Legacy | Bucky Barnes ︎
31 XXXI
Notas iniciais
FAZIA MUITO TEMPO DESDE A ÚLTIMA vez em que havia tocado em um volante.
Tanto tempo que Serena quase tinha se esquecido do quanto gostava de dirigir; de como era bom sentir o vento batendo no rosto e em como adorava acelerar pela estrada ouvindo o ronco da boa e velha caminhonete de Isabel: uma picape sierra de 1986 cinza, que embora já tivesse visto dias melhores, continuava sendo seu maior tesouro.
Se bem que acelerar era um eufemismo muito generoso, visto que, com aquele trânsito infernal de Nova Iorque, mal conseguia passar dos cinquenta por hora. Pelo menos, concluiu, a música era boa.
Na rádio AM tocava uma música animada do Queen, a qual fazia questão de cantarolar enquanto esperava o semáforo abrir.
— Vai me dizer por qual motivo me arrastou para fora do apartamento em plena noite de sexta-feira? — Bucky resmungou, desligando o rádio.
— Estraga-prazeres — Serena protestou, voltando a realidade.
Direção. Bucky e tudo mais.
Precisava focar.
— Estava na melhor parte — emendou, torcendo os lábios.
Ele, contudo, apenas a encarou.
— Coisinha...
Ela ergueu um lábio para cima.
— Duas vezes por mês, preciso tirar a picape da garagem para não estragar o motor. Recomendação do mecânico — uma mentira descarada, obviamente.
Mas Serena precisava de um bom motivo para tirá-lo da toca.
Depois da última conversa que tiveram em Brooklyn Bridge, Bucky parecia... triste. Mais do que isso, o sargento estava com aquela aura melancólica de quando ficava remoendo o passado e vê-lo daquele jeito... doeu.
Claro, ele tinha dito com todas as letras que não gostaria de voltar para a década de quarenta, mas Serena não era burra. Sabia que ele se sentia sim desconfortável no século vinte e um e que aquilo o incomodava mais do que deixava transparecer.
Era óbvio que estava incomodado, pensou.
Bucky estava sozinho ali e seu único amigo, Steve Rogers tinha... arg, era melhor não se aprofundar naquilo.Suspirou. Queria poder fazer alguma coisa por ele.
Só que não havia absolutamente nada que pudesse ser feito para remediar aquela situação em específico — ao menos não até que Serena descobrisse como construir uma máquina do tempo do zero.
Foi quando se lembrou das — várias — menções dele a Coney Island e pensou: por que não? Talvez fizesse bem para o sargento. Eles tinham mesmo combinado de ir até aquela parte da cidade há um tempinho. Ou algo assim. Serena ergueu um lábio para cima.
Será que ele sequer lembrava daquilo? Fazia tanto tempo...
Era possível que não, a bem da verdade.
Tudo bem, talvez a coisa toda fosse um capricho dela; uma partezinha de Serena — uma parte grande, sendo completamente honesta — precisando desesperadamente se divertir e que, convenientemente, tinha visto um anúncio daquela montanha-russa de madeira em Coney Island. A mesma que Bucky tinha mencionado antes; a mesma que havia visitado na infância com Isabel.
E, talvez, aquela parte dela quisesse companhia enquanto passeava pelo parque; alguém que a ouvisse e fizesse se sentir melhor consigo mesma. E, talvez — apenas talvez —aquela mesma partezinha indolente de si quisesse também uma boa desculpa para passar mais tempo com Bucky.
Talvez. Hipoteticamente falando, é claro.
Ele apertou os olhos, como se estivesse ciente dos planos mirabolantes dela.
Serena, por sua vez, bufou. Odiava quando Bucky fazia aquele olhar displicente.
— Ok, ok, você me pegou. Eu queria que fosse surpresa — admitiu Serena, sem tirar os olhos da estrada — e, se usássemos o metrô, não seria a mesma coisa.
— O que está tramando, coisinha?
— Você já vai descobrir, sargento — ela então o encarou de esguelha e mordeu o lábio ao ver a expressão emburrada que brotara no rosto dele — será que tem como ligar o rádio de novo? Don't Stop me Now é minha música favorita e ainda falta um pouquinho até chegarmos.
— E por que não viemos com a minha moto? — Disse ele, ignorando o pedido — teria sido bem mais rápido.
Ah, ela sabia daquilo, pensou, torcendo o nariz.
