. No entanto, seu peito ardia; exaurindo-se de força para prender o ar; sua própria cabeça pendendo com a pressão da água, mas forçou-se a permanecer alerta, os olhos concentrados nas imagens flutuando ao seu redor.
Dentre elas, as cartas de navegação. Lentamente sendo engolidas. Will reagiu antes de qualquer um, soltando-se da segurança da balaustrada para o fundo. Elizabeth esperneou, libertando uma das mãos como se fosse puxá-lo só com a outra. Mia ouviu seus gemidos atropelados com a tormenta, ousando olhar para baixo e verificar Turner. O rapaz agarrara os mapas, mas acabou preso junto a uma das amarras do mastro, mais ao fundo. Diana, então, abriu os olhos e encontrou Jack encarando-a; sua expressão lhe traduziu toda a angústia que sentia com aquele plano, e o capitão se viu compelido a evitá-la, olhando para baixo. Súbito, a água abaixo de seus pés pareceu ser pressionada para cima e, mais rápido do que fora para eles conseguirem que o barco virasse, o Pérola Negra foi arremessado para cima.
Pintel e Ragetti ainda estavam de cabeça para baixo. Diana acertara, pois, não funcionaria como antecipado. O oceano escorreu navio afora, Will caindo de volta ao deque com os mapas resgatados em mãos. Apenas Gibbs insistira em segurar sua respiração, ao passo que a tosse engasgada de seus companheiros se fazia ouvir por toda a extensão da nau. Contudo, uma vez que se permitisse a primeira inspiração, foi o melhor amigo de Sparrow presenteado com o sopro do céu.
— Ventos vindos do Oeste. – bradou se pondo de pé. – Voltamos! – anunciou. As tosses cessaram imediatamente, dando lugar para a percepção geral.
— O nascer do sol. – murmurou Elizabeth, enquanto a aurora se abria pelo horizonte e o calor da estrela assegurava-os de que o inferno ficara para trás. Antonieta sorriu ante a pequena vitória. Ao seu lado, Diana bateu os calcanhares no chão; um tributo às suas tatuagens. Tal repentino rompante de superstição fez com que Mia risse mais alto, abraçando-a; Diana retribuiu aliviada. Jack parou para analisar sua mão; livre da mancha negra de Davy Jones, sua boca abriu-se num sorriso vaidoso de glória, mas que por sua vez escondia antecipação.
Elizabeth encontrou os olhos de Will fitando-a, sem nenhuma promessa, no entanto, de futuro, ainda que ambos os corações se sentissem mais leves um com o outro. Foi Barbossa quem quebrou o pequeno momento, porém. Sua pistola apontando diretamente para Jack; e como se todos esperassem por aquele momento, Will ergueu a sua contra Barbossa, seguido por Gibbs e Elizabeth, embora ela apontasse a sua para Jack. Este armou-se contra Will e Hector, que erguera uma segunda arma contra Gibbs; e finalmente a senhorita Swann apontou outra contra seu estimado mentor. Eles formaram um círculo ao centro do deque, ao passo que o restante da tripulação se resumiu a observá-los, contagiados pela incerteza.
— Me desamarre, precisamos pegar nossas pistolas. – gemeu Pintel, se contorcendo em meio às cordas, chamando a atenção de Diana para que fosse soltá-los.
Então, o círculo irrompeu em risadas constrangidas; todos olhando de uns para os outros, dando de ombros, abaixando as mãos, e a tensão se dissipou pelo segundo suficiente para que as pistolas fossem erguidas novamente.
— Pois bem! – exclamou Barbossa. – A Corte da Irmandade vai se reunir na Baía Naufrágio e, Jack, eu e você vamos, não vai haver nenhum argumento quanto a isso. – advertiu o Lorde do Mar Cáspio.
— Ah, vai ter argumento: se os piratas estão se reunindo, eu pego meu navio e aponto pro outro lado. – contrapôs o Lorde do Mar Caribenho.
