Lembranças de Porto Venere
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Com o pôr-do-sol ofuscando seus olhos, Matteo Barbieri precisou acatar um conselho antigo de sua tia e ater-se ao som dos passos de Beatrice, junto à sua respiração alta, para desviar de seu ataque. A assistente da mestra de armas, junto a sua companheira, havia passado a tarde simulando embates com os tripulantes; a ferocidade entre Mia e Barbossa tendo os estimulado, ao mesmo tempo em que encorajaram os comentários e a motivação de Diana para uma aposta efervescente. Téo divertia-se com a sagacidade da primeira imediata, embora não lucrasse com a vida amorosa de sua tia. Crescendo em meio a todo aquele tumulto, ele não era cego aos desenrolares de Antonieta; independente do começo, o fim conduzir-se-ia certo para sua cama. No entanto, não estava confiante quanto às intenções dela naquele caso em particular, pois, ao contrário de ocorrências passadas, ela mais se defendia do que atacava.
Deveras, ao lugar onde muitos insistiam em ver o início de sua manipulação luxuriosa – inclinando-se para os lábios de seu oponente à sua maneira de avariar confiança, o Barbieri vislumbrou muito mais de cenas relacionadas ao passado de sua tia que o amedrontaram quando criança. Antonieta fora roubada por outro pirata do mediterrâneo certa vez, algo na maneira determinante com a qual eles cruzaram espadas querendo dizer ao menino que sua tia sentiu qualquer coisa por aquele homem, forçado a uma aposentadoria prematura. Anos vindouros, contudo, apagariam um pouco daquela imponência exacerbada na capitã aos olhos de seu infante sobrinho, tornando-a apenas uma mulher que acreditava conhecer tão bem e ao mesmo tempo tão pouco. Algo na proeminência da cena anterior alertou-o, todavia, para um ciclo que talvez estivesse às portas de ser reiniciado... Já em momento quando sua estabilidade emocional achava-se comprometida.
Diana detinha a maior coleção de apelidos épicos, assentando perfeitamente à epicidade de sua natureza e que lhes foram concedidos sem subterfúgios. Em contrapartida, o rapaz assistiu às vezes nas quais à sua tia não era demonstrada a mesma cortesia. Criaram-se diversos rostos para escondê-la e determinadas palavras para defini-la; a mais usada sendo a favorita dos poetas. Fêmea traiçoeira indigna. Diana era famosa por desenhar analogias suas à forma de uma serpente, contudo, homens de pouca imaginação haviam proclamado outra – sua irmã – como a réptil escorregadia que com agilidade e encantamento os abocanhava para seu próprio ganho. O jovem Barbieri, por outro lado, compreendia apenas que a um ser humano a quem fora negado o luxo da confiança ante ao seu próximo, machucar antes de ser machucado padeceria de um mínimo capricho indulgente.
Tal certeza, ao passo que Antonieta abandonava sua posição de observadora para simular um embate contra ele, servia apenas para aumentar sua opinião de que outro embate – aquele entre as graças inquestionável e incorrigível – saturara-se. Conquanto sua relação com a capitã permitia que lhe falasse abertamente o quanto chateava estar sentado entre uma guerra fria, pouca compaixão ia obter dela; acostumada a fazer tudo conforme seu julgamento na tangente de sentimentos que somente a si diziam respeito. Desarmou-o, por fim, percebendo a cabeça dele em outro lugar.
— Non era la prima cosa che tuo padre ti ha insegnato? Il mai partecipare ad una battaglia testa calda?[1]— ralhou ela batendo com o punhal da espada dele de leve contra sua testa.
— Sei tu che mi ha accusato di pensare troppo tutto il tempo?[2]— brincou com o sorriso amarelo encantador igual ao de Berto, fazendo-a dar de ombros reconhecendo suas palavras.
— Vamos, cucciolo[3], colher os espólios da arduidade de nosso trabalho. – brincou abraçando-o pelo ombro em direção aos domínios da família Vitale. Téo riu, tão fácil como era deixar-se levar pela alegria dela e esquecer-se completamente da urgência de outros assuntos. Aprazia-o a relação profunda que dividiam, como ela encolhia alguns centímetros fictícios ao permitir-se as minúcias da vida familiar, fugindo de sua própria sombra por um momento.
