Legacy | Bucky Barnes ︎
35 XXXV
QUANDO SERENA DEIXOU O PRÉDIO DO CENTRO POLIESPORTIVO, sozinha, muitas horas depois de Íris — que, depois de tudo aquilo, ainda teve de ir trabalhar — , já estava quase entardecendo. Suspirou. Estava dolorida, ofegante e cansada como não se sentia havia eras, e, mesmo assim satisfeita.
Sim, satisfeita era a palavra que a definia. Treinar era revigorante e, como aquela seria mesmo a última vez que o faria, decidiu que aproveitaria até o último segundo.
Antes de sair, no entanto, ao tentar devolver o cartão de acesso do Senador Orlov a uma das funcionárias da recepção, a mulher foi enfática ao recusá-lo e disse, em um tom ofendido, que o cartão pertencia a Serena — e que seria muito bem-vinda para voltar quando quisesse. Serena então ficou encarando o cartão preto em suas mãos enquanto fazia o trajeto de volta ao apartamento, como se aquele pedaço de plástico estivesse prestes a entrar em combustão.
Poderia voltar quando quisesse...
Poderia voltar quando quisesse...
Poderia voltar quando quisesse...
Ela ergueu um lábio para cima, quase explodindo em êxtase.
Treinar de novo... a qualquer momento. Poderia mesmo fazer aquilo e, por enquanto, pelo menos, tinha carta branca para passar as tardes enfiada naquele estúdio desnecessariamente chique e nada, nem ninguém, a impediria. Era o paraíso. Tudo que secretamente sonhava desde que tinha voltado do estalo. Só que, seu inconsciente a lembrou, também era errado.
Serena parou de andar.
Merda, não deveria nem sequer cogitar uma coisa daquelas. Ao invés disso, deveria implorar para que Erika a aceitasse de volta como sua assistente medíocre, ou então sair em busca de um novo emprego, igualmente medíocre, antes que suas — quase inexistentes — reservas de dinheiro se esgotassem, e tivesse de se mudar para debaixo da Brooklyn Bridge com James. Ela suspirou, o mundo real chamando.
Faria aquilo, conversaria com Erika. No dia seguinte.
Naquela tarde, contudo, aproveitaria o último respiro de liberdade que conseguira e se permitiria sonhar com um futuro brilhante na ginástica artística, exatamente como fazia em 2018 — antes do estalo.
Serena voltou a caminhar pelas ruas Brooklyn até chegar em seu prédio, as engrenagens do cérebro girando e girando enquanto subia pela escadaria.
Gotinhas de água escorriam do cabelo úmido pelo pescoço, porque sim, naquele maldito estúdio ainda havia um vestiário enorme — não se orgulhava daquilo, mas quase chorou quando entrou no vestiário feminino e encontrou três duchas individuais que jorravam água de forma uniforme e, quem diria, quente. Para quem estava acostumada com chuveiros velhos e enferrujados dos vestiários insalubres da NYU, parecia um SPA.
Sentiria tanta falta do chuveiro, refletiu Serena com pesar enquanto subia a escadaria. Era realmente fácil de se acostumar com luxos como aquele.
Momentos depois, quando estava no corredor de seu apartamento, o olhar imediatamente cravou na porta que jazia ao fim do corredor. Bucky. Será que estava em casa? O que estaria fazendo uma hora daquelas?
Antes que desse conta, Serena passou direto pelo tapetinho com estampa de gatos e caminhou lentamente até a soleira dele. Piscou. Por que tinha feito aquilo? O que estava fazendo ali?
Talvez, pensou ela, quisesse contar o que tinha feito naquela tarde; talvez quisesse dizer a ele que tinha razão e que poderia fazer — quase — qualquer coisa. Mas... será que Bucky sequer ligava para aquilo? Será que deveria aborrecê-lo com seus problemas bobos de civil?
Serena ergueu o braço, pronta para bater na porta.
Não o fez, no entanto.
Sabia que tinha passado um período longo com o sargento na noite anterior e, que deveria estar de saco cheio dela, mas precisava compartilhar aquilo com ele. E queria fazê-lo porque, bem, foram as palavras de incentivo dele que a inspiraram a fazer a coisa toda para início de conversa.
Serena bateu os pés no chão, nervosa.
