Notas iniciais
Boa Leitura!

O seu tempo foi construído sobre lendas. Estórias de homens e mulheres que, ao se recusarem a atender aos estigmas pelos quais terceiros tentavam confiná-los, enredaram-se pelo caminho mais corajoso. O respeito à sua própria identidade. E esta viu-se reduzida à mera superstição; pela coroa que os perseguia agora. Governar e unificar pelo medo. Quem poderia prever que a perspectiva de seu povo incorreria em circunstância para seu declínio? No entanto, tantas narrativas – que não fosse a própria ciência política – pareciam corroborar com ele. Havia uma canção. E tantas ouviam-na em idade ainda tenra...

O navio oscilou, heave ho, heave ho

No escuro, tempestuoso azul

E eu me agarrei à força do capitão

À medida que me levantou

Não tens dormido — heave ho, ele disse

Há muitos sóis e luas

Oh, eu dormirei ao aportar

E rezo pra logo chegar

Ele disse, quieta amor, vá se deitar

Põe teu vestido, apague a luz

Mas eu não quero ir dormir

A escuridão quer me afogar

A escuridão vai me afogar

O baú de Davy Jones era outra lenda que um povo decidira descaracterizar em nova superstição. Pois qual mortal; qual pirata, desesperado pela incondicionalidade do viver infrene, não temeria a limitação do fim? Antonieta Barbieri não era uma mulher supersticiosa. Todavia, ler-se-ia em certo exemplar dentre seus livros mais preciosos: “Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate[1]”. Assim seria o inferno; e assim seria a morte; e até então, Antonieta não imaginara que pudesse temê-la. Conquanto, a escuridão e o silêncio os engolira. Quase os afogou, conforme seu primeiro contato com matéria, após o que transcorreu como horas no vácuo, os fez imaginar.

A embarcação de Sao Feng esfacelou-se com o impacto; e seus tripulantes abriram os olhos para dentro da profundeza escura. Embora a noite houvesse caído ao som dos gritos, todos estavam vivos; e por uma fração de segundo, parados à mesma posição na qual deixaram o mundo anterior àquele. Mia ainda abraçada à Barbossa, correu seus olhos procurando por Diana, sentindo que seu parceiro a liberava – nadando em direção aos escombros. A mulher Murphy a alcançou primeiro, ambas seguindo seus companheiros até a superfície. Barbieri puxou uma grande lufada de ar, tossindo, descompassada, com Diana ao seu lado mirando-lhe num misto de hesitação preocupada e simpatia. Findo seu acesso, a morena a abraçou.

— Estou cansada de me molhar. – murmurou em seus cabelos, num tom lamurioso que mais se assemelhava a uma prece grata por estarem vivas. Antonieta riu, encontrando Will, Elizabeth, Gibbs, Pintel, Ragetti, Cotton, Marty, Tia Dalma, Tai Huang e os outros boiando por perto.

— Onde está Hector? – indagou desvencilhando-se de Diana. Sua segunda imediata apenas deu de ombros, e ninguém mais respondeu. Antonieta vasculhou o horizonte, os arredores, dando-se conta da ausência de uma brisa; provavelmente náufragos numa área de calmaria. – Precisamos encon...

Barbossa emergiu, erguendo as cartas de navegação sobre sua cabeça, lutando por ar, surpreendendo a todos. Antonieta suspirou, com audível alívio.

— Pra que lado agora? – indagou Marty, apenas com um quarto de cabeça para fora d’água. Os olhos se voltaram para o lorde pirata que, por sua vez, pôs-se a vasculhar o céu acima deles. Mia seguiu-o, entendendo. O norte. Não havia sinal das estrelas, porém. Nenhum traço da pequena ursa, mesmo que fosse dia; mesmo que isso não implicasse num impedimento àquele que soubesse para onde olhar. Nenhuma brisa e nenhuma estrela.

— Venham. – Tia Dalma os chamou, sendo a única fonte de oscilação para a placidez daquelas águas em meio aos movimentos fluidos de seus braços; muito à vontade. Antonieta encarou Barbossa; ele apenas assentiu. Supunha-se que, de fato, sua aventura alicerçava-se em demasiado ao macabro, para que a solução pudesse ser outra além de contar com ajuda daquela a quem Mia passaria a chamar de sua preceptora.

