ENQUANTO BUCKY DESPEJAVA parte da massa de panqueca na frigideira quente, Serena secava o quase inexistente conjunto de louças dele. E fazia aquilo equilibrada em numa cadeira porque, claro, as prateleiras do sargento tinham que ser altas demais para alguém do tamanho dela.

No entanto, estavam assim havia algum tempo: ele cozinhando e ela guardando xícaras e tigelas na prateleira de cima, como se tivessem chegado a um acordo implícito sobre a distribuição das tarefas domésticas.

Ela então o olhou de esguelha.

A forma como estava concentrado — como se fosse um chef de um restaurante renomado — fez com que esticasse os lábios.

Quem diria, pensou, um homem daquele tamanho, fazendo panquecas com um avental velho e ridículo? Era quase cômico. E fofo.

— Então... panquecas? — Serena murmurou quando repousou a última xícara na prateleira, chamando a atenção dele. — Esse é seu conceito de cozinhar, fazer o café da manhã às oito da noite?

— Comida é comida — Bucky desdenhou e jogou a massa para cima com tanta força que, por muito pouco, não bateu no teto. — O que foi coisinha, não gosta de panquecas?

— Claro que eu gosto de panquecas — ela resmungou, descendo da cadeira com um pulinho, gesto que não passou despercebido pelo sargento.

Para sua sorte, no entanto, ele apenas ergueu um lábio para cima e voltou a se concentrar na frigideira.

Satisfeita, Serena inspirou o ar doce da cozinha, o estômago protestando de fome, e completou:

— Além disso, o cheiro está ótimo. Por acaso colocou noz moscada e... canela?

Bucky acenou com certa pompa e virou a frigideira no prato — onde uma pilha de comida se amontoava — com um movimento gracioso.

Ela mordeu o lábio inferior. Estava adorando ver aquele lado do sargento e, ainda que naquele prato tivesse comida para alimentá-la por uma semana inteira, até que havia certo charme naquilo; em vê-lo cozinhando.

Bucky usava um avental velho e que deveria ter sido esquecido pelo antigo morador — a julgar pelas manchas amareladas, a frase brega do Capitão América e o cheiro de poeira, assim como a frigideira, igualmente velha, que estava segurando com a mão de metal. Mesmo assim...

É, Serena gostava de vê-lo com o maldito avental, os músculos do braço a mostra — vez ou outra tensionando enquanto cozinhava. Masculino pra cacete, concluiu. Poucas coisas soavam tão lascivas para ela quanto um homem do tamanho dele agindo feito um adulto funcional.

Sorriu.

Não sabia ao certo em que momento tinham passado de meditação para jantar, café da manhã ou que diabos fosse aquilo.

Provavelmente, refletiu, tinha sido logo depois de sentir o estômago roncando. Não tinha almoçado. Ou tomado café. Ou jantado. E, depois de ter treinado por horas a fio e todos aqueles exercícios de respiração, estava tão faminta que se viu obrigada a aceitar o convite do vizinho.

— Eu disse que sabia cozinhar — a voz de Bucky se gabando enquanto despejava um pouco mais de massa na frigideira a fez despertar do devaneio — na geladeira tem calda. Pode pegar, por favor?

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Santo Deus, sargento — ironizou, mas abriu a porta do eletrodoméstico mesmo assim. E, quando olhou dentro, soltou um palavrão. — Chocolate, jura? Quantos anos você tem? Cinco?

Ele revirou os olhos.

— Eu gosto — resmungou, o que não melhorou sua percepção sobre a maturidade dele.

Talvez Bucky não fosse tão adulto assim.

Mesmo assim, ela deu uma risadinha e pegou a tal da calda junto com algumas frutas que havia comprado para ele da última vez, suco de laranja — afinal, equilíbrio era tudo — e o tablete de manteiga para completar o combo de calorias infinitas.

— Deixando de lado seu paladar preocupantemente infantil e a quantidade exorbitante de açúcar e gordura em uma única refeição — Serena respondeu ao fechar a geladeira e se postou em direção a bancada dele, onde jaziam as panquecas — como aprendeu a receita? Não me diga que anda usando o TikTok.

O sargento torceu o nariz, como se aquilo fosse um ultraje.

