Legacy | Bucky Barnes ︎
23 XXIII
BUCKY ESTAVA INQUIETO.
Não tinha conseguido voltar para casa. Depois daquele dia, depois terapia e do almoço com Yori, seu cérebro estava prestes a dar pane. Pensamentos dando voltas e mais voltas. Ele estava agitado demais. Precisava gastar energia e a única solução que encontrou foi peregrinar por Nova Iorque por horas e mais horas, com a esperança de que, quando voltasse, estaria cansado o bastante para entrar no apartamento e desmaiar.
Não tinha dado muito certo, no entanto.
Atravessou o Brooklyn em tempo recorde e, quando cruzou Brooklyn Bridge rumo a ilha de Manhattan, passou um bom tempo estático encarando a paisagem e pensando em como o mundo que conhecera tinha mudado.
Pensou em Steve e na vida que havia deixado para trás, setenta anos atrás; pensou em como poderiam ter sido as coisas, se não tivesse caído daquele trem, em como tudo teria sido mais simples. Mas aquilo era impossível, mesmo que voltasse no tempo, nada apagaria seu passado. No fim, concluiu que ficar ali não ajudaria em nada.
Ele então continuou andando. Passou pelo prédio onde — ao que parecia — costumava ser a Torre Stark eadentrou no Central Park. Perambulou por horas à beira do The Lake sem nem ao menos apreciar a fonte ou a bela paisagem e depois cruzou várias vezes a Bow Bridge, desviando dos casais melosos e irritantemente lerdos, mas sua mente parecia incansável.
Olhou ao redor. Em outra ocasião, em outra vida, até poderia ter gostado de turistar pelo parque; explorar os caminhos, entrar nos coretos. Parar e comer um cachorro-quente, talvez? Que idiotice. Isso porque, naquele momento, nada fazia seu cérebro desacelerar. Nem os esquilos que pulavam nas árvores, muito menos os barquinhos que flutuavam pela beira do lago ou o cheiro de ar fresco, algo raro de se sentir em Nova Iorque.
Naquele instante, Bucky não passava de uma casca vazia, correndo sem destino aparente. Um emaranhado de pensamentos desconexos vagando feito um trem desgovernado.
E claro, sabia que tinha de parar de pensar em cinco coisas diferentes ao mesmo tempo ou acabaria enlouquecendo. Mas simplesmente não conseguia, era incapaz de desligar os pensamentos.
As palavras de Raynor ainda o atormentavam. Assim como o pesadelo com a agente IV. E Yori. E Sam. E Steve... Porra. Talvez já tivesse enlouquecido e nem tinha notado.
Precisava de uma pausa de si mesmo; precisava de pelo menos cinco minutos de paz na própria mente, porque cada maldito pensamento em sua cabeça parecia pior que anterior e já não sabia como fugir; como fazer aquilo parar. Nada ajudava. Nem a terapia. Nem a Meditação ou as reparações. Porra nenhuma.
Então continuou andando. E andando.
E, quando Bucky finalmente decidiu sair do parque, caíra direto na quinta avenida, exausto. Mentalmente. Tinha andado uns cinquenta quilômetros e, mesmo assim, seu corpo se mantinha tão disposto como no instante em que abandonara Yori no restaurante, porque, veja só, ele tinha aquele maldito soro de super soldado correndo em suas veias que o tornava incapaz de ficar cansado. Mesmo que sua cabeça pesasse uma tonelada, a pele queimasse e estivesse a um passo de desmaiar, ainda sentia como se pudesse correr de Nova Iorque até Boston em poucas horas. A bem da verdade, já não descartava a possibilidade.
E, Deus, já tinha anoitecido.
As cigarras do parque, pequenas sobreviventes em meio ao caos urbano de Nova Iorque, ciciavam uma melodia que tentava — em vão — rivalizar contra o uivo das buzinas e das rodas barulhentas dos vagões de metrô. Bucky contudo, sem um pingo de suor no corpo, continuou caminhando, nem um pouco empolgado em voltar ao cubículo escuro e deprimente onde morava. Aos pensamentos tortuosos e aos pesadelos.
Em passos arrastados, via a paisagem do Central Park se mesclando com a confusão de concreto, asfalto e carros de Manhattan. O trânsito, infernal —como sempre — e, mesmo à noite, dezenas de turistas esbarrando nele volta e meia enquanto conversavam em diversas línguas. Mas Bucky continuava no modo automático, um fantasma arrastando a carcaça por aí.
