Notas iniciais
Boa Leitura!!!

Sem a presença física de ameaça a sussurra-lhe ao ouvido para lhe surrupiar a paz, os olhos de Elizabeth conseguiam enxergar pela primeira vez a cabine da capitã Barbieri, muito embora tivesse estado ali minutos antes, e a visão impressionou-a tanto quanto o exterior de seu navio. Não obstante a própria opulência que encontrara a bordo do Pérola, a organização e claro estilo de Antonieta inigualavam-nos numa discrepância gritante. Seus olhos correram pelas estantes recheadas de livros e pequenos souvenires valiosos de suas viagens pregressas, refletindo sobre como a luz que cruzava sua janela – na verdade... eram portas francesas? – iluminava-a totalmente, ao passo que mantinha a figura da senhorita Swann ainda obscurecida à apenas alguns passos da entrada. Contudo, não dificultou para que a capitã acompanhasse seus olhos e seu rosto, sorrindo mais uma vez orgulhosa.

De fato, não impressionou Elizabeth a opulência em si, visto que crescera em meio a ela, mas sim como esta chegara a uma mulher como Antonieta Barbieri e como lhe assentava bem. Lembrou-se do pequeno vulto de palavras que trocaram antes de partirem da cidade pirata, o comentário de Mia acerca de sua aparência e a importância que apresentava para si. À sua luz, Elizabeth não estivera bem certa do exato significado dele, porém dúvidas não restavam mais. Ela via uma ladra, dona de seu próprio nariz e cheia de vaidade. A repulsa que usualmente nutria por mulheres como aquela em meio ao seu círculo social, no entanto, foi substituída por interesse unido a uma pontada de entendimento. Naquele átomo de segundo, conseguia compreender melhor o que nela teria feito a voz de Barbossa fraquejar. Seu próprio reflexo.

— Não quer se sentar? – ofereceu Mia, caminhando até um pequeno raque com bebidas, servindo-se de uma taça de vinho. – Alguma preferência? – gentilmente perguntou após sorver o primeiro gole.

— À essa altura? O que julgar apropriado. – respondeu a loira, descontraída. Antonieta riu pelo nariz, assentindo à linha de raciocínio dela e servindo-a de uma taça de vinho. – Obrigada. – agradeceu aceitando. Nenhuma das duas falou pelos primeiros três goles, mas a loira estava longe de desconfortável na sua presença. Tampouco Mia tinha pressa. – Perdão, mas aquilo é um cravo?

A capitã seguiu o virar de sua cabeça em direção ao mesmo, sorrindo para ele como se humano fosse. A pergunta dela, é claro, interpretou, era outra.

— Você toca? – fê-la, bebendo outro gole do líquido muito escuro.

— Um pouco... mais uma decepção para os enormes gastos de meu pai com a minha educação. – anuiu nostálgica, com os olhos baixos. Seu pai. Martirizava-se por aquela ser a primeira vez que pensava nele desde que embarcou num navio mercante atrás de Will e Jack. O que o nobre Governador Weatherby Swann diria a seu respeito se a visse daquela maneira, depois de todos os seus esforços para que ela sempre tivesse o melhor? Para que fosse sempre bem cuidada e obtivesse as melhores oportunidades na vida, um futuro confortável e simples, como o de sua mãe... de quem não guardava nenhuma lembrança viva. Escapara-lhe o julgamento, até então, de que houvesse feito nada mais além de desapontar seu pai...

— Ele ainda vive? – perguntou Antonieta, brandamente, observando as lágrimas que se formavam em seus olhos. Havia planejado interrogá-la, mas a fragilidade de seu estado fê-la repensar seus planos. Elizabeth virou-se, súbita, para ela, encontrando empatia e amizade em suas feições. Assentiu. – Bom. Dizem que nenhum pai deve sobreviver à morte de seus filhos, mas tampouco creio que um filho deveria sobreviver a morte de seu pai... se o mundo fosse justo, partiríamos todos juntos. – comentou, triste. A jovem Swann concordou com um aceno profundo de cabeça. – Perdoe-me a senhorita, agora, mas notei-a bastante... além... nestes últimos dias. Alguma coisa em que eu possa ajudar? Algum fardo que precise passar adiante?

