Legacy | Bucky Barnes ︎
24 XXIV
SERENA SE ENCOLHEU.
Merda. Que situação de merda.
Não se atreveu a gritar. Ou olhar para trás. Ou para frente. Muito menos se mexer. Até mesmo expirar o ar dos pulmões parecia um movimento arriscado demais, considerando a situação em que se encontrava.
Seu corpo havia entrado em algum tipo de estado de torpor no instante em que a voz daquele assaltante reverberou em seus ouvidos, pois seus pés se recusavam a se mexer, os dedos das mãos formigando de ansiedade.
Não tinha como saber o que aqueles caras queriam — a maior parte das peças do museu valia uma fortuna, o que certamente explicava as intenções deles — mas... parecia coincidência demais uma tentativa inédita de assalto no museu no mesmo dia em que receberam o escudo do Capitão América. Torceu o nariz. Talvez Erika não fosse tão paranoica assim no fim das contas.
De qualquer forma, não iriam muito longe.
O sistema de segurança do museu era avançado demais para dois imbecis que nem se deram ao trabalho de desligar as câmeras de segurança — que ainda piscavam discretamente no teto, notou, olhando de soslaio para o alto das colunas — enquanto perambulavam como se fosses os donos do espaço.
E o sistema de segurança... aquilo era a mesma tecnologia que o governo usava no pentágono, idealizada pelas maiores mentes do país. Milhares de dólares em criptografia e complexos sistemas de monitoramento por inteligência artificial estavam reunidos dentro daquelas paredes.
Era por aquele motivo, inclusive, que havia um único vigilante cuidando do acervo; trabalho humano não era necessário ali.
Quando — ou se — aqueles homens tocassem no vidro que protegia o escudo, a coisa toda fecharia. O que, a bem da verdade, a deixaria presa com dois homens potencialmente perigosos e que facilmente poderiam usá-la como moeda de troca. Ou coisa pior.
Merda, pensou ela, péssimo dia para fazer hora extra.
— Pegou a carga? — chiou um dos assaltantes, ao entrar no corredor que dava acesso a exposição.
— Estou trabalhando nisso — o outro respondeu, o que segurava o braço de Serena, em um tom grave e insípido — vamos fazer isso de uma vez e sumir daqui. Ele foi bem claro quando disse que queria discrição.
Ele. Ele quem? Serena quase perguntou. Mas antes mesmo que abrisse a boca, o olhar cortante do primeiro assaltante a deteve.
— E quanto a mulher? — murmurou, com esgar.
— Precisamos dela — disse outro assaltante, o que parecia ser o líder, e apertou seu braço com mais força. Serena precisou controlar o ímpeto de choramingar — por enquanto.
Por enquanto. Aquilo só poderia significar que a usariam para fugir; para o caso de algo dar errado e precisarem de um escudo humano. E, quando estivessem seguros, quando ela fosse dispensável, eles iam... Serena sentiu o corpo gelar.
Eles iam matá-la.
Algo dentro dela se contorceu, provavelmente um instinto selvagem de sobrevivência, alguma coisa que a fazia querer correr. Gritar. O diabo que fosse, desde que a tirasse daquele maldito lugar. Nem mesmo quando tinha sido assaltada no parque, ficara tão afoita quanto naquele instante. Não poderia simplesmente se dar ao luxo de ficar parada, concluiu.
Só que... Serena não a menor ideia do que poderia fazer para se defender. Ao menos não sem chamar a atenção.
— Continue andando — espero que tenha entendido. Nada de gracinhas. Ele não precisou dizer, sua expressão insípida fazia aquilo muito bem.
Ela então se limitou a ser arrastada por aquele corredor imenso, o lugar onde havia menos luz no andar todo. Para o crédito deles, talvez tivessem sim alguma noção do que estavam fazendo.
Ou quem quer que estivesse por trás daquilo.
Apertou os olhos. Primeiro andar. Perto de sua sala. A exatos vinte metros da exposição do Capitão América. Três corredores da escadaria de emergência que, por conseguinte, sairia perto da sala de controle da segurança. Não levaria mais que cinco minutos até chegar lá. Sete, considerando o breu.
Se bem que nem precisava enxergar.
Serena conhecia cada milímetro daquele lugar. Tinha a planta baixa praticamente tatuada no cérebro — era a assistente de Erika, pelo amor de Deus.
Quantas vezes não precisou checar aquelas malditas plantas para decidir qual seria o melhor lugar para montar a próxima exposição espalhafatosa de um artista estrangeiro ou o escudo de uma infame figura histórica? Mais do que poderia contar, sendo sincera. Conhecia entradas e saídas que ninguém mais tinha pisado.
Poderia facilmente por aqueles corredores de olhos vendados.
Aquilo a fez pensar. Se ao menos conseguisse livrar-se de um dos brutamontes...
