DEPOIS QUE SERENA e Bucky terminaram de se refastelar com suas panquecas — modéstia à parte, impecáveis —, ele não podia deixar de pensar em como era estranho ver alguém se preocupar tanto com a sua saúde e bem-estar.

Em geral, as pessoas assumiam que por ele ser um super soldado, automaticamente, seria imune a todo tipo de doença — assim como acreditavam que era incapaz de sentir dor, frio, calor entre outras coisas que a maior parte dos seres humanos sentiam.

O que, é claro, não era mentira. Sua resistência, de fato, era muito maior em comparação a de um homem comum de sua idade, mas... até que era bom ter por perto alguém que não o enxergava como se fosse um maldito robô, alguém que realmente se importava com sua integridade física.

Alguém como Serena.

Ele a observava de esguelha enquanto, graciosamente, secava o último prato — só havia dois, na verdade — e o estendia à Bucky, que por sua vez, os guardava na prateleira de cima. Em suas pernas, Alpine circulava, curiosa com a movimentação incomum.

Pareciam até um daqueles casais recém-casados, se alternando entre tarefas domésticas enquanto conversavam, pensou ele.

Por alguma razão, o pensamento fez algo dentro dele se aquecer.

Serena usava uma camiseta branca e larga que cobria a bermuda preta justa e que o convidava a olhar para aquelas coxas torneadas de ginasta. Nos pés, jaziam os inseparáveis sapatos de palhaço, e o cabelo — preso de forma desajeitada no topo da cabeça — era mantido com um dos prendedores que encontrara dentro daquela maleta enorme.

Bucky sorriu. Embora não estivesse tão arrumada quanto na noite anterior, Serena continuava sendo a mulher mais deslumbrante que tinha visto.

E, foi naquele instante que percebeu: queria vê-la daquele jeito mais vezes. Na verdade, gostaria de vê-la sempre. Pela manhã. Pela noite. Em todos os momentos.

Arg, quando tinha se tornado tão brega e sentimental?

Quase podia ouvir a voz dela chamando-o de velho.

— E... terminamos — Serena cantarolou quando Bucky fechou o armário — foi mais fácil do que imaginei que seria.

Ele se concentrou no som da voz dela.

— Ah é, e por quê?

— Bem, sozinha leva mais tempo. E as prateleiras...

— São muito altas para você, coisinha? — arriscou ele, lembrando-se da forma que tinha pulado feito um coelho de cima da cadeira, momentos antes.

— Vai se foder, sargento — e jogou o pano de prato que estava segurando no peito dele.

Ele fez uma careta.

— Aí.

Serena revirou os olhos e balbuciou um palavrão enquanto caminhava até a ilha de mármore.

— Acho melhor voltar para casa — ela murmurou ao parar do lado dele e encarar o relógio que ficava na parede oposta — está ficando tarde.

Ele sentiu algo dentro dele se contraindo.

Tinham passado um tempo considerável juntos, quase a noite toda, mas ainda não estava pronto para se despedir. Brega, pensou.

Brega pra caralho.

— Achei que não tivesse de ir trabalhar amanhã — Bucky comentou, como quem não quer nada.

— Não tenho.

— Então por que a pressa?

Serena ergueu o olhar com um brilho diferente nos olhos. Um brilho aconchegante e que ele não compreendia direito, mas era como se tivesse gostado do que ele havia dito.

— Acho que já o incomodei demais por um único dia — ela então respondeu, receosa.

— Você não é um incômodo, Serena — ele rebateu de imediato.

Os lábios dela se curvaram para cima.

— Cuidado, sargento. Se continuar falando assim, vou pensar que me quer por perto.

Havia uma provocação implícita em sua voz e no sorriso mordaz estampado em seus lábios, algo que o convidava a se aproximar.

Foi o que ele fez.

Bucky deu um passo para frente e respondeu:

— Se eu quisesse — o sargento sondou, ousando apoiar uma de suas mãos no rosto dela — o que você acharia?