— Não uso redes sociais, são um desperdício do meu tempo — resmungou, como a pessoa de cento e seis anos de idade que era. — A receita é de minha mãe. Ela costumava fazer panquecas para mim e minha irmã em dias especiais como quatro de julho ou o primeiro dia de aula.

— E qual ocasião especial estamos celebrando? — Serena perguntou enquanto se sentava na banqueta, um sorriso displicente despontando de seus lábios — não me diga que liberaram sua aposentadoria. Poderia ter me avisado, eu teria trazido uma champagne.

— Engraçadinha — Bucky respondeu, tenro.

Ela riu mais ainda.

— Então o que é?

Bucky fez uma pausa.

Virar a panqueca sem perdê-la para o teto era uma tarefa que exigia muita concentração — as quatro primeiras que ficaram grudadas no gesso eram prova disso.

— Você consertou meu cabelo — disse ele quando colocou outra massa no prato — considere como um pagamento pelos seus serviços. Além disso, sei que não comeu nada o dia todo.

Serena piscou.

— Como sabe que não comi durante o dia?

— Intuição — Bucky respondeu com uma piscadela — e seu estômago.

Sentiu o rosto esquentar. Estava tão na cara assim?

— Você cozinhou... por minha causa? — perguntou, no entanto.

Ele fez que sim com a cabeça e desviou o olhar para a frigideira, despejando um pouco mais da massa.

— Por quê? — ela ciciou.

— Qual o problema? São só panquecas — Bucky respondeu, como se não fosse nada demais — você cozinhou para mim antes, lembra? Mais de uma vez, aliás.

— Mas aquilo foi diferente.

— Ah é? — disse ele em um tom indulgente, enquanto virava a panqueca — e qual a diferença, Serena?

Ela emudeceu. Não tinha resposta para aquilo.

Bucky estava cozinhando para ela. Cozinhando. Uma receita afetiva de sua infância ainda por cima.

Que cara tinha feito algo remotamente parecido por ela?

A memória de seus dois ex-namorados — respectivamente, do último ano do ensino médio e do primeiro ano da faculdade — imediatamente vieram a sua cabeça.

Nenhum deles havia se dado ao trabalho de cozinhar para ela nenhuma vez sequer. A bem da verdade, nenhum deles tinha oferecido muito além de dor de cabeça e sexo razoável.

Com Bucky, por outro lado, era diferente. Aquele tinha sido um gesto tão despretensioso — quase banal — e, ao mesmo tempo, tão atencioso, que fez seu peito aquecer. Serena conteve o ímpeto de torcer o nariz.

Em geral, não agia feito uma tonta emocionada com homens. Mas às vezes, parecia que o universo insistia em testá-la. O que estava acontecendo? O que aquele sargento rabugento estava fazendo com ela?

Bucky tinha entrado em sua vida de forma lenta e contida, em boa parte por insistência dela, era verdade. Só que em momento algum esperava que a relação deles evoluísse para... aquilo.

Era como se Bucky tivesse um magnetismo próprio que a atraia até ele, de forma que Serena ansiava por sua presença; por sua companhia, como se fosse algum tipo de droga.

E ainda havia tinha aquela... coisa. Não era exatamente um charme, mas algo bem parecido e que despertava nela uma curiosidade e um senso de proteção acerca de tudo que rodeava o sargento. Nunca havia se sentido dessa forma, por ninguém. Era arrebatador e confuso.

Serena piscou.

O que... o que poderia ser?

Rapidamente, elencou tudo que acreditava sentir sobre Bucky e chegou a algumas conclusões.

Primeiro: sabia que não era um deslumbramento por estar diante de um Vingador e herói de guerra. Já tinha superado aquela parte.

Segundo: entendia que não era um complexo tosco de salvadora dizendo-lhe que poderia curá-lo de seus traumas — porque Serena tinha plena noção de que não podia voltar no tempo e que a saúde mental envolvia fatores que estavam muito além de sua alçada.

Terceiro: estava convencida de que não era o período fértil ou o estrogênio constantemente lembrando-a que Bucky era "bonito pra cacete" e que adoraria tocar nos músculos daquele abdome estúpido.

De rabo de olho, viu as costas largas e os músculos do braço dele. Ok, talvez essa parte tivesse um fundo de verdade.