Cruzou outra rua e uma pilastra cor de marfim entrou em seu campo de visão. E outra. Grandes e imponentes colunas se levantaram naquele prédio que nada combinava com o resto da paisagem, quase uma miragem. O museu, logo notou, estava em frente ao Museu de Arte Metropolitana de Nona Iorque.
Esticou os lábios, lembrando da última vez que havia pisado ali.
A bem da verdade, não tinha planejado — ou desejado — acabar ali. As ruas daquela parte da cidade eram confusas e todas pareciam iguais. À noite, principalmente.
Só que ali estava ele, caminhando e encarando a fachada imponente, se lembrando da coisinha que ali trabalhava, refletindo sobre o fato de não ter respondido a mensagem dela, como o grande babaca que era. Será que ela ficaria muito brava com ele por aquilo? Seria adequado esperá-la para perguntar pessoalmente ou seria estranho?
Que ideia idiota. Serena nem deveria estar ali, a julgar pelo horário, concluiu ele. Àquela altura, ela deveria estar jogada em seu sofá, com o gato endemoniado espalhado no colo feito um travesseiro felpudo e usando aquele par de sapatos ridículos dos quais parecia se orgulhar tanto. O pensamento o fez esticar ainda mais os lábios.
Talvez fosse melhor voltar. Pensando em gatos, Alpine — felino o qual Bucky ainda precisava arrumar um lar — deveria estar com fome. E Serena...
Não deveria pensar nela.
Estava para se virar quando celular vibrou em seu bolso. E, mesmo sabendo que não deveria, pegou o aparelho.
Outra foto.
✧❄✧
"Não sabia que era do signo de peixes."
A mensagem vinha acompanhada de uma selfie dela apontando para a data de nascimento dele com o painel que havia acabado de desempacotar. O último, felizmente.
Na verdade, Serena não entendia bulhufas de horoscopo ou coisas do tipo, apenas conhecia por alto alguns dos signos do zodíaco — Íris, que vivia tagarelando sobre astrologia nos tempos de faculdade, era a responsável — embora soubesse que a descrição genérica da personalidade um pisciano — calmo e paciente — não era um retrato muito preciso do sargento.
"Mas até que combina, sabia?" Emendou mesmo assim.
Ele não responderia, obviamente. Bucky não tinha respondido a última mensagem, era bem provável que nem a tivesse aberto. Isso não impediria de continuar tentando, no entanto. Havia algo de satisfatório em tirar a paciência dele. Ela olhou para o painel outra vez e tirou uma segunda foto.
"Olha só, você já foi menos carrancudo."
Desta vez, a mensagem estava anexada a uma imagem de outra parte do painel, mostrando um Bucky Barnes em tamanho real no auge de seus vinte e tantos anos sorrindo; as covinhas perfeitas evidentes mesmo em uma foto em sépia porcamente restaurada com inteligência artificial. O desgraçado sempre havia sido bonito.
De novo, ele não respondeu. Torceu o nariz e continuou trabalhando. Só que depois de remover o que sobrara de plástico bolha do Bucky do painel, teclou outra vez.
"Sei que está vendo minhas mensagens, babaca."
O silêncio perdurou. Serena então resolveuguardar o celular, suspirando. Estava exausta demais para uma discussão unilateral. Olhou para o relógio e franziu o rosto. Também pudera, já passava das dez da noite.
— Pelo menos terminei de desempacotar tudo — murmurou para o nada ao jogar o último pedaço de plástico bolha no lixo.
Céus, havia sido um dia horrível.
Erika, furiosa pela falta dela no dia anterior, a fizera passar o dia no pavilhão organizando e reorganizando os painéis que seriam devidamente montados na manhã seguinte. Sozinha. Tinha levado o dia todo e ainda precisou ficar no museu depois do horário com nada além dos painéis e o escudo do Capitão América como companhia.
Pelo menos, atestou enquanto olhava ao redor pela última vez, estava tudo em seu devido lugar. E enquanto voltava até sua sala para pegar a mochila, não conseguia parar de pensar no quão tarde chegaria no apartamento.
Não seria a primeira vez, contudo. Ela soltou um palavrão. Detestava quando aquilo acontecia; passado o horário de pico, os trens demoravam muito mais para chegar na estação e, por conseguinte, chegaria mais tarde que o normal em casa. Quase meia-noite, no melhor dos cenários. James morderia seu calcanhar por se atrasar tanto com o jantar.
Pelo menos, pensou ela já andando em direção a escadarias, não precisara lidar com nenhum visitante indolente. Uma singela vitória em um dia tão longo como aquele, sem dúvidas.