Elizabeth se remexeu um pouco contra o estofado de sua cadeira, fugindo do estudo profundo daqueles olhos verdes para o conteúdo de sua mesa. Livros de contas abertos em páginas de divisão de soldos, mapas com traçados por fazer e outros de aparência mais envelhecida, globos em fundo preto, escritos em uma caligrafia pequena e elegante. Um suspiro lhe escapando por entre os lábios, logo levados à taça, enquanto refletia o que fazer a seguir... Antonieta era uma estranha. Provavelmente, uma vez concluída a viagem até Singapura, elas nunca mais se veriam... que mal haveria em fazer dela o seu confessor?

— Embora imagine que a senhorita possa considerar o Capitão Barbossa como a figura a quem deva responder por suas ações, saiba que isto não afasta o fato de que, estando em meu navio, é meu dever prezar pelo seu bem-estar. – explicou Antonieta, sua voz calma embalando os demônios de Elizabeth para mais perto de si, mesmo desconhecendo-os. – E, certamente, o que quer que seja dito aqui...

— Mesmo que altere consideravelmente o motivo desta viagem? Que venha a revelar que... que é um empecilho criado por mim e incitado por mim para tentar me redimir? Que a sua tripulação não estaria correndo esse risco... – a mão de Antonieta se ergueu resoluta e Elizabeth assustou-se com a falta de censura que encontrou em seus olhos.

— Minha guerra é dupla, senhorita Swann. – disse simplesmente. – Os maiores nomes do mundo – ou o que restou deles – vão se reunir, o que imagino que venha a ser uma experiência enriquecedora para a senhorita – se meu palpite sobre você estiver certo e acredito que está – e quando esta batalha acabar, outra me espera a léguas daqui. O chamado, ao qual eu teria que responder de qualquer forma, não foi seu... então, ao que parece, está colocando sobre seus ombros o peso de uma...

— Eu matei Jack Sparrow. – interpôs Elizabeth rapidamente, encarando-a sem saber qual emoção expressar, mas seu rosto revolvia-se com culpa. Antonieta se remexeu imperceptivelmente em sua cadeira, afastando a taça de suas mãos. – Estávamos com o monstro de Davy Jones em nosso encalço. Era a única maneira de pará-lo e garantir que o restante da tripulação sobrevivesse. – acrescentou engolindo as lágrimas que escorriam de seus olhos. A Barbieri sorriu compadecida, enxergando por trás delas.

— Foi sua primeira traição. – compreendeu gentilmente. Os olhos da outra se fecharam com força. – E ele era seu amigo. – disse reprimindo uma risada... o quanto já esteve na pele daquela criança?

— Jack não pareceu surpreso, apesar de tudo. – continuou Elizabeth, largando a taça sobre a mesa ao lado da de Mia. – Na verdade, ele me soou orgulhoso...

— Quais as últimas palavras dele a você?

— Ele me chamou de pirata. – e Elizabeth não conseguia esquecer o brilho em seus olhos ao fazê-lo. Antonieta assentiu, sorrindo de lado, chegando a algumas conclusões.

— Se me diz que era a única chance, acredito. – disse simplesmente. – E se Jack Sparrow enxergou um pouco de si mesmo em você antes de partir, não é algo para se culpar. Infelizmente, como bem pontuado por suas últimas palavras, é parte do conjunto... – ponderou solenemente. Elizabeth riu com escárnio.

— Eles não mencionam isso nas histórias. – murmurou tornando a sorver um gole de sua taça. O rosto de Antonieta ficou duro, de repente, assustando-a um pouco.

— Também não mencionam as mulheres, e o pirata mais bem-sucedido que eu conheço é uma mulher. Tampouco deixam espaço para nossas famílias, os amigos que perdemos ao longo do caminho e como nossas escolhas impossíveis nos afetam, até que tenhamos que passar por cima delas, como no seu caso, para continuar vivendo. – falou sombriamente, deixando sua convidada desconfortável. – Eles preferem nos transformar em monstros e nos abrigar a todos no inferno, floreando as histórias para aquilo que gera o medo do carrasco, diverte a mente entediada de um nobre e enaltece o espírito de um homem quebrado pelo peso do chicote. – parou para beber o resto do conteúdo de sua taça com violência, puro amargor em sua voz. No entanto, ao tornar a olhá-la, seus olhos exprimiam grave compaixão. – Não, senhorita Swann. Nada do que eles disseram conseguiria preparar uma jovem de Port Royal para a realidade... e eu lamento que tenha sido assim. – concluiu com candura, silenciando-a.