Tinha memórias bem recentes de Bucky Barnes — sem capacete — riscando o asfalto feito um lunático, no meio da madrugada com sua maldita moto, enquanto ela — também sem capacete — se agarrava à cintura dele, rezando para não cair e morrer. Não subiria naquela coisa de novo nem que lhe pagassem.
— Tenho um gato que depende de mim, muito obrigada.
Bucky ciciou alguma coisa que poderia ou não ter sido "dramática".
— E, como acabei de dizer, é uma surpresa — ela emendou, ignorando a pose rabugenta dele — se você soubesse para onde estamos indo não teria graça alguma.
— Pode, pelo menos, me deixar dirigir sua picape?— Ele insistiu — você é lenta demais.
— Em primeiro lugar: ninguém, além de mim, dirige a picape de Isabel. Nunca. — Serena retrucou. — E, obedecer a as leis de trânsito não é "ser lenta." Nem todo mundo tem a porcaria de um peitoral indestrutível igual ao seu.
Ele abriu a boca, mas não disse nada.
— Além disso — continuou ela, antes que o sargento ousasse argumentar — não paguei pelo seguro de super-herói e não vou me arriscar com você brincando de Dominic Toretto pelas ruas de Nova Iorque.
Bucky apertou os olhos.
— Seguro de super-herói? — ele repetiu.
— Você sabe — Serena disse — seguro completo de proteção em caso de invasões alienígenas, criaturas verdes, feitiços e super soldados viciados em adrenalina. Esse até que é recente, sabia?
Ele piscou.
— Isso não existe — disse o sargento, ignorando a última parte.
— Claro que existe — devolveu ela ao parar em um semáforo. E, logo depois de uma breve pausa para atravessar o cruzamento, prosseguiu com a explicação: — o que você acha que acontece com as pessoas comuns depois de ter o SUV da família destruído porque o Hulk precisava esmagar alguma coisa?
— Você está exagerando — ele insistiu.
Sem desviar o olhar da estrada, Serena ergueu uma sobrancelha.
— Estou?
Silêncio. Bucky não sabia como responder àquilo, ao que parecia. E a julgar pela careta dele, era bem provável que estivesse relembrando das vezes em que a cidade de Nova Iorque ficou à beira da destruição por causa de algum super-herói nas últimas duas décadas.
Por alto, Serena pensou em quatro.
— Vai me contar para onde diabos está me levando ou não? — Ele tornou, depois de um tempo.
Ela deu uma risadinha. Ah, então ele estava irritado.
— Não — Bucky respondera por ela — é claro que não — e virou a cara para a janela, o boné tampando boa parte da cara.
Deus, era como lidar com uma criança, pensou Serena ao ligar o rádio outra vez. E continuou dirigindo sem dizer mais nada, a música ecoando dentro do carro.
Logo depois de atravessar a ponte de Gerritsen e cruzar pelos píeres cheios de embarcações ancoradas, Serena alcançou a avenida principal e continuou acelerando, enquanto a paisagem mudava.
De uma pequena reserva ambiental para uma área residencial, e, quando atravessou o cruzamento para a avenida Surf e virou à esquerda, finalmente conseguiu enxergar o calçadão e a costa, onde ondas letárgicas alcançavam a areia da praia de Brighton.
Estavam em Sheepshead Bay.
Ela sorriu. Apesar de não ser nova-iorquina de nascença, adorava a península de Coney Island.
O lugar cheirava a água salgada, algodão doce e tinha a atmosfera vibrante das luzes de todos aqueles parques de diversões, dos eventos temáticos e a coisa toda era tão... mágica.
Mais do que isso,Coney Island havia sido o primeiro lugar que Serena havia visitado depois de se estabelecer em Nova Iorque.
Tinha mais ou menos dez anos na época e nunca vira nada parecido. Tantas cores. Tantos brinquedos. Um mar de pessoas correndo e se divertindo. Ela ficara deslumbrada.
Se lembrava com carinho de Isabel segurando em sua mão e levando-a para comer cachorro-quente, nas barraquinhas de jogos, andar no carrossel e, depois, na montanha-russa... céus, ela amava aquela montanha-russa.
Bucky por sua vez, mantinha o olhar fixo na janela, desconcertado; como se mil coisas passassem por sua cabeça.
