Museu de Arte Metropolitana de Nova Iorque,

Ilha de Manhattan, NYC, 2024


HAVIA ALGO DE ERRADO ALI, pensou Bucky, no instante em que colocou o celular de volta no bolso. Não, não se tratava de mais uma de suas paranoias infundadas. Daquela vez, tinha certeza. E tinha tanta certeza porque reconheceria aquele maldito fedor de ocre a quilômetros de distância. Sangue, sem dúvidas. Só que tinha algo a mais.

Estava perto. Muito perto. Além disso, toda a aura ao redor do museu parecia pesada e fria. Não conseguiria explicar o que era, mas destoava do ar quente do verão que preenchia o resto da ilha de Manhattan.

Discretamente, se aproximou da entrada e não se surpreendeu nem um pouco ao encontrá-la aberta. O que o surpreendia, no entanto, era encontrar um museu daquele tamanho completamente deserto. Não havia guardas noturnos, vigilantes nem nada do tipo na entrada. Ele apertou os olhos, encarando a porta. Aberta; qualquer um que passasse por ali poderia facilmente entrar.

Não tinha como aquilo ser normal.

Bucky então tocou no vidro, bem próximo da tranca. Aquelas fechaduras eram digitais, parte de um sistema muito complexo de segurança, não tinha dúvidas, logo não seria qualquer um que conseguiria sobrepor aquilo.

Postou-se para dentro. Precisava encontrar Serena naquele instante.

Em passos largos, se deixou guiar pelo cheiro de sangue, internamente torcendo para que estivesse enganado. Porque se estivesse certo, se houvesse alguém ali...

Não, não pensaria naquilo.

A única coisa que o guiava naquele momento era no próprio olfato e audição, já que não havia luz alguma naquele ponto. Não era um apagão, percebeu. As câmeras continuavam ligadas e, a julgar pela luz infravermelha piscante, certamente seriam capazes de identificá-lo apesar do escuro.

O sargento então, sem fazer alarde, se esgueirou por entre o corredor, se aproveitando dos pontos cegos das reentrâncias para passar despercebido pelas câmeras de segurança, perscrutando ao redor em busca de qualquer movimento suspeito com seus sentidos aguçados de super soldado. Podia até sentir o sangue correndo com força nas veias, a adrenalina latente que prescindia uma luta dando os primeiros sinais. Quase esticou os lábios.

Quem sabe uma boa briga com um criminoso de quinta categoria fosse exatamente o que precisava para mudar o foco da própria mente caótica. Contanto que Raynor não ficasse sabendo, claro.

A terapeuta realmente achava que a lista de reparações o ajudava e desde que havia começado com aquela palhaçada, meses antes, jurara para ela — e a si mesmo — que conseguia sentir alguma coisa enquanto pudesse se mostrar útil para a sociedade.

Só que Bucky não sentia nada. Nada mesmo.

A maioria daquelas missões — se é que poderia chamar assim — eram longas, tediosas e ele não podia fazer muita coisa além de reunir provas e deixar a parte divertida para alguém mais qualificado. Uma pessoa que não estivesse na condicional, melhor dizendo.

Talvez, ponderou ele, fosse melhor encontrar um ponto de equilíbrio entre a condicional e as reparações, um meio termo onde não precisasse ficar pisando em ovos constantemente com Raynor e o governo.

Só que, mesmo naquele momento, apesar de estar bastante ciente dos riscos para a própria liberdade e tudo mais, ainda estava invadindo propriedade privada sem mandado porque, bem... porque ele precisava desesperadamente encontrar Serena; ter a certeza de que aquela coisinha estava bem.

Estava andando quando um ruído chamou a atenção dele e os pelos do braço direito eriçaram. Ah sim, Bucky amava essa sensação. Gostava de sentir o formigamento se espalhando feito um incêndio nas veias, preenchendo cada partícula e poro de seu corpo, seguido pela forma que os músculos tencionavam, como se soubessem exatamente o que tinham de fazer, antes que pensasse em dar o primeiro soco... e então, ao virar pela reentrância do corredor, ele viu.

