ERA ESTRANHO, pensou Serena, enquanto encarava a tigela recém-tirada da geladeira, como poderia estar morta de fome e, ao mesmo tempo, sem apetite algum.

Como a mistura de mirtilo, aveia e iogurte que havia preparado no dia anterior — sua favorita — de repente, adquirira uma aparência tão insossa, apesar de continuar com o mesmo aroma frutado e doce de sempre?

Com um suspiro frustrado, ela colocou a tigela de volta na geladeira.

A bem da verdade, sabia exatamente o que tinha acontecido: não pregara os olhos durante a noite e, naquele instante, o corpo cobrava o preço.

E não tinha dormido porque, bem, não fazia ideia. Apenas passara horas e mais horas esparramada no sofá da sala, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo, enquanto encarava Grogu — seu novo melhor amigo — que a olhava de volta com aqueles olhos enormes de pelúcia. Aqueles olhos enormes e... fofos.

Ela ergueu um lábio para cima.

Apesar do que havia dito a Bucky na noite anterior, a verdade era que tinha amado o presente — mesmo com o tamanho exagerado — e àquela altura, já estava planejava mover sua coleção de Star Wars para a sala. Mas não eram seus devaneios de reforma que estavam tirando seu sono.

Em passos letárgicos, jogou o corpo no sofá outra vez.

Ela tinha uma esperança tola de que em algum momento entre a madrugada e o alvorecer, sua mente se acalmaria e, magicamente, todos os seus problemas seriam resolvidos.

Só que nada disso aconteceu.

Ainda pensava na derrocada de sua vida profissional, na espiral caótica de sua vida pessoal, no quanto queria voltar a treinar, e, no meio daquilo tudo, havia Bucky.

Bucky. Nem se passasse o resto da semana em claro — e definitivamente não esperava chegar a tanto — Serena poderia explicar o que diabos havia acontecido entre os dois na noite anterior. Se alguém lhe dissesse há três meses que estaria sentindo todas aquelas coisas pelo sargento, certamente teria achado graça.

Ela, com o coração acelerado por causa do sargento carrancudo do apartamento ao lado? Há!

Só que, naquele instante, Serena tinha plena consciência de que havia alguma coisa: um sentimento novo e que parecia crescer a cada dia que passava. Talvez não amor ou mero tesão, mas algo entre as duas coisas. E aquilo a assustava.

Assustava pra cacete.

Não o sentimento em si; não o fato de estar, aos poucos, se apaixonando pelo vizinho ou pelo fato de ele ser quem era. O que assustava Serena, na verdade, era a forma como ele reagiria, caso descobrisse. Isso porque Bucky Barnes era um teimoso incorrigível e a tratava como se ela fosse feita de vidro. Caso fosse descuidada, se fizesse qualquer movimento brusco, ele acabaria se fechando de novo — e não ela queria nada disso.

— Serena.

Ela piscou e virou o rosto na direção do corredor.

Havia uma pessoa batendo em sua porta.

— Serena, você está aí dentro? — repetiu a voz entre as batidas.

E era... Íris?

Serena andou a passos largos até a maçaneta e abriu, encontrando a amiga com o braço levantado e uma expressão surpresa, como se estivesse prestes a bater de novo.

— Íris.

— Serena.

Silêncio.

Nenhuma das duas disse nada no começo. Ao invés disso, ficaram se encarando no que pareceu uma eternidade. Íris parecia constrangida, e Serena... bem, Serena estava atônita demais para fazer qualquer coisa. Depois daquela noite no bar, quase um mês atrás, ela estava convencida de que Íris não queria vê-la nem se estivesse pintada de ouro.

Só que ali estava sua melhor amiga da época da faculdade, fitando-a com os olhos perfeitamente delineados de preto, sobrancelhas finas e roupas chiques de escritório.

— Não me lembro de ter passado meu novo endereço — Serena se manifestou quando o silêncio começou a incomodá-la.

— Ah, você não passou — devolveu a amiga — posso entrar? Prometo que será bem rápido.

Serena deu passagem a Íris, embora continuasse desconcertada.

— Então como...

— Rastreei seu telefone — Íris admitiu, como se não fosse grande coisa.

Serena pestanejou. Talvez tivesse ouvido errado.

— Você fez o quê?

— Não é nada demais — a amiga garantiu com um abano de mãos — eu só peguei o número do IP do seu celular e joguei no sistema de georreferenciamento dos satélites Stark para descobrir onde você mora.