Com os vidros abaixados, Serena sentiu a brisa do mar beijando seu rosto e a cacofonia de sons do calçadão em seus ouvidos. Era uma mistura desconcertante de música, buzinas de carros, conversas e risadas, que somadas ao cheiro delicioso de açúcar queimado e fritura faziam aquele lugar ser tão aconchegante e caloroso.
Ela então parou o carro na primeira vaga que viu pela frente, embaixo de uma árvore perto da entrada do aquário de Nova Iorque. E quando o fez, notou que o sargento ainda observava ao redor, os olhos fixos nas barraquinhas e comidas da feira que jazia no outro lado da rua.
— Surpresa — Serena declarou, ao desligar o carro.
Ele dera um olhar indecifrável para ela. Será que ele tinha gostado? Odiado? Era impossível dizer.
— Por quê? — Bucky perguntou, abúlico.
— Por que o quê? — Serena devolveu a pergunta.
— Por que me trouxe aqui?
Ele tinha mesmo odiado? Ela sentiu o corpo retesar.
— Você me levou para um lugar legal mais cedo — explicou ela, resignada — quis retribuir a gentileza. Você não gostou?
— Não é isso. É só que... Coney Island...— ele ciciou bem devagar, como se precisasse de um tempo para absorver aquilo — me trouxe mesmo à Coney Island?
— Não é simplesmente Coney Island. Aqui é...
— Luna Park — Bucky respondeu por ela — eu... eu não fazia ideia de que esse parque ainda existia — o sargento hesitou um pouco antes de continuar: — aquela montanha-russaé a Cyclone — e apontou para a construção parcialmente coberta pelo muro do parque — ainda me lembro da inauguração dela. Vinte e cinco. Eu tinha uns oito anos e devo ter andado umas quinze vezes seguidas. Não acredito que ainda está ali.
Ele parecia verdadeiramente feliz. Os olhos azuis tinham um brilho leve e empolgado que Serena nunca tinha visto nele até então. Algo dentro dela se aqueceu ao ver aquilo.
— E ali era onde vendia o melhor cachorro-quente do mundo — o sargento emendou — porra, até o nome da loja é o mesmo.
Bucky parecia uma criança em uma loja de doces. O sorriso dele estava tão largo que Serena pode notar as covinhas de sua bochecha, próximas à curva dos maxilares enquanto apontava para os lugares, em um ritmo que ela não conseguia acompanhar.
Até que ele tirou o cinto de segurança — não que precisasse, de qualquer maneira — abriu a porta do carro... e saiu.
— Bucky? — Serena balbuciou.
Mas não teve tempo de reagir.
Em uma velocidade impressionante, ele deu a volta pela picape e abriu a porta do banco do motorista, enquanto o cérebro de Serena ainda tentava entender o que tinha acontecido.
Ele então sorriu e murmurou:
— Vamos? — e ofereceu a mão para ela.
Era a mão direita, a mão humana. E, ainda que estivesse coberta por aquela luva de couro de sempre, Serena conseguia sentir o calor da pele dele emanando sobre a dela quando aceitou o toque. Lentamente, Bucky ergueu o dorso e levou até os lábios, depositando um beijo casto, como se fosse um daqueles lordes ingleses das séries da Netflix.
Ela piscou.
Ok, aquilo havia sido completamente inesperado. Tão inesperado quanto o olhar penetrante dele, que a deixara completamente fora de órbita.
Às vezes, Serena se esquecia de que Bucky era um homem extremamente atraente e, quem diria, ele até que sabia agir feito um cavalheiro. E quando ele puxou o corpo dela delicadamente para cima, como se quisesse conduzi-la pelo calçadão... porra.
— Aonde vamos primeiro? — Serena perguntou, zonza.
Se era pelo excesso de estímulos sensoriais daquele parque ou pela gentileza contraproducente de Bucky, não saberia dizer.
Ele estar tão perto não ajudava.
Estava tão aérea que parecia até que seu cérebro tinha derretido.
— Já que se empenhou tanto para me trazer até aqui — disse Bucky, perto de sua orelha — por que não escolhe?
Serena então achou melhor olhar ao redor.
Eram tantas opções.
Ela mirou as barraquinhas; para os brinquedos do parque; para os estandes de tiro ao alvo cheios de bichinhos de pelúcia coloridos. E sorriu, colocando uma mão perto do medalhão escondido debaixo do vestido. Era nostálgico.