Toda a adrenalina e memória muscular de décadas de lutas e espionagem foi direcionada até o homem estatelado no chão, para poça carmim ao redor dele. Um segurança.

Pobre infeliz.

Não precisou nem checar o ferimento para saber que estava morto há cerca de uma hora, afogado no próprio sangue; a poça espessa havia se estabilizado ao redor do corpo, chegando a coagular em algumas partes e o corte no pescoço, apesar de desnecessariamente grande, era limpo e não havia nada nas roupas ou no resto do corpo que indicasse resistência por parte da vítima.

Ele nem teve tempo de reagir, concluiu Bucky, contornando o homem. E, quem quer que estivesse ali, sabia o que estava fazendo, sabia matar. Um mercenário, provavelmente.

Mas..., quantos seriam? O que buscavam? Em um museu daquele tamanho, poderia ser praticamente qualquer coisa.

Por outro lado, e a julgar pelo banner gigantesco que anunciava a próxima exposição — praticamente cuspindo na cara dele — não foi muito difícil ligar os pontos. Bucky desviou o olhar e foi andando em direção a escadaria.

Não era hora de pensar naquilo.

Sem emitir nenhum som, calcorreou até o saguão da exposição do Capitão América. Não era um frequentador assíduo daquele museu, mas a memória era boa o bastante para guiá-lo no escuro. E, quando alcançou metade do corredor de acesso, sentiu um perfume familiar. Serena.

Mas Serena não estava ali. No lugar, encontrou um sapato de salto pequeno no chão, como se tivesse sido largada às pressas. Os músculos do braço esquerdo tencionaram, mas Bucky apenas trincou o maxilar e continuou andando.

Quando chegou na extremidade do corredor, sentiu cheiro de sangue outra vez. E, ao dar um passo, pisou em algo gosmento. Olhou para baixo e se deu conta de que suas botas estavam manchadas de vermelho.

— Onde você se meteu, coisinha? — resmungou ao tirar o celular do bolso. Precisava ver o que tinha ali.

Com a lanterna ligada, notou que havia uma trilha discreta de sangue fresco que se estendia até as escadarias. Ele se postou na direção do sangue, mas um brilho fez estacar. No fundo da exposição, no único lugar onde havia um resquício de luz, jazia o escudo de Steve preso em uma redoma de vidro.

Resplandecente; emanando uma aura quase etérea.

Bucky engoliu em seco. Era a última coisa de que precisava no momento, uma distração. Mas ali estava ele, estaqueado no chão enquanto memórias arraigadas com aquele escudo voltavam para perturbá-lo.

Sam era um babaca. Aquele não era e nunca seria o lugar do escudo. E quem, em sã consciência, consideraria de bom tom deixar algo tão valioso preso atrás de um vidro frio como se fosse um espólio de guerra? Ah, se ao menos pudesse tirar o escudo dali...

O sargento ponderou.

Não havia ninguém ali. Ele poderia usar o braço esquerdo para desativar o alarme e sair pela porta da frente sem ser visto. Na pior das hipóteses, culpariam os mercenários e... ouviu um ganido na direção das escadarias.

Afastou aquele pensamento. Não cabia a ele decidir aquilo.

Com o celular em mãos, iluminou o rastro de sangue que o guiou até a saída de incêndio. O corpo formigava, ansioso por uma boa briga. Tão ansioso, que foi um pouco decepcionante encontrar um homem na escadaria. Resmungando, praticamente indefeso enquanto tentava, inutilmente, abrir a porta corta fogo.

— O que pensa que está fazendo? — O sargento murmurou ao cercá-lo.

Mas o sujeito era grande, tinha de admitir. Cabelo raspado, roupas escuras e máscara cor de petróleo que botaria medo em qualquer um, se não fosse pela postura patética. Bucky o encarou com uma aura que assustaria até o mais valente dos homens, e ele não seria exceção. O mercenário, ao notar o braço de vibranium, começou a balbuciar coisas sem sentido sobre estar apenas cumprindo ordens.

