Legacy | Bucky Barnes ︎
33 XXXIII
— NÃO PODE DIZER QUE NÃO COMBINOU COM O AMBIENTE — Bucky murmurou ao inclinar a cabeça, como se estivesse diante de uma obra de arte renascentista.
Serena, por outro lado, não sabia ao certo o que pensar.
O Grogu de pelúcia, deixado bem debaixo da janela, mais se parecia com um daqueles pufes de biblioteca — o que não era exatamente ruim, mas aquela coisa era grande e verde demais para o próprio bem. Levaria um bom tempo até se acostumar com a ideia de vê-lo ali, destoando da estética de tons neutros que havia montado com tanto zelo em sua sala de estar.
— Seu gato parece ter gostado — o sargento emendou, ao notar que James subira na pelúcia, já se preparando para tirar uma soneca.
— James dorme em qualquer lugar — ela rebateu, encarando o felino peludo esparramado em cima do pobre Grogu — não é parâmetro de nada.
— Não precisa agradecer — Bucky respondeu, com uma piscadela.
Serena ficou em silêncio. Achou melhor assim.
Em parte porque tinha gostado — um pouco — do presente. Mas preferia a morte a ter que admitir aquilo para o sargento.
Então, com uma aura altiva de dever cumprido, ele foi andando do meio sala até a batente da porta, o olhar se demorando na prateleira de troféus e fotos da época da faculdade. Parecia quer dizer alguma coisa. Não comentou nada a respeito, no entanto.
E Serena agradeceu aos céus por isso.
Ainda tinha muito o que pensar sobre o assunto "treino" e "centro poliesportivo" e a noite deles havia sido boa demais para ser estragada com um assunto tão espinhoso.
— Mas, só para você saber, me diverti muito hoje, Bucky — ela comentou despretensiosamente, enquanto o seguia em direção ao corredor do prédio.
— Eu também — ele admitiu, com um sorriso.
E parou.
Bem. Ao. Lado. Dela.
— Serena.
A forma como seu nome escapara dos lábios dele a arrepiara até o último fio de cabelo. Era casual e, ao mesmo tempo íntimo e... santo Deus, ele estava muito mais perto do que de costume. Só que, por algum motivo, nada daquilo a incomodava. Pelo contrário, na verdade.
Serena o queria ainda mais perto.
— Talvez — disse ela, em um ímpeto de coragem que nem sabia que tinha — devêssemos repetir a dose um dia desses.
E então diminuiu a distância entre eles, o corpo enorme dele assomando sobre ela.
— Se você quiser, é claro — completou.
E, para sua surpresa, Bucky ergueu um dos cantos dos lábios para cima e chegou ainda mais perto de seu rosto, inclinando o tronco em sua direção.
Perto ao ponto de suas testas quase se tocarem.
Em sua mão direita, jazia o lobinho que tinha ganho na feira e que ele carregava como se realmente tivesse apreciado o presente. Ela sorriu.
— Combinado — o sargento ciciou. E, com a mão esquerda, tocou o braço de Serena, que imediatamente sentiu os pelos se eriçarem. — Mas, se me permite, quero poder organizar as coisas do meu jeito.
— Ah é? — ela perguntou — posso saber o porquê?
Ele ergueu o pulso dela.
Lentamente.
Gentilmente.
— Porque, coisinha, como eu disse antes: gosto das coisas à moda antiga — Bucky fez uma pausa e a encarou profundamente antes de completar: — e, de onde eu vim, são os homens que chamam as mulheres para sair. Pode me chamar de velhinho, se quiser.
O coração de Serena parou por um instante.
E como não pararia?
Bucky estava olhando-a daquele jeito mordaz enquanto dizia que queria sair com ela outra vez, como se apreciasse sua companhia, como se realmente a quisesse por perto.
E a simples ideia de tê-lo para si a aqueceu por dentro.
Gostava do sargento, queria ser mais próxima a ele; queria que confiasse nela. E, quando depositou um beijo demorado ali, exatamente como havia feito no começo da noite... porra, como era possível que algo tão bobo a deixasse tão desconcertada?
Nunca precisei me esforçar muito para conseguir atenção de alguém, a voz dele ecoou em seu cérebro.
Mais do que nunca, aquelas palavras de Bucky fizeram sentido para Serena.
O desgraçado sabia mesmo ser charmoso quando queria.
Ele, maldito fosse, ainda tinha aquela habilidade de tirá-la de órbita, com suas covinhas idiotas e olhares profundos. E, enquanto os lábios dele tocavam sua pele, Serena sentiu o coração batendo descompassadamente no peito, de uma forma que nunca tinha sentido na vida.
— Obrigada pela noite — o sargento completou quando ergueu o corpo outra vez — não me lembro da última vez em que me diverti tanto.