O coração de Serena acelerou.

De leve, mas ele percebeu mesmo assim. Era um dos poucos momentos em que agradecia pelos sentidos aguçados, saber exatamente o efeito que estava causando nas pessoas ao seu redor. Nela, em especial.

Mas, como a coisinha impertinente que era, Serena ergueu o queixo para cima e o olhou nos olhos, dizendo:

— Neste caso, eu não me importaria em ficar mais um pouco.

Aquilo bastou para que ele se inclinasse mais um pouco na direção de seu rosto, ao ponto das testas quase se encontrarem. Quase. Bucky inspirou. Sentia o cheiro, o calor da pele, ouvia as batidas de seu coração ressoando e...

Porra, queria beijá-la. Queria muito.

Bucky esperou que Serena recuasse ou demonstrasse algum grau de desconforto com a proximidade, mas ela não fez nada. Ao invés disso, o encarou, como se ansiasse por alguma atitude da parte dele. E, quando ela correu os dedos por cima do avental ridículo, se demorando na linha do peito, teve a confirmação de que queria aquilo tanto quanto ele.

— Serena, eu...

O sargento se interrompeu.

O que diria? Que precisava beijá-la tanto quanto precisava respirar, que estava a um passo de implorar para que ela o tocasse?

E o que viria depois? Que tipo de futuro poderiam construir?

Bucky pensou se deveria perguntar sobre como fariam aquilo funcionar. O quanto seria possível para ele mantê-la por perto em segurança. Explicar o que significaria para ela fazer parte daquele mundo, por que, quando a tocasse, não teria volta, ele sabia.

E, merda, fazia tanto tempo desde a última vez que havia tocado em alguém daquela forma, quase uma vida. Talvez fosse estranho, quase ridículo, que um homem da idade dele tivesse passado tanto tempo sem sexo.

Mas não havia nada o que pudesse ser feito a respeito.

Depois de Washington, Bucky passou um tempo considerável fugindo e se escondendo — tanto da Hidra quanto de Steve —, não seria burro ao ponto de estragar seu disfarce por tesão acumulado.

Depois de Bucareste e Zemo, passara alguns anos em Wakanda — parte congelado, parte em terapia — com Ayo, Shuri e T'Challa. Sequer sentira vontade de transar naquela época, cansado e traumatizado demais para tocar em alguém.

Aí ele se encontrou com Steve, Thanos apareceu, cinco anos se passaram e... voltou para o Brooklyn, passou por funerais, julgamentos, mudanças constantes, terapia compulsória, noites varadas prendendo antigos peões da Hidra e — tentando, pelo menos — se redimir por seus crimes.

Fazia sentido que, no meio daquele pandemônio, tivesse desistido de qualquer coisa relacionada a sexo.

Havia tido um ou dois encontros durante aquele meio tempo?

Sim, é claro. Estava velho, não morto.

Mas nunca avançara com ninguém ao ponto de cogitar uma transa.

A bem da verdade, mal se lembrava da sensação de beijar ou se relacionar intimamente com outro ser humano, as lembranças do corpo liberando dopamina após o sexo mal passando de retalhos em sua mente.

Bucky então olhou para Serena, com um pouco mais de um metro e meio e que — sendo muito generoso — deveria pesar uns cinquenta quilos. Seria como tocar em uma boneca de porcelana.

Teria de ir devagar e, mesmo assim, era bem provável que aquela fosse experiência horrível para ela — não que estivesse esperando que fossem transar, para começo de conversa. Mesmo assim...

— Bucky — Serena ciciou, a mão espalmada sobre o coração dele — eu quero — quero que me beije, ela não precisou completar.

Ele arfou. Ela queria também.

Bucky se aproximou um pouco mais.

E parou.

Mas e se aquilo evoluísse? E se perdesse o controle de sua força? E se acabasse machucando-a? E se...

— Bucky — ela o chamou de novo — não sou feita de vidro, não vou me partir quando você me tocar.