Por que diabos estava fazendo aquilo? Será que Bucky ficaria feliz em recebê-la em seu apartamento sem razão aparente? Já tinham aquele grau de intimidade?
Não, não tinham, percebeu.
Ela suspirou. Certamente estava agindo feito uma tonta emocionada. Iria incomodá-lo, era melhor ir embora. Mas..., mas..., queria muito vê-lo. Devagar, Serena, você tem que ir devagar, lembrou seu subconsciente. E tinha razão.
Só que enquanto estava presa naquele impasse, a porta se abriu.
— Coisinha — disse Bucky, à guisa de cumprimento.
Ela ergueu os olhos. O sargento usava um pijama composto por calças largas de flanela e uma regata branca; seu cabelo mal cortado estava todo despenteado e a cara parecia meio amassada, como se tivesse acabado de acordar.
Ainda assim, pensou, continuava lindo como um Deus grego. Ou nórdico — Serena não sabia quais deuses eram ou não reais.
— Estou interrompendo alguma coisa? — ela perguntou, titubeando.
— Não — ele respondeu, meio sem jeito — eu estava... meditando.
Serena ergueu uma sobrancelha.
— Não faça essa cara.
— Que cara? — Serena sondou, indulgente.
— Essa cara de "eu não acredito que o machão tem um lado sensível" — devolveu ele, afinando um pouco a voz, como se quisesse imitá-la.
Ela fechou a cara. Por isso ele odiava quando fazia aquilo — era bem irritante.
— Eu não falo assim.
Bucky não respondeu, mas seu olhar prepotente dizia: "Tem certeza, coisinha?" — e ela achou melhor não discutir.
Em vez disso, sugeriu:
— Nesse caso... se importa se eu me juntar a você?
Ele aquiesceu e fez uma mesura para que entrasse.
✧❄✧
— Estou fazendo certo? — ciciou Serena, atrapalhando sua concentração pelo que parecia ser a terceira vez em menos de vinte minutos.
— Não — Bucky grunhiu — não está.
Ela bufou.
— O objetivo da meditação é se conectar com seu "eu" interior — explicou ele, impaciente — se não ficar parada, não vai dar certo.
— Mas...
— E, em silêncio — emendou o sargento.
Parada e em silêncio.
Algo impossível para Serena, ao que parecia — ela mais se assemelhava a um esquilo imperativo. O tamanho certamente era parecido. As bochechas também. Bucky esticou os lábios, mentalizando a comparação.
— Qual a graça? — chiou ela.
— Feche os olhos, coisinha.
Ele não poderia confirmar, mas tinha quase certeza de que Serena — ao invés de fechar — tinha revirado os olhos.
— Olhos fechados — Bucky reiterou, se forçando a ajustar as costas — postura ereta.
Ela bufou outra vez, mas — aparentemente — fez o que ele disse.
— Esvazie sua mente e... fique quietinha.
Com a sala — finalmente — em silêncio, Bucky se permitiu relaxar um pouco.
Mal pregara o olho na noite anterior; estava exausto e, ao mesmo tempo, elétrico. A madrugada fora uma cacofonia de pensamentos emaranhados e teorias mal elaboradas sobre a mulher do telhado. Se não diminuísse o ritmo, o cérebro entraria em pane.
— Agora inspire. Expire. — ele instruiu, puxando ar nos pulmões. Serena o imitou. — Bom. Outra vez.
— Será que podemos ouvir um pouco de música? — sugeriu ela, logo depois de soltar o ar nos pulmões — é impossível ficar parada e em silêncio tanto tempo.
— Não.
— Vou deixar baixo...
Bucky ignorou aquilo. Achou melhor assim.
— E se eu usasse fones de ouvido? — Ela, maldita fosse, insistiu.
Santo Deus. No que ele estava pensando quando concordou com aquilo? Abriu um olho e a encontrou fazendo uma careta — como se o provocasse. Como se pudesse dissuadi-lo e... arg.
— Sem fones. Sem música — ele resmungou, fechando o olho de novo. — Apenas se concentre em sua respiração.
Ela protestou, mas obedeceu assim mesmo, inspirando e expirando devagar.
Não demorou muito para que o único som perceptível na sala fosse a respiração deles.
Mais especificamente, a dela.
Uma respiração afobada que foi gradualmente ficando mais suave. Uma respiração suave e que exalava o aroma fresco de banho recém-tomado e ameixas dela. Foque em si mesmo, pensou ele.