Talvez fosse verdade, e estivessem mesmo no inferno; pois por mais que a bruxa os afastasse do lugar onde supostamente aportaram, o silêncio os engolia, eterno, distanciando-os de toda esperança sobre vida ali. Talvez o desejo absoluto do marinheiro por uma vida no mar conjurasse tal destino à sua morte; sufocado pelo oceano que o circundaria ad aeternum. Talvez Jack Sparrow estivesse bem ali, flutuando abaixo de suas pernas, morto. Se possível fosse; morrer mil mortes em vezes de remediar seus pecados. As palavras de Calipso, no entanto, ainda ecoavam por Diana. Durar para sempre. Jack não estava morto, mas estava sendo punido. E convencida de que nada poderia durar para sempre em tais condições, o furacão Murphy continuou a nadar, certa de que encontrariam algo.

— Terra à vista! – gorjeou o papagaio de Cotton, assumindo um voo alto acima de suas cabeças. O pequeno Jack emitiu um ganido, clara sua inveja pelas habilidades de seu amigo e o grupo que dava todos os sinais de cansaço, após horas de trabalho árduo, recolocou todas as suas forças na empreitada, ansiosos.

Antonieta deitou o corpo sobre a praia; e o som do quebrar das ondas reconfortou-a para uma possibilidade de fuga.

— Este é sem dúvida um lugar esquecido por Deus. – observou Gibbs, contemplando a vista formada apenas por dunas. Mia se sentou, Diana estava de pé ao lado de Elizabeth e Will, Barbossa também com eles, enquanto os outros se recuperavam na areia.

— Não vejo Jack. – comentou a senhorita Swann. – Não vejo ninguém.

— Ele está aqui. – Hector assegurou. – Davy Jones nunca abriu mão daqueles que conseguiu. – disse simplesmente.

— E isso importa? – contrapôs Will, virando-se para encará-lo com rancor. – Estamos presos aqui por sua causa, igual ao Jack. – sentenciou, ao que o lorde pirata revirou os olhos.

— Vamos procurar por ele? – interpôs Elizabeth.

— Eu não vou entrar nesse deserto. – retrucou Diana, cruzando os braços. Antonieta se levantou, então, batendo as mãos nas calças cobertas de areia. – Nem que você estivesse perdida nele.

— É, eu digo o mesmo pra você. – assentiu Mia, dando tapinhas nos ombros da morena, postando-se ao lado de Barbossa. – Mas de que outra forma... – ela se interrompeu, correndo os olhos por suas feições, parando subitamente – você trança seu cabelo! – constatou, sem saber porque lhe soava valorosa. Barbossa semicerrou os olhos, tentando reacomodar o casaco para que voltasse a escondê-la, mas a água o deixara pesado demais. Antonieta se resumiu a olhar para frente, mordendo o lábio a fim de reprimir seu sorriso. – Mas de que outra forma vamos encontrá-lo?

— O malandrinho – interrompeu Tia Dalma. Em suas mãos segurava algo pequeno, e o quarteto não conseguiu identificá-lo à distância que se encontravam – está mais perto do que imaginam. – disse.

De fato, a preceptora de todo o macabro. Tão logo anunciado, as velas negras do Pérola Negra se fizeram aparentes ao longe e o navio em seguida, tal qual as Barbieri se lembravam, flutuando pela areia, carregados por outras criaturinhas diminutas. O topo da gávea trazia Jack Sparrow e Diana sorriu maliciosamente à vista daquele homem que em nada parecia ter mudado; certamente, era aquele desfecho que esperaria de alguém como Jack. Bem como a entrada. Will acompanhou a descida do barco perplexo, idêntico aos seus companheiros. Pintel e Ragetti mal conseguiam se conter com a possibilidade do Pérola ainda estar inteiro.

— Ba-barco. – pontuou Ragetti, apontando.

— Me dê uma surra e me mande pra mamãe; É o Jack! – Gibbs exclamou exaltado. Antonieta sorriu com a visível lealdade do primeiro imediato de Sparrow, o único que provavelmente não teria nenhum assunto inacabado com o capitão e seguira naquela viagem por senão outro motivo além de tê-lo de volta. O menor dos problemas, pensou, atenta à Elizabeth e sua expressão corporal. A mulher que causara tudo aquilo com sua difícil escolha – ou não – de mandá-lo para as profundezas, a fim de libertar seus outros amigos. Ela se precipitou à frente, estancando seus pés na areia tão logo percebeu a implicância de seu gesto... e como Will o perceberia, afinal seu rosto se voltou milimetricamente para a posição do jovem mestre Turner.