Ilaria e Matteo circulavam por duas das mesas ao fogão, batendo, enrolando, seus braços cobertos até a altura dos ombros em farinha. Antonieta conhecia aquele cheiro, tal qual seu sobrinho, ambos inalando profundamente em uníssono, abrindo sorrisos nos lábios dos cozinheiros. A mais nova fez sinal para a capitã, mostrando a figura de Barbossa sentado com os pés erguidos na mesma mesa onde sua tripulação acostumou-se a tomar o desjejum e o chapéu lhe cobrindo as feições, ao que Antonieta revirou os olhos; estranhara o retorno solitário de Cínzia para o deque, imaginando o esconderijo de seu paciente.
— Matteo, eu não sei o que fiz para merecê-los preparando o famoso Spaghetti Di Vitale na feliz data de hoje, mas por favor, não permitam que a minha ignorância seja um empecilho. – elogiou enquanto enchia dois canecos com rum.
— Dio mio, não permitam mesmo. – concordou Téo, aceitando o caneco que ela lhe oferecia. – Estou me sentindo malnutrito[4]. – gracejou rindo ruidosamente, ao que o cozinheiro respondeu com uma piscadela alegre. Mia riu também, seus olhos recaindo sobre a figura aparentemente adormecida de Barbossa, resolvendo ignorá-lo para falar com o ragazzino.
— Aonde estava sua cabeça, antes? – inquiriu num interesse preocupado. O Barbieri engoliu em seco, bebendo um pouco antes de prosseguir, acompanhado por ela. Não gostava muito de rum, Mia, o vinho deveras mais rico, contudo, a bebida favorita de Diana obtinha mais sucesso ao liberar línguas e espíritos.
— Longe de mim desafiá-la, zia Mia, mas essa sua fuga constante da presença uma da outra está se tornando um tanto patética. – começou. Meia palavra bastando para a entendedora que era sua zia. Ao lado deles, ouviu-se a risada rouca de Hector, esquentando o sangue da mulher.
— Gostaria de acrescentar alguma nota pessoal, Capitão? – inquiriu entre dentes, seguiu-se outra risada de Barbossa.
— Se sim, você vai quebrar meu nariz outra vez? – desdenhou, sua voz abafada pelo chapéu. Téo reprimiu um risinho e ela respirou fundo.
— Ou eu poderia mirar um pouco mais pra baixo. – rebateu no mesmo tom, voltando-se para o outro Barbieri, que agora a encarava com um sorrisinho orgulhoso. — Non mi affido la mia condotta a un ragazzo. [5]— advertiu num murmúrio ameaçador. O sorriso nos lábios de Téo morreu, mas ele não se esquivou.
— Anzi, un ragazzo di venticinque anni è un ragazzo.[6]— zombou cruzando um braço à frente do corpo sobre a mesa. Antonieta bufou.
— A chi ha pulito la tua merda, sì[7]. – retrucou com um sorriso mordaz, que o fez rir em irritação.
— Forse quando sarai più anziano restituirò il favore[8]. – continuou a murmurar zombeteiro e mais uma vez Barbossa riu e Antonieta bateu com a mão na mesa, levantando o dedo contra seu sobrinho.
— Osservi la lingua o taglierò le tue malaquie[9]. – ameaçou uma última vez, cansando-o – ouvira aquela em particular milhares de vezes ao longo de sua vida. Ela terminou o resto do conteúdo com violência, sentindo garganta e cérebro arderem.
Os olhos de Sofia. Fora seu pai quem a alertara para não resguardar demasiada confiança ao poder do místico, nem mesmo à figura proeminente de Deus, pois embora benevolente, suas bênçãos tornar-se-iam ardis escondidos àqueles a quem o erro vem como um novo amanhecer. Contudo, caso ali estivesse, Cícero apoiaria seu neto. Ambos sentar-se-iam à frente dela e uniriam seus argumentos para chamá-la de covarde. Fuga? Dentro de um navio não havia espaço para isso. Ele era a própria liberdade cerceada por suas paredes que os emergiam da água, impedindo que afundassem... no oceano... em si mesmos... Em verdade, não existia liberdade para Mia sem que pudesse contar com a reles presença de Sofia e toda a sua inteligência pura, a habilidade e lealdade. A irmã caçula que a superara em tantos aspectos para os quais anos de vida ainda a mantinham apática.