— Os piratas estão se reunindo para lutar contra Beckett e você é um pirata. – alertou-o Elizabeth, retirando sua segunda pistola de Barbossa para apontá-la também contra Jack, que deixa de apontar contra Will para seguir o movimento dela e reservar dois tiros contra si.
— Lutando ou não, você não tem pra onde fugir. – lembrou-o Turner, apontando para Jack e cobrindo Barbossa com uma segunda pistola.
— Se não ficarmos juntos, eles vão nos caçar, um a um, até que só tenha sobrado você. – argumentou Hector.
— Eu gosto da ideia. – Jack sorriu. – Capitão Jack Sparrow, o último pirata.
— Sei. – ironizou Barbossa, revirando os olhos, apontando uma arma contra Gibbs, atrás dele, ao se aproximar de Sparrow. – E vai lutar contra Jones sozinho, já pensou nessa parte do plano? – desdenhou, como sempre fizera ante os rompantes de Jack.
— Eu ainda estou matutando. – Jack replicou, cheio de si. – Mas eu não volto praquele baú, amigo. – completou puxando o gatilho, apenas para ouvir o pequeno ‘click’ de sua pistola. O círculo imitou-o; mais ‘clicks’.
— Molhou a pólvora. – Gibbs elucidou e eles se entreolharam, ameaças partindo de todos os olhares, especialmente Jack e Barbossa.
— Temos outros problemas. – murmurou Will, indo de encontro aos mapas a fim de sentar-se com os outros dois e verificar a possibilidade de novas provisões. Àquela altura, a tripulação se reuniu junto ao trio para entreouvir os planos. – Tem uma fonte de água fresca nessa ilha, — Will apontou no mapa – podemos reabastecer e então atirar um no outro depois.
— Você lidera o grupo até a ilha e eu fico no navio. – instruiu Sparrow.
— Eu não vou deixar meu navio sob seu comando. – cortou Barbossa.
Uma faca atravessou o meio do mapa, pegando-os de surpresa. Antonieta puxara outro caixote, sentando-se à frente do jovem Turner, suas narinas demasiado dilatadas.
— Io, no entanto, não preciso de pólvora para machucar nenhum de vocês. – iniciou puxando a faca de volta para as suas mãos. O lábio superior de Jack tremeu, à medida que Will engolia em seco, mas permaneceram ignorados ante a disputa silenciosa entre a Ligúria e o Mar Cáspio. – Estamos. Todos. À míngua, corroídos por uma desidratação de dois dias. – parou, sentindo sua cabeça fisgar, o que fê-la inspirar altivamente. – Ou essa maldita dinâmica de casal de velhos acaba e vocês começam a agir como capitães, ou eu juro; os dois voltam pro inferno.
— Depois de tanto trabalho, não me parece certo, italia...
— Não me tente, Sparrow! – ela ergueu a voz, levando a faca para mais perto do pescoço dele.
— Nestes termos, porque não vão os dois e me deixam no comando do navio? – interpôs Will. Tanto Jack quanto Hector o encararam ao mesmo tempo. – Por um tempo. – acrescentou sem fitá-los.
— De acordo. – disseram em uníssono. Antonieta, então, baixou a faca.
— Não foi tão difícil, foi? – desdenhou, se levantando de volta para a ponte. Diana rindo às suas costas para Jack.
— Você sempre teve uma predileção pelas nervosas, hein, amigo? – ele disse para Hector, enquanto subiam ao Tombadilho.
— Fossem outras as circunstâncias, eu não me incomodaria tanto com a faca dela no seu pescoço. – o lorde rebateu. Jack arqueou uma das sobrancelhas, confuso. Deveras, ainda não compreendera de todo o que teria convencido Barbossa a ir resgatá-lo.
Chegada a hora de descerem os botes, Antonieta insistiu por sua presença e de Diana, à afirmação de que talvez o casal pudesse se esquecer do que estava em jogo ali. Tai Huang e mais um quarto de seus homens uniu-se a eles na expedição, com Pintel e Ragetti em outro bote. Gibbs deixado para trás com ordens expressas de seu capitão para que vigiasse “o filhote”. Jack remou até a praia onde, ao longe, o grupo em seus quatro botes poderia obter o vislumbre de uma sombra negra à encosta; algo a seu respeito fazendo com que o estômago da andorinha revirasse. Com os pés sobre a terra, sua identidade deixou de ser um mistério. O cadáver do Kraken.