Todos os outros avançaram, então, correndo pela praia até o local onde Jack descera.

— Está tudo bem. – murmurou Antonieta, tomando sua mão com a dela. – Deixe o senhor Gibbs ter o seu momento primeiro. – brincou, acenando para que Diana as acompanhasse, alguns passos atrás do remanescente do comitê. Elizabeth assentiu, sem soltar a mão de Mia.

— Senhor Gibbs! – chamou Jack. A voz dele não soava mais tão imatura quanto a Barbieri se lembrava e quebrou todas as expectativas que Antonieta, ou mesmo Gibbs, pudessem reter até aquele momento para o reencontro.

— Sim, capitão. – respondeu Gibbs, desconcertado, confirmando a suposição de Mia.

— Foi o que pensei. – aquiesceu Sparrow. – Eu espero que me dê conta de suas ações. – demandou, num ar de desconfiança.

— Senhor? – sem entender, Gibbs tentou auxílio com seus companheiros. Contudo, os olhos de Jack fixos em seu rosto, de maneira tão culposa, insinuaram ao velho que talvez houvesse lógica na estranheza que encontraram.

— Tem havido uma indisciplina virulenta e permanente em meu navio. – continuou a acusar o capitão. – Por quê? Qual o motivo, senhor?! – o tom de Jack beirava ao delírio. Ele mantinha seus olhos vidrados em seu melhor amigo, mas não parecia realmente vê-lo; falando como se houvesse transcorrido alguma traição entre eles. O imediato também pareceu notar, assumindo um tom mais cauteloso antes de prosseguir.

— O senhor está no baú de Davy Jones, capitão. – disse. A guarda de Jack caiu. Correndo seus olhos, de soslaio, pelas pessoas que os cercavam e o horizonte, a fim de considerar as palavras do único homem que nunca lhe mentiu.

— Eu sei disso! – replicou de pronto, agitado. – Eu sei onde estou. Não pense que não sei. – seu tom queria reafirmar mais a si próprio do que o velho.

— Jack Sparrow. – Barbossa saboreou as palavras e a ironia de proferi-las, quase satisfeito por reencontrar seu assassino.

— Hector! – exclamou Sparrow, surpreso e igualmente receptivo, indo em sua direção. – Faz um bom tempo, não faz?

— Isla de Muerta, não se lembra? – inquiriu com um sorriso zombeteiro – Me baleou. – acrescentou mais sério agora, os mesmos pensamentos de alforra de Will de meses antes despertando-lhe algumas ideias.

— Não, nada disso. – desconsiderou de pronto, parecia sequer lembrar-se, voltando-se para a mulher ao seu lado. – Tia Dalma! Sempre onipresente, não é? Você adiciona um agradável sabor de macabro a qualquer delírio. – disse elogioso, fazendo Diana rir ao lado de Antonieta e Elizabeth, que permaneciam afastadas do grupo.

— Ele acha que somos uma alucinação. – Will concluiu, exausto com a maneira que seus encontros com o capitão sempre se desenrolavam; exausto com a personalidade de Jack.

— Talvez devesse reconsiderar a ideia, Sparrow. – Antonieta se sobrepôs, soltando Elizabeth, deixando-a ainda escondida com os outros rapazes da tripulação do Hai Peng. Diana a seguiu e Jack a enxergou primeiro, dando um passo para trás, atordoado.

— Olá, Jackie. – cumprimentou com seu riso característico. Ele se aproximou, analisando-a de cima a baixo. Sua mente tentando encontrar a razão para tê-la ali junto às outras figuras recorrentes de seu passado.

— O que você está fazendo aqui? – sua voz saiu baixa. Aquela soava como uma conversa que ele não gostaria de dividir com seus outros delírios. Diana riu pelo nariz.

— Cruzei o horizonte, como você. Nosso amado horizonte. – respondeu de pronto, afundando as mãos nos bolsos da calça. – Talvez nós dois tenhamos ido longe demais dessa vez. – ponderou dando de ombros. Jack a fitou como fitara Gibbs no início. Diana Murphy. Ela certamente surgiria, cedo ou tarde, para atormentá-lo; e ela, por sua vez, percebendo que merecia destaque suficiente para aluciná-lo, sorriu de lado com amargor.