Se Jack Sparrow enxergou um pouco de si mesmo em você”. Contrariando todas as probabilidades, aquelas palavras trouxeram um pouco de conforto para o coração abatido da jovem; verdadeiras sem que Antonieta precisasse acompanhar tudo o que passara com o finado capitão para escolhê-las. Todo o transcorrer desde o seu salvamento na baía de Port Royal até aquela última troca antes de deixá-lo para seu carrasco, levou-os para o momento em que Elizabeth deveria fazer aquela escolha. Seguir o instinto de um pirata. Jack não a perdoaria levianamente, tampouco a respeitaria menos ou a desconsideraria uma amiga quando lhe conviesse, porque sempre foi assim com ele. Sua culpa não servia a ninguém e a falta dela apenas denotava um aprendizado.

Aquele ainda era um novo mundo no qual carecia de encontrar seu lugar, visto que destruíra todas as chances de um retorno ilibado para casa; visto que não sabia o que a esperava lá ou se voltaria após aquela viagem.

— Imagino que não tenha falado a respeito com o mestre Turner. – observou Mia quebrando o silêncio.

— Não... Will não entenderia. – ela se resumiu a dizer.

— Ou existam outros detalhes a serem analisados, mas que não me dizem respeito, então me absterei. – sugeriu Antonieta erguendo-se para devolver as taças vazias ao aparador. – Já cruzei linhas o suficiente... – acrescentou murmurando.

— Com Barbossa? – inquiriu Elizabeth, séria. A capitã virou-se para encará-la, num misto de surpresa e diversão. – Perguntei a ele a seu respeito, mas ele se recusou a falar... ele também enxergou um pouco de si mesmo em você? – Antonieta riu ruidosamente e Elizabeth se sentiu compelida a acompanhá-la, seu riso contagiando-a.

— Ora, ora, senhorita Swann; bem, se Hector fez boca de siri a meu respeito, não vou arriscar a civilidade quebradiça a que chegamos traindo seu desejo. – rebateu secando as lágrimas que se formaram em seus olhos.

— Mas vocês foram amantes. – deduziu Elizabeth, levantando-se também. Sua audiência chegava ao fim. Antonieta suspirou, sorrindo alegremente.

— Recordo-me de cenas que a deixariam enrubescida, sim, contudo não posso generalizar desta forma. – cedeu dando de ombros. – Nunca é tão simples, é?

— Não. – concordou lembrando-se de sua própria situação. – Não é. – Antonieta assentiu, pensativa.

— Bem, senhorita Swann, espero que seu período no Stella se prove um estudo bastante enriquecedor. – concluiu esticando o braço para apertar a mão dela, ao que Lizzie aquiesceu. – E obrigada pela inestimável ajuda mais cedo. – agradeceu gentilmente.

— Obrigada pelo vinho. – Lizzie agradeceu de volta com um sorriso malicioso que a agradecia por tudo, menos a bebida. – Nota-se porque eles gostam de você. – acrescentou, recebendo um muxoxo desacreditado em resposta.

— Sabe lutar? – perguntou de repente. Elizabeth hesitou por um momento.

— Will começou a me ensinar, mas...

— Ah, não se preocupe, como disse, espero que este seja um período de aprendizado para você.

Ao deque, o grupo se reorganizava para terminar as tarefas interrompidas com a aparição repentina da marinha. Antonieta tocou o ombro de Elizabeth de forma a encorajá-la, silenciosamente, a abandonar seus demônios, visto que culpa àquele estágio tornar-se-ia algo deveras relativo, e tomou o caminho para o tombadilho a fim de congratular seu irmão em seu raciocínio. Alberto aceitou o elogio com um sorriso travesso, tecendo comentário a respeito de ocorridos antigos quando Antonieta e ele ainda eram crianças, fugindo das punições de seus pais.