O sargento piscou. Era quase como se tivesse lido a mente dele.

— Eu sei, mas...

Serena colocou a mão na boca dele, o interrompendo.

— Super força de super soldado, metabolismo acelerado e tudo mais — completou por ele, enfática — eu sei disso tudo.

Ela então tirou a mão dali e correu até a nuca dele, como se buscasse por apoio e completou:

— Não estou com medo, confio em você e tenho cem por cento de certeza de que não vai me machucar. Apenas... tente.

O sargento sentiu o próprio coração batendo mais rápido pelas palavras dela.

Serena confiava mais em Bucky do que ele mesmo.

— Mas — ela continuou falando — se o faz se sentir melhor, prometo que aviso se fizer alguma coisa que me deixe desconfortável.

— Promete? — ele sussurrou, os lábios terrivelmente próximos aos dela.

Ela aquiesceu.

E o beijou.

Bucky não esperava que Serena tomasse a iniciativa, mas aquilo não o surpreendia nem um pouco. Aquela era ela: destemida, impaciente e sem um pingo de bom-senso.

Aquilo tudo fazia Serena Valente ser quem era e era por isso que ele a amava.

Amava. Bucky amava aquela mulher, não restava dúvidas quanto aquilo.

E enquanto ela explorava a boca dele de forma lasciva, na ponta dos pés — porque Serena mal batia no queixo dele — estava convencido de que nunca mais a soltaria.

E seu beijo... puta merda, ele queria poder morar naquele beijo.

Ela tinha gosto de frutas vermelhas, chocolate e aconchego.

Tudo nela, desde o cheiro do perfume, os toques cálidos o gosto da boca... tudo aquilo era estranhamente familiar — apesar de aquela ser a primeira vez que a provava. Era como se, depois de setenta longos anos, ele estivesse em casa.

Bucky então correu as mãos — a de carne e a de vibranium — até as coxas torneadas e as espalmou, erguendo o corpo miúdo e grácil até que ficasse em uma altura confortável e aprofundou o beijo.

O sargento sentiu o corpo ferver.

Tinha pensado algumas vezes — muitas, na verdade — sobre qual seria a sensação de beijá-la, mas nem suas fantasias mais obscenas sequer se aproximavam daquilo.

O toque de Serena era ávido e ao mesmo tempo suave, como quisesse entender como ele funcionava. Ela era desavergonhada, curiosa e agia de acordo com as reações dele: se Bucky grunhia porque havia tocado em um ponto particularmente sensível dos ombros, recuava; se ele arfava porque ela tinha arranhado a nuca dele um jeito que o tinha deixado excitado pra cacete, dava um daqueles sorrisinhos implacáveis e continuava provocando-o.

Naquele ritmo, pensou ele, acabaria tendo um orgasmo antes mesmo de tirar a roupa.

— Sargento... — ela suspirou quando Bucky apertou as coxas dela.

Ele retesou.

— Doeu?

Serena, contudo, deu uma risada devassa.

— Deus, não. Só... continue, por favor.

Ele acenou com a cabeça e apoiou as costas dela delicadamente contra a parede. Serena por sua vez, enroscou as pernas na cintura dele, enquanto o encarava.

Seu peito subia e descia rápido, as bochechas estavam coradas e os lábios levemente inchados por causa do beijo. Porra, ela era perfeita.

Desta vez, Bucky decidiu que assumiria as rédeas da situação.

Capturou os lábios dela e aprofundou o beijo aos poucos, saboreando e explorando todo canto possível da boca dela, enquanto se deleitava com cada arfada e gemido que lhe escapava do fundo da garganta, conforme apertava suas coxas com um pouco mais de força.

Serena sussurrava o nome dele feito uma prece.

Seus clamores, contudo, se perdiam a cada vez que a boca dele se chocava contra a dela, iniciando um novo beijo, mais fervoroso que o anterior.