— William, diga-me uma coisa – interpôs finalmente, afastando-se com sabor da presença da irlandesa – você veio porque precisa de ajuda para salvar uma certa donzela perigosa, ou seria donzela em perigo... ah, tanto faz, não é? – inquiriu.

— Não. – Will respondeu resoluto. Àquela altura, Jack seria o último a quem recorreria com um pedido de ajuda.

— Bem, então não estaria aqui; então, você não pode estar aqui. Portanto, não está aqui! – disse com um sorriso grande e esperto, sentindo como se desmascarasse todos eles.

— Jack. – Elizabeth finalmente tomou coragem para se aproximar, chamando-o com gentil culpa. – Isso é real. Nós estamos aqui.

Ela?

— No baú de Davy? – ele se reaproximou de Gibbs, inclinando-se para que apenas seu imediato o ouvisse. Alucinação ou não, o único em quem confiava.

— Viemos resgatar você. – a voz de Elizabeth saiu entrecortada e Antonieta se apiedou dela. Não havia nada mais nada nela além da angustiante necessidade de ser perdoada. Todavia, e em triste contrapartida, tudo em Jack Sparrow, ao se virar para sua assassina novamente, determinava que nada era tão simples. Ele não era tão simples.

— Ora foi mesmo? É muita gentileza. – disse, destilando veneno. A loira, por sua vez, aprumou-se, encarando-o sem perder a compostura. – Mas me parece que como eu tenho um navio e vocês não, são vocês quem precisam de um resgate; e eu não sei se estou a fim. – era a vingança perfeita, Antonieta assentiu consigo mesma.

— Eu vejo meu navio. – interpôs Barbossa, e o sorriso de Mia se alargou. A vingança perfeita, não fosse a resolução de todos ali para deixarem aquele lugar esquecido por Deus. – Lá está! – acrescentou mirando o Pérola.

— Eu não vejo. – rebateu Sparrow com descaso. – Talvez uma canoazinha escondida atrás do Pérola.

— Jack, Beckett está com o coração de Jones; está controlando o Holandês Voador. – Will apressou-se, antevendo uma discussão infrutífera entre os capitães; entediado por eles.

— Está controlando os mares. – pontuou Elizabeth, escolhendo o lado de Will.

— A canção já foi cantada. A Corte da Irmandade foi convocada. – acrescentou Tia Dalma, indo ao auxílio de Will. Tais palavras pareciam ser a conclusão de qualquer argumento àquela altura.

— É só deixar vocês sozinhos por um minuto e tudo vai por água abaixo. – desdenhou, escarnioso, afastando-se do grupo que se fechara contra ele.

— Pois é, Jack, o mundo precisa de você e depressa. – Gibbs adentrou a conversa como o alicerce pretensamente imparcial, olhando de soslaio para Will.

— E você de uma tripulação. – lembrou-o o jovem Turner.

Uma tripulação. Tripulação, realmente. Ele retornara para salvá-los e a sua tripulação concordou com qualquer história que Elizabeth escolheu contar e o deixou para trás. Para a morte.

— Por que eu deveria navegar com qualquer um de vocês? – Jack explodiu. – Cinco tentaram me matar no passado; uma de vocês conseguiu. – e indicou o cisne. Os olhares recaíram sobre ela. Todos surpresos. Exceto Will. A sua surpresa não era maior do que o resquício quase invisível de alívio, por não ter confirmada a sua suspeita mais profunda. Elizabeth permaneceu parada, os olhos procurando a Barbieri; detalhe que não escapou à Hector. – Ah, ela não contou? Terão muito o que conversar enquanto estiverem aqui.

— Isso é ridículo. – Antonieta disse, firme, chamando a atenção de Jack. – O senhor Turner está certo, você precisa de uma tripulação e nós somos os únicos que... – mas Barbossa a impediu, segurando-a pelo cotovelo, antes que falasse. O gesto cativou Sparrow, erguendo seu sorriso mais amarelo.

— Eu me lembro de você. – e seus olhos recaíram imediatamente sobre o rosto taciturno de Barbossa. – A italianinha. – remedou; Antonieta estranhando o tom de uma velha piada entre os dois e também a reação de Barbossa, ao se colocar entre eles, alertando Jack com os olhos muito expressivos. – Aproveitem a estadia – e afastou-se – Quanto a você... – Tia Dalma o encarava, serena.