Ignorou aquilo e o ergueu usando o braço esquerdo.

— Vou perguntar uma vez só — disse o sargento, pressionando o pescoço largo do homem — há uma mulher aqui dentro. Onde ela está?

O sujeito estremeceu.

— N-não sei.

— Não?

O homem titubeou.

— Eu... ela não...

Bucky apertou um pouco mais. Não ao ponto de sufocar, mas os olhos do homem anuviaram de terror.

— Acha mesmo que estou para brincadeira? — sussurrou perto do ouvido dele.

O cheiro de sangue ficou ainda mais forte. Foi quando Bucky percebeu que havia algo enfiado no pé daquele homem. Franziu o rosto.

— Isso é culpa dela — o sujeito cuspiu, apontando para o pé alanceado com a cabeça — a vadiazinha enfiou o salto no meu pé e correu para a escadaria.

O sargento ergueu uma sobrancelha, quase orgulhoso.Serena fizera aquilo? sozinha?

Coisinha esperta e violenta.

— Mas não vai longe — ele emendou — meu colega está atrás dela neste instante e tenho certeza de que ele vai fazer com que se arrependa...

Bucky não esperou que terminasse a frase antes de enfiar a cara do sujeito na parede. Ele apagou na hora.

— Fique aí — entoou enquanto olhava ao redor em busca de qualquer coisa para prendê-lo.

Então, momentos depois, com o assaltante amarrado ao corrimão, semi-inconsciente e choramingando, completamente prostrado pela dor excruciante do sapato preso a carne, Bucky sorriu. Serena havia feito um trabalho impressionante ali, tinha de admitir. E estúpido. Agora o outro sujeito iria com tudo para cima dela e... merda.

Como era possível que alguém tão pequeno arrumasse tantos problemas? Daquele jeito, acabaria com ele.

Mesmo assim, Bucky voltou por onde veio, correndo o mais rápido que conseguiu pelos corredores até que ouviu um estrondo vindo do primeiro andar. Sem pensar duas vezes, pulou do topo da escadaria e alcançou o saguão principal outra vez em tempo recorde, cruzou pelo corpo do vigilante e seguiu andando pelo corredor de onde tinha ouvido o som; a adrenalina fervendo nas veias.

Seus passos eram largos e esquivos enquanto se esgueirava pelas sombras, evitando tanto quanto possível as câmeras de segurança espalhadas pela saleta.

Duas à esquerda, três à direita — estrategicamente distribuídas nas pilastras — e mais duas nas extremidades, sendo uma na entrada e outra na saída. Não fora difícil encontrar os pontos cegos ou se esgueirar entre eles. Para Bucky, aquilo mal passava de um passeio no parque.

E já estava pensando em como emboscaria o outro sujeito quando ouviu um segundo estrondo ecoando de algum lugar próximo. Apertou o passo, serpenteando entre as pilastras de gesso branco, mas se deteve na última, parando em frente ao salão de entrada, onde pode ouvir o gorgolejar da fonte, agitado feito uma catarata.

Foi quando Bucky notou algo molhado debaixo de seus coturnos. Havia água no chão. Muita água. E estava... gelada.

A bem da verdade, a sala toda estava fria. Congelante, melhor dizendo. Era como se tivesse sido transportado para o auge do inverno de Moscou.

Que merda estava acontecendo ali?

Avançou para fora das sombras, onde tímidos feixes da lua cheia penetravam através do telhado de vidro, o que não ajudava muito com a visibilidade.

Mesmo assim pode ver o saguão principal do museu. Enorme e escandalosamente luxuoso, com um piso de mármore bege, tão bem lustrado que, se não fosse pelo breu, seria capaz de exibir seu reflexo no chão. E bem ao centro da sala, avistou a imponente fonte, de onde o barulho vinha.

Ele apertou os olhos. A água jorrava tão alto que quase tocava o teto — teto este que deveria ter pelo menos dez metros de altura — e enchera a base em formato de concha que abrigava uma reprodução esculpida do famoso quadro da Vênus de Botticelli, de onde a água transbordava para o resto do salão.

