Lembranças de Porto Venere
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Elizabeth não fazia certeza se, ou Antonieta Barbieri possuía aquela força em seus braços ou Will cedeu à sua vontade, aceitando ser guiado para longe do convés. Qualquer que fosse o caso, ele e todos os outros saberiam ter partido de si o chamado para que ela interferisse no possível atentado que seguiria num confronto entre Barbossa e William; ambos reconhecidamente implacáveis quando atiçados pela fúria. Pois sim, a mesma mulher que fizera a voz do velho capitão fraquejar, deteria imponência o bastante para impedir mestre Turner de sentenciar a viagem deles até Singapura. Agora sem o pesadelo da culpa, Elizabeth aceitava o retorno de Jack como uma graça negada a tantos outros homens – como aqueles com quem dividia as refeições – de reverem velhos amigos há muito condenados pela irredutibilidade do mar.
Pirata. Ele a entendera e, portanto, ressentimentos à parte, a fraternidade de sua relação não estaria comprometida quando se reencontrassem. Sparrow, em contrapartida com o juízo de estranhos à situação, ainda haveria de querê-la viva e bem; tal qual Elizabeth desejava agora. Ele mentira e a manipulara para que o levasse até o coração de Davy Jones, e ainda assim persistia em admirá-lo como um bom homem; por quem, de fato, sentira certa atração, não obstante saber que esta jamais foi ou seria maior do que aquilo que sente por Will. O que pensar, aliás, de todos os homens que cruzaram seu caminho? Will, Jack, James... todos eles ambiciosos por seu favor. Deveria orgulhar-se por isso? Outra possivelmente iria. Contudo, Elizabeth apenas aceitava que aquelas eram forças além de seu poder de manipulação – embora houvesse tentando usá-las contra Sparrow a fim de convencê-lo a ajudá-los – e só lhe importava que a ambição de um deles se mantivesse intacta...
E apesar daquele trio que a perseguiu por aqueles anos adentro, a bordo do Stella jazia outro em quem deixou certa impressão e o qual também a marcara... para mal e para bem. Nenhuma daquelas aventuras que seguiram a noite do saque à Port Royal faria muito sentido, não fosse a visão de um grupo amaldiçoado de piratas, liderados por um homem cuja reputação se convertera em lenda. Dentre todo o remanescente do Pérola Negra, Barbossa era o único que se mantinha indiferente a qualquer obrigação que pudessem ter ante a generosidade daquelas pessoas em transportá-los; e ninguém chamava sua atenção por isso. Havia trocado poucas palavras com ele desde seu retorno, consciente de sua natureza taciturna, e mesmo a Capitã Barbieri manteve distância naquelas últimas semanas, no entanto Elizabeth se achava destemida o suficiente... ou próxima o suficiente, para tentar.
— Will está ciente de seus feitos passados. – começou brandamente, incerta, mantendo-se a alguns passos de suas costas. Lentamente, a cabeça de Barbossa virou-se de soslaio, sem encará-la, dando sinais de que a ouvia atentamente. Percebia-se o arquear soturno de suas sobrancelhas, como se não a entendesse, e então voltou a encarar o horizonte. – O que fez com Bootstrap. – elucidou, dando um passo à frente.
Ela não o via, mas os olhos do velho pirata se fecharam com o reconhecer de a quais feitos ela se referia. Correntes demais em seu passado para que se lembrasse de cada uma prontamente. Aos poucos, o jovem cigno[1] se firmou ao lado dele, evitando suas feições, não querendo parecer julgá-lo, permitindo-se o frescor leve e convidativo da brisa; uma sorte que viajassem no verão; logo seria outono, porém.
— E aonde está o jovem mestre Turner agora? – Hector inquiriu calmamente, baixando os olhos para encará-la. A pergunta que de fato fazia, contudo, constatou Elizabeth, era outra.
— Ele bem quis; mas foi impedido pela mulher Murphy e Gibbs... – respondeu simplesmente. – E a Capitã Barbieri; eu a chamei. Está com ela agora. – acrescentou erguendo os olhos na direção dele, vendo-o enlevar levemente o canto esquerdo dos lábios com certo escárnio.
— Entendo. – assentiu ele, cortando o contato visual. – Que gentileza a sua, se preocupar com a minha integridade física a ponto de precisar correr até a mamma. – acrescentou rápido, desdenhoso. O rosto de Elizabeth se contorceu, estupefato, mas ela manteve a compostura.