— Georreferenciamento — Serena repetiu.

— Fica tranquila, não é como se qualquer um pudesse fazer isso — Íris disse aquilo casualmente, como se justificasse a invasão de privacidade — é um sistema muito restrito e nem é tão preciso assim.

— Você... como conseguiu o número de IP do meu celular? — Serena perguntou, embora sequer soubesse o que diabos aquilo significava.

— No bar — ela respondeu. — Aliás, não deveria largar seu telefone em cima mesa, é perigoso. Sabe quantos malucos estão à solta por Nova Iorque hoje em dia?

Serena não sabia se ficava impressionada ou assustada com a amiga.

— Já pensou em entrar para a CIA?

Íris não respondeu de cara. Ao invés, andou até o centro da sala e olhou ao redor. Primeiro para o sofá; depois para Grogu, com uma sobrancelha arqueada — como se a julgasse mentalmente; por fim, para a estante de troféus, se demorando ali.

Ela contemplou cada um dos troféus e medalhas com um sorriso magnânimo, como se tivesse ido parar em outra vida.

Encarou e encarou até que seus olhos alcançaram aquela foto em que as duas tinham mais ou menos vinte e um anos, na época da calourada. Ela tinha acabado de platinar o cabelo e Serena usava franjinha.

— Campeonato de ginástica interestadual — ciciou a amiga, nostálgica — 2014, sua primeira vitória na NYU, não foi?

— Sua também — Serena completou, mirando para o troféu que a versão mais nova da amiga segurava — torneio de robótica das indústrias Stark se bem me lembro. Depois que tiramos a foto, você me levou até o Shark’s pela primeira vez.

— E aquele também foi seu primeiro porre — Íris comentou com um olhar mordaz, como fosse motivo de orgulho desvirtuar Serena daquela forma — quase uma garrafa inteira de tequila e três Long Island Ice Tea. Como não entrou em coma alcoólico?

— Eu nunca tinha experimentado álcool até aquela noite — Serena se defendeu — nem sabia direito como funcionava o lance da bebida. A culpa foi toda sua.

Íris soltou uma gargalhada.

— É verdade — respondeu ela, quando recuperou o fôlego — quase me esqueci que você vivia de fotossíntese e barrinhas de proteína até eu aparecer na sua vida. Típico de crianças criadas com a avó.

Serena revirou os olhos.

— Ah, cale a boca.

— Também amo você, Serena — Íris devolveu, jogando um beijo no ar — mas não foi por isso que vim até aqui.

Serena sentiu a aura da amiga mudando.

As duas então se encararam de novo. Era um olhar tenro e cheio de compreensão. Não precisou abrir a boca para que Íris entendesse a mensagem implícita dentro de seus olhos.

Me perdoe. Me perdoe por ter sido tão idiota; por não a ter procurado antes; por ter agido feito uma maldita covarde; por ter escondido tanta coisa...

— Não tem pelo que se desculpar, Serena — disse Íris como se, de fato, pudesse ler a mente dela — sei que minha reação foi exagerada. Eu não tinha o direito de chegar do nada me intrometendo na sua vida. E, sei que não justifica minhas ações, mas estava tão frustrada e irritada naquela noite que me deixei levar pela raiva. O álcool piorou tudo.

— Isso não é verdade — Serena contrapôs — a culpa é toda minha. Você me ofereceu ajuda e eu agi como uma babaca ingrata. É que... aconteceu tanta coisa nos últimos meses e...

— Tudo bem — Íris a interrompeu, o olhar compreensivo — você não tem que me dizer nada se não quiser, mas quero que saiba: ainda sou sua melhor amiga e sempre vou estar do seu lado, independentemente do que escolher. E, se você não quiser mais ser ginasta, tudo bem. Não cabe a mim julgar suas escolhas. Vou respeitar e apoiar sua decisão, apesar de não concordar.

Serena sentiu os olhos se enchendo de água.

Tinha sentido tanta falta daquilo. Do apoio de Íris. De saber que havia alguém no mundo que a entendia.

— Obrigada.

— É para isso que os amigos servem, não é? — devolveu, enxugando a lágrima de Serena. — Mas não suma outra vez.

— Não vou.

— Estou falando sério — ressaltou Íris, apertando os olhos. — Se fugir de mim de novo, juro que mato você.

— Vou me lembrar disso na próxima vez em que um maluco superpoderoso sair por aí evaporando pessoas em Manhattan — Serena alfinetou, erguendo uma sobrancelha.