— Você deu a ele a nossa localização, possibilitando que nos rastreiem pelos próximos meses e isso é motivo para orgulho? – desdenhou Barbossa de braços cruzados encarando os dois irmãos. Antonieta sustentou seu olhar primeiro, virando-se para Berto num pedido silencioso para que não interferisse.

— Hector, cuidado, essa veia na sua testa pode estourar a qualquer momento. – disse com um sorriso malicioso, indo para o parapeito do tombadilho. Todos olharam para ela analisando seu semblante inabalado. – Por certo, esta é uma maneira de enxergar as consequências dos acontecimentos de hoje, mas permita-me dividir o quadro que eu antevi ao elaborar meu estratagema. – seguiu projetando sua voz contra o som do vento. – Eles nos atacam e nós, como todos gostariam, os derrotamos; afundamos o navio. Em mais algumas semanas, Beckett seria avisado de que uma galé italiana hostil está a caminho de Singapura. Consequência? Três navios em nosso encalço, talvez o próprio Holandês? – Sofia e Diana trocaram olhares, considerando seu raciocínio, percebendo que os outros faziam o mesmo, entendendo onde Mia pretendia chegar. – Agora, nós omitimos parte da verdade e criamos um disfarce. Se esse tal Ford chegar a comentar sobre isso com Beckett – se é que possui alguma relação de confiança com ele, o que duvido muito já que ele não reconheceu o nome Barbieri – seremos tachados apenas como um grupo que ingenuamente acreditou em excesso na sua mentira. Não é uma ameaça. Um navio em nosso encalço, sem nenhuma noção dos nossos números.

— O anonimato nunca foi uma opção, – observou Sofia, interrompendo-a, recebendo a atenção de todos. – Apenas a chance de ganharmos mais tempo para nos preparar.

— Exatamente. – anuiu Mia, olhando de soslaio para Barbossa que insistiu em revirar os olhos, desacreditado. – Enquanto puder poupar as vidas de vocês, eu vou. – seus olhos encontraram Carlo e Cínzia entre a multidão. Os gêmeos, na condição de cirurgiões, reconheciam o valor de uma vida a ser poupada e assentiram em respeito a suas intenções. O sorriso da capitã se alargou alguns centímetros. – Olívia...

— Sei, sei, Beatrice e eu teremos muito trabalho pela frente. – resmungou a morena trocando um sorriso assassino com sua assistente que o retribuiu. – Arrancar a ferrugem do couro destes cães desgraçados! – exclamou sendo vaiada.

— Na verdade, Liv, eu tinha um pedido especial para te fazer. – interpôs a capitã, risonha. A mestra de armas acenou para que ela falasse. – A senhorita Swann é uma jovem Lady de Port Royal e foi incorrigivelmente seduzida pelo nosso estilo de vida; uma entusiasta, eu diria. – começou apontando para Elizabeth, que se sentiu desconfortável com a atenção de todos. – No entanto, seu treinamento foi negligenciado nos últimos meses... e ela precisa de uma professora.

— Por que não você? – sugeriu Olívia, maliciosa.

— Imaginei que gostaria de ter sua vez com ela, passar por toda a tripulação e depois... por Diana, Sofia e eu. – respondeu com um brilho maligno nos olhos que fez a morena gargalhar. – Ou talvez seja demais...

— Foi assim comigo quando entrei. – lembrou-a Cínzia dando de ombros.

— E suponho que eu deva vencer? – cortou Elizabeth, arqueando as sobrancelhas com um sorriso orgulhoso, lembrando-se da Ilha das Cruzes.

— Nós supomos que você deva trapacear. – disse Olívia, dirigindo um olhar malicioso à tripulação; todos riram. – Agora? – voltou-se para Mia que assentiu, displicente. A morena fitou a espada que a loira trazia em seu cinto, dando de ombros ao desembainhar a sua. – Me mostre o que sabe. Sem cortes, capitã?

— Ela ainda é jovem, deixe que seja bonita por um pouco mais de tempo. – brincou Antonieta com as mãos apoiadas nos quadris.