— Ora, não me diga que não gostou... naquele dia. – provocou com as mãos dançando pelas mechas do cabelo dele. Jack sorriu, o mais próximo que poderia chegar de alguma vez se sentir constrangido. Diana riu baixinho.

— É justo, está contratada. – concordou passando por ela. – Não preciso de você, me assusta – disse para Ragetti – Gibbs, te dou uma segunda chance, pode vir, e Marty – continuou, ignorando Pintel. – Cotton!, — acenou prontamente, sendo respondido pelo gorjeio do animal ao ombro do timoneiro, — papagaio do Cotton, não sei... mas ao menos terei com quem falar. – aquiesceu. – E quem é você?

— Tai Huang.

— E você serve a quem? – ele ignorara sua presença até então, mas era realmente uma gentileza que o arremedo de resgate houvesse trazido motivo para que ele não precisasse de sua ajuda para manobrar o navio para fora dali.

— A quem pagar mais. – respondeu Tai Huang, prontamente. “Típico” murmurou Diana, atrás deles.

— Eu tenho um navio. – propôs o moreno.

— Então agora eu sirvo a você. – o imediato de Sao Feng aceitou.

— Muito bem. – Jack projetou a voz, alcançando a bússola em suas vestes. – Levantar âncora, preparar para partir todos vocês! – ele desejou sair dali, mas a seta em suas mãos não apontou para absolutamente nada.

— Jack. – ele ouviu Barbossa provocá-lo ao longe. Em suas mãos jaziam um invólucro negro, e identificando seu possível propósito, entendeu a intenção de seu antigo imediato. – Para onde está indo, Jack? – de fato, a interrupção à qual expusera sua italianinha fazia muito mais sentido agora. Típico de Hector Barbossa; e ele se sentia um tolo por não ter pensado em como teriam chegado até ali e o encontrado, antes que tal carta fosse usada. Com apenas um aceno de cabeça, indicou o Pérola. – Parece que estamos convidados. – murmurou Barbossa, jocoso, e Antonieta sorriu triunfante, com um último olhar para a praia antes de acompanhá-los. – Então, você sabia.

A palavra pegou-a de surpresa, e ainda que tenha se voltado para ele tentando demonstrar surpresa, Hector a conhecia bem demais para que ela ainda se sentisse confortável ao dissimular daquela forma.

— Apesar do que você possa pensar, a escolha de me fazer a confidência foi dela. – defendeu-se a Barbieri, conforme o bote guiava-os até o Pérola.

— Você e não o jovem Turner? – pontuou o lorde pirata em resposta, desacreditado.

— Ela temia a reação de Will; parece que estava certa. – comentou observando o bote que os levava logo à frente; uma grande conveniência que houvesse mais de um entre os destroços na praia – ela apenas se perguntava de onde teriam vindo.

— E quanto a nós? – interveio Diana, ao lado de Barbossa.

— Nós? – repetiu Mia. A mulher Murphy encarou significativamente, pendendo a cabeça para o lado. – A escolha dela trouxe mais vida do que morte.

— Mesmo assim, — cortou Diana – ela decidiu matar alguém importante para a Corte, ao invés de aceitar o próprio destino; e agora não haverá maiores repercussões, porque nós limpamos a bagunça dela? – inquiriu, indignação pesando sua voz. Embora não fosse de fato o sentimento que nutria pela loira.

— Eu sei. Ela é mais parecida conosco do que pensamos. – disse Mia, traduzindo os sentimentos de Diana. Hector permaneceu calado; indiferente a culpa de Elizabeth. Ainda que seus atos fossem o fato gerador para que os termos de sua barganha tivessem sido dificultados, bem como propiciar a criação do motivo para seu reencontro com a família Barbieri, Hector Barbossa era o último homem a tirar a razão de alguém que detivesse qualquer preceito para atentar contra a vida de Jack Sparrow.

Este, ainda se encontrava desconectado com o tempo. Estranhando tais presenças, sem discernimento do tempo que passara ali. Gibbs lhe confidenciava que foram necessários meses para que chegassem a Singapura e roubassem os mapas de Sao Feng, o que não teriam conseguido sem a ajuda da Lady da Ligúria. “A italianinha” pensou Jack, encarando suas costas do bote onde estava. Não era ainda Lady quando se conheceram, mas convencera-o com a vaidade de uma e seu tom ao dirigir-se a ele certamente lembrou-o da imagem de um aristocrata. E é claro, encantara Hector. Bela, com o único defeito de corresponder aos seus avanços; sempre em seus braços, provocando-o com apelidos proferidos em seu sotaque italiano e o ar inteligente.

