Legacy | Bucky Barnes ︎
28 XXVIII
— ENTÃO, RESUMINDO A HISTÓRIA — disse Bucky, ao sentar-se em um dos bancos imundos do metrô de Nova Iorque — o museu é invadido no meio da noite e eles te demitem como se a culpa da coisa toda fosse sua?
Serena, cansada demais para se preocupar com a substância gosmenta e cor de rosa incrustada no banco, sentou-se ao lado dele.
Ela havia passado os últimos vinte minutos resumindo a conversa com Erika no museu. Por alguma razão que não conseguia compreender, Bucky parecia estar mesmo interessado naquilo.
— Férias compulsórias, ao que parece — resmungou, abrindo as notificações do celular. Uma e meia da madrugada. James a mataria — mas, se tratando de Erika, quem sabe o que vem depois.
— E o que pretende fazer agora que...— está praticamente desempregada? Ele não precisou dizer.
— Dizem que Monte Carlo é ótima nessa época do ano — como se pudesse sequer sair do Brooklyn, completou em pensamento. Seria um verdadeiro milagre se o cartão de crédito tivesse limite para levá-la ao Novo México em um daqueles ônibus velhos caindo aos pedaços.
Bucky, ciente da complacência em seu tom, não ousou dizer nada.
— O que mais posso fazer? — ela então completou, num tom abúlico — além de me enfiar no apartamento e rezar para que esqueçam dessa merda o quanto antes, é claro.
— Poderia arrumar um hobbie, alguma coisa para se distrair um pouco — Bucky sugeriu. Serena não fazia ideia se estava ou não debochando dela.
Ainda assim, esticou os lábios.
— E qual a sua sugestão, sargento? Tricô? Xadrez? Vai me convidar para seu clube de aposentados? — provocou.
Ele, contudo, apenas a encarou.
— Você gosta de esportes, não é mesmo? — o sargento devolveu no mesmo tom, sem desviar o olhar — por que não volta a treinar?
Serena abriu a boca, pensando na imensa lista de motivos do porquê aquilo seria uma péssima ideia, as memórias de tudo que havia acontecido meses antes martelando. Lembrou-se também do senador e suas propostas, parado na soleira da sala de Erika quando estava a um passo de sair, encarando-a com aquele olhar perfurante.
Heroína. Ele a chamou de heroína. Que piada.
Heroína de quê? O que havia feito de extraordinário — além, é claro, de correr pelo museu feito uma gazela assustada enquanto o pobre Dave era... arg. Era melhor nem pensar muito a respeito.
Serena, contudo, sabia muito bem que a coisa toda era o sensacionalismo o qual Erika lhe alertara com tanta eloquência antes.
Ao menos, refletiu ao lembrar do cartão que ele dera, enfiado no fundo da mochila como se fosse uma bomba relógio, o senador não havia tornado com a história do centro poliesportivo no Brooklyn. Não teria presença de espírito — ou energia — o suficiente para lidar com a obstinação dele naquele momento.
— Não, isso não daria certo — ela respondeu, inexpressiva.
Bucky ajeitou a postura naquele banco — pequeno demais para alguém de um metro e noventa e tantos — e a encarou mais ainda.
— E por que não daria? — perguntou — você disse que parou de treinar por falta de tempo. É uma oportunidade e tanto para mudar isso, não acha?
Ah, ele se lembrava daquilo, pensou, mordendo a parte interna da bochecha. Claro que ele se lembrava daquilo. Aquela conversa fora há o quê, dois, três meses?
Mas, de um jeito estranho, parecia toda uma vida; como se fossem amigos de longa data.
— Não é assim que as coisas funcionam, sargento — Serena desconversou, tentando não demonstrar o desconforto em ser avaliada por aquele par de olhos azuis elétricos — a rotina de um atleta envolve diversos fatores; não são apenas treinos. É resistência física, consistência, disciplina... Não teria como, depois de quase um ano parada, eu simplesmente subir numa trave como se nada tivesse acontecido. Meu corpo sem soro de super soldado ou músculos infinitos não se acostumaria com aquele ritmo — meias-verdades e desculpas esfarrapadas era tudo que tinha saído de sua boca.
Sim, seria complicado voltar a treinar; sim, levaria muito tempo para voltar a forma que possuía antes do estalo; sim, ela precisaria fazer mudanças expressivas na própria rotina — alimentar, sobretudo — para encaixar os treinos com sua vida cotidiana e seria bem difícil no começo, mas.... não era impossível.
E Bucky parecia saber disso.
