Legacy | Bucky Barnes ︎
27 XXVII
SERENA ESPEROU ATÉ QUE A porta do escritório de Erika Jones estivesse completamente fechada antes de se virar para a supervisora. Erika, por sua vez, apenas a encarou de cima abaixo com esgar — o que era de se esperar, visto que estava um caco — de sua cadeira de couro branco.
— Comece a falar — disse ela depois de um tempo, à guisa de cumprimento.
— O quê?
— Estou esperando você explicar o que diabos aconteceu nesta noite e por que tem uma geladeira montando guarda na frente da minha sala enquanto conversamos.
— Talvez tenha vindo pela mostra de vasos da Grécia antiga — Serena sugeriu, esticando os lábios.
Erika, lamentavelmente, não achou graça. Seus olhos negros penetrantes a analisavam com uma sombra afiada, feito um leão da montanha espreitando para atacar a presa.
— Não preciso lembrá-la de que tenho acesso total as câmeras de segurança do museu, preciso? — intimou.
Serena precisou de uma grande força de vontade para não revirar os olhos.
— Se chegou aqui tão rápido Erika, você já sabe o aconteceu — ciciou, displicente. Estava cansada demais para lidar com o gênio da supervisora — melhor que eu, certamente. O museu foi...
— Invadido por dois mercenários estúpidos o bastante para acreditar que poderiam simplesmente entrar aqui e roubar o escudo do Capitão América? — Erika a interrompeu, os dedos na ponte do nariz — essa parte eu entendi. O que estou tentando descobrir é o porquê daquele maldito Vingador estar se intrometendo onde não é chamado; quero descobrir como meu saguão recém-restaurado de cinquenta mil de dólares foi reduzido a uma piscina e, ainda quero saber por que estou com a impressão de que essas duas coisas estão relacionadas. Pode esclarecer para mim, querida?
Serena ponderou, as sobrancelhas arqueadas.
— Ele? — devolveu, cética — entre uma invasão, a tentativa de assalto e o homicídio, a presença de um Vingador aqui dentro é o que te preocupa?
A supervisora não disse nada a princípio. Apenas olhou para a tela do computador, provavelmente para as câmeras de segurança, com uma frieza invejável. E depois de longos minutos de sons irritantes do teclado, ela se dignou a olhar para Serena outra vez.
— Sempre que esses... indivíduos estão envolvidos — entoou baixinho, como se Bucky fosse capaz de ouvir a conversa — alguma catástrofe acontece.
Serena torceu os lábios.
— Você está exagerando.
— Estou mesmo? — ela respondeu, mantendo o tom de voz baixo e firme — Nova Iorque, Washington, Londres, Sokóvia, Nova Iorque outra vez... — Serena até tentou, mas não conseguiu formular um argumento para contrariá-la, por isso, manteve-se em silêncio — o legado de destruição os precede. E não vou permitir que transformem o museu em um maldito playground para essas... aberrações aprimoradas.
Aberrações aprimoradas. Algo em Serena se revirou com a afirmação, em como Erika usou o termo aprimorado — em geral, uma forma vaga de se referir a indivíduos com habilidades super-humanas — como se pessoas como Bucky fossem pária.
— É apenas uma feliz coincidência — disse, no entanto, sem emoção alguma — tenho certeza de que Bucky Barnes não tinha intenção de destruir o museu quando entrou — tampouco tentou, quase emendou, mas se conteve. Não era prudente provocar a fúria de Erika.
— Nunca é a intenção de ninguém destruir nada — Erika devolveu, torcendo o nariz — até o prédio todo arder em chamas e milhões de dólares em arte e história virarem pó.
Serena cruzou os braços. Era inútil. E, ainda que não tirasse razão de Erika em temer um incidente com aprimorados dentro do museu — porque, de fato, havia itens inestimáveis dentro daquelas paredes—, era injusto culpar Bucky por aquela situação.
— Não quero os Vingadores aqui — a supervisora completou — o melhor amigo do Capitão América ainda por cima.
— E qual o problema com ele?
Erika ergueu os olhos afiados.
— Não acha suspeito que alguém como Bucky Barnes, o Soldado Invernal, apareça do nada em um momento tão conveniente, Serena? — instigou, encarando-a — é quase como se ele soubesse o que estava acontecendo.
Claro que Bucky sabia, ele estava por perto naquela hora. Mas, só tinha entrado no museu por que... merda.
A culpa era toda dela.