Sem pensar, a andorinha tomou a sua direção, com Barbossa em seu encalço. Diana observou-os com pesar; especialmente Jack. Voltar dos mortos para o encontro de seu algoz, ela pensou, era demasiado cruel; mesmo para um homem como Sparrow. Tentada a segui-los, porém impedida por Antonieta, quem já estava a meio caminho da selva, espada desembainhada.
Aquém de qualquer outro som, não fossem as ondas quebradiças sobre a carcaça, Jack aproximou-se da criatura em reverência. Barbossa o encontrou preso ao seu reflexo dentro dos olhos do monstro de Jones. Detinham ainda suas diferenças, contudo, tampouco Hector negar-lhe-ia a simpatia que dividiam sobre aquela experiência. A morte desafiada; e diante deles a prova de que nem mesmo o tão amado desconhecido, que preenchera suas vidas até ali, estaria longe da mira dos canhões de homens como Lorde Beckett.
— Ainda pensando em fugir, Jack? – Barbossa inquiriu, taciturno. – Acha que ainda pode fugir do mundo? – a andorinha não lhe respondeu. Seus olhos ainda atados aos do Kraken. – Sabe qual é o problema de ser o último de qualquer coisa? Aos poucos não vai sobrar nenhum.
— Às vezes as coisas voltam, amigo. Somos a prova disso, você e eu. – havia em sua voz o mesmo desafio que Hector encontrara antes, quando suas armas estavam apontadas contra seus rostos. Menos veemente e mais amigável, porém.
— Somos, mas aí está um jogo muito arriscado, nunca há garantias de voltar. – contemplou o outro, dando de ombros. – Morrer é a única certeza. – concluiu, à contragosto e Jack assentiu brandamente.
— Então vamos convocar a corte da irmandade. – disse completando o que talvez viesse sendo seu raciocínio desde que aceitara aquela aventura, quando poderia simplesmente ter-lhe roubado o Pérola – mesmo com a faca de sua amante pendendo sobre sua garganta.
— É a única esperança. – lhe garantiu, mas um brilho diferente perpassou pelos olhos de seu antigo amigo.
— Se essa é a única esperança, então estamos mal. – comentou insatisfeito, mas reconhecendo a verdade. Nenhuma geração dividira relatos sobre como a altruística ajuda entre piratas resultara em proventos; e não havia garantias que fosse ser diferente agora.
— O mundo já foi um lugar muito melhor. – confidenciou-lhe Barbossa, seu tom desanimador.
— O mundo é o mesmo. – e disso Jack tinha certeza. – Há menos razões pra se viver. – completou, encontrando em si a coragem para deixar o fantasma de sua morte para trás. Barbossa não o respondeu, sabendo ainda reconhecer os momentos em que a razão apoiava Jack. Longe, ainda na praia, o grupo terminara de descarregar os botes e, dentre o início das folhagens, Antonieta e Diana se sentaram, algumas carcaças de cocos abertas ao seu redor e outros por abrir.
— Servidos, senhores? – indagou Diana, erguendo o coco que acabara de abrir na direção deles. Jack aceitou de ponto, bebendo um pouco da água, mas Barbossa manteve seus olhos presos na figura calada de Mia.
— Melhor? – perguntou-lhe, para sua infelicidade sem conseguir disfarçar a rachadura em seu ego. Ela recobrara a cor de suas bochechas e mordia a polpa branca com apetite.
— Vocês colocaram uma rusga sobre os interesses e saúde da tripulação. – ela respondeu, lambendo os dedos, despretensiosa, sem encará-lo. – Um pouco exagerada, talvez, mas eu não estava errada. Então, se é um pedido de desculpas o que você quer... – acrescentou, batendo com as mãos nas coxas a fim de se limpar, enquanto se levantava e seus olhares eram neutros.