Àquela altura, Bucky estava tão rígido e latejante que chegava a ser constrangedor. Uma parte dele gostaria de tirar até a última peça de roupa e tomá-la ali mesmo contra a parede, mas sabia que Serena merecia muito mais que uma transa rápida e desajeitada de um cara que não sentia o toque de outro ser humano há eras.

Não. Faria aquilo devagar; faria com que ela aproveitasse cada segundo enquanto estivesse com ele.

— Serena — Bucky sussurrou contra o pescoço dela, usando de todo seu autocontrole para não deixar uma marca naquela pele alva e deliciosa — não sei se é uma boa ideia continuarmos — aqui, ele deveria ter completado.

Antes que pudesse se retratar, no entanto, o corpo dela tensionou.

— Fiz algo de errado?

— Não, é claro que não — tudo que ela tinha feito até então era certo, tão certo que... merda — mas, se isso continuar, vamos acabar...

— Na sua cama? — ela completou por ele, inclinando a cabeça — não sei quanto a você, mas eu estou contando com isso.

Ele arfou. Porra. Às vezes se esquecia de que não estava mais na década de quarenta.

— Eu... eu só não quero que pense que eu estou me aproveitando de você.

Serena piscou.

Respirou fundo.

E riu. Maldita fosse.

— Esqueça o que eu acabei de dizer — ele resmungou, desviando o olhar.

— Desculpa — disse ela, entre risadinhas — eu não deveria rir disso, é babaquisse. Mas é tão...

— Coisa de velho?

— Atencioso — ela corrigiu, segurando o queixo dele — tinha me esquecido de que não havia sexo antes do casamento no seu tempo. Não para as mulheres, pelo menos.

Ele queria poder discordar, mas não podia.

Embora não fosse uma regra estrita — o próprio Bucky tinha perdido a virgindade aos dezoito, com uma garota que sequer lembrava o nome àquela altura — a sociedade era brutal com as mulheres naquela época.

Uma jovem solteira como Serena jamais poderia ser vista se esgueirando para o apartamento de um vizinho sem ter a reputação manchada pelo resto da vida.

Mas não era por aquele motivo que estava preocupado.

— Se o tranquiliza— ela emendou, com um olhar mordaz — você não precisa casar comigo porque a gente está se pegando.

Bucky torceu o nariz.

Serena estava fazendo piada. Arg, por que aquilo não o surpreendia?

— Eu sei disso — grunhiu — não sou tão velho assim, coisinha.

Ela ignorou o comentário dele.

— Olha — disse — embora estejamos em pleno século vinte e um e o mundo seja só um pouquinho menos hipócrita em relação aos anos quarenta, não significa que não exista conservadorismo hoje em dia. Quero dizer, fofocas sempre vão existir — Serena tocou no maxilar dele — mas não tem por que queimar seus circuitos por causa disso. Não me importo com essas coisas e posso mandar qualquer um à merda, se necessário.

— O que eu quis dizer — Bucky esclareceu, quando conseguiu se recompor do discurso dela — é que não tenho a intenção de que isso seja... qual a palavra?

— Sexo casual? — ela arriscou, mordendo os lábios — ou prefere chamar de amizade colorida? Ambas funcionam.

Ele arfou. Brutalmente direta. Também não era muito acostumado com parceiras que falavam de sexo sem usar eufemismos e floreios. Era um pouco desconcertante.

— É — gemeu.

Santo Deus, Serena o mataria daquele jeito.

— Bucky, ouça — pela primeira vez a voz dela soara firme, sem piadinhas ou humor ácido — é uma graça que se importe comigo, é sério. Mas você precisa entender uma coisa: eu sou o tipo de pessoa que precisa de um certo grau de convivência ou intimidade antes do sexo senão a coisa não funciona. Só que isso não significa que eu esteja esperando alguma coisa de você. Somos dois adultos e queremos transar. Ponto. Não tem que ser nada mais do que isso.

Ele apertou os olhos.

— E se eu quiser que seja algo a mais?

— O quê?