— Palhaça — retorquiu a amiga.

E riu.

Serena riu também.

Íris então foi andando até o quadro delas e o tocou, o olhar doce. Era uma época boa, tinha de admitir.

E ter a amiga ali, em carne e osso a fazia sentir tanta coisa. Tantas memórias, tantos sonhos e desejos...

— Íris — Serena chamou, olhando para foto também — e seu eu disser que mudei de ideia — uma pausa e um respiro. Ainda tinha muito em que pensar antes de tomar uma decisão, mas precisava dizer aquilo em voz alta. — Não sobre competir, mas acho que quero voltar a treinar.

Íris virou o corpo.

— O que aconteceu? Por que mudou de ideia?

Serena suspirou. Na manhã anterior, tinha saído de sua casa disposta de verdade a entrar no centro poliesportivo.

Uma olhada, tinha pensado, apenas uma olhadinha não faria mal. Mas quando a estrutura imponente do centro poliesportivo a atingiu feito um soco ela... bem, ela travou e a enxurrada de memórias daquela tarde de 2018 voltou para assombrá-la. Sufocá-la.

Então Bucky apareceu com aquele olhar preocupado e Serena acabou recuando feito um bichinho assustado. Só que enquanto conversavam, o sargento havia dito uma série de coisas que fizeram sentido para ela, uma ideia sutilmente plantada em seu subconsciente; vários “e se” brotando. E, agora, se via dividida entre a curiosidade e a resignação.

Queria voltar a treinar, mas ainda estava com medo. Muito medo.

Ela encarou a amiga que a olhava com cautela, como se Serena pudesse desabar a qualquer momento. Certamente, ponderou, Íris deveria estar pensando que ela era apenas uma menininha indefesa presa no corpo de uma adulta.

Não estava errado.

Estava realmente agindo feito uma criança medrosa, uma bela covarde.

Não diga que é uma covarde, a voz de Bucky dizendo aquelas palavras tão gentis ecoou em seus ossos.

Reverberando e reverberando.

Arg. Que piada. Era covarde sim.

Uma maldita covarde que vivia fugindo de si mesma. Mas..., mas... Bucky até que tinha razão. Tinha enfrentado bandidos, super soldados arrogantes de covinhas perfeitas e a madrugada nova iorquina sem titubear. Não deveria ter medo de um prédio idiota; não deveria ter medo de encarar seu passado.

Você é capaz de fazer qualquer coisa.

Você é capaz de fazer qualquer coisa.

Você é capaz de fazer qualquer coisa.

— A ginástica artística é minha paixão, meu propósito de vida — Serena confessou, olhando para Íris outra vez — e estou cansada de fingir que não é.

O olhar da amiga se iluminou e, antes que pudesse pensar, Íris estava abraçando-a com a força de um urso pardo.

— Isso é ótimo — disse, rindo — quero dizer, você não precisa fazer nada disso se não quiser. Eu estava falando sério sobre te apoiar em suas escolhas e tudo mais. Mas, se quiser mesmo... porra. O que posso fazer? Como posso te ajudar?

Serena ergueu um lábio para cima.

— Calma, calma — contrapôs — são apenas alguns treinos despretensiosos no centro poliesportivo novo a duas quadras daqui. Não tem por que fazer alarde.

— Quando pretende começar? — insistiu a amiga, ignorando completamente o que acabara de dizer.

— Foi um devaneio, Íris. Ainda não decidi nada — Serena respondeu dando de ombros — um dia desses, quem sabe.

Ou nunca. Vai saber.

Outro silêncio. Nenhuma das duas disse nada por alguns segundos. Até que Íris lançou um olhar cáustico para Serena.

— Troque de roupas — ordenou a amiga, empurrando Serena para o corredor — vamos resolver isso agora mesmo.

✧❄✧

— Você não precisa fazer isso.

Serena tinha repetido aquelas palavras por diversas vezes desde que trocara o pijama e seu querido par de crocs por um velho conjunto de academia azul piscina — que mantinha guardado no fundo da gaveta — e os tênis de corrida; continuou repetindo ao descer a escadaria do prédio, com sua bolsa de treino a tiracolo; disse mais algumas vezes enquanto andavam rua a rua, quarteirão a quarteirão.

Íris a ignorou em todas as vezes.

Até que:

— Ah, eu preciso sim — contrapôs a amiga, quando pararam em frente a enorme fachada do centro poliesportivo do Brooklyn — não vou correr o risco de vê-la recuando outra vez.

