Lembranças de Porto Venere
13 Capítulo 13
Nenhum grito durante a noite. Nenhuma troca de olhares que pudesse interpretar. Nenhum sussurro cessando à sua chegada. Sem qualquer um daqueles sinais característicos de mudança, a calmaria se abateu – não sobre as águas que os elevavam, como deveria ser – mas sobre o transpassar dos dias a bordo do Stella De La Sera. Dali a quatro nasceres do sol completariam um mês navegando, e a tradição imposta a todo homem que veleje sob bandeira pirata demandava o primeiro soldo, a primeira parada para que os recém contratados obtivessem uma chance de se decidirem por terra ou por mais meses de serviço. E, no entanto, seguiam pelo horizonte sem sinal de que lhes agradava as tradições; conscientes, talvez, de que uma parada poderia acabar com tudo; nenhum grito durante a noite ecoava o pedido de um fim.
O demônio Murphy ouvia o silêncio, observando-os em suas atividades habituais, movendo-se mecanicamente ao passo que entoavam canções de um passado perdido, vez que só se move adiante. Não fora sua intenção permanecer na tripulação de Allegra Barbieri quando chegou até sua cidade, confinada em um dos barris carregados com especiarias a fim de evitar ser descoberta pelos homens. O primeiro mês. Era tudo a que desejava sobreviver em meio àqueles estranhos; uma única viagem e então receber o que lhe era devido para desaparecer novamente. Passou completamente despercebido a Diana o quanto seus fardos se aliviaram durante o único mês, até que precisou dirigir-se à mesa da Capitã Barbieri e fazer sua escolha. “Uma chance de abonar seus demônios não lhe soa melhor do que passar o resto da vida correndo deles?”
Então ficou. O soldo tornando-se seu primeiro pagamento por um trabalho que sua moral pré-adolescente considerava mais correto do que prestar contas ao mundo que a quebrou. Entrementes, embora o preço original houvesse sido deveras alto, acabou compensando com o passar das marés. Ainda observando seus companheiros em seus afazeres, especialmente a eterna luta entre Olívia, Beatrice e Elizabeth Swann, imaginou qual seria o preço original que aquela mocinha deveria pagar... se já não o pagara. Antonieta lhe revelou apenas suas deduções abarcando sua criação, mais nada. A experiência dividida com a própria Diana, quando tentou interrogar-lhe sobre seu passado, tendo-a ensinado respeito, provavelmente. De fato, os primeiros dias com a tripulação apresentaram-na a uma taciturna senhorita Swann. O passar das vezes que Liv ou Bea a colocavam no chão transformando-a aos poucos na sua verdadeira versão.
Versão esta que aprazia a família de italianos, fingindo ignorar seu treino, mas despendendo-lhe risadinhas e comentários espirituosos à menor oportunidade. A loira sequer detinha consciência, Diana afirmaria com certeza, do quanto eles já a consideravam bem-vinda entre suas brincadeiras e segredos, e a morena questionava-se se algum dia perceberia que nem Bea ou Liv ajudavam seus oponentes a levantar, depois de derrubá-los, se não os respeitassem sinceramente. Elizabeth, por sua vez, é claro, não transparecia tão claramente – inglesa – mas começava a enxergar melhor os rostos ao seu redor, tentando encontrar o vislumbre de um passado em cada um deles. Aos poucos, seus sorrisos se abriam às suas professoras e os comentários inteligentes – que a Capitã Barbieri estudara desde o princípio serem uma marca registrada dela – abandonavam o tom cauteloso para o despojo de autoconfiança que tanto encantavam Will e o falecido Sparrow.
— Confesso que estou impressionada com o progresso na força de seus braços, cigno[1], mas o seu traseiro ainda vai deixar uma marca permanente no chão do navio. – troçou Olívia com um sorriso mordaz. Elizabeth limitou-se apenas a bufar pelo nariz, batendo o chapéu mais para dentro de sua cabeça. O sol batia à pino sobre elas, ressecando a garganta da senhorita Swann, agitada pelo exercício. Beatrice liberou o cantil de sua cintura e entregou-o a ela.