Todos os homens precisam de um alicerce. Alberto, e ele sabia, se casara com o seu. Téo herdara seus olhos e isso forçava-a a usar de toda sua disciplina para continuar a fitá-lo, encenando indiferença. Sofia era o ser humano melhor, disso Mia nunca duvidou; sua mera presença oferecendo toda a certeza e conforto aos quais se apegara e habituara-se cegamente. E dos quais egoisticamente recusava-se a abrir mão. Sem ela, toda a sua identidade resumir-se-ia apenas à de uma famigerada puta que fazia muito de si mesma; não muito diferente de homens como Lord Beckett. Contudo, com Sofia... se conquistara a admiração de alguém como a senhorita Acidália, então sobrava-lhe alguma esperança. Então eles, de fato, não eram os demônios criados pela necessidade do mundo em dicotomizar existências.
— Ela sente sua falta também. – cortou brandamente Téo, estudando-a, vendo-a fraquejar. – Assim que vocês conversarem, tudo volta ao normal... – Mia riu em descrédito.
— O normal de quem? – lançou olhando de soslaio para Ilaria que amassava tomates agora. – Você não sabe, caro... ninguém sabe o que eu... – ele esperou que ela completasse, mas Antonieta apenas suspirou resignada, correndo a mão por sua nuca. – Você não conhece sua mãe...
— E se a senhora detém a sabedoria absoluta sobre o assunto, faça alguma coisa, Capitã Barbieri. – disse friamente, chocando-a. Um último olhar para os Vitale e, em seguida, sem olhá-la, voltou para o andar de cima. Antonieta fez menção de segui-lo, mas sentou-se outra vez, afundando o rosto entre as mãos, ao passo que seu peito tomava a mesma direção. Vazio, de repente. Sua garganta ardendo de remorso. Ilaria trocou um olhar compassivo com seu pai, que, gesticulando, sugeria para que a deixasse por um instante.
— Você ameaçou arrancar o pau dele? – Barbossa inquiriu, assustando-a; tendo esquecido de sua presença ali. Seu rosto vermelho ergueu-se para avistá-lo sem o chapéu a tapar-lhe as feições, encarando-a com uma expressão mais branda do que de costume. Confusa, ela simplesmente acenou, dando de ombros.
— Se eu ameaçasse arrancar um braço ou a língua, não teria o mesmo efeito. – assentiu taciturna, o fazendo rir.
— Que grande tia! E dizem que os italianos sequer concebem a ideia de maltratar seus próprios familiares. – comentou jocosamente. Ilaria riu.
— Antonieta estabeleceu novos padrões ao significado de fraterno. – brincou, arrancando risos gerais ressonantes, inclusive o da capitã. – Você sabe, contudo, que ele está certo, não sabe? – contradisse a capataz, buscando o olhar da Barbieri em dúvida.
Subitamente, todos os olhares repousaram-se sobre a sua figura cabisbaixa e exausta. De fato, ela sabia. Admitir a sabedoria infinita de seu sobrinho não afligia seu ego, tanto quanto deveria mortificar Sofia aceitar os momentos em que Diana agia sensatamente, porém em todo caso, não era seu ego que estava em jogo, mas sim algo demasiadamente mais profundo, fruto de uma vida experenciada por detrás de uma soberba máscara autoconfiante na qual se escondia um de seus vários pecados. Com grande pesar sentia os diversos olhos ansiando por sua reação, sendo os mais próximos coloridos de um azul tão claro... que pareceu impossível conceber o quanto seriam capazes de compreendê-la.
— De certa forma, eu sempre soube que acabaria perdendo Sofia um dia. – sua voz saiu clara, resignada e surpreendentemente jovem; como se falar arrancasse os anos que se abateram sobre ela. – E perdi, de algumas maneiras, quando se descobriu que ela estava grávida... Alberto não a queria mais perto de nenhum dos navios...
— Não é, de fato, o melhor lugar para alguém nestas condições... – interpôs Barbossa igualmente brando, permitindo que as reflexões dela o embalassem para dentro de seus próprios arrependimentos condizentes à assuntos semelhantes. Tampouco ele concordara com a ideia de Margaret viajando com seus homens, uma vez que o destino para a caça ao Ouro de Cortez fora estabelecido; nem mesmo quando, tendo-o obtido, viagens se realizaram para gastá-lo.