Bucky estava na região, a última mensagem enviada por ele — vista momentos antes — mostrava que o sargento tinha se dado conta de que ela ainda estava trabalhando e decidiu... esperá-la? Serena pestanejou. Será que ele tinha mesmo ido até ali apenas por ela? Por quê? A troco de quê? Seria possível que estivesse de fato procurando-a naquela hora ou aquilo era apenas uma parte ingênua de seu cérebro lhe pregando peças?
— Bucky Barnes só quis ajudar — Serena esclareceu, evitando os rumos perigosos que seus pensamentos tomavam — não tinha como ele saber sobre os mercenários. Ou sobre o escudo.
Erika não respondeu de cara. Ao invés, olhou Serena de cima a baixo outra vez, como se pensasse em milhares de coisas ao mesmo tempo.
— Dispenso esse tipo de ajuda — a supervisora então respondeu, a voz enervada — e, se eu fosse você, também manteria distância. Apesar de ser bonito pra cacete, esse tipo só causa problemas.
Serena limpou a garganta, meio desconcertada. Erika não era do tipo que fazia insinuações. Ou piadas sórdidas.
— Nada disso importa agora — Serena resolveu mudar de assunto, porque francamente, ficariam dando voltas a noite toda no que dependesse de Erika — precisamos avisar a família de Dave.
O olhar da supervisora suavizou. Se fosse capaz de reproduzir emoções humanas, Serena diria que vira traços de compaixão naquela imensidão cor de ônix.
— Já estou cuidando disso — murmurou Erika, voltando para o monitor do computador outra vez — vou resolver essa merda toda antes que os parasitas cheguem e façam um circo em cima da situação.
— Parasitas?
— A imprensa. Políticos. Influencers digitais, ou sei lá como aqueles palhaços que gravam vídeos para o Tik Tok se chamam — Erika respondeu — qualquer um que tenha algo a ganhar nessa confusão. Não me surpreenderia se o Senador Orlov em pessoa cruzasse por aquela porta agora mesmo.
Serena olhou para a porta. O Senador Orlov não apareceu. Tampouco ficaria esperando-o. Estava cansada demais para aquela merda.
— Isso, é claro, inclui você — tornou a supervisora, quando Serena estava prestes a dar-lhe as costas.
— Eu? — respondeu ela, sentindo um arrepio na espinha — o que tenho a ver com isso?
Erika anuiu.
— Você estava aqui naquela hora, é uma testemunha ocular. Quando descobrirem, vão querer te fazer perguntas — ela explicou, como se estivesse falando com uma criança — e, pode acreditar, eles sempre acabam descobrindo.
— Não acha que está exagerando?
Erika arqueou uma de suas sobrancelhas finas e delineadas e encarou Serena profundamente.
— Você nunca lidou com essa corja, menina— disparou — é assim que as coisas funcionam. Pânico e alarde. Fazem tudo para se promover em cima de sensacionalismo barato e vão cercá-la feito abutres em cima de uma carcaça.
Serena contraiu o rosto.
— E o que espera que eu faça? Mude de nome? Pinte o cabelo de vermelho e me mude para a Latvéria?
Batendo os dedos em uma velocidade invejável no teclado, Erika manteve o olhar afiado no monitor.
— Eis o que vai acontecer — disse ela, apontando as unhas carmim para Serena, sem desviar os olhos da tela — saia pelos fundos; não olhe para ninguém; não fale com ninguém. Se possível, saia de Nova Iorque. Faça um mochilão pela Europa ou qualquer merda do tipo, mas fique bem longe dessa parte da cidade por algumas semanas.
A cor no rosto de Serena desapareceu completamente. Ela só poderia estar brincando.
— Está me demitindo?
— Gosto de chamar de férias compulsórias — corrigiu Erika, apática — não quero vê-la aqui até a poeira abaixar, Valente.
E Erika não precisou dizer mais nada para que Serena entendesse o recado. A queria fora dali o quanto antes. Naquele instante, melhor dizendo.
Ela então se virou outra vez, pronta para implorar que mudasse de ideia, mas a expressão da supervisora não abria margem para discussão.
— Mais uma coisa — entoou a supervisora, quando estava a meio caminho da porta — quando sair, não se esqueça de levar a geladeira junto — e voltou a olhar para a tela, a voz entediada.
Serena fez — de novo— um esforço monumental para não revirar os olhos, mas deu um aceno com a cabeça.
✧❄✧
Não era a intenção de Bucky ouvir a conversa, mas considerando que estava esperando por Serena encostado na parede que ficava bem ao lado da porta do escritório — e que sua audição era consideravelmente melhor em relação a um ser humano comum — foi inevitável.