— Eu a conheço melhor do que isso. – ele devolveu antes que ela completasse. A dor de cabeça havia passado, bem como a sensação de que poderia desmaiar a qualquer momento, o que tornou muito mais fácil sorrir vitoriosa ante a provocação.
— Muito bem. – anuiu. – Diana, os que sobraram para dentro de um daqueles fardos. – disse apontando para um dos homens que os carregava, junto aos barris, nas costas. A segunda imediata de Antonieta cuspiu alguma coisa no chão, acenando para que o referido parasse. Um último sorriso cedido à Jack e Barbossa, elas os deixaram. O primeiro preparou-se para rebater, o segundo, por sua vez, o impediu, indicando que tomasse a frente para dentro da mata, ao passo que chamaria os outros para segui-los atrás da fonte de água.
Acharam-na, após alguns minutos de caminhada. Surpresos, contudo, com a descoberta de que o Kraken não era o único cadáver na ilha.
— Envenenada, pelo corpo apodrecido. – constatou Barbossa, após uma prova.
— Eu conheço ele. – interpôs Pintel, à água, virando o corpo. – Estava em Singapura.
— Singapura! – ouviram o papagaio de Cotton gritar acima deles, antes de qualquer outra reação.
— Capitão! – chamou Marty de uma das árvores. Ao longe, Ragetti acenava, apontando para a água, gritando algo inaudível a eles naquela distância. No entanto, Diana conseguia ter uma ideia, após a visão da Imperatriz aproximando-se do Pérola. Antonieta xingou baixinho em italiano, ao passo que Tai Huang puxou a arma contra Jack, acompanhado do resto dos homens de Sao Feng entre eles.
— Ele é o capitão. – disse, apontando discretamente para Barbossa, que também tinha uma arma contra si.
— Não há como estar armada. – desdenhou Antonieta. – A pólvora...
Tai Huang atirou para os céus; de alguma forma, conseguira mantê-la seca durante a viagem, provavelmente com mais dois tiros sobrando. Entendendo a mensagem, a Lady da Ligúria se calou, sendo empurrada por um cano bem próximo de sua coluna. O grupo fez o caminho da volta, escoltados. Mia trocou olhares com Barbossa; ele não parecia estar nas vezes de traçar um plano de fuga; a falsa percepção de sua semelhança com Sao Feng mantendo-o confiante de que seria capaz de contornar a situação, pensou ela. A Barbieri, por sua vez, menos certa, vasculhou os arredores em busca de uma alternativa. Seus olhos, todavia, prenderam-se à visão de outra imagem; e ela parou imediatamente.
O comparsa de Tai Huang a empurrou uma segunda vez, e seu corpo foi direto ao chão. Diana permaneceu quieta, reconhecendo uma das velhas táticas de Antonieta; o restante do grupo apenas observou-a. Sentindo que fora ignorada, Mia pôs-se a correr atrás do que vira, então sendo seguida por dois de seus captores – que vislumbraram a tentativa de fuga. Diana, de olhos revirados, iniciou sua própria caminhada até ela, em meios de garantir que não a machucassem. Antonieta parou – longe do que poderia ser uma rota de fuga – e suas mãos correram violentamente por sua cabeça, os olhos presos ao chão. Jack fitou-a em simpatia; conhecia bem o sentimento claustrofóbico imposto por nenhuma saída.
— Me soltem! – o brado da Barbieri retumbou, esganiçado, ao mero toque dos cingapurianos que tentavam puxá-la. Antonieta insistiu; em meio a mordidas e pisões, ela manejou outra escapada, ajoelhando-se cautelosamente sobre o chão. Diana e Hector se entreolharam, inseguros e, então, assombrados, quando de onde ela se sentara, surgiu um braço decepado; e à mão, logo Diana o viu... o anel de ouro envelhecido com uma esmeralda, reluzindo contra o sol. O furacão Murphy arfou, sentindo os próprios joelhos faltarem. – Alberto... – ouviram a mulher sussurrar, erguendo o anel à altura de seus olhos.