— Quero fazer as coisas do jeito certo com você, Serena — Bucky entoou, olhando-a nos olhos — não estou dizendo para se casar comigo agora, mas não quero que seja sexo casual. O que temos não é casual, não para mim.

Desta vez, quem arfou foi Serena.

— Bucky...

— Mas, se não quiser, eu vou entender e respeitar sua escolha.

Os olhos dela brilharam.

— Que tal se fossemos por partes? — Ela sugeriu — não quero que você confunda as coisas.

Ele estreitou os olhos. O que diabos aquilo queria dizer? Por que Serena tinha que complicar tanto as coisas?

— Não estou confuso. Eu quero você, sua coisinha teimosa.

Mas Serena balançou a cabeça.

— Eu também quero você Bucky — ela respondeu, a voz baixa — mas quero que entenda que as coisas mudaram. Não sou uma virgem inocente. E, mesmo que a gente transe, absolutamente tudo que fizermos daqui pra frente é porque eu quero e estou consentindo. Ninguém vai me apedrejar em praça pública por isso.

— Serena.

Ela o interrompeu de novo.

— Independentemente do que sinto e do que acontecer, você não me deve nada. Nada mesmo. Entende o que estou tentando dizer? Os tempos mudaram e...

Ele parou de ouvir.

Ela..., ela... sentia algo por ele?

Que merda aquilo significava naquele século?

— Bucky — Serena o chamou, o olhar vacilando — entendeu o que eu acabei de falar? Nada de casamentos ou merdas do século passado, ok? Amo você, mas isso aqui não é um romance de época da Netflix.

Amo você.

Amo você.

Amo você.

O mundo parecia ter desacelerado.

— Você... me ama? — Ele ciciou.

O rosto dela ficou vermelho.

— Isso foi tudo que ouviu? — a coisinha grunhiu.

— Responda — exigiu.

Serena, relutantemente, fez que sim com a cabeça.

Ele sentiu o peito inflar. Aquilo... aquilo mudava tudo.

— Diga. Por favor.

Era constrangedor que estivesse praticamente implorando aquilo a ela, mas, pela primeira vez em décadas, alguma coisa realmente boa parecia estar acontecendo em sua vida desnecessariamente longa e amaldiçoada.

Bucky precisava ouvir aquilo da boca dela, queria ter certeza de que não tinha entendido errado.

Houve uma pausa.

Serena o olhou no fundo dos olhos de novo, mas era como estivesse olhando dentro de sua alma. E, no meio de todo aquele caos e escuridão, aquela coisinha tinha enxergado alguma coisa, algo que nem ele tinha encontrado até então.

Seu coração.

— Eu gosto muito de você, sargento — ciciou ela, encostando os lábios na ponta do nariz dele em um beijo pudico — gosto das suas covinhas; gosto da sua careta emburrada; gosto das nossas conversas; gosto da forma que você me olha, como se eu fosse capaz de fazer qualquer coisa; mais do que isso, gosto da sua força e resiliência. Gosto de tudo em você — ela respirou fundo — então sim, pode-se dizer que eu te amo.

Eu te amo.

Bucky piscou.

— Mas não se fique se vangloriando por causa disso — Serena completou, desviando o olhar.

Ele estremeceu.

Não se considerava como um homem emotivo.

Se lembrava de ter chorado duas vezes em toda sua vida. A primeira, no funeral de seu pai, quando era novo demais para controlar as próprias emoções; a segunda havia sido em Wakanda, quando Ayo decretara que estava livre da Hidra e do Soldado Invernal e a emoção tinha sido forte demais para suportar.

Naquele instante, contudo, depois de ouvir as palavras que tinham acabado de sair da boca dela, ele sentiu uma única lágrima escorrendo de seus olhos.

Alguém o amava de verdade.

Aquela coisinha que tinha o coração do tamanho do mundo o havia escolhido e aquilo mudava tudo. Então, talvez ele poderia se dar ao luxo de tê-la do jeito que desejava, parecia até um sonho.