E Diana. Esta ele podia ver claramente. O retrato perfeito de suas memórias; idêntico, como que eternizado junto às outras traições que sofrera. A fama de seu riso, o charme de seus olhos, de nada significavam quando se percebia que o traço mais marcante era a calma, o desprendimento, de sua voz – em qualquer circunstância – mesmo as palavras que poderiam levar um marinheiro à sua morte. Deveria ter entendido que não era loucura, tão logo a viu. Independentemente de todo perigo ao qual ela gostaria de tê-lo exposto e por algo tão pequeno de sua parte, Jack não nutria por ela a mesma mágoa que facilmente incutiria a Barbossa, Elizabeth ou mesmo seu pai.

Subindo pelas barras, o grupo alcançou o convés do Pérola Negra; e em silêncio cada um agradecia a sensação de chão firme sob seus pés mais uma vez.

— Puxar cordas! – iniciou Barbossa de pronto e em Antonieta ardeu levemente a ânsia por sua posição mais uma vez.

— Puxar cordas! – a repetição de Jack seguiu-se, interrompendo sua nostalgia. Ao lado de Diana, ambas observaram enquanto os dois cães competiam pelo seu território; admitindo que Barbossa era uma figura impositiva demais para o jovem Jack, e, no entanto, nenhum deles cederia o poder sobre a pérola de seus olhos. Acostumados ao ritmo de seus capitães, a tripulação restabelecida em seu navio vistoriava as ações dos novos integrantes, que logo retornariam ao seu verdadeiro mestre, conseguindo que se pusessem em movimento para longe da praia.

De volta ao mar, da maneira entendida por Deus, Antonieta se postou junto à ponte, aguardando o primeiro salpico da brisa.

— Está sentindo, mestre Gibbs? – perguntou, chamando a atenção dele enquanto passava por ela. O velho olhou em volta, arqueando as sobrancelhas em dúvida, imaginando que o que quer que Jack tivesse, estava se alastrando pelo resto do navio. – Não há brisa. – comentou em resposta, sua expressão aflita. Logo, ele sentiu. A falta do vento; e mirou Antonieta por um instante, antes de se afastar fazendo o sinal da cruz. – Onde está o nosso cigno? – inquiriu para Diana, que ajudava Marty com o cabo de amura. A mulher Murphy indicou o andar de baixo.

— Você deixou o Jack para o Kraken. – Antonieta ouviu Will, conforme se aproximava; permanecendo alguns passos para trás da escotilha, a fim de não ser percebida.

— Ele está a salvo, não importa agora. – a voz de Elizabeth respondeu, e Mia teve certeza de que estivera chorando. – Will, eu não tive escolha! – estava mais firme agora, mas ainda cheia de súplica. Notável como não era a mesma entre Will e Jack.

— Escolheu não me contar. – ele retrucou. Antonieta fechou os olhos, instintiva. Reconhecendo aquela conversa.

— Eu não podia. – Elizabeth insistiu, mais alta agora. – Não era seu fardo pra carregar.

— Mas eu carreguei mesmo assim, não foi? – a voz dele saiu entrecortada. Por um momento Antonieta se sentiu suja por estar escutando. – Eu só não sabia o que era. Eu pensei...

— Que eu amasse o Jack? – completou Elizabeth. Seu tom indicando o despautério em tudo aquilo.

— Se faz suas escolhas sozinha, como posso confiar em você? – indagou Will, mais firme agora. Antonieta abriu um sorriso amargo, sabendo a resposta.

— Não pode. – respondeu Elizabeth. Mia ouviu os passos e se afastou, mas a loira sequer ergueu os olhos do chão. A Barbieri permaneceu ali, esperando que Will subisse; mas ele não o fez.

— Ela só quis poupá-lo, Will. – disse ao encontrá-lo de costas, sentado no último degrau da escada. O jovem Turner não lhe dirigiu a palavra ou o olhar. – A primeira morte...

— Ela estava lá quando Barbossa morreu. – ele cortou finalmente. Mia suspirou, descendo um degrau para mais perto dele.

— Barbossa era seu amigo? – retaliou sabiamente, calando-o uma segunda vez. – Não julgue-a...