O único barulho que ouvia enquanto caminhavam pelo saguão era o estalido de seus saltos contra o piso de mármore. Uma cacofonia de tintilares secos. E o maldito salto que usava era tão fino e desconfortável... aquilo deixaria bolhas terríveis em seus calcanhares, a julgar pela forma desajeitada que era empurrada corredor afora. Ah, se o babaca usasse saltos como aquele, certamente não a forçaria daquela forma.
Mesmo assim, continuou andando. O retinir dos sapatos em sintonia com as engrenagens de seu cérebro.
Clack. Clack. Clack.
Ela então teve uma ideia — o rascunho de uma, pelo menos.
Sem os leds, aquele corredor estava um breu. Os homens, pouco acostumados com o espaço, andavam devagar tateando as paredes enquanto usavam Serena como escudo humano. Francamente, o que estavam esperando, um filme do Tom Cruise? Seus saltos continuavam raspando o chão, mas tudo que fazia era calcular a distância até o saguão. A luz que refletia o escudo aumentando gradativamente.
Quinze metros... dez metros... cinco.... três metros, e...
Quando finalmente alcançaram o saguão, Serena sorrateiramente guiou o homem um pouco mais para a esquerda e... a lixeira cheia de plástico bolha se chocou contra seu corpo.
Um clangor reverberou pela sala.
— Merda — chiou ela, o pé virado em uma posição pouco confortável, graças ao plástico que jazia no chão.
O assaltante que segurava seu braço apertou os olhos e deu um crispar de lábios; ele a puxava para cima como se fosse uma boneca de pano.
—O que pensa que está fazendo?
Serena deu um ganido muito parecido com o de um gatinho assustado, apontando para a lixeira que transbordava plástico-bolha e para o pedaço esquecido no chão que tinha — supostamente — escorregado.
— Meu... meu tornozelo — ela contraiu o rosto — acho que o torci.
Ele se inclinou, tentando ver melhor o machucado, mas ela apertou os olhos, como se o simples movimento dele aumentasse exponencialmente a dor. O que fez, no entanto, foi apenas escondê-lo atrás da outra perna, tentando parecer o mais patética possível, enquanto chiava feito um animalzinho ferido.
— Acho que ela não vai conseguir andar — concluiu o homem, ainda tentando olhar para o tornozelo, a pouca luz naquele canto do saguão dificultando tudo.
O outro assaltante, pouco comovido com a cena, soltou um palavrão.
— Não temos tempo pra essa palhaçada. Temos que dar um fora daqui antes que alguém perceba.
Mas Serena não se moveu. Ao invés disso, se contraiu mais, como se a dor estivesse insuportável.
— Eu... eu não consigo... andar — entoou ela, apertando os olhos.
O assaltante que a segurava — no que pareceu um ímpeto misericordioso — a puxou para cima e soltou um palavrão. No entanto, não houve muita brecha para que Serena protestasse antes que ele agarrasse sua cintura, pronto para jogá-la por cima dos ombros largos. Era aquilo. Sua oportunidade.
Então, antes que o brutamontes pudesse tirá-la do chão, Serena agiu.
Não era particularmente boa lutando, muito menos gostava de recorrer a violência física, mas Isabel tinha ensinado a ela um ou dois truques de defesa pessoal, anos antes. Disse que seria útil um dia.
Serena duvidara; achava que nunca teria de colocar aquilo em prática, mas...
— Vadia — o assaltante berrou quando seus braços finos o acertaram, ela dera uma cotovelada certeira em seu esôfago, fazendo-o arfar.
Não sabia por quanto tempo aquilo o deteria, por isso não hesitou. Em um rompante, enfiou seu salto no pé dele com toda a força que tinha. Fundo, ao ponto de sentir o objeto pontudo atravessando direto pelo couro dos coturnos e prender-se na carne e tendões do homem.
Ele soltou um berro horrível e se contraiu para frente.
Ela inspirou. Tinha feito aquilo. Merda, tinha mesmo feito aquilo. Uma dose efervescente de adrenalina correu pelas veias dela quando o primeiro assaltante, enraivecido e meio atordoado pela atitude violenta e completamente inesperada, avançou na direção dela.
Aturdida, Serena agiu na mesma hora. Atirou o outro salto de qualquer jeito e disparou na direção oposta, para longe do escudo do Capitão América.
Sem o barulho dos saltos — e graças as corridas diárias no parque — ela se movia ágil e discreta feito um felino. Então se enfiou em uma reentrância quase escondida no fim do corredor e contou os seguintes.
Um, pela esquerda. Dois, pela direita. Três, pela direita outra vez e... abriu a porta da escadaria de emergência, discretamente.
Resfolegando, foi descendo até o térreo, cada passo mais pesado que o anterior. Não sabia dizer se estava sendo seguida, mas eles teriam de escolher entre ela, uma simples funcionária do museu ou o escudo de Steve Rogers.
Serena torcia para escolhessem o escudo, porque se viessem atrás dela...
Dois contra uma... a desvantagem não era tão grande assim, considerando que um deles estava ferido. Se bem que nem havia se dado ao trabalho de checar se estavam armados antes de enfiar o salto no pé daquele homem — não que estivesse arrependida daquilo, porque não estava — e sair correndo. Ela puxou ar para os pulmões outra vez, tentando manter a calma.