E, mesmo sendo de mundos completamente diferentes; mesmo que a alma dela fosse tão pura e brilhante quanto raios de sol e o coração dele estivesse endurecido por décadas de escuridão e sangue, faria aquilo funcionar. Ele seria o porto seguro dela.

Ela o amava e Bucky seria digno daquele amor.

— Serena — ele balbuciou, procurando em seu reportório limitado as palavras certas para respondê-la, as palavras que ela merecia ouvir. — Eu... amo você também e, quero que saiba... — Bucky pegou a mão dela, depositando um beijo cálido, sentindo um bolo na garganta — quero que saiba que apesar de estar quebrado, cada pedacinho desse coração partido pertence a você.

Quando Bucky a encarou outra vez, os olhos dela estavam brilhando, a mão que segurava tremia um pouco e o coração batia ainda mais rápido.

Ele então a puxou para perto e acariciou sua cabeça da mesma forma que havia feito no metrô. Desajeitado, mas sincero.

— Amo você, coisinha — ele repetiu quando ela o encarou com os olhos marejados, a voz embargada.

E a beijou outra vez.

Foi um beijo com gosto de lágrimas e... amor. Não tinha a luxúria ou a urgência de antes, mas era igualmente agradável.

Bucky e Serena não estavam simplesmente se beijando, havia um acordo tácito naquela carícia.

A partir daquele momento estariam juntos; a partir daquele instante, seriam algo a mais.

Para o inferno com as nomenclaturas que os jovens usavam naquele século. Dele. Serena era dele e, de ninguém mais.

Assim como ele seria apenas dela.

Ele sorriu. Seu peito explodia de alegria, se morresse naquele exato instante, partiria feliz.

Serena então tomou a liberdade de aprofundar o beijo, correndo as unhas pela nuca dele, de uma forma particularmente provocativa.

O sargento gemeu baixinho e deslizou a mão direita até a barra da camiseta, subindo lentamente até encontrar um dos seios e... puta merda, todo aquele tempo estava sem sutiã.

Ela arqueou quando ele tocou pela primeira vez e seus gemidos foram ficando mais altos e carnais conforme ele pressionava o indicador e o polegar no mamilo. Até que:

— Posso tirar? — ele sussurrou, ao se afastar da boca dela.

Ela arfou.

— Porra, sim.

Um quarto de segundo depois, a camiseta dela estava no chão, deixando-a nua da cintura para cima. Bucky tomou um momento para apreciar a visão dos mamilos intumescidos, como um convite.

E, reluzindo entre o colo, havia pequeno medalhão com uma pedra azul brilhante e que não deveria medir mais que cinco centímetros. Aquilo sempre esteve ali?

Bucky piscou. Aquele medalhão...

— É só uma herança de família — Serena murmurou ao notar o interesse repentino dele — posso tirar, se quiser.

Ela disse como se não fosse nada, mas aquilo virou uma chave na mente de Bucky.

Várias peças de um quebra-cabeças insolúvel de repente se encaixaram. Ele colocou Serena no chão delicadamente e recuou como se ela estivesse em chamas.

Aquele colar, Bucky já o tinha visto antes.

Era daquela mulher. A agente IV.

E, se o colar da agente IV estava com Serena e era uma herança de família, aquilo só poderia significar que ele... não, não, não podia ser.

— Bucky — murmurou Serena, tocando no ombro dele — o que aconteceu?

Mas ele não estava mais ali.

Memórias e mais memórias começaram a piscar em sua mente. O estampido do pescoço daquela mulher quebrando infinitas vezes ecoando em sua cabeça.

— Serena — disse ele, ainda olhando para o colar — quantos anos você tem?

— Vinte e cinco. Trinta, se contar com o estalo. O que foi? Você está pálido demais. Devo procurar ajuda?

Ele ignorou a pergunta dela.

— Quantos anos tinha quando foi adotada? — inquiriu, ao invés.

— Dez, talvez onze. Não sei ao certo. Faz tanto tempo...