Rindo, Olívia iniciou seu ataque mirando no centro de apoio de Elizabeth, que a bloqueou a tempo em meio a um suspiro assombrado. A capitã assistia-as de sua posição, revezando-se entre olhá-las e acompanhar as reações do mestre Turner; sem que lhe sobrassem mais quaisquer dúvidas quanto ao relacionamento de ambos. Will as seguia com preocupação apaixonada, esquecendo-se por um instante da traição de Elizabeth e a Barbieri sorriu consigo mesma, imaginando o tipo de treinamento que dera a ela; com certeza menos veemente, se comparado a Olívia. A morena não apadrinhava aqueles que se submetiam ao seu regime e a senhorita Swann aprenderia muito com ela. A importância de manter a mente limpa para os reflexos precisos, mais ligeiros.

Sua mãe gostava de gritar com ela durante os duelos a fim de provocar suas emoções e, por muito tempo, isso a manteve vários passos mais próxima do chão. Dentre as três, Diana era de longe a melhor espadachim, vez que ambidestra, conseguia brincar com os reflexos de qualquer marujo que nunca sabiam se deveriam iniciar o ataque pela esquerda ou pela direita. Antonieta mantinha sua esquerda firme por tempo suficiente, mas distante da leveza de sua irmã, preferira incrementar a fluidez de seus pés. Tratava cada duelo como uma dança diferente e, de cabeça limpa, manejava quantos homens fossem necessários enfrentar. Elizabeth Swann era forte e rápida, mas o tempo a impedia de movimentar-se com segurança e a deixavam na defensiva, facilitando o próximo golpe de Olívia contra seu braço. Antonieta virou o rosto, soltando ar pela boca e acabou encontrando o olhar taciturno de Barbossa sobre o duelo.

Ele as julgaria, é claro. Com a alta opinião que detinha de suas habilidades, certamente responsáveis por mantê-lo vivo e no poder por tantos anos. Além daquela que possuía em ler as pessoas e usar suas emoções contra elas, como usara contra ela. Um desejo lancinante, então, apossou-se da Barbieri, ao passo que caminhava para o lado dele.

— Revanche. – murmurou brandamente. Os olhos de Barbossa recaíram sobre ela, ao passo que um sorriso pretencioso lhe subia pelos lábios, mas ele fingiu ignorá-la. – Uma pequena dança só nossa, Hector, como nos velhos tempos... aquele instante de paz, com a mente limpa e os objetivos claros, sem que nada mais importe além da chance de ver o outro no chão. – insistiu maliciosamente, piscando audaciosa para ele. Barbossa riu pelo nariz, balançando a cabeça.

— E a minha alma mandada de volta para o inferno assim que a minha lâmina fizer o primeiro corte. – troçou ele, ao passo que ela desembainhava a própria espada, forçando-a contra o pescoço dele num movimento imprevisto que o teria matado, caso fosse a intenção dela.

— Se eu deixar. – sussurrou, provocando-o com malícia, abaixando a espada lentamente contra o cabo da dele, tocando-a de leve com a sua lâmina. O próprio riso malicioso de Barbossa seguiu-se e com a mesma agilidade dela, desembainhou a espada cortando o ar até o rosto de Antonieta, que o bloqueou com uma força da qual ele não se lembrava, num encontro ruidoso de lâminas que chamou a atenção dos tripulantes que acompanhavam o duelo de Olívia e Elizabeth.

Estas abriram espaço para a nova dupla que cruzava as escadas com proficiência, o aço trocando muitas das palavras que eles não mais perderiam tempo em proferir. Os homens do Pérola encaravam Barbossa, enquanto Diana, Sofia e Alberto assistiam ao desempenho de Mia. No primeiro grupo, às mentes de Will e Elizabeth brincavam as lembranças concernentes à mesma noite: o duelo entre Jack e seu primeiro imediato; como o segundo pretensiosamente transparecia toda a frustração e raiva que, por mais anos do que o casal tinha conhecimento, nutriu pelo Capitão Sparrow. Contra Antonieta, todavia, sua expressão era muito mais branda, embora em seus olhos cintilasse algo sombrio. Ele a atacava de maneira a aproximar seu corpo cada vez mais do dela, ao que sua oponente usava sua diferença de altura para afastar-se e acertá-lo em ângulos mais fechados. Na opinião de Mia, que sorria languidamente, ou o período de morte o enferrujara ou ele estava facilitando de propósito... e isso dificilmente renderia a revanche ansiada por ela.