— A julgar pelo seu hábito de corridas matinais, estou seguro em afirmar que você não é uma pessoa sedentária — ele observou, a sobrancelha arqueada — e não estou dizendo para ir para as próximas olímpiadas. Pode começar devagar e só... treinar um pouco.
Tudo bem, o sargento tinha ótimos argumentos. Serena bufou.
— Obrigada pelo conselho, treinador.
Ele então deu um sorrisinho. Um daqueles malditos sorrisinhos enviesados, que mostravam suas covinhas irritantemente fofas. Era ridiculamente presunçoso e complacente e... doce. Arg, de certa forma, era louvável o esforço de Bucky em demonstrar gentileza para com ela. Mas... por quê? Por que se dar ao trabalho?
Serena desviou o olhar e não disse mais nada.
Mirando ao redor, notou que aquele vagão era enorme e deprimente.
As luzes compridas e amareladas piscavam a todo instante, como se não fossem trocadas a décadas e as rodas do vagão tremeluziam a cada curva, dando a impressão de que o carro descarrilharia a qualquer momento. E Bucky... bem, ele se mantinha imóvel e taciturno feito uma estátua, o olhar fixo em algum ponto aleatório entre a janela e a porta oposta, a testa franzida como se pensasse em tudo e nada ao mesmo tempo.
Havia sido um dia e tanto.
O sargento certamente deveria estar matutando sobre o assalto, embora Serena achasse difícil que ele quisesse compartilhar o que quer estivesse se passando dentro daquela cabeça centenária com ela. Suspirou. A bem da verdade, era quase um alívio.
Não queria ouvir mais nenhuma palavra sobre o assunto, não queria pensar a respeito do que tinha feito com aqueles mercenários e a fonte... Bucky estava certo. Tinha escapado naquela noite por pura sorte, mas precisaria ter mais cuidado no futuro. Suspirou. Espantar aquilo, no entanto, apenas abria margem para que as palavras do sargento ecoassem dentro dela.
Treinar por treinar... talvez... ela piscou e virou o rosto para a janela, embora não houvesse nada para ver além dos túneis concreto do lado de fora.
Nenhum dos dois disse mais nada enquanto cruzavam a cidade de Nova Iorque, cada um preso em seu próprio universo. E, Deus, aquilo deveria ser estranho e desconfortável, ficar tanto tempo a sós com um pseudoconhecido sem abrir a boca — para Serena principalmente, que odiava ficar em silêncio.
Só que por algum motivo, nada daquilo não a incomodava. Era um silêncio bom. Serena se sentia estranhamente bem perto de Bucky. Segura. Acolhida. Que coisa esquisita. Quando havia sido a última vez que sentira assim com outro ser humano? Não saberia dizer.
Tão bem, que:
— Você tem razão — Serena soprou, assim que passaram da estação de Coney Island, sabe Deus por quê — eu poderia voltar a treinar apenas por hobbie. Mas não quero.
O sargento virou na direção dela.
— A verdade é que sinto falta de treinar e de competir — ela continuou falando — principalmente de competir.
A própria confissão a pegara desprevenida. Até então, nunca havia expressado aquilo em palavras, nem para si mesma. Sequer cogitara a possibilidade, parecia terrivelmente... errado.
Bucky, não disse nada, mas ela notou o olhar curioso dele de esguelha, como quem diz "então qual o problema?"
— Mas eu não posso — completou, ciente de que ele jamais perguntaria aquilo por conta — e um hobbie... não é a mesma coisa.
O olhar dele suavizou.
— É por causa dos patrocínios, não é mesmo — não era uma pergunta. Bucky concluíra por conta própria e não estava errado. As habilidades investigativas dele eram louváveis — sem um bom patrocinador não tem como você se bancar. E é por isso que abandonou a ginástica artística e trabalha em um lugar que detesta.
Serena torceu o nariz.
— Eu não detesto trabalhar no museu.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Não?
— Não. Quero dizer... um pouco — ela se corrigiu, com um suspiro resignado — é só que... não era exatamente meu sonho de infância passar a vida encarando um monte de banners e ficar ouvindo sobre quanto o Capitão América é perfeito, heroico, imbatível e blábláblá — Serena fez uma pausa — sabe, sou obrigada a ouvir essa ladainha em cinco idiomas diferentes; oito horas por dia; cinco dias por semana. De novo. E de novo. E de novo. Parece que sou um rato preso na rodinha da gaiola, fazendo a mesma coisa todo santo dia. É um porre — ela o encarou e torceu o nariz — sem ofensa.
— Soou como um elogio — disse Bucky.
— E não é só por causa do patrocínio — emendou, prostrada. Embora, verdade fosse dita, aquilo tivesse sido sim o maior catalisador de sua decisão.
— O que houve então? — o sargento perguntou.
