Legacy | Bucky Barnes ︎
38 XXXVIII - Interlúdio
Final do campeonato Nacional Universitário de Ginástica Artística,
Centro Poliesportivo da Universidade de Nova Iorque,
Ilha de Manhattan, NYC
2018
NAQUELA HORA, Serena não conseguia pensar em nada. A mente tão confusa que o cérebro parecia incapaz de realizar uma simples sinapse.
O entorno em nada ajudava.
A cacofonia de sons estava deixando-a zonza. O estádio lentamente vindo abaixo. Água gorgolejando para todos os cantos. Íris berrando seu nome... Era o caos, logo concluiu.
Ela cerrou os dentes e recuou um passo, tentando se acalmar. Mesmo diante daquele inferno, sabia exatamente o que tinha que ser feito.
Arfou.
O formigamento em seus dedos lutava para se libertar e, pela primeira vez em muito tempo, permitiu que aquilo se expandisse. Poder bruto. Seu poder.
Serena então mergulhou fundo. Mergulhou dentro de si mesma. Dentro de seu poder.
Quase que imediatamente sentiu a energia das águas que corriam dos canos cantando para o poder que vertia por suas veias, como se a cumprimentasse. O poder, no entanto, queria mais, queria se libertar. Grunhiu.
Ela havia mantido aquilo escondido por tanto tempo... reprimindo-o até o âmago.
E o prendera porque, durante todo aquele tempo, vivia o medo constante de que alguém descobrisse o que realmente era. Medo de que aquelas pessoas terríveis a encontrassem e viessem atrás dela outra vez.
A verdade era que Serena não era humana — ao menos não completamente.
Nunca tinha se preocupado muito com os detalhes, mas sabia que tinha se tornado aquela coisa quando era apenas uma criança. Uma criança sem liberdade de escolha, incapaz de compreender a dimensão dos próprios dons ou como controlá-los. Uma arma. Um monstro.
Uma aberração inumana.
Aquilo, no entanto, não significava absolutamente nada para ela.
Nunca desejou aqueles dons. Nunca quis ser outra coisa além de quem era: Serena Valente, a ginasta.
Não era — e nem seria — como o Homem-Aranha ou os Vingadores. Não tinha o menor interesse em usar uma fantasia tosca e sair por aí batendo em bandidos. Também não queria ser uma arma ou uma rata de laboratório. Tudo que Serena queria era levar uma vida normal e esquecer tinha aquela... coisa correndo em suas veias.
Isso porque, desde muito jovem, havia presenciado a crueldade e a ganância dos seres humanos. Sabia que existiam pessoas ruins, que queriam usá-la — usar seu poder— de formas insólitas.
Então Serena decidiu que o melhor a se fazer seria se esconder. Esconder a si mesma, esconder o que carregava.
Era mais seguro. Para ela. Para todos ao seu redor.
Ninguém... absolutamente ninguém podia saber o que ela realmente era.
Ou do que era capaz.
Mas...
Mas, se não agisse naquele instante... Íris...
A poeira, misturada com a água dos canos, havia formado uma poça espessa de lama, onde seus pés descalços afundavam; gotículas de água fustigavam seu rosto. Sangue escorria, apesar de o corte estar em processo acelerado de cicatrização — outra parte que era obrigada a esconder constantemente.
Serena não pensou.
Apenas permitiu que o formigamento se expandisse para além de seus dedos e alcançasse aquelas águas, que gradualmente se tornaram uma extensão do próprio corpo.
Íris ainda estava ao seu lado, sem entender o que estava prestes a acontecer.
— Íris — ela chamou. — Se abaixe.
Embora estivesse confusa, a amiga obedeceu.
E, com um movimento dos dedos, duas pilastras de água se ergueram e se uniram segundos antes que a viga alcançasse Íris, formando um escudo de gelo puro que se estendeu até a saída de emergência alguns metros à frente.
— Serena... — Íris arfou, a voz abafada pelo grosso escudo de gelo que as separavam.
O peso só aumentava conforme mais entulho caia do teto, o ginásio todo a beira do colapso.
— A saída está livre — Serena respondeu. Fumaça saia de sua boca. — Vá.
Íris tremeu. Estava em choque.
Também pudera, Serena acabara de se relevar para ela; seus poderes.
Arfou. Explicaria a amiga, jurou. Deus, explicaria tudo.
Depois. Quando não estivesse correndo risco de vida, de preferência.
— Mas... — Íris ciciou — mas e quanto a você?
Serena gemeu de dor. O peso do mundo pairando sobre suas costas, quase que literalmente.
— Vou ficar bem. Vá logo.
— Mas...
— Íris — Serena guinchou — saia. Agora. — Por favor, quase emendou.
Mais vigas começaram a cair.
As paredes de gelo engrossaram, mas não aguentariam para sempre. Internamente, Serena implorou.
Por favor... mais um pouco... por favor... mais um pouco... por favor...
— Vou buscar ajuda — garantiu Íris — vai... vai ficar tudo bem.
Serena aquiesceu.
E enquanto Íris se afastava, quis se virar e dar uma última olhada antes que a amiga saísse de seu campo de visão. Só uma.
Mas estava com medo.
Medo de se virar encontrar o olhar horrorizado da amiga quando enfim percebesse o que era; quando soubesse a origem de seus poderes e se desse conta de que Serena não era muito diferente daqueles monstros que volta e meia destruíam a cidade de Nova Iorque.
Naquele instante, contudo, estava tão concentrada em manter o prédio em pé que não se deu conta de que o mundo ao seu redor estava desaparecendo.
Não. Aquilo não era verdade.
Quem estava desaparecendo era... ela?
Serena não teve tempo de gritar antes que seu corpo explodisse em poeira cósmica.
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