— Isso não é assunto seu, Capitã Barbieri. – sentenciou Will, forçando-se escada acima, abandonando-a. Antonieta não conseguia julgá-lo. Nenhum deles; e no fundo, sequer se preocupava. Eles se amavam mais do que ela e Lorenzo.

O dia continuou entre as pequenas competições de Jack contra Barbossa, e até seu fim, o Pérola permanecia sem um capitão. Contando apenas com a presença do que pareceu dois infantes em disputa pelo coração da mesma dama; o que não tardou a entediar seus expectadores. Diana concluíra suas funções, atracada ao cesto da gávea com Marty, olhos fixos no horizonte, mesmo que estivesse consciente da infrutiferidade de tal gesto. Eles precisavam da tenacidade de Jack – e que Barbossa o alertasse quanto a isso – no entanto, carecia em ambos o bom-senso. Abaixo dela, guardava as costas de Antonieta, observando-a segura junto ao balaustrado parapeito, próxima aos cabos de amura. Inerte.

Um sopro, o som de uma onda varrendo o casco do navio ou o tremeluzir das velas, qualquer deles satisfaria a carência da Barbieri. Todavia, se realmente haviam chegado ao inferno, ou em alguma de suas inflexões, esperanças como aquelas deveriam, de fato, ser abandonadas. E o sufocar em seu peito talvez significasse que estivessem. Que fosse lenta; dolorosa; vazia; rápida; esmagadora; lancinante; porém, Mia nunca esperou que acabasse ali. Ela permitiria que a escuridão eterna, céu ou inferno a tomassem, desde que pudesse se despedir; vê-los por uma última vez ao cruzar o portão. Sabia, ainda, ser tal furor o fruto de sua mente agitada e estranha aos arredores. Contudo, não era capaz de deixar de sentir-se amaldiçoada pela calmaria.

A frustração tirou-a dali, em direção à cabine do capitão. Apoiada à porta fechada às suas costas, deparou-se com um fragmento da história que não conhecera, pois nunca adentrou os aposentos do Pérola; apenas Barbossa conhecia por completo o Stella De La Sera. Tão diferentes... e afinal, o assalte do Kraken deixara marcas irreversíveis pela derrota que logo as seguiram. Resquícios de seus capitães, porém, mantinham-se intactos. Um poleiro; para o pequeno Jack sem dúvida e algumas garrafas vazias de rum sobre a mesa, coberta com mapas por desenhar e baús com moedas. Uma janela não fora destruída; Antonieta sentou-se sobre a mesa junto a ela, encolhida. A ilusão de estar fechada, embora parcialmente destruída pelos grandes lastros nas três janelas centrais, quase a faziam ignorar sua estranheza sobre aquele mar; mas não sobre o navio ou a si mesma.

Com Jack resgatado e eles de posse dos mapas de Sao Feng, ela esperou por uma saída fácil e poucas horas a mais que precisasse passar longe de seu métier. Ela ansiava por sua estrela, pelo controle; e, naquelas circunstâncias, pelo resto de sua vida. O sol se pôs, trazendo o pequeno Jack para a cabine, liberando-a de seus pensamentos; um pulo de seu velho poleiro até o topo de seus joelhos. Antonieta o acariciou, ouvindo a porta se abrindo uma segunda, lhe revelando Hector. Ele analisou-a, ciente de seu sumiço horas antes, encolhida sobre a mesa, sem conseguir estudar seu rosto, porém. O que ela fazia sentada no escuro? Indagou-se, à medida que procurava algo com o quê acender as velas.

— Nem mesmo o salpico do mar. – a Barbieri murmurou, quebrando o silêncio, ao ascender da última vela. Barbossa voltou-se para encará-la. – Durante os anos da maldição de Cortez, não conseguia sentir nem mesmo o salpico do mar, você disse naquela noite em Porto Venere. – lembrou-o, repousando a cabeça para trás.

— E por que lembrar disso agora? – Hector perguntou, aproximando-se da mesa com cautela.

— Não há nenhuma brisa. – ela respondeu simplesmente, atenta ao teto. – E se há, eu não estou sentindo. E se estivermos mortos? Ou meio-mortos? E se vir até aqui e voltar significa viver como você e o resto do Pérola viveram durante os dez anos, para sempre? – Antonieta se voltou para olhá-lo. Hector não a encarava como se a ideia fosse absurda, embora exprimi-la a fizesse se sentir como tal.