De qualquer forma, após avaliar todos aqueles cenários, chegou à conclusão de que: sim, havia algo. Arfou. O coração estava batendo mais forte, do mesmo jeito da noite anterior.

Não era desconfortável, no entanto.

Parecia contraproducente, mas se sentia bem ali. Gostava do que estava sentindo, apesar de não compreender totalmente. Serena ponderou.

Seria aquele calor no peito o sentimento de amor? Seria assim o amor de verdade? Não um ato grandioso, mas a soma de pequenos gestos de cuidado durante o dia a dia?

Serena então ergueu o olhar para a nuca — agora com pele exposta — depois para o prato cheio de panquecas fumegantes.

A cada instante ficava mais difícil de controlar a crescente onda de onda de afeto pelo sargento, pensou ela, enquanto montava o prato com panquecas, mirtilo, morangos e cobrir a coisa toda com aquela calda de chocolate hipercalórica — para o inferno com a saúde.

E ao morder... puta merda. Era a melhor panqueca tinha provado na vida.

— Serena, qual o problema? — ele indagou quando se virou para colocar outra panqueca no prato — por que está com essa cara?

— É a minha cara normal.

— Não. Você parece estar repensando suas escolhas de vida — ele pontuou — já está pronta para admitir que panquecas no jantar é o sonho americano?

Ela revirou os olhos.

— Que exagero.

— É mesmo?

Não era exagero algum, na verdade, ele tinha acertado em cheio. Não sobre as panquecas — continuava achando ridículo — mas sobre as escolhas de vida.

Porque naquele instante, Bucky Barnes, com todo aquele charme estúpido de "cara do século passado" e suas malditas panquecas, tinha conseguido arruinar todos os outros homens da face da terra para ela. A comparação chegava a ser desleal.

Seu último namorado, por exemplo.

Em seu auge de romantismo, Johnny Gale tinha comprado às pressas um cartão barato em uma loja de conveniência no Dia dos Namorados, e só tinha feito aquilo por puro remorso — ela o presenteara com a jaqueta estúpida dos Chiefs que ele tanto queria na ocasião.

Mesmo assim, naquela época, Serena tinha achado o máximo.

Era uma jovem tonta e emocionada que não ligava para dinheiro; acreditava que o fato de ter pegado um cartão engraçadinho com um trocadilho de Star Wars significara algo para ele também.

Estava enganada.

O babaca sequer sabia que Star Wars era a franquia favorita dela e, olhando em retrospecto, a coisa toda tinha sido ridícula, assim como o relacionamento deles.

Johnny nunca a ouvia, era mesquinho e a única coisa que faziam quando estavam juntos era ir ao cinema e transar — não no cinema, porque isso seria ilegal —, mas... arg.

O que tinham não passava de uma relação vazia e sem amor e só se deu conta disso quando Johnny desapareceu.

Aconteceu quando completaram um ano de namoro. Certo dia, Serena recebeu uma mensagem de texto dele dizendo que precisava de um tempo para si mesmo e que faria um mochilão pela Europa. Então, adeus. Não atendia ligações ou se dignava a responder as mensagens dela.

O término repentino a abalara mais do que gostaria de admitir.

Por longos dias, convenceu-se de que nunca mais amaria ninguém, que a ausência de Johnny a mataria — àquela altura, estava certa de um dia se casariam e morariam em um flat em Manhattan.

Só que, para seu completo assombro, ela não morreu. A vida continuou.

E, foi naquele meio tempo entre as competições, os pedaços de bolo trazidos por Isabel e idas — arrastadas — ao Shark's com Íris, que Serena se deu conta de que não precisava dele, nem ninguém, para ser uma pessoa completa e realizada. Ela o superou rápido. Entendera que aquilo dizia mais sobre ele do que ela. Nunca mais se viram e ambos seguiram com suas vidas; sequer conseguira odiá-lo. A bem da verdade, aquela era a primeira vez que pensava em Johnny em muito tempo.

Superada aquela relação fracassada, contudo, Serena tinha se fechado completamente para o amor. Não por ter se tornado fria e com medo de se machucar de novo, apenas não achava que valia o esforço. E todas as formas de relacionamento que vieram depois foram... entediantes.