— Só achei que era direito dela; saber que uma tentativa de assassinato estava tomando prumo em seu navio. – cortou, friamente. Não embarcaria em um discurso inflamado e, de certa maneira infantil, sobre como foi desmantelador encontrá-la de saias levantadas, usando creme de barbear nas pernas. Hector emitiu um som zombeteiro.
— Tentativa, de fato. – disse, levando-a a crer que não confiava, nem por um segundo, que Will fosse bom o bastante para abatê-lo. Forçada pelo hábito, ela abriu a boca para defendê-lo, mas reprimiu-se por um momento, refletindo sua abordagem.
— Quão presunçoso um homem consegue ser? – indagou sem esconder um pouco do seu escárnio, Barbossa riu.
— Minha cara senhorita Swann, um homem não consegue sobreviver a este mundo, se não tiver um pouco de estima por si mesmo. – ponderou sorrindo de lado para ela, que lhe cedeu algo bem próximo de um, pensando na própria vaidade da Capitã Barbieri.
Silêncio, então. Por entre o qual o lorde pirata refletiu sobre o progresso dela no último mês, tendo-o acompanhado ao longe. Quando finalmente chegassem a Singapura, dali cinco meses, ela já estaria virando sobre os próprios pés sem vacilar em nenhum momento. Demasiado diferente, mas não tanto, da jovem que o enganara com o sobrenome falso, dois anos antes. Apunhalara-o usando uma faca de mesa, demonstrando força fora do comum – de variadas formas – em distintas ocasiões ao trâmite do período em que cruzaram caminho e, deveras, o tempo concedeu-lhe alguma imponência junto ao bronzeado de seu rosto. Longe... muito longe da moça amedrontada à imagem de sua figura esquelética amaldiçoada.
— O progresso está sendo notável, senhorita Swann. – disse por fim, chamando a atenção dela. Sentiu uma pontada de orgulho pelo elogio, mas sem transparecê-lo.
— Bons mestres. – rebateu voltando os olhos por um momento na direção de Olívia e Beatrice conversando. Hector anuiu à contragosto e Lizzie arqueou as sobrancelhas. – O que?
— Me surpreende que ainda não tenham trocado a arma em suas mãos. – falou dando de ombros, cruzando os braços.
— Dominar a espada não é o mais importante? – questionou ela. Barbossa ergueu um sorriso enviesado.
— Não quando se está sozinho e contra mais homens do que seus braços dão conta. – respondeu puxando a pistola de seu cinto, entregando-a a ela. Elizabeth abriu os olhos mais alguns milímetros, surpresa e ao mesmo tempo maravilhada pelo gesto. À ideia de Hector Barbossa – o homem que a sequestrara – lhe ensinando qualquer coisa. No entanto, era bem a verdade, com ele se posicionando a alguns passos de sua esquerda, arrumando suas mãos e dando ordens sobre como manter suas pernas afastadas em diagonal, e o rosto levemente virado para que a pólvora não voltasse contra seus olhos quando puxasse o gatilho. – Os dois olhos abertos, Swann. – aconselhou por fim, fazendo sinal para que ela atirasse.
— Que merda é essa? – o som da voz de Olívia ecoou junto ao zumbido do tiro. Tanto Elizabeth quanto Barbossa viraram-se para ela, que mantinha as duas mãos atadas à cintura.
— Capitão Barbossa estava me ensinando a atirar... – tentou ela olhando de um para o outro, incerta. Olívia fingiu sorrir de alegria e então fuzilou o lorde do mar cáspio por um segundo antes de prosseguir falando.
— Ascoltami, vecchio[2], — começou friamente e mesmo sem conhecer uma palavra de italiano, Elizabeth entendeu o que aquela significava, e interpretou o arquear de cabeça de Barbossa como um aviso deveras incisivo, embora silencioso. – Não gosto que se enfiem no meio dos meus métodos, capisce?
— Eu perguntei... – interveio a senhorita Swann, resoluta e Olívia lançou um último olhar aos dois.
— Ele, de fato, se igualou a Antonieta; mas, você foi colocada sob a minha tutela, Swann. Não me desrespeite dessa maneira. – disse com veemência à outra.
— Deixe a garota, Liv. – interpôs Barbieri, pegando o pequeno grupo de surpresa ao se aproximar por trás. – Ela não está desrespeitando o método Tiziana; só está sendo curiosa. Não te lembra alguém? – indagou significativamente, e Olívia assentiu desgostosa, acenando para a Swann antes de voltar para junto de Beatrice. Elizabeth entendeu aquilo como um chamado para continuar seu treino, mas Antonieta a parou, segurando-a pelo ombro. – Não vá; e não deixe Olívia intimidá-la. Ela é sua tutora, não quer dizer que possa mandar em você. Tire dois minutos para descansar. – sugeriu com um sorriso malicioso.