— Aquilo foi apenas uma epifania, Íris — Serena respondeu, enquanto encarava a construção gigantesca e apertava o medalhão de Isabel que pendia em seu pescoço — não quer dizer nada.

— Sei disso — disse Íris — e, no momento, estou apenas dando uma olhadinha no prédio novo do Brooklyn com a minha melhor amiga. Se ou quando quiser ir embora, é só me dizer. Podemos ir agora?

Mesmo resignada, Serena aquiesceu.

Elas foram andando até a entrada, que mais se parecia com uma grande redoma de vidro — graças aquelas janelas enormes — e andaram pelo hall principal. O espaço tinha uma dúzia pilares de aço e o piso era todo feito de cimento queimado em estilo industrial, onde dezenas de pessoas andavam para cima e para baixo, apressadas, indo para sabe Deus onde.

Serena estava atordoada.

Aquele lugar era tão desnecessariamente grande que precisaram pedir informação duas vezes até encontrarem o elevador que chegava até o tal estúdio — o qual só abria com o tal do cartão de acesso dado pelo Senador Orlov.

— Olha só, não tem sinal aqui dentro — comentou Íris, no instante em cruzaram a porta do elevador de vidro, o aparelho na mão — seria uma medida de segurança contra atletas russos infiltrados?

Serena, no entanto, ignorou a piadinha e torceu os lábios.

Seu olhar estava concentrado na caixa de metal e vidro, tão pequena e apertada quanto uma lata de sardinhas. Será que podiam usar a escadaria?

É claro que não, sua mente respondeu na hora.

O estúdio ficava no quinto andar, ao que parecia, e as escadarias eram exclusivas para os funcionários. Ela sentiu o estômago se contorcer. A cada momento estava mais convencida de que havia sido uma ideia de merda.

Talvez devesse voltar para casa e...

— Ainda se sente desconfortável no elevador? — Íris perguntou, tocando no ombro da amiga.

— Um pouco — Serena confessou — lembra disso?

Íris não respondeu. Ao invés, estendeu a mão para Serena, que aceitou sem pensar duas vezes. A amiga então apertou o botão do andar indicado e a porta de metal de se fechou, dando a impressão de que ficariam presas naquela caixa minúscula pela eternidade. Arfou.

— Claro que me lembro — falou Íris, apertando de leve a mão de Serena, como se quisesse tranquilizá-la — conheço seus segredos. Todos eles.

O peito de Serena apertou.

Enquanto subiam andar a andar, era possível ver boa parte do Brooklyn, do Calçadão Promenade até a Brooklyn Bridge em uma visão única e majestosa, o que tornava o maldito elevador um pouco menos assustador.

E a presença da amiga era... reconfortante.

— Íris — disse ela, depois de alguns segundos de silêncio — o que aconteceu naquela tarde antes do estalo... sinto muito.

Íris, no entanto, deu um olhar afável para Serena.

— Está tudo bem — ela garantiu — eu fiquei puta contigo no começo, admito, mas agora... entendo seus motivos. E não se preocupe, seu segredo está a salvo comigo.

— Mesmo assim, eu tenho que explicar — Serena insistiu.

— Depois — Íris murmurou, apontando para as câmeras.

Serena abriu a boca para protestar, mas a porta do elevador abriu e...

— Puta merda — sussurrou ela quando saltou para o lado de dentro da sala.

Nem em seus sonhos mais otimistas tinha imaginado um lugar tão incrível como aquele. Era um estúdio gigantesco, repleto de luz natural, com o chão totalmente emborrachado e tingido em tons de azul e vermelho e nele havia colchões, traves, caixas, argolas, trampolins... tudo milimetricamente organizado.

Ela inspirou e sentiu cheiro de álcool e lavanda, como se a sala tivesse acabado de ser limpa e arfou. No canto esquerdo, havia prateleiras com faixas para as mãos e pés, um potinho de carbonato de magnésio e um kit de primeiros socorros, além de uma geladeira repleta de isotônicos, água, frutas e barrinhas de proteínas.

Nada demais, se lembrava de Orlov ter comentado. Pura mentira. Aquele lugar parecia o paraíso das ginastas.

Serena endireitou os ombros, precisava se recompor.

— Esse lugar faz o antigo ginásio da NYU parecer um lixão — observou Íris olhando ao redor — eles mal higienizavam os colchões depois dos campeonatos.