E Bucky bem que tentou focar em si mesmo, mas a forma como o ar entrava e saía dos pulmões de Serena era uma distração terrível. De onde estava, ouvia o ar chiando. Inspirando. Expirando. Inspirando de novo. E de novo.
Aquilo fez com ele que se concentrasse em outros sons.
Seu coração batendo tranquilamente, bombeando o sangue; o ranger de seus dentes enquanto movia a mandíbula; conseguia ouvir também o som de seus ossos contraindo e expandindo enquanto movia as costas.
Porcaria de audição aguçada.
— Bucky? — ela sussurrou depois de um tempo.
Ele despertou de seus devaneios.
— Hun?
— Por quanto tempo temos que fazer isso?
— Até o corpo relaxar.
Ela grunhiu.
— Isso já funcionou alguma vez para você? — resmungou, impaciente — ao menos gosta de meditar?
O sargento quis rir.
Se aquilo funcionara para ele? Não, não funcionava — ao menos não a médio prazo. Era um alívio momentâneo? Definitivamente. Gostava de meditar? Um pouco, era obrigado a admitir.
— Se bem estou lembrado, Serena, foi você quem pediu para meditar comigo — Bucky, contudo, respondeu — agora, continue respirando.
— Bem, sim, mas.... — comentou ela — isso foi antes de descobrir que isso é tão... chato.
— Relaxar é chato — ele observou, esticando os lábios — continue respirando, coisinha.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes, como se estivesse ponderando.
Até que:
— É só que... eu simplesmente não consigo — admitiu ela — não consigo desligar meus pensamentos. Não importa o quanto tente. Ou queria.
Bucky abriu um olho.
Daquela vez, Serena parecia frustrada, embora continuasse com os olhos fechados. As sobrancelhas estavam arqueadas, formando um pequeno vinco no meio. Ele não fazia ideia do que passava na cabeça dela, se estava preocupada com o trabalho ou se ainda estava chateada por causa do centro poliesportivo.
O sargento então pensou na forma como ela estava olhando para aquele prédio, a expressão de pura resignação quando a encontrara parada no meio da calçada. Ele a encarou, tentando conectar as peças e desvendar a mulher sentada em sua frente, mas não conseguiu.
— E em que exatamente você está pensando agora? — inquiriu.
Serena torceu o nariz.
— Várias coisas — ela admitiu, abrindo os olhos castanhos — isso não vem ao caso.
— Não?
— Já que quer tanto saber — Serena devolveu, com uma expressão mordaz — seu cabelo...
Ele revirou os olhos.
— De novo essa história?
— Estou curiosa — ela respondeu, se aproximando — eu viro as costas por um instante e você decide picotar o cabelo igual uma adolescente rebelde.
— Ficou tão ruim assim?
Serena não disse nada, mas não era como se precisasse. Estava horrível e ele sabia disso. Nem queria ter cortado a droga do cabelo para início de conversa, mas aquele dia... arg.
Talvez precisasse meditar um pouco mais.
— Eu não disse isso — a voz de Serena invadiu sua mente, fazendo-o se virar para ela — mas precisa de alguns retoques na parte de trás. Está desnivelado.
Ele a encarou. Seus olhos tinham um brilho travesso.
— Vou procurar um barbeiro pela manhã.
— Besteira — ela respondeu, balançando as mãos — posso ajeitar para você.
Bucky apertou os olhos.
— Só se quiser, é claro — ela imediatamente completou — não vou forçar a barra.
— Você quer mesmo cortar meu cabelo? Sozinha?
— Por que não? — e se aproximou um pouco mais — corto meu próprio cabelo desde os quinze anos. E antes era Isabel quem fazia isso. Acho que nunca pisei em um salão na vida.
Bucky a encarou outra vez. Seus cabelos estavam soltos e úmidos, como se tivesse acabado de sair do chuveiro.
Não pareciam desalinhados.
— Não me olhe assim — ela continuou — onde eu cresci não havia cabeleireiros e, mesmo depois de vir morar em Nova Iorque, continuei cortando em casa. Isabel não gostava de ir aos salões de beleza do bairro.
— Por que não?
— Ela dizia que não entendiam o estilo dela. Mas, se quer saber, ela sempre foi meio paranoica. Não deixava desconhecidos se aproximarem, e era desconfiada demais. Comigo, principalmente.
