— ENTÃO... BROOKLYN BRIDGE? — Serena murmurou, enquanto caminhavam pela interminável faixa de pedestres da passarela.

Bucky não respondeu de cara.

Era horário de pico e o trânsito de carros, pedestres e ciclistas estava infernal, mas nada daquilo incomodou quando apoiou o corpo no parapeito de um dos mirantes e olhou para o horizonte, se desligando da cacofonia de conversas dos turistas. Sorriu. Era uma paisagem — quase — nostálgica.

De esguelha, notou que Serena o imitou, mirando ao redor com curiosidade, como se fosse a primeira vez que pisava naquela parte da cidade.

— Não gosta da vista? — ele perguntou, virando o rosto — dá até para ter um vislumbre da estátua da liberdade daqui se olhar naquela direção — e apontou com a mão.

Os braços dela repousaram sobre o queixo, os pés esticados enquanto sopesava o corpo no parapeito, encarando o ponto que indicara.

Serena ficou um silêncio por um tempinho, alternando o olhar entre outros pontos ao redor. Para os carros que passavam por debaixo deles; para as bicicletas do outro lado da passarela; para os barcos que sumiam no horizonte; e, por último, para Bucky com uma expressão indecifrável. Era difícil especular o que passava em sua cabeça naquele instante.

A bem da verdade, não tinham conversado muito enquanto cruzaram a cidade, apenas fizeram o trajeto em silêncio, sem se preocupar muito com a paisagem ou o caminho, como se cada um tivesse os próprios demônios para enfrentar; batalhas internas sendo travadas a cada passo.

Bucky sabia que aquilo deveria ser estranho e desconfortável — ao menos para Serena, que raramente ficava quieta — mas estava gostando daquele passeio mais do que deveria. A cada dia que passava, Bucky estava mais habituado com a companhia dela.

E, lentamente, o pesadelo da última noite esvanecia, a mente clareando.

— Que esquisito, não me lembrava dessa parte da ponte — ela disse então, esticando os lábios — se bem que... acho que nunca vim aqui andando.

— Nunca?

— Em geral prefiro evitar os pontos turísticos — Serena emendou — mas você até que tem razão. É muito bonita, a vista. Como descobriu esse lugar?

Ele sorriu.

— Eu vinha muito aqui — comentou, sem desviar o olhar do horizonte — é um lugar bacana. Tem o cheiro do mar, dá pra ver o Brooklyn, a ilha de Manhatan, os barcos, os prédios e o pôr do sol...

Serena estreitou os olhos.

— Vinha? Quer dizer... no passado?

Bucky assentiu, ciente sobre o passado o qual ela se referia.

— Bem, quando era garoto, Steve e eu tínhamos o costume de escalar em algumas dessas pilastras — sorriu, lembrando de suas desventuras adolescentes — subíamos até o topo e passávamos a tarde toda lá em cima.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— É mesmo? E ficavam fazendo o que, exatamente?

A memória arraigada dele e Steve, em outra vida, sentados na beirada das ferragens enquanto conversavam sobre o mundo, como se pudessem mudar as coisas com aqueles sonhos juvenis arranhou seu cérebro.

Sendo completamente honesto, a paisagem era muito diferente. Boa parte dos prédios já estava ali, mas não eram nada semelhantes aos arranha-céus colossais e brilhantes que agora cobriam até onde os olhos alcançavam. Ainda assim, aquele lugar, aquela velha ponte erguida por cabos de aço, era o mais próximo que tinha encontrado de sua época em todo o Brooklyn até então. Ele suspirou.

— Nada em especial.

Serena torceu o nariz.

— Não havia Netflix ou Smartfones naquele tempo, coisinha — o sargento continuou — as pessoas conversavam.

— Mas passar o dia sentado em uma ponte...

— Também íamos a Coney Island, mas apenas à noite — ele se justificou, sabe Deus por quê — quando ligavam as luzes e as feiras abriam.

Ela pestanejou.

— Coney Island? Naqueles parques de Coney Island, você quer dizer?

Bucky anuiu com um sorriso fraco.