— Isso não é mandar em mim? – indagou Elizabeth, recostando-se no parapeito do navio. Mia sorriu.
— Não se a ordem lhe aproveita. – constatou, tocando sua têmpora direita sugestivamente, fazendo a outra rir consigo. Então, voltou-se para Hector, parado ao lado delas e seu sorriso se abrandou um pouco; um erguer de lábios gentil, ao passo que retirava algo de um dos bolsos de sua saia. Os olhos dele se abriram um pouco em velada surpresa, logo convertendo-se num arquear esperto de sobrancelhas, ao ver a maçã verde que ela lhe oferecia. – Parola? – Havia pedido para que lhe deixasse ter paz e, contra toda crença, ela educadamente o evitou por semanas. Seguindo, agora, o código, lhe estendia oportunidade de oferecer-lhe, ou não, privilégio da trégua como somente os piratas conheciam. Em resposta, ele tomou a maçã de sua mão, mordendo-a, aquiescendo. Como retruque seu, Antonieta retirou outra do bolso, vermelha, partindo-a ao meio com uma faca de seu cinto, a fim de entregar uma metade à Elizabeth.
Seguiu-se o confortável silêncio entre os três, atentos somente ao reverberar dos murmúrios da tripulação. Até que, findo o leve movimento de seu maxilar, Antonieta quebrou-o mansamente.
— O destino de Bill Turner... o quanto de seu rancor por Sparrow influenciou o número de balas atadas a ele?
A mandíbula do jovem cigno parou instantaneamente, estudando a franqueza de Mia pelo canto de seus olhos. Os dela, subiam despretensiosos até Barbossa, despidos de julgamento, conscientes de seu tiro no escuro, da sua incapacidade em avaliar a mente daquele homem, embora de alguma forma enxergasse-o completamente. No que tangia seu interlocutor, não via razão para se explicar ou mesmo progredir num discurso que – conforme espirituosa observação da capitã – justificaria seus erros nos dela. Estava feito; e diferente de tantos outros crimes, o desfecho daquele não fora o pior, se o velho Turner encontrou um modo de expurgar seu julgamento.
— As escolhas pessoais de um homem são, dificilmente, um motivo sensato para guardar qualquer rancor por ele. – pontuou Hector, despendendo outra mordida ruidosa na maçã. Mia assentiu, contrita.
— O jovem Turner não parece concordar com você. – observou a capitã, semicerrando seus olhos frente ao mormaço. – Mas, talvez ainda haja tempo para que você lhe repita estas mesmas palavras; com a mesma eloquência. – disse virando-se para a água, tentando evitar que o sol a queimasse mais, e Elizabeth imitou-a, ao passo que punha-se a desvendar o misto de zombaria e compreensão presentes na voz da Barbieri.
— Não, se você continuar roubando minhas chances. – rebateu Barbossa, em resposta à sua intervenção. Ela riu baixinho, cortando outra fatia da maçã.
— Não é meu dever garantir que chegue em Singapura intacto? – ponderou, antes de calar-se para mastigar; Elizabeth sorriu de lado ante seus modos e à lembrança da conversa que dividiram. “Estando em meu navio, é meu dever prezar pelo seu bem-estar.” O brilho nos olhos da mulher, todavia, determinava pormenores muito maiores do que suas reles responsabilidades. O que certamente influiu para que Hector ergue-se meio sorriso a ela, em respeito à sua sagacidade. Deveras. Intacto para cumprir sua palavra com a bruxa e falar como aquele quem fizera o chamado à Corte.
— Ocorre, contudo, que o jovem Mestre Turner se esquece de que este débito já foi pago, pois se me falta a memória, ele ajudou Sparrow com a minha morte, à época. – comentou o lorde pirata, seus olhos então voltados para Elizabeth. Antonieta piscou, dando-se conta de que ignorara as circunstâncias pelas quais aquele grupo se uniu, em primeiro caso. Outra história que pediria ao pequeno cigno, sem dúvida.
— E, de qualquer forma, aqui está você. – argumentou a senhorita Swann, dando de ombros. – Troçando de todos os nossos esforços. – acrescentou em frustração.
— Por que, então, impediu? – inquiriu o capitão, arqueando interrogativamente uma das sobrancelhas a ela. Elizabeth bufou ante o desafio, batendo com as duas mãos livres contra o parapeito, ao que Mia lhe ofereceu outra lasca da maçã.