Serena deu de ombros, como se não fosse grande coisa, mas apoiou uma das mãos sobre o colo, como se estivesse revisitando uma memória antiga — e doce.
— Tudo bem — ela emendou, provavelmente porque notara o olhar cáustico dele — eu não colaborava muito. Sempre fui o oposto dela, como você bem deve ter reparado. Curiosa e gostava de conversar com as pessoas. Isabel sempre tinha que ficar em cima de mim para que ninguém, nas palavras dela, "me levasse embora".
Serena deu uma risadinha, a qual Bucky apoiou, porque era bem a cara dela fazer algo do tipo.
Ela continuou falando:
— Sendo bem sincera, acho que nunca senti vontade de frequentar salões de beleza. Essas coisas são desnecessariamente caras e os cortes de cabelo de Isabel faziam muito sucesso na escola. Minha avó tinha bom gosto.
Ele sentiu a língua queimar.
De repente, ficou curioso. Tinha tantas coisas sobre Serena que gostaria de saber: o passado dela, como havia acabado ali, do outro lado do mundo, a relação com a avó adotiva... mas tudo o que saiu de sua boca foi um ruído de concordância.
— E aí sargento, vai me deixar cortar ou não? — Ela perguntou, notando o silêncio dele. E o encarou. Com expectativa, como se fosse um grande desafio.
Bucky então correu os dedos pelo que tinha sobrado do cabelo, sentido os fios claramente desalinhados e mal cortados. Não tinha como ficar pior do que aquilo, concluiu. No pior cenário, rasparia a cabeça — cabelo era cabelo e, eventualmente, cresceria.
— Claro, coisinha.
Ela deu um sorrisinho e bateu palmas.
— Vou pegar minhas coisas. Já volto.
Mas antes que Bucky pudesse retrucar, Serena já estava a meio caminho da porta.
✧❄✧
— Seu cabelo sempre foi assim? — ela murmurou, enquanto passava um óleo com cheiro de uva em seu couro cabeludo, massageando em movimentos circulares — comprido, eu quero dizer.
— Como assim, comprido?
— Você sabe, nessa pegada roqueiro alternativo.
Ele fechou a cara. Não sabia se estava ou não debochando dele.
— Estou curiosa — ela emendou, jocosa — não encontrei nenhuma foto antiga sua na internet.
— Há fotos minhas no museu.
— Me refiro a fotos de verdade — a coisinha se corrigiu — as fotos do tempo do exército não contam.
Bucky refletiu por um momento.
Ele estava sentado no meio da sala, com Alpine — que tinha dado um jeito de se enfiar ali em algum momento — enrolada em seu colo, tirando uma soneca.
Serena tinha trazido de seu apartamento uma maleta que mais parecia com um salão de beleza portátil. Nunca na vida Bucky tinha imaginado que era possível um único ser humano acumular tantos cremes para cabelo diferentes — mas ela era uma entusiasta.
No chão, os fios de seu cabelo escuro estavam espalhados por todo o cômodo. Encontraria cabelo pelos próximos seis meses, sem dúvidas. Nada daquilo o incomodava, no entanto.
Ele encarou o reflexo na televisão desligada.
— Não — ciciou.
Os olhos estavam completamente focados no homem que o encarava de volta, uma figura abstrata e que ainda não reconhecia direito.
Ele continuou falando:
— Quando era mais novo, minha mãe o mantinha bem curto. Acabei me acostumando. — Uma pausa. Provavelmente aquilo seria o mais perto que Bucky chegaria daquela outra vida. Ele esticou os lábios. — Entrar para o exército não ajudou, como pode imaginar.
Os dedos pequenos e habilidosos de Serena então puxaram mais uma mechinha, que ela repicou em segundos — usando uma tesoura grande e afiada demais para seu gosto.
— Bom, não posso dizer que desgostava do estilo Black Sabbath, mas... até que ficou bom assim, sargento — ela murmurou, entregando um espelho que estava apoiado na maleta — realça seus olhos.
Dito isso, Bucky se voltou para Serena, que analisava as pontas do cabelo dele meticulosamente, como se buscasse por imperfeições.
Mais uma vez ele podia ouvir o coração dela batendo. A respiração. O cheiro...
Ele puxou ar para os pulmões. E expirou. A sala tinha o cheiro dela. Ele realmente gostava daquele aroma. E ela estava tão perto...