— Tinha uma montanha-russa muito famosa naquele tempo, íamos todo final de semana.

Não sabia por que estava contando tudo aquilo a Serena quando, em geral, odiava falar sobre o próprio passado, sobretudo sua relação com Steve Rogers. Mas ela estava interessada, com aqueles olhos enormes brilhando.

— Steve enfiava jornal nos sapatos para ficar mais alto e conseguir entrar na montanha russa — Bucky continuou falando, como se fosse um segredo — era engraçado.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Jornal para ficar mais alto? — repetiu — desculpe, não sei se estou acompanhando a conversa.

— Ele tinha menos de um metro e sessenta naquela época — Bucky explicou, erguendo um lábio para cima — mas compensava com a teimosia — parecia muito com outra pessoa que conhecera a pouco, quis completar.

— Não é a primeira vez que o vejo falando dele desse jeito — Serena observou, olhando-o de esguelha — Steve Rogers. Como ele era, afinal?

— Achei que conhecesse a história dele de cabo a rabo — desconversou.

Não saberia dizer até que ponto estava disposto a falar sobre seu passado ou Steve com Serena. E como se soubesse disso, ela complementou, com cautela:

— Me refiro ao Steve Rogers como pessoa, não o subproduto da equipe de Marketing do museu.

Bucky inclinou a cabeça e sopesou a pergunta. Como ele era, o que representava para si...

— Steve e eu somos amigos desde... sempre, eu acho — o sargento respondeu, apesar da própria resignação — e não me lembro de um momento em que ele não tivesse sido daquele jeito. Teimoso. Altruísta. E com um senso de justiça que não cabia no corpo.

— Você falou igualzinho aos totens do museu — ela observou, afiada.

— Sei que às vezes parece forçado, mas o que dizem por aí sobre Steve Rogers não é propaganda — Bucky rebateu — apesar de certas coisas terem sido maquiadas para o público geral.

— Como por exemplo?

Ele ponderou por um momento.

— Ao contrário do que muitos pensam, o Capitão América nunca foi o tipo de soldado complacente que cumpre ordens indiscriminadamente. Não, ele tinha o próprio código ético e o seguia à risca — o sargento encarou Serena, que o encarava de volta com curiosidade — como pode imaginar, os comandantes não gostavam muito disso.

— Como quando se opôs ao tratado de Sokóvia e se tornou um fugitivo?

Bucky fez que sim com a cabeça.

— Steve era incapaz de assistir a uma injustiça e ficar parado. É isso que o fez ser quem é — o sargento continuou falando — e eu não estaria aqui agora se não fosse desse jeito. Em quase cem anos, Steve Rogers, o Capitão América, meu melhor amigo... ele salvou minha vida mais vezes que consigo contar.

Houve uma pausa. Ela ainda o encarava de um jeito pragmático.

— Como você consegue lidar com isso? — Serena perguntou, torcendo os lábios.

Ele apertou os olhos.

— Isso o quê?

— Tudo isso — Serena explicou, apontando para o horizonte — você presencia coisas inacreditáveis e age como se não fosse nada. Como é possível viver tanto, presenciar viagens no tempo, enfrentar alienígenas homicidas, bruxas, robôs e tudo mais e não... surtar? Acho que não aguentaria nem uma semana no seu lugar.

— Bem, eu costumo meditar pela manhã — e deu um olhar displicente.

Ela se virou para ele com um sorriso mordaz.

— Ah é? Adoraria ver isso, sargento.

Ele acenou com a cabeça.

— Quando quiser, coisinha — e deu uma piscadela.

Ela riu.

— E em que momento você decidiu que queria fazer essas coisas de super-herói? — Tornou Serena — isso não te assusta?

Bucky ponderou por um instante.

Não fazia ideia do momento exato em que sua vida tinha passado de "estou me alistando no exército para combater nazistas" para "lutar contra alienígenas com poderes cósmicos", mas a verdade era que, olhando em retrospecto, ele já não conseguiria se imaginar fazendo outra coisa, nem se quisesse. Bem ou mal aquilo estaria entremeado nele até a morte e, apesar de tudo, gostava de fazer parte daquele mundo. Contudo, herói...