— Obrigada. – agradeceu com a voz descompassada, devolvendo-o a ela depois de beber. – Se eu não deveria perder seus olhos de vista, o que foi aquilo com os seus pés? – indagou referindo ao momento em que Olívia pareceu saltar sobre ela com apenas uma troca de pés, fazendo-a perder um pouco do balanço de seu corpo e, portanto, o foco.
— Ah, marca registrada das alunas de Emílio Tiziana. – falou com um sorrisinho alegre, nostálgico, nos lábios. – Não posso facilitar para quando a senhorita resolver se amotinar contra nós. – concluiu dando de ombros, limpando embaixo de uma unha com a ponta da espada e Elizabeth aquiesceu; ambas sabiam que ela não ficaria ali para sempre. Alguns segredos da família deveriam se manter na família.
— Mas seu jogo de pés está bem melhor do que aquela dança esdrúxula de antes e o movimento com as duas espadas que executou contra mim na última semana foi... primoroso. Quem o ensinou a você? – interpôs Beatrice, cruzando os braços em clara curiosidade. Os olhos da jovem senhorita Swann baixaram imediatamente, erguendo-se incertos na direção de Will Turner conversando com Gibbs a alguns passos dali, seu semblante iluminando-se um pouco frente recordações das tardes que dividiram... quão distantes elas pareciam. – Quer que tranquemos vocês numa cela até que resolvam o problema? – sugeriu Alighieri, entediada, levando um cutucão amistoso de Olívia.
— Isso não funciona com todo mundo, — comentou ela – na verdade, deixa de funcionar quando você não tem mais seis anos de idade. – brincou, levando outro cutucão em troca.
— Poderia funcionar com Antonieta e Sofia, talvez. – Diana zombou enquanto se juntava a elas, as três italianas rindo do comentário ao que Lizzie apenas arqueou as sobrancelhas. Do tombadilho, Alberto limpou a garganta audivelmente, cessando com as risadinhas e o demônio Murphy revirou os olhos. – Então... Mestre Turner! – exclamou, chamando atenção de Will. – Os dotes da senhorita Swann são um reflexo da sua própria habilidade ou eu devo ficar preocupada? – inquiriu erguendo o canto dos lábios num esgar enigmático.
Will estudou-a por um minuto, assim como Elizabeth. O porte esguio, a cabeleira negra espessa cortada como a de um rapagão, mas que se assentava tão bem nela, de forma alguma masculinizando-a, unida aos olhos azuis bem abertos e brilhantes que ornavam um rosto ao mesmo tempo delicado e abatido pelo tempo, pela vida, preenchendo-o com conhecimento tão verdadeiro que quase a tornariam uma figura austera, não fosse o sorriso enganador, sacana que trazia sempre consigo. Deveras, na opinião de Elizabeth, Diana parecia por vezes deslocada... todos os traços de uma excelente e bem-sucedida cafetina, mas que por algum motivo aquém de sua compreensão escolheu a pirataria como vocação.
— E porque ficaria preocupada? – devolveu Will, debochado. O sorriso de Diana abriu-se mais, enquanto seus olhos corriam por ele de cima a baixo, levando-o a fraquejar por um segundo; e então piscou para Liv e Bea, puxando a espada de seu cinto.
Bastou aquilo para o jovem mestre Turner entendê-la em seus propósitos. Cansada de se comprometer com a plateia, ansiosa para provar algum ponto. As mãos mais uma vez pararam, tal qual haviam feito quando Barbossa e Barbieri colocaram-se na mesma posição, porém em contrapartida ao interesse velado que despenderam para a apresentação de forças entre os dois capitães e o divertimento ao assistirem os métodos de Tiziana se aplicarem para a Swann, a iminência de um embate no qual uma das partes era o demônio Murphy parecia soar a eles como um excelente espetáculo prestes a tomar forma, o que não escapou à percepção de Will, que apertou mais a mão contra o punhal de sua arma, sendo percorrido pela incerteza. Diana aguardou-o, lhe concedendo ao menos a cortesia de iniciar o movimento com seus pés, colocando-o em guarda.