Erika Jones, a supervisora da coisinha e encarregada do museu o odiava.
Não era como se ele se importasse com nada daquilo, é claro, mas a forma como tratava Serena, como ela fosse a culpada pelo assalto ou por qualquer coisa que aconteceria posteriormente o enervara.
E aquele assalto. A tentativa, melhor dizendo. Ainda não tinha conseguido digerir a história.
O que aquilo significava? Quem estava por trás daquilo? Estariam, de fato, atrás do escudo de Steve? Seria alguém tentando passar uma mensagem? Quem? Um grupo terrorista? A própria Hidra?
Não poderia descartar nenhuma dessas hipóteses.
Bucky sabia. Sabia desde o começo que era uma ideia de merda dar o escudo para o governo. Por que Sam nunca o ouvia? Se aquele cabeça dura simplesmente tivesse aceitado o manto, nada daquilo estaria acontecendo.
E por um momento, por um breve momento, pensou em ligar para Sam. Ah, como ele gostaria de esfregar na cara de Samuel Wilson o quão enganado estava e pegar o maldito escudo de volta, nem que fosse a força; se Sam não o quisesse, Bucky se encarregaria pessoalmente de mantê-lo escondido até que alguém adequado surgisse para assumir o legado de Steve — ou, pelo menos, não o enfiar na lama.
O sargento então pensou no escudo sozinho naquele vidro e no que tinha passado em sua mente naquele instante. Suspirou. Não. Bucky não podia fazer nada disso. Não era assim que as coisas funcionavam.
— Vocês são rápidos — disse alguém ao virar o corredor — não achei que os Vingadores chegariam aqui antes do amanhecer.
Bucky ergueu o rosto.
— Senador Orlov, estou representando o GRC. Meu departamento vai assumir o caso — emendou, enquanto se aproximava — sei que ouve isso sempre, mas preciso dizer que sou um grande fã, Sargento Barnes. Não tenho palavras para agradecer por todo o serviço prestado — e esticou a mão.
Bucky, contudo, não retribuiu o cumprimento.
— Tem alguma ideia do que houve? — ao invés disso, perguntou.
— É muito cedo para especular, acabamos de levar os mercenários para acareação — o senador respondeu — mas, se me permite, acho que nós dois sabemos exatamente o que estavam buscando.
Dito isso, o Senador Orlov apontou para o cartaz com o retrato de Steve segurando o escudo que jazia pendurado no quadro de avisos da parede oposta. Então ele tinha chegado a mesma conclusão.
Não que houvesse outra, a bem da verdade.
— Uma jogada arriscada — disse Bucky mesmo assim.
— E tola — o senador completou — o sistema de segurança que protege o escudo é o mais eficiente do país. Eles nunca teriam conseguido quebrar aquele vidro. Mas, depois de hoje, o movemos de volta para Washington. Apenas por precaução.
Bucky pestanjeou.
— Vão adiar a inauguração?
O senador suspirou.
— O pessoal do pentágono está de cabelos em pé, sargento. Acreditam que é um ataque direto ao governo.
Bucky ergueu uma sobrancelha.
— E você não?
Ele não respondera de cara. Ao invés, olhou para a porta do escritório de Erika Jones, como se estivesse pensando a respeito. Até que:
— Acredito que, se alguém de fato quisesse o escudo — disse ele — não teria mandado uma dupla de mercenários amadores.
— Acha que foi um aviso? — Bucky concluiu. Até que fazia sentido, visto o peso do legado daquele escudo. Tudo que representava, quem representava... — aviso para quem? Sobre o quê?
Orlov encarou Bucky de um jeito pragmático.
— É o que pretendo descobrir.
Bucky não disse mais nada, ao invés, encarou a porta do escritório, onde a conversa de Serena e Erika Jones seguia acalorada, embora já não estivesse mais prestando atenção nos detalhes.
Talvez fosse melhor interferir, pensou.Aquela mulher parecia estar comendo o fígado de Serena. Mas... o que diabos ele poderia fazer? Pressionar a megera contra a parede? Não, aquilo só pioraria a situação. Talvez fosse melhor...
— Mas se permite a opinião de alguém da velha guarda, sargento — o Senador Orlov então murmurou, trazendo Bucky de volta a realidade — o lugar de algo tão inestimável quanto esse escudo não é em museu algum.
Bucky olhou na direção dele.
— O quer dizer?