— Não... – Diana gemeu. – Não faz sentido...
“Seu pai estava morto. Ela se lembraria de avistar um jovem sentado junto à praia, observando o seu navio à distância. Ela caminha até ele, se senta ao seu lado e percebe que estivera chorando. Ela disse para que não chorasse, no entanto ele disse, eu devo; pois se me virem chorar amanhã, eu serei fraco. Ela sorriu e fez sua promessa: eu machucarei qualquer um que se atreva a chamar meu irmão de fraco.”
— Mexa-se. – Tai Huang ameaçou, com a pistola apontada para a sua cabeça. Antonieta tinha a mão morta de Alberto pressionada contra seus lábios e não se mexeu. Foi Hector quem a alcançou primeiro, tocando o ombro de Diana ao passar por ela para que acordasse de seu próprio choque. Ele se interpôs entre a arma e as costas da Lady da Ligúria, seus olhos desafiando o primeiro imediato de Sao Feng para que ousasse atirar.
— É só um braço... – Diana tentou se convencer, embora seus olhos carregassem o mar. Antonieta por sua vez gritou, soluçando à imagem do corpo de seu irmão que se formara em sua mente. – Mia, é só um braço... por que o resto do corpo não estaria aqui? Eles tinham Cínzia com eles; ele não pode estar... – segurou-a pelos ombros, mas seus olhos não queriam ouvi-la, perdidos em seus piores pesadelos. Murphy insistiu, abraçando-a; o toque pareceu despertá-la pouco de seu choque.
— Sofia, Téo... – ela continuou dentre os espasmos de seu corpo.
— Eles não...
— Li ho lasciati morire[4]... – a paciência de Tai Huang se esgotara. Desafiador a ainda presente ameaça silenciosa do Lorde do Mar Cáspio, ele puxou Antonieta para que ficasse de pé, ao passo que outro cingapuriano desprendia o mesmo gesto à Diana. Jack observou a diligência em Hector, seguindo-as com furor renovado, como uma devoção há muito abandonada em seu caráter. O anel, esquecido para trás, chamou sua atenção. Lembrava-o de algo semelhante, que já vira nos dedos de seu pai certa vez.
— Antonieta, olhe pra mim. – a voz de Diana implorou a ela, já na praia, enquanto eram organizados nos botes com seus captores. – Se for verdade... você quer dar a Sao Feng o gosto de vê-la desse jeito?
Sao Feng. O nome levou-a de novo a Cádiz. Virando, conseguiu uma visão longínqua da Imperatriz e, ao seu lado, Hector observou à medida que, não só em seus olhos, mas toda ela se convertia no feitiço que fizera a costa espanhola queimar. As lágrimas em seus olhos secaram instantaneamente, e antes que Tai Huang sequer a tocasse a fim de guiá-la até seu lugar ao bote, Antonieta sentou-se com as mãos delicadamente repousadas sobre o colo; esperando.
Eram mais homens do que enfrentaram em Singapura naquela noite. A tripulação do Pérola estava algemada à frente de todos, com suas armas dispostas num monte sobre o deque.
— Sao Feng, — chamou Barbossa, liderando o grupo. – Você aparecendo de repente aqui, é mesmo uma coincidência notável. – desdenhou ele. Sao Feng viera observando Elizabeth, ignorou-o deliberadamente em busca de Jack, que se escondia atrás do Lorde do Mar Cáspio, enquanto Diana, ao fundo, ajudava Mia a subir a bordo do Pérola.
— Jack Sparrow, — o Lorde de Singapura dirigiu-se a ele. – Uma vez você me insultou muito. – lembrou-o.
— Eu não sou de insultar. – Jack defendeu-se prontamente, com Hector entre eles, antes que Sao Feng desferisse um soco em seu nariz. Houve comoção, enquanto Sparrow mexia-o de um lado para o outro, retorquindo um de seus sorrisos mais amarelos. – Já podemos dizer que empatou?