Finalmente, ele atacou-a pela direita, sendo surpreendido pela morena que instantaneamente lançou sua espada para a outra mão, cortando-o pela esquerda. Will silvou, ouvindo os murmúrios entre os marujos. Olívia, no entanto, interpôs-se entre eles com fogo nos olhos, ao que os da tripulação se dispersaram de volta aos seus afazeres.
— Antonieta disse sem cortes. – lembrou-a, empurrando Diana pelo ombro. Esta riu.
— Ele é jovem, – retrucou a morena dando de ombros. – e a lâmina pegou de raspão. – acrescentou mirando o corte na camisa do rapaz.
— Ele está sangrando. – rebateu Olívia, enfaticamente, seguindo o olhar dela.
— Não se preocupe, senhorita Tiziana... – cortou ele passando a mão pelo rasgo, constatando que em verdade havia sido um estrago muito pequeno, se comparado ao que ela indubitavelmente poderia fazer. – Você é ambidestra. – observou admirado. Diana acenou polidamente com a cabeça. – Então, acho que não, senhorita Murphy. Não menosprezo minhas habilidades, mas tampouco acho que estou apto a ser uma ameaça à sua reputação. – ponderou com um sorriso amarelo e Diana tornou a rir.
— Também não as menosprezo, mestre Turner. – concordou a segunda imediata, respeitosamente – Foi uma boa troca de sobrepesos antes de desferir o primeiro golpe, e seu jogo de pés para acompanhar os meus não foi nada amador... quem te ensinou? – indagou com o sotaque irlandês carregado de interesse. Olívia e Beatrice acompanharam-na, fazendo com que Elizabeth se visse em um beco sem saída, forçada a encará-lo também, apesar de conhecer a história.
— Trabalhei como assistente de ferreiro por muitos anos... fazia espadas e, depois de um tempo, achei que seria sensato dar alguma utilidade a elas. – respondeu simplesmente, arrancando um riso fechado, admirado de Olívia, entendendo-o. A senhorita Swann, todavia, lembrava-se de como fora muito mais do que isso. Um pendor natural advindo de uma conexão que imaginara dividir com seu pai, apesar de não o conhecer e que acabou se provando verdadeira; a felicidade nos olhos do pequeno garotinho órfão ao descobrir que era verdadeiramente bom em algo.
— Aprendeu sozinho?! – exasperou-se Beatrice, trocando breve olhar com Olívia que mantinha seus olhos fixos, sutilmente perplexos, interessados em sua história.
— Quem era seu pai? – indagou, por fim, a mestra de armas, munida de algum despeito. O seu servira naquela mesma posição por anos para a família Barbieri e treinara junto às outras crias de homens subordinados à Allegra e Cícero; prodígios, na opinião de Olívia, eram criados por homens que se ressentiam em sua própria inércia para atingir seu potencial.
— Quem é meu pai... – corrigiu Will sem pensar.
— Bom pra você, quem é ele? – insistiu ela revirando os olhos.
— William Turner... minha mãe me batizou em seu nome... – respondeu à contragosto, trocando um rápido olhar com Elizabeth, chamando-lhe a atenção. Por certo, ela recordava-se de seu comentário quando se reuniram na Ilha das Cruzes sobre a descoberta de seu paradeiro, mas algo na expressão de Will alertava-a para outro detalhe que agora ignorava.
— Bootstrap Bill Turner? – murmurou Diana, surpresa por sua própria cegueira ante a imagem cuspida do velho pirata andando sob seu nariz durante todas aquelas semanas.
— Como...? – a expressão do jovem cãozinho não muito diferente da sua.
— Ele estava com os homens de Jack Sparrow quando aportaram em Porto Venere, naquela época... muito amigo do capitão... péssimo jogador de cartas... O que foi feito dele? Por que não está aqui? – Will percebeu notável preocupação no tom de voz dela, ocorrendo-lhe o que até então escapara de suas reflexões sobre seu pai desde que seus caminhos cruzaram a bordo do Holandês. De fato, Jack afirmou ser um dos únicos que o conheceu como William Turner, mas o rapaz jamais estipulou quantos outros teriam tido a mesma sorte, tomada dele pela ação irreverente do acaso.