Em que merda tinha se metido daquela vez?
Também não era como se tivesse um pingo de bom-senso ou noção do perigo, de qualquer maneira.
A bem da verdade, a coisa toda era bem o tipo de besteira impulsiva que fazia, tal como tentar impedir um assalto no parque, ou entrar em um beco escuro no meio da noite para resgatar um gato de rua. Apenas mais uma quarta-feira normal, pensou, sentindo falta de quando suas maiores preocupações envolviam pagar o aluguel e decidir sobre qual filme de Star Wars assistiria ao chegar em casa.
Tateando pelas paredes, encontrou a porta corta fogo e saiu bem ao lado da loja de souvenires. Bom, estava perto da saída que dava na quinta avenida e a menos de um corredor de distância da sala de comando, onde Dave, o vigilante, provavelmente estaria tirando um cochilo, assistindo a algum jogo idiota da NFL ou tirando uma de suas pausas para descansar, logo abaixo dos painéis de controle. O único lugar no museu inteiro onde conseguiria ajuda de verdade — e uma porta à prova de balas.
Só que Serena não precisou encontrar com Dave ou a sala dele. Porque quando chegou ao saguão principal...
Deus do céu.
O piso de mármore estava manchado de vermelho-escarlate. E o corpo frio do pobre vigilante jazia no centro, com um corte horrível atravessando o pescoço; os olhos abertos em uma expressão de assombro.
Ela não conseguiu conter o grito de horror.
Por isso Dave não tinha acendido as luzes do primeiro andar; por isso os homens andavam tão altivamente pelo museu. Por que eles tinham...
Serena quis vomitar.
Nunca havia sido próxima daquele homem — nem tinha certeza se o nome dele, de fato, era Dave — mas o cumprimentava pelas tardes quando saia do museu e ele retribuía, com um sorriso discreto e um aceno simpático. Sabia que aquele homem tinha esposa e filho; uma linda família que dependia dele e que era uma pessoa boa. Naquele instante, no entanto, Dave estava... morto.
Dave estava morto e Serena não tinha feito nada para impedir, sequer ouvira. Se não estivesse ali, era bem provável que nem descobrisse. E como era possível que não tivesse ouvido nada de onde estava? Um grito, um chiado que fosse.
Se ao menos não estivesse tão distraída com o celular, talvez... não teria feito porcaria nenhuma, concluiu. E o que, em sã consciência, poderia ter feito, além de acabar com um rasgo na jugular também?
Era inútil. Ela era inútil.
Engoliu em seco. Havia um gosto terrível em sua boca. Sangue. Sangue de Dave.
— Você, maldita mulher — a voz ofegante do primeiro assaltante estourou lado oposto. O homem lentamente surgiu das sombras, bloqueando a passagem até a sala de controle, uma expressão sádica no rosto — vai se arrepender de ter feito isso.
A expressão de desdém diante do corpo de Dave a fez acreditar nas palavras dele, mas não cederia, mesmo com poucas opções. Seu corpo todo formigou de rancor e ódio. Pelo vigilante. Por ela. Pela própria impotência diante da situação.
Quem eram aqueles homens? Como alguém poderia ser tão cruel? Eles realmente achavam que poderiam entrar em seu museu e fazer o que queriam?
Serena não aceitaria aquilo nem por um instante.
Mas..., mas... precisava ser esperta. Mais esperta que eles. Precisava de um plano. Precisava... Droga. Precisava de tempo.
Ela olhou ao redor. Voltar pela escadaria que viera estava fora de questão, no entanto, se chegasse ao fim do saguão principal antes do homem, poderia acidentalmente acionar um dos alarmes de alguma das peças caríssimas que ficavam expostas ali. Ou... não.
Era uma péssima ideia.
Mas que outra escolha tinha?
Ela ouviu o som de uma das fontes que gorgolejavam no centro do saguão e deu um olhar afiado para o homem, já avançando um passo por cima do corpo frio de Dave, como se fosse predador circulando a presa. Ela.
Serena então postou-se em direção do saguão, repuxando os lábios.
O homem a seguiu. Não estava armado, pelo menos não com um revólver — se estivesse, àquela altura já teria atirado nela. Ao invés disso, ele a perseguia enquanto corria até a fonte como se a própria vida dependesse daquilo.
— Chega de gracinhas, querida — rosnou o homem, cercando-a quando alcançou a borda — não mais tem para onde fugir.
Serena então parou. O coração batia tão rápido que mal cabia no peito. Sua respiração estava acelerada e a adrenalina fervia nas veias.
— Tem razão — devolveu ela, ainda de costas. O formigamento em seus dedos aumentava a cada resfolegada, as unhas cravadas na borda da fonte — eu me rendo.
— Vire-se e erga os braços.
Ela obedeceu. Lentamente.
E quando o encarou, abriu um sorriso indecoroso.
O assaltante estava exatamente onde ela queria.
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