Serena não colaborava, era verdade.

Detestava encontros relâmpago; tinha aversão a palavra "sexo casual"; rejeitava todo e qualquer pretendente arranjado por Íris; sentia repulsa por aplicativos de relacionamento e sequer sentia tanta falta assim de transar ao ponto de submeter a uma relação insalubre apenas para saciar sua carência.

Talvez, concluiu ela, fosse um presente do universo, que se mantivesse tão ocupada ao ponto de mal ter tempo de pensar muito sobre o assunto.

Claro, estaria sendo hipócrita se dissesse que não sentia falta de transar, porque, apesar de tudo, gostava de sexo e — infelizmente — gostava de homens. E, apesar de não fazer o menor sentido, às vezes se pegava pensando em como seria ter alguém especial em sua vida.

Um cara atencioso, que a respeitasse e a tratasse bem — e que fosse bom de cama, se não fosse pedir demais.

Alguém que a amasse de verdade.

Ela quase riu. Àquela altura da vida, sabia que seria mais fácil um meteoro cair na cidade de Nova Iorque do que encontrar um homem que atendesse seus pré-requisitos. E estava bem com aquilo. A vida era bem mais do que uma comédia romântica barata.

Então, quando já estava convencida de que se renderia ao celibato pelo resto de seus dias, surgira o sargento. Bucky Barnes, um homem fora de seu tempo, super-herói disfarçado como civil e tudo mais.

No começo, ele parecia odiá-la, mas aquilo era uma barreira para afastar as pessoas e se proteger. Uma barreira enorme e que ficara feliz de ter transposto, graças a isso, conheceu e se encantou por aquele cara ranzinza e complicado demais para o próprio bem, mas que — bem lá no fundo — tinha um lado doce e atencioso, que a fazia se sentir... feliz? Protegida? Segura?

Todas eram opções viáveis.

E, talvez, Serena concluiu, já amasse Bucky. Talvez o amasse há muito tempo e não tinha notado até aquele momento. Arfou.

Amando. Não se apaixonando aos poucos, mas amando.

Puta merda.

— Está... bom — Serena ciciou, e colocou outra garfada na boca.

Inferno, era realmente muito bom. O contraste da calda gelada e das panquecas quentes explodiam em sua língua feito fogos de artifício.

Satisfeito com a resposta dela, Bucky sorriu de leve e colocou a última panqueca no prato dele.

Deveria ter pelo menos sete panquecas naquela montanha de comida, e ele ainda cobriu o doce com uma quantidade absurda de calda e — quem diria — morangos.

— Mas você deveria ir mais devagar — ela comentou, torcendo o nariz — deve ter umas cinco mil calorias nesse prato. Vai acabar morrendo de diabetes desse jeito.

Bucky, contudo, pareceu achar graça.

— Agradeço a preocupação, mas meu corpo não funciona da mesma forma que o das pessoas comuns — explicou ao sentar-se do lado dela — o metabolismo de um super soldado é três vezes mais acelerado em comparação ao de um atleta de alta performance. Preciso consumir cerca de quinze mil calorias por dia só para manter meu corpo funcionando.

— Quinze mil calorias? — ela repetiu, arfando — e como consegue bater a meta de proteínas? Comendo um boi por refeição?

Ele deu risada.

— Em cada refeição? Não, isso seria ridículo — disse — às vezes eu troco por carne de cavalo para não enjoar.

Serena abriu a boca. E fechou.

O sorriso do sargento estava mais aberto do que nunca.

— Estou brincando, coisinha — revelou. — Por causa do soro em minhas veias, preciso usar suplementações equivalentes para me manter em forma, mas prefiro comida. Além disso, cinco mil calorias em panquecas não me fariam mal nem se eu bebesse a calda feito água por uma semana.

Ela fez uma careta.

— Por favor, não faça isso — disse, embora não soubesse ao certo se as palavras soaram em um tom combativo ou resignado.

— Não vou — ele respondeu — a calda pura é doce demais para meu paladar.

Serena suspirou como quem dizia "graças a Deus" e voltou a comer. Internamente, no entanto, tinha achado graça do tom jocoso dele.

Ele então deu uma piscadela. Seu coração palpitou de novo. Merda.

Ela amava mesmo aquele imbecil.