— Preso. Membro da tripulação maldita de Davy Jones. – o amargor fazia-se ouvir em sua voz, ignorando os olhos de Elizabeth fixos nele; tamanha a energia exalante deles que calou o pequeno grupo por um instante. Logo, juntaram-se ali Gibbs com Ragetti e Pintel ao seu encalço. As mulheres do Stella conheciam os contos a respeito do terror dos mares e sua besta, sua influência sobre os homens que encontrava à deriva. E Beatrice, a quem a morte de um pai ainda ardia recente, não obstante toda a indulgência do mundo, compeliu-se pelo jovem Turner, ousando tocar seu ombro amigavelmente.
— Eu sinto muito... – disse incerta. Os olhos azuis brilhantes de Diana encontraram-se com os dele, pois, e Will sentiu certa ameaça neles.
— Quem? – a pergunta era óbvia. Quem facilitou para que Jones o encontrasse? Fato que o jovem Turner conhecia, mas manteve-se obstruído por tantos acontecimentos. Jack, a maldição do Pérola Negra, seu noivado com Elizabeth, o casamento interrompido por Beckett, o reencontro com Jack e então a trapaça que o levou a bordo do Holandês; a enorme corrente de ocorridos que se ligavam através dos feitos de um único homem. Hector Barbossa. Seus olhos enegreceram instantaneamente enquanto corriam pelo deque, procurando a figura afastada de todos no mesmo ponto onde afundara Antonieta. Diana seguiu-os, sua boca se abrindo ao perceber o que havia desencadeado. – Não. – murmurou segurando-o pelo braço.
— Quanto mais eu penso, mais me questiono do porquê Antonieta se dispôs a ajudar esse filho da puta. – ralhou Beatrice, passando as mãos pelas têmporas.
— Não é uma ajuda à Barbossa, mas a todos nós. – interveio Elizabeth, tentando apaziguá-los. – Precisamos trazer Jack de volta. – acrescentou com força, as mãos tensas ao lado do corpo.
— Precisamos? – a voz de Will cortou-a, cheia de veneno, fruto da raiva e da dor que sentia ao constatar o número de traidores que o cercava; incluindo a mulher que ainda amava. Esta, baixou os olhos, afastando-se do pequeno grupo. A direção de seus passos para sempre um mistério, vez que os dele urgiam até o capitão. Diana, por sua vez, continuava a impedi-lo, ajudada por Gibbs; seus esforços em vão.
— Bootstrap o desafiou duas vezes, Will. – Ragetti falava cheio de receio frente a tempestividade furiosa nos movimentos e feições do rapaz, mas insistiu. – E nos condenou ao deixar aquela peça com você... Barbossa estava enlouquecido pela maldição; qualquer um de nós teria feito o mesmo...
— Então mereceram o destino de vocês! Traíram, Jack! – bradou Will, tentando se desvencilhar das mãos de Diana e Gibbs. Pintel foi em auxílio de seu companheiro.
— Nenhum homem merece aquilo, rapaz... nem mesmo por um homem como o Capitão Jack. – disse de maneira soturna. – E Bootstrap ousou falar contra o motim, é verdade, mas não o impediu. Ele deixou acontecer e descontou sua culpa em todos nós... chama isso de justiça? – indagou com certa exasperação.
— E amarrar um homem a balas de canhão por defender um amigo? Chama isso de justiça?! – cuspiu em resposta, conseguindo empurrar Gibbs, mantendo-se atado apenas a Diana.
— E matar um homem por um crime invalidado pela sorte e escolha de outro? – interpôs, embora não acreditasse sinceramente em tais palavras. Will, não lhe deu atenção, porém, desvencilhando-se dela para andar mais depressa até o homem que – de costas, ignorara toda a cena, apesar do espetáculo que fazia aos outros – selou o destino de seu pai, sem que fosse seu direito. De súbito, no entanto, outra figura o surpreendeu. Sem chapéu, os cabelos por prender num coque mal-arranjado e saias que revelavam seus tornozelos nus, bem como os pés descalços. Tudo nela denotava alguém que fora interrompida num momento de velada intimidade, mas que ainda assim constituía a força mais presente dentro dos limites daquela nau. Ela apenas pressionou a mão contra seu peito; e ele jazia ali inerte, preso pela ameaça latente de seus olhos verdes.