— Como posso agradecê-la por isso? — e esticou os lábios.
— O que posso dizer? — disse ela — é um dom.
Ele revirou os olhos. Serena, por sua vez, deu uma risadinha fofa.
Feito isso, sentou-se ao lado dele, olhando para o espelho que Bucky ainda segurava e se aconchegou ali.
Ele não disse nada — em partes porque gostara daquilo. Gostava da presença radiante dela e da forma como o fazia se sentir. Tranquilo e calmo. Ao virar o rosto, encontrou o reflexo cor de avelã dos olhos de Serena o encarando com ternura. Ele inspirou o ar dos pulmões mais uma vez. E soltou.
— Está se sentindo melhor, Bucky?
Ele baixou o espelho e virou na direção dela, confuso.
— Teve outro pesadelo, não teve? — Serena emendou, encarando-o como se fosse capaz de ler os pensamentos dele — por isso está todo elétrico e rabugento.
— Rabugento?
Ela ergueu um lábio para cima.
— Mais que o normal, eu quis dizer.
Bucky torceu o nariz.
Serena o desvendara sem esforço algum. A bem da verdade, daquela vez, não se tratava de pesadelo algum. Ao invés disso, o que o atormentava tanto desde a noite anterior era aquela maldita mulher que tinha invadido seu apartamento.
As respostas que está procurando estão aí dentro, dissera ela, antes de sumir.
Que respostas? O que ele deveria buscar? Onde?
— Ando tão previsível assim? — disse ele, mesmo assim.
Ela inclinou a cabeça.
— Ou talvez — contrapôs a coisinha — eu seja mais perspicaz do que pareço.
Ele riu. Não em um tom de deboche — porque Bucky sabia que Serena era muito mais astuta do que deixava transparecer — mas porque sentiu vontade.
— E você? — ele achou melhor mudar de assunto, antes que acabasse dizendo algo que massageasse o ego naturalmente elevado dela — por que veio correndo até minha porta mais cedo?
As sobrancelhas de Serena se franziram com a pergunta.
— Ah, eu queria...
— Queria? — Incentivou.
As bochechas dela ficaram em um lindo tom de pêssego. O coração acelerou um pouco.
— Deixa pra lá — disse ela — é meio bobo.
— O que houve? — Inquiriu ele.
Serena mordeu a parte interna das bochechas e desviou o olhar.
— Eu voltei ao centro poliesportivo hoje — ela confessou, como se fosse um grande segredo
Bucky pigarreou.
— E então?
— Eu entrei.
O sargento até que tentou disfarçar a surpresa, só que estava admirado. Não achava que Serena teria coragem de voltar até aquele lugar, não depois das coisas que tinha dito e a forma que olhara para a fachada daquele prédio, tão resignada.
Mas Serena Valente nunca deixava de surpreendê-lo.
— Isso é... bom — comentou ele, contendo a voz — como foi?
— Não é como se eu tivesse feito isso sozinha. Uma velha amiga praticamente me arrastou até lá — Serena respondeu, erguendo um lábio para cima — mas eu... gostei. Gostei muito.
Estava claro que Serena tinha gostado. Nunca tinha visto um sorriso tão doce na vida.
Ela continuou falando:
— Acho que quero voltar lá amanhã — os olhos dela estavam brilhando um pouco.
Era lindo.
— Devo isso a você também, sargento — Serena emendou, como se não fosse nada.
Bucky quase se engasgou com a própria saliva.
— Eu? Por que eu teria algum crédito por isso?
Ela se afastou um pouco e começou a reunir os inúmeros óleos e cremes para cabelo que tinha deixado espalhados pelo chão, guardando um a um na maleta. Devagar, como se estivesse sopesando a pergunta dele.
— Na ponte — disse ela depois de um tempo — você falou que eu era corajosa e que podia fazer qualquer coisa.
— Não estava mentindo — Bucky respondeu.
— Eu sei, eu sei. Mas aquilo ficou na minha cabeça — Serena o olhou de esguelha, com um pote na mão — então percebi que era hora de tomar coragem e fazer algo por mim mesma. Sabe, parar de empurrar os problemas para debaixo do tapete e agir. E, bom, acho que, em partes, devo isso a você.