Em frente a fonte, viu também duas silhuetas, uma delas estatelada entre a base da fonte e o chão duro. Aparentemente um homem. Inconsciente, sem dúvidas. E a segunda silhueta era... Santo Deus.

Ele continuou andando.

Seus passos, graças a água, já não eram tão silenciosos quanto o esperado de um ex-assassino fantasma, tanto que não precisou avançar mais de três passos para que a silhueta de Serena tomasse forma e percebesse sua presença ali.

— Não se mova — a coisinha ralhou, furiosa.

Bucky obedeceu, sabe Deus por quê.

Talvez, pensou, fosse pelo tom rude, contraproducente a pessoa doce que conhecia. E quando o virou o rosto... era como se ela tivesse saído de uma guerra.

O cabelo, que deveria ter sido um coque em algum momento, estava praticamente desfeito; havia um pequeno rasgo na saia preta; a camiseta branca estava toda amarrotada e encharcada e, graças ao que tinha feito antes, estava descalça.

Só que nada daquilo chamou tanto a atenção de Bucky quanto os olhos dela, normalmente amendoados e calorosos, naquele instante faiscavam e reluziam feito relâmpagos em uma tempestade.

Uma tempestade tão revolta e intensa, que precisou controlar o ímpeto de recuar um passo.

— Sargento — murmurou ela, suavizando um pouco o olhar, como se acabasse de perceber a presença dele ali; como se não estivesse uma bagunça completa — o que está fazendo aqui uma hora dessas? O museu está fechado.

Ele soltou o ar frio dos pulmões, ar que sequer reparara estar prendendo, deixando um rastro visível de fumaça ao redor. Aquilo estava mesmo acontecendo ou enlouquecera de vez?

— Essa é a sua maior preocupação? — Bucky ralhou tentando demonstrar-se inabalado com a situação — que porra está acontecendo aqui? O que houve com você?

Dito isso, ela virou para o homem inconsciente, encarando-o como se fosse uma pedra em seu sapato, depois para Bucky, com uma expressão tenra.

— É complicado — ciciou, tamborilando os dedos, como se tentasse dispersar a tensão — mas tenho quase certeza de que eles pretendiam assaltar o museu.

A forma tranquila ela como dizia aquilo o ensandecia. Às vezes, Bucky sentia vontade de sacudi-la até que a voz da razão a atingisse. Ele quase suspirou.

Como se Serena Valente tivesse um pingo de bom-senso.

— Você acha? — Bucky cuspiu, voltando ao foco — e o que mais poderiam estar fazendo?

— Tentando descobrir se os manequins criam vida a noite? — disse, jocosa.

Ele apertou a ponte do nariz. Serena estava fazendo piada. No meio daquele caos, ela estava fazendo piada.

— Você disse "eles", no plural — se forçou a dizer por que, francamente, a cabeça estava girando— sabe dizer quantos eram?

— Dois — Serena respondeu, com a parcimônia de um monge enquanto olhava ao redor — o outro não deve ter ido muito longe — não, não tinha. Graças a ela.

Bucky abriu a boca para dizer aquilo, mas a coisinha foi mais rápida.

— Eu afundei meu salto no pé dele — emendou, como se não tivesse acabado de admitir ter agredido um criminoso altamente perigoso. Por que aquilo já nem o surpreendia mais?

Ele fechou a boca, engolindo um palavrão. Que noite.

— E o que exatamente aconteceu com o sujeito que está caído atrás de você?

Serena abriu um sorriso magnânimo, mas ao mesmo tempo, atroz. Bucky não fazia ideia se aquilo era bom ou ruim.

— Ele escorregou na beira da fonte enquanto eu estava tentando fugir — explicou ela, orgulhosa — sorte a minha.

Bucky apertou os olhos. O homem não sangrava, tampouco parecia ter mais que um galo na cabeça e a posição, de fato, era a de alguém que tinha escorregado, mas ainda havia lacunas naquela história. Porra. E aquilo importava mesmo? No momento, não, a bem da verdade.