— Sente direito, Antonieta. – pediu, taciturno. A Barbieri permaneceu parada, um segundo antes de deslizar para a borda, pernas para baixo e postura ereta, o resquício ínfero de desafio abrindo-se em seus olhos verdes. Barbossa sorriu sutilmente, aproximando-se de seu rosto, conforme uma de suas mãos subia, lenta, sem tocá-la completamente, por sua perna. O sorriso dela foi instantâneo e, antes que se erguesse por inteiro, ele fez menção de beijá-la, tocando seus lábios levemente, fazendo-a arfar quando sua mão desceu sob a saia. – Está sentindo? – perguntou baixinho, contra seu ouvido.

— Estou. – Mia suspirou ao fechar os olhos, acalorada pela boca transpondo seu pescoço e a abertura em seu colo.

— Então ainda lhe resta algum tempo, antes que a morte venha buscá-la. – sentenciou, afastando-se para admirá-la corada.

— Para sua sorte. – Mia sussurrou. Após tantos anos e tantos meses, tornara-se tão fácil; ali, sozinhos; se deixar engolir pelas mãos em sua perna e seu quadril, pelo formigamento em seu peito e o poder que sua reivindicação exercia sobre ela, aquém de qualquer ansiedade díspar ao desejo de concluir o que começaram.

— Noite encantadora para uma volta no tempo. – Sparrow disse, interrompendo as mãos da Barbieri que desciam para as calças de Barbossa.

— Fuck off[2], Jack. – retorquiu o lorde pirata, rouco.

— So you can fuck in[3]? – desdenhou o outro lorde, aproximando-se de sua mesa, com o rosto contorcido em revolta ante a cena. – Cá estava eu, imaginando se os anos não teriam lhe concedido mais gosto, italianinha. – falou para provocar Antonieta. Barbossa bateu com o punho sobre a mesa, preparado para debater com Jack, mas a capitã o puxou para que a encarasse novamente.

— Quanto ao gosto não tenho certeza, pequena andorinha, — o sorriso de Sparrow morreu por um instante com a provocação rebatida, – mas certamente aumentaram meu apetite. – destacou, mordendo o lábio inferior de Hector com velada delicadeza, provocando-o para que a tomasse. E o fez. Por tempo suficiente para que o suposto capitão do Pérola Negra se desconcertasse, pigarreando a fim de redirecionar a atenção.

— Poupe a garganta, Jack. Saia. – interpôs Barbossa, em tom de ordem.

— A cabine e, bem, esta mesa – cujo destino não será outro senão a fogueira – está à bombordo do navio. Eu sou o capitão à bombordo do navio, como combinamos. – lembrou-o Sparrow, sinalizando com as mãos para que eles se levantassem.

— Nesse caso, os meus aposentos se encontram à estibordo. – disse Hector, convidando Antonieta a descer.

— Os aposentos do capitão encontram-se fora dos limites! – exclamou a andorinha, interpondo-se entre eles e o caminho para a cama. – Nenhum de nós está autorizado; e se alguém deveria estar, sou eu, como Capitão escolhido e declarado desta embarcação desde o seu nascimento!

— Se não me falha a memória, há uma certa controvérsia nessa afirmação. – Hector continuou, soltando a mão de Antonieta. – Escolhido, até que percebessem a sua...

— Senhores! – interpôs a Barbieri, erguendo as mãos em rendição. – Isso não será necessário. Perdi o apetite. – concluiu, deixando-os com um aceno polido de cabeça.

[1] Vós que entrais, abandonai toda esperança. Dante Alighieri

[2] Cai fora, Jack – eu me recuso a usar a tradução para uma expressão tão satisfatória.

[3] Pra que você possa cair dentro?

Notas finais
Bom dia, meus amados! Sei que foi uma espera muito longa e me desculpo por isso. Minha cabeça esteve emergida em outros projetos e só agora começo a recuperar o gatilho desta trama que tanto me cativa; não se preocupem, nunca irei abandoná-los... a não ser quando ela realmente chegar ao seu fim. Esse capítulo foi longo e talvez fosse ser um pouco mais, então, achei por bem cortá-lo e conceder maior fluidez a história. Espero que gostem; MEU DEUS O JACK APARECEU! Me contem qual a primeira impressão de vocês nos comentários, por favor! O feedback e insight dos senhores é deveras importante para o meu sistema criativo!!! Um beijo Ana