— Soltem ela! – a voz de Will fez-se ouvir, livre dentre os demais. – Ela não faz parte da barganha.
— E que barganha foi essa? – indagou Barbossa.
— Ouviram o Capitão Turner. – respondeu Sao Feng ao resto de sua tripulação, ao que Jack encarou Will, “Capitão Turner?” repetiu consigo mesmo. – Podem soltá-la!
— Sim! – exclamou Gibbs, tendo ouvido Jack. – O pérfido traidor se amotinou contra nós.
— Apenas segui um conselho muito sábio; comprei uma chance a mim mesmo. – o jovem Turner rebateu com veneno na direção de Antonieta, que não lhe ofereceu nenhuma resposta, além de um esgar desdenhoso. – Eu preciso do Pérola para salvar o meu pai. – respondeu a Jack. – Foi a única razão para eu ter vindo nesta aventura.
— Por que não me contou seus planos? – uma vez liberta, Elizabeth caminhou até ele, estupefata.
— Esse era o meu fardo. – murmurou Will, com estranho prazer em machucá-la nos mesmos termos dela.
— O que você fez? – Antonieta se interpôs entre Sao Feng e Barbossa. Murmúrios se instauraram entre a tripulação da Imperatriz; Diana registrou cada um dos rostos que sorrira. Mia, por sua vez, registrou apenas o rosto do Lorde de Singapura, sorrindo-lhe com o brilho da alforra.
— Então, vocês o acharam?
— O que você fez? – Antonieta repetiu a pergunta, pausada, altiva. Sao Feng não hesitou.
— Digamos que... as nossas contas foram pagas. – disse. Ao fundo, Elizabeth ouviu o tinir discreto de uma lâmina.
— Ele precisa do Pérola! – Jack disse, chamando a atenção mais uma vez para si e interrompendo os outros capitães. – Capitão Turner precisa do Pérola. – desdenhou, então virando-se para Elizabeth. – Você se sentiu culpada. – prosseguiu. – Você e sua Corte da Irmandade. – bravejou contra Hector, afastando-se para o centro do grupo. – Será que ninguém foi me salvar só porque sentiu saudade? – inquiriu, para antipatia de todos. Marty, no entanto, levantou a mão, seguido por Pintel, Ragetti e o pequeno Jack. – Eu vou ficar daquele lado com eles.
— Lamento, Jack. – Sao Feng se posicionou, impedindo-o com um abraço por seus ombros. – Mas há um velho amigo que quer vê-lo primeiro. – disse.
— Eu não sei se sobrevivo a outra visita de velhos amigos. – ponderou o outro, ansioso.
— Eis a sua chance de descobrir. – continuou Feng, enquanto seus homens abriam caminho para que ele mostrasse o horizonte a Jack.
Um navio com a bandeira das Índias Orientais se aproximava ao longe.
— Não pode matá-lo ainda. – Hector aproveitou a distração para alertar Antonieta. Ela encarou-o com impaciência, mas ciente do que ele lhe revelara meses antes sobre o chamado e Calipso.
— As coisas que faço por amor. – resmungou com desdém em resposta, cruzando os braços e ambos voltaram-se para Sao Feng. – Vai se aposentar com o preço das nossas cabeças? Porque eu não esperaria outra coisa do homem que precisou assassinar o próprio irmão pra que qualquer um se importasse em lembrar dele. – os murmúrios cessaram. Ele liberou Jack, que permaneceu com duas armas apontadas contra sua cabeça, para voltar-se até Antonieta. Quebrada, talvez por dentro, mas ainda inquebrável por fora, pensou Diana, com um sorriso orgulhoso.
A mão de São Feng se ergueu, sem que seu alvo hesitasse, mas foi rapidamente detida pelo aperto mais forte de Barbossa.
— Tente. – sussurrou com um sorriso presunçoso. Antonieta virou o rosto, esperando.
— Algeme-os. – ordenou Sao Feng, afastando-se.