— Porque eu não sou estúpida! – defendeu-se com eloquência. – Se a bruxa disse que precisamos da sua ajuda, então precisamos de sua ajuda. – concluiu e Barbossa lhe cedeu um desdenhoso aceno de cabeça. – Ragetti e Pintel, ao que me pareceu, tentaram intervir em seu favor. – interpôs após algum silêncio, a afirmação entremeada de perguntas, mas ele não as respondeu.
— Lembra-se da nossa conversa sobre como histórias podem ser manipuladas, cara? – interveio Antonieta com os olhos fixos na figura calada de Barbossa, virando-se rapidamente para pegar o aceno positivo de Elizabeth, então tornando a encará-lo. – É muito fácil ceder a elas, mas pequenos detalhes como este fazem toda a diferença. Ele lhes salvou a vida, há muitos anos. – revelou prontamente, chamando a atenção do lorde pirata às suas palavras; à precisão de sua memória. – Sim... o homem tão mau que o próprio inferno o expulsou de lá; ele também se preocupa com a sua tripulação. – Antonieta falava como se em vezes de desbancar uma mentira; elevando sorriso tão gracioso, que embebia sua voz de promessas a respostas de todos os mistérios acerca do caráter humano.
— Agora, quem tenta justificar o que em quem? – Hector devolveu, mas sua própria voz não carregava qualquer sinal de desgosto para com a análise dela. Antonieta riu pelo nariz, dando de ombros antes de voltar-se para Elizabeth.
— Apenas – com fins a educação da senhorita Swann, vez que lhe fiz uma promessa quanto ao teor desta viagem a ela – estou tentando pontuar que... você não o odeia tanto quanto quer odiar. – Mia explicou-se brandamente, suas últimas constatações proferidas de encontro aos olhos dele. Outra vez abrindo espaço para a velada surpresa em suas feições, desafiando-a a provar que estava certa. Antonieta vira aquele mesmo olhar diversas vezes em Alberto, enquanto cresciam, para se deixar levar por ele. – Você não carrega o monopólio das escolhas pobres... não é como se nenhum de nós nunca houvesse feito algo assim antes...
— Fez? – foi Elizabeth quem a interrompeu, curiosa. Ao mirá-la, a Barbieri pareceu disfarçar a carga de cansaço que uma resposta lhe traria com um sorriso gentil e que, à certa luz, parecia desejar escusá-la de algum mal. Em tanto pareceu envelhece-la e diminuí-la que o cigno ousou fazer menção de apertar uma de suas mãos, solidária. Contudo, o breve encontrar com os olhos do velho capitão alertou-a para que se retratasse; Antonieta não a aceitaria.
— Fiz. – resolveu responder, por fim, suspirando. – A mesma brutalidade calculada, arrisco dizer. – riu, erguendo, por segundos, os olhos verdes até seu antigo algoz. – Logo no início de minha carreira... um galeão espanhol e, pelo que me lembro, estávamos deixando nenhum sobrevivente naquele dia... Villanueva tentou me humilhar, então eu devolvi na mesma moeda. – a explicação vinha sem qualquer vestígio da dureza que empregara ao falar-lhe sobre os homens que manipulavam as histórias de seu mundo, observou Elizabeth. – No entanto, recordo que o último homem a morrer me pediu um momento... e então me implorou para ser o único sobrevivente; ele tinha uma filha, aparentemente. Eu não me importei; e atravessei uma bala pela cabeça dele. Acreditando... me convencendo de que uma morte rápida.... fosse clemência. – concluiu soturna. Os olhos da senhorita Swann arregalados contra ela, e Antonieta soube que parte dela havia escapado de suas mãos para sempre.
Em verdade, porém, tal qual acontecera entre a loira e Jack Sparrow, tampouco aquela revelação sombria do caráter de Antonieta – presente ou passada – conseguia repeli-la totalmente de sua companhia. Nem mesmo a epifania da participação de Barbossa em acontecimentos pregressos que influenciaram o status ao qual fora reduzida no presente, diminuíam a centelha de respeito que começava a nutrir por ele; por ambos. Surpreendia-a, talvez, reconhecer que mais cinco meses ao lado deles simbolizasse um adeus à ignorância de primeiras impressões.
— Não se sobrevive muito tempo, — interpôs Barbossa, arremessando os restos de sua maçã ao mar, quando o silêncio se tornou insuportável demais; ou porque sentia-se no dever de pagar a defesa de Antonieta na mesma moeda, — caso comece a se importar com todas as vidas que cortam seu caminho. No fim, só se resume ao que um homem pode ou não pode fazer. – sua voz alcançava as duas, que abandonaram a discussão silenciosa de seus olhos a fim de cederem à divagação moral do outro capitão. – Eu poderia ter me mantido à sombra de um homem que seria para sempre um garoto, aceitado o descaso, vezes deliberado, outras não, despendido a mim e aos outros rapazes; que após anos sendo o dono de meu próprio destino, agora estava para sempre amarrado ao do mais leviano dos capitães... eu poderia tê-lo matado...