Serena queria dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas seu cérebro tinha dado pane, e tudo o que conseguiu fazer foi acenar com a cabeça, sorrir feito tonta e soltar um murmurinho — que pode, ou não, ter sido interpretado como uma retribuição educada por ele. Ou um colapso nervoso mal disfarçado. Difícil dizer.
— Até mais, Serena — terminou Bucky ao soltá-la.
Ela deu um passo para trás, muito embora — em seu íntimo — quisesse que ele continuasse ali, tocando-a e olhando-a como se fosse a mulher mais linda da face da terra. Arfou. Seu coração continuou palpitando quando o sargento virou as costas, andando lentamente até o próprio apartamento.
Fechou a porta e respirou fundo. Contudo, seu coração ainda batia rápido enquanto marchava de volta para a sala e encarava a gigantesca massa verde estacionada na reentrância entre a janela e a parede — que, certamente, seria o novo lugar favorito de James, pela maneira como estava esparramado ali.
E, quando se sentou no sofá outra vez... o coração continuava palpitando. Forte e rápido como um tambor.
Serena então respirou fundo outra vez e... Santo Deus, a sala estava impregnada com o cheiro do perfume dele.
Ah, merda. Estava completamente fodida.
✧❄✧
Entrar em seu próprio apartamento era a última coisa que Bucky gostaria de fazer. Ao invés, o sargento queria poder passar o resto da noite com Serena, conversando e se divertindo, como se o mundo fosse um lugar mais simples. Um mundo diferente do que vivia.
Ele quase sorriu.
Naquele mundo, poderia ficar na sala dela, sorrindo feito um adolescente idiota, enquanto a coisinha repetia pela milésima vez que o Grogu não combinava com os tons de azul das paredes — embora tivesse notado a sombra de um sorriso escondido em seus lábios, e a forma como ela abraçara a pelúcia quando ele — supostamente — não estava olhando.
Naquele mundo, sua maior preocupação seria como poderia retribuí-la pela noite agradável que haviam tido, nos lugares para onde poderia levá-la. Em como poderia fazê-la sorrir.
Naquele mundo, poderia também sentir o tecido daquele vestido diabólico em os dedos, o aroma do perfume dela contra sua pele e explorar aquela boca perfeita, cor de ameixa. E, então... aquele mundo paralelo e perfeito se estilhaçou no instante em que Bucky colocou a mão na maçaneta.
Havia alguém dentro de seu apartamento.
Levou um quarto de segundo até que ouvisse a respiração entrecortada e as batidas letárgicas do coração de quem quer que estivesse do outro lado da porta.
Obviamente, não seria um ladrão. Não. Criminoso algum se esforçaria tanto para ocultar sua presença — ou seria estúpido ao ponto de tentar roubá-lo, para começo de conversa. O que só poderia significar que a pessoa ali dentro tinha outro objetivo.
Bucky encarou a porta que ficava do outro lado do corredor, e uma pontada de preocupação o atingiu. Teria de agir rápido. Em silêncio.
A adrenalina em seu corpo, no mesmo instante, correu feito fogo em brasa.
Quando girou a maçaneta, nem pensou no tamanho do invasor, na possibilidade de estar armado, ou de a coisa toda ser uma armadilha; apenas atravessou o batente, se postando no meio da sala em seguida. Ele então esquadrinhou o espaço e viu uma sombra perto da janela e... merda — era ela, a figura.
A figura que estivera naquele galpão de Vronsky, nas docas.
E em suas mãos jazia o caderno de capa vermelha de Bucky.
O sargento então encarou a figura, vestida com a mesma capa da última vez, que a cobria da cabeça aos pés. Seu corpo esguio congelou por um instante, como se ele fosse a última pessoa que esperava encontrar ali. No apartamento.
Apartamento dele, no caso.
— Quem é você? — o sargento disparou, embora não tivesse gritado quando o fez — o que está fazendo aqui?
A figura não respondeu. Ao invés disso, disparou para a janela em um rompante, jogando o caderno no chão. Bucky não hesitou; avançou na mesma direção e, ainda que tivesse chegado até a janela em menos de dois segundos, era tarde demais.
A figura já tinha se lançado do quinto andar e corria pelas ruas do Brooklyn, incólume, fugindo outra vez.
Ele não pensou duas vezes.
Com um pequeno impulso, se lançou da janela e, com a graça de um felino, pousou na fachada do Cornélia, um dos joelhos apoiados no chão. A rua — graças ao bom Deus — estava vazia e não demorou muito até que encontrasse o vulto da figura se esgueirando até o beco mais próximo.
— Ei! — gritou, enquanto corria até ela.
Apesar da agilidade, a figura não podia competir contra um super soldado.