Ele torceu o nariz. Não, essa palavra não lhe cabia. Nunca lhe caberia.

— Não sou nenhum herói, coisinha — Serena disse, imitando-o com aquele maldito tom arrastado e irritante — era que você estava prestes a me dizer, não era?

Ele franziu o rosto. Como ela...

— Pouco me importa o que acha de si mesmo, sargento — ela murmurou, sem dar margem para que ele argumentasse sobre o quanto estava enganada. — Minha percepção sobre você não vai mudar. É uma das pessoas mais gentis, altruístas e corajosas que já conheci na vida.

Serena deu um sorriso doce.

— E isso... isso não é exatamente o que um herói deveria ser?

Bucky, contudo, soltou uma risada anasalada e a olhou com desdém. Não havia sido uma atitude de uma pessoa gentil, ele tinha de admitir.

— Sinto em dizer que você provavelmente não conheceu muitas pessoas, coisinha.

Ela respirou fundo. Em seus olhos, havia uma chama de pura resignação.

— Você não precisa agir como se fosse uma cópia escarrada de Steve Rogers para ser um herói, sabia? Existem outras formas de ajudar os outros.

— Que seria? — Bucky perguntou em um tom irritadiço, embora seu corpo tivesse estremecido um pouco ao ser comparado com Steve de forma tão leviana.

— Inspiração, sargento — respondeu ela, encarando-o de uma forma que não conseguia compreender. — Acho que é por isso que as pessoas adoram tanto o Capitão América: porque ele tem toda aquela pompa de bom-moço e isso... bem, isso vende. É comercial, é inalcançável. As pessoas gostam de modelos irreais.

Houve uma pausa. E Serena tinha um olhar tenro quando tornou:

— Já você... a razão pela qual eu o acho inspirador é oposta. Você não é uma pessoa perfeita ou uma figura utópica, é apenas um ser humano tentando fazer a coisa certa.

— É um elogio?

Ela crispou os lábios.

— Claro que é — enfatizou — quando olho para você e sua trajetória, tudo que consigo enxergar é uma pessoa que tem todos os motivos para virar as costas para o mundo. Mas..., mas... você não fez nada disso.

Serena fez outra pausa.

— Sargento, você usa suas habilidades para ajudar os outros. E embora finja que não, sei que quer desesperadamente se redimir por algo que nem tem culpa e é tão... altruísta, apesar de tudo.

Ele inspirou, absorvendo as palavras de Serena. Ela continuou falando:

— Sim, eu sei o que você foi. Mas também sei o que você é. E tudo que vejo é um ser humano fazendo seu melhor. É louvável. E nobre.

Serena hesitou por um instante, antes de completar:

—Eu... eu gostaria de ser assim. Queria ser mais como você.

Ouvi-la falar sobre ele com tanto encanto, o fazia ter sentimentos conflitantes. A bem da verdade, Bucky sequer sonhara em ouvir algo do tipo de alguém.

Nobre.

Inspirador.

Ele?

Serena só podia ter perdido o juízo.

— Você... quer ser como eu? — Bucky perguntou, como se quisesse enfiar bom-senso naquela cabeça oca. — Por que diz isso?

Mas ela apenas o encarou. E sorriu.

— Se eu quero ser alguém capaz de colocar meus medos e egoísmo de lado e fazer o que é certo? — Seus olhos tinham um brilho lindo. — Sim, é claro que eu gostaria de ser como você.

— Serena, eu acho que você...

Ela não o deixou continuar.

— Bucky, ouça — entoou. — olhe para si mesmo. Você diz que não é uma pessoa boa e, mesmo assim, me salvou mais vezes que eu posso contar. Faz um esforço descomunal para ouvir minhas lamúrias e até me trouxe até Brooklyn Bridge apenas para que eu não tivesse um ataque de pânico na frente do centro poliesportivo. Quem faz isso?

Ele abriu a boca para protestar, mas Serena foi mais rápida.

— E, embora não acredite no que digo, lá no fundo eu sei que não chega nem perto do monstro que acredita ser.