Era surpreendente o quão interessado ele parecia. E, de novo, contraproducente as expectativas, nada daquilo a incomodava.
Mesmo assim, Serena precisou respirar fundo.
— Olha, perder o patrocínio foi um baque e tanto, mas não foi a pior parte — ela fez outra pausa, desviando o olhar — o pior foi a falta de consideração da Universidade e dos patrocinadores. O desamparo. Eu ganhei aquele maldito campeonato e eles me chutaram do programa como se todo meu esforço não fosse nada, como se eu não fosse nada — Serena trincou o maxilar — eu... eu dependia daquela bolsa, era minha única fonte de renda. Sem aquele apoio... eu não tinha dinheiro, não tinha para onde ir. Não me restou nada, sequer pude me formar por conta disso. Era... é... horrível.
Essa era a realidade que escondia bem no fundo do peito.
Serena havia sido completamente descartada pela universidade, como se os anos de treino e suas inúmeras vitórias não importassem mais; como se a culpa de ter sumido por cinco anos inteiros fosse dela e não de um alienígena megalomaníaco.
Era injusto e doía saber que jamais poderia se manter como atleta por conta própria. Tudo era muito caro. E não eram só as despesas de treinos. Havia a logística, viagens e exames médicos e, como se não bastasse, era um ser humano que precisava de um teto, precisava comer e pagar as contas.
— E então — continuou ela — um belo dia surge de um senador de sabe Deus onde me dizendo que posso treinar no centro poliesportivo chique dele no Brooklyn junto com a minha melhor amiga de cinco anos atrás, que agora está noiva e vivendo uma vida perfeita. Jogam na minha cara que sou boa na ginástica e que estou jogando minha vida fora ao abrir mão disso. Acham que é fácil se reerguer depois ver tudo que ama escapando por entre os dedos e não poder fazer porra nenhuma a respeito, como se eu tivesse deixado que tudo desmoronar de propósito — Serena fez uma pausa — eu sei que sou boa. Sou boa na ginástica artística, é a única coisa em que eu não sou um desastre completo.
Serena olhou de esguelha para Bucky, que continuou em silêncio. Ela continuou falando:
— Só que nada disso é o bastante para aquelas pessoas da Universidade. Deveria ser, mas não é — ela sentiu a voz embargando, mas tentou disfarçar — e lá no fundo, eu sei disso. Sei que não tem como me manter sem os patrocínios. E eu sei que ninguém mais vai querer me patrocinar por causa do estalo. Fiquei muito tempo fora dos holofotes. Não tenho mais valor.
— Isso não é verdade — Bucky rebateu — é claro que você tem valor.
Serena riu pelo nariz.
— Não é isso, Bucky — disse ela, prostrada — atletas, como tudo no capitalismo, são produtos. E eu fiquei muito tempo fora do mercado. É duro, mas é a verdade.
— Você não tem como saber uma coisa dessas, Serena — ele insistiu.
— Ah tenho sim. Acredite em mim, eu tentei. E me disseram exatamente isso — que não valia mais nada. Que atletas mais novas e com mais visibilidade valiam mais o investimento do que Serena, que tinha sido apagada da existência por cinco anos inteiros; que era melhor desistir e fazer outra coisa..., mas o que Serena faria, senão aquilo? Qual era seu propósito?
Bucky não disse mais nada e Serena agradeceu por isso.
Ela continuou falando:
— Não precisa sentir pena de mim, sargento. Já aceitei meu destino. Só que isso — a voz falhou — isso doí. Doí pra caralho.
Ela pensou no cartão oferecido pelo Senador Orlov outra vez.
Poderia aceitar a oferta dele e apenas treinar naquele estúdio, sem grandes expectativas. Só que... não era o bastante para ela. Nunca seria o bastante. Serena queria poder competir, queria voltar a viver e respirar o esporte que tanto amava.
Mas não podia.
E mesmo que, por algum tipo de milagre, conseguisse outro patrocinador, alguém que enxergasse seu potencial, Serena tinha medo. E se arriscasse e acabasse abandonada de novo? O que faria? Para onde iria? Como se manteria? Não queria pensar muito sobre o assunto, mas eram cenários muito prováveis.
Aquilo a corroía por dentro. A própria impotência perante o próprio futuro. E ficar tão próxima da ginástica, sem poder vivê-la de fato seria tortura, como se estivesse diante de uma miragem no deserto.
Por essa razão, concluíra ela, era que tinha optado em seguir o caminho mais fácil e virar as costas para tudo que mais amava. Pouco importava se era seu maldito sonho desde que se entendia por gente.
A vida real era amarga e sonhos não se realizavam.