Ele suspirou. Serena era um desastre ambulante. No dia seguinte, faria com que alguém — Bruce Banner, quem sabe? — instalasse um rastreador nela. Até mesmo abriu a boca para ressaltar o quão idiota havia sido sua reação, ou sobre quantas maneiras diferentes aqueles mercenários poderiam tê-la matado — por alto, conseguiu lembrar de cento e quarenta e cinco—, mas era inútil.

Aquela coisinha ardilosa era um imã para problemas, embora fosse louvável sua performance em uma situação caótica como aquela.

Em outras circunstâncias, a teria parabenizado pelo raciocínio rápido. Isso, se ela fosse uma agente da S.H.I.E.L.D ou uma Vingadora, é claro.

Não era o caso.

— Você precisa parar de arrumar confusão — censurou ele, como se estivesse falando com uma criança.

Serena fez uma careta.

— O quê?

— Não se faça de inocente. Sempre que viro as costas, você se coloca em perigo — Bucky argumentou, massageando as têmporas — e não faz nem cinco meses desde que te conheci — como conseguira passar dos vinte era um mistério. Ele quase emendou.

— Em minha defesa — Serena devolveu, esticando os lábios daquele jeito jocoso que só ela conseguia fazer — há cinco meses, essas coisas não aconteciam comigo.

Ele fez um estalido com a língua.

— Está insinuando que a culpa é minha?

Ela empinou o nariz.

— Bem, isso é você quem está dizendo, não eu.

— Muito engraçado, coisinha.

Serena, contudo, deu uma risadinha. E aquilo foi o suficiente para que ele cedesse e esticasse os lábios também.

— Eu imobilizei o outro mercenário — Bucky anunciou, optando por mudar de assunto, lembrando-se do que estava acontecendo ali. Não poderia se distrair — ele não vai fazer nada, mas é melhor circularmos o perímetro, só para garantir.

— Circularmos o perímetro — repetiu ela — quer dizer nós dois? Juntos? E o que aconteceu com o "você precisa parar de arrumar confusão, coisinha" — Serena fez uma voz propositalmente grave, para irritá-lo.

Bucky decidiu que ignoraria aquilo.

— Esse cara — respondeu ao invés, gesticulando com a cabeça — não vai acordar tão cedo, a julgar pelo galo e, sinceramente, é mais seguro mantê-la dentro do meu campo de visão por enquanto.

Ela retrucou com um palavrão, mas apontou para o corredor. Provavelmente o caminho mais rápido até o primeiro andar. Bucky a seguiu.

Àquela altura a adrenalina no corpo já havia sumido e mesmo assim, não se permitiu baixar a guarda nem por um instante. Não enquanto houvesse criminosos no museu; não enquanto não descobrisse o que tudo aquilo significava. Então, apenas por precaução, moveu os dedos do braço esquerdo, recalibrando as engrenagens de vibranium do braço esquerdo. Nunca se sabe.

E a cada passo lânguido escadaria adentro Bucky ficava mais inquieto, com mais dúvidas sobre o que estava acontecendo ali. Estavam atrás do escudo, é claro, mas... por quê? Por que se arriscarem tanto em um plano tão mal executado ao ponto de serem detidos por uma civil desarmada de um metro e meio? Qual era o ponto?

Ele pensou e pensou sobre o assunto enquanto caminhavam em silêncio pelo museu, em busca de mais mercenários ou qualquer atividade suspeita.

— Liguei para a polícia — Serena anunciou, quando o sargento estava convencido de que o perímetro estava livre e o pior já tinha passado — o lugar todo vai ficar cercado em breve. Erika vai surtar.

Como não fazia ideia de quem seria Erika, Bucky apenas concordou acenando com a cabeça.

Serena não pareceu se importar com nada daquilo, de qualquer forma. Ela seguiu em passos letárgicos até o início da escadaria e sentou-se ali, como se de repente tivesse perdido toda a energia do corpo.

— Coisinha? — ele ciciou, encarando-a — tudo bem aí?

