Legacy | Bucky Barnes ︎
46 XLVI
QUANDO SERENA VALENTE ABRIU OS OLHOS, estava convencida de que o inferno existia. E que havia caído dentro dele.
Qual o seu propósito, menina?
O quarto onde estava presa era tão minúsculo e apertado quanto uma caixa de sapatos, as paredes enlouquecedoramente brancas e, como se não bastasse, não havia janelas, portas, barulho ou nada que indicasse sinais de vida fora daquele maldito cômodo. Apenas ela, o branco e o pedaço de espuma e madeira duro e frio que fazia de cama.
Exasperou.
Quanto tempo havia se passado desde que os subordinados brutamontes daquele homem a jogaram ali dentro? Horas? Dias? Uma vida? Não fazia ideia.
Qual o seu propósito, menina?
No pescoço, jazia aquele colar grosso de metal apertando. Sufocando.
Não sabia ao certo como funcionava aquela coisa, apenas que inibia seu poder. Que ironia, pensou. Depois de anos ignorando seus poderes e desejando que sumissem; depois de quase uma vida tentando reprimir aquele formigamento em seus dedos, ele havia desaparecido completamente.
Só que, ao contrário do que sua versão mais nova pensaria, a ausência daquele poder, de seu poder, deixara um vazio agonizante no peito. Como se uma parte da própria alma tivesse sido tomada.
Qual o seu propósito, menina?
Prostrada, ergueu o braço e encarou as manchas arroxeadas e as marcas das veias estouradas pelas agulhas ainda em processo de cicatrização.
Não sabia que lugar era aquele, mas havia mais pessoas ali dentro. Médicos. Vigilantes. Capangas ou o diabo que fosse os brutamontes que se circulavam pelo corredor... todos eles cumprindo ordens daquele homem cruel. Aquelas pessoas a feriram. A cortaram e remendaram como se fosse uma boneca de pano. Drogavam-na. Faziam com que sentisse dor. Muita dor.
E, enquanto faziam tudo aquilo, a mesma pergunta era repetida.
“Kakova tvoya tsel', devotchka?” Qual o seu propósito, menina?
De novo. E de novo.
Kakova tvoya tsel', devotchka?
Então, em meio a dor, ela desmaiava.
Kakova tvoya tsel', devotchka?
E, quando acordava, o processo se repetia outra vez.
Kakova tvoya tsel', devotchka?
E outra.
Kakova tvoya tsel', devotchka?
E outra...
Qual é a porra do seu propósito?
Serena até tinha tentado impedir que tocassem em seu corpo. Lutara como podia, e conseguira arrancar algumas das agulhas, mas não conseguira evitar que os êmbolos fossem empurrados em suas veias, não havia sido capaz de se proteger enquanto a forçavam até o limite, até que seu sangue inumano vertesse no chão enquanto se debatia e berrava, as drogas queimando-a de dentro para fora.
Sentiu uma lágrima escorrendo pelo rosto. Serena queria chorar até a exaustão, queria gritar até os pulmões explodirem, mas o maldito colar apertava tanto que mal conseguia respirar sem sentir a garganta queimando.
Por que tinha que ser daquela forma?
O que tinha feito para merecer aquilo?
Por que ela?
Qual era seu propósito?
A pior parte era aquele homem detestável de olhos penetrantes... o senador. Ele a visitava de tempos em tempos, como uma forma pessoal de tortura. Entrava naquele cômodo sem portas ou janelas visíveis e dizia coisas que não faziam sentido. Repetia aquela maldita pergunta até que ela desejasse estourar os próprios tímpanos. Brincava com sua sanidade, tentava deturpar a visão que ela tinha sobre o mundo.
A todo momento tinha de resistir. Tinha de lembrar quem realmente era, mas... aquele homem sortia mentiras e verdades de tal forma que já não sabia mais em que acreditar. Dizia que estava sozinha, que não havia nada para ela lá fora, a lembrava constantemente de que não passava de uma aberração inumana, que não poderia fazer absolutamente nada para se salvar... aquele homem desprezível queria desesperadamente que Serena se curvasse e aquilo tudo estava quebrando-a de dentro para fora.
Só que ela sabia que era mentira. Tinha certeza de que havia uma vida fora daquelas paredes, sabia que ainda existiam pessoas procurando por ela. Tinha que ter. Por isso, sempre que fechava os olhos, se forçava a se lembrar dos rostos das pessoas que tinha conhecido do lado de fora daquelas paredes. Só que a cada instante que passava lá dentro, a cada vez que aquela maldita pergunta era repetida, os rostos se anuviavam mais e mais, como se fossem uma pintura antiga e manchada.