Serena então esticou a mão em direção ao rosto dele, os machucados da barba quase inexistentes àquela altura.

Não o tocou, contudo.

Quando estava a um passo de encostar nele, recuou e deu um suspiro.

— Queria que você pudesse se enxergar da mesma forma que eu o enxergo.

Talvez fossem as palavras, talvez fosse o tom resignado dela, mas aquilo mexeu com ele profundamente.

Serena acreditava de verdade que Bucky era uma boa pessoa — apesar de tudo que tinha feito — e, de algum jeito, tentava trazer à tona uma parte dele que julgava estar adormecida para sempre.

Sua alma — se é que ainda tinha uma.

E aquela coisinha marrenta, com aquele olhar doce e sorriso afiado, também tinha uma habilidade sobrenatural de pegá-lo pela mão e o afastar da espiral depressiva a qual estava intimamente emaranhado desde que conseguira fugir das garras da Hidra.

Era como se, por um breve instante, os pesadelos e os fantasmas do passado já não existissem mais.

Ele quis sorrir.

Serena era como um arco-íris no meio daquela tempestade caótica que era sua mente. E, embora a voz da razão gritasse que não merecia nada daquilo, Bucky não se importou — ao menos não naquele instante, enquanto ela o olhava daquele jeito que realmente despertava nele o desejo de ser alguém melhor.

Alguém que fosse digno da atenção dela.

Começou devagar. Ele chegou mais perto dela, encostando o braço no ombro dela, como se fossem dois adolescentes no primeiro encontro.

Aquele era o braço de vibranium — frio e rígido — mas ela não parecia se importar, em vez disso, deu um sorriso tímido e apoiou a cabeça bem ali, como se não fosse extremamente desconfortável.

A mão de Serena lentamente escorregou para baixo e tocou os dedos de metal dele, entrelaçando-os. Bucky sentiu o coração palpitar pela primeira vez em muito tempo.

Não saberia explicar como — talvez Shuri tivesse atualizado o sistema de neurotransmissores ou algo do tipo e esquecera de mencionar — mas tinha certeza de que conseguia sentir o calor emanando naquela mão pequena e macia, assim como sentia os nervos que ligavam a carne ao braço mecânico relaxando um pouco.

Ele então a olhou de esguelha.

O vento batia em seu rosto, bagunçando os cabelos que escapavam do penteado. Ela estava encarando o horizonte outra vez, mas havia algo no olhar... uma distância. Como se pensasse em mil coisas ao mesmo tempo.

— Eu poderia dizer a mesma coisa sobre você — disse ele, depois de um tempo.

As bochechas dela ficaram avermelhadas, e o rosto se contorceu em uma careta.

— E não se atreva a dizer que é uma pessoa covarde — ele se adiantou em responder, da mesma maneira que ela fizera antes — porque em pouco mais de três meses eu a vi: reagindo a um assalto a mão armada; confrontando o Soldado Invernal em pessoa; fazendo o resgate de um gato na parte mais inóspita do Brooklyn bem no meio da madrugada; e impedindo um assalto no museu praticamente sozinha.

— Falando desse jeito parece mais impressionante do que realmente foi.

Mas era impressionante.

Ela era impressionante.

— Soldados com o triplo do seu tamanho não fariam a metade disso — Bucky garantiu — eu... eu tenho certeza de que você é capaz de fazer qualquer coisa. Sei que está confusa e com medo, mas não precisa apressar nem forçar as coisas.

Ela ergueu as sobrancelhas como se estivesse aturdida com as palavras dele.

— Quando ficou tão sentimental?

— Sabedoria de um velhinho? — Bucky respondeu, encarando-a.

Ela o encarou de volta.

Dez... quinze... trinta segundos.

Então eles riram, como se o mundo fosse um lugar simples.

O trânsito abaixo deles continuava caótico, assim como a passarela ainda parecia um formigueiro de tantas pessoas.

Aquilo não importava, contudo. Bucky continuava olhando para o rosto redondo e os olhos castanhos de Serena — que por sua vez, continuava ao lado dele, rindo.

Era bom. Tranquilo.