Serena esticou os lábios.

Por um instante, se lembrou da quadra compartilhada do centro poliesportivo da Universidade de Nova Iorque — onde precisava competir com unhas e dentes por um horário de treino adequado com as equipes de basquete, softbol, judô, e todas as outras vinte categorias esportivas que, igualmente, usavam o espaço para treinar.

Íris tinha razão, não dava nem para comparar.

Um estúdio enorme com um único objetivo? Quase uma realidade paralela. Um mundo novo e muito, muito distante do dela.

— Isso é... demais — Serena concluiu.

— Põe demais nisso — Íris concordou.

Mas Serena balançou a cabeça.

— Não foi isso que eu quis dizer — disse, aturdida — me refiro a esse lugar, é realmente demais. Demais para mim. Eu nem deveria estar aqui para começo de conversa. Vamos embora.

— Nem pensar — Íris ralhou, segurando o braço dela — se seu amiguinho governador te deu o cartão dele e disse que poderia usar essa sala superfaturada em dinheiro público, certamente é porque viu algum potencial no seu trabalho. Não desperdice a oportunidade.

— Senador — Serena corrigiu e se desvencilhou da amiga — Orlov é um senador. E, definitivamente, não é meu amigo.

— Que fosse o papa, Serena — Íris grunhiu — olhe este lugar. Quantas vezes na vida uma oportunidade dessas bateu na sua porta? Não está nem um pouco tentada em usar a trave?

Serena então encarou aquela trave que estava estacada bem na sua frente. O equipamento tinha um brilho diferente e que a atraia como uma mariposa em direção a luz. Droga, Íris.

Ela respirou fundo e tirou os sapatos.

— Uma série — disse Serena, entregando sua mochila de treino para a amiga antes de ir em direção da trave — só uma e damos um fora daqui.

— É assim que se fala.

E foi com os murmúrios de incentivo de Íris que Serena chegou até a base do equipamento. Então, correu os dedos pela superfície e a perscrutou por alguns instantes.

Será que ainda lembrava os movimentos?

Será que ainda possuía o mesmo equilíbrio de antes?

Muitos “e se” ecoavam em um sua cabeça, mas, naquele instante, ela decidiu que os silenciaria. Apenas por um momento.

Começou em um salto de fé.

Com a elegância de um felino, Serena subiu na trave. Respirou fundo. Ergueu os braços. E... jogou o corpo para trás.

Uma.

Duas.

Três vezes.

E, logo depois de plantar os dois pés na pontinha da trave, impulsionou o corpo para trás em um salto mortal carpado: pernas estendidas, tronco dobrado para frente. Girou no ar com precisão e aterrissou com firmeza sobre a trave estreita.

Quando ergueu o corpo, seus dedos estavam trêmulos e o coração disparado. Tinha conseguido. Porra, ela tinha conseguido mesmo.

Do fundo do estúdio, gritinhos e uivos soaram.

— É disso que eu estava falando — celebrou Íris.

Ela segurava o celular com uma mão enquanto dava pulinhos de comemoração. Certamente a gravação sairia toda tremida, mas ela não parecia se importar.

Mesmo assim, Serena sorriu. Seus dedos tremiam e o coração batia tão rápido que mal cabia no peito. Era como se tivesse voltado no tempo. Não se sentia tão realizada há meses. Serena estava... feliz. Radiante. Parecia até que tinha encontrado uma parte de si mesma, uma parte que jurava ter perdido para sempre.

Aquele era mesmo seu propósito.

Aquilo a movia; a fazia se sentir... viva.

— E então... — cantarolou a amiga enquanto se esgueirava até a trave — como está se sentindo?

— Incrível — sussurrou.

Íris ergueu um lábio para cima.

— Ainda quer desistir da ginástica?

Serena não disse nada por um momento. Tinha gostado de sentir a adrenalina da trave outra vez? Sim, é claro que sim. Mas aquilo em nada contribuía com sua atual situação.

Todos aqueles motivos que a impediam de voltar a competir continuavam ali; motivos que estavam muito além de sua alçada. Mesmo assim...

— Acha que eu ainda consigo fazer o salto da morte? — Serena disse, erguendo uma sobrancelha.

Pensaria depois.

No momento, tudo que ela queria era aproveitar um pouco mais da trave, como se sua vida fosse mais simples do que, de fato, era.

Notas finais
Um dos meus capítulos favoritos até agora. Aos pouquinhos, vemos o desenvolvimento da Serena