Ela se virou com um sorriso descorçoado.

— Estou — respondeu, mirando o nada, como se a mente estivesse muito longe dali. Havia indícios de lágrimas no canto dos olhos, ele logo notou — estou bem. Bem pra caralho, na verdade — ela suspirou — ao contrário do Dave.

O vigilante. Então ela o vira.

— Sinto muito — disse Bucky — você o conhecia?

Ela balançou a cabeça.

— Só de vista. A questão não é essa, sargento.

Bucky a encarou. Serena se recusava a olhar diretamente em seus olhos, mas era óbvio o quanto aquilo a deixara abalada.

E, mesmo não sendo a melhor pessoa do mundo para confortar outro ser humano — sendo bem sincero, parecia até uma piada de mal gosto do universo — ele se sentou do lado dela.

— Qual a questão então, Serena?

— Eu estava aqui dentro quando aconteceu, quando Dave foi atacado — ela sussurrou, cravando as unhas delicadas e cor de rosa (claro que seriam cor de rosa) no que sobrara da meia calça bege — eu... eu não ouvi nada, não vi nada de errado até que fosse tarde demais. Também não pude fazer nada a respeito. Ajudá-lo, chamar a polícia... qualquer coisa útil.

Serena correu o indicador no canto do olho, limpando uma lágrima que escorrera dos olhos. Algo dentro dele se contorceu ao ver aquilo.

— Não tem por que se culpar por isso — Bucky rebateu, virando-se na direção dela — certas coisas estão fora do nosso controle. Principalmente para você.

— Principalmente para mim — ela repetiu, fungando — que merda isso quer dizer? É porque sou pequena? Por que sou inútil e indefesa?

— Porque você é uma civil — ele corrigiu — e mesmo sendo extremamente frustrante, não havia nada que você pudesse fazer para salvá-lo daquilo.

Ele quase esticou os lábios. Ah, se Raynor o ouvisse falando aquilo...

— Mas... — Serena se virou para ele, repentinamente — e se eu pudesse?

— O quê?

Ela o encarou, os olhos faiscando outra vez. Bucky titubeou.

— E se eu fosse capaz de fazer alguma coisa? — continuou — e se eu pudesse tê-lo mantido a salvo daqueles caras, ainda acharia isso? Ainda diria que não havia nada que eu pudesse ter feito? Ainda teria pena de mim e me acharia uma coitadinha? — a voz dela soara angustiada.

— Coitadinha é a última palavra que eu usaria para te descrever.

— Bucky! — Havia súplica em sua voz.

De novo, aquilo fez o peito dele apertar. E o que mais Serena poderia ter feito?

Ele então a olhou de cima a baixo. Serena estava toda arranhada e suja, embora incólume. Não, pensou ele, aquela coisinha teimosa fizera até demais. Tinha se arriscado demais, se colocado em um perigo enorme a troco de nada. Ela não era uma espiã, Vingadora nem nada do tipo e parecia uma boneca de porcelana em comparação a ele. Pequena demais. Frágil demais. Só de imaginá-la tentando salvar o vigilante, o que poderia ter acontecido... aquele rasgo no pescoço e o sangue... um arrepio subiu em sua coluna.

— Você já se arriscou o suficiente por hoje — Bucky tentou argumentar, tocando no ombro dela — é um verdadeiro milagre que esteja intacta depois disso tudo. Não tem por que se culpar por algo fora do seu alcance. Isso só vai te corroer por dentro.

Mas, como se não tivesse ouvido nada do que ele havia dito, Serena colocou sua mão pequena e delicada por cima da dele e continuou encarando-o, como se estivesse profundamente agoniada. Ele não ousou desviar o olhar.

— Bucky, por favor, me escute...

— Serena — disse alguém, surgindo por entre as sombras — minha sala. Agora.

Era uma mulher alta, com um par de óculos escuros e a altivez de uma imperatriz. Ele apertou os olhos.

— Erika — Serena grunhiu, desviando o olhar — foi mais bem rápida do que eu esperava.