— Não estou dizendo que discordei. – retrucou Antonieta espontaneamente, ofendida com a ideia de que ele pudesse acreditar que seu desejo em mantê-la perto, à época, lhe fosse mais importante do que a criança. – Apenas me surpreendeu a rapidez com a qual tudo mudou... – disse com um sussurro febril. – De repente, a única forma de conseguir a atenção dela era ao demonstrar interesse por conhecimentos que nunca foram meu métier. – acrescentou rindo um pouco, gesto imitado pelos ouvintes que entendiam-na e a conheciam.
— Pelo que me lembro, você se saiu miraculosamente bem. – observou Matteo, terminando de enrolar a massa entre as mãos.
— Valia a tentativa, é claro. – Mia anuiu, baixando os olhos mais uma vez. – Senti tanto a falta dela... – acrescentou fechando-os por um momento; recordada de todos os meses longe do porto e das semanas seguintes ao nascimento, quando tudo se tornou assombrosamente claro. – E quando Téo nasceu... eu simplesmente não sabia o que fazer daquilo... aquela coisinha pequena, rosada e, deus me perdoe, feia, gritando impiedosamente sobre nossas cabeças; mas então, numa tarde, ele adormeceu nos meus braços... e todas as minhas preocupações se converteram a uma dúvida terrível... se meu sobrinho iria gostar de mim... – ela falava com certa meiguice agora, e Hector reconheceu traços da mesma ingenuidade prepotente que passaria a relacionar a ela em suas memórias.
— Esse sempre foi um traço seu... querer que todas as pessoas gostem de você. – mas ele não reconhecia-o em virtude de qualquer zombaria que pudesse fazer às custas dela. Seu tom envolvia muito mais a reverência e o carinho que despendeu ao mencionar, semanas antes, como nunca imaginara um dia encontrar Antonieta Barbieri acuada. Esta resumiu-se em sorrir solidariamente ao comentário, sem discordar.
— Você pode culpar meu pai. – respondeu dando de ombros. – Cícero Barbieri costumava dizer que um homem sempre deveria tratar os desconhecidos – possíveis aliados – com a mais fina das cortesias, pois uma vez que a eles tenha revelado sua verdadeira natureza ou os apunhalado pelas costas, não havia como voltar atrás. – ela falava com o sorriso bobo de uma filha cujo primeiro amor fora a figura aparentemente mais sábia do pai; de quem, apesar dos anos, ainda reverenciava as lembranças que dividiram em vida. – Então, eu acatei com seu conselho, mas no meio do caminho tanta coisa já havia mudado que esse tipo de filosofia acabou se tornando obsoleta... e tudo o que restou foram as lembranças acerca da garota que um dia acreditara cegamente nela. Quantos de nós podem olhar pra trás e dizer que gostam de todas as versões de si mesmo? – seus olhos prenderam-se na figura taciturna do Capitão Barbossa – um homem tão cruel que o próprio inferno o expulsou – significativamente, erguendo um pequeno sorriso em seus lábios.
Ele certamente não dividia de sua nostalgia acerca de eras passadas; ao menos não naquilo que tangia a pessoalidade de seu mundo. Aquilo que tanto Cícero e Allegra diriam que, de fato, concedia significado à existência. Embora Antonieta não houvesse se resignado a um único amor, a lealdade e firmeza com a qual lutara para manter todos aqueles homens unidos à causa de sua família – como uma – consistia em feito reverenciável. Suas versões passadas tomavam a forma de uma garota iniciada por legado e interesse próprio àquela vida, graças aos sentimentos puros e inquestionavelmente verdadeiros que nutria por um grupo seleto de pessoas. No que concernia àquilo que um dia Hector Barbossa manteve mais próximo de seu coração, não restara nada... substituído por suas ambições de encher sua cabine e os porões de seu navio da mesma forma que homens a quem um dia servira.
— Em todo caso, não eram todas as pessoas, mas o meu sobrinho; quem um dia talvez fosse seguir com as nossas tradições... até com o meu nome... é claro que deveria querer que ele gostasse de mim. – Antonieta continuou na defensiva, remexendo os ombros que relaxaram junto aos músculos de seu rosto subitamente; suas mãos caindo sobre seu colo para que começasse a gesticular enquanto seguia. – E no final, ele acabou por gostar. Saía escondido depois da hora de dormir e vinha a bordo do navio para explorar, me encontrando ainda acordada; implorando para que eu não o dedurasse... ele me olhava com os olhos de quem descobrira a coisa mais intimidadora de seu mundo e decide que irá desvendá-la. Concedi ser cúmplice em seu pequeno crime, ao que o pequeno delinquente começou a me encher de perguntas sobre os nomes nas formações de estrelas...