— Eu queria tanto voltar a treinar — Serena continuou com a confissão, externando a partezinha egoísta de sua mente que vivia reprimindo — mas não dá.
Bucky continuou em silêncio, apenas olhando-a de esguelha.
— Eu sei, eu sei — ela continuou falando, sabe Deus porque — estou no fundo do poço. Fracassei em tudo. Sou patética.
— Você não é patética, Serena — disse Bucky, tocando no ombro dela — muito menos um fracasso.
Ela deu um sorriso amargo. Ele estava tentando consolá-la. Logo ele, que tinha um passado muito mais fodido que o dela. Era ridículo, para dizer o mínimo. Mas, ali estava Bucky Barnes, que tinha o peso do mundo nas costas, ouvindo suas lamúrias enquanto a fazia parecer menos inútil.
Ele era tão doce e atencioso. Serena por outro lado...
Aquela havia sido a gota d'água.
Nos últimos meses, tinha segurado a onda. Serena tentara de verdade ser forte, por ela mesma e pela memória de Isabel, que odiaria vê-la se afundando na merda daquele jeito. Mas..., mas... não aguentava mais.
Desde que havia voltado daquele estalo, estava se afogando em um mar revolto e, sempre que conseguia um pouco de ar, uma nova onda a empurrava de volta para baixo.
— Ah, eu sou sim — despejou, com esgar — eu perdi tudo, Bucky. Não estava aqui quando Isabel, minha avó, a pessoa que mais amei nessa vida, morreu; não consegui segurar meu patrocínio na ginástica; nem cogitei reencontrar minha melhor amiga, que não me via há cinco malditos anos e sentia minha falta porque, veja só, eu estava morrendo de medo de vê-la; medo de como seria a reação dela quando me visse e se desse conta do que eu sou, do que me tornei, medo de tudo ter mudado... medo dela sentir repulsa de mim — Serena fez uma pausa, porque nada do que estava dizendo fazia sentido, mas precisava dizer mesmo assim ou morreria — e, como se não bastasse, não consegui fazer porra nenhuma para ajudar o pobre Dave, apesar de estar no mesmo prédio que ele. Eu sou completamente inútil. Em tudo.
Era tudo tão... miserável.
A única coisa que Serena queria desde pequena era uma vida comum e fazer o que gostava. Então, por que tudo aquilo tinha acontecido? Ela era uma pessoa boa, não era? Será que merecia mesmo passar por toda aquela merda? Será que as coisas poderiam ter sido diferentes, caso tivesse tomado outros rumos?
Sentiu os olhos enchendo de água, mas não choraria. Não ali. Não com Bucky ao seu lado. Seria lamentável demais. Por isso não o encarou; era incapaz de aguentar outro olhar de pena.
Mas ele não a encarava, tampouco disse nada. Ao invés disso, Serena sentiu a mão fria de metal dele dando batidinhas em sua cabeça. Era um toque tímido e desajeitado, como se ele não soubesse direito o que estava fazendo.
— O que diabos é isso? — ela murmurou depois de um tempo.
— Eu não sou muito bom em lidar com pessoas, muito menos consolá-las — ele admitiu, a voz rouca — mas... eu não acho que você seja um fracasso, coisinha. Você está... tentando.
Ele continuou com o afago e Serena ergueu os olhos.
— E me tratar como um filhote abandonado é a sua ideia de consolo? — disse ela.
Ele ergueu um lábio para cima.
— Eu disse que não era bom nisso.
Ela então riu. Não era uma risada bonita, porque volta e meia soluçava feito uma criança ranheta. A verdade era que nem saberia dizer se estava rindo ou chorando, mas se sentia um pouco melhor. Talvez fosse exatamente o que precisava naquele momento.
— Obrigada — ciciou depois de um tempo — isso ajudou.
Bucky fez um barulho com a boca.
— Não precisa mentir.
Serena revirou os olhos.
— Só aceite o elogio, sargento — ela resmungou enquanto apoiava a cabeça no ombro dele.
Ele anuiu e continuou com o carinho.
Até que era... bom.
Claro, nada daquilo mudaria a realidade, porque Serena continuaria se sentindo uma fracassada, impotente e inútil mesmo se ele passasse a noite batendo em sua cabeça ou repetindo que era uma boa menina ou qualquer merda do tipo. Mas apreciava a tentativa, concluiu, sorrindo de verdade.
Talvez, Bucky tivesse razão. O cartão dado pelo Senador Orlov... amanhã, pensou, amanhã pensaria naquilo. No momento, Serena preferia se concentrar em Bucky.
E, por um instante, por um breve instante, ela desejou que aquele momento durasse para sempre.
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