Tomando impulso, a Barbieri cortou pelo meio, usando o punhal da espada e a força de sua mão para acertá-lo no nariz. À visão de sangue, murmúrios cresceram entre os tripulantes que aguardaram ansiosos pela reação do capitão. Este ergueu sua mão esquerda até as narinas molhadas, enquanto Antonieta crispava os lábios em despeito, preparando-se para o contra-ataque dele. Sentindo a frustração emanando dela por um sentimento que compartilhava – tampouco ele gostaria de uma luta fácil –, escolheu por ater-se ao fato de que aquela senhorita Barbieri estava longe de possuir a mesma técnica mediana daquela a quem seus crimes de fato ofendiam. Logo, voltou a atacá-la por cima, usando sua altura para forçá-la a retrair-se ao chão. Contudo, a mulher havia crescido orgulhosa demais e seu próximo movimento lhe elucidou o motivo para insistir naquele teatro – não mais teatral, tão logo executou-o. Recusando retrair-se, ela se forçou para o meio, suas espadas cortando o ar sobre suas cabeças, ao passo que aproximou seu rosto do dele num gesto tão sedutor em sua veemência, suficiente para pará-lo por um segundo.

Barbossa viu, engolindo em seco. Ela sustentava o peso de seu olhar com o rosto inclinado para beijá-lo, sem fazê-lo – sua respiração um pouco ofegante, olhos verdes desafiando os azuis – deixando claro para ele, num súbito de esclarecimento e revolta, que o tempo em que não teria problemas para machucar Antonieta Barbieri havia passado. Revanche, afinal. Ela o tinha onde ele a tivera anos antes, fazendo-o entender a baixeza infantil que tanto a humilhara no passado. Interrompendo o que já se prolongava além do necessário, ele a empurrou para o lado, baixando sua lâmina contra a perna dela, que tornou a bloqueá-lo com vitalidade renovada, percebendo ter atingido seu objetivo. Mia gritou, girando muito rápido ao passo que continuava a golpeá-lo com energia. Elizabeth seguia o movimento de seus pés – tanto os dela quanto os dele – movendo-se em perfeito sincronismo pelo centro do deque até que ambas as lâminas se juntaram a milímetros dos pescoços um do outro, que respiravam ruidosamente.

— Você melhorou. – consentiu Hector abaixando a espada, sua voz desdenhosa contrariada pelo brilho presente nos olhos muito azuis.

— E você quase me desapontou. – Mia rebateu, embainhando a sua. – Mas sim, continua bom, Hector. Devo me desculpar pelo nariz? – inquiriu risonha, fazendo Barbossa emitir um ruído rouco de zombaria. Ela riu. – Cínzia...

— “Poderia por gentileza se responsabilizar pelos meus excessos?” – remedou a cirurgiã revirando os olhos, erguendo um sorriso inocente nos lábios de Mia. – Venha comigo, capitão. – disse acenando para que ele a seguisse para a cozinha.

— Bem, continuem. – disse Antonieta ajeitando seu coque, trocando um sorriso significativo com Elizabeth. “Ele também enxergou um pouco de si mesmo em você?” Não mais do que ela se enxergara nele um dia.

Notas finais
Se existe um detalhe que redimi os vários erros cometidos pela trilogia de Piratas do Caribe para mim - tirando a Maldição do Pérola Negra, aquele filme é MARA - é o desenvolvimento da senhorita Swann. Lady, pirata, Lord e Rei. MY LITTLE GIRL!! Então, é óbvio que eu ia usar a Mia de alguma forma a contribuir com esse crescimento da Lizzie e este foi apenas o "primeiro contato", mais a frente começamos umas discussões que considero AMOR DEMAIS e envolvem a relação yoda/Luke father/daughter que indiscutivelmente Barbossa e Elizabeth desenvolveram de certa forma - I defend this till death! Espero que o duelo tenha sido satisfatório (?) Prometo melhorar com o tempo. Estou de olho nos leitores fantasmas, nos favoritantes que ainda não me deram olá, e em todos vocês amiguinhos!! Nos encontramos - espero - nos reviews!! Um beijoooo!!!