— Não no meu navio. – murmurou Antonieta, tomando-o pelo braço. Olhando para trás, Will avistou Elizabeth a alguns passos deles; reconhecendo nela a sua segunda traição ao delatá-lo prontamente. A capitã o empurrou até a cozinha – Ilaria, água para o senhor Turner. O sal da brisa subiu à cabeça. – pediu desdenhosa ao final, soltando-o no meio do andar. Ele não ousou subir as escadas, preferindo encará-la com todo o ódio que teria desferido contra o capitão.
— Advogando ao diabo? – desdenhou, mas Mia não se dignou a responder, parada entre ele e a saída. Ilaria entregou-lhe o caneco com água e, à contragosto, Will o bebeu. A capitã, então lançou olhar incisivo dele para o banco mais próximo. Repetindo-se quando ele se recusou a obedecê-la. A capataz lhe serviu de outro copo d’água ao vê-lo sentar-se e desta vez, Will não hesitou em engolir todo o conteúdo numa pressa animalesca.
Não confiou em Barbossa desde que saíram da cabana de tia Dalma e a situação em nada se alterara naquele mês ao mar. Jack o traíra e usara inúmeras vezes; ainda não conseguia odiá-lo completamente. Salvá-lo soava menos absurdo do que confiar em Hector Barbossa para liderá-los naquela missão; e agora entendia o motivo. Aquilo que o alertara, turvo ou não em sua lembrança. Jack agiu, mas não o matou. Quiçá, de fato voltara para ajudá-los à época, contra o kraken. O homem que retornara dos mortos, ao contrário, dele só detinha lembranças nas quais agira guiado apenas por suas intenções egoístas. Usando e livrando-se de qualquer um.
— Falavam sobre seu pai, Elizabeth disse. – a Capitã Barbieri não estava mais de guarda à porta, mas sentada diante dele com as mãos sob o queixo. Will assentiu, abrindo a boca para acrescentar o envolvimento de Barbossa, interrompido pela continuidade dela. – Ele está vivo?
— Preso na tripulação de Davy Jones. – corrigiu-a com rispidez.
— Forçado? – retrucou após um minuto de reflexão, pendendo a cabeça para o lado.
— O que? – Turner inquiriu sem entender. Antonieta sorriu, compassiva.
— A morte ou uma vida de servidão. – disse brandamente. Will arqueou as sobrancelhas com algum espanto, fruto da dúvida de como tal informação poderia ter chegado até ela, quem sempre lhe parecera ser a última pessoa a se envolver com o mítico. – Não é isso? Então, seu pai? Ele foi forçado a escolher uma vida de servidão?
— E as circunstâncias permitiriam que ele pudesse, de fato, escolher? – desdenhou William após um instante, cruzando os braços.
— Mas escolheu. – ponderou Mia, dando de ombros. – Não existem chances na morte, mas servidão... apesar de limitada, não deixa de ser vida. Chance, mestre Turner. – ela lhe falava como se tentasse explicar o andar das marés, algo já tão enraizado em seu íntimo que cruciava-a a confusão que gerava em um leigo. – Seu pai comprou uma chance para si mesmo e, na minha opinião – de quem já perdeu irreversivelmente ambos os pais – eu diria que o senhor precisa desapegar-se da noção parca que lhe ensinaram sobre homens bons e maus, seguir o exemplo de Bootstrap e comprar uma chance para si mesmo. A morte é maior pena para os vivos, do que para os mortos; e não suponho que sua vingança almeje ser misericordiosa.
E, abruptamente, ela se encaminhou até a dispensa, de onde saiu segundos depois, sem olhá-lo uma segunda vez. Uma chance. Uma chance para seu pai e para ele. A certeza de que diferia de tantos outros traidores, de que sua palavra ainda valeria, independente da causa. A certeza de que não faltaria com sua promessa, como tantos faltaram para com as juras que lhe fizeram um dia.
[1] Cisne. Referência ao sobrenome.
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