Qual era o propósito dela? Por que estava ali?
Às vezes, ela chegava a se lembrar de alguém. Um par de olhos azuis elétricos e sorriso afável, com lindas covinhas nas bochechas. Não enxergava mais que isso, mas sabia que aquela pessoa estava em algum lugar.
E, em seus devaneios mais doces, ele chamava por ela, um apelido carinhoso sussurrado ecoando em sua mente.
Então, enquanto era rasgada e drogada, Serena se apegava àquele retalho de memória. Se apegava ao sorriso e a vaga lembrança de um aroma de cedro e loção pós-barba, com a certeza de um dia, sairia daquele lugar e o veria outra vez.
Um dia, pensou enquanto encarava o teto branco, sairia daquele lugar. E, quem sabe, descobriria seu propósito.
✧❄✧
Bucky Barnes estava um caco.
Caçava por ela havia dias. Semanas. Havia revirado a cidade. Tinha checado cada beco e viela imunda de Nova Iorque atrás de Serena, mas não encontrara nada. Nenhum sinal. Nenhuma maldita pista. Nada.
Estava tão transtornado que mal conseguia lembrar o próprio nome; só o fazia quando ouvia a voz abafada de Sam Wilson chamando-o enquanto checava a cidade de novo. E de novo. E de novo.
Ele não comia ou dormia direito. Nada parecia ter gosto e fechar os olhos tinha se tornado outro tipo de inferno em sua vida. Sempre que o fazia, era o rosto dela que enxergava. Sorrindo para ele, chamando seu nome e lembrando-o do quão inútil havia sido.
Inspirou fundo. Mesmo depois de todo aquele tempo desaparecida, a sala ainda exalava o perfume de Serena. Ao redor, tudo que via era ela e ela. Nas fotos. Na decoração. Na pelúcia que ficava atrás do sofá e, principalmente, no gato preto repousado por cima dela. James, que encarava Bucky com aqueles olhos felinos afiados.
Assim como Bucky, James não esboçava reação alguma com o mundo ao seu redor. Estava magro e abatido; passava dia e noite em cima da pelúcia de Grogu enquanto encarava a janela, como se estivesse esperando pelo retorno de Serena.
— Sinto falta dela também, parceiro — admitiu.
O gato miou. Um fiado fraco e sofrido, como se concordasse com ele.
Bucky então enfiou a mão no bolso da jaqueta e tirou um saquinho comprido que encontrara na dispensa. Um petisco para gatos, Serena dissera certa vez, saudável e nutritivo. Alpine adorava aquilo, sabe lá por quê.
Mas nem mesmo o churu foi capaz de chamar a atenção de James, que continuou estacado no lugar, encarando Bucky.
— Você precisa se alimentar — completou. — Se ela o visse assim, o que pensaria de mim?
O gato miou outra vez.
O sargento chegou mais perto de James; esperou que sibilasse para ele — como geralmente fazia — mas o gato não fez nada, até aceitou que Bucky o tocasse. Uma trégua tácita entre os dois. Ou talvez o gato apenas estivesse exausto demais para resistir. Fosse como fosse, aos poucos, James se acostumava com a presença de Bucky no apartamento e, quem diria, a de Alpine também — no momento, sentada no balcão da cozinha, observando a cena.
— Vou resolver essa bagunça — jurou. — Mas você precisa comer — e ofereceu o petisco a James outra vez.
Aos poucos, o gato aceitou a oferta e lambeu o churu.
Momentos depois, quando James se deu por satisfeito, Bucky sentou-se no sofá de Serena e encarou o teto.
O peito doía tanto que parecia estar prestes a explodir.
Não se lembrava da última vez que fora consumido por tamanha dor e fúria e sede... sede por sangue. Quando encontrasse, quando descobrisse quem tinha feito aquilo com Serena... faria com que essa pessoa desejasse a morte. Um desejo que realizaria com todo o prazer do mundo.
Mas, enquanto isso não acontecia, prometeu a si mesmo e a James que a encontraria. Mesmo que tivesse de virar a cidade de ponta cabeça; mesmo se fosse preciso queimar Nova Iorque inteira no processo...
Ele. A. Encontraria.
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