Na primeira vez que estivera ali, Isabel pegara um daqueles bichinhos para ela. Um cachorrinho azul celeste, que guardava carinhosamente no fundo do guarda-roupas do apartamento.
Aquele havia sido o primeiro presente que se lembrava de ter ganho de alguém.
Ela sentiu o peito apertar, como sempre acontecia quando pensava nela. E, antes que se desse conta, estava parada na frente do estande, encarando o caixa.
— Serena?
— Duas fichas, por favor — ela murmurou, tirando uma nota de cinco dólares da bolsa.
O caixa pegou o dinheiro e apontou para as espingardas d'água que ficavam fixadas na bancada.
— Primeira vez? — perguntou ele.
Serena aquiesceu.
— O jogo é bem simples — disse o caixa, em um tom lânguido — está vendo aquele botão na boca do palhaço? A espingarda tem força o bastante para apertá-lo e, ao fazê-lo, o balão enche. Quem estourar antes do tempo terminar vence.
Serena agradeceu a explicação e foi até uma das espingardas, com Bucky a tiracolo.
— O que pensa que está fazendo? — perguntou ele, altivo.
— Eu quero um bichinho — ela confessou, passando uma das mãos pela espingarda. Era mais pesada do que se esperava de uma arma d'água cor de rosa com estampa da Hello Kitty.
— Posso providenciar isso — ele ofereceu, enquanto analisava o alvo.
Serena, contudo, negou com a cabeça.
— Não, não. Pretendo fazer isso sozinha. Mas pode jogar também, se quiser — disse e apontou com a cabeça para o outro rifle.
Ele olhou para o caixa; para os bichinhos; depois para ela e esticou os lábios.
— E você pretende jogar contra mim, coisinha?
— Ah, sim?
— Em um jogo de tiro? — enfatizou o sargento — tem certeza?
Ele estava olhando-a de cima, como se fosse uma decisão extremamente idiota.
Provavelmente porque era mesmo.
Bucky era a porra de um militar, veterano de guerra, Vingador e tudo mais. Francamente, quais eram suas chances?
O que respondeu, no entanto, foi:
— Sim, Bucky, eu tenho certeza.
Bucky então deu olhar de quem diz "a escolha é sua" e foi até a espingarda que ficava ao lado dela — azul, com um adesivo do Capitão América desgastado.
Em seguida, ajeitou a postura e encarou o alvo outra vez, calculando a minuciosamente a distância entre a arma e o palhaço, como um predador antes de atacar a caça. Com a mão esquerda, ele ajustou a mira enquanto dedilhava o gatilho com a direita.
Serena tentou imitá-lo, embora fosse difícil. Ela não tinha a mesma firmeza nos braços — ou coordenação motora, a bem da verdade — que a dele.
Um momento depois, a buzina tocou, dando início ao jogo. E, merda, aquilo era muito mais difícil do que parecia.
— Tudo bem aí, coisinha? — disse ele, sem desviar o olhar de seu alvo.
Babaca, pensou ela. Bucky era um babaca. Mas era um babaca com uma mira perfeita.
Ao contrário de Serena, o sargento enchia o balão sem dificuldade alguma e, ainda por cima, zombava dela com aquele maldito sorriso indulgente. O sangue ferveu.
Não podia perder para aquele idiota convencido.
— Estou indo muito bem, obrigada por perguntar.
E então, após ajustar a mira de novo, o que apenas serviu para afastar ainda mais o alvo, Serena apertou o gatilho. Só que ao invés de acertar o palhaço, seu braço escapou e o jato de água alvejou o pobre caixa que estava de costas.
Ela murmurou um pedido de desculpas atrapalhado.
Ao seu lado, Bucky riu. Riu de verdade, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada que vira na vida. O demônio.
Àquela altura, o balão dele já estava pela metade.
— Está indo bem — debochou o sargento — mais um pouco e você consegue acertar a Cyclone.
— Ah, cale a boca — grunhiu ela.
Ele não respondera o xingamento, mas Serena sabia que ainda estava com aquele maldito sorriso cheio de covinhas fofas estampado na cara.
Ela então olhou para o alvo pela terceira vez e tentou se concentrar. Desta vez, contudo, optou por fechar os olhos e deixar o som da água que corria pelas engrenagens da pistola a guiarem.
Era um som alto, bombeando pela mangueira interna, como o próprio sangue que corria em suas veias. Serena sentiu os dedos formigando. Fez uma imagem mental do botão que ficava dentro da boca do palhaço e tentou concentrar toda a sua energia ali. Abriu os olhos e mirou, sem nem piscar enquanto encarava o alvo.