Por que sempre as malditas estrelas? Pensou Barbossa, crispando os lábios imperceptivelmente. Ilaria riu baixinho do outro lado da cozinha, acenando positivamente com a cabeça para o nada.
— A visão enternecedora de Antonieta com Téo no colo, ao deque, insistindo em contar todas aquelas histórias ao garoto... forçando-o a memorizar cada um daqueles nomes, assim como sua mãe fez. – comentou mexendo uma das panelas. A capitã assentiu.
— Uma das minhas melhores versões, não era? – brincou virando seu corpo para encará-la, atrás de si. – Lembra-se de qual sempre foi a favorita dele? O Argo! Quando lhe contei as histórias dos argonautas e as várias viagens que fizeram liderados por Jasão, especialmente a busca pelo velocino de ouro, Dio mio, o garoto não queria ouvir sobre qualquer outra coisa! Sabia nomear todas as estrelas menores que o formavam: a puppis, a vela, a bússola, e...
— Carina. – ressoou a voz de Hector, entrecortada. Os olhos de Antonieta voaram rápidos para ele; seu sorriso alegre pelo conhecimento que dividiam morrendo ao – em uma das únicas oportunidades – conseguir apreender tudo aquilo que tentava manter afastado de seu rosto, incapaz de manter a expressão taciturna.
Encararam-se cientes da inexistência de uma parte culpada; tanto ela, apática ao que pudesse ter feito, quanto ele, atingido pela coincidência, surpreso ao encontrar tantas delas dentro daquele navio. Não restara nada. Mesmo as migalhas de sentimentos e de uma vida da qual abrira mão por escolha consciente enterraram-se, mortas. Ainda assim, suas mãos tremiam, atiçadas pela vívida memória de – por um momento – segurarem o mundo inteiro... e mesmo daquele mundo, ela ainda ousara fazer parte; ousara impor sua presença altiva. Ou não fora o maldito rubi da família Barbieri, aquele cuja terça parte ornava a capa do diário que roubara, o que deixou para trás com a infante a fim de garantir seu conforto? Seu único ato altruísta? Afinal, não fora, de certa forma, Antonieta Barbieri quem pagou, quem, de fato, garantiu que Carina pudesse ter alguma chance longe daquela vida corrupta? E nunca foi direito seu, sequer sua intenção. Não! Ela nunca intencionava nada além daquilo que, eventualmente, garantir-lhe-ia algum ganho pessoal...
Não muito diferente dele. “E, afinal, não foi ganho ou interesse pessoal assumir simplesmente que a menina estaria melhor sob os cuidados das irmãs no orfanato, do que arriscar sua reputação prendendo-se a uma fraqueza com os seus olhos?” Antonieta nunca teve que fazer tal escolha, contudo. Téo não era seu.
— Hector? – ela chamou em expectativa, sua compreensão momentânea demasiado limitada para durar mais do que um relance de segundo. Os olhos dele, sem que percebesse, haviam caído para as mãos que mantinha em seu colo, mas tornaram a encará-la com toda a miséria angustiada de quem busca a parte culpada. – Eu... – mas ele não permitiu que ela concluísse, levantando-se num solavanco bruto, solene e que, contudo, pareceu calculado o suficiente para que o tempo congelasse o instante: Barbossa apunhalando-a com sua veemência e desgosto, antes de dar-lhe as costas, subindo para o deque.
Ela, sem entender todo o resto, entendeu aquilo.
Me deixe em paz.
Me deixe ter paz.
[1] Não foi a primeira coisa que teu pai lhe ensinou? A nunca entrar numa briga de cabeça quente?
[2] Não foi você quem me acusou de pensar demais o tempo inteiro?
[3] Filhotinho
[4] Subnutrido.
[5] Não vou confiar meu julgamento a um garoto.
[6] Um garoto de vinte e três anos é um garoto, sem dúdivas.
[7] Pra quem limpou sua merda, sim.
[8] Talvez quando estiver velha, eu possa devolver o favor.
[9] Cuidado com a língua ou arranco seu pau fora.
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