Nada poderia estourar aquela pequena bolha de paz.

Bucky então inspirou o ar fresco — ou o mais perto disso que conseguiria no meio de Nova Iorque.

Tinha cheiro de mar, borracha e do perfume dela. Céus, ele gostava daquele cheiro.

O cheiro dela.

— Bucky? — Serena murmurou depois de um tempo, o olhar desviando para o horizonte.

— Hun?

— Posso fazer uma pergunta pessoal?

Ela mordia o lábio inferior e se esforçava para não o encarar. Seu coração começou a bater um pouco mais rápido.

— Não vou falar sobre meu cabelo — ele sibilou.

— E a barba? — Serena devolveu, esticando os lábios.

Bucky não disse nada.

Achou melhor que não o fizesse.

— Não era isso que eu ia dizer — ela emendou depois de um tempinho em silêncio.

— O que quer saber então?

— Se pudesse, você gostaria de voltar? — a coisinha questionou — voltar para seu tempo, quero dizer. Década de quarenta, Steve Rogers e todo o resto.

— É impossível — ele respondeu de imediato — viagens no tempo são muito complicadas e perigosas. Steve só fez aquilo por quê...

— Eu sei, eu sei. O Capitão América tinha que devolver aquelas joias superperigosas para seus lugares de origem, o equipamento era limitado, babaquices de super-herói e tudo mais — Serena retorquiu — mas, hipoteticamente falando, se ele tivesse dado a chance de escolher, você gostaria de voltar até aquela época?

Ele a encarou.

— Tem alguma razão em especial por trás da pergunta?

— Eu fiquei... curiosa.

Ele suspirou, olhando para o horizonte.

Era obrigado a admitir que naquele tempo as coisas eram bem mais simples. Talvez fosse mais feliz por lá.

Depois da guerra, haveria décadas e mais décadas livres de ameaças alienígenas ou tecnologias complicadas demais para o próprio bem. Sem o Soldado Invernal, poderia finalmente voltar para casa.

Haveria sua mãe e irmã mais nova e Bucky ficaria feliz em revê-las — embora Amélia Barnes tivesse falecido pouco tempo depois de seu acidente naquele trem na Europa e, Rebecca tivesse se casado logo em seguida, deixando o Brooklyn.

Também, é claro, haveria Steve, que largara tudo por Peggy Carter. Seria uma vida tranquila. Comum. Como se nada tivesse, de fato, mudado.

Mas..., mas... será que Bucky gostaria de viver assim?

Ele poderia passar o resto de seus dias ignorando seu passado?

E o que diabos faria por lá? Em que poderia contribuir?

De canto de olho, Serena o encarava, esperando por uma resposta. O vento batia em seu rosto e o cheiro de seu perfume continuava impregnado nele. Era um cheiro doce e único dela.

Naquele instante, Bucky decidiu que amava aquele cheiro.

— Não — o sargento então respondeu — não voltaria — não tem nada para mim naquele tempo.

— E aqui? — Serena perguntou, de forma pragmática.

Ele sopesou a pergunta.

Havia algo para ele naquele tempo?

Não, não havia, sua mente imediatamente gritou.

Nada, é claro, além de culpa e remorso. A compreensão daquilo o atingiu feito uma flecha.

Bucky não podia voltar para seu passado, mas também não tinha se acostumado com o presente. A verdade era que não havia tempo ou lugar certo para ele.

Estava à deriva em um mar revolto sem um colete salva-vidas.

— Bom — Serena disse depois de um tempo, provavelmente chegando às próprias conclusões — sei que não é muito animador, mas eu estou aqui.

Bucky virou o rosto.

Suas mãos continuavam entrelaçadas e ele podia ouvir as batidas do coração dela.

Era... relaxante.

— Está, é? — sussurrou ele.

Ela acenou com a cabeça.

— Sempre. Você não precisa ficar sozinho, sargento.

Ele ergueu um lábio para cima.

— Obrigada, coisinha.

Por alguma razão, aquilo o fez se sentir melhor. Menos miserável.

E, pela primeira vez em muito tempo, Bucky não se sentiu tão solitário assim.