Não levou mais de dois minutos até que Bucky a encontrasse, subindo no telhado de um prédio vizinho. Não desistiu. Seguiu a figura, escalando a parede — de tal forma que deixaria o próprio garoto-aranha impressionado — e, no topo, a viu pulando de um prédio a outro. Ele apertou o passo, pulando prédio atrás de prédio, até que os dois alcançaram o fim do quarteirão.
— Não tem para onde fugir — Bucky anunciou ao encurralar a figura.
A figura não disse nada.
— Quem é você? — emendou ele, avançando um passo — o que fazia no meu apartamento?
Mas a figura continuava plantada no chão, sem mover nem um músculo. Sequer parecia respirar enquanto o vento sacolejava sua capa, revelando... nada.
Bucky mal enxergava um palmo a sua frente.
Estava nublado e nem mesmo as luzes infinitas de Nova Iorque alcançavam aquele telhado vazio. Ele apertou os olhos.
Mesmo que sua visão fosse consideravelmente melhor que a de um humano comum, ainda era incapaz de enxergar mais do que uma forma humana de aproximadamente um metro e setenta. Talvez fosse uma mulher, mas não tinha como ter certeza disso de onde estava.
Até que a figura segurou a base do capuz e o abaixou. Lentamente.
— As coisas fugiram do meu controle, James — disse uma voz feminina e lânguida — não sei se sou capaz de mantê-la a salvo.
O sargento forçou as vistas, mas não conseguia enxergar nada além de um par de olhos penetrantes e a sombra da silhueta daquela mulher.
— Quem — ele ciciou — quem você quer proteger?
— Eu subestimei nosso inimigo — continuou falando e ignorou a pergunta. — Achei que conseguiria ajeitar as coisas, mas... todo esse tempo aquela criatura asquerosa sabia o que ela era.
— Do que você está falando? — Bucky repetiu, enervado — quem é o nosso inimigo? Quem você quer proteger?
A mulher, feito um bicho assustado, recuou um passo se encostando no parapeito. Ele retesou. Estavam mais alto do que antes. O vento continuava batendo, balançando a capa. Ela tinha um ar imponente, altivo e perigoso.
Não estava lidando com uma pessoa comum, Bucky sabia. Respirou fundo. Precisava se acalmar e calcular os passos seguintes com parcimônia.
— Vi os nomes em seu caderno, James. Sei o que anda fazendo. — Entoou enquanto, arbitrariamente, ignorava as perguntas dele.
A bem da verdade, sequer parecia estar ouvindo-o.
— Quer mesmo se redimir por tudo que fez? — Inquiriu.
Claro que queria, quase gritou, sabe lá por quê. Céus, era o que mais desejava na vida, se livrar de toda aquela culpa.
— Então faça o que eu não consegui — disse ela.
Bucky piscou.
Será que tinha dito aquilo em voz alta?
— Acabe com isso — completou — antes que seja tarde demais.
Nada do que aquela mulher dizia parecia fazer sentido.
Quem era aquela mulher? Como sabia tanto sobre ele? Talvez estivesse em choque. Talvez fosse doida.
Àquela altura, não descartaria nenhuma hipótese.
— Eu quero ajudar — disse ele, optando por mudar a abordagem — mas preciso que responda as minhas perguntas. Quem é você? O que quer de mim? — praticamente implorou por uma resposta.
Houve uma pausa. Um silêncio fúnebre preencheu o telhado e a mulher subiu no parapeito. Bucky tentou avançar de novo, mas por algum motivo, suas pernas pararam de funcionar.
— As respostas que está procurando estão aí dentro, James — ela disse depois de um tempo, apontando para a cabeça dele — mas vai precisar cavar um pouco mais para encontrá-las.
Bucky tentou se mover outra vez, mas não conseguiu. Seus pés estavam plantados no chão, exatamente como acontecera da última vez.
Era ela.
A mulher tinha feito aquilo com ele.
— Como você faz isso? — ele conseguiu perguntar — o que você é?
— Acho que você já sabe a resposta para essa pergunta, não sabe?— disse ela, à guisa de maiores explicações.
O sargento estremeceu.
Naquele momento, as nuvens que cobriam a lua começaram a se dispersar e um feixe de luz atingiu o telhado. Mas antes que a forma do rosto dela ficasse nítida, uma forte vertigem atingiu Bucky, forçando-o a fechar os olhos por alguns segundos.
Acabe com isso antes que seja tarde demais, James, a voz ecoou em seus ossos.
Era um apelo tão profundo e angustiado que Bucky sentiu o peito apertar. Por favor. Ele então sentiu os músculos relaxando, os movimentos do corpo lentamente voltando ao normal e pode enfim abrir os olhos.
Mas quando encarou o parapeito, a mulher já não estava mais ali.
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