Ele pensou em dizer que não tinha crédito algum e que era um feito único e exclusivo dela, mas aquilo começaria outro daqueles discursos de quem tem mais crédito pelo quê.
Por isso, Bucky simplesmente perguntou:
— O que pretende fazer agora? Vai sair do museu?
Ela torceu os lábios. O sorriso murchou um pouco.
— Não — murmurou — foi bom treinar outra vez, mas o que eu disse naquela noite era a mais pura verdade. Preciso continuar trabalhando se quiser um teto sobre a cabeça.
— E quanto sua chefe? Permitiu que voltasse?
Serena bufou.
— Erika anda me ignorando desde aquela maldita noite. Não atende o telefone ou responde meus e-mails. É frustrante pra cacete.
Quando terminou de guardar os frascos na maleta, Serena a empurrou para longe, enraivecida. O barulho acordou Alpine, que espichou o corpinho e saiu em direção ao quarto.
Bucky desviou o olhar da gata e perguntou:
— Mas você acredita que...
— Ela vai desencanar? — Serena completou por ele — é possível. Por algum motivo, Erika parece gostar do meu trabalho.
— Como conseguiu esse emprego, afinal?
Ela respirou fundo.
— Depois que fui chutada do programa esportivo da Universidade de Nova Iorque, acredite ou não, foi difícil conseguir um emprego — ela revelou. — Havia muita mão de obra disponível no mercado e poucas vagas. Milhões de pessoas desempregadas e desesperadas por um trabalho na cidade. A concorrência era gigantesca e ninguém estava disposto a contratar uma ex-ginasta falida e inexperiente.
Os olhos dela se anuviaram. Bucky se forçou a ignorar a mágoa reprimida que vira ali.
Serena continuou falando:
— Mas minha avó... — Ele sentiu os ombros dela tencionando, a mera menção aquela mulher — Isabel e Erika se conheciam. Isso foi o suficiente para que me aceitasse como sua assistente. Só que não foi por esse motivo que fiquei lá, eu acho.
Houve uma pausa. Ela parecia estar pensando nos motivos que levaram Erika Jones, tão impassível a contratá-la.
— Erika me tolera porque sou comunicativa e consigo mediar as negociações — concluiu — o museu está abarrotado de peças caras e doadores excêntricos do mundo todo. Ela precisava de alguém que tivesse o mínimo de traquejo social e não a envergonhasse.
— E qual a relação entre Erika Jones e... — ele mediu as palavras — a sua avó?
Outra pausa. Os ombros de Serena se tencionaram um pouco mais.
Ainda assim, ela respondeu:
— Minha avó... Isabel, antes da aposentadoria, trabalhava com Erika.
— No museu?
— Não — esclareceu e, timidamente, esticou os lábios, como se aquela fosse uma lembrança doce — pelo que me contou, ela trabalhava com peças históricas. Na juventude, viajou meio mundo atrás de obras de arte e pedras preciosas. Ela tinha um complexo de Indiana Jones, sabe?
Bucky torceu o nariz. Odiava quando Serena fazia referências a cultura pop.
— Indiana Jones é um personagem de um filme. Podemos assistir um dia desses — ela prometeu, abanando as mãos — o que quero dizer é que ela e Erika costumavam avaliar essas peças e destiná-las a seus devidos lugares.
— Então sua avó era... arqueóloga?
Serena, ponderou por um instante, como se fosse a primeira vez que pensava a respeito.
— Algo assim.
Ele estava prestes a perguntar o que diabos aquilo significava, mas ela foi mais rápida.
— Agora que não está mais parecendo um espantalho — a coisinha mudou de assunto — podemos continuar com a meditação?
A pergunta soou calma, mas a postura de Serena acendeu um alerta nele. Bucky então apertou os olhos. Havia algo ali. Algo que a coisinha não queria compartilhar.
— Achei que meditação fosse muito chato para você.
— Mudei de ideia — Serena resmungou. E cruzou as pernas.
Uma centelha de resignação se escondia nos olhos dela. Ele tampouco queria insistir no assunto.
— Tudo bem — respondeu ao invés, cruzando as pernas outra vez— onde paramos?
— Parada e em silêncio? — Serena arriscou.
Ele anuiu.
— Feche os olhos e respire.
Ela obedeceu. Bucky inspirou profundamente também, embora estivesse sentindo um incomodo no peito. Não saberia explicar o motivo, contudo.
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