As datas batiam perfeitamente. Quais as chances de aquilo ser coincidência?

— Ainda não entendo onde você pretende chegar com isso — Serena emendou, inclinando a cabeça.

— Não é nada. Eu... eu... estou bem.

Girando. O mundo ao seu redor estava girando. O corpo tinha travado e não conseguia respirar.

— Ah, não está mesmo — ela discordou — o que foi? Você está começando a me assustar.

O sargento então se forçou a encará-la, que tinha um olhar cheio de preocupação e... medo.

Não medo dele — embora devesse —, mas medo por ele.

Bucky quis gritar. Chorar. O mundo ao redor tinha perdido a cor.

Que tipo de entidade sádica havia jogado aquela bomba em seu colo momentos depois de ter lhe dado uma gota de felicidade? Por quê?

Apenas para esfregar em sua cara que não passava de um fodido? Por que o universo parecia odiá-lo tanto?

Porque você merece, uma voz grave sussurrou.

O Soldado Invernal. O maldito sempre voltava para arrancar qualquer resquício de felicidade que surgia em sua vida miserável.

Bucky sentiu o próprio coração partindo em mil pedaços. Seus joelhos cederam e não conseguia puxar ar para os pulmões.

Serena gritou e ajoelhou ao lado dele.

— Bucky? Bucky? Respire — ela instruiu, tocando no peito dele — você precisa respirar igual na meditação, lembra? Respire. Inspire.

Respirar? Sim. Isso podia funcionar.

— Isso — ela incentivou — de novo.

Ele obedeceu. Uma. Duas. Três vezes.

— Está melhor?

Bucky fez que não. Ele não estava melhor. Nunca estaria melhor.

Era um monstro e nunca deixaria de ser um monstro. Serena não merecia alguém como ele.

— Quer me dizer alguma coisa? — ela perguntou, um momento depois.

— Você — ele ciciou, ainda atordoado — eu sei o que você é — havia certa acusação em sua voz, embora soubesse que ela não tinha culpa de nada.

Não era culpa dela que Bucky fosse um demônio.

Serena não entendeu o que quis dizer, a julgar pela expressão confusa, mas se aproximou dele e tocou em seu rosto com aqueles dedos macios e delicados.

— Sou eu, Bucky — disse ela olhando no fundo dos olhos dele— Serena. A coisinha. E estou bem aqui, do seu lado. Eu sempre vou estar do seu lado.

Ele balançou a cabeça outra vez.

Ela não podia dizer aquelas coisas, piorava tudo. E quando baixou os olhos e enxergou o colar outra vez... era como se uma venda tivesse sido removida.

A bem da verdade, chegava a ser ridículo que tivesse levado tanto tempo para encaixar as peças.

Estava tudo ali, bem na sua cara.

A agente IV havia resgatado uma criança em uma ilha da Hidra que ficava entre a Romênia e a Rússia;

Serena havia morado em uma ilha entre a Romênia e a Rússia;

Serena havia sido adotada por Isabel Valente com mais ou menos dez anos, idade da criança desaparecida;

E, para completar, quando o Soldado Invernal encontrou a agente IV em Genebra, ela usava um medalhão com uma pedra azul brilhante que era idêntico ao que Serena estava usando.

Não era coincidência. A agente IV e Serena tinham uma ligação.

Herança de família.

Herança de família.

Herança de família.

Aquilo ficou reverberando na cabeça dele.

Aquela agente era parente de Serena e..., e... o soldado tinha assassinado aquela mulher a sangue frio.

O Soldado Invernal, Bucky, matou a mulher que salvara a vida de Serena, anos antes de sequer sonhar em conhecê-la.

Ele era um monstro que destruía tudo que tocava.

E Serena... Santo Deus.

Ela era a criança inumana de Vronsky.


Notas finais
Esse, de longe é o capítulo que mais me deu trabalho para escrever e, postá-lo é um mix de frio na barriga e satisfação. Espero, de verdade, que gostem dele. Beijinhos e até mais!