— Mas não matou. – observou Elizabeth, calma, com olhos simpatizantes aos dois. Reconhecendo, sim. Barbossa poderia tê-la matado, e Jack, ao invés de deixá-los naquela ilha mais uma vez. Especialmente ela... com quem não detinha nenhuma relação e que o enganara descaradamente. – Talvez a Capitã Barbieri tenha razão, — ao que Mia remedou em um murmúrio de desdém “talvez?”, — e você não o odeie tanto quanto quer odiar.
— Não estou negando a esperteza de Sparrow, tampouco sua natureza irritante, volúvel e o maldito ego...
— Da che pulpito viene la predica! [3]— Mia interrompeu batendo as mãos contra o parapeito à bombordo de sua Stella, entre gargalhadas ruidosas. Elizabeth, mesmo sem entender, não resistiu ao trovar de sua voz, tão contagiante, acompanhando-a com um largo sorriso. Quanto a Hector, este apenas admirou-as com um grave muxoxo zombeteiro, aumentando a graça para Mia que ousou desferir palmadinhas amistosas em seu ombro; ao que ele desvencilhou-se da mão dela, abrupto, mas nada quebraria o espírito da capitã. A senhorita Swann observou-os, mesmerizada, ainda sorrindo. Com que facilidade ainda reprovaria outras de suas histórias e se permitiria intoxicar pela agilidade com a qual sombras desatavam gargalhadas; tornando muito mais genuíno vê-los exatamente como Antonieta os pintava.
Aos poucos, o rompante foi diminuindo e a capitã lutava para recobrar seu fôlego; a falsa humildade do capitão assumindo o pódio da melhor piada ao seu ponto de vista.
— O direito do jovem Turner de obter alforra comigo, espero, não deverá ser questionado uma segunda vez. – disse Hector, por fim, com toda a elegância aguardando o momento em que ela deixaria de rir-se dele. O resquício de uma busca por permissão, disfarçada no apurar das circunstâncias, recobrou a compostura dela.
— Não. – assentiu ela, sorrindo extasiada. Ele, então, assentiu polidamente, acenando com um floreio à Elizabeth, que riu, antes que lhe desse as costas. – No entanto, eu espero que tenha percebido, à essa altura, que uma das principais razões que me levaram a concordar em ajudá-lo foi a chance de que o prazer possa ser meu; quando for a hora certa. – acrescentou aumentando o volume em sua voz e a malícia no extasiar de seu sorriso, para que ele se sentisse obrigado a prestar atenção nela, estancando-o no meio do caminho; permanecendo de costas para ela, ouvindo o sorriso em sua voz, vendo-o ao fechar os olhos por um segundo de resignação. Elizabeth olhou de um para o outro, sentindo-se um tanto invasiva; a mudança no teor da conversa palpável.
— Eu talvez também tenha um último pedido. – e contrariando toda a irritação que aquele traço na personalidade expansiva de Antonieta lhe provocava, ele flertou de volta, e ela sentiu o sorriso em sua voz relaxando-a. A graça da parola.
— E o que eu não faria, Héctor,[4] por um velho amigo como você? – indagou recostada no parapeito, limpando a lâmina da adaga que estivera usando com a barra de sua saia. A jovem Swann notou os ombros dele relaxando por um segundo, sem conceder-lhe qualquer resposta, antes de seguir para o andar de baixo. Alerta, a Swann procurou por Will, encontrando-o junto a mezena com dois outros marujos. Com que, então, seus olhos voltaram para Mia, de soslaio, fitando-a sutilmente; o passo com o qual seu sorriso se sustentava no mesmo tempo que parecia morrer. Percebendo, tão logo seus ombros tornavam a se tencionar, a atenção da outra. E Antonieta piscou, apertando seu ombro com gentileza antes de tomar o caminho para o tombadilho. Seus passos imbuídos de naturalidade forçada; como se sua disciplina lhe fosse mais cara do que o frustrar por uma proposital omissão.
[1] cisne
[2] Escute aqui, velhinho.
[3] Expressão idiomática italiana que significa "Olhe de qual púlpito vem esse sermão!", mas que aqui vamos traduzir como: o sujo falando do mal lavado, mas com estilo.
[4] Aquela pronúncia maliciosa de Hector no italiano. Eu vivo por ela.
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