Ao aporte do “Endeavour”, dois homens da Companhia desceram atrás de Jack e o subiram a bordo, enquanto o Pérola Negra era invadido por novos homens, fardados. Dentre eles, um vestia-se completamente em preto. Antonieta lembrava-se de tê-lo visto com Beckett quando se encontraram, embora não pudesse dizer o mesmo de seu nome. Ele acenou para que um de seus homens se encaminhasse ao tombadilho, onde Huang mantinha-se junto ao leme, expulsando-o de lá.
— Meus homens são suficientes para a tripulação. – interveio Sao Feng, acompanhado de Will, colocando-se diante de Mercer.
— Navio da Companhia, tripulação também. – replicou ele.
— Você concordou que o Pérola seria meu. – Will insistiu com Sao Feng.
— E foi. – disse-lhe, com um gesto para que um de seus tripulantes o incapacitasse; um golpe à altura de seus rins e algemas em suas mãos. Voltou-se então para Mercer. – Beckett concordou que o Pérola seria meu.
— Lorde Beckett não entregaria um navio capaz de ultrapassar o Holandês. – Mercer sorriu em ironia, afastando-se para concluir o aporte de seus homens.
— Pena que eles não seguem o Código, não é? – Barbossa interveio, à medida que a raiva embolia no Lorde de Singapura. – Porque honra é muito raro de encontrar hoje em dia. – desdenhou, capturando a atenção dele.
— Não há honra em ficar no lado perdedor, mudar para o lado vencedor é apenas... um bom negócio. – Antonieta riu pelo nariz; reconhecendo as palavras que Beckett tentara usar para convencê-la a assinar as cartas.
— Lado perdedor, você diz... – murmurou Hector.
— Eles têm o Holandês. – Sao Feng lembrou-o. – Agora o Pérola! O que a irmandade tem?
Antonieta deu um passo à frente; Barbossa enxergando sua oportunidade.
— Nós temos, Calipso. – disse inclinando-se para que apenas o outro o escutasse. A reação foi a pretendida. Sao Feng, então, encontrou mais uma vez Elizabeth dentre os prisioneiros; e Barbossa o viu.
— Calipso. Uma velha lenda. – respondeu Feng, tentando parecer cético.
— Não. A própria deusa, confinada em forma humana... fúria ou favorecimento, nunca se sabe, mas, com o humor certo, quando ela escolhe favorecê-lo é, como dizem, legendário. – continuou, com um sorriso malicioso sagaz no rosto. – Eu pretendo liberá-la, mas para isso preciso da Corte da Irmandade, — e aproximou-se para puxar o pequeno colar no pescoço de Sao Feng, — da corte toda.
— O que está propondo, capitão?
— O que seria aceitável, capitão?
— A garota. – o lorde de Singapura não hesitou.
— O que? – surpreendeu-se Elizabeth.
— Sob o meu cadáver. – interveio Antonieta, mas Barbossa a silenciou com o olhar.
— Não. – Will se manifestou.
— É mesmo, fora de questão. – Barbossa anuiu a ele, falsamente.
— Não foi uma questão.
— Feito. – Elizabeth concordou, para surpresa de Antonieta e Will.
— O que? Nada feito! – disse ele.
— Você nos meteu nessa, se nos libertar, então feito. – disse para Sao Feng.
— Elizabeth... – interveio Mia mais uma vez.
— Minha escolha. – reiterou a loira e a capitã se calou.
— Elizabeth, são piratas! – Will continuou a protestar.
— Eu já tive muita experiência lidando com piratas! – ela constatou, empurrando-o. Will entendeu. Lidando com um pirata em particular: ele.
— Então, nós temos um acordo. – Barbossa interrompeu, sorrindo para Sao Feng. Ambos apertaram as mãos.
— Se ao menos tivéssemos um plano. – Gibbs lembrou-os.