O silêncio do museu, a exceção do scarpin vermelho em seus pés, era música para os ouvidos, assim como o escuro, que para a maioria poderia ser amedrontador, mas para ela — acostumada com noites e mais noites varadas nos arquivos mal iluminados — era um velho conhecido.
O escuro, porém, era incomum naquela região em especial.
O primeiro andar, graças ao conjunto de leds recém-instalados e ridiculamente fortes para a nova exposição, deveria estar tão iluminado quanto estaria durante o dia. Onde estaria Dave, o vigilante noturno? Era função dele acender aquelas luzes.
Serena parou de andar.
Por que Dave não tinha aparecido até então? Era de se esperar que estivesse circulando pelas exposições com sua lanterna e os assovios irritantes uma hora dessas. Sentiu um arrepio na espinha.
O escudo de Steve Rogers continuava lá, assomando sobre o saguão como se tivesse vida própria. Seria possível que...
Olhou para trás. Havia algo de errado ali. Um instinto primitivo de seu corpo começou a vibrar, os dedos formigando de nervosismo. Estava tudo parado demais; silencioso demais. Então ela ouviu. Passos. Serena estava para voltar por onde tinha vindo quando viu aquilo. Um vulto.
Um momento depois, cruzando por uma pilastra, em meio ao breu...
Definitivamente não era Dave.
Recuou pela reentrância do corredor, rezando para que o homem estranho não a tivesse visto — ou ouvido o tintilar dos saltos contra o chão de mármore — tentando avaliar o que estava acontecendo ali.
Homem. Um metro e oitenta no mínimo, pelo menos do que conseguira enxergar sob as roupas escuras. Não era um segurança, muito menos da equipe de manutenção; funcionário algum do museu usaria uma máscara para cobrir o rosto. Musculoso. Bem mais forte que ela. Lutar definitivamente não era uma opção.
Mas o que aquele cara estaria fazendo no museu uma hora daquelas? O que estava buscando?
Ela olhou para trás e piscou. Ah, merda. O escudo.
Só restava uma coisa a sensata a se fazer: dar um fora dali antes que a coisa escalonasse. Mas, quando deu outro passo para trás, planejando uma rota de fuga pela escadaria de emergência, Serena chocou-se contra alguma coisa.
Não, aquilo não era verdade.
Alguma coisa tinha se chocado contra ela. E, a coisa agarrou seu braço. Outro homem.
— Eu não tentaria gritar se fosse você, lindinha — disse ele, igualmente enorme. Igualmente mascarado. E letal, percebeu ela — isso só vai complicar sua situação.
Que dia.
✧❄✧
Quando a quarta mensagem seguida chegou, Bucky revirou os olhos.
Serena, apesar de estar trabalhando uma hora daquelas, parecia ter arrumado algum tempo em sua agenda para atormentá-lo.
Ainda estava parado na frente do museu, a rua lentamente esvaziando conforme os minutos passavam, olhando de novo e de novo as fotos de Serena sorrindo enquanto apontava para painel dele. Por que estava trabalhando até tão tarde?
Bucky começou a teclar uma resposta para Serena, questionando exatamente aquilo, mas se conteve no meio do caminho. E que direito ele tinha de se intrometer nos assuntos dela? Muitas pessoas faziam horas extras, ainda mais considerando o que havia dito antes sobre consertar o carpete e... não, não era da conta dele.
Ele olhou para a foto outra vez. Serena tinha o mesmo sorriso daquela manhã, embora as feições estivessem cansadas. Olhou também para a rua quase deserta e franziu o rosto. Por quanto tempo continuaria trabalhando? Como iria embora? Os dedos queimavam na tela do celular. Não tinha motivos para se intrometer, mas algo lhe dizia que seria errado deixar Serena voltar para casa sozinha.
E se ela encontrasse outro gato em um beco escuro?
E se presenciasse um assalto e resolvesse interferir de novo?
Serena era um risco a própria segurança. Como tinha conseguido sobreviver por tanto tempo com um senso de autopreservação tão baixo? Inexistente, melhor dizendo.
Não, Bucky não poderia deixá-la por conta própria, concluiu.
E foi apenas por aquele motivo, acreditava, que ele continuou andando em direção a escadaria do museu, pouco se importando se o lugar estava fechado para visitantes ou se haveria alguém para impedir sua entrada.
Bucky então, com a câmera de 1,3 megapixels de seu celular "obsoleto" — palavras de Sam — tirou uma foto horrível da fachada e mandou para Serena, com a mensagem "diga isso na minha cara, coisinha."
Ele sorriu para telefone e continuou andando.
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