O senador ergueu um lábio para cima.
— Quero dizer que é um completo desperdício que um item tão simbólico para o país, para o mundo, simplesmente fique pegando poeira em um museu enquanto tantas pessoas por aí precisam de um herói de verdade.
O sargento fechou a cara. O que o senador queria dizer com aquilo?
— Estamos em um momento conturbado. Conflitos, guerras e crises estourando por todos os lados — Orlov continuou falando — as pessoas estão assustadas e desesperançosas, sargento. Precisam de um farol, de um símbolo. O mundo, mais que nunca, precisa do Capitão América.
— Não há nada que eu possa fazer a respeito, senhor — Bucky respondeu. E era a verdade. Não havia nada que pudesse fazer para mudar aquilo.
Era frustrante. Frustrante pra caralho.
— Que pena — lamentou o Senador Orlov — desde a partida repentina de Steve Rogers, penso em você como o candidato ideal para assumir o lugar dele.
Foi preciso de uma força de vontade imensa por parte de Bucky para controlar o ímpeto de revirar os olhos. De novo aquela maldita história?
O senador não entendia; Sam não entendia; Raynor não entendia; ninguém na porra do mundo parecia entender o que realmente significava ser o Capitão América.
E nada tinha a ver com aparências, soro de super soldado ou as propagandas espalhafatosas do governo. O Capitão América era um ideal. Era sobre proteger as pessoas; sobre fazer a coisa certa, sem se importar com o quão difícil possa parecer.
Era também sobre manter as esperanças de um futuro melhor.
Mas as pessoas simplesmente ignoravam aquela parte e só enxergavam o maldito escudo e o texto pronto do museu, assim como ignoram a lista quilométrica de motivos que o desqualificavam para assumir uma responsabilidade daquelas.
Bucky mal tinha esperanças para o próprio futuro. Como, em sã consciência, poderia ser o símbolo de alguém?
Ele então respirou fundo e respondeu:
— Há outros candidatos mais adequados do que eu para assumir o manto, senhor — embora o primeiro da fila seja teimoso feito uma mula, quase emendou.
E Bucky jamais estaria à altura do legado de Steve. Não era a missão dele. Nunca seria a missão dele.
— Entendo. Suponho que se vingar das pessoas que o prejudicaram nas últimas décadas, de fato, seja mais interessante — o senador respondeu, erguendo um lábio para cima — os termos da sua condicional foram bem flexíveis nesse aspecto, não foram?
O sargento retesou. Seus músculos de repente ficaram rígidos feito pedra. Como o senador sabia sobre o acordo dele com Raynor? Como era possível que soubesse sobre as reparações?
E por que havia um quê de passivo-agressivo naquela declaração?
— Com todo o respeito senador, mas não vejo onde isso lhe diz respeito.
Orlov esticou os lábios ainda mais. Não era exatamente um sorriso, mas Bucky já vira aquela expressão antes em outros homens. Nunca acabava bem.
Contudo, antes que o Senador Orlov pudesse responder, a porta do escritório se abriu e Serena cruzou o batente, com uma expressão resignada. Ela primeiro olhou para Bucky, depois para o senador, como se ele fosse a última pessoa no mundo que gostaria de encontrar.
— Senador Orlov — ela ciciou, desviando o olhar — senhor.
A expressão do senador mudou ao vê-la. O sorriso ainda era falso e típico daquela laia, mas a forma que ele estava olhando para Serena, como se ela fosse a coisa mais incrível do mundo, deixou Bucky incomodado.
— Nos encontramos de novo, menina — disse ele, tocando no ombro dela, como se a conhecesse a anos.
Serena, contudo, deu um sorriso abúlico.
— Já estou ciente sobre o que aconteceu nesta noite — ele emendou, sem dar espaço para que ela abrisse a boca — agiu como uma verdadeira heroína. É um grande orgulho para o país ter alguém como você na equipe.
Ela estremeceu. Uma sombra tomou conta dos olhos naturalmente brilhantes dela. Era um ponto sensível, Bucky sabia. Serena estava completamente transtornada pela morte do vigilante e a forma como o senador havia enfatizado aquilo, como se nada tivesse acontecido, beirava o deboche. Bucky travou o maxilar.
— Erika já deve estar esperando por sua chegada, senhor — Serena respondeu, mecanicamente — pode entrar.
Dito isso, deu um passo para frente e olhou para Bucky como se implorasse para que a tirasse dali. Serena não precisou insistir. Estava de saco cheio daquele homem e daquele maldito museu.
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