Diana passou para o lado de Antonieta e ambas trocaram olhares conhecidos, sorrindo. Ela tinha apenas cordas a prender seus pulsos; surpreendendo ambos os lados, Mia puxou o punhal dos bolsos de um dos comparsas de Sao Feng e liberou-a prontamente, a tempo para que o furacão Murphy surrupiasse duas pistolas, atirando em dois camisas vermelhas às suas costas. Mantendo os outros ocupados, junto ao remanescente da tripulação de cingapurianos, enquanto seu capitão liberava os recém acordados amigos de seus grilhões, levando Elizabeth com ele para o Imperatriz uma vez terminado. Uma bala raspou por sua cabeça, atingindo o homem que o resguardava; virando para trás, Feng avistou Antonieta piscando para ele, ao passo que retornava suas atenções para novos combatentes.
Mercer voltara a bordo, mirando contra ela, sendo interceptado pela espada de Diana, que logo se tornaram duas contra ele.
— Canhões contra eles! – Gibbs bradou, conseguindo guiar Pintel e Ragetti para os porões, torcendo para que alguma pólvora estivesse boa o bastante para ser usada. O Pérola começou o desenlace dos tiros contra o “Endeavour”, permitindo que a Imperatriz escapasse numa cortina de fumaça. Alguns homens de Singapura foram deixados para trás, contra os ingleses, o furacão Murphy e William repararam, lado a lado.
Diante deles, por sua vez, Antonieta deu cabo de dois; utilizando as pistolas recém liberadas para terminar com os oficiais. A irlandesa sorriu, reconhecendo os novos cadáveres como alguns exemplares que registrara ante a provocação de Feng para com a sua irmã. É claro, Hector dissera que ela ainda não poderia matar Sao Feng, mas não disse nada sobre sua tripulação. Ele, acabou por juntar-se a Diana contra Mercer. Cotton começava a afastar o navio, mas sem nenhum sinal do retorno de Jack.
Um vulto, porém, passou gritando acima deles.
— Eu reconheceria esse canto de passarinho em qualquer lugar. – a mulher Murphy sorriu, descuidando-se de Mercer para fitar o céu, afinal, Hector parecia tê-lo sob controle. Diana tornou a prestar atenção, a tempo de vê-lo chutá-lo no estômago, sendo quase atingido na perna, o que ela interceptou com a lâmina branca. Cercado, o lacaio de Beckett saltou ao mar. – Covarde! – chamou ela.
O grupo do Pérola se reuniu ao tombadilho, enquanto os cingapurianos que escaparam de Antonieta mantinham-se afastados, vendo-a dar cabo dos últimos fardados. Jack cruzou o navio a bombordo, passando diretamente por eles. Os rostos se concentraram na água, Barbossa satisfeito, imaginando o tipo de aterrisagem forçada a que ele teria que se submeter. Virando-se, porém, Jack estava no alto, junto a popa, admirando-os com um sorriso maldoso.
— E sem deixar cair uma gota de rum. – disse orgulhoso. Gibbs sorriu para seu capitão, acompanhado de Diana e Tia Dalma. Hector resmungou, guardando a espada, descendo para verificar Antonieta. Conforme descia, Pintel e Ragetti seguraram Will. – Botem o pestilento, traiçoeiro, covarde, bacalhau mofado na cela. – ordenou, solene, mas seus olhos fitavam o jovem Turner com decepção.
Antonieta jogou o último corpo na água, respirando fundo, percebendo que Hector se aproximava dela.
— Mantenha-os longe de mim! – disse apontando sua espada para o pequeno grupo de Sao Feng. Ele assentiu, indicando os porões a eles.
— Italianinha. – Jack chamou-a ao longe. Mia ergueu os olhos para ele às escadas do tombadilho, guardando a espada furiosamente. Sparrow desceu, parando diante dela com uma expressão que tentava à pena. – Acho que vai querer ficar com isso. – falou em voz baixa, puxando-lhe a mão para depositar o anel de Alberto em sua palma. Ela arfou, olhando rapidamente da esmeralda para a andorinha.
Jack lhe acenou solenemente, deixando-a com uma reverência.
[1] Não estou com humor para seus enigmas.
[2] Maldita, bruxa.
[3] Ela não é surda, Mia.
[4] Eu os deixei morrer...
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