A água correu e correu e então...
O estampido de um balão estourando irrompeu.
— Temos uma vencedora — disse o caixa, meio emburrado.
Serena olhou para cima. Era o balão dela.
— Eu ganhei — ciciou ela — caramba, eu ganhei mesmo.
O caixa anuiu, resignado. Se era pelo fato dela ter ganho o jogo ou pelo banho que havia tomado, não saberia dizer.
— Pode escolher o prêmio, moça — ele resmungou mesmo assim.
Ela assentiu e deu uma risadinha enquanto encarava os bichinhos de pelúcia pendurados.
Eram tantos que a faziam se sentir uma criança de novo. Grandes e pequenos. De golfinhos a girafas e até um mini Grogu fofíssimo — e que ficaria lindo em sua estante de colecionáveis de Star Wars. Só que havia uma pelúcia escondida no canto da barraca que, imediatamente, captou sua atenção.
— Quero este, por favor — indicou ela.
Um instante depois, Serena pegou a pelúcia das mãos do caixa, como se fosse uma medalha olímpica, e foi em direção a Bucky, praticamente aos pulos.
— Parabéns — ele grunhiu, desgostoso.
Ah, o orgulho de macho dele havia sido ferido.
Serena, no entanto, não estava nem um pouco arrependida.
— Você é um péssimo perdedor, sargento — ela jogou mais lenha na fogueira, porque, bem, era divertido irritá-lo — não acha, fofinho? — e colocou o bichinho na frente de seu rosto, provocando-o ainda mais.
Ele fez uma careta.
— Muito engraçado, coisinha.
— Não fica assim — disse — aqui, pode ficar — e ofereceu a pelúcia a Bucky, que fechou ainda mais a cara — vocês até se parecem um pouco.
Não era mentira.
A pelúcia — razoavelmente grande — lembrava um filhote de lobo. O pelo era acinzentado, os olhos, azuis — em um tom bem próximo aos olhos de Bucky — só que, apesar de ser fofo, tinha uma expressão levemente irritada, como se odiasse tudo e todos, assim como... ora, assim como Bucky.
Relutantemente, o sargento pegou o lobo de pelúcia e a encarou, enervado.
— O que isso significa?
— Um presente — ela cantarolou — pra você.
O sargento a encarou por um instante.
Não era como aquelas encaradas normais e desconfortáveis que ele volta e meia fazia. Naquele momento, seu olhar era doce e límpido.
Ele então murmurou um obrigado letárgico, como se estivesse constrangido e se aproximou um pouco.
O mundo ao redor de Serena de repente parecia ter perdido a importância. Os dedos de metal dele, além da pelúcia, tocavam as mãos dela. Ele aprofundou o toque, fazendo movimentos circulares lentos.
Bucky sorriu.
Era um sorriso discreto e cheio de significado.
Os olhos cristalinos dele brilhavam enquanto a encarava como se ela fosse a única mulher na face da terra. Ela sentiu o coração palpitando. Nunca em toda sua vida ninguém a olhara daquela forma, com tanta intensidade e... devoção.
— Serena — ele ciciou depois de um tempo.
Ela arfou.
A voz rouca dele era desconcertante. Bucky estava um pouco curvado, como se quisesse alcançar o rosto dela.
— Sim?
O sargento não respondeu de cara.
Ao invés, se curvou mais um pouco e chegou perto do ouvido dela, de um jeito que a arrepiara até o último fio de seu cabelo. A respiração quente dele fazia cócegas em sua nuca.
Ele estava fazendo aquilo de propósito? Estaria apenas tirando sarro de sua cara ou será que também estava sentido todas aquelas coisas que ela sentia?
— Vem comigo — o sargento disse então contra o rosto dela, enquanto segurava gentilmente em sua mão, mais uma vez conduzindo-a pelo calçadão.
Ela não teve tempo de pensar ou forças para resistir. Apenas o seguiu.
— Aonde vamos?
— Até a galeria de tiros — ele falou pausadamente — quero revanche.
A última coisa que Serena conseguiu enxergar antes que ele praticamente a carregasse até a barraca seguinte era o brilho de diversão em seus olhos, assim como o sorriso de lobo em seus lábios.
Aquilo a abalara muito mais do que gostaria de admitir.
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